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Esposa de Mentirinha para o CEO

Esposa de Mentirinha para o CEO

Autor:: Viih Felix
Gênero: Romance
Sinopse Erick já teve tudo: uma carreira promissora, um casamento dos sonhos e uma mulher que parecia perfeita. Ângel, uma top model deslumbrante cujo nome era pura ironia. Porque, por trás do rosto angelical, se escondia o verdadeiro demônio. Depois de dois anos de um relacionamento infernal, ela o abandonou sem olhar pra trás. Meses depois, o divórcio chegou, e com ele, a dor do fracasso. Agora, anos mais tarde, Erick não é mais apenas o diretor de investimentos que ela desprezou, ele é o CEO de uma das maiores empresas de engenharia civil do país. E quando descobre que Ângel vai estar presente num evento que sua empresa patrocina, ele decide que não vai aparecer sozinho, nem por baixo. É aí que surge Melanie, uma jovem aprendiz doce, atrapalhada e determinada, que luta para manter as contas em dia. Ao descobrir que ela está passando por dificuldades, Erick faz uma proposta ousada: ele ajuda financeiramente, e em troca, ela finge ser sua namorada. O que era pra ser um simples acordo profissional vira um jogo perigoso de aparências, química e segredos. E quando as emoções começam a se misturar com o contrato, Erick percebe que, dessa vez, o risco não é perder um investimento é perder o próprio coração.

Capítulo 1 Erick

Prólogo - Erick

O nome dela ainda tem gosto amargo na minha boca. Ângel.

O anjo que me levou ao inferno.

Havia uma ironia quase poética nisso. Enquanto ela sorria para as câmeras, vendendo perfeição em capas de revista e desfiles internacionais, eu assistia, do outro lado do espelho, a mulher real, fria, calculista, ambiciosa até o último fio de cabelo loiro. Era linda, sim. Devastadoramente linda. Mas até o veneno mais mortal vem em frascos de vidro impecável.

Durante dois anos, vivi entre o êxtase e o caos. Ela me amava como quem destrói. E eu, cego, deixei.

O amor dela não era abrigo, era labirinto. E quando me dei conta, estava sozinho no centro dele, cercado por promessas quebradas e lembranças que ardiam.

Ela foi embora como quem sai de um quarto em chamas, sem olhar para trás.

Nenhum bilhete. Nenhum "adeus".

Apenas silêncio e, dias depois, a notificação fria de um divórcio.

Eu assinei. Sem ler. Sem pensar.

Assinei porque o orgulho fala mais alto que o desespero.

E depois, o tempo fez o que o tempo sempre faz: lapidou as ruínas e transformou a dor em combustível.

Eu deixei de ser apenas o diretor de investimentos que ela desprezou.

Hoje, sou o CEO da Multi Engenharia, uma das maiores empresas de construção civil do país. Tenho uma cobertura em São Paulo, ações espalhadas em três continentes, e uma fila de pessoas que fariam qualquer coisa por cinco minutos da minha atenção.

E ainda assim, às vezes, quando o relógio marca duas da manhã e o silêncio pesa mais que o sucesso, eu me pego pensando nela.

Não com saudade. Mas com aquela curiosidade venenosa de saber se ela ainda lembra o gosto do meu beijo.

Por ironia do destino, ou talvez por obra do universo, que adora brincar com as cinzas, o nome dela voltou a cruzar o meu caminho.

O evento beneficente da Fundação D'Avila, patrocinado pela minha empresa, anunciou sua presença na lista de convidados.

Top model, capa da Vogue, palestrante sobre empoderamento feminino.

Quase ri. A mulher que um dia me fez acreditar que o amor era um investimento seguro agora discursava sobre poder. Bonito isso.

Cínico, mas bonito.

E foi ali que decidi: se ela vai estar lá, eu também vou.

Mas não sozinho. Nem por baixo.

A diferença entre o homem que ela abandonou e o homem que vai aparecer naquele salão é simples: agora eu jogo com as cartas à mostra e com a vantagem de quem já não sente nada.

