O silêncio Era uma constante na vida de Roderick Likaius Wolf. Este silêncio não era como um copo vazio esperando ser cheio, mas sim um espaço denso, repleto de respeito e temor, onde algumas presenças não precisavam elevar a voz para serem obedecidas. Com trezentos e cinquenta anos, Roderick havia aprendido que o verdadeiro poder se assemelha a uma árvore cujas raízes se espalham silenciosamente pelo solo, estabelecendo-se de maneira sutil.
Observando a cidade a partir da cobertura envidraçada, com as mãos escondidas nos bolsos de seu impecável terno, ele contemplava a noite se desdobrando como um manto familiar a seus pés. Os arranha-céus iluminados e o frenético movimento da vida urbana traçavam uma narrativa como um livro que os humanos jamais poderiam imaginar - a de quem realmente caminhava entre eles. Era desse modo que ele preferia viver.
- Prepare o jato, - disse em um tom baixo, firme e decisivo. O homem que o acompanhava permaneceu imóvel, não por impulso, mas em um gesto de lealdade, como um fiel escudeiro ao lado de um cavaleiro. Ele era o Beta, o único que ficava ao seu lado sem desviar o olhar.
- O jato está pronto, senhor. Partimos em quarenta minutos.
Roderick não se virou, mantendo os olhos fixos em seu reflexo no vidro, como um general que observa o campo de batalha antes da missão. Ele era um homem alto, quase medindo dois metros, cuja presença era tão imponente quanto a de um edifício em meio a arranha-céus. Embora seus ombros largos parecessem relaxados, eles escondiam um controle excepcional, semelhante a um maestro que, mesmo em uma pausa, espera pacientemente pelo momento certo para iniciar a sinfonia. Seus cabelos negros, levemente desgrenhados, estavam cortados em um comprimento equilibrado entre o curto e o longo, suficientemente domados para se adequarem ao rigor do ambiente corporativo, como um lobo que, embora selvagem, se adapta ao seu papel em uma alcateia. A barba aparada e o cavanhaque bem definido moldavam um rosto que, apesar da juventude, exibia a gravitas de experiências acumuladas ao longo do tempo, reminiscentes de um livro cujas páginas foram escritas com sabedoria adquirida.
- Quero ver o resort pessoalmente antes da inauguração, - declarou ele com convicção, como um capitão que exige uma inspeção antes de zarpar. - Não confio em relatórios quando se trata do meu território.
O Beta avançou um passo, permanecendo alerta, como um cão fiel que percebe o menor sinal de tensão.
- Tudo está conforme o planejado. A obra foi concluída antes do previsto e a segurança foi reforçada, sem qualquer sinal de movimentação suspeita nas redondezas.
Roderick virou-se lentamente, seus olhos âmbar- quase como uísque- encontrando os do Beta.
- E os guardiões? - Essa questão sempre foi essencial, como a fundação de um edifício que garante sua estabilidade.
- Estão posicionados adequadamente, - respondeu o Beta. - A alcateia local já reconheceu este território como parte de seu domínio, como um terreno familiar que não é questionado.
Roderick assentiu, satisfeito com a resposta.
- E quanto aos lobos selvagens?
Houve uma breve pausa, um sutil detalhe que não passou despercebido por Roderick.
- Eles estão... diferentes, - admitiu o Beta, escolhendo suas palavras com cuidado, como um artista que seleciona cuidadosamente as cores para uma tela.
- Diferentes em que sentido? - questionou Roderick, agora mais intrigado.
- Eles estão mais tranquilos e obedientes, sem sinais de estresse, - notou o Beta.
Uma sobrancelha de Roderick ergueu-se levemente, sinalizando seu crescente interesse.
- Isso é incomum, - comentou ele, sua atenção focada na situação.
- De fato, - concordou o Beta, seu olhar sério refletindo a gravidade do momento. - Considerando que são guardiões, eles geralmente não reagem bem a estranhos e, normalmente, mostram-se bastante indiferentes.
Roderick cruzou os braços, a curiosidade brotando como uma planta buscando luz.
- O que causou essa mudança?
O Beta respirou fundo, como quem se prepara para soltar uma informação valiosa que poderia iluminar a dúvida.
- Contratamos a veterinária, como você pediu.
- E? - questionou Roderick, ansioso por mais detalhes.
- Eles a tratam como se fossem... cachorrinhos, - respondeu o Beta, com incredulidade evidente na voz.
