O sistema prisional e judiciário sempre teve muitas falhas no nosso país. Infelizmente, em sua maioria a corrupção impera e com isso, nós acabamos por nos corromper de um modo ou outro. No meu caso, eu me corrompi ao conhecê-lo. Desse conhecer, me envolvi demais. Não só como a sua advogada, mas como a baixinha astuta como ele me chama sempre que o conquistou e acabou sendo conquistada por esse homem que me fez ver a verdadeira vida no Morro dos Macacos no Rio de Janeiro.
Me chamo Eduarda Medeiros e tenho 25 anos, sou nascida e criada no Rio de Janeiro na zona Sul, mas precisamente na Barra da Tijuca. Minha mãe não está mais entre nós, ela morreu vítima de uma bala perdida quando estávamos saindo de um shopping quando eu tinha apenas 12 anos. Desde então, o meu pai Emílio Medeiros, um renomado juiz, foi quem esteve comigo durante todos esses anos. Ele nunca mais se casou depois da minha rainha. E de fato não o julgo por isso, pois encontrar uma outra mulher como a dona Júlia, acho que será um pouco complicado.
Eu sou formada em direito. Me formei com honras. Para nós que somos pretos, é difícil termos uma melhoria de vida, mas graças ao meu pai ter sido adotado por um casal de holandeses quando vieram ao Brasil para morar, eles se apaixonaram pelo meu pai que ainda era um bebê de seis meses de idade cujo a sua mãe biológica havia morrido vítima de uma overdose de craque.
Sou uma das melhores advogadas do país. E foi aí que algumas pessoas me procuraram, para defender ele. O Henrique Fontes mais conhecido como Alemão Dark, acusado de estupro de menor e tentativa de homicídio da mesma. Ele alega inocência, mas a partir do momento em que se é preso, até que se prove o contrário, é considerado suspeito.
Infelizmente, a ficha dele não é das melhores, traficante, chefe de um morro que é mais perigoso de todos já vistos que até a polícia respeita e se amedronta com ele. Fora alguns roubos a mão armada que o mesmo já cumpriu as suas penas relacionadas a isso.
Quanto ao tráfico, ele por não ter sido pego em flagrante e ter algumas cartas na manga, não foi indiciado por isso.
Eu sempre fui a menina dos olhos do meu pai. Preta, cabelos encaracolados, olhos cor de jabuticaba, 1,65m de altura, quadris e seios fartos. Digamos que sou a fora dos padrões de beleza, mas não me considero assim. Me amo do jeito que sou. Sim, sou baixinha, com excesso de gostosura e da cor do pecado.
Para a sociedade como eu ia dizendo, se você é preto e pobre, dá para ladrão, mas se é preto e rico é visto como uma abominação. No meu caso, eu sou a burguesinha. Meu pai teve as melhores educações, os melhores carros, etc., tudo graças aos meus avós adotivos. Sei que se minha avó biológica estivesse viva, provavelmente o meu pai não tivesse um terço do que ele tem hoje. E vou te falar viu, ele não teve nada de mão beijada. Sempre correu atrás de tudo.
Enfim, hoje estou aqui para contar a minha história deitada nesse divã. E espero que com esse desabafo, eu possa enfim tomar uma decisão, entre a razão ou coração. Só sei que algo aqui se quebrará dentro de mim e por causa de apenas estar entre a cruz e a espada, eu sei que não sairei machucada, pois já estou machucada por estar pensando em que decisão tomar.
Um Ano Antes...
- Henrique Fontes, visita para você! – O carcereiro se aproxima da cela anunciando.
Henrique que estava deitado sobre o fino colchão em cima de uma cama de cimento olha para o carcereiro com cara de poucos amigos. Ele bufa e revira os olhos. Senta-se na cama e calça os seus chinelos de dedo.
- Vamos logo Henrique que eu não tenho o dia todo. – O carcereiro já fala sem paciência.
Ele o encara e arrastando os seus chinelos, ele se aproxima da grade que logo é aberta. Ele passa olhando de relance para o carcereiro e o mesmo fecha a grade em seguida e dá um leve empurrão nas suas costas.
Henrique sorri de canto de boca e acena em afirmação. Ali, ele poderia até assinar a sua sentença, já que o mesmo ultimamente anda sem paciência. Mal sabia ele, que a sua sorte mudaria naquele dia em que alguém o aguardava.
