- Mia, mais rápido sua lesma! Precisamos acender a lareira antes que escureça! - gritou a senhora Ilda à porta da casa ao perceber que eu me distraíra olhando o céu.
De porte médio, cabelos grisalhos e pele em tom médio, Ilda era a responsável pelo orfanato que me recebeu. Seus olhos castanhos eram sempre pesados quando me via, mas não tanto quanto suas mãos quando decidia me punir sem motivo. Ela sempre dizia que eu deveria ser grata por ter um lar para morar, por não ter que passar frio e fome nas ruas. Provavelmente essa era a desculpa que dava para si mesma para colocar todos os jovens órfãos para trabalhar.
Os meninos geralmente saíam para caçar presas de pequeno porte, enquanto as garotas tinham a tarefa de coletar lenha. Embora os afazeres domésticos fossem divididos, quase sempre eu tinha que fazer tudo. Era injusto, mas eu era a garota amaldiçoada.
Eu não era de fato amaldiçoada, mas assim fui chamada pelas outras crianças por ser a única sobrevivente do massacre que ocorreu na aldeia em que eu morava. Tal atrocidade veio em decorrência do sofrimento causado pela catástrofe congelante.
Eu era um bebê quando a catástrofe congelante começou. Após os primeiros anos de nevasca intensa, a comida foi ficando escassa por todo o continente, o que levou bandidos a invadirem e saquearem as aldeias mais fracas e isoladas. Por serem muitos ataques em simultâneo, o alfa de nosso país não pôde proteger a todos, resultando em incontáveis perdas.
Adentrando a casa, aproximei-me da lareira e desajeitadamente me ajoelhei no chão e comecei a encher o depósito de lenha, separando alguns gravetos e pedaços de madeira para a fogueira. Enquanto eu ajeitava, fui empurrada de lado e chutada pela Ilda.
- Está tentando fugir de suas responsabilidades fazendo tudo tão devagar? - gritou aquela senhora, apontando para a cozinha. - Já era para estar preparando o jantar!
- Sim, senhora - falei em um tom monótono, colocando-me de pé e me dirigindo para a cozinha. Eu detestava esse lugar, detestava sentir dor. A dor diária era um lembrete de que esse lugar provavelmente era ruim, embora me dissessem o contrário.
Sei que para todos eu não deveria ser uma sobrevivente. Era o que os adultos diziam, que eu deveria ter morrido, que minha história não fazia sentido. As crianças viam as palavras dos adultos como uma verdade, razão pela qual eu não tinha um único amigo neste lugar, ninguém que ficasse ao meu lado quando Ilda decidia descontar suas frustrações em mim.
Independente de minha existência ser um fardo, eu continuaria me levantando, continuaria sobrevivendo custe o que custasse, apenas contando os dias para sair desse inferno. Faltava menos de uma semana para eu completar dezoito no papel e receber a minha liberdade.
Não sei o que era mais difícil, cozinhar sozinha ou ter uma ajudante irritante. Fran, uma órfã de dezesseis anos de pele em tom médio escuro e cabelos crespos estava sentada em cima da bancada. Ela começou a rir com malícia assim que entrei, sem esconder que fora responsável por atiçar a Ilda. Ela tinha uma marca de nascença, uma pequena pinta escura por baixo do seu olho direito.
- Mia, sua feiosa. Demorou a aparecer! - provocou ela. Mia? Todos pronunciavam esse nome com o mesmo tom irritante de desdém. Eu realmente detestava esse nome. - Já cortei a carne da caça de hoje. Deixo o resto com você.
Folgadamente ela desceu do balcão, se sentou à mesa e começou a fazer as unhas em vez de me ajudar a cortar os demais ingredientes.
- Está olhando o quê? Você não precisa disso. Nem que nascesse de novo ficaria bonita - disse ela revirando os olhos.
Fran estava longe de ser um padrão de beleza, mas de fato se cuidava mais do que eu. Eu não tinha tempo para isso. Olhei para minhas mãos, cheias de calos, os dedos tão finos que praticamente se podiam ver os ossos. Eu não tinha tempo para me arrumar, então sempre mantinha meus cabelos castanho-escuros curtos para facilitar a limpeza. Minha pele clara e pálida era considerada uma cor feia. Geralmente apenas os de classe inferior possuíam essa cor, uma vez que o sangue imperial e o sangue alfa predominavam o tom médio para o escuro.