Para Roderick, a palavra parecia tão fora do lugar quanto um gato tentando latir.
- Cachorrinhos? - ele repetiu, com um leve ceticismo na voz.
- Exatamente, - confirmou o Beta. - Ela se relaciona com eles de maneira destemida, como um mestre que comanda uma orquestra, sem subserviência ou agressividade. Os animais se aproximam, obedecem a suas instruções e até permitem que ela os toque, como se soubessem que ela tem o carinho de um cuidador. Alguns chegam a se deitar aos pés dela, buscando conforto.
Um sentimento desconhecido começou a emergir em Roderick, embora ele tentasse rapidamente reprimir essa sensação, como se tentasse esconder uma sombra sob a luz do sol.
- E quanto às pessoas? - ele perguntou, curioso.
- Ah, não tão bem, - disse o Beta, deixando escapar um leve sorriso. - Ela tende a ser arisca e reservada, mostrando pouca paciência para interações humanas - imagine uma ave que prefere ficar em seu galho seguro do que se aproximar de um humano estranho.
Roderick começou a andar de um lado para o outro, perdido em pensamentos.
- Talvez isso explique a conexão, - ele murmurou. - Os animais têm um talento especial para perceber o que os humanos tentam ocultar, como se fossem detetives em busca da verdade em uma sala cheia de segredos.
- Quando chegarmos, o senhor poderá conhecê-la, - informou o Beta. Roderick apenas assentiu, ainda mergulhado em seus pensamentos.
- Vamos ver, - respondeu ele.
O jato atravessava o céu como um pincel traçando a tela da vontade de Roderick. Durante a viagem, ele analisou mapas digitais, relatórios de segurança e dados climáticos, mas sua mente parecia uma onda distante, longe da praia da realidade. Ele refletia sobre os clãs, a pressão por uma rainha e sua própria história - como um livro com páginas em branco sobre um casamento arranjado que não gerou herdeiros, uma companheira que não foi sua escolha, e a solidão que acompanha o poder, como uma sombra persistente.
Havia sido viúvo por cem anos, como uma flor que parecia nunca florescer novamente após a morte de sua luz.
Ainda assim, Roderick encontrava realização em seus empreendimentos. Os resorts que administrava não eram apenas negócios; eram como oásis em um deserto, funcionando como santuários. Nesses espaços, vampiros, licantropos e outras criaturas podiam existir sem serem observados, onde podiam descansar, negociar e sobreviver. Para os humanos, o que se via era apenas luxo e beleza natural, enquanto as criaturas da noite entendiam que ali era um refúgio seguro, como um abrigo na tempestade.
A Austrália, com sua floresta primitiva e energia vibrante, oferecia uma posição estratégica, assim como um castelo em um terreno elevado. Uma das alcateias mais poderosas da região a protegía há gerações, como uma muralha protetora. O novo resort seria inaugurado naquela noite, e Roderick sentia a necessidade de tocar a terra antes de receber qualquer convidado, como um artista que precisa sentir a textura da tela antes de começar a pintar.
Assim que o jato pousou, uma onda de calor denso e úmido o envolveu, como se a própria terra o estivesse saudando. Roderick respirou profundamente, sentindo que aquele ambiente vibrante o reconhecia.
- Está tudo preparado, - comentou o Beta ao seu lado.
Ele contemplou o horizonte, observando a vegetação exuberante e a atmosfera silenciosa que pulsava com vida.
- Vamos para o resort, - afirmou.
Enquanto caminhava pelo local, avaliava cada aspecto: a arquitetura que se integrava perfeitamente à natureza, as rotas de fuga meticulosamente planejadas, os pontos de observação estratégicos e as posições da alcateia. Tudo parecia estar em perfeita harmonia.
- A recepção será hoje à noite? - perguntou.
- Sim, com convidados já confirmados: vampiros, licantropos e híbridos.
- E os humanos? - indagou Roderick, a curiosidade transparecendo em sua voz.
- Apenas aqueles que não têm a menor ideia do que estão presenciando.
Um sorriso de canto surgiu no rosto de Roderick.
- Excelente.
Ele deu alguns passos adiante, sentindo a pulsação da terra sob seus pés, como se estivesse sintonizado com as batidas do coração do lugar.
- Quero visitar o canil dos lobos selvagens.
O Beta, sem hesitar, respondeu:
- Claro.
E assim, enquanto se dirigiam aos guardiões, o destino começava a se desenrolar.
