CAPÍTULO UM
Havia aqueles que diziam que Falco Orsini era muito rico, muito bonito e muito arrogante para o seu próprio bem.
Falco poderia concordar que era rico, provavelmente arrogante, e se você julgasse a aparência dele pelo fluxo aparentemente interminável de belas mulheres que entravam e saíam de seu quarto, bem, ele teria de admitir que talvez tivesse algo especial que as atraía.
Havia também aqueles que o chamavam de sem coração. Com isso, Falco não iria concordar.
Ele não era sem coração. Era honesto.
Por que deixar um concorrente comprar um banco de investimento de elite se ele poderia fazer isso primeiro? Por que continuar fingindo interesse em uma mulher, quando já não tinha nenhum?
Não era como se ele fosse um homem que sempre fizesse promessas as quais não tinha a intenção de cumprir.
Honesto, sim, mas não sem coração.
Falco era alto, como seus três irmãos. Um corpo firme e robusto. Forte, as mulheres diziam.
Aos 32 anos, já conduzia o que muitos iriam considerar como uma vida interessante.
Aos 18 anos, Falco colocou a mochila nas costas e se aventurou pelo mundo. Aos 19, uniu-se ao exército. Aos 20, ele se tornou um soldado das Forças Especiais. Em al¬gum momento ao longo do caminho, adquiriu títulos uni-versitários, uma habilidade em jogos de altas apostas e, eventualmente, uma paixão por investimentos de alto risco.
Falco vivia de acordo com as próprias regras. Sempre viveu.
Ele não se importava com as opiniões das pessoas. Acreditava na honra, no dever e na integridade. Os homens que haviam servido o exército com ele e os que haviam lidado nos negócios nem sempre o apreciavam. Alguns diziam que Falco era muito distante... Mas eles o respeita¬vam quase com a mesma intensidade com que as mulheres o cobiçavam.
Ou o odiavam.
Isso não importava.
A família era tudo.
Falco amava seus irmãos da mesma forma como eles o amavam; com uma ferocidade que fazia com que os quatro fossem tão formidáveis em tudo quanto eram nos negócios. Ele também daria a sua vida por suas irmãs, que com ale¬gria retornariam o favor. Falco adorava sua mãe, que por sua vez, amava e respeitava todos os filhos.
Seu pai...
Quem se importava com ele?
Falco, assim como seus irmãos, excluíra Cesare Orsini de sua vida anos atrás. Até onde a esposa e as filhas sa-biam, Cesare era proprietário de uma empresa de trans-portes, uma de construção e alguns imóveis caríssimos em Nova York.
Mas os filhos conheciam a verdade.
O pai era chefe de algo a que ele se referia apenas como La Famiglia.
Ele era, em outras palavras, o mesmo que os mafiosos que haviam nascido na Sicília na última metade do século XIX.
Nada poderia mudar isso, nem os ternos Brioni, nem a enorme mansão que um dia havia sido Manhattan's Little Italy e agora era Greenwich Village. Mas, pelo bem da mãe deles, havia momentos em que Falco e seus irmãos deixa¬vam esses assuntos de lado e fingiam que os Orsini eram apenas mais uma família siciliano-americana grande e feliz.
Como hoje, por exemplo.
Nessa brilhante tarde de outono, Dante havia se casado.
Falco ainda tinha problemas em pensar sobre isso.
Primeiro Rafe. Agora Dante. Dois irmãos com esposas. E Dante não era apenas marido, mas também pai.
Nicolo e Falco haviam despendido o dia de bom humor abraçando as novas cunhadas e sorrindo para Dante e Rafe. Eles fizeram o melhor para não se sentirem como dois tolos ao conversarem amorosamente com o sobrinho... Não que isso fosse difícil, porque o menino era claramente o bebê mais engraçadinho e inteligente do mundo.
Os dois dançaram com as irmãs e ignoraram as dicas de Anna e Isabella sobre elas terem amigas que poderiam ser esposas perfeitas para eles.
No final da tarde, estavam mais do que prontos para es¬capar e brindar suas vidas de solteiro com algumas cervejas geladas no estabelecimento do qual os quatro irmãos eram proprietários.
Não era a empresa de investimento. Esse lugar era chamado de The Bar. Contudo, Cesare os impediu antes que alcançassem a porta. O pai precisava conversar com eles.
De novo não, Falco pensou, sentindo-se exausto. Ao lançar um olhar para o rosto de Nick, soube que o irmão pensava o mesmo. Há meses o pai fazia um discurso sobre o que aconteceria depois que ele morresse. A combinação do cofre. Os nomes dos advogados e do contador. O local onde ele guardava papéis importantes.
Coisas com que nenhum dos irmãos se importava; ne¬nhum deles queria um centavo do dinheiro do pai.
O primeiro instinto de Falco foi ignorar Cesare e conti¬nuar caminhando.
Em vez disso, ele e Nick se entreolharam.
Talvez esse dia longo os tivesse deixado mais calmos.
Talvez tivesse sido o champanhe.
"Que seja", era o que dizia a expressão no rosto de Nick, e Falco respondeu com um suspiro que claramente dizia "Por que não?".
O pai insistira em conversar com os dois separadamente. Felipe, o guarda-costas de Cesare, indicou com a cabeça para que Falco fosse primeiro.
Por um momento, Falco pensou em agarrar o guarda-cos¬tas pelo pescoço magro, erguê-lo do chão e dizer-lhe sobre o bastardo viscoso que ele era por ter despendido a vida como um cão de guarda do Dom. Contudo, a celebração familiar ainda estava se sucedendo nos fundos da mansão.
Então, em vez disso, Falco apenas sorriu, passou pelo guarda-costas e entrou no estúdio de Cesare.
Acomodado à mesa de trabalho, o pai ergueu os olhos, assentiu com a cabeça, gesticulou com uma das mãos para uma cadeira - um gesto que Falco ignorou - e voltou a folhear os conteúdos de uma pasta de papel manilha.
De acordo com o antigo relógio em mogno preso à parede, perdido em meio às fotos de políticos, ancestrais da velha nação e quadros religiosos amarelados, quatro minu¬tos se passaram.
Falco permaneceu imóvel, com os pés levemente afastados, braços cruzados e os olhos escuros fixos no relógio. O ponteiro dos minutos alcançou outro marcador, o ponteiro das horas moveu-se quase imperceptivelmente. Falco descruzou os braços, virou-se de costas para o pai e rumou em direção à porta.
- Aonde você vai?
Falco virou-se para encará-lo.
- Ciao, pai. Como sempre, foi um prazer.
- Ainda não tivemos a nossa conversa.
- Nossa conversa? Foi você quem exigiu esse encon¬tro. - Falco voltou a se aproximar da mesa de trabalho do pai. - Se tem algo a me dizer, apenas diga... Mas pode ter certeza de que me lembro das suas palavras comoventes da última vez em que o vi. Talvez você não se lembre da minha resposta, então me deixe lembrá-lo: Eu não me importo nem um pouco com os seus documentos, seu cofre, seus interesses comerciais...
- Então você é um tolo - o Dom declarou pacifica¬mente. - Essas coisas valem uma fortuna.
Os lábios de Falco se curvaram em um meio sorriso irônico.
- Eu também, caso você não tenha notado. - Ele declarou e seu sorriso desapareceu. - E, mesmo que eu não fosse rico, não tocaria em nada que lhe pertence. Você já deveria saber disso.
- Quanto drama, meu filho.
