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Envolva-me

Envolva-me

Autor:: Wilma G Silva
Gênero: Romance
Prisioneiros dos próprios conflitos, Eduardo e Mellanie fogem do amor Atraindo Mellanie para os braços, Eduardo lhe pediu para ficar. Apenas uma noite, uma noite em que esqueceria suas amarguras para viver uma ilusão... Mellanie deixou-se envolver pelos braços fortes e beijou-lhe o peito, o ventre... Provocando... Fazendo com que ele lhe cobrisse o corpo com o seu... Amando-a... Possuindo-a... Ardentemente, Os dois mergulhados no prazer. Cúmplices num ato de amor teriam que despertar e voltar para seus mundos. Eduardo, à margem de uma sociedade que o desprezava por seu passado na prisão. Mellanie encontrando nos aplausos a própria razão de viver.

Capítulo 1 Prólogo

Assim que Eduardo Brockman apareceu na escadaria do Palácio da Justiça, a pequena multidão de repórteres e fotógrafos se agitou, todos correndo a seu encontro, à caça de uma entrevista. Aquele caso havia abalado a opinião pública e ninguém queria perder a chance de ouvir em primeira mão as palavras do médico, após sua libertação.

- Quais são os seus planos agora, Brockman? Comemorar? No que pretende investir o dinheiro? - o repórter perguntou, quase encostando o microfone na boca de Eduardo.

Pálido, ele apenas olhou para o rapaz e suspirou. Estava cansado, cansado de tudo. Seu advogado veio em seu socorro.

- Deixe-o em paz. Todos vocês. Mostrem que têm algum sentimento, pelo amor de Deus! Ele não teve tempo para fazer planos; o processo se estendeu por meses e, agora que está tudo resolvido, ele precisa de um tempo para si mesmo. - Inclinou-se sobre o ombro de Edu e cochichou: - Vou ver se o carro está pronto. Já devia ter chegado há esta hora.

Em seguida, desceu a passos rápidos as escadas, deixando Eduardo desorientado em meio ao tumulto que se formava.

- É verdade que você vai visitar a sua ex-esposa? - perguntou outro repórter.

- Não - Edu replicou. Sua expressão era tensa, os músculos da face contraídos. Tentou dar um passo à frente, mas foi barrado por uma mulher de outro canal de TV.

- O governador ainda não fez uma declaração - ela disse. - Você espera vê-lo pessoalmente?

- Não sei. - Vagou o olhar em volta, meio perdido, e tornou a encará-la quando ela falou:

- Fale-nos sobre esses anos na prisão, senhor Brockman. Os outros prisioneiros alguma vez... Você sabe... Como foi que se protegeu?

A repórter fez um sinal para que a câmera pegasse um close.

- Quando se tem o meu tamanho, as pessoas aprendem a não nos incomodar.

A moça sorriu, parecendo satisfeita com a resposta.

- Em algum momento o senhor perdeu as esperanças de recuperar a sua liberdade?

- E a respeito da criança? - outra voz disparou.

- É verdade que recebeu uma proposta para um filme? - perguntou uma voz do outro lado.

- A Continental News Service soltou um artigo sobre uma proposta para um livro. Pode nos falar a respeito? A moça diante dele puxou-o pela manga do paletó.

- Mas, voltando ao assunto da criança, senhor Brockman, sempre disse que era inocente... E alguns de nós acreditamos. Se a criança estivesse viva hoje, o senhor tentaria obter sua custódia?

- É claro, mas ela não está - Eduardo respondeu, sem demonstrar irritação.

Um homem empurrou a mulher de lado.

- O senhor vai dar algum dinheiro para o Lar das Crianças?

- Essa casa está fechada há anos. Será que você não faz a sua lição de casa? - perguntou, com cinismo.

Indiferente, o homem prosseguiu:

- Sofreu alguma discriminação pelos anos que passou naquela casa de delinqüentes?

- Só uma ou outra criança do Lar poderia ser considerada como delinqüente. A maioria era de pequenos abandonados - ele retrucou. - O mundo está cheio de crianças que ninguém parece querer.