- Senhor Ribeiro? - a voz da minha secretária me arrancou dos pensamentos.

- Diga, Ananda.

- A nova estagiária chegou. Posso mandar entrar?

Olhei para o relógio. Eram quase três da tarde. Eu já devia estar encerrando o expediente, já que amanhã eu viajo logo cedo, mas alguma parte de mim gostava de testar o nervosismo dos recém-chegados.

- Mande entrar.

Ouvi a porta se abrir com um estalo discreto. E, em seguida, passos leves, incertos. Quando ergui os olhos, vi uma garota parada à frente da mesa e por um instante, o contraste entre nós me arrancou um meio sorriso.

Ela devia ter, no máximo, vinte e poucos anos. O cabelo castanho preso num coque desalinhado, e uma pasta contra o peito como se fosse um escudo. Vestia uma calça social simples e uma camisa branca que, claramente, não fora feita sob medida.

Não havia nada de extraordinário nela. E, ainda assim, havia algo desarmante.

- Boa tarde, senhor Ribeiro. - a voz saiu suave, trêmula. - Eu sou a Melanie. Melanie Duarte.

- Eu sei quem é. - apoiei o cotovelo sobre a mesa, estudando-a como quem analisa uma equação complexa. - A nova aprendiz, certo?

Ela assentiu, mordendo o lábio inferior.

- Sim, senhor. É... é uma oportunidade incrível trabalhar aqui. Eu... agradeço muito por...

- Respira. - interrompi, sem alterar o tom. - Está parecendo que vai desmaiar.

Ela piscou rápido, surpresa.

- Desculpe. É que... é o meu primeiro emprego de verdade.

- E o primeiro susto também, imagino. - inclinei ligeiramente para frente. - Dica me profissional: não peça desculpas por respirar. Aqui, fraqueza tem cheiro, e quem sente esse cheiro, morde.

Ela pareceu engolir as palavras, e por um segundo, percebi a pontada de medo misturada à determinação nos olhos dela.

Interessante.

Enquanto ela falava, sobre a faculdade, o estágio, os sonhos modestos de crescer na área, eu observava mais do que ouvia. Os gestos pequenos, as pausas, a forma como desviava o olhar e depois voltava, teimosa. Era o tipo de inocência que o mundo ainda não conseguiu corromper. E talvez por isso chamasse tanto atenção.

Quando ela terminou, fiz um breve silêncio.

- Está contratada.

- Mas, o senhor nem me entrevistou direito.

- Não preciso. - dei de ombros. - Já vi o suficiente.

Ela arregalou os olhos, confusa.

- O suficiente pra quê?

- Pra saber que vai me ser útil.

Ela piscou, desconcertada, e eu deixei o peso das palavras pairar no ar antes de continuar:

- Relaxe, senhorita Duarte. Não é uma ameaça. É um elogio. - me levantei, contornando a mesa com calma. - Ananda vai te mostrar a área de projetos amanhã cedo. Hoje, quero que descanse. Amanhã será um dia longo.

Ela assentiu, claramente aliviada, mas antes que virasse as costas, acrescentei:

- Ah, Melanie...

Ela parou na porta.

- Sim, senhor?

- Não se atrase. Odeio desperdício de tempo.

Ela abriu um pequeno sorriso, tenso, e saiu.

Quando a porta se fechou, fiquei alguns segundos olhando o espaço vazio que ela deixou. Um eco suave de perfume barato ainda pairava no ar. Algo simples, doce, quase familiar.

Suspirei, e um canto da boca se ergueu num sorriso cínico.

Melanie Duarte.

Doce, ingênua, esforçada.

Tomara que eu não me arrependa da decisão, essa Garota pode me ser útil, inteligente. Precisa ser comprometida com o trabalho, apesar de não ter experiência, tem currículo. Assim que saí da empresa a primeira coisa que vi foi um outdoor com a foto daquela a quem vou esmagar.

