Frase
"Não julgue o livro pela capa, nem o homem pelos seus erros, antes de tudo você precisa conhecer os dois lados de uma moeda"
Prólogo
Abro meus olhos com dificuldade e me arrependo no exato momento em que o faço, uma vez que dores terríveis se espalham por todo meu corpo.
Mal consigo enxergar. Sinto meu peito pesar e uma forte ardência se espalhar pelo meu tórax. É uma sensação estranha e ao mesmo tempo dolorosa.
Forço alguns movimentos, mas os vários fios enroscados em meus braços não permitem que eu faça muito esforço. Gemo baixinho sentindo a dor constante, insistente e sem piedade dominar meu peito.
Com muita resistência foco minha visão e percebo estar em um quarto de hospital com vários médicos a minha volta, alguns me olhando de forma assustada e desesperada, até que de repente um bombardeio de perguntas chove em minha direção.
Eles estavam confusos e curiosos, mas eram perguntas das quais eu não tinha respostas. A única coisa que conseguia lembrar era do par frio de olhos azuis me encarando por constantes minutos enquanto apontava duas pistolas negras em minha direção, até um som estridente sair de uma delas me jogando para trás bruscamente.
Acabo consequentemente recordando a sensação de algo quente molhar meu vestido azul bebê de cetim e logo em seguida tudo fica escuro rapidamente.
Ele deveria ser a minha salvação.
Aquele que me protegeria.
Porém ele decidiu ser minha perdição, ser a minha morte.
Acordo assustada e com a respiração irregular. Meus punhos fechados e braços estendidos em posição de ataque como se estivesse preparada para uma batalha. O escuro domina o ambiente gélido do meu quarto, a porta da academia estava entreaberta permitindo que ar gelado circulasse pelo pequeno ambiente.
Ainda era madrugada, porém, como todos os outros dias ele veio mais uma vez atormentar os meus sonhos, despertando o meu desejo de vingança. Levanto-me do futon[1] seguindo para a sala de treinamento da academia, onde eu poderia descontar todas as minhas frustrações e desespero, sentimentos dos quais eu precisava aprender a dominar caso quisesse conquistar a liberdade e a minha querida e doce Itália de volta.
Me posiciono desferindo incontáveis socos e chutes no boneco a minha frente, imagens frustrantes daquela noite passam pela minha mente como flashes vivos de algo que eu desejava imensuravelmente esquecer.
Um garoto de 17 anos anda tranquilamente pela sala de estar da mansão Becker enquanto eu, minha mãe, meu pai e minhas duas irmãs mais velhas estávamos amarrados e ajoelhados um ao lado do outro sobre o tapete persa que a mamãe mais gostava.
Meu pai suplicava insistentemente pela vida de suas filhas, enquanto Donatel Voyaller ria do seu desespero e eu tentava entender o porquê de tudo aquilo.
Donatel sempre foi um amigo próximo da família, uma vez que ele era o melhor amigo do meu pai, participando ativamente de todos os eventos que os Beckers organizavam e apesar de sempre ter achado ele um homem frio e medonho, papai confiava cegamente nele.
Dante, seu único filho tinha uma relação complicada e distante com o pai, mas naquele momento não conseguia entender por que ele obedecia às ordens daquele velho rabugento. Odiar Donatel fazia parte de mim, uma vez que, eu sempre tive medo daqueles olhos vorazes e agora era obrigada a vê-los estampados no rosto do meu amado Dante.
Donatel balança a cabeça dando a confirmação para Dante atirar, a sede de sangue que ele emana é quase palpável. Sem se importar ele aponta suas duas armas negras para minhas irmãs e atira sem se quer titubear ou sucumbir.
O desespero toma conta do meu corpo ao ver minhas irmãs inertes no chão, o sangue escorrendo de suas cabeças formando grandes poças vermelhas sobre o tapete que um dia fora felpudo e delicado. Começo a gritar desesperadamente na tentativa inútil de despertá-las, mas de nada adiantaria.
Donatel, caminha até mim com um sorriso demoníaco no rosto, mas Dante se coloca a minha frente impedindo-o de continuar.
- Mate os outros dois. - Donatel dá a ordem para que Dante acabasse com a vida dos meus pais.
- Donatel deixe Eva em paz, é a única coisa que eu te peço. - Meu pai mais uma vez implora por minha vida e não pela sua enquanto Donatel ria diabolicamente.
Dante moveu-se lentamente em direção aos meus pais sem expressar nenhuma reação ou dor em seu olhar frio e sanguinário.
Eu suplico e imploro na esperança de que isso o faça parar, mas ele não me ouve, se quer olha dentro dos meus olhos e mais uma vez segue as ordens de seu pai como um cachorro bem treinado mirando suas duas Taurus gêmeas em direção aos meus pais e atira sem se preocupar.
O som estridente reverbera pelo meu corpo e fortes arrepios percorrem minha coluna enquanto vejo os corpos inertes dos meus pais caírem no chão sem vida. Inconscientemente começo a gritar desesperadamente para que meus pais acordem, mas os meus gritos não são altos o suficiente para alcançá-los, uma vez que eles não se mexem.
Tomada pelo desespero, mesmo com as mãos amarradas me levanto e corro até o corpo da minha mãe, falando em seu ouvido como se dessa forma ela pudesse me escutar e acordar.