A mulher que não se curva ao caminho até o canil dos lobos selvagens avançava entre as altas e antigas árvores, cujas copas filtravam a suave luz do entardecer, criando padrões dançantes no solo coberto de folhas secas. Cada passo seu era firme, imbuído de uma determinação tranquila, como se aquelas raízes profundas e troncos retorcidos fossem aliados silenciosos de sua jornada.
O ar ali carregava uma qualidade única - mais denso, mais vibrante, como se cada respiração contivesse o sussurro da natureza, uma sinfonia de folhas farfalhando e pássaros piando ao longe, fazendo com que até mesmo o tempo parecesse desacelerar. Roderick percebia isso com clareza; não era apenas o ambiente ao seu redor, mas uma conexão visceral com um território que pulsava com vida, como se a alcateia e a floresta fossem um só organismo, entrelaçados nos ritmos da existência.
- Os guardiões estão tranquilos - informou o Beta, que caminhava ao seu lado com uma expressão de confiança serena. Seus olhos, sempre atentos, pareciam escanear cada sombra que se movia, cada farfalhar de arbustos. - Desde que ela assumiu os cuidados, não tivemos incidentes, como um barco sem buracos flutuando em águas calmas, navegando sem pressa por um mar sereno. A responsabilidade que ela abraçou trouxe um novo sentido de paz à colônia, como se o próprio vento estivesse se ajustando à sua presença."
- Ela - repetiu Roderick, quase para si mesmo, a palavra ressoando em sua mente como um eco distante. Algo naquela palavra despertava uma curiosidade estranha nele, uma mistura de respeito e intriga. Não era impaciência, nem urgência; apenas uma curiosidade, como um viajante que descobre uma nova terra, uma perspectiva inexplorada. Era um estado raro para alguém que, em suas andanças e experiências, já havia visto quase tudo. Ele queria saber mais sobre essa mulher, sobre o que colocava ela em sintonia com as criaturas tão frequentemente vistas como seres indomáveis, e o que a tornava tão especial aos olhos de seu povo.
O som anunciou a aproximação antes da colisão: passos apressados, o tilintar de instrumentos veterinários e o chacoalhar de um balde, como um trovão distante que se intensificava no ar fresco da tarde. Roderick se virou no momento em que algo - ou alguém - se aproximava com determinação suficiente para não perceber quem estava em seu caminho. O impacto foi seco, como um tronco quebrando sob o peso de uma tempestade, e ele mal teve tempo de reagir antes que a cena se desenrolasse em uma confusão de movimento e som.
- AI!
O balde disparou com um estrondo, espalhando panos coloridos, frascos de vidro e utensílios de cozinha pelo chão de terra batida, criando uma cena de desordem que se assemelhava a pétalas de flores sendo levadas por um vento impetuoso, cada item caindo e rolando como se tivesse vida própria. Os frascos tilintavam entre si, e um dos panos se enrolou em um galho próximo, formando uma espécie de bandeira de rendição, enquanto o caos se desenrolava ao redor deles.
- ARMÁRIO AMBULANTE! OLHA POR ONDE VOCÊ ANDA!
Ela caiu sentada, o choque do impacto retirando-lhe o ar por um momento, como se tivesse sido subitamente submersa em águas frias, seu corpo atordoado processando a sensação de queda. O mundo ao seu redor girava como um carrossel desgovernado, e ela tentava estabilizar-se, colocando as mãos no chão, sentindo a textura do solo sob os dedos. Cada respiração era uma luta enquanto a realidade se recuperava da súbita interrupção.
- Meu Deus... - resmungou, apoiando uma mão no chão, sua voz tingida de incredulidade. - Ainda bem que eu tenho bunda. Porque se não tivesse, teria me quebrado toda agora, como um copo frágil caindo do balcão e se espalhando em mil peças. Imaginei a cena: eu, estilhaçada e deitada no chão, uma imagem de ridículo absoluto. Era como se o universo tivesse decidido passar por um pequeno capricho em sua narrativa, e eu, a pobre personagem acidental, me vi no meio da comédia. Seu olhar, que antes estava focado em Roderick, agora varria os destroços com uma mistura de frustração e humor, tentando absorver a surrealidade do encontro.