- Foi por isso que se envolveu com a sua ex-mulher e o filho dela? Ficou com pena deles?

- Isso não merece resposta.

- Pretende recuperar a sua licença médica?

A confusão de jornalistas e repórteres parecia aumentar a cada momento.

- O representante do Conselho Regional de Medicina me disse ontem à noite que um requerimento seu seria bem aceito.

- Pretendo pensar no assunto, mas agora... - Edu hesitou e olhou em volta. Seu advogado vinha abrindo passagem no meio da multidão, em sua direção.

Os dois, lado a lado, muito altos e fortes, chegavam a impressionar. Jake Garner logo pôs o braço em torno dos ombros de Eduardo, num gesto de proteção.

- Desculpe-me - murmurou. - Eu não pretendia abandoná-lo nessa confusão. Vou me livrar desse pessoal.

Ergueu a cabeça e olhou com simpatia para a multidão de jornalistas ansiosos por uma história "quente". Com a mão livre fez um sinal e todos se acalmaram, aguardando.

- Eu sou Jake Garner, advogado de Eduardo - disse. - Conheço alguns de vocês e sei que vão tratar bem o meu cliente. Nós estamos tão ansiosos para esclarecer os rumores que andaram circulando nos últimos tempos quanto vocês. Eduardo dará uma coletiva daqui a poucas semanas. Por hora ele precisa de descanso. Tentem compreender. Vocês são todos bons profissionais, e tenho certeza que...

- É verdade que você foi atacado no seu primeiro dia na prisão? - gritou um repórter, ignorando o apelo que acabava de ser feito.

Eduardo correu a vista pela multidão, sua face ficando pálida.

- Não, Edu, não diga nada - o advogado o preveniu. - É isso que eles querem, um pretexto para transformar o seu caso em sensacionalismo.

- Então me tire daqui, pelo amor de Deus.

Policiais dispersaram o pessoal da imprensa e os dois homens seguiram rápido para um sedan cinza que os aguardava. Lá fora um vento frio de inverno atingiu o rosto de Eduardo Brockman, livre após um longo tempo.

Sentado no banco de trás, ele se recostou, fechando os olhos e massageando as têmporas para aliviar a tensão.

- Se o resultado foi tão formidável, por que é que eu me sinto tão mal? - perguntou, com uma voz cansada.

- É o choque. Vai levar tempo para que se adapte Edu - Jake Garner respondeu. - Eu lhe disse isso quando o visitei pela primeira vez, há dois anos.

O advogado deu um tapinha afetuoso no cliente.

- Está tudo acabado. Agora você tem toda uma vida pela frente. Acabou de receber mais de meio milhão de dólares do Estado, por prisão injusta. É uma das maiores indenizações da história do país. E com certeza a maior de Montana.

- É, e imagino que o coletor de impostos vai estar nos esperando na soleira da sua porta.

- Você não precisa se preocupar com impostos - Jake replicou. - Temos uma entrevista com um especialista em driblar os impostos logo na segunda de manhã. E eu dei instruções à minha secretária para que não dissesse a ninguém aonde você vai se alojar. Podemos confiar nela.

Eduardo passou os dedos pelos cabelos, olhando para a estrada que era vencida rapidamente, quilômetro a quilômetro. Que estranha sensação...

- Por que a Corte Suprema concordou com o júri anterior, depois dos apelos?

- Por que esse resultado? - Jake deu de ombros. - Bem, acredito que tudo colaborou para isso: o estado do bebê, as ações da mãe após a sua condenação, e o seu próprio testemunho. Eu também gosto de acreditar que a minha brilhante apresentação no caso ajudou a Justiça a encontrar o seu caminho.

- Alguém por acaso já exaltou sua modéstia?

- Não nos últimos tempos.

Jake Garner exibiu um sorriso confiante.

- Eu logo percebi que tinha um caso ganho nas mãos, Edu. Os fatos eram muito claros, mas a imprensa e o público queriam uma condenação. E você era o melhor alvo.

O advogado limpou a garganta antes de continuar explicando, um velho hábito adquirido nas argumentações nos tribunais.

