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Entregue: Sua Nova Esposa

Entregue: Sua Nova Esposa

Autor:: Star Dust
Gênero: Romance
Na minha vida passada, eu morri sozinha numa cama de hospital estéril, enquanto meu noivo, Daniel, consolava sua "irmã de criação", Sofia, durante um falso ataque de pânico. Ele perdeu o nascimento e a morte do nosso filho porque Sofia era "delicada demais" para ficar sozinha. Até no meu último suspiro, ele estava secando as lágrimas de crocodilo dela, ignorando minhas ligações desesperadas. Eu sacrifiquei meus sonhos, meu dinheiro e minha vida por ele, apenas para ser uma nota de rodapé esquecida. Mas quando abri os olhos, eu estava de volta ao balcão do cartório, com a certidão de casamento esperando. Daniel batia o pé, impaciente, checando o celular. "Anda logo, Laura. A Sofia ligou. Ela está tendo uma crise. Precisa de mim." A antiga Laura teria tremido e obedecido, desesperada por sua aprovação. Mas eu apenas sorri, uma expressão fria e calculada que ele não reconheceu. "Vá até ela", eu disse, empurrando-o em direção à porta. "Eu cuido da papelada. A família vem em primeiro lugar, certo?" Ele saiu correndo sem nem olhar para trás, aliviado por ser o herói mais uma vez. Sozinha com o documento oficial, eu não escrevi meu próprio nome na linha da noiva. Com a mão firme e um coração cheio de vingança, eu escrevi Sofia Rosales. Parabéns, Daniel. Você está legalmente casado com o fardo que tanto ama. E eu, finalmente, estou livre.

Capítulo 1

Na minha vida passada, eu morri sozinha numa cama de hospital estéril, enquanto meu noivo, Daniel, consolava sua "irmã de criação", Sofia, durante um falso ataque de pânico.

Ele perdeu o nascimento e a morte do nosso filho porque Sofia era "delicada demais" para ficar sozinha.

Até no meu último suspiro, ele estava secando as lágrimas de crocodilo dela, ignorando minhas ligações desesperadas.

Eu sacrifiquei meus sonhos, meu dinheiro e minha vida por ele, apenas para ser uma nota de rodapé esquecida.

Mas quando abri os olhos, eu estava de volta ao balcão do cartório, com a certidão de casamento esperando.

Daniel batia o pé, impaciente, checando o celular.

"Anda logo, Laura. A Sofia ligou. Ela está tendo uma crise. Precisa de mim."

A antiga Laura teria tremido e obedecido, desesperada por sua aprovação.

Mas eu apenas sorri, uma expressão fria e calculada que ele não reconheceu.

"Vá até ela", eu disse, empurrando-o em direção à porta. "Eu cuido da papelada. A família vem em primeiro lugar, certo?"

Ele saiu correndo sem nem olhar para trás, aliviado por ser o herói mais uma vez.

Sozinha com o documento oficial, eu não escrevi meu próprio nome na linha da noiva.

Com a mão firme e um coração cheio de vingança, eu escrevi Sofia Rosales.

Parabéns, Daniel. Você está legalmente casado com o fardo que tanto ama.

E eu, finalmente, estou livre.

Capítulo 1

LAURA POV

A caneta pesava na minha mão. Mais pesada que qualquer fardo que eu já carreguei na vida passada. E olha que não foram poucos. Naquela vida, eu morri sozinha, esquecida, depois de anos sacrificando tudo pelo homem que agora batia o pé, impaciente, ao meu lado. Daniel Chagas, meu suposto noivo, olhou para mim, depois para o formulário de casamento semi-preenchido sobre o balcão frio do cartório. Sua impaciência era uma dor familiar, profunda na minha barriga.

"Laura, por que está demorando tanto?" Sua voz era um rosnado baixo, carregado com a mesma tensão que se tornara seu estado padrão sempre que Sofia estava envolvida. "Já estamos atrasados. A Sofia ligou de novo, ela está tendo uma daquelas... crises dela."

