Isolde estava sentada no escuro, ouvindo o silêncio de uma casa que não mais abrigava o bater do coração de sua filha. Ela apenas apertava a mão de Effie.
Estava tão fria. Effie tinha apenas cinco anos. Crianças de cinco anos deveriam ser quentinhas, grudentas de suco. Não deveriam estar frias.
"Hora do óbito, 20:42. Causa, complicações de uma pneumonia aguda que levaram a uma parada cardíaca."
A voz do médico era neutra. Profissional.
Os joelhos de Isolde bateram no linóleo. Ela procurou desajeitadamente pelo celular. Seus dedos tremiam com tanta violência que ela o derrubou duas vezes antes de conseguir desbloquear a tela.
Grayson.
Ela discou o número particular dele.
Chamou uma vez. Duas.
Chamada recusada.
Um segundo depois, uma mensagem de texto vibrou em sua palma.
Em reunião. Não perturbe. Pare de ligar.
Isolde encarou a tela. As letras brancas no fundo cinza se borraram.
A oito quilômetros dali, as taças de cristal na Gala de Caridade Lancaster tilintavam como sinos delicados.
Grayson Lancaster ajeitou sua gravata de seda, sua expressão era a máscara perfeita de uma afabilidade entediada. Ele estava parado perto da fonte de chocolate, observando Belle Escobar limpar uma mancha de fondant da bochecha de Kaiden, de seis anos.
"Você está mimando ele", disse Grayson, mas o canto de sua boca se ergueu. Não era exatamente um sorriso, mas foi o mais próximo de afeto que ele demonstrou a noite toda.
Belle riu, um som leve e ensaiado. "Alguém tem que mimar. Onde está a dona da casa? Pensei que Isolde traria a Effie hoje à noite."
O rosto de Grayson endureceu. O afeto evaporou. "Ela está fazendo drama. Effie teve febre ou algo assim. Isolde usa a saúde da menina como desculpa para evitar esses eventos. Ela sabe que eu odeio quando ela fica emburrada."
"Coitadinha", murmurou Belle, embora seus olhos estivessem vasculhando o salão em busca de fotógrafos. "Ela realmente lida mal com a pressão, não é?"
"Ela lida mal com tudo", resmungou Grayson, tomando um gole de seu champanhe.
De volta ao hospital, a enfermeira entregou a Isolde um saco plástico. Ele continha um par de meias pequenas e rosas e uma presilha de cabelo em formato de borboleta.
"Sra. Lancaster", disse a enfermeira suavemente, a pena marcando linhas ao redor de seus olhos. "O... o seu marido vem? Para os preparativos do transporte?"
"Ele está ocupado", sussurrou Isolde.
Ela saiu para a noite de New York. Caía uma chuva torrencial. Ela não tinha um guarda-chuva. Não chamou um motorista. Apenas andou.
A água encharcou seu casaco de lã barato. A chuva fria se misturou com as lágrimas quentes que ela finalmente se permitiu derramar, mascarando-as.
Ela chegou à cobertura duas horas depois.
O apartamento estava escuro. Silencioso.
Sobre a lareira, havia uma foto emoldurada. O retrato de "Família". Grayson estava sentado em uma poltrona de couro, com Kaiden em seu colo. Belle estava de pé atrás deles, com a mão apoiada com familiaridade no encosto da poltrona. Isolde estava ao fundo, um pouco fora de foco, segurando uma Effie desfocada.
Ela se sentou no chão em frente à lareira fria, tremendo.
Já passava da meia-noite quando o elevador soou. Grayson entrou, trazendo o cheiro de chuva e do perfume característico de Belle - sândalo e rosas - para o ar parado.
Ele afrouxou a gravata, seus olhos se estreitando ao ver Isolde sentada no escuro, ensopada.
"Pelo amor de Deus, Isolde", ele disse bruscamente, jogando as chaves no aparador. "O que você está fazendo? Estragando o piso de madeira?"
Isolde não ergueu o olhar. Estava encarando as próprias mãos.
"Onde está a Effie?", ele perguntou, em um tom seco. "Presumo que esteja dormindo? Ou você a deixou com a babá para poder ficar aí sentada sentindo pena de si mesma?"
"Ela se foi", disse Isolde.
Grayson suspirou. Ele massageou as têmporas. "Foi dormir? Ótimo. Não tenho energia para o choro dela esta noite. Nem para o seu."
Ele passou por ela em direção ao quarto principal. Não viu o saco plástico no chão.
"Grayson", ela disse.
Ele parou na porta, sem se virar. "O quê?"
"Nada", ela sussurrou.
Ele bateu a porta com força.
Isolde estava sentada no escuro, ouvindo o silêncio de uma casa que não mais abrigava o bater do coração de sua filha.
O funeral foi pequeno. Patético, na verdade.