- O promotor público usou de forma consciente testemunhas que cometeram perjúrio. Ele e o assistente dele ocultaram evidências favoráveis a você, e o seu antigo advogado não foi esperto o bastante para perceber. - Jake bateu as grandes mãos espalmadas sobre as próprias coxas com um suspiro: - Uma pena que seu primeiro defensor tenha falecido alguns anos depois. Eu mesmo gostaria de levá-lo a um tribunal por incompetência.

O carro continuava a avançar macio e rápido pela estrada. Os dois homens no banco de trás se mantiveram quietos um longo tempo; Eduardo, pensativo, olhava distraidamente a paisagem lá fora.

Por fim Jake bateu-lhe no ombro e quebrou o silêncio:

- De qualquer modo, você é um homem livre agora. E eu estou tão curioso quanto aqueles repórteres. O que você vai fazer Edu? Aceitar a oferta de um livro? Recuperar a sua licença médica e voltar a clinicar?

Edu olhou para o homem grisalho que o defendera tão bem.

- Estou muito desatualizado. Eu andei lendo umas revistas médicas enquanto esperava por um segundo julgamento. Então você entrou em cena e eu comecei a acreditar mesmo que poderia ser absolvido. Isso me animou a lê-las com maior seriedade e... Bem, não sei, eu precisaria de tempo e muito esforço para estar em forma outra vez, Jake.

Edu tornou a perder o olhar na paisagem.

- Tudo o que eu desejo agora é um lugar isolado, longe dos curiosos, e não precisar fazer nada. Não quero nem mesmo ter que pensar, ao menos pelas próximas semanas. E obrigado mais uma vez por me ceder à casa do seu pessoal, Jake.

- Pode ficar lá por quanto tempo quiser - o advogado reafirmou. - Só não esqueça a sua promessa de dar uma olhada no gado quando chegar á primavera. O pequeno lucro que meu pai consegue com isso serve para pagar os impostos da propriedade.

- Não precisa se preocupar.

- E quando você pensa em se mudar para lá?

- Assim que acertarmos a questão do imposto e da sua comissão. Então vou comprar um carro novo, uma máquina de escrever e um estoque de mantimentos. E talvez umas roupas novas, também.

- Leve um toca-fitas. A TV precisa de uma antena parabólica, e a recepção do rádio não é das melhores - Jake explicou. - E mantenha-se em contato. O meu pessoal tem uma caixa postal em Polaris.

- Estou pensando em comprar uma caixa postal para mim - Eduardo retrucou. - Mas não agora. Andei recebendo algumas cartas desagradáveis, e quero me manter fora de alcance por algum tempo ainda. Não sei o que vou fazer, mas prometo sempre avisá-lo sobre meu paradeiro. - Sorriu. - Espero que deixe um pouco essa sua atividade lucrativa e venha me visitar.

Jake deu uma boa risada.

- Ingrato! E o que fariam pessoas como você na hora de necessidade se eu não estivesse sempre por perto?

Mal terminara de falar, e Jake já se arrependia de suas palavras.

- Me desculpe Edu, isso foi grosseiro. O rancho é seu até você querer voltar. Só o aconselho a não ficar isolado por muito tempo.

- Obrigado - Eduardo murmurou. - Não posso explicar o quanto isso significa para mim. Quero poder abrir a minha porta u cada dia e respirar o ar das montanhas. E sair para dar uma volta, quando eu quiser, para o lugar que eu quiser. Depois eu pensarei no futuro. - Deu um longo e profundo suspiro. - Por hora, quero apenas descansar.

Capítulo 2 A Grande Premiação

- Calma, Samson - Mellanie Cooper murmurou, dando tapinhas no largo pescoço do belo garanhão árabe. - A prova de vestimenta é a próxima. Depois é a de exibição e a premiação. Então estaremos voltando para casa, doçura. Você esteve fabuloso. - Mellanie falava com o animal enquanto o vestia.

Sob o chapéu caíam em cachos os seus cabelos castanhos claros, que exibiam um suave reflexo dourado quando expostos ao sol. Na prova em que iriam competir o principal quesito era a elegância. Ela mesma havia desenhado a sua roupa e a de Samson, e a esposa do seu patrão se encarregava da costura. Usava apenas ouro e branco, e esperava que os juízes apreciassem, tanto quanto ela, o resultado que admirou no espelho, poucos minutos antes.