Com as algemas no pulso que o parceiro de cárcere havia colocado, ele continua andando com a sua bermuda surrada jeans e camiseta regata branca colada ao seu corpo musculoso e mostrando as diversas tatuagens que tem pelo braço.
Ouvindo a conversa entre eles, Henrique presta bastante a atenção quando falam especificamente da visita que o aguarda.
- Você viu, até que ela é bem gostosinha. – O carcereiro que algemou Henrique fala com o outro com uma certa malicia.
- Cara, você é um pervertido. Vê se uma mulher daquela vai dar bandeira para um de nós. Nem se fosse esse aqui, ela ia querer nada.
- Mas se ela me desse bola, dava um trato legal que baixinha mais gostosa.
O carcereiro que abriu a cela chamando Henrique, balança a cabeça em negação com uma careta.
Henrique, ouvia tudo calado e se perguntava quem era essa beleza toda que estava por ali, será que ela veio vê-lo? Não, ele não achava que teria essa sorte nos seus 33 anos de idade.
Uma sala reservada ele foi encaminhado. Já estava achando aquilo estranho já que dias de visitas ou que seja alguém que não fosse importante, era em uma sala nada especial, o que dirá reservada.
Um arrepio percorreu pelo seu corpo, pois o mesmo achava que algo detrás daquela porta mudaria a sua vida. E de certo, iria acontecer. Mas não iria mudar a vida dele, mas de quem o esperava.
Sentada com uma pasta aberta e alguns papeis sobre a mesa, estava lá uma mulher linda. A mulher que ele jamais pudesse jamais cobiçar ou querer. Aquela que mudaria de vez o seu destino, ou ele ao dela.
Ela estava concentrada ao ler aqueles papeis e Henrique ao ser conduzido a entrar naquela sala, engoliu em seco e sentiu o seu coração bater fora de compasso com a imagem daquela que depois daquele dia, perturbaria o seu sono e pensamentos.
O carcereiro conduziu-o até a cadeira frente a ela e prendeu os seus pulsos algemados na corrente que há presa no meio da mesa de ferro. Ao sentir o cheiro másculo e vil vindo de Henrique, ela ergue a sua cabeça e com aquele óculos quadrado de grau em seu rosto quase caindo do mesmo por estar na ponta do nariz, encara com aqueles belos olhos que o mesmo se perdeu ao fita-los.
Uma voz em seu consciente lhe dizia, ele estava perdido. Ele sorriu para aquela bela mulher que ainda estava enfeitiçada com a beleza daquele homem. Moreno, olhos castanhos cor de mel, cabelos pretos lisos na altura do queixo, barba rala, de 1,75m de altura com os seus músculos bem distribuídos pelo corpo. Dono de um sorriso que derrete e deixa qualquer mulher louca, mas não ele. Pelo menos, era o que ela não demonstrava para ele quando lhe sorriu. Ela estava séria.
Ele ficou surpreso pelo seu sorriso não ter surtido o efeito que ele esperava, até que um pouco enraivecido pelo ego ferido, com a voz rouca e séria, ele a indaga.
- Quem é você?
Ajeitando os óculos de volta no seu rosto, ela cruza os braços e o encara. Ela responde no mesmo tom que ele.
- Eu sou Eduarda Medeiros, a sua advogada.
Perplexo pela revelação, Henrique engole em seco não acreditando que aquela perdição na sua frente, era a famosa advogada que tanto os seus braços direitos falavam.
Ainda um pouco chocado com a revelação, Henrique não conseguia emitir nenhuma palavra. Eduarda já estava ficando impaciente achando que ele fosse um mal-educado.
- Você sabe falar? – Ela o pergunta antes de cometer alguma gafe.
O seu olhar que antes era de puro transe, ele a olha com uma certa raiva. Nunca em toda a vida dele, ouviu alguém falar com ele assim.
- Sei, já que acabei de perguntar quem você era.
- Está certo. Mas não pareci até pouco tempo, mas agora não vem ao caso.
- Quem pediu para que você viesse?
Eduarda olha o papel em que ela tinha anotado o nome e falou logo após ler.
- Vinícius Pinto. Como ele acha que você não saberá de quem se trata, ele disse que era para falar que é o trator. Acho que agora sabe bem quem é.
Ele sorri e sabe que o seu braço direito lhe trouxe a melhor, mas não sabia ao certo se teria forças o suficiente para ter o controle em não provocar ou não beijar a baixinha astuta na sua frente.