Dentro de Roderick, o lobo se agitou, atento e desperto, como uma tempestade interna reverberando nas cavernas de sua alma. Ele sentiu o chamado ancestral, uma conexão primitiva que se acendia a cada batida de seu coração, reconhecendo a presença de algo que sua parte humana ainda se esforçava para entender, como um pouco de luz surgindo em meio à bruma densa de um amanhecer. Era um misto de empatia e instinto, como se seu lobo interior estivesse contemplando não apenas a figura diante dele, mas a essência dela, algo que ressoava em sua própria natureza selvagem.
- Você me chamou de quê? - a pergunta saiu de seus lábios em um tom baixo e controlado, mas não deixava de carregar um traço de ferocidade contida, revelando sua curiosidade e a tensão que pulsava no ar entre eles, como um fio prestes a se romper. Ele queria entender o que a levara a essa ousadia e como ela tinha o poder de despertar tanto em seu interior.
Ela levantou lentamente o rosto, avaliando-o de baixo para cima, com um olhar que não se intimidava, sem qualquer vestígio de reverência. Havia uma confiança inabalável em sua postura, como se já estivesse ciente do poder que ambos detinham, como dois colossos diante de um pequeno humano. O espaço ao redor parecia encolher, seu olhar penetrante equivalendo a uma dança silenciosa de vontade e resistência que ecoava em seus espíritos.
- De armário ambulante - respondeu, sem hesitar, um sorriso travesso brincando em seus lábios, desafiando-o a contrariar suas palavras. - Você tem dois metros de altura?
Ele quase sorriu, uma expressão de amusement testemunhando a ferocidade dela. - Não. Um metro e noventa e oito.
- Humm, um detalhe menor - ela emitiu um som de desaprovação com a língua, como se estivesse desapontada com a precisão matemática dele. - E o que está faltando para chegar aos dois metros?
- Apenas dois centímetros.
- Pois é. - Ela abriu os braços dramaticamente, como se estivesse apresentando um espetáculo extraordinário, a agilidade de seus gestos contrastando com os seus. - Apenas dois centímetros a menos, e você se sente no direito de me desmontar? Olhe para mim: sou pequena e delicada, lutando para carregar minhas coisas, e você aparece e quase me derruba. Você não tem ideia do que é ser um sopro de vento em um mar de montanhas, de ficar à mercê de gigantes como você.
Ela fez uma careta, passando a mão pela lateral do quadril com um gesto teatral que agregava um toque de humor à tensão. - Agora, quando eu for conversar com as crianças, elas vão achar que alguém me agrediu. Sempre que falo com elas, já era complicado o suficiente sem precisar do seu 'ajuste' de armário ambulante.
- Crianças? - indagou Roderick, genuinamente curioso, como se tentasse decifrar um enigma que, de alguma forma, havia se tornado vital para entender a complexidade dela e a nuance da situação. Os olhos dele confusos, mas intrigados, tentavam compreender essa faceta dela que parecia tão distante do lobo que habitava seu ser.
- Meus lobinhos, é claro! - respondeu, gesticulando com entusiasmo, como se isso fosse tão evidente quanto o brilho do sol no céu em um dia radiante de verão. - Eles são extremamente curiosos e reparam em tudo, até nas sutilezas que muitos simplesmente ignoram. É impressionante como conseguem enxergar o mundo ao seu redor com um olhar tão afiado e inocente. Desde a maneira como a luz dança nas folhas das árvores até o mais discreto dos sussurros nas sombras, eles capturam cada detalhe em suas pequenas mentes inquietas, ansiosos por compreender e explorar tudo que os cerca.
O Beta avançou um passo, sua expressão tornando-se mais severa, como um mestre que exige respeito em um campo de batalha silencioso. Ele sabia que a curiosidade inocente das crianças poderia se transformar em uma fonte de informação valiosa, mas também em um desafio indesejado. - Você sabe com quem está falando? - sua voz soou firme e autoritária, como um trovão distante, imbuída de uma gravidade que fazia o ar ao redor deles vibrar.
Ela virou o rosto na direção dele, claramente irritada, como se estivesse tentando afastar uma mosca importuna que insistia em zumbir em seus ouvidos. Uno frustrado, respirou fundo, sua mente girando como um leão preso em uma jaula, tentando encontrar uma saída. - Não. - A palavra escapuliu de seus lábios como um sussurro desafiador. - Mas posso afirmar que você é um grande desastrado. Me derrubou no chão e nem sequer se dignou a pedir desculpas, como se meu bem-estar não fosse nada além de um mero detalhe irrelevante em sua vida cheia de obrigações.