Meu olhar se demorou no espaço em branco rotulado 'Contratante 1: Nome Completo'. Em outra vida, exatamente cinco anos atrás, minha mão teria tremido de alegria, não com essa determinação fria e calculada. Aquela Laura teria gravado seu nome com reverência, vendo-o como o portal para um futuro compartilhado, um futuro que prometia calor e pertencimento. Aquela Laura teria ignorado os sinais de alerta e as dúvidas incômodas, apegando-se à ilusão do amor.

Mas aquela Laura estava morta. Ela morreu em uma cama de hospital estéril, com os bipes fracos de um monitor como sua única companhia, enquanto Daniel, seu marido, consolava sua irmã de criação divorciada, Sofia, durante um ataque de ansiedade inventado. A memória era uma ferida fresca e aberta, mesmo agora. A negligência fria espelhava o aço frio da maca, o arrepio se infiltrando em seus ossos muito antes de seu coração finalmente parar. Meus dedos, agora traçando a linha vazia, sentiam o frio fantasma daquela morte solitária.

"Laura?" A voz de Daniel cortou a memória, mais ríspida desta vez. Ele não notou o olhar distante em meus olhos, o fantasma de uma vida não vivida. Ele nunca notava nada que não estivesse diretamente relacionado ao seu próprio conforto ou à crise fabricada de Sofia. "Você está bem? Parece um pouco... pálida."

Sua preocupação era uma poça rasa, facilmente esvaziada. Não era por mim, não de verdade. Era pelo inconveniente que minha palidez representava para sua agenda, para sua necessidade de correr para o lado de Sofia. Eu lhe dei um murmúrio evasivo, uma sílaba desprovida de emoção. Meus dedos ainda pairavam sobre o formulário, a caneta ainda em posição.

Ele suspirou, uma lufada de ar dramática que bagunçou o cabelo ralo em sua testa. "Olha, eu sei que este é um grande passo, mas falamos sobre isso por anos. Você sabe o quão importante isso é para a mamãe e o papai, e para... bem, para a Sofia." Ele olhou para o celular, que acabara de vibrar com outra mensagem. Sua testa se franziu, seu rosto bonito marcado por uma tensão familiar. "Ela está realmente mal hoje. Talvez seja o estresse de nós nos casarmos. Ela se sente substituída, sabe? Ela sempre precisa de mim, Laura."

Suas palavras, destinadas a explicar, foram outro prego no caixão das esperanças da minha vida passada. Sofia, frágil e carente, uma flor delicada que exigia rega constante do poço de atenção de Daniel. Eu a vi em minha mente, seus olhos grandes e inocentes, seus lábios carnudos, sua mão perpetuamente agarrada ao braço dele. Uma "flor de lótus branca", como a internet chamava as mulheres manipuladoras que fingiam pureza. Daniel, o herói, sempre caindo pela donzela em perigo fabricado.

Um sorriso amargo, quase imperceptível, tocou meus lábios. Uma ideia, fria e brilhante, se solidificou em minha mente.

"Sabe", eu disse, minha voz surpreendentemente calma, "talvez você devesse ir ver como ela está."

A cabeça de Daniel se ergueu de repente. Seus olhos, geralmente tão rápidos em criticar minha falta de compreensão, agora continham um brilho de surpresa, depois alívio. Era como se eu tivesse acabado de lhe entregar um cartão de "Saída Livre da Prisão".

"Você acha mesmo?" Ele perguntou, um tom esperançoso em sua voz. "Mas a licença..."

"Pode esperar", eu disse, dando de ombros. A mentira tinha gosto de cinzas, mas era um ingrediente necessário na minha nova receita para a liberdade. "A Sofia precisa de você. Isso é importante também, mas a família vem em primeiro lugar, certo? Especialmente quando alguém está em apuros." Eu o observei, medindo sua reação. Ele estava praticamente vibrando com o desejo de ir embora.