- Sim, eu sei. Mas e aí dona, vai poder me ajudar?
- Olha, vou ser bem franca com você, a garota de nome Estefane Alves alega que você a estuprou e que ainda tentou mata-la. O seu caso é bem complicado, ainda mais que você não tem um álibi para o dia e hora em que aconteceu tudo com ela.
- Álibi eu tenho.
- Então fale logo de uma vez, para que possamos traçar melhor os planos para resolução do seu caso.
Henrique estala a língua olhando para Eduarda que aguarda ansiosamente que ele lhe diga qual é o seu álibi de fato. Mas o silêncio é a sua resposta.
Como ele não diz nada, ela levanta-se da cadeira organizando tudo.
Henrique se desespera e os seus olhos se movimentam rapidamente vendo todos os movimentos que ela dá.
- O que tá fazendo?
- Organizando as minhas coisas para ir embora não tá vendo?! – Ela fala ríspida.
- Eu tô vendo, já que não sou cego! Mas porque vai embora, não vai me defender? - O seu tom também é do mesmo jeito.
Eduarda sorri sarcasticamente e o encara. Aqueles olhos cor de mel ao se encontrar com aquelas duas jabuticabas, faz com que se percam por alguns segundos nos olhares um do outro. Lembrando que ele é um possível cliente, ela se recompõe e fala calmamente.
- Você é um caso perdido. Se não quer me contar qual o seu álibi realmente, não tenho como ajudar a sair dessa enrascada. Senhor Henrique, se não quer ajuda, eu vou embora!
- Por favor dona, se o Trator mandou a senhora aqui, é porque é mesmo boa, mas se eu falar o meu álibi, aí sim, que eu vou morfar aqui nessa cadeia e os meus precisam de mim lá fora.
Abrindo a porta da sala especial, o carcereiro avisa.
- Doutora Medeiros, o tempo com o seu cliente acabou.
Olhando para o carcereiro e depois para Henrique ela suspira. A sua razão diz para recusar, mas algo em seu coração lhe diz para não deixar aquele homem preso. Ela olha de volta para o carcereiro e faz um pedido.
- Senhor, me dê apenas um minuto com ele e já o chamo, ok?
O carcereiro relutante, acaba cedendo a advogada.
- Tudo bem. Um minuto doutora.
Ela sorri e quando ela faz isso, Henrique fica hipnotizado. É o sorriso mais lindo que ele já viu na vida. Ele sentiu o seu coração descompassar. Assim que o carcereiro os deixando para mais um minuto sozinhos, ela fica novamente séria e encara Henrique.
- Bem, já que algo me diz que eu vou me arrepender, voltarei novamente aqui. E acho bom me contar toda a verdade se quiser sair daqui e que eu o ajude. Fui clara?
Com um sorriso bobo, ele assente.
- Sim, dona.
Ela pega a sua pasta e caminha até a porta. Ela bate para avisar ao carcereiro que já estava de saída. Assim que ela sai, ele murmura consigo mesmo.
- Mais além de linda é uma baixinha astuta e abusada mesmo hein.
Não demora muito, Henrique é levado para a sua cela, enquanto Eduarda segue para o seu carro e lá ao entrar e sentar frente ao volante, ela solta todo o ar que parecia estar preso em seu peito. Assim que ela se recompõe, Eduarda segue para o seu escritório.
Júlio que é um colega de profissão e apaixonado por ela, a esperava para saber se eles teriam mais um caso no escritório ou não. Assim que as portas do elevador se abrem, Eduarda caminha até o balcão da recepção e pega as correspondências e confere cada uma.
- Oi Duda, e então, como foi lá?
- Tudo tranquilo. Alguma novidade no processo de injúria racial daquela socialite contra a nossa cliente?
- Não. Ainda estou buscando algumas pessoas que insistem em não querer testemunhar. Mas já estou buscando as imagens das câmeras de segurança.
- Perfeito! E o meu pai ligou?
- Ligou. Disse que estará a esperando para jantar em casa.
- Tudo bem. – Eduarda olha para Júlio e sorri.
Caminha até a sua sala e coloca a sua maleta sobre a estante. Retira o seu blazer e coloca em volta da sua cadeira. Ela senta-se e apoiando os cotovelos sobre a mesa, ela massageia a sua testa. A sua dor de cabeça que sempre teve, está sentindo aquela dor que fazia tempo que não sentia vindo com força total.