O clima ficou tenso, como se uma tempestade estivesse prestes a se formar, as palavras vibrando no ar carregadas de eletricidade. Roderick ergueu a mão em um gesto simples, mas assertivo, e o Beta parou onde estava, a confiança em seu corpo esfriando momentaneamente sob o olhar de Roderick. Ele se aproximou mais, seus olhos âmbar fixados nela com total atenção, como um lobo que observa sua presa, demonstrando uma mistura de respeito e especificidade.
- Me desculpe, senhorita - disse, sua voz baixa e sincera, um som quase prensado por uma ferida. - Eu estava distraído, envolvido em meus próprios pensamentos e preocupações que, de maneira vergonhosa, me impediram de notar o que estava acontecendo ao meu redor.
Ela o analisou por um momento, ponderando suas palavras, como uma juíza avaliando um caso, pesando as evidências numa balança invisível entre honestidade e descaso. Por um breve instante, sua irritação vacilou, dando espaço a uma curiosidade sobre as complexidades que aquele Beta poderia estar escondendo por trás daquela fachada autoritária.
- Está desculpado - concedeu, sua expressão suavizando como os raios de sol atravessando as nuvens cinzentas após uma tempestade. - Agora, me ajude a levantar, porque isso aqui está pesado, e todas essas coisas caíram em cima de mim. Sinto que um pequeno exército de objetos pesados decidiu declarar guerra contra minha dignidade.
Ele estendeu a mão, e no instante em que seus dedos se tocaram, uma onda de choque percorreu os dois, como se uma descarga elétrica cruzasse o espaço entre eles. Mas não era uma dor comum, nem uma eletricidade trivial; era algo profundo e ancestral, como se as raízes de suas almas se entrelaçassem em um abraço voraz, atravessando ossos, sangue e espírito. As memórias de vidas passadas dançaram brevemente em suas mentes, revelando fragmentos de histórias não contadas, laços de destino e uma conexão inexplicável que parecia transcender o tempo e o espaço. O mundo ao redor deles pareceu se desenfocar, e por um momento, um novo universo surgiu, onde apenas os dois existiam, conectados por um fio invisível e poderoso.
Ela retirou a mão rapidamente, o coração disparado, pulsando como se quisesse escapar de seu peito. A intensidade da sensação a deixou atordoada; nunca havia experimentado nada semelhante, e a realidade se redimensionava diante dela.
- AI! - exclamou, com os olhos arregalados, como se estivesse tentando absorver o que acabara de acontecer. - Meu Deus! Além de armário ambulante, agora você virou Zeus?! Me deu uma descarga elétrica! É sério, isso não é normal! Você pode até ser um bom ajudante, mas confessa, você tem algum truque nas mangas, certo? Um poder oculto que não quer compartilhar?
Roderick, com os sentidos ainda vibrando após aquele toque inesperado, sentiu a energia atravessar sua espinha como um rio que desperta uma parte adormecida dentro do lobo. Seus instintos, geralmente tão bem controlados, agora estavam em alvoroço. Não. Aquilo não vinha dele. Era uma resposta a algo que nunca havia experimentado, um eco de suas próprias emoções que emergiam lá de dentro, um pulso de algo mais. Ele precisava entender; essa interação era muito mais do que um mero choque físico.
- Não - respondeu, com firmeza, seu olhar cravado no dela, tentando transmitir certezas em meio à confusão. - Você é quem me deu a descarga elétrica. Eu só estava, bem, estendendo a mão! Mas agora há algo mais aqui, não acha? É como se nossas almas tivessem se reconhecido de alguma forma, e isso não é algo que eu acreditei que fosse possível. Seria um sinal? Ou apenas um furo na nossa realidade? O que você acha que devemos fazer com isso?
Ela piscou, confusa, suas sobrancelhas se unindo em uma linha de desagrado. - Espera... você também sentiu?
- Sim. - Ela soltou um suspiro profundo, quase como se estivesse exaurindo toda a frustração acumulada em um único momento. Passou a mão pelos cabelos prateados, um gesto que denunciava a mistura de exaustão e inquietação que a acompanhava. - Hoje definitivamente não é meu dia. Pelo jeito, o universo resolveu me aprontar mais uma dessas...
Começou a recolher os objetos espalhados pelo chão, cada movimento cheio de uma irritação palpável, como se aquilo fosse a gota d'água em uma série de pequenos infortúnios. - E ainda tenho que terminar meu trabalho. - Apontou com a cabeça para o canil, onde os filhotes de lobo brincavam, alheios à tempestade de emoções que a envolvia. - Mais tarde, os convidados virão ver os lobinhos, e preciso deixar tudo organizado para causar uma boa impressão. Não posso deixar que eles vejam essa bagunça... nem um pedacinho dela.