"Você está certa! Você sempre entende, Laura." Ele estendeu a mão sobre o balcão, cobrindo brevemente a minha. O toque era uma concha vazia, desprovida do calor que eu um dia desejei. "Eu vou só acalmá-la. Prometo, volto em uma hora, duas no máximo. A gente termina isso, e então podemos comemorar direito hoje à noite. Só você e eu."

Suas palavras eram uma performance, um roteiro bem ensaiado que ele usara inúmeras vezes. Só você e eu. Sempre terminava com Sofia precisando mais dele.

"Não se preocupe com hoje à noite, Daniel", eu disse, minha voz mais suave do que eu pretendia. Uma estranha onda de pena, rapidamente suprimida, me invadiu. Pena do homem que caminharia de cabeça para a própria miséria. "Apenas certifique-se de que a Sofia está realmente bem. É isso que importa."

Ele assentiu, já meio virado para a saída. "Você é a melhor, Laura. Sério. Tão compreensiva." Ele fez uma pausa e acrescentou: "É por isso que eu te amo."

As palavras pairaram no ar, um eco familiar de uma melodia esquecida. Eu não disse nada. O que havia para dizer? Discutir com um fantasma? Lutar por um amor que nunca foi verdadeiramente meu? Eu fiz isso em outra vida, e isso me matou.

Então ele se foi, um turbilhão de passos apressados e o som distante de seu carro dando partida. A porta do cartório se fechou, deixando-me sozinha, a caneta ainda na mão. Respirei fundo, o ar viciado enchendo meus pulmões, e então soltei lentamente o peso sufocante que se instalara ali por anos. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida frenética de libertação.

A imagem daquele quarto de hospital brilhou, nítida e clara. As paredes brancas e estéreis. A conversa distante das enfermeiras. A dor constante e surda de um corpo desistindo. E a voz de Daniel ao telefone, baixa e preocupada, mas não por mim. "Sofia, meu bem, apenas respire. Estou chegando. A Laura pode cuidar das coisas aqui." Ele desligou sem nem mesmo um adeus, sem um único pensamento para a mulher que estava morrendo por ele.

Ele não estava lá quando o médico deu a notícia sobre as complicações da gravidez. Ele não estava lá quando nosso filho, uma vida minúscula e lutadora, não conseguiu sobreviver. Ele não estava lá para segurar minha mão quando a dor, física e emocional, ameaçou me despedaçar. Ele estava sempre com Sofia, consolando-a em sua última crise fabricada, enxugando suas lágrimas de crocodilo.

Lembrei-me do dia em que nosso filho, nosso primogênito, perguntou a ele: "Papai, por que a tia Sofia fica com todo o seu tempo? Por que não a mamãe?" Daniel apenas bagunçou o cabelo do menino, um gesto displicente. "Sua tia Sofia é delicada, filho. Ela precisa mais de mim." E então ele olhou para mim, uma acusação silenciosa em seus olhos, como se eu fosse a única a exigir demais. Eu apenas engoli o nó na garganta, o gosto amargo de saber que meu próprio filho via o quão pouco eu importava.

Não. De novo não. Esta vida, esta segunda chance, não era para isso.

Meu olhar voltou para a certidão de casamento. Com a mão firme, uma mão que não tremia mais de tristeza ou saudade, risquei meu próprio nome na seção 'Contratante 1'. Então, com um floreio desafiador, escrevi um diferente.

Sofia Rosales.

Empurrei o formulário pelo balcão para a funcionária que esperava, um sorriso discreto, quase imperceptível, brincando em meus lábios.

"Aqui está", eu disse. Minha voz estava calma, totalmente desprovida da tempestade que acabara de passar dentro de mim.

A funcionária, uma mulher entediada com olhos cansados, mal olhou para o papel. Ela o pegou, carimbou e me entregou um recibo. "Parabéns."

"Obrigada", respondi, a palavra com gosto de liberdade.

