O silêncio na St. Patrick's Cathedral não era pacífico. Era pesado. Era um peso físico, pressionando os ombros de Stella, mais pesado que os nove quilos de seda e renda que se arrastavam de sua cintura.
Ela estava sozinha no altar.
Trezentas pessoas observavam suas costas. Ela podia sentir os olhares deles como pequenas alfinetadas, coçando em sua pele. O celebrante, um senhor gentil de sobrancelhas grossas, pigarreou. O som ecoou pelos tetos abobadados, um estalo agudo que fez Stella se encolher.
Bzzz.
O celular, agarrado em sua mão de nós brancos, vibrou. Era a terceira vez em dois minutos.
Stella não queria olhar. Ela sabia. Em algum lugar no fundo de suas entranhas, naquela parte primitiva que processava o medo antes que seu cérebro pudesse acompanhar, ela sabia. Mas seu polegar se moveu mesmo assim, deslizando para desbloquear a tela.
Bryce: Eu não consigo fazer isso. Monica precisa de mim. Sinto muito.
O mundo não parou. Não girou. Ele apenas... ficou mais nítido.
O cheiro dos lírios no altar de repente se tornou enjoativo, com aroma de funerária. O piso de mármore sob seus saltos parecia gelo. Uma onda de náusea revirou seu estômago, quente e ácida.
Monica. Sua madrinha de honra. A mulher que tinha fechado o zíper deste vestido três horas atrás e dito que ela estava linda.
Stella?
A voz veio do primeiro banco. Sra. Dalton. A mãe de Bryce.
Stella se virou. Seus movimentos eram rígidos, mecânicos, como os de uma boneca com articulações enferrujadas. A Sra. Dalton corria em sua direção, o rosto arrumado em uma máscara de preocupação performática, mas seus olhos... seus olhos eram frios. Duros.
- Oh, querida - sussurrou a Sra. Dalton, alto o suficiente para as primeiras cinco fileiras ouvirem. Ela estendeu a mão, suas garras bem-feitas cravando-se no braço nu de Stella. - Ele me ligou. Disse que se sentia... sufocado. Talvez se você não estivesse tão focada nessa sua carreirinha...
As palavras atingiram Stella como um tapa.
Sufocado?
Ela tinha trabalhado em dois empregos para pagar o depósito do apartamento deles. Ela tinha montado o portfólio dele. Ela tinha passado as camisas dele esta manhã enquanto ele supostamente estava "se arrumando com os caras".
A raiva, súbita e incandescente, substituiu a náusea.
Stella olhou para a mão que agarrava seu braço. Olhou para a multidão - os sussurros estavam começando agora, um zumbido baixo de fofoca que estaria por todo o Upper East Side até a hora do jantar.
- Me solte - disse Stella. Sua voz estava baixa, irreconhecível para seus próprios ouvidos.
- Não faça uma cena, Stella - sibilou a Sra. Dalton, seu sorriso se contraindo. - Nós cuidaremos da imprensa. Você só precisa...
Stella puxou o braço com força. O atrito queimou sua pele.
Ela ergueu a mão e agarrou o intrincado véu de renda preso em seu cabelo. Tinha custado dois mil dólares. Foram necessárias três provas para ajustá-lo. Ela o arrancou. Grampos arranharam seu couro cabeludo, fazendo brotar uma pequena gota de sangue, mas ela não sentiu a dor. Sentiu apenas a necessidade de respirar.
Ela jogou o véu no chão de mármore imaculado. Ele caiu em um monte de tule branco, parecendo um fantasma morto.
Ela pegou o microfone do pedestal do celebrante atônito. A microfonia fez os convidados cobrirem os ouvidos.
- O casamento está cancelado - disse Stella. Sua voz retumbou, ecoando pelos vitrais. - O noivo está neste momento consolando a madrinha de honra. As bebidas na recepção são por conta do covarde que fugiu. Aproveitem.
Ela largou o microfone. Ele bateu no chão com um baque que soou como a batida de um martelo de juiz.
Stella se virou e marchou pelo corredor.
Cabeça erguida. Queixo para cima. Não pisque. Se você piscar, as lágrimas vão cair, e você não vai lhes dar esse gosto. Você não vai lhes dar uma única gota de água salgada.