Roderick observava cada movimento, cada gesto, cada expressão. O lobo dentro dele permanecia atento, silencioso e reverente, sentindo a tensão que emanava dela, como se lhe desse vida a cada ofensa do dia. Ele queria se aproximar, oferecer ajuda, mas algo o impedia, uma espécie de respeito por aquela determinação que ela exibia, mesmo em meio ao caos.
- Você vai estar na recepção? - Questionou, a voz tinta de curiosidade, querendo saber mais sobre os papéis que ela jogava na dança social que estava prestes a ocorrer.
Ela riu, um som curto e quase cético, que ressoou como uma campainha, trazendo à tona uma verdade que Roderick não havia considerado. - A recepção é para nobreza. - Levantou-se por completo, seus olhos ainda brilhando com a faísca da indignação. - Eu sou plebeia, e os plebeus têm que se contentar com o que sobra. Enquanto a nobreza desliza pela vida, nós estamos aqui, enterrados na realidade, tentando levar um pouco de conforto aos que não têm voz.
Pegou um balde, a sua destreza com o objeto contrastando com a profundidade de suas palavras. O balde, como uma extensão de sua determinação, seria preenchido não apenas com água ou ração, mas com a esperança escondida nas pequenas coisas que sua vida simples ainda podia oferecer.
- Roderick então percebeu que a nobreza que ela mencionava não residia em títulos ou convites, mas na coragem de cuidar e ser um suporte para os que não podiam se cuidar sozinhos.
- Mas estarei lá, sim, com os lobinhos. Alguém precisa cuidar das feras enquanto vocês socializam - ela afirmou, sua voz misturando-se com um toque de ironia enquanto olhava para os filhotes que brincavam despreocupadamente ao seu redor.
- O brilho em seus olhos ao mencionar as criaturinhas era inegável, uma mistura de amor e dever. Para ela, ser plebeia significava mais do que um título; era uma vida cheia de responsabilidades e pequenos momentos de alegria.
Ela murmurou uma queixa ao passar por ele, passando a mão na parte detrás da coxa com um gesto teatral. - Minha bunda vai ficar roxa... eu juro que vai - disse, virando-se momentaneamente para olhar para ele com um sorriso maroto, os cabelos desgrenhados balançando ao movimento. Sua leveza contrastava com a atmosfera densa da noite, preenchida de expectativas e segredos não revelados.
Enquanto se afastava em direção ao canil, continuou com suas reclamações, os murmúrios se perdendo na brisa noturna. A figura do Beta, hesitante, aproximou-se lentamente, ainda tentando compreender a situação complexa ao seu redor.
- O som de sua respiração baixa e metódica parecia ressoar na quietude ao seu redor, intensificando a curiosidade que alimentava sua inquietação.
- O que foi isso? - indagou, em voz baixa, quase como se temesse perturbar o manto de mistério que envolvia a cena. - Essa descarga... isso não é normal. Sua preocupação era palpável, ecoando em seus olhos grandes que refletiam a luz do luar.
- Ele sabia que havia mais do que se via à superfície; a dinâmica entre os dois era uma dança delicada de emoções e revelações não ditas.
Roderick manteve o olhar fixo na direção em que ela desaparecera, sentindo o lobo dentro dele se ajoelhar em reverência, reconhecendo a força e a importância dela em sua vida.
- Era mais do que atração; era uma conexão pura e profunda, uma força que pulsava como o batimento do coração da floresta ao redor.
- Ela é minha companheira predestinada - declarou, com uma expressão sem emoções, mas no fundo, sua voz carregava o peso de um destino que não podia ser ignorado. Ele falava com a certeza de alguém que conhecia as suas obrigações e os riscos de uma revelação prematura.
O Beta arregalou levemente os olhos, surpreso, sua mente trabalhando para processar a magnitude da declaração. A noção de que Roderick estava preso a um destino tão sério o deixava perplexo.
- E ela sabe? - questionou, sua voz um sussurro que parecia fugir do controle, enquanto a trama intricada de seus pensamentos se desenrolava lentamente.
- Não - respondeu Roderick, com firmeza, a determinação estampada em sua expressão. - E ainda não pode saber.