- É a verdade, pai.
Cesare suspirou.
- Está bem. Você já fez o seu discurso.
- E você fez o seu. Adeus, pai. Vou dizer a Nicolo para...
- O que você estava fazendo em Atenas no mês passado?
Falco permaneceu absolutamente imóvel.
- O quê?
- Você estava em Atenas. Por quê?
O olhar que Falco lançou ao homem de meia-idade faria qualquer outro recuar um passo imediatamente.
- Mas que tipo de pergunta é essa?
Cesare deu de ombros.
- Uma pergunta simples. Eu perguntei sobre o que...
- Eu sei o que perguntou. - Falco estreitou os olhos. - Você pediu para que alguém me seguisse?
- Nada tão desonesto. - Cesare moveu a cadeira para a frente e alcançou uma pequena caixa em madeira escul¬pida. - Charuto Puro - disse, abrindo a tampa da caixa e revelando 12 charutos. - Eles custam uma fortuna. Aceite um.
- Explique-se - Falco exigiu com severidade, sem nem mesmo dirigir o olhar para a caixa. - Como soube onde eu estava?
Mais uma vez, o pai deu de ombros.
- Tenho amigos por toda a parte. Certamente você já deve saber disso.
- Então você também deve saber que eu estava em Ate¬nas cuidando dos negócios da Orsini Brothers Investments. - Falco exibiu um sorriso cínico. - Talvez tenha ouvido falar de nós, pai. Uma empresa particular que teve início sem nenhuma ajuda sua.
Cesare mordeu a ponta do charuto que havia escolhido e, virando o rosto para um lado, cuspiu o pedaço em uma cesta de papéis.
- Mesmo nesses tempos difíceis da economia, nós fizemos os nossos investidores enriquecerem. - Falco pros¬seguiu. - E fizemos isso honestamente, um conceito que você jamais conseguirá entender.
- Você comprou um banco particular para a sua empre¬sa quando estava em Atenas - falou Cesare. - Muito bem.
- Seus elogios não significam nada para mim.
- Mas não foi só isso o que fez quando esteve lá - Cesare declarou suavemente. - Minhas fontes me disseram que durante aqueles mesmos dias, uma criança, um garoto de 12 anos, mantido como refém por rebeldes nas montanhas do norte da Turquia, voltou para a família de forma milagrosa e...
Falco se aproximou do pai e o agarrou pelo colarinho.
- Tire as suas mãos de mim! - exclamou Cesare.
- Não até eu conseguir respostas. Ninguém tem o di¬reito de me seguir. Ninguém! Eu não sei de onde você tirou toda essa bobagem, mas...
- Não sou tolo o bastante para pensar que alguém po¬deria segui-lo e viver para contar sobre isso. Solte a minha camisa e talvez eu lhe dê uma resposta.
Falco podia sentir o coração se acelerar. Sabia muito bem que ninguém o seguira; ele era muito esperto para dei¬xar que isso acontecesse. E, sim, embora nunca fosse admi¬tir, aconteceram mais coisas nessa viagem à Grécia do que a aquisição de um banco.
Falco fulminou o pai com o olhar e silenciosamente se culpou por estar sendo um tolo.
Fazia anos que não deixava Cesare importuná-lo.
Quinze anos, para ser exato. Na adolescência, houve uma noite em que um dos capangas do pai o surpreendera en¬quanto ele tentava escapar pelos fundos da casa às duas ho¬ras da manhã. Dom ficara furioso pela forma como ele havia conseguido passar despercebido pelos homens armados que mantinham vigilância do lado de fora da casa.
Falco se recusara a se explicar. Ele havia feito mais do que isso: enganara os seguranças com um sorriso for¬çado da forma que só um adolescente rebelde consegue fazer.
Cesare o esbofeteara fortemente em uma das faces.
Fora a primeira vez que o pai o agredira, o que tinha sido uma surpresa para ele. Não o golpe; a surpresa era por isso não ter acontecido antes.
Sempre existira um clima de violência no ar entre pai e filho e isso se tornou ainda mais forte quando Falco atingiu a adolescência.
Naquela noite, a fúria tinha finalmente irrompido.
Falco permanecera imóvel ao receber o primeiro gol¬pe, O segundo fez com que ele oscilasse e quase caísse no chão. O terceiro fez sua boca ficar repleta de sangue e, quando Cesare ergueu a mão novamente, Falco agarrou-lhe o pulso e torceu o braço dele com força às costas. Cesare era robusto, mas aos 17 anos, Falco já estava mais forte e abastecido com anos de ódio.
- Toque-me de novo... - Falco sussurrou -... e eu juro que o mato.
A expressão no rosto do pai havia mudado sutilmente. Não era medo ou raiva. Era outra coisa.
Algo ligeiro e furtivo que não deveria ser exibido nos olhos de um homem poderoso que tinha acabado de perder uma batalha, tanto física como figurativamente.
O rosto de Falco estava muito machucado no dia se¬guinte. Sua mãe o questionou sobre isso, assim como as irmãs. Ele disse que tinha caído durante o banho. A mentira funcionou, mas, Nicolo, Raffaele e Dante não se deixavam enganar tão fácil.
- Deve ter sido uma queda muito estranha... - Rafe disse -... para deixar seus olhos roxos e os lábios inchados.
- Realmente - Falco respondeu com serenidade.
Ele nunca revelou a verdade a ninguém. A surra tinha sido muito humilhante para ser mencionada ou fora o choque da sua própria reação?
De repente, ele entendeu.
O poder havia mudado de mãos naquela noite. Tinha sido passado de Cesare para ele... E depois, de volta a Cesare.
Apesar da cruel ameaça que ele fizera ao pai, Cesare havia vencido a batalha, porque Falco permitira que as emo¬ções o dominassem. Ele perdera o controle das emoções e, de alguma forma, não tinha idéia de como ou por que, aquela perda de controle dava poder à outra pessoa.
E agora, ali estava ele, 15 anos depois, perdendo o con¬trole de novo.
Cuidadosamente, Falco abriu a mão e liberou o colari¬nho da camisa branca que o pai vestia. Cesare desmoronou na cadeira, com as faces vermelhas de raiva.
- Se você não fosse meu filho...
- De qualquer forma, eu não sou seu filho. É preciso muito mais do que a semente para fazer de um homem um pai.
Dom estreitou os lábios.
- Agora você é filósofo também? Acredite-me, Falco, de muitas maneiras, você é mais meu filho do que os seus irmãos.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que aquilo que você tão hipocritamente alega odiar em mim é o que também está em seu interior. O desejo do poder absoluto. A necessidade de controle. - Cesare estreitou os olhos. - A vontade de derramar sangue quando você sabe que deve ser derramado.
- Vá para o Inferno! - Falco se inclinou sobre a mesa e aproximou o rosto do dele. - Não sou nada parecido com você, está me ouvindo? Nada! Se eu fosse, Deus, se eu fosse...
Falco estremeceu, recuou um passo e endireitou as cos¬tas. O que estava fazendo? Deixando que o pai o afundasse ainda mais nesse lamaçal?
- Era para isso que você queria conversar? Para me dizer que os seus genes são o meu destino? Bem, isso não vai funcionar. Eu não sou você. E essa suposta discussão chegou ao...
Cesare alcançou algo de dentro da pasta que estava so¬bre a mesa e empurrou na direção de Falco. Parecia ser uma página lustrosa, arrancada de uma revista.
