CAMILA NOGUEIRA
O ar na sala de estar de casa estava quase irrespirável. Eu sentia uma sensação ruim, parecia que algo terrível estava para acontecer naquele silêncio de velório.
Meu pai, Roberto, um homem que sempre foi o retrato da confiança, agora parecia uma sombra de si mesmo. Ele andava de um lado para o outro, como um bicho na jaula, e só parava para encarar a garrafa de uísque, lutando com a tentação de beber. Minha mãe, Luzia, estava encolhida na ponta do sofá, apertando as próprias mãos com tanta força que os dedos estavam brancos.
Eles tinham me mandado uma mensagem pedindo uma "conversa importante". Só pelo tom, eu já tinha ficado com o pé atrás.
Agora, olhando para eles, eu tive certeza que não era uma conversa, era o anúncio de um problema muito grande.
- Então? - quebrei o silêncio. - Vão me dizer o que aconteceu ou vão me deixar aqui morrendo de curiosidade?
Meu pai parou de andar. Quando ele me olhou, eu vi o tamanho do estrago nos olhos dele. O orgulho, a autoridade, a confiança, tudo tinha sumido. Só o que sobrava era um cansaço profundo. Ele abriu a boca, mas foi minha mãe quem falou.
- Filha, a gente... precisa que você ouça com a cabeça no lugar. E com o coração aberto.
- Mãe, você tá me assustando - respondi, sentindo um medo gelado tomar o lugar da impaciência. - O que aconteceu?
- A gente quebrou, Camila. - Meu pai finalmente falou.
A gente quebrou? Soava ridículo, uma piada sem graça. A família Nogueira não podia quebrar. Nós éramos sinônimo de grana e sucesso. A empresa do meu pai era uma fortaleza.
Eu dei uma risadinha nervosa.
- Isso é... algum tipo de brincadeira? Pai, se isso é pra me ensinar a ser humilde, é de péssimo gosto.
- Quem dera fosse brincadeira - disse ele, se jogando na poltrona como se não tivesse mais forças e escondeu o rosto nas mãos. - Acabou, filha. Tudo. Investi errado, confiei em gente que não devia... foi uma bola de neve. As dívidas são gigantescas. A gente vai perder esta casa. A empresa já era. Acabou.
Meu chão sumiu. A segurança que eu sempre tive na vida simplesmente evaporou, me deixando sem ar. Faculdade, carro, planos... tudo dependia deles.
Minha mãe sentou do meu lado e pegou minha mão.
- A gente sabe que é um choque, querida. Mas... tem uma solução. Uma única solução.
- Que solução?
- A família Vasconcelos - disse minha mãe, como se estivesse falando de deuses ou demônios. - Eles são nossos parceiros mais antigos. E sabem da nossa situação.
Meu pai levantou a cabeça. A vergonha no rosto dele era tanta que eu mal conseguia olhar.
- Arthur Vasconcelos fez uma proposta. Ele cobrirá todas as nossas dívidas e vai investir na empresa.
Um pingo de alívio surgiu no meu peito, mas logo foi esmagado pela dúvida.
- E o que ele quer em troca? Porque nenhum Vasconcelos faz esse tipo de caridade.
O silêncio voltou, ainda mais suspeito. Minha mãe apertou minha mão, com seus olhos me implorando por alguma coisa.
- Ele quer uma aliança - disse ela, medindo as palavras. - Uma fusão. Pra fechar o acordo... ele propôs um casamento.
Eu puxei minha mão de volta como se tivesse levado um choque. Olhei pra ela, depois pra ele, e a ficha começou a cair, me dando enjoo.
- Casamento? - repeti, a palavra soando estranha na minha boca.
- Com você, filha - confirmou meu pai. - Ele quer casar com você.
A ideia era tão absurda, tão medieval, que meu cérebro se recusava a aceitar. De repente, uma vontade de rir de nervoso subiu pela minha garganta e eu gargalhei.
- Vocês estão loucos - falei, me levantando em um pulo. A risada sumiu, dando lugar a uma raiva que queimava por dentro. - Vocês dois piraram de vez! Estão me dizendo que a solução é me vender pra um cara que eu nem conheço?
