GEORGE
John me chamou e disse que era urgente. O homem do outro lado da mesa era incrivelmente magro, seus olhos e pele emaciados, o vigor e a força que sempre estiveram presentes não estavam mais ali, mas a aura continuava a mesma. Nenhuma palavra saiu da minha boca.
Olhando para mim, John logo fez sinal para que eu me sentasse.
"Faz tempo que eu não te vejo, se eu não te peço para vir não te veria nessa vida."
O espanto se apoderou de mim.
"Que droga é essa?" pensei.
"O que quer dizer? " eu perguntei me sentindo inquieto.
" Estou morrendo", disse John tranquilamente.
"Como assim? Acho que não ouvi direito", senti um calafrio passar por mim. John era meu mentor, meu amigo, a família que escolhi.
Todo mundo tem prazo de validade George, eu também. Pensou que eu ia viver para sempre? Desculpe te decepcionar", disparou o John no seu tom habitual. Duro, inflexível, sarcástico, mas correto. Sempre foi assim, direto ao ponto, um homem de palavra. Portanto o que ele acabou de dizer era um fato pronto e acabado.
Quanto tempo?" perguntei quando me recobrei das palavras que ouvi.
"Logo, de 1 a 3 meses no máximo, talvez antes, talvez depois", ele disse indiferente, rodando levemente de um lado para o outro na cadeira executiva.
"Quando você soube? O que é? Você teve mais opiniões? Por que você não me disse antes?", uma enxurrada de perguntas de repente vazou da minha boca. Eu definitivamente não estava preparado para isso. O John sempre esteve comigo desde que me lembro, era meu ponto de apoio e o meu Norte e quando fiquei encurralado nos negócios, sempre foi o seu conselho.
"Que droga é essa?", eu recusava acreditar no que ele disse.
Os olhos do John me acertaram em cheio.
"Que droga é essa? Esse não é você. Você me conhece! Claro que eu tive mais de uma opinião, aqui e no exterior, se não para que serve o dinheiro? E, para você saber, fiquei sabendo há pouco tempo. Mas não é por isso que te chamei aqui."
Isso mesmo, emoções não era a praia do John. Direto ao ponto. Então o que ele diria a seguir era algo como um plano, um testamento, a ser executado que com certeza ele já tinha pensado muito de antemão. Me preparei para ouvir o discurso mais duro e doloroso do meu amigo. Aprendi ao longo dos anos com ele a ficar firme e indiferente, mesmo que o mundo estivesse pegando fogo ou desmoronando e era justamente o caso, pelo menos o meu caso, porque o John estava frio como sempre, nem parecia que alguma coisa era com ele.
"Bom, direto ao ponto George, você sabe que eu não gosto de rodeios. Eu não a quero aqui me vendo afundar, a coisa agora só vai morro abaixo e não preciso levar ninguém comigo. É a minha experiência e eu vou passar comigo mesmo, você sabe que terei toda assistência médica que preciso e o que não preciso é de você e dela ficando com pena de mim. As coisas do funeral já foram todas providenciadas, mas eu quero que você a leve com você. Você vai fingir que não sabe de nada para que ela não fique com raiva de você. É minha decisão final."
Olhei para John impotente, porque eu sabia que a decisão estava tomada e não havia nada a fazer.
John continuou num tom de voz monótono me informou que Shane, seu braço direito, estaria debaixo de minhas ordens a partir de agora e que estava passando todas as incumbências do Grupo Houston para mim, além de detalhes e pormenores necessários.
Esse dia foi memorável, porque estava perdendo meu apoio e assumindo uma responsabilidade enorme de manter o seu legado. Eu não posso falhar, não com o John. Além disso, ainda havia Jackyn, e eu não sabia o que me aguardava, porque não a via há anos.
John rapidamente finalizou os ditos preparativos, chamando Shane e me apresentando formalmente como o novo CEO do Grupo Houston.