- Você conhece essa mulher?
Falco mal dirigiu o olhar para a fotografia.
- Eu conheço muitas mulheres - ele declarou friamente. - Com certeza os seus espiões devem ter lhe dito isso.
- Olhe para ela.
Falco deu um longo suspiro e apanhou a página. Parecia ser um anúncio de algo caro. Perfumes, jóias, roupas... Era difícil dizer.
Contudo, o foco da página estava claro o bastante. Era a mulher.
Ela estava acomodada em uma cadeira, com uma das longas pernas repousada no chão e a outra sobre o braço da cadeira, vestindo uma camisola decotada em renda na cor vermelha e usando sapatos de salto stiletto.
Um corpo espetacular. Um rosto igualmente espetacular. Oval. Delicado. A essência da feminilidade. Maçãs salien¬tes, olhos cor de âmbar, cílios longos e espessos da mesma cor de ébano dos seus cabelos longos e lisos.
Ela estava sorrindo para a câmera. Para o observador.
Para ele.
Falco sentiu um frio na espinha.
- E então? Você a conhece?
Falco jogou a página sobre a mesa.
- Eu lhe disse que não a conheço. Está bem?
- O nome dela é Elle. Elle Bissette. Ela era uma modelo. Agora é atriz,
- Que bom para ela.
O pai apanhou mais uma folha de dentro da pasta.
- Outro anúncio? - indagou Falco.
Cesare empurrou a página na direção dele, mas Falco não se moveu.
- O que é isso? Você espera que eu despenda mais uma hora brincando de "Quem é a Celebridade"? - ironizou.
- Per favore, Falco. Eu lhe peço, por favor. Olhe para a foto.
Falco ergueu as sobrancelhas. Por favor? Ele nunca ti¬nha ouvido o pai usar essas palavras. Que seja, ele pensou, enquanto apanhava a página.
Um gosto amargo lhe veio à boca.
Era o mesmo anúncio, mas alguém havia usado uma ca¬neta vermelha para marcar os olhos dela com um X. Para traçar uma linha grossa e pontilhada sobre os lábios dela. Para desenhar uma linha forte ao longo da garganta e fazer pontos vermelhos até os seios. E circular os seios no mes¬mo tom rubro, brilhante e malévolo.
- A srta. Bissette recebeu isso pelo correio.
- O que os policiais disseram?
- Nada. Ela se recusou a contatá-los.
- Será uma tola se não procurar as autoridades - de¬clarou Falco.
- Os pais daquele garoto turco procuraram você, e não as autoridades. Eles tiveram medo de pedir ajuda à polícia.
- Estamos nos Estados Unidos.
- Medo é medo, Falco, não importa onde a pessoa esteja. Ela tem medo ou talvez não confie na polícia. Seja qual for o motivo, ela se recusa a contatá-los. - Cesare deu uma pau¬sa. - A srta. Bissette está fazendo um filme em Hollywood. O produtor é, vamos dizer, um velho amigo meu.
- Ah. Agora entendi. Seu amigo está preocupado com o investimento.
- Sim, isso o preocupa. E ele precisa da minha ajuda.
- Mande a ele um pouco do seu dinheiro.
- Não se trata de ajuda financeira. Ele precisa da minha ajuda para proteger a srta. Bissette.
- Tenho certeza de que os seus capangas irão amar Los Angeles.
Cesare deu uma risadinha.
- Consegue imaginar os meus homens em Beverly Hills?
Falco quase soltou uma risada. Ele tinha de admitir, a idéia era cômica... E, subitamente, as coisas começaram a fazer sentido. A conversa sobre o que tinha acontecido na Turquia, e agora essa conversa sobre Elle Bissette...
- Está bem.
- Está bem?
Falco assentiu com a cabeça.
- Eu conheço alguns homens que fazem o trabalho de segurança para celebridades. Vou fazer alguns telefonemas, colocá-lo em contato...
- Eu já estou em contato - Cesare declarou gentil¬mente. - Com você.
- Comigo? - Desta vez, Falco deu risada. - Sou um investidor, pai, não um guarda-costas.
- Você não disse isso para as pessoas que ajudou na Turquia.
- Aquilo foi diferente. Eles me procuraram e eu fiz o que precisava ser feito.
- Da mesma forma que eu o estou procurando, mio figlio, e pedindo para que você faça o que precisa ser feito.
Os bonitos traços do rosto de Falco enrijeceram.
- Se quiser alguns nomes e números de telefone, tudo bem. De outra forma, eu não poderei ajudá-lo.
Cesare não respondeu. Falco bufou, girou nos calcanha¬res e rumou para a porta novamente. Depois, ele mudou de idéia e decidiu sair pelas portas francesas escondidas atrás das pesadas cortinas. No humor em que se encontrava, a última coisa que queria era correr o risco de deparar com a mãe ou as irmãs.
- Espere. - O pai ergueu-se da cadeira e apressou-se em alcançá-lo. - Leve a pasta. Tudo o que você precisa está aqui.
Falco agarrou a pasta. Era mais fácil do que argumentar.
Dentro do táxi, a caminho de casa, Falco pensou nos no¬mes de quatro homens que pudessem fazer o trabalho. Uma vez em casa, serviu-se de uma dose de conhaque, apanhou a pasta e o celular e rumou para o jardim fechado.
Não havia nada de muito útil na pasta. Coisas sobre o filme, uma carta do produtor para Cesare... E as fotografias. Aquela em que ela vestia a camisola, a foto desfigurada e outra que o pai não lhe mostrara. Uma fotografia de Elle Bissette na praia, espiando a câmera por sobre um ombro. Ela vestia short e uma camiseta.
Falco colocou as três fotos na superfície de vidro da mesa e as estudou.
A primeira fotografia era sexy e misteriosa, um estimulante para um homem que gostasse desse tipo de coisa. Falco não gostava. Adorava renda vermelha e salto stiletto; que homem não adoraria? Mas a pose era obviamente falsa. O sorriso era falso. A mulher olhando para a câmera não tinha conteúdo.
Ela poderia estar olhando para milhares de homens, em vez dele.
A foto que havia sido destruída pelos rabiscos fez com que ele sentisse o estômago se revirar. Era uma ameaça clara. Rude, mas eficaz.
A terceira fotografia foi a que mais lhe chamou a atenção. Era natural. Sincera. Uma simples foto de uma linda mulher caminhando na praia, sem precisar de nenhum artifício que a fizesse parecer bonita.
Porém havia mais do que isso.
Ela havia sentido que alguém a seguia.
Ele podia ver isso nos olhos dela.
Cautela. Medo. Aflição.
E mais.
Determinação. Desafio. Um olhar que, apesar de tudo, dizia: "Ei, amigo, não mexa comigo."
- Droga! - Falco resmungou e, apanhando o celular, fretou um jato para que o levasse à West Coast na manhã seguinte.
Elle tinha despendido a maior parte da manhã nos braços de um estranho.
Ele era alto e bonito e talvez soubesse beijar muito bem. Ela não sabia exatamente.
A questão era que ela não gostava de beijar. Elle imagi¬nava que soubesse menos sobre isso do que 98 por cento da população feminina dos Estados Unidos na faixa dos 16 anos, mas isso não significava que ela não soubesse como fazer um beijo parecer fantástico, principalmente com um homem como o que estava ao seu lado.
Beijar, assim como caminhar e conversar, rir e chorar, fazia parte do seu trabalho. Elle era uma atriz e tinha de se lembrar disso. Era apenas um filme. Beijar o homem que estava ao seu lado era, sim, parte do trabalho.
