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Eu e o Fazendeiro

Eu e o Fazendeiro

Autor:: Ronald_P
Gênero: Romance
Alguém batia insistentemente na porta. Esfreguei meus olhos cansados e olhei para o relógio na mesinha ao lado do sofá-cama, onde estive dormindo. Coloquei meus óculos e vi que eram quatro e vinte da madrugada. Droga! Só fazia três horas e meia que eu tinha ido dormir, após encerrar mais um duro e exaustivo turno de trabalho. As batidas recomeçaram, me obrigando a deixar de lado os meus devaneios para ver quem poderia precisar da minha ajuda àquela hora, porque para alguém surgir na porta de outra pessoa, quase às quatro e meia da manhã, só poderia ser algo muito urgente.

Capítulo 1 Capitulo 1

Mandy

"Parabéns pra você..."

Jody batia palmas e dobrava os joelhos, simulando pulos, toda animada em cima do balcão da lanchonete. Um pouco mais de dois anos havia se passado desde que essa garotinha tinha se tornado o centro do meu mundo. A cada dia, cada aniversário, meu carinho por ela aumentava, e me perguntava o que eu faria quando Glenda fizesse o que tinha prometido e viesse buscar a filha. Todos os dias eu prometia não me apegar ainda mais à criança, e todos os dias eu falhava miseravelmente.

Pensava sobre isso, assistindo a felicidade de Jody ao cantarmos parabéns para ela, quando

ouvi a sineta na porta tocar, avisando que alguém tinha entrado no café.

- Ainda estamos fechados! - gritei, sem olhar para trás.

- É cedo demais para um café?

Congelei ao reconhecer a voz às minhas costas. Dallas Walker, o homem mais bonito, atraente e encantador que uma garota como eu já havia colocado os olhos sonhadores, se aproximou. Ele tirou o chapéu, parando ao lado de Jody, que como uma traidora, esqueceu do pequeno bolo em minha mão para olhar, toda encantada, em direção ao xerife.

- Da-das! - Jody chamou por ele, abrindo e fechando as mãozinhas.

Ela continuou a balbuciar, fazendo um pedido insistente pelo chapéu, que ele tirou da cabeça e gentilmente colocou na dela. De repente, eu queria ter três anos novamente, e receber dele a

mesma atenção e sorriso arrasador.

- Da-das! - Ela repetiu a sua forma resumida de Dallas.

Jody foi entregue a mim em um estado de saúde bem debilitado, e seu desenvolvimento foi mais lento do que imaginei. Ela levou mais tempo que as outras crianças da idade dela para começar a engatinhar, andar, e já deveria estar falando mais do que as poucas sílabas que repetia. Mas isso não era um problema para mim. Desejava que Jody tivesse o tempo dela. E que, acima de tudo, fosse uma garotinha feliz.

Eu não me importava em passar todos os momentos de folga com ela, incentivando-a a descobrir algo novo a cada dia, e, claro, poder compartilhar o meu amor platônico pelo xerife sexy e quente de Peachwood.

Agora, estando tão próxima a ele, notava que aquilo tinha sido uma péssima ideia,

principalmente porque eu ilustrava o meu amor proibido com uma antiga foto de jornal, que falava sobre um evento beneficente no asilo da cidade, onde Dallas e sua família sempre ajudavam. Jody até poderia ainda ser incapaz de me delatar, mas um dia a tragédia poderia acontecer, visto que crianças não possuíam freio na língua ao conversar com os adultos. O que eu precisava mesmo era ter mais amigas para confessar meus sentimentos.

- Xerife... eu... - pigarreei e me atrapalhei toda, arrancando uma risadinha da Sra. Chan, minha chefe e dona do café - Hã...bom...

Ao que parecia, tanto a Sra. Chan, como o condado de Peachwood, quiçá o Texas inteiro, sabiam da minha paixonite pelo irmão mais velho dos irmãos Walker, menos o próprio. O que me fez olhar duramente para a senhora atrevida.