Dotanel me ergue pelos cabelos e me arrasta pelo chão como um verme insignificante até me arremessar fortemente contra a parede, fazendo o ar dos meus pulmões sumirem por alguns instantes. Começo a tossir incontrolavelmente quando percebo Dante entrar na minha frente, como se finalmente a cabeça dele tivesse voltado a funcionar, o que infelizmente seria tarde demais.
- Está protegendo essa putinha! Mesmo toda culpa sendo dela? - Donatel ri debochadamente. - Dante, meu caro Dante, você sabe que não existe amor para pessoas como nós, essa mulher com toda certeza acabará sendo a ruína da família Voyaller se permanecer viva, sendo assim, já que você será meu sucessor... mate-a - ele ordena sem se importar.
Dante observava o pai e a mim enquanto choro incontrolavelmente vendo os corpos dos meus pais e irmãs estendidos no chão. Volto meu olhar para o seu a tempo de vê-lo apontar suas armas em minha direção, observando-me por incontáveis minutos sem esboçar qualquer reação.
Ele olha dentro dos meus olhos e posso ver um misto de arrependimento e dor, mas logo em seguida puxa o gatilho. A ardência em meu peito é instantânea e tudo fica escuro. Ouço as vozes distantes enquanto apago de vez e a única coisa que fica marcada em minha memória são os frios olhos azuis de quem um dia eu amei.
Não consigo parar de pensar naquela noite, muito menos tirar dos meus pensamentos a pergunta que repito todos os dias. Como um menino de 17 anos conseguiu acabar com uma família inteira? O que eu fiz para merecer viver toda essa dor?
Essas eram perguntas que jamais foram respondidas.
As dúvidas só cresciam dentro de mim e para me livrar delas projetava incontáveis sequências de socos e chutes no pobre boneco. Minha pele suada queimava em contato com o ar frio da noite me causando intensos arrepios.
Dante Voyaller, afrontava meus pensamentos e tirava a paz do meu coração, o homem de olhos frios e aura sombria que destruiu a família Becker estava prestes a conhecer o inferno.
O inferno que eu causaria em sua vida.
Depois de tudo que aconteceu fui obrigada a vir para o Japão morar com o único tio que me aceitou como membro de sua família. Quando cheguei a Tóquio fiquei impressionada com aquela cidade, é simplesmente magnífica, seus altos prédios chamavam a atenção de todos que passavam nas suas ruas movimentadas, os banners iluminados e todos aqueles jogos de luzes faziam você se impressionar com a grande quantidade de propagandas de produtos desconhecidos.
Mas no fundo sendo bem sincera, nada é mais belo do que a Itália e a saudades do meu país queimava dentro do meu peito.
Todos os registros ligados a mim e a família Becker foram arquivados para que ninguém soubesse que eu havia sobrevivido, passei a usar um codinome para esconder meu verdadeiro nome daqueles que quero destruir.
Omiti da polícia todos os fatos sobre o meu passado a fim de fazer justiça com as minhas próprias mãos. Para eles o trauma havia sido tão grande que eu não conseguia lembrar nada daquela fatídica noite.
O que é uma mentira, pois Dante Voyaller, ou melhor dizendo "O Dragão de Veneza" jamais sairia da minha mente. Eu jamais esqueceria o garoto que me fez juras de amor e promessas de proteção, mas exterminou minha família sem hesitar com as próprias mãos.
[1] Estilo de sofá.
Ansiedade me define. Nem posso acreditar que depois de onze anos pisarei novamente em solo italiano e a cada pequena turbulência do avião em meio as nuvens espessas meu coração se acelera em ansiedade.
Apesar das cansativas horas de viagem do Japão à Itália finalmente ouço o piloto anunciar nosso pouso.
E uma vez que desembarco, abro os braços respirando profundamente o ar do meu doce e amado país. Desembarcar em solo norte italiano me faz relembrar os bons momentos do meu passado ignorando os ruins. Senti tanta falta desse lugar maravilhoso.
- Como eu senti falta desse país maravilhoso - falo para mim mesma, sem me importar com as pessoas que desembarcam ao meu redor me observando desconfiadas.
Após pegar minha mala na esteira procuro por Robert, um amigo que considero irmão.
A lotação de pessoas ao me redor me deixa ainda mais ansiosa e depois de incontáveis minutos finalmente o encontro segurando uma placa com o meu codinome.
Bom garoto. Penso com um grande sorriso nos lábios.
Sem pensar duas vezes corro em sua direção e me jogo em seus braços fortes.
Ele era tão jovem quando me mudei e agora está totalmente diferente, se tornou um homem lindo de tirar o fôlego de qualquer mulher que tenha bom gosto.
Sem muita dificuldade, Robert me ampara em seus braços forte me girando no meio do aeroporto, ao me colocar no chão novamente deixa um beijo demorado em minha testa.
- Rob, que saudades. - Sorrio e ele bagunça meu cabelo.
- Sempre levada e sapeca. - Aperta minhas bochechas.
Não pensem que Robert é algum namorado, não mesmo, ele simplesmente é um velho amigo que ficou encarregado de assumir todas as empresas em nome dos Becker.
Na verdade, ele é quem sustenta toda a fortuna que ainda se mantém em meu nome.
Robert é um homem alto e atraente, seus fios grisalhos perdidos entre os cabelos negros o deixam mais charmoso e elegante. Um verdadeiro empresário cheio de si.
Para mim, Robert, é a minha família, ele é a única pessoa que se importa comigo nesse mundo. O único que não me abandonou depois do que aconteceu com os meus familiares. Além de ser um dos únicos que sabe que estou viva.