Seu coração martelava contra suas costelas, um pássaro frenético tentando escapar de uma gaiola. Tum. Tum. Tum.
Ela irrompeu pelas pesadas portas de bronze da catedral e saiu na Fifth Avenue.
O ar frio de outubro atingiu seu rosto afogueado. O barulho da cidade - táxis buzinando, turistas conversando, o ronco de um ônibus - a envolveu. Era caótico. Era indiferente. Era perfeito.
Ela deu um passo para descer as escadas de concreto e tropeçou.
A barra de seu vestido, a cauda que ela havia escolhido com tanto carinho, prendeu-se sob seu calcanhar. A gravidade assumiu o controle. Ela se inclinou para a frente, preparando as mãos para o impacto com o concreto, para o raspar da pele contra a pedra.
- Cuidado onde pisa.
A voz era grave. Barítono. Cascalho e gelo.
Stella se segurou no corrimão, distendendo o ombro. Ela olhou para baixo.
Sentado à sombra de um pilar de pedra, longe do fluxo de turistas, havia um homem em uma cadeira de rodas.
Ele era impressionante. Essa foi a primeira coisa que seu cérebro registrou. Maçãs do rosto altas, uma mandíbula que parecia ter sido esculpida em granito e cabelos da cor da meia-noite. Mas foram seus olhos que lhe tiraram o fôlego. Eram cinzentos. Cinzentos como nuvens de tempestade. E a observavam com uma avaliação distante e clínica.
Ele usava um smoking. Gravata borboleta preta. Estava vestido para um casamento, mas estava sentado do lado de fora como um exilado.
Ela o reconheceu. Vagamente. Das colunas de fofoca que fingia não ler. Julian Sterling. O "Filho Amaldiçoado". O pária da família Sterling que ficara paralisado em um acidente misterioso cinco anos atrás e, subsequentemente, fora escondido como um segredo sujo.
Ele olhou para o vestido dela. Depois para o rosto dela. Não ofereceu pena. Não ofereceu um lenço.
- Dia difícil? - ele perguntou.
Stella soltou um som que era metade risada, metade soluço. Ela limpou um borrão de rímel debaixo do olho com as costas da mão. - Pode-se dizer que sim. Meu noivo está atualmente dormindo com a minha melhor amiga.
A expressão de Julian não mudou. Ele ajeitou o punho do paletó. - Eficiente da parte dele.
Stella o encarou. A pura insensibilidade do comentário deveria tê-la ofendido. Em vez disso, a trouxe de volta à realidade. Ele não a estava olhando como uma vítima. Estava olhando para ela como uma variável em uma equação.
Uma ideia caótica e insana se formou em sua mente. Nasceu do despeito. Nasceu da adrenalina que inundava suas veias. Nasceu do fato de que ela tinha acabado de perder seu apartamento, suas economias e sua dignidade no espaço de dez minutos.
Ela se agachou, o tule de seu vestido se acumulando ao seu redor nos degraus sujos. Ela o olhou nos olhos.
- Você é solteiro? - ela perguntou.
Julian fez uma pausa. Sua mão, pousada na roda de sua cadeira, ficou imóvel. Ele olhou para ela - olhou de verdade para ela - pela primeira vez. Viu a maquiagem borrada. Viu o tremor de seu lábio inferior que ela lutava para controlar. Mas, acima de tudo, ele viu o fogo.
Ele sinalizou levemente com a mão esquerda - um movimento minúsculo, quase imperceptível. Um homem corpulento de terno, a uns três metros de distância, parou de se aproximar.
- Sou - disse Julian lentamente. - E, por acaso, estou precisando de uma esposa. Minha família está ameaçando invocar uma cláusula de competência. Eles querem me internar. A menos que eu possa provar que tenho uma vida doméstica estável.
Era mentira. Uma mentira suave e calculada. Ele não corria o risco de ser internado; ele era dono de metade do horizonte que ela estava olhando. Mas ele precisava de um escudo. Precisava de uma distração para manter os espiões de seu tio afastados enquanto finalizava sua aquisição. E esta mulher - este belo, despedaçado e furioso destroço de mulher - era perfeita.