Samson soltou ar pelas ventas, inquieto enquanto ela o colocava em posição no paddock do Veteran's Memorial Coliseum in Phoenix, Arizona. Vários cavalos e cavaleiros aguardavam, lado a lado. Mellanie olhou para cima e verificou que seu número de inscrição aparecia no placar.

- Pronta? - perguntou Peter Latrop, seu amigo na competição, posicionado logo atrás.

- Pode apostar!

O garanhão levantou as orelhas em antecipação ao sinal para a entrada na arena.

Mellanie tinha participado de vários tipos de prova durante essa competição, um dos maiores concursos de inverno patrocinado pela International Arabian Horse Association. As disputas vinham acontecendo nos três últimos dias, e ela e Samson tinham se classificado em primeiro e segundo lugares em todas, com exceção de uma. Agora, no quarto e último dia da competição, estava certa de que era, junto com o seu negro cavalo árabe, uma forte candidata ao grande prêmio.

O valor em dinheiro do primeiro lugar não era nada desprezível e essa havia sido a principal razão de ela querer participar. Caso contrário, teria ficado no haras, cuidando das éguas prenhas.

No ano seguinte, pensava consigo mesma, inscreveria Samson em outras categorias. Talvez no Park Horse Class, onde a elegância vibrante do seu garanhão poderia ser mais bem evidenciada. É claro que isso tudo significava meses e meses de treino e dedicação.

Mellanie voltou sua atenção para a voz do locutor. Ao sinal, entrou na grande arena fechada, toda iluminada e rodeada por uma ansiosa platéia. Samson se portou com perfeição, atendendo de modo exato a cada leve movimento das rédeas ou sutil pressão dos joelhos de Mellanie contra o seu flanco.

Após três voltas em torno da arena, o locutor pediu:

- Galope, por favor.

Ela afrouxou as rédeas com discrição e Samson iniciou um galope solto e bonito.

- Trote, por favor.

E o garanhão passou a um meio galope suave e elegante. A cada nova instrução, cavalo e cavaleira se exibiam com rara beleza.

- Reverso, por favor.

Com uma ágil meia-volta, inverteram a direção.

- Marcha, por favor.

- Trote.

A mente esperta de Samson obedecia com rapidez aos sinais discretos de Mellanie. Ela tinha sido sua treinadora desde o seu nascimento e o conhecia como a si mesma. Talvez mais. Por isso era capaz de obter o melhor dele, conseguindo exibições perfeitas como aquela.

- Galope, por favor - pediu novamente o locutor. - Marcha, por favor. Agora se alinhe no centro, de frente para o corpo de jurados - orientou-a.

Logo todos os cavaleiros se alinharam no centro, aguardando o resultado final. Apesar da calma aparente, era óbvio que cada um se esforçava bastante para não deixar transparecer a tensão.

As colocações da disputa do dia foram anunciadas e a platéia aplaudiu entusiasmada quando ela avançou com Samson para receber o troféu e a faixa do primeiro lugar. Abandonaram a arena com uma dignidade aristocrática. Já fora do paddock, ela desmontou e sussurrou um agradecimento para o garanhão.

- Bela apresentação, Mell - a voz de Peter soou atrás dela. Após desmontar, ele foi abraçá-la.

- Obrigada, Peter. E parabéns para você também - disse, apontando para a faixa de terceiro lugar e o cheque que ele tinha na mão.

Ele sorriu.

- Estou satisfeito... Por enquanto.

Ela afagou o cavalo que bufou em resposta, agitado.

- Eu sabia que íamos conseguir. Trabalhamos para isso durante dois anos - ela disse. - Meu pai ficava sempre brincando comigo, dizendo que eu deveria arranjar um emprego de verdade, em vez de me divertir com cavalos. Quero ver só a cara dele se trouxermos a grande taça e o prêmio em dinheiro para casa - Mellanie completou, rindo e dando tapinhas no cavalo.

Meia hora depois, Peter veio avisá-la.