- Finalmente, depois de onze anos eu pude voltar para Itália. - Suspiro aliviada.
- Achei que você não retornaria mais - diz cansado.
- Que isso, só fiquei um tempinho fora, você sabe que sou uma pessoa morta. - Pisco, mas recebo uma carranca emburrada.
- Odeio quando você brinca com isso. - Revira os olhos dando um peteleco na minha testa.
- Ai. - Passo a mão na testa chateada. - Se eu não brincar as coisas só ficariam pior.
- Tente esquecer então.
- Impossível - resmungo.
- O quê? - Me fita com uma sobrancelha arqueada.
- Nada, vamos logo Rob. - Caminho para a saída do aeroporto o deixando para trás.
Ele me ajuda com as malas as levando para o carro que estava a nossa espera.
- O que você leva dentro dessas malas? - murmura.
- Bom dentro dessa. - Aponto para mala que ele custa em colocar no carro. - Minhas armas, então trate de tomar muito cuidado, pois foi extremamente burocrático conseguir trazê-las para Itália. - Dou de ombros.
- Ainda não desistiu dessa vingança, Eva - diz chateado.
- Eu já disse para não me chamar assim. - Tampo sua boca com minhas mãos. - Sabe que ele tem homens espalhados por todos os lugares.
- Entendi. - Segura minha mão. - Você deveria parar com essa fascinação pelos Voyaller - fala chateado e ao mesmo tempo bravo.
- Isso não vem ao caso no momento, sabe que não ficarei em paz até descobrir a verdade. - Passo a mão no peito me lembrando dos intensos olhos azuis do Dragão.
- Eu queria que você me escutasse uma única vez. - Balança a cabeça em negativo.
- Creio que isso seja impossível. - Me acomodo no banco do passageiro e recebo um olhar de repreensão.
- Você está mais abusada do que eu me lembro - comenta com insatisfação.
- Não quero discutir sobre isso agora. Sabe que esse assunto me deixa irritada, além de me trazer lembranças dolorosas. - Cruzo os braços entristecida.
- Desculpe, vamos para casa. Sua chegada é um momento especial que devemos comemorar. - Seus lindos olhos escuros se voltam para mim cheios de carinho.
- Com macarronada? - pergunto empolgada.
- Com macarronada! - afirma com um lindo sorriso nos lábios dando partida no carro.
Sinto meu peito vibrar em felicidade ao saber que comeria novamente a macarronada de Robert.
Como não tinha outro lugar para ir ou para morar, aceitei ficar na casa dele, afinal ele não aceitaria que eu ficasse em outro lugar e, apesar de sua casa ficar um pouco afastada da cidade, fica entre as localidades de Veneza e Verona, para ser mais exato próximo a Pádua.
Observo Robert dirigindo e me vejo sorrindo involuntariamente. Ele está tão diferente do que me lembro.
- Você está tão diferente, alto e forte. - O observo curiosa.
- Foram onze anos Eva. - Me observa com a sobrancelha arqueada. - Você também mudou muito, cadê aquela garotinha chorona de quinze anos que não sabia fazer nada? Olhando para você agora, me sinto um velho. - Olha de soslaio enquanto dirige.
- Para você não está velho. - Reviro os olhos.
- Ainda não gosto de pensar que pratica essas lutas brutais - fala com desgosto.
- Não são lutas brutais - defendo.
- São sim, para qualquer mulher delicada como você. - Me encara convicto.
- Rob pareço mais bruta e menos delicada? - Faço uma pose desajeitada e ele começa a rir.
- Nem bruta e nem sexy. - Ele rir tanto que chega a formar lágrimas em seus olhos.
- Otário de merda. - Bufo irritada.
- Desculpa, não queria ofendê-la. - Me observa sério reprimindo um sorriso.
- Não quero graça com você, vamos logo para casa que preciso organizar meus planos para caçada de um certo dragão que gosta de usar os números 371 para marcar as pessoas que mata. - Cruzo os braços olhando a pista passar pelo vidro do carro.
- Você não irá desistir Eva? - Robert pergunta intrigado.
- É claro que não, e já vou avisando que sumirei por tempo indeterminado, não adianta me ligar ou me procurar - digo irritada.
Com toda certeza ele tentará me impedir.
- De maneira alguma, você acabou de voltar e já está querendo sumir? Acha mesmo que vou deixar você chegar perto daquele desgraçado que tentou te matar uma vez? Não será sacrifício nenhum para ele acertar seu coração dessa vez, já que dá outra ele errou. - Aperta firmemente o volante do carro irritado.
- Ele não errou - resmungo olhando novamente para a janela do carro.
Dante simplesmente não quis acertar meu coração, pois se quisesse teria feito com maestria. Pessoas como ele não erram, pessoas como ele deixam o assunto inacabado para brincar com suas vítimas no futuro.
- Como pode ter tanta certeza que ele não errou? Você parece defendê-lo - Robert diz indignado.
- Não estou defendendo, apenas sei, ele não erraria um tiro daquela distância.
- Pare de ser teimosa. Todos esses anos no Japão só te deixaram ainda mais complicada e paranoica, se a mira daquele desgraçado fosse a alguns centímetros para esquerda teria acertado seu coração e mesmo assim você quer discutir sobre erros e acertos. Isso não importa, ele poderia ter te matado, mas graças aos céus você está viva. - Sua voz se altera e acaba desferindo um soco no volante do carro.