- Não fale assim, Camila! - minha mãe se levantou também. - Não é uma venda, é a nossa salvação! Você não entende?
- Eu entendo perfeitamente! - gritei, apontando para a sala. - Entendo que vocês querem jogar a minha vida no lixo pra salvar os móveis e o status de vocês! E o Felipe? Esqueceram que estamos noivos?
Quando eu falei o nome dele, o rosto do meu pai se fechou.
- Felipe? Aquele aproveitador não tem onde cair morto. O que você acha que ele vai fazer quando descobrir que o papai aqui não tem mais um centavo pra bancar os luxos de vocês?
- Ele me ama! - defendi, sentindo meu peito doer. - O Felipe está comigo por quem eu sou, não pelo seu dinheiro! Ele é um cara bom, honesto, coisa que vocês nem lembram mais o que é!
- Honesto? - minha mãe se meteu. - Camila, por favor, escuta a gente. Esse rapaz não presta. Ele te engana com esse papo bonito, mas só está de olho no que a gente pode dar. Nós vemos isso, por que você não vê?
Aquilo foi o limite. Além de falidos, além de quererem me vender, ainda tinham a coragem de atacar a única coisa boa na minha vida.
- CHEGA! - berrei, com a voz rouca de raiva. - Não quero ouvir mais nada. Vocês não vão me usar de moeda de troca. Não vão destruir a MINHA vida pra consertar a merda que VOCÊS fizeram!
Virei as costas e marchei para o meu quarto.
- Camila, espere! - minha mãe veio atrás de mim e segurou meu braço. - Não faz isso. Pensa na nossa família.
- Minha felicidade também é importante! - me soltei dela. - E eu não vou passar o resto da vida presa a um estranho. Eu vou ficar com o Felipe. A gente vai dar um jeito, construiremos nossa vida juntos com amor e esforço.
Entrei no quarto e bati a porta. Sem pensar duas vezes, peguei minha mala e joguei na cama. Com as mãos tremendo de adrenalina, comecei a enfiar minhas roupas de qualquer jeito lá dentro. Minha mão parou em cima do porta-retratos na cabeceira. Uma foto minha e do Felipe na praia, sorrindo. Olhar aquela foto me deu força. Meus pais estavam errados. O Felipe ia provar isso.
Peguei minha bolsa, a mala e abri a porta. Minha mãe estava parada no corredor, arrasada.
- Por favor, filha, não vai. Você está cometendo um erro terrível. O Felipe não é quem você pensa que ele é.
- É mesmo, mãe? Descobri hoje que as únicas pessoas que não são quem eu pensava são vocês - falei, com a voz fria.
Passei por ela sem olhar pra trás. Desci as escadas, passei pelo meu pai, que continuava sentado, paralisado, e abri a porta da frente.
Joguei a mala no banco do carona e dei a partida. Enquanto eu me afastava da casa onde cresci, eu não sentia tristeza. Só uma raiva determinada. Eu estava indo para o meu verdadeiro lar. Para os braços do homem que me amava e que ia me proteger de tudo aquilo.
Eu estava completamente enganada. Mas, naquele momento, enquanto pisava fundo em direção ao apartamento do Felipe, eu não fazia ideia da cena que ia encontrar.
CAMILA NOGUEIRA
Com a raiva me servindo de combustível, o caminho até o apartamento do Felipe pareceu levar mais tempo. Cada semáforo fechado era uma tortura, cada carro lento na minha frente, era um inimigo. Eu só queria chegar, me jogar nos braços dele e deixar que ele me dissesse que tudo ficaria bem, que meus pais eram os loucos e que o nosso amor era a única coisa que importava no mundo. Estacionei de qualquer jeito na vaga em frente ao prédio, peguei minha mala e a bolsa, pronta para construir nossa nova vida.
Subi os lances de escada com o coração martelando, continuava furiosa pela briga, mas estava ansiosa para vê-lo.