Capítulo 2 Erick

Erick Narrando

Meu nome é Erick Ribeiro, tenho 37 anos e chego à empresa todos os dias às oito da manhã, sem um minuto de atraso. Não por obrigação. Por disciplina.

O prédio ainda está despertando quando meu carro para na vaga reservada. O segurança se endireita no mesmo instante.

- Bom dia, senhor Erick.

Não respondo com palavras. Um aceno curto é suficiente. Aqui dentro, respeito não se pede. Se impõe.

O elevador sobe em silêncio. Meu reflexo no espelho devolve a imagem de um homem que não nasceu pronto, mas foi moldado na dor, no esforço e na perda. Quando as portas se abrem no último andar, o andar inteiro entra em alerta. Teclados param por um segundo. Conversas morrem no meio da frase. Cabeças se erguem.

- Bom dia, doutor Erick - dizem em coro contido.

Passo reto. Meus passos ecoam no piso de mármore como um aviso. Sou o CEO. O dono. O homem que começou pequeno e hoje comanda tudo isso.

Entro na minha sala e deixo o paletó sobre a cadeira. A parede de vidro me permite ver cada movimento lá fora. Gosto disso. Controle começa pela observação. Minha assistente bate duas vezes antes de entrar.

- Sua agenda está cheia hoje. Reunião com o conselho às nove, videoconferência às onze e o contrato internacional chegou para assinatura.

- Café preto. Sem açúcar. E traga o contrato agora - digo, sem tirar os olhos do tablet.

- Sim, senhor.

Ela sai rápido. Aqui ninguém demora. Aprenderam cedo que tempo comigo é coisa séria.

Enquanto analiso números, minha mente volta para um lugar que nunca me abandona. A vida não foi fácil comigo. Sou o mais novo de cinco irmãos, criado na pobreza, onde faltar era regra e sonhar era luxo. Minha mãe. Respiro fundo.

Ela tinha a saúde frágil. Precisava de tratamento. De médico. De dinheiro que a gente não tinha. Eu era jovem demais para entender, mas velho o suficiente para sentir a injustiça rasgar por dentro. Vi minha mãe definhar porque o sistema não perdoa quem nasce pobre.

No dia do enterro, diante do caixão dela, eu fiz uma promessa. Não chorei. Cerrei os punhos.

- Eu nunca mais vou perder ninguém que eu amo por falta de dinheiro - murmurei, só pra mim e pra ela.

E cumpri.

Dos cinco irmãos, fui o único que estudou. Trabalhei de dia, estudei à noite, virei madrugada. Enquanto muitos dormiam, eu estava acordado planejando como sair do lugar onde a vida tentou me enterrar. Não foi talento. Foi garra. Persistência. Raiva canalizada.

Hoje, sou o pilar da minha família. Sustento meu pai, ajudo meus irmãos, pago estudos para os meus sobrinhos, resolvo problemas. Eles sabem: quando precisam, me ligam. Mesmo morando sozinho, mesmo prezando minha privacidade, eu estou presente. Sempre estive.

Meu telefone vibra sobre a mesa. Nome do meu pai na tela. Atendo na hora.

- Fala, pai.

- Só liguei pra saber se você tá bem, meu filho.

- Tô sim. Já resolvi a consulta de amanhã, o motorista passa aí às sete.

- Você não esquece de nada.

- Não posso esquecer. O que aconteceu com a mãe não vai se repetir.

Silêncio do outro lado. Depois, um suspiro carregado de emoção.

- Tenho orgulho de você.

Encerro a ligação e volto ao trabalho. Emoção guardada. Aqui fora, ela não manda.

Às nove em ponto, entro na sala de reuniões. Todos já estão sentados. Ninguém ousa chegar depois de mim.

- Vamos direto ao ponto - digo, apoiando as mãos na mesa. - Não estou aqui para ouvir desculpas. Quero soluções.

Um dos diretores engole seco antes de falar.

- Tivemos um atraso no setor logístico.

- Atraso não é problema - corto, firme. - Falta de preparo é. Corrija ou será substituído.