O entendimento dela sobre o que era ser plebeia e a realidade que os rodeava eram mundos distantes, e ele não queria que a arrastasse para essa confusão.
Respirou fundo, sentindo a lua ascender no céu, seu brilho prateado iluminando o caminho obscuro que se apresentava à sua frente. - Mas agora... - completou em pensamento - o destino já nos observou. O peso dessa verdade o envolvia como uma sombra, enquanto ele se preparava para enfrentar os desafios que viriam, certos de que o amor, mesmo que não reconhecido, moldaria seu futuro.
-
Liara não notou que estava sendo seguida. Para ela, a vida havia recuperado seu ritmo usual de trabalho e rotina com os lobos, onde as interações humanas sempre ficavam em segundo plano, quando não em último. O canil dos lobos selvagens se abria em uma clareira cercada por discretas grades reforçadas. Esse espaço não era composto por jaulas comuns, mas era amplo e acolhedor, com terra, sombra, pedras e árvores, criando um ambiente ideal para criaturas que necessitam de liberdade, mesmo sob vigilância.
Ao entrar, a postura de Liara se transformou; seus ombros relaxaram, seu rosto se descontraiu e a respiração se suavizou.
- Cadê os lobinhos da mamãe? - chamou, deixando o balde no chão. - Vim limpar a sujeira de vocês, porque hoje vai ter festinha, e os lobinhos vão ter que se comportar. Os lobos se aproximaram lentamente, alguns se sentando e outros se deitando, sem rosnar ou recuar, como se tivessem uma espécie de entendimento silencioso sobre o que estava para acontecer. Um deles inclinou a cabeça, atento, parece que captando cada inflexão da voz de Liara. - Senão eu vou ficar muito chateada - completou ela, apontando o dedo de leve para eles. - E vocês sabem que quando eu fico chateada, eu fico chateada mesmo.
Entenderam? Os lobos emitiram um som que não era exatamente um uivo; era uma resposta de empatia, uma comunicação genuína repleta de nuances. Roderick, a alguns metros de distância, sentiu o lobo que habitava nele se erguer, um instinto primitivo despertando dentro dele. - Eles... - murmurou o Beta, ao lado. - Eles estão respondendo. Roderick apenas observou em silêncio, um misto de fascínio e preocupação refletido em seus olhos. Liara parecia estar em casa, como se aqueles lobos fossem mais que animais; fossem sua família, sua conexão com algo maior.
- Agora vocês vão ficar sentadinhos aí, quietinhos - continuou, colocando luvas com um movimento firme e decidido. - A mamãe vai fazer a higienização e colocar a comidinha de vocês... e eu não quero sujeira, ouviram bem? Um dos lobos se acomodou, apoiando o focinho nas patas, enquanto outro abanou a cauda, mostrando uma obediente expectativa. - Escutem com atenção - disse ela, com um olhar sério e impositivo. - Vou ensinar vocês a usarem o sanitário. Nada de xixi e cocô espalhado por aí. Vocês são educados, e vão fazer no lugar certo.
Ela apontou para uma área específica do recinto, onde um espaço limpo e preparado aguardava sua atenção, e os lobos balançaram as cabeças em resposta, mostrando entendimento e concordância. O Beta arregalou os olhos, evidentemente perplexo e intrigado. - Isso... isso não é normal - sussurrou. - Não - concordou Roderick, sua expressão permanecendo neutra, mas com um brilho curioso. - Não é. Liara prosseguiu, completamente alheia a quem a observava, imersa em sua própria esfera de confiança e carinho.
- E se eu tiver que dormir aqui com vocês para ensinar direito, eu durmo - avisou. - Mas vocês vão aprender, assim a mamãe não precisa trabalhar dobrado e pode cuidar dos outros bebês por aí. Entenderam? Os lobos emitiram mais ganidos, demonstrando atenção e obediência, como se soubessem que havia algo maior em jogo ali, uma promessa de respeito e cuidado.
O gerente do resort se aproximou com cautela, falando em um tom baixo que contrastava com a vivacidade do ambiente: - É impressionante como eles respondem a ela. - Ela é humana? - perguntou Roderick, mantendo seus olhos âmbar fixos na cena, analisando cada movimento. - Sim, senhor.
- O gerente assentiu, parecendo cada vez mais admirado.
- E não faz ideia de onde está realmente trabalhando. Não sabe que cuida de licantropos. Para ela, são lobos selvagens. Roderick observou um dos lobos se aproximar de Liara e permitir que ela acariciando a cabeça, um gesto que parecia transcendental.
