Adeline McConnell
Achei que seria mais um jantar em família, onde todos nós nos reunimos para ficar em silêncio, um olhando para a cara do outro.
O que eu não sabia era que o meu pesadelo estava prestes a começar, isso porque minha mãe estava anunciando o meu casamento, casamento esse que eu mesmo não sabia.
Quando ela anunciou diante de todos no meio da sala que eu e Adrian nos casaríamos, fiquei desolada, casar com ele seria a pior tragédia que poderia acontecer comigo. Preferia a morte a ter que conviver com esse bad boy para o resto da minha vida.
E esse não era nem o pior de tudo, eu estava sendo comprada como uma mera mercadoria por um milhão de dólares, porra, um milhão, por que alguém me compraria por tanto dinheiro e ainda ele?
Meu pai, Peterson McConnel, e minha mãe Valkiria McConnel, não me deram nem o direito à palavra. Tentei me levantar e dizer que negava toda aquela sujeira em meu nome, mas fui calada, calada pelos meus próprios pais no meio de todo mundo.
Os papéis já estavam assinados, por ambas as partes, meu primo de consideração que tinha sido adotado, Adrian Price, me comprou e agora estou selada a ele por um papel que eu rasgaria em mil pedaços se eu pudesse.
O idiota estava lá sentado enquanto nossos pais comemoravam com vinho. As pernas cruzadas, os olhos escuros e o cabelo preto curto, com os lábios bem vermelhos enquanto seu polegar roçava levemente, me olhando, como se estivesse captando o fundo da minha alma.
Coloquei atrás da orelha o meu cabelo castanho curto, desviei o meu olhar dele, estou com nojo e o quero longe de mim. Adrian é um idiota, desde pequeno ele sempre fez pouco caso de mim, diferente do seu irmão Joe. Joe sempre me tratou bem e, quando Adrian me ignorava e eu chorava, Joe me acolhia.
Agora, o que esse idiota quer? O que ele quer de mim? Ele sabe que não vamos ter um casamento normal, nós nos odiamos desde pequenos, eu não vou ser dele e nem ele de mim.
- Por que o silêncio? - Os dedos pararam de roçar os lábios freneticamente e seus olhos se voltaram para mim.
Sua voz era fria e rouca, algo que me dava medo. E tê-lo falando tão friamente comigo, mesmo que seja o mínimo de atenção, é estranho, me causa embrulho no estômago e tenho vontade de vomitar.
- Por que? - Eu precisava saber o porquê daquilo, não fazia sentido para mim.
Californiana é enorme, existem dezenas de mulheres que iriam querer um Badboy, que fariam de tudo para esse homem. O futuro dono de um banco multimilionário, mas por que eu? Uma estudante de direito de apenas 23 anos, ele tem o mundo e eu estou conquistando o mundo.
- Se não fosse eu, seria o Joe - seus dedos entrelaçaram.
Eu ri, audacioso, seria muito melhor se fosse o Joe, meu amigo, que sempre cuidou de mim. Joe seria um homem incrível e com certeza não precisaria de um contrato para me amarrar a ele, eu faria isso de livre e espontânea vontade.
- Eu não poderia deixar - balançou a cabeça em negação.
- Não poderia deixar o que, porra? - Cochichei para os nossos pais não escutarem.
Meu corpo numa ponta do sofá e o dele na outra, seus olhos me averiguando, o silêncio enquanto esperava pela sua resposta que não mudaria em nada do que estou sentindo por ele, ódio, ódio e rancor.
- Você se casar com o meu irmão, eu te vi crescer, garotinha - levantou o cenho. - Quando eu tinha cinco anos, te peguei no colo, você tinha apenas dois, e mesmo a gente se odiando, eu não entregaria você de mão beijada para outro homem.
Fiquei desacreditada, balançando a minha cabeça, negando qualquer merda que saísse da sua boca.
- O que é isso? Amor é que não é.
- Amor? - Ele riu. - Eu não te amo, nem nos piores mundos eu te amaria, mas se tiver que estar selada a algum homem, esse homem serei eu.
Meu coração martelou, ódio subindo ainda mais, ele queria me amarrar a ele, por quê? Por pura vingança?
- Então acha que vai se casar comigo e que vai me aguentar? - disse entre dentes. - Se prepare para o inferno, Adrian, não vou te deixar ter sossego, vou ser pior que o demônio.
O sorriso dele se alargou, o que mexeu comigo, não fazia sentido ele rir em uma situação como aquela. Mas é claro, aquele era o Adrian, o idiota mesquinho que acha que pode ter tudo o que quiser, mas ele não vai acabar com a minha e ficará por isso mesmo. Vou fazer um inferno, juro que vou acabar com tudo.