Saí do cartório, o ar fresco da manhã batendo no meu rosto como um tapa revigorante. O peso que se instalara em meu peito por anos, um fardo esmagador de queixas não ditas e esperanças não realizadas, havia se dissipado. Tinha sumido. Substituído por uma leveza que eu não sabia que existia. O mundo parecia mais brilhante, as cores mais nítidas, os sons mais claros. Era como se eu estivesse vivendo sob um filtro cinza perpétuo, e agora, de repente, a saturação tivesse sido aumentada ao máximo.

Sofia Rosales. O nome ainda parecia estranho, mesmo depois de todos esses anos. Ela entrou na minha vida quando eu tinha dez anos, um ano depois que meus pais morreram e fui adotada pelos Chagas. Ela era um ano mais nova, uma menina frágil com olhos enormes e cheios de lágrimas, agarrada a Sônia Chagas, a mãe de Daniel. Sônia, que dizia amar nós duas, mas cujo olhar sempre se suavizava para Sofia, cuja voz sempre assumia um tom açucarado quando falava com ela. Sofia sabia como interpretar o papel da vítima indefesa, da órfã grata, e Sônia engolia tudo. Eu, por outro lado, era a capaz, a que cozinhava, limpava, dava aulas particulares para Daniel e, mais tarde, fazia bicos para contribuir com a casa. Minha competência era minha maldição.

Lembrei-me do dia em que recebi minha carta de aceitação para a melhor faculdade de direito de São Paulo. Era um sonho, um farol de esperança em minha vida monótona. Mostrei a Daniel, a empolgação borbulhando em meu peito. Ele olhou para a carta, depois para mim, uma expressão indecifrável em seu rosto. Mais tarde naquela noite, Sofia teve um 'ataque de asma' particularmente violento, seu corpo pequeno sacudido por tosses teatrais, seu rosto pálido como um fantasma. Sônia e Daniel correram para o lado dela, seus rostos gravados de medo. Sofia, entre suspiros, sussurrou: "Não nos deixe, Laura. Precisamos de você. Quem vai cuidar do Daniel quando você for embora?"

Na manhã seguinte, Daniel me sentou, sua mão repousando em meu braço, seus olhos sérios. "Laura, eu sei que isso é difícil, mas... a Sofia realmente precisa de nós. E mamãe e papai, eles estão envelhecendo. Meu treinamento na academia de polícia é tão exigente. Você não pode... não pode adiar a faculdade de direito por um ano ou dois? Só até estarmos mais estáveis?" Suas palavras, revestidas de preocupação, pareciam um cobertor sufocante. Eu o amava então, tola e cegamente. Acreditei que o futuro dele era o meu futuro. Dobrei a carta de aceitação, coloquei-a de volta no envelope e nunca mais a olhei. Sofia se recuperou milagrosamente no dia seguinte. Seu sorriso, quando ela pensava que eu não estava olhando, era triunfante.

Bem, não desta vez. Sofia podia ficar com Daniel. Ela podia ter a vida que eu um dia pensei que queria. Eu ia para São Paulo. Eu ia para a faculdade de direito. E eu ia construir uma vida, minha própria vida, que fosse livre.

Capítulo 2

LAURA POV

A ideia de São Paulo pulsava em mim como sangue novo, vibrante e emocionante. O passado era um manto pesado que eu usei por tempo demais, mas agora, finalmente, eu estava me despindo dele. Eu tinha duas semanas. Duas semanas para embalar meus poucos pertences, para juntar a pequena quantia de dinheiro que eu havia economizado meticulosamente, centavo por centavo, de anos trabalhando em empregos braçais e dando aulas particulares para Daniel passar nos exames da polícia. Dinheiro que Daniel, no mês passado, sugeriu que "emprestássemos" para Sofia comprar um carro novo, porque o antigo dela estava "dando ansiedade". Eu recusei na época, uma rebelião silenciosa fervendo sob minha superfície complacente. Agora, aquele dinheiro era meu bilhete para a liberdade.

Voltei para o calor familiar e sufocante da casa dos Chagas. O cheiro do assado de Sônia, geralmente reconfortante, agora parecia enjoativo, como uma armadilha. Ao entrar na sala de estar, uma voz aguda e doce veio da cozinha. Sofia. Ela estava sempre em casa, sempre encontrando novas maneiras de evitar trabalho de verdade.