Sem dúvida, mulheres de todas as partes do mundo trocariam de lugar com ela sem pensar duas vezes. Chad Scott era mundialmente famoso. Ele valia ouro. E, pelo menos durante essa cena, ele era lodo dela.
Elle sabia o quanto era afortunada. Ela se odiava por não ser capaz de desempenhar o seu papel nessa manhã. Cenas de amor eram sempre difíceis, mas hoje...
Hoje as coisas não estavam indo nada bem.
Não era culpa do ator coadjuvante. Ela se preocupou que ele pudesse ser presunçoso, arrogante, mas Chad se mostrou um homem muito gentil e compreensivo.
Hoje, eles filmavam a primeira cena de amor. Elle sabia que isso era essencial para a história.
O set estava arranjado de forma simples, com apenas algumas toalhas espalhadas sobre a areia, próximas a um grande cacto. Elle usava um biquíni sem alças; a câmera iria filmar apenas a sua cabeça, os braços e os ombros des¬nudos, sugerindo que ela estivesse nua. Chad estava sem camisa e vestindo um jeans.
Eles estavam cercados por um quilômetro de cabos elétricos, refletores e microfones, e milhares de pessoas que eram necessárias para filmar até mesmo a mais simples das cenas. Antônio Farinelli, o diretor mais sexy do ramo, dissera aos dois que esperava fazer a cena em apenas uma tomada.
Até agora, haviam sido quatro.
Uma súbita rajada de vento tinha arruinado a primeira tentativa, mas as outras três... Foram culpa de Elle, que tinha errado suas falas nas duas tentativas; na terceira, ela espiou por sobre um dos ombros de Chad, em vez de fitá-lo nos olhos.
Farinelli parecera furioso cada vez que tivera de gritar: "Corta!"
Elle sentou-se, aguardando enquanto o diretor conver¬sava com um dos homens encarregados de cuidar da iluminação. Seu coadjuvante também se sentou e estendeu as pernas.
Chad havia sido muito paciente durante as tomadas.
Obviamente, ele sentira que Elle estava com algum pro¬blema e até mesmo fez algumas piadas para amenizar o clima.
Todos os que estavam por perto deram risada das piadas dele. Elle também riu. Pelo menos, ela fez o seu melhor para fingir que ria. Ela era uma atriz. Ilusão era tudo.
Na vida real, ela nunca poderia ter se deitado nos braços de um homem e o fitado nos olhos enquanto ele aproximasse os lábios dos seus, mas, até aí, a realidade era entediante.
E a realidade era que ela havia recebido um telefonema ameaçador às três horas da manhã.
- Olá, querida... - uma voz baixa e masculina sussur¬rara - ...recebeu a fotografia? Leu o meu e-mail? - Uma risada terrível. - Você está esperando por mim, não está, docinho?
Elle tinha sentido o coração lhe subir à garganta. Jogara o telefone no chão como se fosse um escorpião que tivesse rastejado embaixo da porta do quarto de hotel.
Agora, tudo o que ela podia ouvir era aquela voz ecoan¬do em sua mente. Farinelli mal sabia do anúncio. Ele apenas teve ciência disso porque entrara no trailer dela justo no momento em que Elle abria um envelope branco que havia encontrado sobre a penteadeira.
- Elle... - Farinelli dissera. - Quanto à programação de amanhã...
Mas Elle não ouvia. Suas faces estavam completamente pálidas e ela sinceramente pensou que fosse desmaiar.
- Elle? - Farinelli indagara, enquanto apanhava o envelope que ela mantinha em uma das mãos. - Madre di Dio! Quem lhe mandou isso?
Elle não tinha a menor idéia. Uma pessoa completamen¬te insana deveria ter lhe mandado o envelope. Ela já havia recebido bilhetes indecentes antes, principalmente depois do anúncio da lingerie Bon Soir, mas essa fotografia des¬figurada...
Ainda assim, qualquer coisa era possível, A imagem do seu rosto estava estampada em todos os lugares. Nos anúncios de lingerie, e agora na publicidade para o filme Dangerous Games.
Não deveria ser nada, ela e Farinelli finalmente concordaram, mas se ela recebesse mais alguma ameaça, deveria dizer a ele e os dois iriam à policia.
Elle concordara. Contudo, dissera a si mesma que fosse lá quem fosse que tivesse mandado o envelope, certamente não iria contatá-la de novo.
Errado.
Alguns dias depois, ela recebera um e-mail. A mensa¬gem era horrível. Desprezível. Ilustrativa.
E estava assinada. A assinatura deixou-a estupefata, mas só poderia se tratar de uma farsa. Elle prometeu a si mesma que não deixaria isso aborrecê-la. Era uma atriz, e poderia superar isso.
Aparentemente, ela não era uma atriz tão boa quanto pensava ser. Farinelli começou a perguntar com mais freqüência se estava bem e, embora Elle sempre dissesse que sim, ela sabia que não parecia convincente. O diretor provara que não havia acreditado nela quando entrara em seu trailer novamente durante um intervalo. Ele concluiu que a única coisa que poderia importuná-la seria a fotografia desfigurada. Elle tentou dizer a Farinelli que ele estava errado.
Contudo, ele a silenciou, erguendo uma das mãos. Farinelli havia pensado bastante sobre o assunto. Era uma fo-tografia dela, mas a ameaça era dirigida a ele. Ela estivera no quê, dois, três filmes? Elle era quase desconhecida. Ele, todavia, era famoso. Farinelli estava agarrando uma grande chance ao dirigir Dangerous Games. Obviamente, alguém desejava arruinar o seu filme.
Mas, por Deus, ele não iria permitir isso. Farinelli tinha investido milhões do próprio bolso nesse projeto e não dei-xaria que alguém o arruinasse. Ele iria contatar a polícia e pedir para que eles lidassem com o problema.
Elle não poderia deixar isso acontecer. A polícia iria fazer investigações, perguntas intermináveis, bisbilhotar o seu passado e descobrir que a história que ela inventara sobre a sua vida nada tinha a ver com a realidade.
Então, ela recorrera ao drama. Chorou. Implorou. Um jogo arriscado, mas o que teria a perder? Uma investigação policial iria destruir a carreira pela qual ela tanto lutara para conseguir. Elle estava com 27 anos, um pouco madura para voltar à carreira de modelo...
E, mais importante, não conseguiria encarar o seu passa¬do terrível novamente.
No final, Farinelli dissera:
- Basta! Está bem! Nada de polícia.
Um desastre havia sido evitado. Elle esforçou-se para esquecer o anúncio, o e-mail, e manter-se concentrada no filme.
E, então, houve aquele telefonema às três horas da manhã...
- Muito bem, pessoal - disse Farinelli. - Vamos tentar de novo.
Elle voltou a se deitar sobre a toalha na areia. Chad incli¬nou-se sobre ela, aguardando o momento em que a câmera começaria a filmar. Elle sentiu a respiração dele contra o seu rosto...
- Ei - o coadjuvante declarou suavemente -, você está bem?
- Sim - ela disse, mas não conseguiu convencê-lo. Chad sentou-se e dirigiu o olhar para Farinelli.
- Tony? O que acha de um intervalo para o almoço?
O diretor suspirou.
- Por que não? Está bem, pessoal. Almoço. Meia hora.