Não respondi, não adiantaria. Em vez disso comecei a trabalhar, pensando no que eu faria com minha liberdade. Órfãs como eu costumavam ganhar uma pequena quantia de dinheiro após deixar o orfanato, e oportunidades de empregos medíocres na casa da alcateia. Trabalhar a vida inteira como uma humildade empregada nada mais era do que uma forma de sobreviver, mas não era isso que eu desejava para mim, ainda mais sabendo que eu provavelmente seria menosprezada e maltratada.
- Oh não, você fez de novo! - riu Fran antes de sair correndo. Pouco depois, voltou com a Ilda, apontando o dedo na minha direção e fazendo acusações infundadas. - Senhora, ela está se aproveitando para roubar comida antes da hora.
- Eu só estava provando o caldo para ver se o tempero está no ponto - respondi friamente. Era algo de rotina, então não entendia o motivo pelo qual sempre tinha alguém para fazer alarde sobre isso. Mas eu não podia fazer diferente, porque se eu errasse no sabor, seria agredida não só pela Ilda mas pelos meninos que tiveram dificuldades em conseguir a carne.
- Ela estava pegando carne junto - disse Fran. - Eu vi!
- Isso não...
- Calada! - gritou Ilda, como sempre sem me dar chance de defesa. - Parece que você nunca aprende. Saia! Sem jantar hoje para você! Como punição, passará a noite na rua.
Eu apenas queria dizer que não fiz o que ela me acusou. Eu estava fazendo um ensopado, e a carne foi desfiando no caldo. Eu simplesmente coletei um pouco de caldo sem me atentar a isso, o que não era nenhum crime, mas não era isso que pareciam pensar. Deixando a colher na pia, andei até a porta dos fundos.
Era preferível para mim passar a noite ao relento do que receber chutes e açoites daquela velha. Ultimamente vinha passando mais tempo fora do que no orfanato. Possivelmente ela não queria gastar energia me punindo e achava que o frio era o suficiente. Para dizer a verdade, todos diziam que o frio era muito pior, e sempre que ela queria castigar alguém dessa forma, imploravam para serem açoitados com medo de morrerem congelados. Diferente dos outros, eu nunca reagia a nenhum tipo de punição, não dizia uma palavra e não expressava emoções, mas a verdade era que o frio nunca me incomodou. Desde que me entendia por gente, frio e calor eram a mesma coisa para mim, e o frio, mesmo que extremo, era aconchegante.
Minha calça comprida estava com alguns rasgos no joelho, meu casaco de lã velho era fino e impróprio para dias de neve. O sapato em meus pés estava furado, então costumava entrar neve. Esta dificilmente se derretia, já que meus pés ficavam tão frios quanto a própria neve. Eu me acostumara ao frio e gostava de mantê-los assim.
Havia apenas uma única pessoa neste mundo que se importava comigo, e ele estava lá, como se estivesse esperando por mim. Uma humilde cabana no meio do bosque era nosso ponto de encontro, e nas noites frias quando eu não era castigada, fugia somente para vê-lo.
- Mia! - exclamou uma voz grave. Levantando-se da cadeira da varanda, correu até mim com uma manta, colocando-a sobre meus ombros e abraçando-me com suavidade. Nossos olhos se encontraram e senti minha respiração acelerar sutilmente. - Mia, você está muito gelada. Entre!
- Ryan... - sussurrei, mas as palavras não saíam. Eu não sabia bem o que sentia, mas gostava de vir aqui, gostava de estar com ele. Talvez por ele ser a única pessoa que me tratava como se eu fosse alguém.
Ryan sorriu levando seu dedo indicador até meus lábios. Havia preocupação em seu olhar:
- Não diga nada. Se aqueça primeiro - disse ele com gentileza.
Ryan era um homem de vinte e oito anos, alto, de pele em tom escuro, cabelos pretos levemente compridos e olhos castanhos. O encontrei pela primeira vez há quase dois anos atrás. Com um machado em mãos, percorri a área e acabei indo mais longe do que de costume, encontrando esse lugar. Assim como hoje, Ryan estava sentado na varanda. Quando seus olhos pousaram em mim, saltou e correu na minha direção deixando-me alerta.
Segurando o machado firmemente, comecei a correr, inutilmente. Seu lobo me derrubou e me vi de baixo dele, esperando pelo pior, mas assim que voltou à forma humana, uma única palavra brotou de sua boca: "companheira."