O silêncio pesa. Eles anotam. Eu decido.

Ser temido não é sobre gritar. É sobre coerência. Sobre cumprir o que se promete. Sobre não abrir exceções.

Quando a reunião termina, todos saem mais rápidos do que entraram. Fico sozinho, observando a cidade lá embaixo. Lembro do garoto pobre que fui. Do homem que enterrou a própria mãe sem poder salvá-la. Do juramento feito em voz baixa.

Hoje, eu mando. Hoje, eu protejo os meus.

E ninguém, absolutamente ninguém, tira isso de mim.

Fui casado por dois anos com Angel. A mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Daquelas que entram em um ambiente e faz todo mundo parar pra olhar. Elegante, sorriso perfeito, aparência de capa de revista.

Por fora, um sonho.

Por dentro, um diabo disfarçado.

No começo, eu acreditei. Acreditei no amor, na parceria, no crescer juntos. Eu ainda não era quem sou hoje. Naquela época, eu era apenas um diretor, alguém em ascensão, mas sem o poder que carrego agora. E isso, pra ela, nunca foi suficiente.

Quando aquela maldita me largou, não houve conversa, nem respeito. Em poucos dias, Angel já estava estampando capas de sites e colunas sociais, assumindo um romance público com outro CEO. Um homem que, na visão dela, valia mais.

Enquanto eu juntava os cacos, ela brindava champanhe.

Virei piada.

Meu nome foi mastigado por jornalistas de fofoca, por comentários maldosos, por gente que nunca fez nada da vida, mas adora ver alguém cair.

- Erick Ribeiro foi trocado por um nome maior do mercado - diziam.

- Ambição demais e poder de menos - escreviam.

Aquilo quase me destruiu. Não vou mentir. Teve noite em que cheguei em casa, larguei o terno no chão e fiquei encarando o vazio. Não por saudade dela. Mas pela humilhação. Pela sensação de ser descartável.

Mas eu sobrevivi a coisa pior.

Sobrevivi à pobreza.

Sobrevivi à perda da minha mãe. Não seria uma mulher que ia me quebrar.

Transformei a dor em combustível. Trabalhei como nunca. Assumi projetos que ninguém queria. Fiquei até depois da meia-noite. Dormi pouco. Pensei grande. Fui estratégico.

Enquanto ela sorria para as câmeras, eu construía meu nome nos bastidores.

Até que o dia chegou.

Reunião do conselho. Sala cheia. Clima pesado. O então CEO estava desgastado, decisões erradas, números caindo. Eu permaneci em silêncio, como sempre. Observando.

Um dos conselheiros quebrou o gelo.

- Precisamos falar sobre sucessão.

Outro completou:

- O nome do Erick Ribeiro vem sendo citado com frequência.

Levantei o olhar. Não disse nada.

- Resultados sólidos, liderança firme, visão de longo prazo - continuaram.

Quando a votação aconteceu, não houve discussão. Unânime.

Meu nome ecoou naquela mesa como sentença.

Hoje, faz cinco anos que estou à frente da empresa. Uma empresa sólida, forte, com sede em São Paulo e atuação em nível nacional. Crescemos, expandimos, conquistamos respeito no mercado. Hoje, meu nome não é mais nota de rodapé em site de fofoca. É referência.

E Angel? Virou passado.

Mas eu não esqueci.

Um dia, e esse dia vai chegar, eu vou mostrar, não pra ela, mas pro mundo inteiro, que eu sou melhor do que qualquer homem pelo qual ela achou que valia a pena me trocar.

E quando esse dia chegar, eu não vou dizer uma palavra.

Os status falaram por mim.

Capítulo 3 Melanie

Melanie Narrando

Me chamo Melanie Duarte, tenho 21 anos e moro em Osasco, São Paulo. Sou nascida e criada aqui, conheço cada rua, cada barulho de ônibus passando cedo demais, cada vizinho que fala alto demais. Minha vida nunca foi fácil, mas também nunca foi vazia. Foi dura. E, muitas vezes, injusta.