- Eu sei que você me ama, mas ainda assim, eu vou atrás do Dragão. O fato dele ter errado não vem ao caso. Ele não acertou meu coração porque simplesmente não quis e eu vou descobrir o porquê disso tudo. Quero toda a verdade para depois matá-lo lentamente e já te adianto os detalhes. Eu não vou errar - afirmo irritada. - E outra coisa, não foi uma escolha ir para o Japão, não se esqueça que fui obrigada - falo séria, o encarando com irritação. - Você sabe que a única maneira de descobrir a verdade é entrando no jogo dele e fazendo parte das suas sujeiras, então simplesmente entrarei em seu jogo.
Este assunto está chateando a nós dois.
- Convencida do caramba, quem disse que eu te amo garota abusada? - Ele estaciona o carro em frente a uma casa enorme. - Não importa o que eu fale ou faça, você não me dará ouvidos.
Robert está tentando desviar do assunto principal que é caçar Dante e isso só me deixa ainda mais irritada, mas já que ele quer jogar dessa maneira vamos entrar na dele.
- Você me ama mesmo. - Começo a rir da expressão de incredulidade que ele faz.
- Tire logo essa bunda do meu carro antes que a chute, já chegamos. - Com cara de poucos amigos ele sai do carro.
Fico boquiaberta ao olhar para casa que estava a minha frente.
Esses ricos de merda que não sabem dar valor ao dinheiro suado que eles mesmo ganham, desço do carro irritada.
- Está casa é sua? - pergunto indignada chutando sua bunda.
Como ele não esperava o ataque repentino bate a cabeça no porta-malas do carro que estava aberto, pois estava pegando as malas.
- Sua cretina. - Me lança um olhar mortal passando a mão na cabeça onde havia batido. - Se você quisesse algo mais simples ficasse em um hotel - grita irritado.
Sorrio cruzando os braços. Irritar Robert sempre foi algo maravilhoso e nem depois de longos anos ele não perde seu jeito explosivo e carrancudo.
O bom de tudo isso é que posso usar sua própria fúria contra ele mesmo.
- Você me odeia é isso? - Faço um biquinho magoado com olhos lacrimejando.
Drama psicológico funciona como luva para Robert e como eu previa vejo ele amolecer e ceder gradativamente.
- Corta essa, não vou cair no seu jogo. - Ele fecha sua expressão, mas seus olhos não negam que ele está preocupado.
- Rob - o cutuco. - Acha justo depois de onze anos de treinamento não me deixar ir atrás do Dragão? Você vai ajudar, não vai? Vai conseguir uma maneira de eu me encontrar com ele. - Faço cara de cachorro sem dono e o abraço esfregando meu rosto em seu peito. - Você acabou de gritar comigo e me chamou de cretina, depois de tanto tempo longe está me tratando mal dessa maneira. - Apelo para níveis mais baixos, pois sempre funciona com Robert.
Ele suspira pensativo e passa as mãos nos meus cabelos, preciso dele ao meu lado para encontrar o Dragão. Cheguei hoje e seria complicado levantar pistas dos seus passos tão rapidamente, mas conhecendo Robert, ele teve tempo suficiente para observar e seguir os passos de Dante, afinal, duvido muito que ele simplesmente tenha deixado todos os acontecimentos do passado de lado. Robert não confia no Dragão e jamais deixaria de ficar de olho nas ações dele, conheço bem o amigo que tenho e ele sempre me protegeu com toda a sua garra.
Preciso das informações que ele tem para dar início ao meu plano com urgência.
- O que eu não faço por você? - Ele me abraça apertado e eu sorrio.
- Obrigada Rob, eu sabia que você ficaria do meu lado. - Sorrio para ele o abraçando com mais força.
- Pare de me olhar com essa cara de cachorro sem dono - diz bravo.
- Essa cara sempre me salva quando você está bravo comigo. - Dou uma piscadinha o soltando do meu abraço de urso.
- Um dia desses vou me arrepender de tudo isso, vamos logo, você precisa arrumar suas coisas. - Termina de pegar minhas malas.
O ajudo a levar as malas para dentro da enorme mansão que ele chama de casa.
Deixo as malas em um quarto que ele preparou para mim e resolvo dar uma volta pela casa. A mobília é séria e de cores escuras, com poucos quadros e alguns vasos em lugares estratégicos. Para um lugar tão grande falta móveis e vida.
Não culpo Robert, pela falta de arte em sua casa. Ele vive mais na empresa do que aqui e posso acreditar que seu escritório é bem diferente deste lugar.
Robert assumiu as empresas Becker logo após a morte dos meus pais.
Às vezes custo a acreditar que meu pai não sabia o que iria acontecer com a nossa família, pois seu testamento sempre me deixou intrigada.
Como se ele soubesse que todos iriam morrer, deixou claro em seu testamento que Robert seria o responsável por assumir as economias e empresas Becker se não houvesse nenhum de seus familiares para assumir seu lugar. Como eu ainda era menor de idade, o testamento continuou válido.
Para toda a Itália o assassinato da família Becker levou a morte dos cinco membros da família. O que é uma mentira, pois ainda estou viva, mas pouquíssimas pessoas sabem da verdade.
A polícia vendo que o assassino poderia retornar para terminar o serviço, achou viável manter minha morte e sugeriu que eu saísse do país e trocasse de nome para retirar qualquer especulação que me envolvesse com o passado ou a família Becker.
Eu ainda era jovem e poderia reconstruir minha vida com algum familiar distante.