"Ah, Daniel, você voltou!" A voz de Sofia, melosa e deliberadamente infantil, chegou até mim. "Você disse para a Laura o quanto eu senti sua falta? Pensei que ela nunca mais ia te soltar!"

Uma risada baixa de Daniel. "Você conhece a Laura, sempre tão séria. Mas ela entendeu. Ela sempre entende." Sua voz, grossa com uma satisfação presunçosa, fez meu estômago revirar. "Disse que eu deveria me certificar de que você está bem."

"Ah, a Laura é tão doce!" Sofia ronronou. "Mas eu estava tão preocupada com você, com o futuro de vocês... E se eu for sempre assim? E se eu sempre precisar de você, Daniel? Será que a Laura vai entender de verdade?" Sua voz era uma obra-prima de vulnerabilidade fingida, uma ilusão cuidadosamente construída de dúvida.

"Claro que ela vai, meu bem", Daniel acalmou. Sua voz vibrava com um orgulho possessivo. "E mesmo que ela não entenda, eu entendo. Você é minha irmã. Eu sempre vou cuidar de você. Sempre." As palavras, destinadas a Sofia, eram uma faca se retorcendo na velha ferida da minha vida passada. Sempre. Ele também me disse isso uma vez. Promessas vazias, sussurradas sob o disfarce da responsabilidade.

Uma dor aguda atravessou meu peito. A antiga Laura teria desmoronado, lágrimas ardendo em seus olhos. Mas esta Laura, a Laura renascida, apenas sentiu um nó frio e duro de determinação se apertando em sua barriga. Respirei fundo mais uma vez, empurrando a dor para baixo, bem fundo, onde não pudesse me tocar.

Então, abri a porta da cozinha. O som da minha entrada fez os dois pularem. Daniel, ainda segurando a mão de Sofia, pareceu assustado, seu rosto corando levemente. A fachada cuidadosamente construída de fragilidade de Sofia se quebrou por uma fração de segundo, um flash de irritação em seus olhos antes de ser substituído por uma inocência de olhos arregalados.

"Laura! Você voltou!" Daniel disse, afastando a mão da de Sofia como se estivesse queimado. O movimento súbito fez Sofia fazer beicinho. "Tudo bem no cartório?"

"Tudo bem", respondi, minha voz plana, desprovida de qualquer calor. Não olhei para nenhum deles diretamente. Meu olhar varreu a cozinha, notando a pilha de louça suja do café da manhã, as migalhas no balcão – a contribuição usual de Sofia para o caos doméstico. "Só um pouco de papelada."

"Ah, claro, a certidão!" Sofia chilreou, um pouco animada demais. "Eu disse ao Daniel que vocês dois deveriam comemorar hoje à noite! Talvez um jantar chique, só vocês dois!" Seus olhos correram para Daniel, um desafio silencioso.

Daniel pigarreou. "É, Laura, que tal? Hoje à noite? Para comemorar?" Ele olhou para mim, um brilho de incerteza em seus olhos. Ele não estava acostumado a me ver tão... indecifrável.

"Não posso hoje à noite", eu disse, sem hesitar. As palavras tinham gosto de liberdade. "Tenho muito o que fazer. E estou bem cansada."

O queixo de Daniel caiu. Ele literalmente piscou para mim. "Cansada? Mas... este é o nosso noivado! O dia da nossa certidão de casamento!" Sua voz continha uma nota de choque genuíno. Ele esperava que eu pulasse de alegria, que ficasse grata por suas migalhas de atenção.

Nesse momento, Sofia, sempre oportunista, interveio, sua voz tremendo levemente. "Oh, meu Deus, Laura, o que aconteceu com sua pulseira? Aquela que o Daniel te deu no seu aniversário no ano passado? A de prata com a pequena safira? Era tão linda." Ela ergueu o pulso. Em volta dele, brilhando na luz da cozinha, estava minha pulseira. A que Daniel me deu, a única joia que ele já me comprou. A que eu amei e guardei, usei todos os dias como um símbolo de seu suposto afeto.