Trabalho como atendente no café desde os meus vinte e dois anos. Nem sempre fomos tão

próximas. Mantinha certa distância emocional das pessoas, depois que Glenda partiu, mas depois que Jody surgiu, mudando completamente minha vida, tive que jogar a toalha e aceitar ajuda, com isso veio o afeto da Sra. Chan e de todo condado que acolhia minha sobrinha como protegida.

Mas apesar desse carinho todo que sentia pela Sra. Chan, jurava que a mataria se ela insinuasse mais alguma coisa com seus sorrisinhos. Já era vergonhoso demais ver todos que eu conhecia sentindo pena de mim. Eu, definitivamente, não precisava que Dallas pensasse em fugir correndo da garota tolamente apaixonada sempre que viesse aqui, ou esbarrasse em mim.

- Olha só, três anos, Jody - ressaltou Dallas, tirando o chapéu da menina e o colocando em cima do balcão - Me parece cada dia mais esperta e sapeca também.

O elogio fez com que meu coração

parecesse ter saltado e dado piruetas como um acrobata do Cirque du Solei, e ordenei que se acalmasse. O xerife, com fama de durão, estava apenas fazendo um elogio gentil. E era para Jody.

- Vem, minha criança. Como é seu aniversário, você merece um grande pedaço de bolo

- murmurou a Sra. Chan, colocando Jody no chão, depois, piscou para mim - E vou separar um pedaço para você também, Xerife. A menos que tenha ficado inteligente e deseje algo diferente.

- Apenas café, por favor, mas aceitarei o bolo para viagem. - Dallas respondeu, fazendo com que a Sra. Chan saísse resmungando que um homem tão bonito não deveria ser tão cego e burro.

Fiquei mortificada e dei um sorriso amarelo quando Dallas me olhou, confuso.

- Ela estava falando de mim? - Ele mexeu nas bordas do chapéu, mas seus olhos estavam cravados em meu rosto, que deveria estar

mais vermelho que bumbum de criança picado por um marimbondo.

Deus, em que buraco profundo eu poderia me esconder?

- A Sra. Chan está apenas tentando te provocar, Xerife - murmurei, angustiada.

Isso! Eu tinha conseguido desenrolar uma frase inteira, sem parecer uma completa imbecil. Talvez minha doença de amor, chamada Dallas Walker, tivesse finalmente encontrado uma cura.

- Provavelmente está mesmo. - Ele deu de ombros - Chan é uma mulher estranha, que eu acho que ninguém nunca conseguirá entender.

- Ouvi isso, xerife! - Um berro estridente veio da cozinha - Posso ser estranha, mas não surda.

A Sra. Chan era uma dessas pessoas diretas e que não escondia o que pensava. A idade, segundo ela, dava mais liberdade para fazer isso. E

ninguém se atreveria a contrariar ou invocar com uma senhora metida a sabichona, nem mesmo o xerife.

- Então, se está fechado... - disse Dallas, olhando para o local ainda vazio, enquanto coçava o queixo - acho que posso voltar depois.

Olhei para a pequena covinha que ele tinha no queixo e que, para a minha tortura, o deixava ainda mais sexy do que deveria ser permitido por lei. Definitivamente, minha queda por Dallas não tinha cura.

- Não! - berrei, e senti minhas bochechas enrubescerem quando ele me encarou com divertida curiosidade - Quer dizer, já está aqui. Pode se sentar... ou ficar de pé, se quiser... ou...

Maldita Sra. Chan, por me deixar sozinha com ele, e maldito Dallas, por fazer com que me sentisse uma garota tola.

A culpa sobre isso vinha das vezes que eu ficava esperando ansiosamente o momento em que Dallas entrava para pedir seu café e uma rosquinha açucarada. Olhar para ele todas as manhãs, mesmo que de longe, através da pequena janela da cozinha, por cerca de quinze a vinte minutos, ou quando levava algum pedido à delegacia, sempre deixava meu dia mais feliz.

Senhor, isso soa vergonhosamente patético, mas não é algo que eu consiga evitar. Desde que eu era menina, o atual Xerife Walker dominava os meus sonhos mais secretos.