Eles sabendo que Robert também poderia sofrer com a liderança das empresas, acharam correto que ele não as assumisse como herança e sim como um comprador qualquer. Então ele fingiu comprar as ações e dar continuidade aos negócios mudando o nome da empresa Becker para Trion.
Foi uma ótima escolha já que tirou os olhares da mídia da família Becker e se voltaram para o mais novo milionário da Itália.
Acredito que com isso, qualquer dúvida que Dante tenha sobre a minha morte caíram por terra. Eu realmente quero colocar aos mãos no homem que um dia amei, e ter o prazer de matá-lo juntamente com seu pai.
Desço as escadas e encontro Robert fazendo sua deliciosa macarronada. O aroma se espalha pela a casa e faz meu estômago roncar, e como já é noite na Itália um frio leve me faz sorrir.
Simplesmente amo esse clima que fica entre o frio e calor gerando uma suave brisa de mudança de estação.
- Quer ajuda? - pergunto ansiosa e ele nega sorrindo.
- Ainda tenho amor a minha vida, não pretendo morrer com suas comidas indigestas. - Sorri cheio de si me encarando com aqueles lindos olhos castanhos brincalhões.
- Engraçadinho, aprendi muita coisa no Japão, mas vou aproveitar a oportunidade para tomar um banho e deixar que você faça sua macarronada deliciosa. - Ele assente e eu volto para o quarto.
Assim que entro no chuveiro deixo a água morna massagear meus músculos cansados da viagem. Fecho os olhos e a única coisa que consigo enxergar são intensos olhos azuis envoltos de puro ódio.
Procuro concentrar meu foco no presente lavando meus longos cabelos ruivos. Tento frustrantemente expulsar da mente a tormenta que aquele homem causa e sem muito sucesso saio do banho me trocando rapidamente.
Coloco uma roupa de frio e penteio os meus cabelos molhados. Desço novamente para a cozinha onde Robert me espera com a mesa posta.
Aproveitamos o tempo para jogar conversa fora já que há muitos anos não tínhamos a oportunidade de nós sentar juntos e desfrutar da presença um do outro.
A macarronada que ele faz é com toda certeza a melhor que já comi em toda a minha vida e tenho certeza que não há restaurante no mundo que consiga sabores tão especiais.
Evitamos tocar no nome do causador de toda a nossa desordem emocional, mas em meio a conversas simplistas Robert, acaba tentando me convencer a deixar minha vingança de lado.
Eu entendo perfeitamente que para ele meus planos são muito arriscados, mas quando sua vida é destruída sem motivos pela pessoa que lhe jurou amor eterno, tudo em que você acredita se desfaz e mesmo que você tente lutar com todas as forças para seguir em frente, o vazio e o buraco em meu peito me puxam para trás querendo respostas.
Com uma pequena falha de informações e explicações sem sentido, Robert deixa escapar que haverá uma festa na mansão Voyaller no final de semana. Será um evento de alta classe fechado para convidados especiais.
Sabendo que não poderia perder a oportunidade de observar o território inimigo, obrigo Robert encaixar meu nome na lista de convidados.
Influência Robert Trion tem de sobra.
Rastejei, supliquei, implorei e beijei seus pés até finalmente conseguir convencer esse cabeça dura a me ajudar. Em completo contragosto ele concorda em dar um jeito de encaixar meu nome na lista de convidados.
A felicidade me consome por saber que encontrarei O Dragão de Veneza mais rápido do que eu esperava.
Agora preciso treinar minha mente e o meu espírito para não me deixar influenciar pela sua presença maçante, pois ver aqueles olhos medonhos como um mar revolto cheio de ódio e malicia não é algo fácil de se enfrentar pessoalmente.
Sei que não deveria estar tão focada nesta vingança, também sei que antes de planejar qualquer ataque ao inimigo, devemos analisar o seu território e é exatamente isso que farei esta noite.
Depois de chegar a Itália acreditei que teria um tempo para visitar os meus lugares preferidos como o Coliseum, que apesar de ser um lugar antigo me chama a atenção. Queria também dedicar um tempo especial a Robert que sempre cuidou de mim, mas a vontade de encontrar Dante se sobrepõe a todas as outras em meu coração, eu não poderia perder uma oportunidade tão grande como está de entrar diretamente na toca do Dragão.
A semana passou rápido e meu foco ficou voltado para a festa que me espera está noite.
Robert tentou de todas as maneiras me convencer a mudar de ideia, mas meus pensamentos estão ligados ao Dragão.
Vejo meu reflexo e me sinto satisfeita com a minha imagem. O vestido que escolhi realça minhas curvas deixando-as delineadas. Como não quero chamar atenção mais que o necessário optei por uma cor escura e mais simples. O famoso preto básico. A fenda que se estende na perna me deixa desconfortável por mostrar mais pele do que eu gostaria, entretanto é necessário para os meus movimentos em uma possível luta.
Foi difícil escolher um vestido que se encaixasse no que eu realmente estava buscando, todos os modelos eram ousados demais e a maioria deles deixavam parte das minhas costas exposta o que não é uma boa coisa, pois levo o brasão da família Becker - uma flor de lótus - escondido entre as penas de uma fênix em uma belíssima tatuagem.
Respiro profundamente arrumando o coldre de facas na parte superior da minha coxa.
Não costumo usar armas de fogo, apesar de ser muito práticas e rápidas, gosto e opto por armas brancas, todos os tipos possíveis de armas brancas.
Termino de arrumar meus cabelos ruivos deixando-os em ondas caídos sobre minhas costas e ombros. Realço bem meus olhos castanhos esverdeados para que fiquem marcantes e retoco o batom vermelho deixando meus lábios vivos e chamativo.