- Eu preciso de um marido - disse Stella, com a voz trêmula. - Preciso salvar minha dignidade. Preciso mostrar a eles que eu não perdi.
- Um casamento de conveniência - ponderou Julian. - Transacional. Frio. Gosto disso.
- Estou falando sério - disse Stella.
- Eu também. - Julian apontou uma mão enluvada em direção à rua. - O cartório municipal fica em Lower Manhattan. Fecha em uma hora. Vamos precisar de um táxi.
Stella se levantou. Olhou para a catedral atrás dela, onde sua vida tinha acabado de implodir. Então, olhou para o estranho na cadeira de rodas.
Ela se abaixou, agarrou o tecido pesado de sua cauda e rasgou. A seda cara se rasgou com um som satisfatório de rasgo. Ela amontoou o tecido, liberando suas pernas.
Ela caminhou para trás da cadeira de rodas dele e segurou as manoplas. O metal estava frio.
- Vamos - disse ela.
Ela o empurrou até o meio-fio e chamou um táxi com a ferocidade de uma nova-iorquina nativa.
A viagem até a Worth Street foi um borrão de movimento e silêncio. Stella olhava fixamente pela janela, vendo a cidade passar rapidamente, seu coração ainda acelerado. Julian sentava-se estoicamente, verificando o relógio, calculando o trânsito.
Eles chegaram ao City Clerk's office no exato momento em que o segurança estava trancando as portas. Stella praticamente se jogou contra o vidro, implorando com os olhos até que ele os deixasse entrar.
O cartório cheirava a cera de assoalho e tédio. A funcionária, uma mulher de óculos gatinho, ergueu os olhos de suas palavras cruzadas. Olhou para o vestido de grife rasgado de Stella. Olhou para o smoking de Julian.
- Licença? - ela perguntou, estourando uma bola de chiclete.
Eles preencheram a papelada em silêncio. A caneta parecia escorregadia na mão suada de Stella.
Nome: Stella Quinn.
Nome: Julian Sterling.
Quando chegou a hora de assinar, a mão de Julian estava firme. Ele assinou com um floreio, uma assinatura nítida e angular que comandava espaço na página.
Eles trocaram anéis comprados no balcão por vinte dólares cada. Alianças baratas folheadas a ouro que deixariam seus dedos verdes em uma semana.
- Pelo poder investido em mim pelo Estado de New York - a funcionária entoou -, eu os declaro marido e mulher.
Sem beijo. Apenas um aceno de cabeça.
Eles saíram - andando e rolando - do prédio para o crepúsculo. As luzes da cidade estavam começando a piscar.
Stella parou na calçada. A adrenalina estava diminuindo, substituída por uma exaustão profunda. Ela olhou para o homem a quem acabara de se ligar legalmente.
- Então - disse ela, sua voz soando muito pequena na cidade grande. - Onde nós moramos?
O carro não era uma limusine. Era um Lincoln Town Car modelo mais antigo, preto, polido, mas claramente datado.
Stella empurrou Julian em direção ao meio-fio enquanto o carro parava. Um homem de terno escuro saiu do banco do motorista. Ele era mais velho, com cabelos grisalhos e uma postura que denunciava serviço militar disfarçado por treinamento de mordomo.
Henderson, disse Julian. Sua voz era desprovida de calor.
Henderson olhou para Stella. Seus olhos se arregalaram ligeiramente, absorvendo o vestido de noiva, a barra rasgada, o anel barato em seu dedo. Então ele olhou para Julian.
Julian bateu o dedo indicador contra o apoio de braço de sua cadeira de rodas. Toc. Toc.
A expressão de Henderson instantaneamente se suavizou em uma máscara inexpressiva. - Senhor. Devo ajudá-lo?
Minha esposa fará isso, disse Julian.
Stella congelou. Ela olhou para a porta aberta do carro, depois para Julian, depois para a cadeira de rodas. Ela nunca havia ajudado uma pessoa com deficiência a entrar em um carro antes. O pânico agitou-se em seu peito.
Eu... eu não sei a técnica, ela gaguejou.
Improvise, disse Julian.
Ele destravou os freios de sua cadeira.