Três dias depois, uma garoa constante caía sobre o cemitério particular no Queens. Não havia imprensa, nem sócios de Lancaster. Apenas Isolde, o padre e dois funcionários da casa que gostavam de Effie o suficiente para comparecer.
Grayson não estava lá.
Sua assistente havia enviado um e-mail para Isolde naquela manhã. Reunião de emergência do conselho sobre a expansão do mercado asiático. O Sr. Lancaster lamenta não poder comparecer.
Isolde observou o pequeno caixão branco ser baixado à terra.
Seu celular vibrou no bolso. Ela o ignorou. Vibrou de novo. E de novo.
Ela o pegou, pensando que poderia ser o hospital com alguma papelada final.
Era uma notificação do Instagram. Belle Escobar havia marcado Grayson Lancaster.
Localização: The Hamptons Golf Club.
A foto mostrava Grayson no meio de uma tacada. Ao fundo, Kaiden segurava um conjunto de tacos de golfe em miniatura, rindo. Belle segurava uma mimosa.
A legenda dizia: Às vezes, você só precisa de um dia de saúde mental com os garotos.
Isolde encarou a tela até que os pixels queimassem em suas retinas. Um dia de saúde mental. Enquanto sua filha estava sendo enterrada na lama.
Ela não gritou. A parte dela que podia gritar havia morrido na UTI.
Ela foi para casa.
A cobertura estava silenciosa. Grayson ainda não havia chegado. Isolde entrou no quarto de Effie. Ainda cheirava a talco de bebê e lavanda. Ela começou a empacotar.
Roupas em caixas. Brinquedos em sacolas. Os desenhos na geladeira. A escova de dentes no banheiro.
A porta da frente se abriu por volta das 18h. Grayson entrou. Ele parou no corredor, vendo a pilha de caixas.
"Finalmente", disse ele, afrouxando sua camisa polo. "Eu venho te dizendo há meses para limpar essa bagunça. Agora podemos transformar aquele quarto em um escritório de verdade para o Kaiden."
Isolde ficou parada, segurando um envelope pardo.
Ela caminhou até ele. "Assine isto", disse ela.
Grayson olhou de relance para o envelope. "O que é isso? Outra conta dos especialistas dela? Eu te disse, é só mandar para a contabilidade."
"Apenas assine", disse ela. Sua voz era vazia.
Grayson revirou os olhos, pegando a caneta que ela ofereceu. Ele nem leu o cabeçalho. Rabiscou sua assinatura - Grayson Lancaster - grande e floreada, a assinatura de um homem que era dono do mundo.
"Pronto", disse ele, jogando o envelope de volta no aparador. "Feito. Agora, Belle foi promovida a VP hoje. Vamos oferecer um jantar esta noite. Diga à Sra. Higgins para preparar algo impressionante. E tente parecer... menos como um cadáver."
Isolde pegou os papéis assinados. Ela não respondeu.
Ela caminhou até as portas do terraço.
"Aonde você vai?", Grayson gritou, já caminhando em direção à cozinha.
Isolde saiu para o ar fresco da noite. Ela havia acendido o fogo na lareira externa decorativa mais cedo.
Ela segurou o álbum de casamento sobre o fogo.
As chamas lamberam as laterais, enrolando as fotos. Ela observou seu próprio rosto sorridente de cinco anos atrás ficar preto e se desfazer em cinzas.
Ela pegou o urso de pelúcia. Aquele com que Effie dormia todas as noites.
Ela o derrubou também.
"Isolde?"
Grayson estava parado nas portas de vidro, com um copo d'água na mão. Ele parecia confuso. Ele cheirou o ar.
"O que você está queimando?", ele perguntou, abrindo a porta de correr. "Tem cheiro de plástico queimado."
Isolde se virou para olhá-lo. Seus olhos eram vazios.
"Lixo", disse ela. "Apenas lixo."
Grayson franziu a testa. Ele sentiu uma dor súbita e aguda no peito, um aperto que não conseguia explicar. Ele esfregou o esterno. "Pare de ser estranha. Vá se vestir para o jantar."
Ele voltou para dentro.
Isolde o observou ir. Ela se virou de volta para o fogo. O urso havia sumido. As fotos haviam sumido.
Ela voltou para a cozinha, abriu o armário acima da pia e pegou o frasco de soníferos prescritos. Aqueles que o médico lhe deu para seus 'nervos'.
Ela serviu um copo d'água.
Ela foi para o quarto de hóspedes - aquele em que vinha dormindo no último ano. Sentou-se na beirada da cama.
Ela engoliu a primeira pílula. Depois a segunda. Depois o punhado.
Ela se deitou, cruzando as mãos sobre o peito.
Estou indo, Effie, ela pensou. Espere pela mamãe.
A primeira coisa que Isolde sentiu foi peso.
Um peso esmagador e sufocante em seu peito.
Ela ofegou, seu corpo se contorcendo violentamente enquanto o ar invadia seus pulmões.
Seus olhos se abriram de repente.