Desde aquele dia, vinha me encontrando com ele sempre que podia. Para a maioria dos órfãos, encontrar o companheiro seria a maior sorte que podiam ter, a oportunidade genuína de mudarem suas vidas e seu destino ruim. Para o bem ou mal, ou talvez pela minha natureza de autopreservação, jamais me agarrei a esse tipo de pensamento.
Ryan me abraçou contra ele enquanto me conduzia para dentro do seu chalé. Após fechar a porta, agachou-se para me ajudar a tirar minhas botas e me fez vestir meias quentes e um par de calçados confortáveis. Essas eram algumas coisas que ele me deu desde que nos conhecemos, mas eu não poderia levá-las ao orfanato, ou os tirariam de mim.
Ryan fez-me sentar-me no sofá de frente para a lareira acesa e me trouxe uma tigela de caldo quente que aceitei de bom grado. Minha barriga já estava doendo de fome.
- Tenho algo mais interessante para você hoje - disse Ryan com um sorriso no rosto. Ele sentou-se ao meu lado e me mostrou um livro de capa azul escuro.
Eu não tinha contato com muitos livros no orfanato, na verdade, sequer tínhamos um estudo decente, motivo pelo qual Ryan vinha me ensinando e me trazendo histórias para eu ler sempre que vinha. Arregalei os olhos assim que li o título e minhas mãos estremecerem involuntariamente.
"Essa eu conheço melhor do que ninguém!", pensei, soltando um suspiro pesado. Ryan franziu a testa, mas forcei um sorriso e assenti com a cabeça em agradecimento para que ele não me interpretasse errado.
Não havia ninguém no mundo que não conhecesse a história dos quatro grandes imperadores: Os Vongaren, que governavam sobre o continente Leste e os lobos da primavera, os Jiordanis que governavam no continente Oeste e os lobos Outono, os Valherian sobre o continente Sul e os lobos do verão, e os Ferindel sobre o Continente Norte, os lobos do Inverno.
Eis que eu vivia no continente Norte. Os quatro imperadores, também chamados de guardiões de Lycandria, nosso planeta, possuíam poderes especiais que eram responsáveis por equilibrar o clima e temperatura do planeta.
Houve um tempo em que tudo era perfeito, onde havia tempo para plantar, tempo para colher, tempo para florescer e multiplicar, e o tempo de estocar e relaxar. No entanto, houve aqueles que pensaram que o inverno era desnecessário, que a produtividade e o dinheiro se multiplicariam se não houvesse uma estação tão fria para pausar tudo. Para tal, chegaram à conclusão de que, bastava eliminar o grande imperador do inverno. Esse foi um grande engano!
Há quase dezessete anos atrás, uma grande trama objetivando o assassinato do imperador foi colocado em ação. Assim que o imperador do inverno foi assassinado, uma grande nevasca surgiu nos céus em todo mundo. Não havendo alguém em posição de herdar seus poderes de inverno, o descontrole climático começou. Foi quando o mundo descobriu, da pior forma, que a função do imperador não era provocar o frio, mas controlar sua intensidade. Para evitar o pior em seus próprios continentes, cada imperador, focou seus poderes em minimizar o desastre localmente, ficando o continente do inverno abandonado. Tão grande pecado ocasionou em um frio rigoroso o ano inteiro, uma temperatura congelante que não passa nunca.
"Dormiu", pensei, vendo o rosto sereno de Ryan, sua cabeça apoiada contra o braço do sofá. Suspirei profundamente enquanto me levantava e deixava o livro sobre a estante. Por quanto tempo esse sonho iria durar? Eu sabia a resposta. Este homem me mantinha perto dele enquanto acreditava que eu era sua companheira. Não me importava que continuasse acreditando nisso, pois ele tinha sido minha esperança, e eu desejava ardentemente seu amor.
Olhei uma última vez para ele cobrindo-o com a manta antes de deixar o chalé secretamente. Eu gostava do Ryan, mas conseguia ler através de todas as suas mentiras. Sei que ele não era um simples escritor como me contava, e sei que ele não iria ficar ao meu lado para sempre como me prometeu. Todos que me amavam me deixavam em algum momento, e ele sendo quem era, provavelmente só estava esperando que eu fizesse dezoito e despertasse minha loba. Embora ele não me dissesse, sei que precisava avaliar se eu era forte e digna de estar ao seu lado.
Ryan não era meu companheiro. Eu não queria e não podia lhe dizer a verdade ainda. Um dia ele descobriria isso, na verdade, em poucos dias. Até lá, eu continuaria vivendo esse sonho.