- O que foi Duda, tudo bem?
- Vou ficar. Tem mais alguma coisa Júlio?
- Não.
- Então vou fazer uma ligação e depois vou para casa. Se quiser pode ir embora meu amigo.
Ele sorri fraco. Achava que ela o chamaria para jantar junto com o pai dela, para aproveitar e a pedir em namoro, mas não será dessa vez.
- Está bem.
Assim que ele sai, ela se pega pensando naquele belo espécime.
- O que será que ele fez de tão errado para não dizer que álibi ele tem. Quer saber, vou para casa.
Ela levanta-se, pega as suas coisas e segue para o seu apartamento e de lá se arrumaria para ir jantar com o seu pai na sua casa.
Se arrumando para ir ao jantar na mansão onde o seu pai mora atualmente com a sua avó Yolanda, ela pensa no seu cliente de mais cedo.
Como pode um homem em tão pouco tempo abalar as estruturas de uma mulher que prometeu a si mesma que jamais se envolveria ou sentiria algo por um homem sendo ele quem fosse. Mas o que mais a deixava pensativa, era que o homem quem abalara as suas estruturas nada mais era que um homem totalmente oposto a ela em todos os sentidos.
Tirada dos seus pensamentos, o toque do seu celular que a traz de volta a realidade. Ao olhar o visor, ela sorri, é a sua avó.
- Grootmoeder (avó em holandês), como é bom ouvir a sua voz. – Ela fala com um sorriso largo.
- Se eu não ligo para a minha kleindochter (neta em holandês), não consigo falar com ela não é?
Eduarda engole em seco. Mas sabe que a sua avó está fazendo o seu dramalhão de sempre.
- Não fale assim mijn liefde (meu amor em holandês). Sabe que tenho andado ocupada, mas estou saindo daqui agora para jantar com a senhora e o meu pa (pai em holandês).
Sua avó abre um imenso sorriso e gargalha do outro lado da linha.
- Então se apresse para vir logo. Quero beijar muito a minha kostbaar (preciosa em holandês).
Sorrindo, ela assente.
- Certo minha linda e kostbaar. Já chego aí. Kus (Beijo em holandês).
- Kus.
Ao encerrar a ligação, ela sorri. Dá uma última olhada no espelho e fica muito feliz do jeito que está vestida. Uma rasteirinha preta com um vestido branco com listras pretas e os seus cachos soltos e volumosos. Um gloss leve e nada de maquiagem. Pegou a sua bolsa branca e saiu.
O trânsito do Rio para onde ela ia estava tranquilo dessa vez. Ao parar em um semáforo, ela vê um pequeno garotinho fazendo malabares. Ele passa por entre os carros para conseguir uns trocados e por mais que ela soubesse que o risco é grande devido a violência que cada vez aumenta, ela abre um pouco a janela do seu carro com uma nota de R$20,00 na mão. Quando o garotinho passa pelo seu carro, ela coloca o dinheiro no chapéu vermelho dele e ele arregala os olhos.
Para ele, era muito dinheiro, já que quando recebe algum trocado, sempre é R$2,00 em nota, moedas de dez, cinquenta e até um real. Mas aquele valor, era a primeira vez que ele recebia.
Coçando os seus cabelinhos, ele devolve a ela aquela nota. Eduarda acha estranho e arqueia a sobrancelha.
- O que foi, você não quer?
- Não dona, não posso aceitar. É muito dinheiro.
- Pode ficar, estou dando de coração. – Ela sorri e o sinal abre.
Uma buzina logo atrás fica mais alta por ela estar parada no lugar. Antes que ele devolvesse o dinheiro, ela coloca novamente o dinheiro, sorri e arranca o seu carro, deixando o menino olhando ela partir no meio da rua.
Ela olha pelo retrovisor e o garotinho sorrindo, pega o dinheiro e coloca dentro do bolso da sua calça e corre em direção a calçada. Eduarda sorri por ver a honestidade de uma criança mesmo com os problemas que a sociedade enfrenta e impõe as pessoas menos favorecidas a fazer algo de mais grave até.
Saindo da estrada movimentada, ela segue uma rua que ela conhece bem. A rua que dá ao final onde a bela mansão da família Medeiros está lá intocável com vários seguranças ao redor.
- Boa noite senhorita Medeiros.
- Boa noite Lucas. Vim ver o meu pai.
- O senhor nos avisou. Vou abrir para a senhorita.
