Alora
(16 anos)
Por mais que eu lutasse contra os guardas, eles me arrastavam para dentro das celas.
Só o cheiro já me revirava o estômago. Com os corpos mortos e o sangue, era difícil dizer o que era pior.
Quando nos aproximamos do portão da última cela, lá estavam meu pai e a amante do mês. O olhar do meu pai estava vazio, mas ele estava assim desde aquela noite. Passei a odiá-lo depois do que ele fez com minha mãe. O jeito que ele tratava a mim e a ela era só porque ela não foi capaz de lhe dar um filho.
Os guardas me levaram até o portão e me jogaram lá dentro, como se eu não fosse nada. Caí com um baque forte no chão e rolei até bater na parede, gemendo quando minhas costas bateram com força contra ela.
O pior de tudo foi que isso reabriu as feridas que a amante do meu pai havia feito em mim há algumas horas.
O sangue encharcou a blusa velha que eu usava.
De repente, um baque foi ouvido, fazendo meu pai rosnar enquanto eu ouvia passos se aproximando da cela. "Que diabos, alfa?", ele gritou enquanto se aproximava. Quando ele parou e olhou para dentro, ergui a cabeça. Seus olhos se estreitaram para mim, mas se suavizaram ao me ver.
"Ela é só uma criança", ele gritou, o que fez meu pai agarrá-lo pelo pescoço. "Já chega, Gama. Ela roubou de Madaline e precisa pagar por isso", ele disse com os dentes cerrados.
Nesse momento, desviei meu olhar para a amante dele, que tinha um sorriso malicioso. Ela sabia como enrolar meu pai. Ela era a favorita dele, mas isso poderia mudar em breve.
Meu pai era um alfa implacável e um péssimo pai. Embora eu tivesse nascido numa matilha de lobisomens, só tinha metade das habilidades de um lobo, mas não era um deles. Além disso, eu também era parte de algo mais. Minha mãe deveria ter me contado sobre isso, mas isso nunca aconteceu. Meu pai e a mulher que estava diante de mim a mataram quando eu tinha dez anos.
Depois de ver tudo, fui forçada a viver no porão da casa da matilha. Eu não podia sair de lá, a não ser que tivesse alguém comigo o tempo todo. Então, dizer que eu havia roubado algo da prostituta do meu pai era, no mínimo, um exagero. Ele me trancou como se eu não fosse nada.
Desde que nasci, minha mãe e eu fomos colocadas em uma parte da casa, longe dos membros da matilha. Como só podíamos contar com a família Gama, já que esse era o trabalho deles, éramos só nós duas. Tínhamos um pequeno apartamento onde não havia muito o que fazer, mas conseguíamos nos virar.
Me movendo um pouco e me apoiando na parede para aliviar a dor nas costas, olhei para os dois.
Gama Ryan sempre foi leal à minha mãe e a mim, e eu sabia que podia contar com ele. Ele era o único que me comprava roupas novas e livros para ler. Eu não tinha nada em meu nome, absolutamente nada.
Meu pai se virou e me encarou. "Você ficará aqui até quando eu achar necessário", ele rosnou.
"Mas alfa, ela não pode ter feito nada. Ela estava trancada no porão. Um dos guardas me disse que eles tiveram que arrombar a porta para tirá-la", Gama Ryan implorou.
Ao ouvi-lo, meu pai desviou sua atenção para ele e o atacou, o prendendo contra a parede atrás dele. Meus olhos se arregalaram quando ele rosnou: "Já chega! Ela pode não ter roubado nada, mas merece ficar neste lugar."
Ao ouvir essas palavras, senti meu coração se apertar. Como meu pai podia ser tão cruel?
Madaline olhou para mim com um olhar perverso. "Acho que deveríamos contar a eles, amor", ela sussurrou, o que fez meu pai olhar para ela com admiração.
Vendo isso, me senti enjoada.
Após soltar Gama Ryan, meu pai se virou para mim. Como sempre, seus olhos se transformaram de lobo para humano novamente. "Madaline está grávida", ele disse, sem desviar os olhos de mim.
Ao ouvir isso, senti um nó se formar no meu estômago. Grávida? Não, isso significa...
Sabendo que eu havia entendido o que isso significava, o sorriso de Madaline se alargou. "Isso significa que darei um herdeiro ao alfa. Ao contrário da sua mãe, darei um filho a ele. E não uma filha patética e sem lobo."
Madaline riu, colocando a mão na barriga.
"Este será o filho do alfa", ela disse.
"Acha mesmo que seu filho será aceito como herdeiro? E se você tiver outra menina? Nós duas sabemos como ele as trata quando tem uma", eu disse com um sorriso de escárnio.
Madaline empalideceu enquanto olhava para meu pai, mas ele a ignorou e olhou para mim. "Sua vadia ingrata! Te dei um lar e nunca machuquei uma criança."
"Não, você deixa seus guardas fazerem isso", murmurei.
Nesse momento, meu pai entrou na cela. Mantive meus olhos fixos nele, mas pelo canto do olho, vi Gama Ryan me implorando para parar.
Então, meu pai se agachou e colocou o dedo sob meu queixo, me forçando a olhar para ele. "Nunca mais me responda assim. Agora, este será seu pequeno quarto. Você nunca mais sairá daqui. Tenho controle sobre você, e ninguém, absolutamente ninguém, vai te salvar. Você não tem ninguém."
Enquanto eu ouvia suas palavras, senti meu coração se despedaçar e uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto.
Após se levantar, meu pai saiu da cela. Quando se virou, prendeu Gama Ryan contra a parede e liberou sua aura de alfa. Vi meu pai usar um comando que até partiu meu coração.
"Você nunca mais a servirá. Você cumprirá suas funções de Gama e pronto. Você nunca mais a verá ou falará com ela. Entendido?"
Gama Ryan tentou lutar contra o comando, mas não conseguiu e acabou concordando.
Após soltá-lo, meu pai o encarou. "Agora, vá treinar os membros da matilha", ele ordenou.
Assim, Gama Ryan saiu sem olhar para trás.
Quando desviei meu olhar para as duas pessoas que restaram, Madaline sorriu quando meu pai passou o braço em volta da sua cintura. "Teremos um filho", ele disse, se inclinando no pescoço dela enquanto olhava para mim. "Beck te dará comida. Quanto às punições, elas serão aplicadas por mim e por quem estiver comigo. Você nunca mais sairá deste lugar, filha."
Então, meu pai e Madaline saíram. Ao vê-los se afastar, senti meu coração se despedaçar. Mais uma vez, eu estava sozinha.
Ninguém iria me salvar. Como eles poderiam? Ninguém sabia que eu existia. Meu pai fez questão disso.
Quando minha mãe deu à luz a mim, ele anunciou que eu havia morrido no parto e que Luna estava se recuperando. Isso nunca o impediu de tentar ter outro filho com ela, mas minha mãe só conseguia ter meninas. Quando ela teve um menino, ele morreu após vinte semanas. Por isso, meu pai a chamava de tudo quanto era nome.
Sempre que ele ia vê-la, eu tinha que me esconder.
Enquanto eu olhava para a pequena cela que seria minha casa a partir de agora, outra lágrima escorreu pelo meu rosto.
Eu estava vivendo no inferno, embora já estivesse lá.
A única esperança que me restava era que meu companheiro me encontrasse, mas agora até isso parecia impossível. Quem iria querer alguém como eu?