Enquanto eu caminhava sobre a neve que caía serenamente neste céu escuro, lágrimas involuntárias brotaram dos meus olhos. Por que continuava lutando e sobrevivendo? Essa necessidade era completamente irracional, porque meu coração já morreu há muitos anos, quando perdi tudo. O pior era relembrar vividamente aquele momento, sem jamais esquecer. Talvez essa seja minha maldição, minha maldita memória.
Minha hipertimesia foi herdada do meu pai, algo que vinha desde o meu nascimento. Tudo que vi, ouvi e senti, tanto as boas quanto as ruins eram incapazes de serem esquecidas, motivo pelo qual às vezes tinha dificuldades de dormir. Após ler um livro tão deprimente, essa era uma das noites em que não conseguiria pregar os olhos, enquanto cenas horríveis se repetiam em minha mente consecutivas vezes.
O sangue escorrendo, o cheiro forte e pungente de morte, e a neve coberta de vermelho por todas as vidas que se foram. Aos cinco anos, eu ainda morava em um abrigo em uma pequena aldeia rural deste clã, o clã da Lua Prateada. Os bandidos invadiram, saqueando os depósitos de comida e tudo o que tínhamos. Não satisfeitos, começaram a ceifar a vida de todos os moradores. Minha amada cuidadora, Dália, me enterrou na neve para me esconder e acabou tendo sua vida ceifada enquanto tentava me acobertar. Não pude fazer nada, se não ficar escondida, quieta.
É claro que aqueles bandidos não iam deixar nada passar. Eles perceberam e me desenterraram, mas me fingi de morta. Meu corpo estava tão gelado que eles acharam que eu era um cadáver, sendo essa a única razão pela qual sobrevivi. Meu corpo foi atirado em cima do de Dália, e embora não visse, senti o calor deixando aquele corpo com o seu sangue quente me cobrindo. Talvez por isso eu odeie o calor, pois me lembra a morte, e talvez por isso que eu goste tanto do frio, porque foi o frio que me salvou.
Em meio a esse turbilhão de pensamentos, a nevasca parecia se intensificar. Meus pés se afundavam na neve, e aos poucos meus sentidos começavam a ser anestesiados.
- O frio é realmente bom... - sussurrei, deixando meu corpo despencar sobre a neve. Eu realmente precisava voltar para o orfanato? Não podia passar meus últimos dias até meu suposto dezoito anos enterrada nessa neve fofa? Eu não tinha grandes sonhos ou expectativas para o futuro. Eu não sabia bem o que queria da minha vida e, ainda assim, me agarrava ao desejo de continuar vivendo.
Quando esse pesadelo vai acabar?
Quando reabri meus olhos, estava deitada sobre uma cama quente e Ryan estava deitado ao meu lado, abraçando-me fortemente contra ele. Não me movi para não o acordar. Eu provavelmente o preocupei ao sair assim sem avisá-lo e ele veio atrás de mim.
Apenas quando o dia deu sinais de clarear, foi que me movi. Eu precisava voltar para o orfanato antes do amanhecer, ou Ilda provavelmente me daria uma surra por não estar trabalhando ainda. As roupas precisavam ser lavadas antes do amanhecer para aproveitar a luz do dia, ou não secariam de jeito algum. Para nós que tínhamos que sair para trabalhar todos os dias, era até mesmo comum deixarmos as roupas terminarem secar no corpo.
Tudo o que envolvia colocar a mão em água gelada, era eu que precisava fazer, como se Ilda quisesse me torturar. Limpar o chão e as janelas precisavam ser feitos antes do almoço, e nas tardes eu precisava ajudar na coleta de lenha e voltar a tempo para acender a lareira e fazer o jantar. Considerando o quanto esteve nevando durante a noite, provavelmente teria que pegar a pá e retirar o excesso de neve dos caminhos. Minha cabeça até começou a rodar quando pensei em tudo que precisaria fazer, e o medo de não dar conta me fez mover-me bruscamente.
- Calma, Mia! - disse uma voz imponente puxando meu braço e prendendo-me. - Você quase morreu ontem à noite. Você não está em condições de sair!
- Ryan, eu...
- Não diga mais nada! Você não precisa voltar, pode só ficar aqui comigo. Você podia ter morrido! Tem ideia do quanto me assustou, do quão desesperado fiquei quando te encontrei congelando na neve? Mia, eu não posso te perder!