Sinto meus olhos marejados ao tocar minha orelha e analisar o pequeno brinco de diamantes que brilha delicadamente. Uma peça exuberante e sensual, um presente especial passado de geração em geração que guardo com carinho, pois, foi o último presente que ganhei da minha mãe antes dela partir.
Esses pensamentos me assombram e entristecem, então procuro dispersá-los, pois, não poderia me apegar ao ódio neste momento, desço para sala onde Robert me espera visivelmente chateado e por mais que ele tente esconder seu nervosismo falha drasticamente.
- Você deveria desistir - insiste Robert assim que coloco os pés na sala.
- Por Deus Rob, pare com isso. Estou indo apenas para analisar o local e observar Dante Voyaller de perto. Se for favorável para mim colocarei meus planos em prática. - Seguro minha pequena bolsa de mão que têm um fundo falso onde escondo um pequeno punhal adaptado para se encaixar perfeitamente no fundo e algumas maquiagens adaptadas a armas, como o batom que no lugar do gloss leva uma pequena faca.
- Eva... - persisti transtornado.
- Nada de vir atrás de mim se eu não voltar. - O observo duvidosa.
- Não posso garantir nada - bufa irritado.
- Já conversamos sobre isso, nada de agir por impulsividade. Você sabe que pode estragar todos os meus planos se fizer isso - o repreendo e ele suspira. - Você sabe que para tirar tudo o que quero de Dante precisarei da sua confiança e para ganhar isso somente fazendo parte das falcatruas que ele se envolve.
- Eu odeio esse homem - diz irritado. - E odeio ainda mais a ideia de te ver fazer parte do mundo distorcido dele.
- Somos dois. - Pisco para ele sorrindo. - Não se preocupe, você sabe bem o que eu quero Rob, apenas proporcionar dor e sofrimento aquele homem.
- Eva, não faça nada de imprudente. Sabe que eu não suportaria perdê-la novamente. - Ele se aproxima acariciando os meus cabelos com carinho e preocupação.
Respiro profundamente apoiando minha mão em seu peito em sinal de conforto.
- Você não irá me perder, mas precisa confiar em mim. Talvez eu precise passar alguns dias, semanas ou meses naquela casa para descobrir a verdade. - Observo seus olhos cansados e preocupados. - Tudo é mais complexo do que imaginamos e você sabe disso.
- Só tome cuidado. - Deixa um beijo na minha testa.
- Prometo tomar. - Sorrio gentilmente.
- Tarciso está a sua espera com uma Lamborghini. Não poderia deixar minha maninha chegar de táxi - fala com um olhar entristecido, mas com um sorriso de satisfação.
Balanço a cabeça em negação enquanto caminho até a porta. A preocupação e tensão ainda estão estampadas na face de Robert, mas preciso seguir meu curso, não poderia desistir agora.
Dou um forte e longo abraço me despedindo e como ele havia dito o seu motorista estava à minha espera. Me acomodo no carro e sem demora Tarciso segue para a mansão Voyaller, onde aconteceria uma das maiores festas da redondeza.
A mansão fica no nordeste da Itália em uma localidade afastada muito próximo à Veneza. É um lugar restrito comandado pela família Voyaller, e somente convidados tem o direito de entrar e sair.
Conforme nos aproximamos observo a floresta ao meu lado pela janela e acabo por me lembrar dos intensos olhos azuis de Dante em meio a escuridão. Os gritos de agonia dos meus familiares preenchem meu peito e o desespero se espalha por todos os poros do meu corpo.
Sou obrigada a fechar os olhos fortemente e respirar profundamente acalmando minha pulsação que se acelera drasticamente. Sei que treinei todos esses anos para encontrá-lo, mas não importa quanto tempo passe essa dor em meu peito jamais irá se amenizar.
Não posso perder o equilíbrio agora, não posso me dar o luxo de errar com esse homem.
- Senhorita, estamos quase chegando. - A voz do motorista rompe meus pensamentos e somente agora analiso a localidade.
Estive aqui poucas vezes, mas é tudo como me lembro. Um grande muro cerca as terras e os seguranças fazem plantão sem descanso. Procuro gravar cada pedaço de terra por onde passamos e tenho que admitir que essa sempre foi uma belíssima casa.
Tarciso segue um caminho de pedras que nos leva até os grandes portões da mansão.
Um dos seguranças pede o convite e após confirmar que o bilhete é válido libera nossa passagem.
Já é noite e a pouca claridade da lua não colabora com a minha visão, mas ainda consigo me lembrar vagamente que do lado esquerdo há um lindo jardim que se perde em um labirinto como nos contos de fadas e a direita uma imensa e densa floresta que se espalha ao nosso redor.
Quando pequena lembro vagamente de vir visitar Dante, mas conforme fui crescendo suas visitas eram constantes na mansão Becker, mas isso não importa agora. Tento dispersar esses pensamentos.
Tarciso segue até a entrada da mansão dando a volta em torno de uma grande fonte muito bem iluminada, onde um dragão jorra água pela boca. Seguimos em frente e paramos na escadaria que leva a porta de entrada.
A porta ao meu lado se abre revelando um dos seguranças que educadamente estende sua mão em minha direção, seguro sua mão com um grande sorriso enquanto meus olhos percorrem todo o local com cuidado.
Este lugar é o verdadeiro covil do dragão, concluo o pensamento ao avistar muitos homens armados fazendo a guarda não somente da casa, mas de todo o local.