"Shane, prepare a papelada e mantenha tudo em ordem, porque você sabe que será os olhos, ouvidos, mãos e pernas de George aqui, porque ele estará partindo amanhã e tudo tem que ser providenciado, não há lugar para erro. Você será o CEO robótico aqui, mas as decisões virão diretamente da mesa do George, a última palavra é dele. Ninguém pode saber disso ou os abutres vão se reunir para despedaçar o Grupo e nesse momento eu não posso lidar com isso e o George ainda tem que arrumar a casa e acomodar as coisas. No final, tudo vai passar para a Jacklyn, quando ela estiver pronta para assumir."
Vi um traço de pena nos olhos de John pela primeira vez quando olhou para mim.
"George, sei que a carga é pesada nesse momento, mas você sabe que eu não tenho alternativa. Eu espero ter te ensinado bem e que você possa ensinar a Jackyn. Esse nosso mundo não é para os fracos, não mostre fraqueza ou eles te comerão vivo. A Jacklin é bonita como a mãe dela, mas por dentro é mais dura do que eu, não ceda ou você vai se arrepender. Ela ficou anos no exterior até a formatura e tem trabalhado aqui para aprender no último ano, mas é crua e falta muito ainda para chegar ao ponto de poder assumir tudo o que precisa, então conto com você."
"Eu tenho alternativa? Que diabos vou enfrentar com Jacklin? Mais dura que John? Deve ser piada, John é o mestre, nem agora que está morrendo muda uma vírgula", pensei irritado, mas ao mesmo tempo conformado.
"É hora de retribuir tudo o que John fez por mim todos esses anos, realmente todo cachorro tem o seu dia. Esse é o meu dia de pagar o que recebi", firmei meus pensamentos e acenei com a cabeça.
"Shane, chame Jacklyn agora", John falou secamente e me fixou nos olhos. Me preparei para o que estava por vir sem nenhuma curiosidade, minha quota para surpresas já havia sido esgotada.
A porta abriu e uma figura de terno se aproximou com passos firmes. Apesar de jovem, a forte aura nobre me fez entender o que John havia me dito sem que ela precisasse abrir a boca.
John limpou a garganta, "Jacklin, esse é George, você lembra dele?". Os olhos dela pousaram em mim brevemente e ela balançou a cabeça negando. John insistiu, "vocês brincaram juntos algumas vezes e o George cuidou de você também, mas se você não lembra, tudo bem. Já faz muito tempo mesmo".
John começou a massagear suas têmporas e prosseguiu dizendo a que veio: "Jacklin, estou passando o Grupo Houston para o George, o Shane vai assessorá-lo daqui. Você vai agora com o George e vai assessorá-lo no Grupo Farrow."
Jacklyn, moveu os ombros e o pescoço como um lutador antes de entrar no ringue, olhou para John firmemente e depois de um momento, deu um passo à frente de John e lançou secamente "NÃO".
Pisquei espantado e involuntariamente olhei para John, mas ao que parece ele já esperava por isso. "Não o quê?", cuspiu John.
"Não vou para o Grupo Farrow, por que eu iria? Por que Shane vai assumir aqui?", ela devolveu a bala.
"Porque eu estou dizendo. Enquanto eu estiver aqui eu dito as regras. Fui claro?", disse friamente John.
"Foi claro, mas continua sendo NÃO", redarguiu Jacklyn.
"Não é uma proposta, é uma ordem", afirmou John estreitando os olhos. Jacklyn também estreitou os olhos se preparando para o contra-ataque.
Os dois estavam se enfrentando e o clima estava abaixo de zero muitos graus e não parecia que a garota cederia. Mas John puxou sua carta rapidamente.
"Jackyn, você vai fazer o que eu disse. Não pense que pode sair da empresa e ir para outro lugar, as portas estarão fechadas, eu já providenciei. Aqui você só pode ficar se for nos meus termos. O George e o Shane estão debaixo das minhas ordens e eles vão dar as cartas e você vai seguir o fluxo. Mas há outra alternativa...", disse John sorrindo levemente e estreitando os olhos.
Jacklyn estava furiosa, na sala silenciosa, dava para ouvir a respiração dela sibilar, seu maxilar travado, seus olhos estreitos fixos em John, como se quisesse despedaçá-lo.