Eu não tenho pai. Ou melhor tive.

Meu pai morreu de câncer quando eu tinha treze anos. Meus irmãos tinham sete e três. Até hoje dói lembrar disso. Ele era tudo pra mim. Meu porto seguro. Meu abrigo. Ele me chamava de Melzinha, dizia que eu era o pote de mel dele. Quando ele sorria, parecia que o mundo ficava menos pesado.

Quando ele ficou doente, a casa mudou. O silêncio tomou conta. As contas aumentaram. O medo passou a morar com a gente. Eu via minha mãe tentando ser forte, mas chorando escondida no banheiro. Eu vi meu pai emagrecer, perder a força, mas nunca perder o carinho.

- Cuida da sua mãe e dos seus irmãos pra mim, Melzinha - ele disse uma vez, segurando minha mão.

Eu prometi. E promessa, pra mim, é coisa séria.

Depois que ele morreu, minha mãe teve que assumir tudo sozinha. Virou doméstica, saía cedo, voltava cansada, com as mãos cheirando a produtos de limpeza e o corpo moído. Eu virei adulta antes do tempo. Enquanto outras meninas da minha idade pensavam em festas, eu pensava em horário de creche, lanche, uniforme e tarefa de casa.

De manhã, eu acordava cedo. Arrumava meus irmãos. Dava café. Vestia o mais novo.

- Anda, vem logo, senão a gente se atrasa - eu dizia, tentando manter a paciência.

Deixava o menor na creche. Ia pra escola com o do meio. Assistia aula pensando se tinha comida suficiente em casa. Quando a aula acabava, eu buscava os dois e voltava pra casa. Todos os dias. Essa foi minha adolescência.

Não reclamo. Fiz o que precisava ser feito.

Fiz alguns cursos, tentando melhorar minha situação. Entre eles, secretariado. Sempre gostei de organização, de papel, de arquivo, de tentar fazer tudo certinho. Quando fiz dezoito anos, consegui um trabalho na escolinha do meu irmão mais novo, ajudando nos arquivos.

Era simples, mas eu me sentia útil. Até ouvir comentários.

- Você é lenta, menina.

- Presta atenção, Melanie.

- Parece que não pensa.

Eu engolia seco. Precisava do emprego.

Depois, trabalhei em um restaurante, como caixa. Foi pior. Cliente acha que pode falar o que quiser quando vê alguém pobre atrás do balcão.

- Anda logo, garota.

- Você errou de novo?

- Gente assim nem devia estar aqui.

Eu sorria. Sempre sorria. Porque precisava do salário.

Sei que a humilhação vai me acompanhar em muitos lugares. Não sou ingênua. Sou pobre. Não tenho sobrenome importante. Não tenho quem me indique. E ainda por cima sou atrapalhada. Tropeço nas minhas próprias pernas, literalmente. Já caí sozinha no meio da rua, já deixei bandeja cair, já derrubei copo, já me embolei com palavras simples.

- Meu Deus, Melanie, você é um desastre - já ouvi rirem.

Sou. Às vezes sou mesmo.

Mas também sou a menina que segurou a família quando tudo desabou. Sou a irmã que virou mãe cedo demais. Sou a filha que cumpriu a promessa feita diante da cama de um pai doente.

Às vezes, chego em casa cansada, sento na cama e olho pro teto. Penso no meu pai. No jeito que ele me chamava.

- Minha Melzinha, meu pote de mel.

Fecho os olhos e deixo uma lágrima cair. Não de fraqueza. De saudade.

Minha mãe ainda luta todos os dias. Meus irmãos estão crescendo. Um deles já fala em faculdade. Quando ouço isso, meu coração aperta e sorri ao mesmo tempo. Talvez tudo tenha valido a pena.

Eu sei que o mundo não é gentil com gente como eu. Sei que vou tropeçar mais vezes. Sei que vou ouvir risadinhas, olhares de cima pra baixo, palavras duras.