Stella respirou fundo. Ela se aproximou. Sentiu o cheiro dele novamente - sândalo, uísque caro e algo nítido como o ar de inverno. Ela deslizou os braços por baixo das axilas dele.
No três, disse ela. - Um. Dois. Três.
Ela fez força.
Ele era incrivelmente pesado. Denso. Não era apenas gordura ou osso; parecia que estava levantando uma estátua. Ela grunhiu com o esforço, seus saltos raspando no pavimento.
Julian deixou a cabeça pender um pouco para trás, interpretando o papel, mas seus músculos do core se contraíram imperceptivelmente para estabilizar seu peso para que ela não o deixasse cair. Ele rangeu os dentes, soltando um gemido tenso que soava como dor, mas na verdade era frustração pelo contato. O corpo dela era macio contra o dele, seu cabelo fazendo cócegas em seu queixo.
Eles caíram desajeitadamente no banco de trás. Stella desabou ao lado dele, sem fôlego, o peito arfando.
Henderson fechou a porta. O silêncio dentro do carro era absoluto.
Minha família me cortou de minhas contas pessoais, disse Julian abruptamente, quebrando o silêncio enquanto entravam na FDR Drive. - Presumo que você saiba quem eu sou. O nome Sterling implica dinheiro. Eu não tenho acesso a ele.
Ele estava recitando um roteiro. Um teste.
Eu tenho a casa na Upper East Side, ele continuou, - mas nenhum dinheiro em espécie. Henderson é pago diretamente pelo Family Trust como um "cuidador" designado - eu não vejo um centavo desse dinheiro. Eu sobrevivo com um pequeno auxílio-invalidez.
Stella alisou a saia de seu vestido arruinado. Ela olhou para o perfil dele. Ele parecia solitário. Quebrado. Assim como ela.
Eu tenho economias, disse ela. Então se lembrou do depósito do apartamento que Bryce provavelmente havia roubado. - Bem, eu tenho algumas economias. Eu posso trabalhar. Sou designer. Posso encontrar um emprego.
Julian se virou para olhá-la. Ele ergueu uma sobrancelha. - Você me sustentaria?
Somos parceiros agora, disse Stella simplesmente. - É o que o papel diz.
O carro parou em frente a uma enorme casa de pedra calcária na 72nd Street. Era grandiosa, com trabalhos de ferro intrincados nas varandas, mas as janelas estavam escuras. Parecia um mausoléu.
Henderson descarregou as duas malas de Stella - aquelas que ela havia feito para sua lua de mel, que haviam sido levadas para a igreja.
Eles entraram no corredor. Estava congelante.
Lençóis brancos cobriam todos os móveis. A grande escadaria, os lustres, os sofás - tudo estava envolto em linho branco. Parecia que a casa estivera adormecida por cem anos.
Parece uma casa mal-assombrada, sussurrou Stella.
E é, murmurou Julian. Ele se impulsionou em direção a um pequeno elevador escondido no canto. - O quarto de hóspedes fica no segundo andar. Henderson irá lhe mostrar.
Quarto de hóspedes? Stella franziu a testa. Ela olhou para as sombras que se estendiam pelo patamar, as formas sinistras dos móveis cobertos. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela não conseguiria dormir sozinha em uma casa estranha e escura esta noite. Não depois de hoje.
Eu durmo na suíte principal, disse Julian. - Eu tenho... necessidades médicas. Não é adequada para ser compartilhada.
Stella caminhou até ele. Ela colocou a mão na manopla de sua cadeira de rodas, impedindo-o de apertar o botão.
Nós somos casados, Julian. E, francamente, esta casa me apavora no momento. Eu não deixo parceiros para trás, e certamente não vou dormir sozinha no fim do corredor esta noite.
O maxilar de Julian se contraiu. Seus dedos agarraram os apoios de braço com tanta força que o couro rangeu. Ele não a queria em seu espaço. Seu quarto era seu santuário - o único lugar onde ele podia se levantar, andar e ser ele mesmo.
Eu sou um aleijado, Stella, disse ele, sua voz baixando para um sussurro cruel. - Não é... conveniente ter uma mulher lá dentro. Eu valorizo minha privacidade.
Stella sentiu um rubor subir por suas bochechas, mas não recuou. Ela se agachou ao nível dele novamente.