Peguei a chave reserva que ele me deu e a enfiei na fechadura. Girei devagar, querendo fazer uma surpresa, imaginando o sorriso dele ao me ver ali, de mala e tudo, pronta para começar nossa história de verdade, longe de tudo e de todos.
Empurrei a porta e entrei. O apartamento estava silencioso.
- Felipe? Amor? - chamei, deixando a mala perto do sofá.
Nenhuma resposta. Achei estranho. O carro dele estava lá embaixo. Caminhei pelo corredor, passando pela cozinha. Uma taça de vinho com marca de batom estava na pia. Não era meu batom.
Uma pontada de desconforto me atingiu, mas eu a ignorei. Talvez a irmã dele tivesse passado por ali. Foi quando ouvi. Um som baixo, vindo do nosso quarto. Uma risada feminina, abafada. Meu corpo inteiro gelou. Não era a risada da irmã dele. Era uma risada que eu conhecia como a minha própria.
Minhas pernas pareceram se mover sozinhas, me levando até a porta fechada do quarto. O som ficou mais claro. Gemidos. Murmúrios. O sangue sumiu do meu rosto. Minha mão, trêmula, alcançou a maçaneta. Eu não queria abrir. Cada fibra do meu ser gritava para eu dar meia-volta e ir embora, mas eu precisava saber. Eu precisava ver.
Girei a maçaneta e empurrei a porta de uma vez.
O ar foi roubado dos meus pulmões. A cena na minha frente era como um pesadelo, uma imagem que meu cérebro se recusava a processar.
Na nossa cama, nos nossos lençóis, estava Felipe. E embaixo dele, gemendo o nome dele, estava a minha tia Lúcia.
Eles levaram um segundo para me notar, parada na porta. O grito que eu queria soltar morreu na minha garganta, transformado num soluço sufocado. Felipe se virou, com os olhos se arregalando. Minha tia se cobriu com o lençol, o rosto contorcido em choque e irritação. Não havia culpa, nem remorso.
- Camila? - a voz de Felipe saiu falhada. - O que... o que você está fazendo aqui tão tarde?
Isso é o que ele iria dizer?
- O que eu estou fazendo aqui? - consegui sussurrar, minha voz soou irreconhecível aos meus ouvidos. - O que ELA está fazendo na nossa cama?!
- Ah, minha querida sobrinha, não seja tão dramática - disse minha tia Lúcia, a voz arrastada de quem foi interrompida. Ela se sentou, o lençol mal cobrindo seus seios.
- Tia? - olhei para ela, sentindo o mundo girar. A minha tia, minha confidente, a mulher que me dava conselhos sobre o Felipe e era como uma segunda mãe. - Como você pôde?
Felipe saiu da cama, procurando as calças no chão. Ele não conseguia me encarar.
- Camila, olha, não é o que parece...
- NÃO É O QUE PARECE? - meu grito finalmente veio, rasgando o silêncio. - EU ENCONTRO MEU NOIVO NA CAMA COM A MINHA TIA E NÃO É O QUE PARECE?
- Fala baixo! - ele rosnou, agora me olhando com raiva. - Quer que os vizinhos ouçam?
A frieza dele me quebrou. As lágrimas que eu segurava começaram a cair, queimando meu rosto.
- Eu larguei minha família por você, Felipe. Eu briguei com meus pais, saí de casa por você!
Ele soltou uma risada amarga.
- Grande coisa! A família que está falida? Que não tem mais onde cair morta? Preciso de alguém diferente para me bancar agora, não é? Sua tia tem como.
O queixo da minha tia Lúcia se ergueu, um sorriso presunçoso nos lábios manchados do batom vermelho.
- Sinto muito, querida. Não tenho culpa se tenho mais dinheiro e sou bem melhor de cama que você. Você devia ter aprendido alguma coisa com meus conselhos, querida. Talvez tivesse conseguido prendê-lo se soubesse fazer algo bom na cama. Felipe me contou como era enfadonho te ter na cama.
- Eu até teria me casado com você, mesmo com essa vida sexual frustrante, se ainda tivesse o dinheiro dos seus pais. Mas agora que a Lúcia me contou sobre a situação dos Nogueira, vou ser amante dela.