E quem poderia me culpar por me derreter por um homem de 1.94 metros e massa muscular muito bem distribuída? Além de olhos azuis incríveis e um sorriso que fazia a calcinha de todas as mulheres ficarem úmidas.

- Bem, nesse caso - Dallas sorriu, conseguindo ficar perigosamente mais lindo ao

fazer isso -, vou ficar na mesa de sempre. E, Mandy...

Segurei o balcão com força, tentando firmar minhas pernas trêmulas.

- O que está fazendo pela pequena

- Dallas tocou minha mão e senti meu corpo inteiro entrar em ebulição - é um trabalho muito bom.

- Obrigada, Xerife - balbuciei, como uma mamãe ganso orgulhosa.

Era ridículo. Eu tinha vinte e cinco anos, trabalhava no café seis dias por semana, tentava pagar minhas contas em dia e cuidava muito bem de uma criança pequena. Não devia ruborizar e derreter só porque esse homem lindo sorriu para mim e tocou minha mão.

- Eu... - gaguejei ao encarar os seus olhos incrivelmente claros.

Pela primeira vez, desde os meus doze

anos, quando o conheci, que não me vejo assim, tão próxima de Dallas. Naquele dia, eu estava assustada com um touro bravo que havia fugido do rebanho, quando ele surgiu de trás de uma cerca, como um verdadeiro herói para me salvar. Ele rapidamente se transformou em meu sonho romântico juvenil, como cantores de rock eram da maioria das adolescentes.

Daquele momento em diante, foram anos acumulando suspiros e um coração partido sempre que o via com alguma garota.

É, eu tinha que parar de sonhar acordada, dizia a mim todos os dias. Dallas saía com mulheres glamorosas, como Phoebe Wallace, a cheia de charme e dona da butique superelegante, La Feme; Stella Brook, a extrovertida; Christine Johnson, neta da dona da floricultura local, e seu caso atual, Cora DeVine, a aeromoça voluptuosa.

Capítulo 2 Capitulo 2

Eu, bom, eu só era a Mandy, comum,

complicada demais e com uma responsabilidade que acabou de fazer três anos.

Talvez as coisas pudessem ser diferentes, se oportunidades como essa de ficarmos sozinhos acontecessem mais, pensei ao dar dois passos em direção a ele. Quem sabe eu criasse coragem e pudesse...

- Xerife? - gemi baixinho, após ouvir a sineta tocar e a porta dupla abrir em um rompante

- Temos um problema.

Foi como acordar de um sonho, como um dos muitos que tive com Dallas, refleti, frustrada.

- O que foi, Derek? - Um olhar duro tomou o lugar do olhar suave com que me encarava - Onde acontece o incêndio?

- É o Sr. Green... - informou seu assistente - causando confusão de novo.

O nome foi suficiente para fazer Dallas ajeitar o chapéu na cabeça e se afastar de mim. As

bebedeiras e escândalos de Dylan Green tornaram- se lendárias na cidade. Constantemente ele passava a manhã, tarde ou noite inteira dentro de uma cela. Não que fosse perigoso, mas o único que sabia manter Dylan quieto e comportado era o xerife.

- Bem. Até logo, Mandy.

- Até logo, xerife.

Com a mesma velocidade que a decepção caiu sobre mim, a Sra. Chan surgiu com Jody no colo, exibindo um olhar reprovador, possivelmente por eu ter deixado uma grande oportunidade de conseguir a atenção de Dallas escapar.

- Den-dy - Jody estendeu um prato de bolo para mim, exibindo um sorriso manchado de glacê - Jody ama Den-dy.

E quem poderia se sentir triste, com uma declaração tão sincera como a dela?

- E Mandy ama Jody.

Sua chegada foi assustadoramente

inesperada, mas não conseguia mais imaginar a minha vida sem ela.

Capítulo 2

Acorda, Mandy!

Você precisa parar de sonhar acordada. Com um suspiro preso em minha garganta,

observei Dallas sair acompanhado de seu assistente.