- Agora vão divulgar o nome do vencedor do grande prêmio do circuito, Mell. Deixe-me ajudá-la a montar.

Sem esperar ajuda, ela subiu com agilidade, ignorando a frustração estampada no rosto do amigo. Detestava ter que magoá-lo, mas não queria encorajar seus sentimentos. Peter havia se aproximado dela desde o começo daquela competição e ela tinha aceitado a sua companhia gentil, ignorando as insinuações que lhe fazia para que aprofundassem a relação.

Mellanie não tinha tempo para aventuras amorosas. Sua vida se concentrava exclusivamente no treinamento e na reprodução de puros-sangues. Os meses por vir seriam dedicados às éguas prenhas e aos seus potros, no Leskimeyer Arabian Center ao norte de Hamilton, Montana.

- Vamos, Peter - ela provocou, dirigindo-se para a arena para se juntar aos outros cavaleiros. Deram uma última volta no paddock e mais uma vez se puseram em linha no centro.

Mellanie lutou para não se entregar ao cansaço que ameaçava dominá-la. Aquele era o último de seis shows de que tinha participado naquele circuito. Havia sido uma longa viagem desde a sua casa em Hamilton, no coração do Bitterroot Valley até ali. Seus pais, duas irmãs mais velhas e um irmão gêmeo ainda viviam no rancho de gado da família, do outro lado das montanhas ao norte de Wisdom, uma pequena comunidade em Big Hole Basin. As duas irmãs estavam casadas e seus maridos trabalhavam com o pai de Mellanie, cuidando das quatro mil cabeças de gado do rancho. Aliás, bem que seu pai gostaria que ela escolhesse um dos homens fortes e trabalhadores da comunidade para marido e sossegasse. Mas, aos vinte e seis anos de idade, Mellanie sabia o que queria. E isso com certeza não incluía alguém que lhe desse ordens e um punhado de bebês.

Muitas de suas amigas já estavam casadas e sua prima favorita também tinha se entregado à vida doméstica. Tinha ajudado a tomar conta de muitos afilhados e sobrinhos e trocado fraldas até se cansar.

Não, não queria um bando de crianças dependendo dela e muito menos o trabalho exaustivo de uma fazenda de gado. Se era para se cobrir de suor, seria trabalhando com os melhores cavalos do mundo.

Quando o pai de Mellanie finalmente aceitou que ela tentasse realizar o seu sonho de menina, comprou-lhe o seu primeiro puro-sangue árabe. Mais tarde, quando ela juntou o bastante para pagá-lo, em vez de aceitar o dinheiro de volta, disse-lhe que o usasse para reinvestir.

Mellanie aceitou o conselho e, somando com os ganhos deste concurso, poderia adquirir o seu segundo animal. Seria uma bonita égua para Samson; uma que cruzasse com ele e não degenerasse num filhote Palomino. Palominos, com sua cor clara e manchas brancas, eram ótimos para outras raças, mas não para puros-sangues árabes de exibição, onde a cor contava muito. Ela já havia inclusive colhido informações sobre uma bela égua vermelha de um haras a oeste de Bozeman.

Mellanie cruzou os dedos quando o locutor começou a falar. Os nomes do sexto e quinto colocados foram anunciados. Peter obteve o terceiro lugar. Mellanie prendeu o fôlego.

- A faixa do segundo lugar e o cheque de dez mil dólares vai para... Theresa Sanchez, de Santa Fé, Novo México.

A platéia aplaudiu.

- Bem - ela murmurou para si mesma -, é o grande prêmio ou... Nada. Não pode ser nada.

As mãos dela estavam molhadas de suor. Tentou manter uma aparência de despreocupação.

- O grande prêmio e o cheque de quinze mil dólares vão para... Oh, um minuto, por favor. - O locutor cobriu o microfone e três cabeças se juntaram à dele para cochichar.

- Que coisa! - Mellanie queixou-se.

Peter, alinhado com seu cavalo ao lado dela, sorriu de modo encorajador. Com o rabo do olho ela examinou os outros concorrentes. Tentou ser imparcial; havia um cavaleiro que ela achou que tinha se saído tão bem quanto ela. Seria mesmo capaz de julgar com imparcialidade a atuação dos outros?