Aquelas palavras foram o fim. Eu era o degrau que ele usou, e agora que não servia mais, era descartada. E minha tia, minha própria família, era sua cúmplice.
Não havia mais nada a dizer. A dor era tão grande que se transformou em dormência. Virei as costas para eles, para o quarto que um dia foi nosso, para a vida que eu achei que teria. Saí do apartamento sem olhar para trás.
Entrei no carro e tranquei as portas. Fiquei parada, com as mãos no volante, olhando para o nada. A mala no banco do carona agora era uma piada de mau gosto. Eu não tinha mais para onde ir. A família que eu abandonei, o homem que eu amava, a tia que era como uma mãe... tudo, absolutamente tudo, foi destruído naquele instante.
Dei a partida no carro e comecei a dirigir. Sem rumo. As luzes da cidade eram borrões através das minhas lágrimas.
Eu estava completamente sozinha, despedaçada no meio dos escombros do que um dia foi a minha vida.
CAMILA NOGUEIRA
Eu não sabia para onde estava indo, apenas que precisava continuar em movimento, como se parar significasse permitir que a dor me alcançasse e me engolisse por inteira. Cada farol vermelho era uma pausa forçada na minha fuga, um momento em que a imagem deles, na cama, voltava com força.
As palavras cruéis que eles atiraram em mim se repetiam na minha cabeça, um loop infernal de humilhação. "Melhor de cama que você." "Vida sexual frustrante." "Agora que a Lúcia me contou sobre a situação dos Nogueira...".
Fui descartada quando meu valor de mercado despencou.
Depois de rodar por horas, o tanque de gasolina quase vazio e meus olhos ardendo de tanto chorar, a exaustão finalmente venceu. Avistei a placa de um hotel de beira de estrada, com um letreiro onde a letra "H" piscava em um ritmo doentio. Parei o carro no estacionamento mal iluminado.
O recepcionista mal me olhou, pegou meu dinheiro e me entregou um cartão-chave de plástico. O corredor cheirava a cigarro velho e desinfetante barato. Cada passo no carpete puído parecia sugar o resto das minhas forças. Encontrei meu quarto, o número 27, e lutei com a fechadura até a porta abrir.
O quarto era pequeno e triste. Uma cama com uma colcha fina de estampa duvidosa, uma TV antiga aparafusada na parede e uma janela que dava para um muro de tijolos. Fechei a porta e girei a trava. Minhas costas deslizaram pela madeira da porta até eu estar sentada no chão, e então o dique se rompeu. O choro veio com a força de um animal ferido, um som feio, gutural, que rasgava minha garganta.
Chorei pela traição do homem que eu amava, pela facada nas costas da minha tia, pela minha própria estupidez cega. Chorei pela família que eu tinha acabado de abandonar por uma mentira.
Minha mente me forçou a reviver tudo. As peças do quebra-cabeça, antes invisíveis, agora se encaixavam com uma clareza torturante. Lembrei-me de meses atrás, quando desabafei com minha tia, dizendo que às vezes sentia Felipe um pouco distante. Lembro-me do conselho dela, dado com um sorriso cúmplice. "Homens são assim mesmo, querida. Você precisa apimentar as coisas, surpreendê-lo. Não pode deixar a rotina tomar conta.". Na época, pareceu um conselho de uma mulher experiente. Agora, eu via a verdade: ela estava me ensinando a competir com ela, sabendo que eu perderia.
Lembrei de todas as vezes que Felipe criticou meus pais, chamando-os de controladores, dizendo que eles não queriam me ver feliz. "Eles não confiam em mim porque eu não sou do mundo deles, meu amor. Mas a gente vai provar que o nosso amor é mais forte que o dinheiro.". Que piada.
Ele não queria me libertar dos meus pais, queria me isolar da única proteção que eu tinha. As críticas dele sobre nossa intimidade, que eu sempre interpretei como brincadeiras ou falta de jeito, agora soavam como a mais pura verdade.
"Enfadonho te ter na cama.". A humilhação era tão profunda que me dava ânsia de vômito.