- E aí, como foi? - A Sra. Chan colocou Jody sentada no balcão, pronta para me encher de perguntas, provavelmente uma mais constrangedora que a outra - Marcaram de sair? Você disse que o bumbum dele é...

Ela ergueu os dois polegares, sorrindo em aprovação ao traseiro do xerife, que eu precisava concordar: Dallas possuía o bumbum mais atraente do Texas. Falando sério, ele todinho simbolizava os desejos secretos de uma mulher.

- Sra. Chan! - adverti, sentindo meu rosto corar.

Eu sentia falta da época que eu entrava na lanchonete muda e saía calada. Pelo menos minha vida amorosa – ou a falta dela – não era analisada dessa forma.

- Os jovens de hoje são tão lerdos. - Ela revirou os olhos, alisando o balcão - Na minha época...

- Na sua época - murmurei, pegando Jody, levando-a para o seu local seguro, onde poderia passar o dia sem que eu viesse a me preocupar enquanto trabalhava -, as pessoas eram muito mais recatadas que hoje.

A Sra. Chan sacudiu a mão no ar.

- Tudo bem, mas ele já teria me levado para tomar um sorvete e tentado passar as mãos nos meus peitos umas duas vezes.

Literalmente fiquei de boca aberta,

enquanto ela voltava para a cozinha resmungando que eu nunca conquistaria o xerife se continuasse agindo como uma palerma. Comecei a rir e fui finalmente colocar a plaquinha de 'aberto' na porta. Não demorou muito para os clientes começarem a surgir. O primeiro deles foi James, o melhor e único mecânico da cidade. Foi o melhor amigo de Julienne na cidade, irmã de Dallas. Ele tinha um excelente relacionamento com a família Walker.

- Café sem açúcar e torta de maçã? - perguntei, anotando o pedido que eu sabia de cor.

- Uma mulher que sabe o que um homem precisa. - Ele piscou de forma sedutora, e eu sorri

- Quando crescer, juro que me caso com você, Mandy.

Já havia perdido as contas de quantas vezes ouvi a mesma promessa, sem nenhum fundo de verdade. Exatamente todas as manhãs em que James aparecia aqui para o desjejum. Se a

declaração tivesse acontecido na época da escola, quando ele era um jovem magricelo e tímido demais para levar uma conversa fluída com alguma garota que não fosse Julienne, eu teria levado a proposta com mais seriedade. Mas agora, depois de anos dando duro na oficina, que assumiu logo após a morte de seu pai, e o tempo que deveria gastar malhando, fizeram de James um homem que não escapava dos olhares apreciativos das garotas que, um dia, ousaram olhar torto para ele.

- Dispenso o casamento - respondi sorrindo, ao buscar o bule de café - Mas ficaria feliz se me dissesse que encontrou a peça para a caminhonete.

- O que você deveria fazer é aposentar aquela sua lata velha - Ele me olhou com uma seriedade que me deixou preocupada - Não vai durar muito.

Se o meu mecânico afirmava que não era

seguro andar por aí com a carcaça ambulante que eu chamo de carro, acho que devo mesmo me preocupar. Já estava pensando em trocar a velha caminhonete por algo melhor, até mesmo para a segurança de Jody, mas desde que ela chegou, meus gastos dobraram. Suas roupas e sapatos pareciam encolher a cada mês e precisava colocar na lista as vezes que ela ficava doente, prejudicando ainda mais o meu orçamento. Ah, agora, mais do que nunca, tenho que trocar o telhado, o que deveria ter feito há dois anos, se necessidades mais importantes não tivessem surgido.

- Olha, eu vou até Houston nesse fim de semana. - Penso que minha cara de desolação se mostrou expressiva o suficiente para que James se compadecesse de mim e despertasse sua solidariedade - Acho que encontro as peças para você.

- Isso seria realmente incrível, James - agradeci, servindo sua xícara - Vou pegar a sua torta. Foi feita essa manhã.