Meu sangue gelou. A frieza era familiar, um fantasma da minha vida passada, onde Sofia sempre pegava o que era meu. Mas desta vez, não havia dor, apenas uma observação desapegada.

"Ah, essa coisinha velha?" Sofia riu, um som enjoativamente doce. "Eu a vi na sua cômoda, Laura, e achei tão bonita! Espero que não se importe. Não achei que você a usaria hoje, já que está tão ocupada." Ela puxou a manga de Daniel, seus olhos grandes e inocentes. "Não é linda, Daniel?"

Daniel, sempre o protetor, interveio imediatamente. "Sofia, devolva isso para a Laura. É dela." Mas seu tom era suave, não realmente repreensivo.

Eu balancei a cabeça. "Tudo bem", eu disse, as palavras mal um sussurro. Olhei para Sofia, seu sorriso presunçoso escondido sob um rubor exagerado. "Pode ficar, Sofia. Nunca combinou comigo de qualquer maneira."

A pulseira. Aquela pulseira esteve comigo em tantos momentos. Na minha vida passada, quando ele me deu, senti uma explosão de esperança, uma crença frágil de que talvez, apenas talvez, ele me visse, me amasse. Eu a usei durante minha gravidez solitária, durante o trabalho de parto agonizante, durante os momentos silenciosos de luto. Tinha sido um símbolo de uma promessa que ele nunca cumpriu. Agora, era apenas um pedaço de metal. Um fardo.

Tanto Daniel quanto Sofia me encararam, suas bocas ligeiramente abertas. Eles esperavam uma briga, lágrimas, uma cena dramática. Eles esperavam a antiga Laura.

Mas a antiga Laura se foi.

"Vou para o meu quarto", eu disse, minha voz plana. "Preciso estudar." Virei-me e saí, sem esperar por uma resposta. Ouvi o murmúrio fraco de suas vozes confusas atrás de mim, mas não me importei.

Fechei a porta do meu pequeno quarto, o que eu dividi com Sofia por anos antes que ela exigisse o seu próprio. Eu a tranquei. O clique da fechadura foi um baque satisfatório, uma barreira sólida entre meu passado e meu futuro.

Peguei os formulários de inscrição da faculdade de direito, meus olhos percorrendo os requisitos. Minha carta de aceitação de cinco anos atrás, amarelada nas bordas, estava embaixo deles. Desta vez, não haveria adiamento. Sem desculpas. Eu perdi cinco anos, uma vida inteira, para uma família que nunca me viu de verdade.

"Faculdade de direito, São Paulo, bolsa integral", murmurei, lendo a escrita desbotada. Eu tinha que me inscrever novamente, é claro. Mas o sonho ainda estava lá, vibrante e vivo. Eu tinha que trabalhar o dobro, recuperar o tempo perdido. O prazo de inscrição estava se aproximando, apenas um mês de distância. Eu tinha que gabaritar o vestibular. Tinha que escrever redações convincentes. Tinha que provar a mim mesma, e ao mundo, que eu era mais do que a sombra esquecida de Daniel.

Uma batida frenética na minha porta me assustou. Daniel.

"Laura? Você está realmente bem? O que está acontecendo?" Sua voz estava abafada, carregada com uma nota familiar de preocupação paternalista. Ele provavelmente pensou que eu estava tendo um colapso, um momento de nervosismo pré-casamento. Ele não tinha ideia.

Capítulo 3

LAURA POV

A preocupação de Daniel era uma fina camada de verniz, facilmente arranhada. Ele não estava realmente preocupado com meu estado emocional. Ele estava preocupado com a perturbação em sua vida perfeitamente ordenada, aquela em que eu era sempre estável, sempre solidária, sempre presente. Ouvi-o mudar de peso do lado de fora da minha porta, uma energia nervosa irradiando até mesmo através da madeira.