- E agora - recomeçou o locutor -, o ganhador do nosso troféu, do cheque da Arabian Horse Breeders Association do Arizona, e um cheque adicional no valor de... Dez mil dólares...

O locutor se interrompeu e o público explodiu em novos aplausos.

- Com os cumprimentos do nosso filho nativo, o ator de renome internacional, *Jhonas Deadpark*, proprietário do Jonsey Arabian Center, que se tornou um dos maiores criadores de puro-sangue árabe... Cujos estábulos produziram...

- Por favor, chega de comerciais - Mellanie gemeu, com gana de chacoalhar o locutor.

- O vencedor do grande prêmio de todas as provas de inverno é... O número cento e vinte e cinco, Mellanie Cooper, de Hamilton, Montana, montando o maravilhoso garanhão de cinco anos, Sidi Samson!

Mellanie deixou escapar um grito de vitória, e a platéia explodiu em fortes aplausos. Ela avançou até o júri para receber os três prêmios.

- Obrigada - disse. Algumas lágrimas emocionadas romperam, enquanto ela recebia os cheques das mãos de Jhonas Deadpark. Ele se recusou a soltar-lhe a mão, depois de cumprimentá-la.

- Será que essa vitória não merece um beijo? - ele sugeriu.

- Oh... Claro. - Sorrindo, confusa, ela se inclinou para receber o beijo. Não notou o olhar malicioso do ator, pois pensava apenas em Samson. Deu mais uma volta na arena para receber os aplausos do público e abandonou o paddock.

Duas horas mais tarde, depois de cuidar de Samson e deixá-lo com todo o conforto no estábulo. Mellanie estava de volta ao hotel, se deliciando num banho bem quente.

Mal havia se secado e vestido um hoby aconchegante, bateram à porta.

- Quem é? - perguntou.

- Peter Latrop.

Ela girou a chave e abriu a porta.

- Entre, Peter. Ouvi tantas histórias de cretinos batendo nas portas dos hotéis dessa cidade que fiquei com medo. Não é como estar em casa.

Capítulo 3 Fugindo dos Braços Pecaminosos

Mellanie pensou em partir, mas ainda lutava para ficar bem desperta, quando ele reapareceu com um copo em cada mão. Ela havia tornado a se sentar no sofá e ele se acomodou ao seu lado. Dessa vez, a uma pequena distância.

- Agora, Mellanie - ele começou, oferecendo-lhe um coquetel de tequila e exibindo um sorriso, cinematográfico - Fale-me de você. Nasceu em Montana?

- Sim. - Ela se apegou ao assunto, tentando recuperar o raciocínio. - Cresci em Big Hole, mas agora trabalho em Hamilton. Já ouviu falar desses lugares?

- Andei procurando uma propriedade em Bitterroot, portanto, conheço a região. Alguns dos meus amigos da Califórnia têm terras em Paradise Valley. Conhece?

- Sul de Livingston, sudoeste de Bozeman - ela retrucou. - Li que uma porção de celebridades andou comprando ranchos por lá, para fugir dos impostos.

- Será que eu captei uma nota de desdém? Ela deu de ombros.

- Se eu fosse rica o bastante para precisar fugir dos impostos, faria o mesmo. - Ela riu. - A vida no campo faz parte de mim. Um dia, espero, eu... Afinal, estamos numa discussão de geografia ou planejamento de impostos?

- Nenhuma das duas - ele sorriu, cheio de malícia e escorregou mais uns centímetros para junto dela.

- E sobre você. Acho-a muito... Agradável. Onde Você trabalha em Hamilton? Num depósito?

- Eu trabalho com os cavalos de Lexy Ghelford.

- O criador de puro-sangue?

- Isso mesmo.

- Ele é um dos melhores no Estado. Comprei algumas éguas de Lexy Ghelford. Muito boas. O garanhão que você montou é dele?

- Claro que não! Samson é meu. É o começo do...

- Seu próprio haras?