Todas as pessoas, vez ou outra, enfrentavam obstáculos na vida, e comigo não poderia ser diferente, mas eu sempre encontrava boas pessoas que facilitavam esse caminho de alguma forma. Primeiro, a Sra. Chan, por me dar um emprego onde pudesse manter Jody comigo. Os clientes no café, em sua maioria sendo residentes de Peachwood, tratavam-me com gentileza e amabilidade. Esse era um lugar onde todos se conheciam e meio que formavam uma grande e calorosa família. E só por isso já me sentia uma pessoa grata e afortunada.

- Ovos mexidos, tiras de bacon, salsichas fritas e suflê de chocolate. - Ergui meu olhar da caderneta de pedido, antes mesmo de poder anotar os três últimos itens.

- A Sra. Brandon não disse que está proibido de comer bacon e batata frita, Sr. Brandon?

Devido ao colesterol altíssimo, a Sra. Brandon controlava as refeições do marido como um general. Há alguns meses, entrou como um furacão no café, com uma lista bem extensas de coisas que eu nunca deveria servir ao seu marido. E embora ela possuísse uma voz mansa e sorriso cordial, eu não era louca o suficiente de ignorar seus avisos, para ser convocada à sua casa onde me passaria um sermão de, no mínimo, uma hora, enquanto me fazia sentir a pior pessoa do mundo.

- A Sra. Brandon não está na cidade. - Ele resmungou, cruzando os braços como se me desafiasse.

Se meus avós estivessem vivos, acho que não me importaria se fossem como o casal.

- Ah, ela não está?

- Foi visitar nosso filho, você sabe que a mulher dele está para ter o bebê, e Marlene foi para lá ajudar - Ele se inclinou na mesa e fez um sinal para que eu me aproximasse - Sabe, Mandy, isso pode ser um segredinho nosso.

- Um segredinho nosso - repeti, em um tom conspiratório.

De jeito nenhum. Eu não daria até o fim dessa tarde para que a Sra. Brandon ligasse para o café e me exigisse os ingredientes de cada refeição que havia colocado no prato dele.

- Sim para os ovos - assinalei o item antes de continuar: - E sim para a maravilhoso rocambole de espinafre que a Sra. Chan acabou de tirar do forno. E para recompensar, trago depois um belo pedaço de torta de pêssego.

- Espinafre? Veja se eu tenho cara de quem come espinafre, mocinha. - Para um novato, o olhar encolerizado e rosto vermelho do invocado

velhinho poderiam ser intimidadores, mas não para mim - Veja, chame a Chan. Ela precisa saber que seus clientes não são bem tratados aqui.

- Você tem certeza? - Ergui a sobrancelha e cruzei os meus braços, abrindo um sorriso para ele - A Sra. Chan, com toda certeza, irá cortar a torta de maçã.

No fundo, ele sabia que sua tentativa em me intimidar não alcançaria o resultado desejado. Chan e Marlene Brandon eram amigas de longa data. E minha chefe adorava pegar no pé do Sr. Brandon, com a esposa dele dando, ou não, munições para isso.

- Pensando bem, a Chan deve estar bem ocupada - disse ele em um tom impressionantemente brando - Vou aceitar os ovos, o rocambole de espinafre e dois pedaços de torta de pêssego.

Capítulo 3 Capitulo 3

r. Brandon... - iniciei, pronta para

voltar a argumentar.

- Vou levar para o jantar, sua pequena intrometida - bufou ele, antes de resmungar - Os jovens de hoje não sabem a importância que cabelos brancos têm.

Visto que ele possuía uma calvície proeminente e bem poucos cabelos brancos, apenas sorri e me afastei, rindo, para providenciar seu pedido.

O café não ficava sempre cheio, mas pessoas entravam e saíam o tempo todo. Vi a sineta tocar e um casal acompanhado de duas crianças se dirigiram a uma das mesas. Forasteiros, disso eu tinha certeza.

Peachwood ficava na rota da interestadual e constantemente pessoas paravam por aqui para pedir informação, usar a oficina mecânica de James ou comer alguma coisa.