- Não dou um ano para você me devolver - deixei claro.
- É isso o que vamos ver, te terei trancada em minha casa, mesmo que seja a porra de um demônio, estará presa a mim - avisou, se levantando e se retirando.
Meu coração estava em fúria, eu queria acabar com ele, enfiar minhas unhas na sua carne até que desistisse dessa ideia idiota.
O que me dava mais raiva era vê-lo, todo comportado, de terno, quando eu sei que esse homem gosta mesmo é de jaqueta de couro. Com corpo rígido e sério, sendo que adora fumar charuto.
Levantei-me e fui até o espelho, olhei-me com o colar que eu usava, o vestido preto que escolhi porque achava bonito, mas agora está parecendo que estou em um velório.
Peguei um pouco de vinho, enchi a minha taça e fiquei olhando a senhorita Coraline, mãe do Adrian, conversando com a minha mãe, planejando o meu casamento sem a minha autorização.
O senhor Gray conversando com o Adrian e o Joe, escutei ele dizendo algo sobre ter um herdeiro na família, o que me fez rir, nunca vou me deitar com esse homem. Joe se aproximou de mim, ele tem a mesma idade que eu, 23, e Adrian tem 25, o filho primogênito.
Adeline McConnell
- Como está se sentindo?
- Uma merda - disse com frieza e dor.
- Avisei ao meu pai que me casaria com você, um pouco antes de Adrian vir falar com os seus pais - na sua mão tinha uma taça cheia de vinho.
Teria sido melhor eu ter ficado com o Joe, mesmo o vendo como um amigo e um irmão, do que ficar com Adrian sabendo de todas as dores que sinto por ele.
Joe é tão diferente, cabelo loiro, olhos azuis, às vezes esqueço que Adrian é adotado e fico olhando as semelhanças de um para o outro. Joe é idêntico à tia Coraline.
- Por que acha que Adrian fez tudo isso.
Virei o meu rosto olhando para o Adrian que agora me varria de cima a baixo, olhando-me com os olhos semicerrados enquanto engolia o seu vinho. Meu corpo próximo ao do Joe, Joe me ajudando com os meus sentimentos e Adrian com a mandíbula cerrada me corroendo. Será que agora ele acha que também vai decidir quem é que fica perto de mim?
- Adrian é estranho - ele bufou. - Provavelmente deve achar que você é algum tipo de propriedade para ele.
- Só porque sou sua prima?
- Vocês não têm o mesmo sangue, nós temos o mesmo sangue - Joe vira a taça.
- E mesmo assim eu estava disposta a ter algo com você - declaro.
As costas do Adrian agora descansavam na parede, e seus olhos continuavam fixos em mim, mas eu desviava e continuava falando com o Joe.
- Não sei se vou suportar tudo isso, Joe - seguro na sua mão, querendo chorar, mas enxugo qualquer lágrima que queira sair, não posso aparentar ser uma fraca.
- Adrian te viu nascer, te segurou quando era um bebê, talvez isso o faça achar que é o seu dono.
- Mas ele nunca foi.
Meu peito subia e descia ainda mais rápido, minha respiração estava mais acelerada e ver o Adrian me olhando de longe me deixava menos sóbria, porque eu engolia o vinho fazendo a minha visão ficar embaçada.
- Você está bem?
- Não estou - viro a taça.
Lembro-me de como era horrível o nosso convívio quando éramos apenas crianças, Adrian fingia a minha inexistência, tentei falar com ele por diversas vezes, ele me ignorava, virava o seu rosto e se escondia de mim.
Quando eu estava no ensino médio, sofria bullying, era taxada de tanta coisa naquela época, odeio como foi a minha época na escola. Mas quando os garotos vieram para cima de mim tentando me agarrar à força, Adrian apareceu com aquela jaqueta e sozinho agrediu cinco meninos e venceu a luta.
Naquele dia, eu tive um pingo de esperança de que ele sentisse algo por mim. Limpo a lágrima que escorre pela minha pele.
Naquele dia, eu achei que o homem que me ignorava na verdade sentia algo de alguma forma, porque ele me defendeu, mas quando eu fui perguntar, ele me disse que só estava com pena porque eu era uma garotinha.
É assim que ele me vê, como uma garotinha, sempre foi assim. "Eu não gosto de você, te ajudo porque é uma garotinha."
Odeio o fato de ele ter me ajudado com todas as matérias que envolviam números no ensino médio, tive que ficar olhando para aquele monstro por um semestre inteiro, odeio o meu passado com ele.
"Só estou te ajudando com a matéria porque é uma garotinha."
"Te vejo como uma garotinha, Adeline."