Mas também sei quem eu sou.

E enquanto eu tiver força nas pernas, mesmo tropeçando nelas, eu continuo andando.

Porque eu aprendi cedo que parar nunca foi uma opção.

Eu só tive um namorado na vida. Um único. E foi ele quem acabou com toda a minha ilusão de amor.

O nome dele era Alan.

Meu vizinho. Conhecido no bairro, popular, daqueles que todo mundo elogia. Ele sempre aparecia com uma bala pro meu irmão, um chocolate pra mim, um sorriso fácil. Eu achava aquilo bonito. Atenção. Cuidado. Hoje sei que não era.

Alan era um pouco mais velho. Já tinha morado no exterior, gostava de contar histórias, fazia questão de parecer interessante. Um dia, do nada, ele disse que estava apaixonado por mim.

- Eu gosto de você, Mel.

Eu fiquei boba. De verdade. Ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito. Ou pelo menos eu achei que era daquele jeito. Pensei que finalmente alguém tinha me escolhido.

Começamos a namorar. Coisa simples. Conversa na porta, sentar no sofá, filme, risada baixa pra não chamar atenção. Eu acreditava. Acreditava mesmo.

Até aquele domingo.

Minha mãe foi para a casa da minha avó com meus irmãos. Eu trabalhei só até o horário do almoço no restaurante. Quando saí, Alan já estava me esperando com a moto.

- Eu te levo pra casa - ele disse.

Aceitei. Como sempre.

Entramos. Sentamos no sofá. Tudo normal. Conversa boba, televisão ligada. Até que o clima mudou. Ele ficou mais perto. Falou em dar um passo a mais.

- A gente já namora, Mel. - ele disse, sorrindo de um jeito diferente.

Antes que eu entendesse, a mão dele estava no meu corpo. Nos meus seios. Meu coração disparou. Eu me afastei na mesma hora.

- Não, Alan. Para.

- Qual é!

- Eu não quero. Eu não penso em fazer nada antes de casar.

Era meu sonho. Sempre foi. Casar virgem. Ele riu. Um riso frio.

- Eu nunca vou casar com você.

- Então por que tá comigo? - perguntei, confusa.

Ele respondeu sem hesitar, como se não fosse nada.

- Porque você é bonitinha.

Foi ali que tudo desmoronou. Eu tentei levantar. Tentei me afastar. Disse não. Disse várias vezes. Mas ele não ouviu. Ele me segurou. Tapou minha boca. Meu corpo travou. Minha cabeça gritava, mas minha voz não saía.

Alan me violentou no sofá da minha casa.

Quando acabou, ele se levantou, ajeitou a roupa e foi embora como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse arrancado algo de mim que eu guardava para um momento especial.

Eu fiquei ali. Parada. O corpo doendo. A alma em pedaços.

Levantei devagar. Peguei um pano molhado e limpei o sofá. Ainda bem que era de couro. Esse pensamento me envergonha até hoje, mas foi o que passou pela minha cabeça naquele momento. Eu só queria apagar qualquer vestígio. Qualquer prova. Qualquer lembrança.

Depois, fui pro banho. A água caía e eu chorava em silêncio. Chorava de vergonha. De medo. De nojo. De culpa, mesmo sabendo, lá no fundo, que eu não tinha culpa nenhuma.

Me olhei no espelho e quase não me reconheci.

- Fica quieta - eu disse pra mim mesma. - Ninguém precisa saber.

E decidi. Naquele dia, naquele banheiro, eu decidi não contar a ninguém. Nem pra minha mãe. Nem pra amigas. Pra ninguém. Decidi também que nunca mais deixaria outro homem chegar tão perto de mim.

Alan não levou só minha ilusão de amor.

Ele levou minha confiança.

Meu sonho.

Uma parte de quem eu era.

E desde então, eu carrego isso sozinha. Em silêncio. Como aprendi a fazer desde muito cedo. E nunca mais deixei homem nenhum, chegar tão perto de mim.

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