"Você pode jogar todos os anos de estudo, de pós-graduação, de MBA, para o alto e viver como informal, vender cachorro-quente, pipoca, se quiser, porque aonde o Grupo Farrow ou Houston tem influência, você não pode trabalhar em nenhuma empresa e nem abrir uma empresa, fui claro o suficiente? Mas a opção é sua", a voz de John era tranquila como um lago.
Nunca pensei que John fosse duro e inflexível assim com sua própria filha, ele a encurralou sem pestanejar, sem se importar que ela sentisse raiva, mesmo na condição atual dele.
Shane e eu éramos apenas expectadores, esperando a ação seguinte.
"Pois bem, senhor John Houston, o senhor é o chefe, o CEO, então vou obedecer a suas ordens", assoviou Jacklyn num tom de gelar o sangue.
Ela girou nos calcanhares e se dirigiu para a porta, parando por um momento e se virando, "não me culpe", disse ela.
"EI!!!", gritou John. Ela parou.
"Volte aqui", John exigiu.
"Estou bem aqui", ela olhou de soslaio.
"Você está TERMINANTEMENTE PROIBIDA DE CAUSAR PROBLEMAS AO GEORGE OU AO SHANE, você entendeu?", rosnou John.
Jacklyn não respondeu, apenas deu um meio sorriso, o que a fez parecer perversa.
"SIM SENHOR", ela respondeu como se estivesse no exército.
John olhou para mim, como se estivesse me avisando com o que eu estaria lidando.
"Faça as malas Jacklyn, amanhã você vai com o George", rapidamente John deu o recado.
"O quê?" Jacklyn respondeu por impulso, mas logo se corrigiu, como se não fosse nada, "OK", acenou com a cabeça, cerrando os dentes e arregalando os olhos e lançando adagas para o John.
Jackyn saiu andando duramente sobre os saltos e John deu um longo olhar para nós dois por um momento e passou ao detalhamento do que era importante, não podia haver pontas soltas.
GEORGE
No aeroporto, na sala VIP, vi Jacklyn chegar arrastando suas malas, de óculos escuros, com os cabelos presos bem apertados em um coque, seu semblante irritadiço mesmo assim era bonito. Ela nem me cedeu um olhar. Estava fervendo. Pelo jeito eu teria muito com o que lidar, John jogou a bomba em mim literalmente.
Viagens internacionais tem esse protocolo de chegada de duas horas, já tomei café, li as notícias financeiras do jornal local e da internet, já atendi a várias ligações do escritório, mas o tédio é grande. Meus olhos passeiam e pousam no rosto adormecido de Jacklyn. Eu também não me lembro dela. Eu já cuidei dela? Já brincamos juntos na infância? Acho que não. Não lembro mesmo. Ela está cochilando recostada em seu assento. Eu sorrio. Como alguém consegue dormir numa sala de embarque? Hoje ela está casual, de jeans e sapatilhas, com um casaco leve. Não está usando maquiagem, só um leve tom na boca. Enquanto ela dorme, aproveito para dar uma boa olhada. Parece uma colegial ou uma garota de faculdade, deve ter 1,70? No escritório parecia ser muito mais alta e bem mais velha...deve ser o efeito Houston! O John me avisou que ela não era fácil. Vai ver que foi por isso que ele deu logo o golpe de misericórdia e a deixou sem opções. Vou ter que aprender com John essa tática, pelo visto é eficaz com ela. Ela tinha os olhos azuis do John, mas no mais, não se parecia com ele, deve ser como ele disse, a beleza é da mãe. Ela definitivamente é muito linda. Olho de novo. Bem bonita, pernas longas, seios... Cara...vou olhar para outra coisa que não me dê problemas adicionais.
Nunca tive falta de mulheres ao redor, mas nunca me interessei em ter um relacionamento. O meu negócio é o jogo e o jogo é o meu negócio. O Grupo Farrow está expandindo, sempre está expandindo. É o meu negócio. Farrow é o sobrenome da minha mãe. O negócio da família é o Grupo Stern. Longa história. Stern é o sobrenome do meu pai. Só que desse negócio, estou fora, nem quero ouvir notícias. E agora tem o Grupo Houston... Circunstâncias novas, jogo novo, mas o tabuleiro é desconhecido e a partida já começou... vou pegar o bonde andando. Desafio é o que move a vida, não é? Palavras do John. Ainda não acredito que ele está partindo. Talvez essa tenha sido a última vez que o vi nessa vida. "Meu padrinho", saiu da minha boca, enquanto lembrava da minha mãe. John era casado com a irmã da minha mãe, mas para mim, não era tio, era padrinho, a pessoa mais próxima de mim nessa vida.