Ela não estava no quarto de hóspedes. Estava de pé.
A desorientação a atingiu em cheio. O cheiro de fumaça e cinzas havia sumido, substituído pelo aroma enjoativo de lírios caros e... Santal 33. O perfume de Grayson.
Música orquestral explodiu em seus ouvidos. Vivaldi.
Um garçom esbarrou em seu ombro. "Com licença, Sra. Lancaster."
Isolde tropeçou, vendo seu reflexo em um pilar espelhado.
Ela estava usando um vestido de seda azul. O vestido que ela havia queimado na fogueira. Seu cabelo estava preso em um coque elaborado. Seu rosto... seu rosto parecia mais jovem. Cansado, sim, mas a aparência oca e esquelética dos últimos três dias havia desaparecido.
Ela tocou sua bochecha. Quente.
Ela olhou para cima. Uma faixa enorme estava pendurada no teto do salão de festas.
FELIZ 5º ANIVERSÁRIO KAIDEN
& Effie
O segundo nome estava lá, mas era como uma reflexão tardia, impresso em uma fonte tão pequena e delicada que era quase engolida pelas letras grandes e em negrito do nome de seu irmão. Era o aniversário dela também, e eles haviam transformado seu nome em uma nota de rodapé.
O coração de Isolde parou, então ela pegou o celular.
A data.
Era exatamente um ano atrás.
A sala girou. Ela se agarrou ao pilar para se apoiar. Alucinação? Purgatório? Inferno?
"Isolde!"
A voz era ríspida. Impaciente.
Grayson caminhou em sua direção. Ele parecia o mesmo - impecavelmente vestido, bonito e irritado. Mas havia uma diferença. Ele não tinha os leves fios grisalhos nas têmporas que tinha no funeral.
"O que há de errado com você?", ele sibilou, mantendo a voz baixa para que os convidados não ouvissem. "Você está aí parada, boquiaberta como um peixe. Belle precisa de ajuda para cortar o bolo."
Belle Escobar apareceu ao lado de Grayson, radiante em um vestido vermelho que custava mais que o carro de Isolde. Ela estendeu um guardanapo.
"Ah, Isolde", disse Belle, sua voz escorrendo uma doçura falsa. "Você derramou alguma coisa? Você parece tão pálida."
Isolde os encarou. Então, ela viu.
Um vislumbre de movimento perto da mesa de sobremesas. Uma garotinha em um vestido branco simples, tentando alcançar um biscoito.
Effie.
Isolde não pensou. Ela empurrou Grayson, seu ombro o atingindo com força suficiente para fazê-lo tropeçar.
"Isolde!", ele latiu.
Ela o ignorou. Ajoelhou-se na frente da menina.
Effie se virou, com os olhos arregalados e assustados. Ela se encolheu, esperando ser repreendida por tocar nos doces.
"Mamãe?", Effie sussurrou.
Isolde a agarrou. Ela puxou a filha para um abraço tão apertado que sentiu as pequenas costelas de Effie contra as suas.
Calor.
Uma batida de coração. Tum-tum. Tum-tum.
Era o som mais lindo do universo.
Lágrimas explodiram dos olhos de Isolde. Não o choro silencioso do funeral, mas soluços altos e ofegantes de alívio. Ela enterrou o rosto no pescoço de Effie, sentindo o cheiro do xampu de bebê, a doçura de sua pele.
"Você está aqui", Isolde disse com a voz embargada. "Você está aqui."
A música pareceu parar. Os convidados estavam olhando. A esposa louca, chorando no chão em uma festa de aniversário.
Grayson chegou em um segundo. Ele agarrou a parte superior do braço de Isolde, seus dedos cravando em sua carne.
"Levante-se", ele rosnou em seu ouvido. "Você está fazendo uma cena. Pare com essa histeria imediatamente."
Isolde congelou.
Ela sentiu o calor da mão dele em seu braço. A mão que havia assinado os papéis do divórcio sem olhar. A mão que havia segurado um taco de golfe enquanto a filha deles estava sendo enterrada.
Lentamente, Isolde ergueu a cabeça.
Ela olhou para Grayson.
Ela se levantou, mantendo uma mão no ombro de Effie.
Ela olhou para a mão de Grayson em seu braço.
"Me. Solte."
Grayson piscou, pego de surpresa pelo comando gélido em seu tom. "Isolde, não comece-"
Isolde estendeu a mão livre. Ela agarrou os dedos dele. Com uma torção rápida e praticada que não usava há seis anos - memória muscular de uma vida sobre a qual ele nada sabia - ela arrancou a mão dele de seu braço.
Ela não apenas a removeu. Ela a jogou de volta para ele.
Grayson recuou um passo, o choque estampado em seu rosto.
Isolde endireitou a coluna. Ela alisou o vestido.
"Eu disse", ela repetiu, sua voz ecoando pelo bolsão de silêncio da sala, "não me toque."