- Boa tarde. - Me aproximei da mesa

para fazer os pedidos - O que gostariam?

A mulher, assim como as crianças, não desviou os olhos fixos na mesa para olhar para mim. O homem, em compensação, me varreu dos pés à cabeça, dando um sorriso apreciativo que eu não gostei.

Já atendi clientes homens que ousaram dar o seu telefone ou me passaram uma cantada barata. Trabalhar em um café, mesmo que em um condado pequeno como esse, nos deixavam suscetíveis a isso. Mas nenhum deles era casado ou estava acompanhado.

- Uma cerveja, gracinha - disse o homem, e percebi que sua fala já se encontrava enrolada.

- Não servimos bebidas alcoólicas,

senhor.

Para isso havia o bar country do outro lado

da rua, que ficava aberto vinte e quatro horas.

fica...

- Mas o senhor pode ir ao Hell, que

- Aquela espelunca? - esbravejou ele,

fazendo tanto as crianças quanto a mulher se encolher no lugar - Já estivemos lá, aqueles caipiras não sabem como atender as pessoas.

Pela educação do senhor em questão, acho que o gerente não deve ter é tido paciência de lidar com alguém como ele. Embora uma vez ou outra acontecesse, aqueles "caipiras" não gostavam de confusão.

- Então, traga refrigerantes, dois hambúrgueres e batata frita.

Anotei o pedido com pressa, querendo me afastar dele o mais rápido possível. Se pessoas carregavam mesmo algum tipo de cor de energia, eu poderia dizer que a desse homem era muito escura.

Ajudei a Sra. Chan na preparação dos

pedidos, e antes de entregar dei uma olhada em Jody, que brincava, meio sonolenta, em seu cercado. Faltavam apenas três horas para que eu encerrasse meu turno, e estava tão cansada quanto ela. As sextas-feiras são cansativas, por serem final da semana, e pelo maior fluxo de pessoas e pedidos também.

Depois de atender os viajantes e aguentar mais uma vez os olhares lascivos do homem, me refugiei atrás do balcão. Limpei, organizei e reabasteci os potes de açúcar e sal. Troquei os frascos de ketchup, mostarda e maionese. Estava abrindo uma nova caixa de guardanapos, quando vozes exaltadas chamaram minha atenção.

Um dos garotos, o mais novo, pelo que parecia, derrubou refrigerante na mesa, sujando sem querer a calça do pai. Rapidamente peguei um bolo de guardanapo de papel e me dirigi até a mesa deles, para ajudar.

- Seu garoto retardado! - O grito do homem contra o menino me fez paralisar no lugar

- Olha o que você fez!

Assisti, atônita, o homem erguer a mão fechada em direção ao menino, que só não levou um grande soco no rostinho assustado porque a mulher entrou na frente, levando o golpe por ele.

- Sua cadela! - A fúria do maldito covarde agora estava sobre a mulher - Já avisei para não se intrometer. Por isso ele é um mariquinhas.

E quando ele segurou a mulher assustada pela garganta, fui obrigada a reagir.

- Não faça isso!

O senhor Brosnan, que ainda estava no café, apesar de já ter terminado sua refeição, saltou da mesa.

- Não seja covarde, meu jovem - disse ele, exaltado - Não é assim que se trata uma

mulher e crianças.

- Cala a boca, velhote! - disse o homem, raivoso.

Emiti um grito acuado quando o vi empurrar o Sr. Brosnan para longe, que caiu sobre uma mesa em um baque estridente.

- O senhor está bem? - indaguei, quase sem fôlego ao correr até ele.

Ele se ergueu lentamente, gemendo, e o ajudei a ocupar uma cadeira. Virei em direção ao monstro que tinha voltado a soltar sua fúria na esposa. Nesse momento, Chan saiu da cozinha com uma grande e pesada frigideira. O pânico de que o mesmo que aconteceu ao Sr. Brosnan pudesse acontecer com ela me fez voar para junto dela.

- Não, Chan! - Tirei a frigideira pesada de sua mão - Vá até a delegacia e chame o xerife.