A voz estridente soou anunciando o embarque. Jacklyn acordou e imediatamente foi para o portão de embarque, como se pudesse me deixar para trás. Serão longos dias. Eu sorri para mim mesmo. A vida não é para os fracos.
JACKLYN
Meu sangue está fervendo. Que ódio do meu pai! Que negócio é esse de me mandar para o Grupo Farrow? Não foi para isso que eu estudei todos esses anos. Já faz 1 ano que estou no Grupo Houston, por que em nome de Deus ele passaria todos os negócios para o Shane? Será que ele arrumou uma mulher? Vai tirar de férias? Por que eu tenho que me reportar a esse George? Será que o meu pai é um maldito misógino? Eu não estava indo bem na empresa? Eu cuido muito bem de todos os assuntos que ele me passou muito melhor que qualquer homem! E por que, então, eu não posso ficar com o Shane na Houston? Farrow? Que droga!!!
Levei a noite toda fazendo as malas. Caramba!
"É o seguinte queridinha...estou te chutando da empresa e também da cidade e do País, ok?", porque trocando em miúdos foi isso que meu pai me disse e me obrigou a aceitar. Isso é um pai?
Ahh!!! Lembrei!!! Tem mais! "Está vendo esse George, pois é, ele é seu amiguinho e agora você vai ser a serva dele, vai fazer tudo o que ele mandar, tá bom?"
Minha ira está nas nuvens. Meus olhos ardem como se tivessem lança chamas acesos, de raiva e de cansaço. Minha cabeça lateja. Que ódio!!! Que ódio!!! Que ódio!!! Mas ninguém vai me derrubar, no final, bem no final a última mão, a última cartada é minha. Vamos ver, senhor John, George e Shane quem ri por último.
Estou arrastando as malas para a sala VIP, minha boca está amarga, minha mente está a mil, não dormi nada a noite passada fazendo malas.
Bato o olho e lá está o George, muito despreocupado lendo o jornal. Decerto é a folha financeira, nem precisa ser adivinho. Nem cumprimento, se abrir a boca acho que posso matar alguém. Me sento e sinto a exaustão ir tomando conta de mim, física, mental e emocional. Meus olhos pesam. Meu olhar vai para George. Maldito homem, por que ele veio falar com o meu pai? Pelo menos o infeliz é bonito. Não vou perder tempo com isso...vou aproveitar e dormir um pouco, senão vou terminar surtando e não podemos sair do salto, não é?
Que voz irritante tem esse pessoal que põe para informar os voos, até parece que escolhem a dedo!!! Pego minhas malas e meu assistente me ajuda e sair o mais rápido possível, não quero nem olhar para esse George.
Ainda não montei minha estratégia para lidar com ele, então quanto menos interação melhor. Primeiro tenho que estudar o território e o inimigo e depois partir para a guerra aberta ou talvez usar táticas de guerrilha, enfim tudo vale quando o resultado é vencer no final, mas por hora vou esconder as garras e só analisar as condições do terreno.
"Se eles pensam que eu sou um café pequeno, fácil de lidar, vou dar uma pequena surpresa", curvei meus lábios com esse pensamento, nem posso esperar para fazê-los se arrependerem.
A comissária de bordo me indicou meu assento, já saquei meu protetor de olhos, pronta para dormir de novo, quando vi George se sentar ao meu lado. "Mentira...não acredito", pensei. "Não tinha outras poltronas?", pensei indignada. "Tudo bem que é primeira classe e não tem muitas poltronas, mas tinha que ser justo essa? Vai ser um longo voo se eu não dormir... Que se dane... vou dormir... e se eu babar?...ai... que droga!!! Maldito George!!!"