Procuro observar cada detalhe sem deixar nada passar e sinceramente, isto será mais difícil do que imaginei. Dante é um homem esperto, calculista e intimidador, gosta de mostrar o poder que tem, no passado era assim e observando bem nada mudou.
Subo as escadas que me levam as grandes portas de madeira com o símbolo da família Voyaller entalhado na porta. O dragão bem desenhado não me passa despercebido, pois para muitos é um simples desenho, mas para mim significa a morte dos meus familiares.
Atordoa-me em pensar que muitos anos da minha vida admirei esse símbolo, e hoje a única coisa que consigo sentir é ódio e nojo.
Procuro não focar em detalhes como esses, logo que entro surpreendo-me com a beleza do hall de entrada, não lembrava ser tão deslumbrante.
Lembro que no passado essa casa era mais sombria e rústica, na verdade, um lugar mais antigo, hoje o toque de modernidade misturado a antiguidade deixa o local mais charmoso e luxuoso. Acredito que jamais vou deixar de me surpreender com essa família, tanto em sua audácia quanto em suas traições.
Fiquei encantada com a reforma nas escadas laterais que levam ao segundo andar, a substituição do piso de madeira pelo granito ficou impecável, como tudo ali presente. O local tem tons de bege e marrom escuro, o corrimão preto das escadas quebra o tom de seriedade dando um charme inusitado, o grande lustre do hall de entrada fica logo acima da mesa redonda entre as duas escadas, as poltronas de couro preto encostadas nas paredes dão um ar de mistérios e seriedade, tudo naquele espaço é surpreendente.
- Qual o seu nome senhorita? - Um senhor vestido com smoking me observa desconfiado fazendo com que eu saia do meu transe momentâneo.
- Dana Trion. - O encaro de cabeça erguida e ele procura meu nome na extensa lista que estava em suas mãos.
- No final do corredor Srta. Trion. - Se curva indicando o local com mão.
- Obrigada - digo gentilmente.
Faço o que me é pedido e vou diretamente para o jardim dos fundos. Assim que passo pelas portas a música eletrônica invade meus ouvidos em cheio. Muitas pessoas já se encontravam presentes, cada um em sua roda de amigos rindo e conversando enquanto bebem seus champanhes e coquetéis.
Analiso todo o local à procura de quem me interessa, mas não o encontro em lugar algum. Aproveito o momento de sossego para bebericar uma deliciosa taça de vinho tinto suave que se embala em minha língua com delicadeza e doçura.
Percebo os olhares desconfiados dos seguranças, sei que necessito socializar com as pessoas aqui presentes, querendo ou não sou carne nova na toca do dragão. O único problema é não saber quais são os mafiosos que estão aqui para marcar presença e quais são os empresários a fim de fechar negócios com o dono do porto da Itália.
Sem me dar conta um senhor de meia idade se aproxima sorridente. Estava mais entretida procurando minha caça do que no senhor que se aproximava.
- Olá senhorita, sou Donzel Golodiev, nova por aqui? Nunca a vi numa festa como esta antes. - Dono de um sotaque forte sorri abertamente segurando minha mão com delicadeza depositando um beijo nela.
Educadamente sorrio para ele, mas me sinto incomodada com a sua presença marcante. Ele não parece ser um simples convidado e isso está me cheirando a problemas.
- Prazer em conhecê-lo, represento as empresas Trion. Como irmã mais nova de Robert, vim em seu lugar, já que lhe surgiu alguns imprevistos - respondo enquanto dou o meu melhor sorriso vendo a cara de surpresa do homem.
- É uma novidade saber que um Trion tem envolvimento com um Voyaller. Como este mundo é pequeno não. - Ele parece satisfeito em saber que Robert tem envolvimento com Dante.
Sinto que Robert vai me matar quando souber disso, já estou prevendo minha morte de várias maneiras possíveis.
- Às vezes precisamos expandir nossos horizontes. - Ergo a taça em um brinde tomando um grande gole de vinho.
- Tem razão. - Um sorriso sóbrio se estende por seus lábios e percebo que socializar com aquele homem não é a minha melhor opção, então procuro me afastar e somente agora percebo seu olhar lascivo sobre meu corpo, o que me deixa desconfortável.
Caminho por entre os convidados procurando tomar distância do homem que conheci a poucos segundos e inconscientemente minha mente voa para o passado mais uma vez.
No inventário meu pai parecia prever os acontecimentos, pois deixou claro que se acontecesse algo com os Becker, tudo seria passado para Robert Trion, que assumiria seu lugar de CEO, mas manteria uma boa qualidade de vida para sua família e cuidaria de suas filhas como se fossem dele.
Dito e feito. Robert parece uma sombra, ele quer saber de todos os meus passos e de tudo que faço.
Procuro andar ao redor da festa para me lembrar perfeitamente de todos os detalhes desta casa e vejo um grupo de mulheres conversando animadamente e acredito que elas mal sabem o que seus maridos fazem, mas não se importam em viver de aparências e engano apenas para subir na mídia.
A imagem e o dinheiro sempre têm mais valor que os verdadeiros princípios concluo esse pensamento com um sorriso sarcástico no rosto.
Dante comanda toda Itália, podemos dizer que ele está no topo da máfia, mas pouquíssimas pessoas sabem disso. Para todos, ele é um querido e bondoso empresário que ajuda muitas associações carentes, mas ele tem muita sujeira escondida por baixo dos panos.