"Laura? Você não está respondendo. Estou começando a me preocupar." Sua voz era uma mistura praticada de cuidado e leve aborrecimento.

Eu revirei os olhos. Preocupação. Ele não sabia o significado da palavra. Eu a conhecia intimamente. Vivi com ela por anos, preocupando-me com sua carreira, a saúde de seus pais, as exigências intermináveis de Sofia.

"Estou bem, Daniel", gritei, minha voz plana, desprovida da suave segurança que ele sempre esperava de mim. "Só estou estudando."

"Estudando?" Ele pareceu genuinamente surpreso. "Para quê? Você terminou a faculdade anos atrás."

Eu hesitei. Não adiantava contar a ele meus planos reais ainda. Só causaria uma cena, um drama que eu não podia me permitir agora. "Apenas alguns cursos online", menti, vagamente. "Mantendo a mente afiada."

"Certo. Bem, eu só queria ter certeza de que você está bem. E, uh, sobre o dinheiro." Ele pigarreou. "Os dois mil e quinhentos que você me deu para o depósito daquele apartamento?"

Meus ouvidos se aguçaram. O apartamento. O pequeno e sujo apartamento para o qual deveríamos nos mudar depois do casamento. Eu paguei o depósito, minhas economias suadas, porque Daniel alegou que seu salário de policial mal cobria suas próprias despesas, muito menos uma reserva. Ele disse que me pagaria de volta quando seu próximo bônus chegasse. Ele nunca pagou.

"Sim?" incentivei, minha voz fria como gelo.

Ele gaguejou. "Bem, a Sofia teve outra daquelas... emergências dela. A fatura do cartão de crédito dela era enorme, e a Sônia ficou muito chateada. A Sofia estava chorando, dizendo que não tinha dinheiro para comida. Então, eu... eu meio que usei um pouco daquele dinheiro do depósito para ajudá-la." Ele apressou as palavras, como se acelerá-las as tornasse menos ofensivas. "Mas eu prometo, vou te pagar de volta. Assim que meu próximo salário chegar. Talvez dois salários."

Fechei os olhos, uma onda de cansaço me invadindo. Este era Daniel. Sempre o salvador. Sempre sacrificando minhas necessidades, meu dinheiro, pelas crises fabricadas de Sofia. Isso não era algo de uma vez só. Era um padrão, um sulco profundo cavado por anos de permissividade. Na minha vida passada, ele fez o mesmo com nosso fundo de lua de mel, nossa entrada para uma casa, até mesmo dinheiro para a escola do nosso filho. Sempre, as necessidades de Sofia eram mais urgentes, mais merecedoras.

"Quanto?" perguntei, minha voz perigosamente suave.

"Uh, dois mil", ele murmurou. "Mas Laura, ela realmente precisava! Você sabe como ela é frágil."

Dois mil reais. Meu coração não se apertou de dor, não mais. Apenas ficou frio, como uma pedra. Era dinheiro que eu precisava desesperadamente para São Paulo. Mas eu tinha um plano.

"Saia, Daniel", eu disse, minha voz firme. "Estou ocupada. E quero esse dinheiro de volta. Todo ele. Antes do final da semana."

"Antes do final da semana?" Ele pareceu incrédulo. "Laura, isso é impossível! Você sabe quanto um policial ganha? E pela Sofia, você sabe que eu não posso simplesmente... Não é como se você precisasse disso agora de qualquer maneira. Você é sempre tão econômica. Por que está sendo tão egoísta?" Sua voz assumiu um tom agudo e magoado.

Egoísta. A palavra ecoou em minha mente, uma piada cruel. Eu ri, um som baixo e sem humor. "Econômica? Ou auto-sacrificada, Daniel? Há uma diferença. E não se atreva a me chamar de egoísta. Você não tem ideia do que essa palavra realmente significa."

"Bem, você simplesmente não entende como é difícil para mim!" ele suplicou, sua voz se elevando. "Estou tentando cuidar de todo mundo! E você só está tornando tudo mais difícil."

"Saia", repeti, minha voz desprovida de emoção. "E me traga meu dinheiro."