"Você é uma garotinha pequena e indefesa, Adeline."
Era sempre assim, mas eu nunca fui indefesa e estou prestes a mostrar isso para ele pelos próximos meses, sou muito mais que isso, Adrian, eu juro que serei o seu inferno.
- Adeline - Joe me chama.
- Oi - enxugo os meus olhos.
- Vem cá - ele me puxa para um abraço.
Repouso a minha cabeça no seu peito, escondendo o meu rosto choroso do Adrian, fugindo de qualquer coisa que me fizesse olhá-lo. O peito do Joe agora estava sendo o meu único porto seguro.
Escuto a voz do Adrian, ele pigarreia antes de puxar o meu corpo e me chamar.
- Adeline - sua voz rouca, sua mão puxando o meu pulso, me deixa tensa. - Precisamos falar sobre a festa.
- Não me toca - puxo o meu braço das suas mãos grandes que mais parecem as de um monstro que quer me machucar.
Na verdade, ele já estava me machucando, fez isso no momento em que me selou a ele por papel.
- Não vou ser rude com você, quero apenas conversar a sós - olhou para Joe com desaprovação.
Joe saiu deixando a gente sozinhos no canto da sala.
- O casamento, Adeline - ele parece mais calmo agora. - Faça como você quiser, não vou encher mais a sua cabeça, não era isso que eu queria - avisa.
Ele pega a minha mão, tira uma aliança de dentro da caixinha e coloca no meu dedo, e me olha profundamente depois de enfiar aquela aliança em mim. Então ele me dá a outra aliança.
- Coloque em mim, Adeline - pede.
- Quer mesmo continuar com isso? - Fico desacreditada.
- Sim, garotinha.
Pego a sua mão grande, não tem escapatória, já estou vendida e tem homens em volta de toda a nossa casa, não tenho vontade de fugir, mas mesmo se tivesse, não teria como. Pego a aliança toda cravejada de diamantes e enfio no seu dedo longo e grande, o que me faz engolir em seco, imaginando uma coisa.
- Você é minha agora, Adeline, não te quero nos braços de outro homem, espero que esteja avisada.
- Não deveríamos trocar as alianças no casamento?
- Não precisamos de tanta cerimônia no dia, estou te selando a mim agora, espero que se comporte até o dia da cerimônia.
- Você é um monstro - digo, raivosa, com a voz baixa.
- Não é a primeira vez que me diz isso, Adeline, não ligo de ser monstro mais uma vez se isso significa te selar em minha vida, não gostamos um do outro e isso basta - diz rígido.
Não disse mais nada, não tinha palavras que o fizessem voltar atrás, Adrian estava certo de que queria por queria um casamento sem amor comigo e eu o faria pagar mais cedo ou mais tarde.
Nossos pais nos chamaram para brindar a nossa união, nós fomos para o centro da sala com todos os olhares à nossa volta. Senti minhas bochechas queimarem, no entanto, mantive a pose que eles queriam, a da garota noiva de um delinquente sem noção.
- Palmas para o casal - mamãe disse.
- Estamos orgulhosos dos dois, vai ser uma festa incrível - meu pai brindou com Adrian, que apenas assentiu com um olhar frio e distante.
- Como está a minha filha? - Mamãe se aproximou, tocando no meu rosto.
- Feliz - sussurrei, mentindo.
- Não fique com esse olhar, querida, ou as pessoas notarão - apertou o meu pulso.
Adrian logo se intrometeu quando a viu segurando a minha mão, ele puxou o meu pulso da minha mãe e segurou ele mesmo.
- Pode ficar tranquila, senhorita Valkiria, vou cuidar bem de sua filha - avisou.
- Um brinde aos noivos - meu pai levantou a taça saudando.
As pessoas riram e brindaram, Adrian se virou para mim e brindou em minha taça. Ele segurou meu queixo antes de sair, suas mãos estavam frias e pesadas sobre o meu rosto.
- Até o casamento, Adeline.
- Até o casamento.
Adeline McConnell
Não fazia ideia de que a semana se passaria tão rapidamente, que eu em breve me veria sugada nesse casamento. Ajudei a mamãe com os preparativos porque era a única coisa que me fazia odiar um pouco menos esse momento.
Um vestido grande, rodado, as mangas cobrindo todo meu braço e estômago revirando como ondas do oceano. Não sei o que me espera do outro lado, e por que aquele homem quer tanto que eu seja a sua esposa, praticamente uma esposa de mentira.
Não achei que ele fosse monstro a esse ponto, não achei que Adrian passaria dos limites, mas ele passou. Meu coração está em pedaços e é ele que está causando tudo isso.