- Esses lobos - continuou o gerente, com um tom quase reverencial - são homens que escolheram permanecer na forma animal por um tempo. Alguns... estão sendo punidos, guardando segredos que não podem ser revelados.
Roderick cerrou o maxilar, sentindo a tensão subir. - E mesmo assim... obedecem a ela. - Como filhotes - completou o gerente. - Ela os atrai. E eles aceitam, como se ela fosse a resposta para algo que estava faltando em suas vidas.
Liara finalizou a limpeza com um senso de dever cumprido, organizou o espaço e colocou a comida com cuidado, cada movimento revelando sua dedicação. - Pronto - disse, batendo palmas com alegria contagiante. - Agora todo mundo para as suas caminhas. Está tudo limpinho. Imediatamente, os lobos obedeceram, como soldados sob o comando de uma generala, formando uma visão de harmonia ao redor dela. Ela cruzou os braços, satisfeita com o resultado do seu trabalho.
- Euzinha, linda e maravilhosa - sorriu para si mesma, antes de deixar escapar um suspiro de alívio. - Agora vou tomar um banho e vestir meu uniforme de gala, porque quando esse evento começar e os humanos vierem visitar as ferinhas...
Fez uma careta, consciente da ironia daquilo.
- Que, convenhamos, as feras são os humanos, né? Roderick sentiu um sorriso perigoso se formar em seu rosto, evidenciando uma predileção que não soube explicar.
- Eu quero estar aqui presente - continuou ela - para vocês não fazerem nada de errado, escutaram meus anjinhos?
Os lobos retornaram seu som em resposta, uma sinfonia de apoio que apenas ela parecia conseguir invocar. - Daqui a uma hora eu volto. - apontou, com determinação. - Uma hora. Mamãe volta.
Ao se virar para sair, esbarrou em Roderick novamente, interrompendo sua linha de pensamento com um choque.
- PELO AMOR DE DEUS! - exclamou, os olhos arregalados. - Você está me seguindo, armário ambulante?!
O gerente pigarreou, tentando recuperar o controle da situação. - Senhorita... - tentou intervir, mas a confusão era evidente em sua voz.
- A senhorita é tão distraída que nem percebeu que nós estávamos aqui, ela franziu o cenho em confusão.
- Estavam? Não vi m
- Este é o senhor Likaius - disse o gerente, apressando-se para esclarecer., veio para a recepção, Liara respirou fundo, processando a informação.
- Então... me desculpe, senhor Likaius - disse, seca, mas com uma pitada de curiosidade nos olhos. - Mas se o senhor veio aqui achando que esses lobos são feras, o senhor está muito enganado.
Ela apontou para o recinto, agora com um tom de desafio. - Eles são educados, obedientes e entendem tudo, muito mais do que muita gente por aí, não são apenas lobos; são uma extensão de mim, e espero que um dia você consiga ver isso.
Pegou o balde e olhou para trás com um brilho de determinação, então, com licença - concluiu, já se afastando.
- Tenho que guardar esse material, tomar meu banho, porque a escrava aqui precisa se arrumar para esperar pessoas como vocês virem visitar as "feras".
Fez aspas no ar, uma ironia evidente em seu tom. - Com licença e saiu rebolando, resmungando sobre a indiferença humana e a aparente falta de compreensão.
O gerente engoliu em seco, claramente impressionado. - Ela falou isso para o senhor, é inapropriado. Roderick manteve o olhar fixo na direção por onde Liara desaparecia, um rastro de intriga no semblante.
- E ela ainda nem sabe quem eu sou - completou o gerente, a perplexidade evidente em cada palavra. Roderick sorriu, um sorriso lento e perigoso que refletia um novo interesse.
- Vocês vão ficar calados - ordenou, sua voz agora firme e autoritária.
- Deixem-na continuar agindo naturalmente.
Ele se virou, com o olhar âmbar carregado de algo novo e poderoso. - Eu gostei dela, ela vai trazer mais do que apenas um frescor ao nosso mundo obscuro.
Deu alguns passos, uma nova determinação em seu caminhar. - À noite- murmurou, uma sombra de malícia atravessando seu olhar.
- Ela vai saber quem eu sou. A lua, acima da selva australiana, observava em silêncio, como se estivesse prestes a testemunhar uma mudança que poderia alterar o destino de todos os envolvidos.