Ouvi-o bufar, um som frustrado, e então seus passos se afastaram. A porta da frente bateu alguns minutos depois. Ótimo.

Passei os dias seguintes em um turbilhão de atividades. Vendi silenciosamente quase tudo que eu possuía que não tinha valor sentimental – meus livros antigos, algumas roupas que raramente usava, bugigangas e presentes que Daniel me deu ao longo dos anos. Cada item vendido era um pequeno passo em direção à minha liberdade. O anel de noivado que ele me deu, um diamante modesto que ele escolheu com a 'ajuda' de Sônia, foi o primeiro. Consegui um bom preço. Não senti nada além de alívio ao entregá-lo. Nunca foi um símbolo de amor, mas uma amarra a uma vida que eu não queria mais.

Na quinta-feira à noite, Daniel bateu na minha porta. Ele parecia cansado, seu rosto bonito marcado pelo estresse. Ele estendeu um envelope.

"Aqui", disse ele, sua voz seca. "Dois mil. Tive que pegar emprestado de um colega de patrulha. Feliz agora?"

Peguei o envelope, sem me dar ao trabalho de contar o dinheiro. "Satisfeita", corrigi-o. "Não feliz."

Seus olhos se estreitaram quando ele notou o armário quase vazio, as malas arrumadas discretamente guardadas. "O que você está fazendo?"

Nesse momento, a voz de Sônia veio da sala de estar. "Daniel, querido, a Sofia está no telefone! Ela está preocupada com o vestido dela para o casamento!"

A cabeça de Daniel se virou para o som. Suas prioridades, como sempre, estavam claras.

"Laura, o que você está fazendo?" ele perguntou novamente, um brilho de preocupação genuína em seus olhos, rapidamente ofuscado por sua distração usual. "Você está fazendo as malas para a lua de mel? Eu te disse que não podemos pagar aquela ilha exótica que a Sofia falou agora."

Eu lhe dei um sorriso pequeno e apertado. "Sem lua de mel, Daniel. Não para mim. Não com você."

Seu rosto empalideceu. "O que... o que você está falando?"

A voz de Sônia, mais aguda desta vez, chamou: "Daniel! Ela precisa de você!"

Ele parecia dividido, seus olhos dardejando entre mim e a sala de estar. A luta durou apenas um segundo. Sofia sempre vencia.

"Preciso ir", disse ele, já se afastando. "Conversamos mais tarde. Você só está estressada. Talvez precise de uma pausa."

Ele ainda pensava que eu era a antiga Laura, aquela que explicaria, imploraria, lutaria por sua atenção. Ele não conseguia compreender a realidade fria e dura do meu desapego. Eu não queria explicar. Eu não queria lutar. Eu queria sair.

"Não se preocupe comigo, Daniel", eu disse, uma sensação estranha e vazia no peito. "Estou bem. Vá se certificar de que o vestido da Sofia está perfeito. É isso que realmente importa, não é?"

Ele assentiu, uma expressão aliviada se espalhando por seu rosto. "Sim! Exatamente! Você entende, Laura. Você sempre entende." Ele se virou, seus passos apressados ecoando pelo corredor.

Suas palavras, sua fácil dispensa, apenas solidificaram minha resolução. Ele ainda não me via. Ele nunca veria.

De repente, Sofia apareceu no final do corredor, seus olhos avermelhados, um delicado vestido de renda sobre o braço. "Daniel, eles disseram que a costureira não pode consertá-lo a tempo, a menos que paguemos extra! E é tão caro!" Ela começou a chorar de novo, seu rosto se desfazendo em uma imagem de angústia perfeita.

Daniel estava ao seu lado em um instante, seu braço ao redor dela, murmurando palavras de consolo. Ele nem sequer olhou para trás para mim.

Eu os observei, uma estranha calma se instalando sobre mim. O palco estava montado. Os jogadores estavam em posição. Fechei a porta do meu quarto, mas não a tranquei desta vez. O jogo havia mudado. Meu futuro estava esperando.

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