- Sim. O seu... O dinheiro que eu ganhei hoje vai ser empregado na compra de uma égua para ele. - Ela fez um muxoxo. - Eu sei que deve parecer insignificante para você, mas todo mundo tem que começar de algum ponto, não é?

Jon soltou uma risada, um pouco encenada demais.

- Não me diga que é uma daquelas apaixonadas por cavalos desde menina, e que sonha em realizar as suas fantasias. - Ele pegou-lhe a mão e apertou-a. - Você é mesmo uma graça, Mell.

Ela sorriu um tanto embaraçada.

- Fique comigo essa noite, querida, e de manhã eu lhe mostro os meus cavalos.

- Cavalos de verdade? - ela perguntou com ironia, desprendendo a mão. - Creio que não, Jon. Tenho uma longa jornada pela frente. Preciso chegar em casa depois de amanhã. E estou sozinha.

Mellanie lamentou suas últimas palavras, mal tinha acabado de pronunciá-las.

- Se a sua preocupação é chegar em casa a tempo, posso mandar um dos meus empregados levar a sua caminhonete e trailer de volta. Depois, poderemos voar no dia em que a sua chegada está prevista.

Aproximou-se um pouco mais e prosseguiu insinuante:

- Existe um aeroporto em Hamilton? Tenho um jatinho, e o meu piloto está de prontidão. Que tal? Duas noites e dois dias para relaxar comigo...

Michelle pôs o copo sobre a mesinha de vidro fumê e se ajeitou na beirada do sofá.

- Não, acho que não.

- Por que não? - Abriu os lábios num sorriso cativante, mais uma vez buscando-lhe a mão.

- Não sou esse tipo de pessoa.

- Claro que não - ele murmurou. - Mas as aparências podem enganar, não? Quantos anos você tem?

- Fiz vinte e seis na semana passada. E sei muito bem o que quero - ela concluiu ríspida.

Um silêncio pesado caiu sobre os dois. Mellanie fitava o chão, constrangida. Tentou amenizar o clima de embaraço que pairava no ar.

- Mas eu adoraria ver os seus cavalos. Será que não poderia mostrá-los agora à noite, mesmo? - Levantou-se e forçou um sorriso.

Jonathan recostou-se no sofá e estudou-a por um momento. Parecia avaliar as possibilidades.

- Quero ver as cocheiras, não camas - ela arrematou. Por fim, dando risada, ele também se levantou e, tomando-a pela mão, seguiu por um corredor coberto que levava aos estábulos. Acendeu as luzes e ouviu-se o ruído de vários cavalos se agitando em suas cocheiras individuais.

- Fale-me a respeito do seu trabalho para Ghelford, - ele pediu, dando passagem para Mellanie.

- Está mesmo interessado?

- Sem dúvida. Mulheres sempre despertam interesse, e puros-sangues também. Levando isso em conta, mulheres que trabalham com cavalos árabes são simplesmente especiais!

Ela acariciou o flanco de uma égua cinza.

- Meu trabalho consiste em exercitar as éguas e acompanhar a gravidez delas até o fim. Quando entram em trabalho de parto, aviso o veterinário e dou assistência a ele. Também cuido dos potrinhos e dou-lhes os primeiros treinamentos quando eu e Lexy julgamos que estão preparados.

Ela sorriu com a lembrança dos animais.

- Adoro trabalhar com os potros. São tão doces... E cada um tem sua própria personalidade. Acho que são as minhas crianças.

Continuaram andando. Ela parava de quando em quando para observar algum cavalo com maior atenção.

- Lá eu tenho alguns privilégios. Samson, por exemplo, pode ficar de graça. No meu tempo livre eu trabalho com ele. Comprei-o de Lexy quando ainda era um filhotinho. Meu pai me deu o dinheiro. - Ela riu. - Hoje Lexy se morde de raiva por tê-lo vendido a mim. Samson se tornou um dos melhores animais do rancho.

- O seu rosto se ilumina quando você fala do seu garanhão.

- É a coisa mais importante na minha vida - ela assegurou. Chegaram ao fim dos estábulos. Durante toda a visita, Jon mantivera o braço sobre os ombros dela e, agora, deslizava a mão para a cintura. Mellanie virou-se de imediato.