Chad ergueu-se da areia, estendeu uma das mãos e ajudou-a a se erguer também. Um dos ajudantes de Fa¬rinelli entregou um largo roupão na cor branca para ela. Assim que Elle vestiu a peça, Chad pressionou-lhe um dos ombros.
- O sol está forte - ele falou em um tom macio de voz. - Você precisa de sombra e água fresca.
Dessa vez, ela exibiu um sorriso sincero. Chad era real¬mente um homem gentil, uma espécie rara, em sua opinião.
- Obrigada. - Elle amarrou a faixa do roupão, calçou o chinelo que o assistente havia deixado aos seus pés e ca¬minhou rapidamente para o trailer.
Chad Scott estava certo, ela pensou, enquanto subia os dois degraus que davam acesso à porta do trailer. Som-bra, água fresca, algum tempo para pensar e ela ficaria bem.
- Absolutamente bem - ela disse em voz alta, enquan¬to fechava a porta...
Um homem estava parado contra a parede em frente à porta. Alto. Cabelos escuros. Óculos escuros. Elle sentiu a cabeça girar... E, depois, seu coração se acelerou e ela abriu a boca para gritar.
Mas o homem foi rápido. Ele avançou em cima dela e trancou a porta do trailer, ao mesmo tempo que lhe cobria a boca com uma das mãos, impedindo-a de gritar. Em se¬guida, ele a agarrou pelo ombro com a mão que estava livre e girou-lhe o corpo, fazendo com que as costas femininas ficassem coladas ao seu peito.
- Gritar não vai ajudar em nada - ele declarou com severidade.
Uma perda de tempo.
Falco quase podia sentir o grito lutando para escapar dos lábios dela.
Dizer que essa não era exatamente a recepção que ele esperara seria uma meia verdade. Ele havia telefonado do celular para Farinelli quando estivera no avião. Falco avisara o diretor sobre o horário que iria chegar ao local e Fa-rinelli dissera que avisaria a Elle, e que seria melhor se ele a encontrasse em particular, porque ela provavelmente iria querer tranqüilidade no set de filmagem, então...
- Ei!
Elle lhe dera um chute. Inutilmente, porque ela estava chutando para trás e calçando chinelos de borracha, mas, ao menos, Falco pôde notar que ela ainda não havia se acalma¬do. Tudo bem. Ele iria tentar de novo.
- Srta. Bissette. Eu sinto muito se a assustei, mas...
Elle resmungou. Lutou. Suas nádegas pressionando-lhe a virilha com força. Em outras circunstâncias, ele teria apreciado essa sensação...
- Droga! - Falco resmungou e girou o corpo feminino, de forma com que ela ficasse de frente para ele, enquanto ainda mantinha uma das mãos sobre os lábios dela.
- Preste atenção, está bem? Eu. Não. Vou. Machucá-la. Outro erro.
Elle bateu nele com força. Dois golpes rápidos, um no peito, outro no queixo.
- Está bem - ele disse, furiosamente. - Você quer jogar duro? Vamos lá.
Falco a empurrou. Elle tropeçou para trás e ele aprisio¬nou-a contra a porta com o próprio corpo.
Ela era alta, embora ele fosse muito mais alto. Erguendo o queixo, Elle o fitou diretamente nos olhos.
Falco notou que os olhos dela estavam cheios de medo. E com o mesmo brilho de desafio que ele tinha visto na fotografia que ela havia tirado na praia.
Certo. Em vez de mandar tudo para o espaço e sair por aquela porta, ele iria tentar acalmá-la pela última vez.
- Srta. Bissette. Meu nome é Falco Orsini. Nada.
Ele ainda podia ver uma mistura de medo e desafio no brilho dos olhos dela.
- Estou aqui para ajudá-la. Medo, desafio e, agora, descrença.
- Confie em mim, Estou aqui para fazer um favor. E se você não se acalmar e conversar comigo, eu vou sair por aquela porta e deixá-la sozinha para lidar com a situação.
Elle piscou e ele notou que ela parecia confusa. Sim, mas ela não poderia estar mais confusa do que ele, a menos que...
Oh, droga.
- Farinelli não lhe avisou que eu viria encontrá-la?
Elle piscou mais uma vez. Uma linha de preocupação surgiu entre as sobrancelhas dela.
- Ele disse que a avisaria, e que você iria querer con¬versar comigo em particular e que eu deveria esperá-la aqui, em seu trailer.
Elle arregalou os olhos.
- O quê? - ela indagou e a pergunta soou quase inin¬teligível, porque ele ainda mantinha a mão nos seus lábios.
Contudo, Falco percebeu que ela estava surpresa. Tudo começava a fazer sentido agora. Ela, uma mulher que havia recebido uma ameaça, entra em seu trailer e depara com um estranho a aguardá-la...
Droga! Aquele tolo, Antônio Farinelli, nunca chegou a avisá-la de que ele estaria vindo.
- Está bem - disse Falco. - Alguém lhe mandou uma fotografia.
Elle começou a lutar novamente. Falco meneou a cabeça.
- Apenas me escute. Você recebeu uma fotografia. Uma ameaça. Seu diretor queria chamar a polícia. Você re-cusou. Estou certo?
Ele podia ver que estava. Até agora, tudo certo.
- Então o diretor contatou alguém que eu... Alguém que conheço. E esse alguém me contatou. Eu concordei em conversar com você e ver se conseguíamos encontrar algu¬ma solução para o problema. Certo?
Elle suspirou. Os olhos dela ainda estavam fixos nos dele, brilhantes e desconfiados, mas agora, ao menos, curiosos.
- Meu nome - ele disse - é Falco Orsini. Eu... Hum... As vezes faço o trabalho de segurança. E é por isso que es¬tou aqui. Eu sei sobre a fotografia, sei que você está preo¬cupada com isso, e que não quer as autoridades envolvidas. Estou aqui para discutir a situação e oferecer algum conse¬lho. Essa é a única razão de eu estar aqui... E só a assustei porque o seu diretor foi estúpido o bastante para não ter lhe contado sobre mim. - Exibiu um sorriso sereno, tentando tranquilizá-la. - Vou tirar a minha mão da sua boca. E tal¬vez possamos ter aquela conversa. Está bem?
Elle piscou e assentiu com a cabeça. Agora ela estava desconfiada... Mas pronta para ouvir.
Falco afastou a mão que mantinha nos lábios dela.
Elle não gritou.
Em vez disso, ela umedeceu os lábios com a ponta da língua. Falco a assistia atentamente. Ele baixou o olhar para o decote do roupão que ela vestia, notando que a respiração dela ainda estava acelerada. Falco sabia o que ela usava embaixo do roupão; ele tinha assistido a cena que Farinelli estivera filmando na praia, antes de entrar no trailer. Ela usava um biquíni sem alças. Simples. Neutro.
Mas não que ela fosse neutra.
Ela era maravilhosa. Aqueles cabelos. Aqueles olhos. Aqueles lábios.
Ainda assim, mesmo usando a maquiagem para o filme, ela possuía outra qualidade que ele não tinha percebido no anúncio. Uma espécie de inocência.
O que era ridículo, claro.
Elle era uma atriz. Ela jogava com as câmeras. Com os homens. Poderia interpretar qualquer papel. Talvez estives¬se fingindo essa inocência. Não que ele se importasse. Fal¬co estava apenas interessado no problema dela.
- Antonio não deveria tê-lo contratado - ela disse.
- Ele não me contratou.
- Mas você disse...