Adrian é um monstro para mim e eu não vou mudar de opinião nem se eu estivesse no inferno.
- Pronta, querida? - Mamãe me pergunta.
Me viro com os olhos marejados, a aparência não muito boa, ela me olhou e segura a minha mão. Passa os dedos nos meus olhos para não borrar a maquiagem.
- Não fique assim, lembre-se, isso vai ser importante para as duas famílias.
É só nisso que eles pensam, nas duas famílias, na grana que isso vai gerar e não nos nossos verdadeiros sentimentos. Sempre foi assim com a minha família, desde pequena eles me tratam como se eu fosse uma mera mercadoria.
Achei que depois de adulta isso mudaria, mas eu estava enganada, eles não se importavam com isso, nunca se importaram. A única coisa que vale a pena é ver a bandeja de dinheiro em cima da mesa.
E é claro que o meu casamento com Adrian não seria diferente, deve ter sido tão bom para eles quando ele veio pedir a minha mão em casamento mesmo sem eu saber.
- Mas, mamãe, vocês sabem que isso não está certo. Quando acaba o contrato?
Precisava saber, eram um ano, dois anos? Tinha que ter um final.
- Acabar? É vitalício.
Meus olhos se arregalam com a notícia, vitalício? Não pode ser. Eles estão me entregando para um homem, pelo resto da minha vida?
- Pelo resto da minha vida presa a ele?
- Sim, ou até que um dos dois tenha um bom motivo para a separação.
Então terei que dar um bom motivo para ele não me querer, um motivo para fazê-lo me largar de uma vez por todas.
Passei a mão no rosto, me agachei e ela colocou o véu que cobria todo o meu rosto. Minhas mãos já estavam com a aliança que ele colocou no dia do noivado. Sério, Adrian? Não entendo.
- Seu pai, querida - minha mãe avisa.
Abro a porta do cômodo em cima da catedral onde vai ser o nosso casamento, foram dias de preparação até tudo ficar pronto.
- Você está me dando muito orgulho, querida - ele segura meu braço.
Eu só assinto sem dizer mais nada, tentei falar com ele a semana inteira antes de toda essa tragédia. Dei a ele o meu braço, segurei com força o ar nos meus pulmões para que eu não surtasse e então descemos.
As descidas nas escadas eram lentas, a cada segundo que se passava eu pensava em correr, fugir para bem longe, mas não fiz. Paramos em frente à grande porta, a porta se abriu e me arrepiei quando o vi.
Não vou mentir, ele estava lindo, o terno preto, a gravata, o cabelo que costuma estar bagunçado estava bem ajeitado. Os olhos me olham, esperando a cada passo meu para dentro da igreja.
Apertei o braço do papai com força, aquele homem podia até ser lindo, mas não era meu, nunca foi. Eu me declarei para ele quando tinha dezoito, disse que sentia algo, ele tinha vinte. Eu rio da situação.
Fui rejeitada, ele disse que não queria nada comigo e para eu não o ver daquela forma, e olha agora, estou me casando com ele, vou ser sua esposa.
Quando eu estava frente a frente dele, antes do meu pai se afastar, ele depositou um beijo na minha bochecha.
- Parabéns, querida - depois ele se foi.
Agora éramos só nós dois no altar, parei diante dele, ele varreu o meu corpo e voltou a olhar o padre. Sinceramente, não consegui dar atenção a nada do que o padre falava, meu coração estava apenas imaginando o meu futuro trágico.
- Pode beijar a noiva - o padre disse.
Me assustei, fiquei tanto tempo imaginando que não percebi que já estávamos no final. Como acabou assim? Não, não.
As mãos grandes do Adrian abriram levemente e com delicadeza o véu que cobria o meu rosto. Ele terminou de retirar todo o véu e o jogou para trás.
Quando viu o meu rosto, arregalou os olhos, mordi os lábios esperando pelo seu beijo. Suas grandes mãos tocaram a minha pele, segurando o meu rosto pelas bochechas, seu polegar roçou levemente nos meus lábios.
O polegar desenhou a minha boca, a apertou, Adrian inclinou o seu rosto em minha direção e eu fiz um bico, esperando pelo beijo. Senti seus lábios molhados, não na minha boca, mas na minha testa. Ele depositou um beijo na minha testa enquanto roçava o polegar nos meus lábios.
E então soltou o meu rosto, me olhando no fundo, minhas bochechas queimaram por alguns segundos, senti meu corpo estremecer com cada toque seu.
- Casados - o padre avisa.
Ele segura meu pulso e nós saímos da igreja, passando no meio da multidão que jogava arroz na gente. Não foi um casamento nada confortável e eu estava saindo sem saber o que me esperava.