Minha mãe viu. Meu pai viu. E eu, cega de um amor que só existia na minha cabeça, fui contra eles.
Quando as lágrimas finalmente secaram, restou apenas um vazio gelado. Levantei-me, com o corpo todo doendo, e me olhei no espelho manchado sobre a cômoda. A garota que me encarava de volta era uma estranha, com os olhos inchados e vermelhos, o rosto marcado pela dor e a expressão de quem tinha chegado ao fundo do poço.
O que eu ia fazer agora?
Sentei na cama, peguei meu celular e abri o aplicativo do banco. O número na tela era uma piada. Eu tinha um pouco de dinheiro, o suficiente para talvez mais um mês naquele hotel miserável e minha alimentação.
Comecei a contemplar minhas opções, uma por uma, e cada uma delas era um beco sem saída.
Voltar para casa seria enfrentar a humilhação de admitir que eles estavam certos, que o homem pelo qual eu abandonei tudo era um lixo e que eu fui uma idiota completa... não, eu não conseguiria suportar. Meu orgulho, mesmo ferido, não me permitiria.
Foi nesse momento de desespero total que meu telefone vibrou sobre a colcha, interrompendo o silêncio do quarto. A tela se acendeu mostrando a foto do meu pai. Meu coração deu um salto. Uma parte de mim queria ignorar, se afundar na autopiedade. Mas outra parte, a garotinha em mim, esperando ser salva por ele, me fez deslizar o dedo e atender.
- Alô?
- Camila? Graças a Deus. - A voz do meu pai do outro lado não era de raiva, nem de acusação. Era a voz de um homem derrotado, cheia de um cansaço que espelhava o meu. - Você está bem? Está com Felipe?
- Eu... eu estou bem - menti.
- Vamos, querido. Peça com gentileza! - Ouvir minha mãe ordenar ao longe.
Houve uma pausa, e eu pude ouvi-lo respirar fundo, como se tomasse coragem.
- Filha, eu... Só me escute. - Ele hesitou. - A proposta da família Vasconcelos ainda está de pé. Arthur quer uma resposta até amanhã. - Sua voz falhou por um instante. - Por favor, pense na sua família. Pense em nós. Pense na vida que você poderia ter, que futuro espera ao casar com esse rapaz que não pode te dar a vida que deseja?
- Vou pensar papai. - Falei sem pensar. Meu pai ficou em silêncio como se estivesse em choque.
- O quê? O que ela disse? - Ouvi minha mãe novamente.
- Ela disse que vai pensar.
- Eu disse que estava certa, ela nunca nega nada quando você pede com carinho. Nossa princesa é inteligente. - Não sou não, mãe.
- Tá bom, fica quieta um pouco. Filha, você acha que pode tomar uma decisão até amanhã? - Perguntou se voltando para mim.
- Sim, papai. Amanhã eu respondo. Boa noite.
Desliguei o telefone sem esperar resposta.
Horas atrás, aquela ideia era a coisa mais revoltante do mundo, um atentado contra o meu amor e a minha liberdade. Agora, sentada naquele quarto de hotel fétido, com o coração em frangalhos e o futuro em cinzas, a proposta soava diferente.
Não era mais um insulto. Era uma corda.
Uma corda lançada no buraco profundo e escuro onde eu tinha caído. Arthur Vasconcelos. Um contrato. Contratos não mentem. Contratos não traem na sua cama com a sua tia. Contratos têm regras e consequências claras. Depois da escolha emocional que destruiu minha vida, a lógica fria de um acordo parecia... segura.
Olhei ao meu redor. Para a mancha de umidade no teto e para a solidão esmagadora. Este era o futuro que o amor me deu. O que o dinheiro poderia me dar? Tudo.
Falei para o meu pai que ia pensar. E eu pensei.
Não preciso do amor do meu marido, até porque não acredito mais nesse sentimento. Era hora de tentar acreditar em algo diferente.
Peguei meu telefone e disquei novamente. Meu pai atendeu rápido.
- Oi pai, eu vou me casar com Arthur Vasconcelos.