- Estou fazendo um favor a alguém.
- Seja lá o que for que você estiver fazendo, eu não o quero aqui.
A voz dela soou rouca. Abalada.
- Ouça... - disse Falco. - Se quiser se sentar...
- Posso lidar com isso sozinha.
- É claro que não pode - ele declarou sem rodeios. Elle ergueu o queixo.
- Você não sabe o que eu posso e o que eu não posso fazer.
- Vi a fotografia desfigurada. Você não pode lidar com essa ameaça. E ainda haverá mais.
Elle intensificou o brilho dos olhos.
- O que quer dizer com isso?
A resposta dela e a linguagem corporal a entregou. Falco tirou os óculos escuros.
- Você já recebeu mais ameaças - ele declarou com severidade. - Não é mesmo?
- Não - ela se apressou em negar.
Elle virou o rosto para um lado. Falco estendeu a mão e, cobrindo-lhe o queixo, forçou-a a encará-lo.
- O que você recebeu? Outra fotografia? Uma carta? Um telefonema?
Sem resposta.
Os lábios dela estremeceram. Falco lutou contra o dese¬jo ilógico de tomá-la em seus braços e confortá-la.
- Você já viu um gato perseguir um rato? - disse Falco. - Esse maníaco vai continuar com isso até se cansar do jogo.
Elle estremeceu.
- Você quer dizer até ele fazer as coisas que rabiscou na fotografia?
- Sim - Falco respondeu diretamente. Elle assentiu com a cabeça.
- E você acha que consegue impedi-lo? - ela indagou, e sua voz soou fraca. Os lábios dele se curvaram em um meio sorriso.
- Eu sei que consigo. Elle ergueu os olhos para encará-lo.
- Você pode impedir que ele faça qualquer coisa comigo?
- Sim.
- Um homem de poucas palavras - ela ironizou. - Como pode estar tão certo?
- Isso é o que eu faço. O que eu costumava fazer - ele esclareceu. - Posso encontrá-lo e impedir que a machuque.
Elle o fitou com desconfiança. Por que ela deveria acre¬ditar nele?
A resposta era irritantemente simples.
Porque, de outra forma, ela poderia morrer.
Talvez esse homem, Falco Orsini, realmente pudesse ajudá-la.
- Se eu aceitar a sua ajuda... - ela declarou - ...você não... Você não vai contatar a polícia?
- Não.
- Por causa da publicidade - ela disse, lutando para encontrar um motivo que ele pudesse aceitar.
- Eu já lhe disse. Vou cuidar disso sozinho. Sem polícia.
- O que você faria se eu o contratasse?
- Você não pode me contratar. Lembra-se do que eu disse? Estou aqui para fazer um favor. Quanto ao que vou fazer... Deixe isso comigo.
- O problema é que... Eu não quero que ninguém saiba que tenho um guarda-costas. Isso irá despertar curiosidade. E perguntas. E ter de respondê-las é a última coisa que eu quero.
- Eu já imaginava.
- Então, como iremos fazer isso? Quero dizer, como você vai me vigiar... - Ela deu um profundo suspiro, antes de prosseguir: - ...procurar o suspeito e fazer o que precisa ser feito, sem que as pessoas saibam?
Falco havia pensado nesse dilema durante o voo. Havia muitas maneiras de entrar na vida dela para protegê-la e obter informação sem deixar rastros. A idéia era assumir um papel que outras pessoas pudessem aceitar. Ele poderia se passar por motorista particular dela. Ou assistente. Ou personal trainer.
Ele havia decidido que a melhor opção seria personal trainer. Hollywood estava repleta de atores e atrizes que cuidavam do corpo sete dias por semana. Ele era forte e saudável, poderia se encaixar nesse papel. E isso lhe daria acesso a ela sempre que fosse necessário.
Certo. Então, seria personal trainer...
- Sr. Orsini?
- Falco - ele disse, enquanto estudava os traços deli¬cados do rosto feminino. Falco se lembrou da sensação de ter o corpo sensual dela contra o seu, a maciez dos lábios dela contra a palma de sua mão, e decidiu que não iria fazer o papel de personal trainer. - Simples - ele respondeu serenamente. - Vamos fazer as pessoas pensarem que sou seu amante.
Elle o encarou com surpresa. Depois, ela soltou um riso de desdém?
- Isso é loucura - protestou. - Ninguém vai acreditar...
- Sim... - Falco declarou em um tom enrouquecido de voz - ...eles vão acreditar. - E, dizendo isso, tomou-a em seus braços e a beijou.
A sensação de ter os lábios dela sob os seus era incrível.
Quentes. Suaves. E macios. Maravilhosamente macios.
Não que ele se importasse com isso.
Falco a estava beijando apenas para mostrar a ela que eles poderiam interpretar o papel de amantes e enganar qualquer um que os visse.
Será que ela pensava que era a única que conseguia desempenhar um papel? Ou que um guarda-costas estava muito longe da sua classe para se passar por um amante? Elle estava lutando com ele. Tentando se livrar do abra¬ço dele, afastar os lábios dos dele. Para o inferno!, pensou Falco. Aquela atitude presunçosa merecia uma resposta se-vera. Ela estava errada e ele não iria liberá-la até que ela soubesse disso.
- Não. - Elle arfou contra os lábios dele, mas poderia muito bem ter poupado o seu fôlego.
Falco percorreu os dedos de uma das mãos entre os ca¬belos dela, ergueu-lhe o rosto e continuou beijando-a.
E daí se o gosto dos lábios dela era como o mel? Se os cabelos eram sedosos? Essas coisas pareciam irrelevantes. Ele apenas queria mostrar a Elle que ela não poderia dar risada de Falco Orsini e escapar ilesa da situação.
Falco mordiscou-lhe levemente o lábio inferior e, ines¬peradamente, Elle parou de lutar. Ela se inclinou contra ele, suspirou e abriu os lábios. Ele aprofundou o beijo, explo¬rando com a língua todo o interior úmido da boca feminina.
O gosto dela fez a mente dele girar.
E o seu corpo reagiu.
Em um instante, ele ficou excitado. Um forte desejo pul¬sava em suas veias. Falco moveu as mãos para os ombros femininos e puxou-a gentilmente contra o seu corpo. Ele podia sentir as rápidas batidas do coração dela contra o seu peito.
Isso era o que ele havia desejado desde a primeira vez em que a vira naquela página de revista. Os olhos penetran¬tes e os lábios sensuais, as curvas do corpo sexy...
Nesse instante, Falco sentiu a ponta de uma faca contra o seu abdômen e ficou completamente imóvel.
Onde ela havia apanhado a faca era irrelevante. Mas a sensação de tê-la contra o seu corpo não era.
Com instintos e reflexos afiados pelo tempo em que es¬tivera nas Forças Especiais, Falco agarrou-lhe o braço com uma das mãos e segurou-lhe o pulso com a outra, pressionando-o para trás até que a faca caísse no chão. Em segui¬da, ele chutou o objeto para um canto, e notou que não se tratava de uma faca, mas o simples plástico fino do cabo de uma escova de cabelos.
- Solte-me! - Elle gritou e arranhou uma das faces dele.
Falco resmungou e empurrou-a contra a porta, usando o seu peso para mantê-la no lugar.
- Pare com isso - ele falou por entre os dentes.
Elle lutou com ainda mais intensidade. Falco agarrou-lhe os pulsos com força e aprisionou-a contra a porta.