Lentamente me aproximo das mulheres e sou muito bem recebida, jogo conversa fora enquanto espero o meu alvo aparecer. Tive que treinar muito para não cair em seus encantos e sinceramente ainda não sei se este treino surtiu efeitos.
Dante é lindo, isso eu não posso negar, na verdade, ele sempre foi lindo. Seus olhos azuis te consomem e te faz delirar de tal maneira que você se perde na profundeza daquele olhar. Ele é intenso, sério e prepotente, sabe o poder que tem e exerce com maestria sob as pessoas a sua autoridade.
Finjo prestar a atenção na conversa das mulheres enquanto observo todos os seguranças da festa que não são poucos.
O alvoroço de risadas desvia minha atenção para o local cheio de mulheres aglomeradas e agitadas. Viro-me lentamente para encarar meu inimigo e nossos olhos se encontram.
Dante fixa seus intensos olhos nos meus como garras que te prendem sem que você consiga se libertar. O encaro estática por incontáveis segundos e só desviamos nossos olhares, pois uma jovem se agarra ao seu braço. Neste momento sinto o peso e desespero de não ter ouvido os conselhos do meu tio que sempre abominou vinganças e me aconselhou a não me envolver com Dante, afinal os níveis de experiência de um mafioso elevam-se aos treinos que tive no Japão, que apesar de intensos não se compara ao homem a minha frente que nasceu exatamente para isso.
Neste momento vejo o quão pesado foram suas palavras e como elas eram sinceras, pois encarar de frente o assassino da sua família e não demonstrar sentimentos é mais difícil do que imaginei.
Viro a taça de vinho de uma única vez na tentativa de acalmar os meus batimentos cardíacos, mas essa bebida suave nem mesmo surte efeito no meu organismo acelerado.
Desgraçado, como ele consegue ser tão incrível dentro de um terno como aquele? Sempre com uma pose de poder e autoridade. Todos caem aos seus pés como cachorros bem treinados.
Observo as árvores ao redor do local decidindo me afastar do aglomerado de pessoas que se reúnem em volta do Dragão. Não quero proximidade com Dante, quero apenas analisá-lo de longe e estudar toda a mudança que onze anos lhe causaram.
Por mais que sua atenção esteja voltada para o grupo que se reuni em sua volta, seus olhos estão atentos a cada movimento do meu corpo e cada tentativa de aproximação mudo meu caminho me mantendo afastada.
A realidade é que ele sabe que não faço parte desse mundo e seus olhos não negam a curiosidade e a vontade de me atacar. Ele me quer fora das suas terras.
A festa segue normalmente, minha vontade é pedir um belíssimo whisky e virar uma generosa dose de uma única vez, mas contenho minhas vontades já que não posso ficar bêbada em um momento como esses.
Por mais que procuro mudanças em tudo que vejo a minha volta, percebo que não há, nem mesmo no homem a minha frente. Ele apenas cresceu e se tornou um verdadeiro homem que deixaria qualquer mulher caída aos seus pés. Com seus cabelos negros penteados de uma maneira selvagem, seu rosto triangular e olhos azuis marcantes. Ele é lindo, eu nunca neguei isso, mas a frieza que aquele coração reserva o torna horrível.
Ainda assim, seus costumes do passado permanecem os mesmos, pois ainda me lembro da maneira que ele enruga a testa e junta as sobrancelhas em uma expressão de nervosismo ou indecisão como faz neste exato momento observando meus olhos.
Sua postura é rígida e as mãos dentro do bolso da calça me diz que ele está entediado e não gosta desta festa. Tudo continua o mesmo, a única coisa que mudou foi a intensidade do seu olhar que no passado se banhavam em esperança e, hoje só vejo escuridão.
Tudo isso me machuca, me magoa, eu amei esse homem até o último momento, até uma das balas de sua arma atingir meu peito em cheio. Desconfortável com o tudo o que passei e a dor que isso me causa opto por ir embora, pois minha cota de espionagem já havia passado dos limites.
Ao voltar a analisar as redondezas da festa vejo que seus seguranças se posicionam em lugares estratégicos para me observar.
Ele é esperto, perspicaz e inteligente, sorrio ao ver que já havia comunicado os seus homens sobre a minha presença.
Desvio minha atenção de Dante por um momento para contar os seguranças a minha volta que giram em torno de dez a quinze homens. Quando ouso voltar minha atenção para Dante sinto um forte impacto em todo o meu corpo ao observar as duas pistolas voltada em minha direção.
Aquele olhar, aquelas armas, a sensação de incapacidade e dor, o desespero, o medo e a frieza daquele olhar. Me sinto acuada, me sinto novamente no passado e não consigo negar o desespero estampado em meu semblante, observar aquelas armas faz com que eu reviva aquela fatídica noite novamente.
Três tiros seguidos faz o impacto do som refletir por meu corpo me deixando estática. Eu não esperava encarar aquelas armas tão cedo, não esperava vê-las tão perto novamente.
Minha respiração irregular entrega o meu desespero, seus olhos não desgrudam dos meus movimentos e eu sei que ele está jogando comigo, pois o sorriso vitorioso em seu rosto o entrega.
Uma salva de palmas e muitos assovios o saúda gloriosamente, a agitação daquele lugar me traz de volta a realidade e antes que as coisas piorem caminho apressadamente para a saída enviando uma mensagem para Tarciso, pois não poderia perder tempo. Contudo, os seus homens seguem meus passos me encurralando em direção a mansão.
Pelo que vejo não sairei sem uma boa luta.