Por algum motivo que eu não conseguia explicar, suas palavras fizeram meu estômago borbulhar e, sem perceber, eu estava sorrindo. Era aquela capciosa chama da esperança e amor, ao qual tanto ansiava, faiscando dentro de mim.
Sempre pensei que eu era um incômodo para Ryan, que ficar aqui por muito tempo poderia trazer problemas para ele. Talvez pensasse assim por causa de tudo o que já ouvi, palavras cruéis ditas ao longo da minha vida que eu jamais conseguiria esquecer:
"Como apenas essa menina sobreviveu? Isso não faz sentido! Deve ser amaldiçoada."
"Essa pobre garota, sem nada e ninguém. Seria melhor que tivesse morrido também."
"Mais um fardo para eu cuidar. Esse orfanato não precisa de mais um lixo."
Fechei os olhos, suspirei profundamente enquanto tentava afastar todas essas vozes do passado. Eu precisava acreditar em Ryan, precisava confiar em alguém. Se não houvesse mais ninguém no mundo com quem contar, minha existência se tornaria como um rio congelado, incapaz de ser mover, cuja superfície dura esconde uma correnteza de sofrimento sem fim. Qual o sentido de existir somente para sofrer?
- Eu... realmente posso ficar? - perguntei, hesitante. Mesmo que por alguns dias, ficar longe daquela mulher má, longe daquele lugar torturante...
- Eu não vou mais pedir. Mia, o que mais preciso fazer para ter sua confiança? - Ryan não me olhava com carinho, mas com imponência. - Se tudo o que fiz já não foi o suficiente, terei que começar a usar a força.
- Mas, eu... - gaguejei de leve. Eu sabia que, no momento em que eu o aceitasse completamente, ele reivindicaria algo que não estava preparada para dar.
Por um momento, meus olhos se fixaram aos dele, enquanto eu colocava na balança o que era pior. Por algum motivo, sentia que ceder a ele poderia ser mais trágico para o meu coração, mas ainda assim, não conseguia imaginar nada pior do que voltar para o inferno em que vivia.
- Diga, Mia. Se não me responder, eu responderei por você - exigiu ele.
- Eu quero ficar aqui, não quero mais voltar para o orfanato - confessei, desviando o olhar.
Se eu pudesse viver esse sonho, se ele realmente se tornasse real, eu não poderia querer nada mais. No entanto, eu sentia que Ryan me deixaria em breve quando descobrisse a verdade. Eu não queria enganá-lo, mas ainda não tinha coragem de sair dessa doce ilusão em que entrei.
- Mia, eu prometo que não vai se arrepender - disse ele, aproximando os lábios dos meus.
Seus beijos incessantes, seus toques indecentes já faziam parte da rotina desde que o conheci. No entanto, ele sempre soube se controlar e esperar pacientemente que eu lhe desse algo mais. Assim como agora, ofeguei quando sua mão deslizou para dentro das minhas roupas e meu coração começou a bater tão forte que achei que ia sair do peito.
- Ryan, você pode esperar... só mais alguns dias - implorei, tentando recobrar o fôlego.
- Mia... - sussurrou, como se preso aos seus instintos carnais. - Por que você sempre faz isso comigo?
- Só mais alguns dias - pedi com mais firmeza. Se ele não me deixasse quando descobrisse, então eu poderia me entregar sem receios e acreditar nesse amor pelo qual tanto ansiava.
- Certo, mas não vou conseguir me segurar se eu conviver com você neste lugar.
- O que quer dizer? - perguntei, com medo dele me mandar de volta para o orfanato. Assim que seus lábios se curvaram em um sorriso brincalhão, a tensão no meu corpo se foi e senti que ele não faria isso comigo.
- Ficarei hospedado na cidade pelos próximos dias. Há comida suficiente no depósito do chalé. No seu aniversário, voltarei para comemorar sua maioridade e conhecer sua loba. - Ryan se levantou, passando a mão pelos seus cabelos esvoaçados. Então, lançou-me um olhar penetrante antes de passar comandos bem específicos. - Não abra a casa para ninguém enquanto eu estiver fora e nem pense em sair da propriedade. Não importa para onde você vá, jamais poderá escapar de mim, companheira.
Havia um tom de ameaça escondido em sua voz, algo que me dizia que todo esforço que investiu em me conquistar não seria em vão. Eu não tinha medo, pois queria viver, e se ele era a pessoa que me permitiria sobreviver neste mundo cruel, então me agarraria firmemente a ele, até que pudesse caminhar por mim mesma.