- Eu disse para parar!
Elle soltou um gemido, mas não era de raiva, e sim de pavor. As faces dela ficaram completamente pálidas.
Falco fora até lá para protegê-la. Em vez disso, ele a estava assustando. Beijá-la tinha sido apenas uma ques¬tão de ego. Falco havia deixado o orgulho entrar em seu caminho.
E ele não gostou nem um pouco disso.
- Ouça-me.
Ela não ouviria. Estava perdida em seu próprio mundo, temendo o pior.
- Srta. Bissette - Falco declarou. - Elle. Preste aten¬ção. Eu não vou machucá-la.
Ela ergueu os olhos para encará-lo. Falco clareou a garganta com um ruído.
- Está bem. Vamos fazer o seguinte. Eu vou soltá-la e me afastar. Você fica onde está. Sem golpes, sem armas. E nós vamos conversar. É isso. Vamos apenas conversar.
Falco esperou alguns segundos. Depois fez exatamente o que acabara de dizer a ela. Mais alguns segundos se pas-saram. Elle não se moveu. Ele também não. Isso era algum progresso, não era?
Finalmente, ela deu um profundo suspiro.
- Eu quero que você vá embora.
A voz dela soou baixa, mas firme. Os olhos cor de topázio haviam perdido aquele brilho de medo. Ótimo. Tal¬vez agora eles realmente pudessem conversar.
- Olhe, srta. Bissette...
- Eu disse...
- Eu ouvi o que você disse. Mas precisamos discutir isso.
- Não temos nada para discutir - ela declarou, erguendo o queixo em sinal de desafio.
- Na verdade, temos sim. Eu sinto muito se a assustei, mas...
- Assustar? - Elle estreitou os olhos. - Você me enoja!
- O que disse?
- Colocar suas mãos em mim. Seus lábios nos meus. - Ela meneou a cabeça. - Homens como você são... Des-prezíveis!
Falco exibiu um sorriso irônico.
- Acredite-me, srta. Bissette, o sentimento é mútuo. Eu estava apenas provando o meu ponto de vista.
- E conseguiu. Você é vil.
Falco deu um longo suspiro.
- Repugnante, desprezível, vil. Blábláblá. Eu já ouvi isso antes.
Elle cruzou os braços diante do peito.
- Eu aposto que sim.
- Você disse que não conseguiríamos enganar nin¬guém se fingíssemos ser amantes. Eu achei que pouparia dez minutos de conversa ao lhe mostrar que estava errada.
- Bem, mas você não conseguiu. E eu não estava er¬rada. Sou uma atriz, mas para interpretar o papel de sua amante seria preciso um talento extraordinário.
Os insultos dela quase o fizeram rir. De pobre vítima à nobre arrogante em um piscar de olhos. Certo, ela era uma atriz. Mas ele estava disposto a acreditar que o pavor que ela exibiu nos olhos há apenas alguns minutos não havia sido um fingimento.
- Olhe... - Falco declarou calmamente - ...por que não começamos de novo? Vamos a algum lugar tomar uma xícara de café, você me conta por que precisa de um guar¬da-costas...
- Eu não preciso de um guarda-costas. Você é surdo? Eu quero que vá embora. Agora! - Elle exclamou, indicando a porta com uma das mãos. - Saia daqui ou eu vou gritar!
Já chega, Falco pensou, irritado. Ele avançou dois pas¬sos e agarrou-lhe os cotovelos.
- Está bem - ele disse com a voz fria como o gelo. - Vá em frente. Grite com todas as suas forças.
- Acha que eu não vou? Eu vou! E cinco minutos de¬pois, você estará na prisão!
- Você está se esquecendo de um detalhe. Se fizer isso, os policiais virão até aqui. - Falco inclinou a cabeça, fa-zendo com que seus rostos ficassem a apenas alguns centímetros de distância. - Eles vão querer ter uma longa con-versa com você, querida. É isso o que quer?
Elle ficou completamente imóvel.
- Qual é o problema, srta. Bissette? Não gosta da idéia?
Ela não respondeu e ele exibiu um meio sorriso.
- Talvez, se tivermos muita sorte, os paparazzi pode¬rão vir com os policiais. E então você poderá gritar para o mundo inteiro.
Elle baixou os cílios.
- Relaxe - Falco declarou, enquanto se afastava. - Você não precisa gritar para se livrar de mim. Apenas saia de perto da porta e eu vou embora.
Elle não se moveu. Falco suspirou, empurrou-a gentil¬mente para um lado e alcançou a maçaneta.
- Espere.
Falco a espiou por sobre um dos ombros. Elle engoliu a saliva e ele pôde notar que ela estava apreensiva. De que cor eram os olhos dela? Âmbar ou topázio? O pensamento era tão inadequado que o deixou irritado.
- O que foi agora? - ele resmungou.
- Sr. Orsini. - Elle hesitou. - Esse é o seu trabalho? Você é um guarda-costas?
Falco exibiu um sorriso fraco.
- Eu faço muitas coisas, srta. Bissette, mas agora é um pouco tarde para exigir o meu currículo.
- A questão é que... Eu não pedi por um guarda-costas.
- E eu não pedi por esse trabalho.
- Mas você disse que alguém o mandou até aqui.
- Eu falei que alguém que eu conheço me contou que você estava com um problema e me pediu para que viesse averiguar - Ele a fitou diretamente nos olhos. - E aqui estou eu.
- Olhe, não é minha culpa se você concordou em fazer um favor a um amigo...
- Ele não é um amigo e eu não faço favores a ninguém. - Falco suspirou. - É uma longa história e isso não muda os fatos. Eu vim aqui porque tinha a impressão de que você precisava de ajuda. - Ele exibiu outro meio sorriso. - Mas parece que eu estava errado.
- Você estava errado - ela assegurou. - Eu estou bem.
Falco pensou no pavor que ela havia demonstrado há alguns minutos. Bem, talvez fosse verdade. Talvez ela es-tivesse bem. Talvez todo aquele medo tivesse sido estrita¬mente dele.
- É sério, eu estou bem. Apenas me pergunto por que você... Por que alguém pensaria de outra forma?
Falco enfiou as mãos nos bolsos da calça.
- Você posou para um anúncio de revista - ele disse. - Um anúncio provocativo.
Elle ergueu o queixo.
- Era um anúncio de lingerie, sr. Orsini, e não um anún¬cio de... chocolate Hershey.
Falco exibiu um largo sorriso.
- Sem dúvida, srta. Bissette - ele declarou e, depois, tornou a ficar sério. - Milhares de tolos apaixonados com-praram lingeries iguais às que você estava usando naque¬le anúncio para dar de presente às namoradas, e depois se perguntaram por que a peça não tinha ficado tão bem nelas como ficaram em você.
Elle ficou tensa. Ela estava tentando entender se o que ele acabara de dizer era um elogio ou um insulto.
- Está querendo chegar a algum lugar com isso, sr. Orsini?
- Pode apostar que sim. Todas essas pessoas olham para um anúncio e vêem um anúncio. - Ele respirou fun¬do. - Um psicopata vê outra coisa e decide... Qual é o ter¬mo de psicologismo barato usado atualmente? Ele decide "compartilhar" o que ele viu com você.
As faces dela ficaram coradas.
- Você viu o que aquela... Aquela pessoa me mandou?
Falco assentiu com a cabeça.
- Sim.
Ele esperava que ela fosse ficar indignada com o fato de Farinelli ter mandado a fotografia desfigurada para alguém. Em vez disso, Elle deu de ombros.