- Obrigada.
Os portões são abertos após Eduarda falar no interfone e o carro percorre aquele longo caminho até chegar ao pátio que dá na entrada da mansão.
Uma mansão digna de novelas e filmes. Mas era a mansão da família que ela ama.
Caminhando até a porta, ela encontra a governanta que ela chama de Nana. Uma senhora que a viu nascer e esteve com ela em todos os momentos da sua vida.
- Nana! – Sorrindo, ela a abraça.
- Minha princesa. Minha pérola. Cada dia mais linda!
- Saudades de você meu amor.
- Também estou com muitas saudades. Tem que vir mais vezes, está tão magrinha a minha pérola.
- Ah Nana, como sempre achando que eu tenho que viver empanturrada de comida.
- Humrum. Atrapalho?
Yolanda, interrompe a conversa das duas. Sempre elegante, mas com uma pitada de ciúmes em ver a sua doce neta em uma conversa com Leandra e não ter ido falar com ela.
- Jamais minha amora. – Correndo, ela abraça a avó lhe dando um beijo estalado na bochecha.
- Hum, sei.
- Nossa, que avó mais ciumenta que eu tenho, já viu Nana.
Leandra sorri timidamente e assente de cabeça baixa. Ela pede licença deixando as duas sozinhas na entrada da mansão. As duas caminham juntas até a sala e Eduarda pergunta pelo seu pai.
- E o meu pai?
- No escritório.
- Minha linda, eu vou falar com ele. Estou estudando um caso e preciso falar algo muito importante.
- Vá. Eu vou até a cozinha ver como está tudo para o jantar.
Eduarda sorri e segue após dar um beijo na sua avó para o escritório. Ao bater na porta, o seu pai não escuta por estar em uma discussão calorosa ao telefone e ela entra, escutando parte da conversa dele.
- Não quero saber. Não quero que ela se envolva com esse tipo de gente.
- Pai?
Ele se assusta ao olhar para trás e ver a sua filha com os braços cruzados olhando-o.
- Depois conversamos melhor. Agora preciso desligar.
Assim que ele encerra a ligação, Eduarda fica desconfiada pela ligação do seu pai. Ele caminha até a sua filha sorrindo e lhe dando um abraço. A mesma lhe retribui da mesma forma.
- Minha querida. Está cada dia mais linda.
- Oi pai, estava falando com quem?
Ao afastar-se da sua filha, ele a encara fixamente com um sorriso e desconversa.
- Era somente trabalho minha filha. E você como está?
- Hum, eu estou bem. Estou estudando um caso que o escritório vai defender.
Olhando para o seu pai, percebe que ele ficou tenso. O seu corpo se enrijeceu. Mas, ao olhar para a sua filha o encarando, ele disfarça.
- Ah, é mesmo. Eu soube por alo. Mas não sabia que iria ficar com o caso.
Por mais que ela quisesse caminhar com as suas próprias pernas, o seu pai sempre achava um meio de se meter. Ela ficou logo com raiva. Por mais que ela falasse calmamente, não adiantava nada discutir ou se exasperar com ele. Sempre ele iria dar um jeito de se meter e saber da sua vida.
- Pai!
- Eu mesmo filha.
- Te pedi tanto para não fazer mais isso.
- Isso o que filha?
- Ah pai, isso de ficar se metendo em tudo que faço até o meu trabalho poxa!
- Filha, mas eu faço isso para o seu bem.
Antes que a discussão começasse a ficar acalorada, Yolanda entra no escritório para avisar sobre o jantar.
- Sei que vocês querem conversar mais, só que o jantar já está na mesa.
- Hum, estou morrendo de fome Moeder (mãe em holandês). Vamos então?
Desconversando, ele sai arrastando a sua mãe. Eduarda, que vem logo atrás revira os olhos e balança a cabeça em negação e dá uma lufada de ar por ver que o seu pai não passa de um caso perdido. Pensando nisso, ela sorri ao lembrar de falar isso para Henrique mais cedo naquela sala no presídio. Ela vai até a sala de jantar sorrindo.
Seu pai e a sua avó se entreolham por ver um lindo sorriso no rosto dela. Ao perceber que estão a olhando, ela fecha logo o seu semblante, ficando séria.
Os dois então, acham melhor não falar nada para não estragar o jantar entre eles, já que cada vez mais tem se tornado escasso entre eles devido ao dia a dia corriqueiro.