Eu não me casei com você por sexo, disse ela suavemente. - Eu me casei com você porque você foi a única pessoa que não me olhou com pena. O quarto é grande o suficiente?
É uma suíte, admitiu Julian com relutância. - Há uma antecâmara.
Então eu dormirei lá, disse Stella. - Vou respeitar sua privacidade. Mas preciso estar perto de outro ser humano esta noite.
Ela se levantou e o empurrou para dentro do elevador.
As portas se fecharam no rosto chocado de Julian. Pela primeira vez em anos, alguém o havia contrariado.
A suíte principal era vasta, com tetos altos e painéis de madeira escura. Era impecavelmente arrumada. Havia uma grande cama hospitalar com grades na área principal e, através de um conjunto de portas duplas, uma sala de estar menor com um divã.
É aí que o enfermeiro costumava dormir, mentiu Julian rapidamente, apontando para o divã. - Eu o demiti na semana passada.
Então é para mim agora, disse Stella.
Ela caminhou até as janelas e puxou as pesadas cortinas de veludo, abrindo-as. A luz da lua inundou o quarto, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar.
Vou manter as portas de comunicação fechadas, disse Julian rispidamente. - Eu as tranco à noite. Por segurança.
Tudo bem, concordou Stella, embora achasse estranho. - O que quer que o deixe confortável.
Ela começou a tirar os lençóis de poeira dos móveis em sua seção. Vupt. Vupt. O som preencheu o silêncio.
Julian sentou-se em sua cadeira no canto, observando-a. Ela era um tornado de energia em sua zona morta. Ela estava invadindo sua fortaleza. E a parte aterrorizante era que ele não odiava isso.
O telefone de Stella, que ela havia jogado na cama, começou a vibrar novamente. 50 chamadas perdidas.
Ela o pegou. Encarou a tela. Então, segurou o botão de ligar/desligar até a tela ficar preta.
Vou tomar um banho, ela anunciou. Pegou uma toalha da pilha que Henderson havia deixado. - Preciso lavar este dia de mim.
Ela entrou no banheiro da suíte e trancou a porta.
Julian esperou. Ele ouviu o som da água sendo ligada. Esperou os canos rangerem.
Somente quando teve certeza absoluta de que o chuveiro estava barulhento o suficiente para mascarar qualquer som, ele se moveu.
Ele colocou as mãos nos apoios de braço. Ele empurrou.
Julian Sterling se levantou.
Ele se esticou até sua altura total de um metro e noventa, sua coluna estalando com alívio. Ele caminhou silenciosamente até a janela, seus movimentos fluidos e predatórios, verificando a rua abaixo em busca de paparazzi.
Ele estava encurralado. Havia se casado com uma estranha para impedir que seu tio plantasse um espião em sua casa, mas essa estranha... ela era perigosa. Não por ser uma espiã, mas porque ela o fazia querer ser honesto.
A luz da manhã atingiu o rosto de Stella como um soco. Ela acordou desorientada, piscando contra o sol. Por uma fração de segundo, ela pensou que estava em seu antigo apartamento e que Bryce estava fazendo café na cozinha.
Então ela viu os painéis escuros de madeira da antecâmara.
A memória desabou sobre ela. A igreja. O vestido. A cadeira de rodas. Julian.
Ela se sentou de supetão. As portas duplas do quarto principal agora estavam abertas. A cama de hospital estava vazia. Os lençóis estavam arrumados com precisão militar, com os cantos bem presos.
Ela saiu às pressas do divã e desceu as escadas. A casa estava silenciosa, os lençóis protetores que ela ainda não havia removido pareciam fantasmas à luz do dia.
Ela encontrou Henderson na cozinha. Ele estava colocando um prato de torradas queimadas na mesa.
- Bom dia, senhora - disse Henderson. - Minhas desculpas. A torradeira está com defeito e o orçamento não permite uma substituição no momento.
Era mentira. Henderson era um cozinheiro de mão cheia, mas Julian havia ordenado o "protocolo de pobreza".
Stella sentou-se e deu uma mordida na torrada queimada. Arranhava o céu de sua boca. - Está tudo bem, Henderson. Eu sei cozinhar. Vamos economizar nas compras.