- Aquilo foi horrível - ela sussurrou.
- Foi pior do que horrível - Falco observou. - Por que você não quer a polícia envolvida no caso?
- Você mesmo disse que isso é apenas o trabalho de algum... Louco.
- Loucos podem ser perigosos - Falco declarou. - Esse homem precisa ser capturado.
- Mas isso significaria publicidade - disse Elle.
- Publicidade é melhor que perder a vida.
A declaração brusca foi deliberada. Falco esperava cho¬cá-la para que ela lhe contasse o real motivo de não querer ir à polícia... Ele podia apostar que não havia um ator ou uma atriz no planeta que não quisesse publicidade, boa ou má... Mas podia ver que isso não iria acontecer.
- Deve ser apenas uma brincadeira - ela declarou, calmamente. - Coisas assim acontecem. Quero dizer, isso é Hollywood.
- Ele a contatou de novo?
- Você já me perguntou isso. Eu lhe disse, ele não me contatou novamente.
Elle estava mentindo.
- Ele só lhe mandou aquela fotografia? - Falco insistiu. - Nada mais?
- Não foi exatamente isso o que eu lhe disse? - Um sorriso falso curvou os lábios dela. - Olhe, eu não estou preocupada. De verdade. Há seguranças no set de filma¬gem. Eu tenho um sistema de alarme em casa. - Ela suspirou. - De qualquer forma, obrigada por ter vindo até aqui.
Falco deu de ombros.
- Sem problema.
Elle estendeu uma das mãos para ele. Era um gesto no¬bre. Ela o estava perdoando.
Falco sentiu algo mudar em seu interior.
Será que o suspiro quase imperceptível que escapara dos lábios dela quando ele a beijara havia sido um fingimento? Ou real? Falco ficou tentado a aceitar a mão que ela lhe oferecia. E, depois, ela estaria em seus braços, os seios macios contra o seu tórax, os lábios sensuais sob os seus. E ele iria beijá-la de forma intensa e provocativa, até que ela gemesse e sussurrasse o seu nome contra um de seus ouvidos...
Droga, ele estava louco?
Falco ignorou a mão que ela lhe oferecia.
- Adeus, srta. Bissette - ele declarou e, abrindo a por¬ta do trailer, abandonou-a sem olhar para trás.
As filmagens da tarde começaram mal e depois só piora¬ram.
Isso fez com que as tentativas da manhã não parecessem tão ruins.
Todos se sentiam descontentes.
O calor estava terrível, eles haviam feito um intervalo mais cedo por causa disso, mas Farinelli anunciou que te¬riam que filmar essa cena ou, per Dio, ninguém poderia ir embora!
Elle simplesmente não conseguia gravar a cena. Mas isso não era culpa dela. O encontro com Falco Orsini a havia abalado. Ela fizera o seu melhor para ser educada com ele no final, mas não tinha sido fácil. Encontrá-lo em seu trailer, um estranho tão alto, tão poderoso que parecia preencher o ambiente...
E a forma com que ele a beijara, como se pudesse fazer com que ela quisesse beijá-lo de volta.
Algumas mulheres poderiam.
Exceto ela.
Elle detestava todo esse jogo sexual. Os lábios molhados de um homem, as mãos ásperas...
Mas os lábios de Falco Orsini não eram molhados. Eram quentes, firmes e possessivos. E as mãos... Fortes, sim. Po-rém, ele não a havia tocado de maneira rude...
Elle se repreendeu mentalmente.
E daí? A questão era que ele não tinha o direito de beijá-la, ainda que tivesse feito isso para provar que eles pode¬riam interpretar o papel de amantes.
Além do mais, isso não importava.
Ele não seria o seu guarda-costas. Ninguém seria. Nin¬guém iria lhe fazer perguntas que ela não tinha a intenção de responder.
- ...está me ouvindo, Elle?
Ela piscou. Antonio estava parado à sua frente, enquanto os outros aguardavam.
- Essa é uma cena de amor. Uma cena muito importan¬te. Você precisa transmitir paixão. Desejo. E deve fazer isso com seus olhos, suas mãos, seu rosto. Não há beijo nessa cena, sì? Há apenas provocação. - Farinelli alcançou uma das mãos dela. - Você pode fazer isso. Relaxe. Esqueça as câmeras, a equipe. Uma última tentativa - ele pediu gen¬tilmente. - Quero que você se imagine nos braços de um homem cuja paixão supere as suas inibições mais básicas, um homem que mexa com você da forma como nenhum outro jamais conseguiu. Imagine um amante real, bella, um que você conheceu e nunca mais esqueceu. Deixe Chad fora da sua mente.
Chad girou os olhos nas órbitas.
- Droga, Antônio. Você realmente sabe como magoar um homem.
A piada foi deliberada. Uma forma de aliviar a tensão, e funcionou.
Todos riram. Elle esboçou um sorriso. Farinelli pres¬sionou levemente a mão dela, encorajando-a. Em seguida, ele deu um passo para trás e, erguendo uma das mãos, comandou:
- E... ação!
Elle deitou-se nos braços do coadjuvante. Seu coração batia acelerado dentro do peito. O que ela estivera pensan¬do quando permitira que a sua agente a convencesse a acei¬tar uma cena dessas? O que Antônio queria que ela fizes¬se era algo impossível. Ela não poderia fazer, não poderia olhar nos olhos de um homem e desejá-lo, ainda que fosse encenação.
Sentir as mãos de um homem sobre o seu corpo. Os lá¬bios molhados dele contra os seus. Deus, oh, Deus...
- Olhe para mim - disse Chad. Era uma fala do perso¬nagem que ele havia repetido por inúmeras vezes nesse dia.
Elle ergueu os olhos, da mesma forma que havia feito por diversas vezes...
Mas, dessa vez, Elle não viu o rosto do famoso ator de cinema, e sim os bonitos traços do rosto de Falco Orsini. Aqueles olhos escuros. O nariz bem delineado. O queixo bem definido, os lábios firmes...
Elle sentiu uma onda de calor se espalhar por todo o seu corpo...
- E... corta!
Elle piscou. Ela fitou o homem que a estava encarando. Chad, seu coadjuvante, exibiu um largo sorriso.
- Elle, mia bella! - Antonio Farinelli correu na dire¬ção dela.
Elle ouviu uma onda de aplausos e alguns assobios, en¬quanto o diretor estendia uma das mãos para ela e a ajudava a se erguer da areia.
- Bravo, Elle. Estava perfetto! - E, exibindo um sorri¬so de satisfação, finalizou: - Esse filme vai ser um arraso!
Chad se ergueu e piscou um dos olhos para ela.
- Eu não sei em quem você estava pensando, mas com certeza ele é um homem de sorte.
À distância, escondido atrás de uma árvore, Falco Orsini guardou um par de binóculos dentro da mala de couro, antes de jogá-la sobre o banco da frente da SUV alugada.
Mas que desempenho! Certamente esse filme seria um sucesso de bilheteria.
Falco podia apostar que todos os homens do mundo a consideravam sexy.
Exceto ele.
Estava furioso por ter ido até ali e depois ser dispensado por Elle. A escolha fora dela, mas ele não conseguia parar de pensar no olhar de pavor que ela exibira no trailer.
Algo estava acontecendo e ele não iria embora até des¬cobrir o que era. Com esse pensamento, Falco entrou na SUV e aguardou.