Uma verdadeira confusão se instaurou no café. Brosnan, mais humilhado do que realmente

ferido, se enfurecia a cada nova cena agressiva que via. As duas crianças choravam abraçando uma a outra, encolhidas contra a mesa. E até Jody começou a chorar, assustada, gritando por mim.

- Vá, Sra. Chan! - Empurrei-a em direção à saída.

Eu sabia que ela queria enfrentar o grandalhão e dar uma bela lição nele. Mas alguém precisava agir sensatamente. Diante de nós estava um touro furioso e embriagado. Não admitiria que a Sra. Chan fosse machucada. Antes, o covarde metido a valentão teria que me derrubar.

- Você é uma estúpida que nunca aprende - Vi sua mão se erguer no ar e atingir o rosto da mulher, que já possuía um enorme hematoma na face esquerda, que eu não sabia se foi da agressão anterior ou de outras antes dessa.

Eu estava farta e com muita revolta de como o troglodita se comportava com os mais

frágeis que ele.

- Pare com Isso! - Segurei o cabo da frigideira com mais força ou me aproximar - O xerife está chegando.

Não sei se foi o objeto que usava como arma, o grito que dei ou a ameaça da chegada do xerife que o fez se afastar da mulher. Mas não pude respirar aliviada. Agora, a atenção do homem nojento estava focada em mim. Minhas mãos tremeram, e o ferro pesado fazia meus pulsos começarem a doer.

- Olha só, gracinha - balbuciou ele, dando um passo largo e vacilante em minha direção

- Sei bem como tratar uma belezinha como você.

Não foram suas palavras asquerosos e a forma repugnante que me encarava que me levaram a agir, mas o choro dos inocentes atrás dele e os gritos assustados de Jody. Ergui a frigideira o mais alto que consegui, e quando o homem se aproximou

mais, o atingi com toda força na testa.

Ele levou a mão à cabeça, onde um corte começava a sangrar, como se fosse uma torneira aberta.

- Sua... sua... - Ele cambaleou de um lado para o outro - Sua cadela maldi...

Assisti-o cair sobre uma mesa com meu olhar arregalado. O cabo deslizou pelas minhas mãos, caindo pesadamente no chão. Estava petrificada no lugar.

- Meu Deus! - gritou a mulher, olhando incrédula para mim - Você o matou.

Você o matou! Você o matou! Você o matou...

A declaração ricocheteava na minha cabeça, enquanto eu dava pequenos passos para trás. As perguntas surgiam como flashes, me deixando desnorteada.

O que aconteceria agora? Eu seria presa? O que seria de Jody sem a mãe e, agora, também sem mim?

Mesmo que tivesse sido em legítima defesa, ou não, eu havia matado uma pessoa.

Minha mente rodava e rodava como se eu tivesse sido jogada em um liquidificador gigante. E cada vez que olhava para o corpo esparramado em cima da mesa, sem vida, uma grande onda de pânico me dominava.

- Mandy?

Minha vista já começava a escurecer, quando vi Dallas entrar no café. E seu rosto preocupado foi a última coisa que vi, antes de perder a consciência em seus braços.

Acordei tão assustada que o meu salto fez com que caísse da estreita cama onde me

encontrava.

- Jody!

Olhei em volta, tentando me orientar. Vi as paredes cinzas e a lâmpada, que quase me cegou, fixada no teto. Uma pia e um vaso sanitário à minha esquerda. Mas o que me fez gemer e começar a chorar baixinho foi ver as grades grossas à minha frente.

Eu tinha mesmo sido presa e era uma criminosa que passaria o resto dos dias pagando por ter tirado a vida de outra pessoa, mesmo que fosse de alguém tão vil como aquele homem.

- Xerife! - gritei, ao agarrar as grades com força - Xerife.

Como um homem da lei, Dallas deveria ter uma ideia do que aconteceria comigo, e eu ansiava saber qual seria o destino de Jody.

Será que procurariam Glenda? Ou a enviariam a um orfanato?

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