- Acho melhor eu ir, agora.

Fingindo não entender a indireta, Jon atraiu-a para si. Mellanie sentiu o seu peito musculoso e firme.

- Mell - ele murmurou com voz rouca, olhando à face dela. - Eu quero você comigo essa noite. Vai ser bom, eu posso sentir.

Ela esboçou o gesto de se soltar, mas Jon foi mais rápido e pressionou os lábios contra a sua pele delicada, numa carícia quente. Mellanie sabia que não podia resistir, por isso soltou o corpo, numa posição passiva.

- Mas que droga? - ele reclamou, afrouxando o enlace.

- Eu avisei que não queria me envolver.

- Ora, você está só me provocando - ele insistiu. - Eu lhe mostrei os meus cavalos. Agora é hora de você retribuir, querida. Não passo uma noite com qualquer uma, sabia?

Ergueu-a nos braços, mas, em vez de tomar o caminho de volta, seguiu em direção à piscina e à área onde ficavam os quartos.

- Jon, ponha-me no chão - ela gemeu. - Não posso fazer essas coisas!

- Está querendo me dizer que é uma virgem? - ele perguntou, parando junto da piscina.

- Não, mas...

- Então, tudo bem. Não gosto de me meter em encrencas. Ela começou a se debater.

- Nem eu! Por isso, ponha-me no chão, já! E, com isso, desferiu-lhe uma forte mordida no pescoço.

- Ei! Pare com isso, está bem? - ele reclamou. - Você quer ser bem-sucedida no mundo dos criadores, e eu tenho os contatos que podem ajudá-la. Qual é o problema de uma ou duas noites juntos, se os resultados são valiosos?

Com raiva, ela o mordeu de novo. Dessa vez não teve dó.

- Ponha-me já no chão!

- Tudo bem, doçura. Mas não acredito que queira memo isso.

Ele se aproximou da beira da piscina.

- Não! - Ela se agarrou a ele.

- Mudou de idéia, querida?

- Não!

- Como preferir.

E, com isso, ele a soltou.

Michelle mergulhou na água tépida numa posição patética. Subiu à tona indignada.

- Como se atreve, Jhonas Deadpark? - ela se debatia como uma serpente, fazendo-o gargalhar.

- E agora, minha mocinha, quando tiver esfriado, saia daí e vá se secar. Pode encontrar toalhas ali nos vestiários. - Apontou para o outro extremo da piscina. - Logo você vai estar louca para aquecer esse seu corpinho bem-feito junto de mim. Vamos, rápido, Mellanie. Antes que eu perca a minha paciência.

E, assim, Jon deu-lhe as costas e desapareceu a passos decididos. Uma pequena luz se acendeu num cômodo, e ela desconfiou que ali fosse o quarto dele.

Fora da água, ela torceu um pouco a blusa e entrou na casa por outra porta. Deixou um rastro de água no carpete. Foi até o estúdio e pegou a bolsa. Então, correu para a caminhonete, decidida a sumir antes que Jon se desse conta de que não tinha a menor intenção de ir para a cama com ele.

Chegando no hotel, Mellanie correu para o seu quarto. Sua raiva tinha crescido a cada quilômetro que se afastava da casa do ator. Ao ver a mala num canto, tomou uma decisão.

Em vinte minutos estava em sua caminhonete, pronta para partir. Se o amoroso senhor Deadpark resolvesse vir procurá-la, encontraria apenas um quarto vazio. Mas será que sabia onde ela tinha se hospedado? Claro que não!

Mesmo assim, Mellanie achou melhor pegar a estrada e antecipar a viagem de volta. Não ia mesmo conseguir dormir aquela noite.

Então, seguiu para o estábulo onde havia alojado Samson durante os poucos dias em que tinham estado em Phoenix.

Sob a luz do luar ela tirou o cavalo da cocheira e conduziu-o para dentro do trailer. Uma lâmpada foi acesa e o guarda apareceu sonolento. Mellanie não precisou se demorar nas explicações, já que tinha deixado tudo pago.

Pouco depois entrava na estrada interestadual. Já tinha visto o bastante das grandes cidades e dos seus ricos criadores.

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