- O senhor Julian está na biblioteca - disse Henderson.
Stella assentiu. - Preciso sair. Preciso pegar minhas coisas no apartamento. Antes que... - sua voz sumiu. Antes que Bryce as jogasse fora.
Ela entrou na biblioteca. Julian estava sentado atrás de uma enorme escrivaninha de mogno, lendo um jornal. Ele ergueu os olhos quando ela entrou.
- Você quer que Henderson a leve? - ele perguntou. Seu tom era educado, distante.
- Não - disse Stella, pegando sua bolsa. - Preciso fazer isso sozinha. É... para dar um ponto final.
O porteiro de seu antigo prédio olhou para ela com pena quando ela chegou. Ela o ignorou e subiu pelo elevador. Sua chave ainda funcionava.
Ela abriu a porta.
O apartamento estava uma bagunça. Havia caixas por toda parte. Evidentemente, Bryce havia começado a embalar as coisas dela.
Ela pegou uma mala e começou a jogar livros dentro dela. Suas mãos tremiam. *É só entrar e sair.*
A porta da frente se destrancou.
Stella paralisou.
Bryce entrou. Ele parecia desalinhado. Sua gravata estava frouxa, seus olhos, injetados. Em sua mão, ele agarrava um tabloide amassado.
Ele parou quando a viu.
- Stella - ele sussurrou. Deixou as chaves caírem. - Querida. Eu sabia que você voltaria.
Stella não olhou para ele. Ela fechou o zíper da mala. - Vim buscar minhas roupas, Bryce. Não você.
Ele atravessou a sala em três passadas largas e agarrou o braço dela. Enfiou o jornal no rosto dela. - O que é isto? Me explique!
Stella olhou. Era uma foto granulada dela e de Julian saindo do cartório, tirada do outro lado da rua. A manchete gritava: NOIVA EM FUGA CASA-SE COM FILHO AMALDIÇOADO EM CERIMÔNIA ÀS PRESSAS.
- A Monica... ela ameaçou retirar o investimento - Bryce divagava, ignorando o jornal agora. - Mas isso? Você se casou com ele? Para me provocar?
Stella olhou para a mão dele em seu braço. Depois, olhou para o rosto dele. O rosto que ela amara por três anos.
- Eu não fiz isso por você - disse ela, com a voz assustadoramente calma. - Eu fiz por mim.
- Você está sendo dramática - zombou Bryce, apertando mais o braço dela. - Você não sobrevive nesta cidade sem mim. Ouvi dizer que você fugiu com aquele aleijado, o Sterling. O que você vai fazer? Trocar as fraldas dele?
A raiva, fria e cortante, inundou as veias de Stella.
- Ele é duas vezes mais homem que você - ela cuspiu.
- Ele é um rejeitado! - gritou Bryce. - Está quebrado! Você vai estar mendigando na rua em um mês!
Ele tentou puxá-la para um abraço, um abraço possessivo e sufocante.
Stella viu um pesado vaso de vidro na mesa de entrada. Era um presente da mãe dele.
Ela não pensou. Reagiu. Ela torceu o braço, usando o ponto de alavancagem que aprendera em um vídeo de autodefesa no YouTube, e o empurrou para trás.
Bryce tropeçou, caindo sobre uma caixa. Ele parecia chocado. Stella nunca havia revidado antes.
- Eu me casei com ele, Bryce - disse Stella. As palavras pairaram no ar. - Legalmente. Agora sou a Sra. Sterling.
O rosto de Bryce empalideceu. - Você se casou com o rejeitado dos Sterling?
- Saia do meu caminho.
Stella pegou sua mala. Ela passou por ele, com o coração martelando na garganta.
- Ele não tem nada! - Bryce gritou atrás dela quando ela alcançou a porta. - Ele é um aleijado e um fracassado!
Stella bateu a porta. O som ecoou com um tom de finalidade.
Ela se encostou na madeira no corredor, suas pernas tremiam tanto que ela quase deslizou até o chão. Ela respirou fundo. Inspira. Expira.
Ela não era mais Stella Quinn, a vítima. Ela era Stella Sterling. E tinha uma guerra para lutar.