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Faminto e sedento

Faminto e sedento

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Romance
- Está morto? - Ouço uma voz perguntar, mas ela parece vir de muito longe. - Quase, mas ainda respira. O que quer que eu faça com ele? Posso acabar com a agonia do garoto com uma única bala. - Não. Valorizo a lealdade. Ele foi contra o próprio pai para proteger a Organização. Esse aí entendeu que a Irmandade[4] está acima da família. - Dizem que ele é meio maluco. - Quem de nós não é? De qualquer modo, o rapaz é corajoso. Não é qualquer um que enfrentaria um avtoritet[5] para cumprir com seu dever de lealdade ao Pakhan[6]. - Não costuma ser tão generoso, Papa[7]. Alguns diriam que um fruto nunca cai longe da árvore. E se for como o pai? - Nesse caso, por que não permitiu que o maldito seguisse com o plano para me matar? Não, o menino é água de outra pipa. E o que estou fazendo não tem a ver com generosidade, mas com pensar no futuro. Conto nos dedos de uma mão quantas pessoas morreriam realmente por mim e por minha família. É mais novo do que os meus netos. Um dia, Yerik e Grigori[8] vão estar no comando e precisarão de homens de verdade ao lado deles. Eu acho que eles continuam conversando, mas não tenho certeza. Acordo e perco a consciência várias vezes. Entretanto, entendo que o Pakhan acha que eu fiz o que fiz por ele, mas não foi. Minha decisão não teve nada a ver com alguém, mas com algo. Regras. É por elas que eu vivo. Eu nunca as quebro. Elas são o meu verdadeiro deus, muito acima do que as pessoas chamam de sentimentos ou emoções. Não tenho amor e nem raiva dentro de mim. Não consigo entender esses conceitos, já as regras, são simples: siga-as ou quebre-as. Há sempre somente duas escolhas. Preto ou branco. O cinza é uma impossibilidade e também uma desculpa para quem não consegue se manter fiel à sua palavra. Não me ofendo com xingamentos ou me dobro à tortura. Não temo a morte e nem sinto medo de nada, a não ser ter minha vida fora de padrões que estabeleci. Eu preciso dos padrões e os procuro em qualquer lugar. Quando descobriu essa minha habilidade de pensar em cem por cento do tempo de forma lógica, meu pai usou-a por muito tempo em seu trabalho na Organização. O que ele não entendeu, é que essa não era apenas uma característica minha, mas quem sou. Em tudo, todas as áreas da minha vida, busco padrões. É assim que consigo compreender o mundo ao meu redor. Foi assim que descobri a traição dele. Ele não estava somente roubando, planejava entregar o Pakhan nas mãos dos inimigo e isso desordenaria meu plano de continuar servindo à Organização. Atrapalharia as entregas de carregamentos de armas, cujas rotas calculei com precisão matemática. Traria um novo chefe para a Irmandade, que talvez quisesse modificar a planilha de lucro. Iniciar guerras desnecessárias. Eu odeio mudanças. Qualquer alteração me desestabiliza. Até mesmo uma solução alternativa para mim, tem que ser analisada de antemão. Tusso e me sinto sufocar. O ar está impregnado com uma mistura esquisita. Um dos odores é sangue, eu sei. Estou acostumado a esse cheiro desde pequeno. Aos treze anos, matei pela primeira vez. Uma ideia destorcida do meu pai para que eu fosse iniciado dentro da Organização. O outro odor, acredito que seja álcool, então acho que devo estar em um hospital. Eu não me importo, só quero ficar curado. Preciso que me costurem para que eu possa seguir com o meu trabalho. Se demorar muito, vai atrapalhar meu cronograma e eu não tolero imprevistos.

Capítulo 1 Faminto e sedento

Capítulo 1

Rússia

Dezessete anos depois

Um corvo faz um voo rasante sobre nossas cabeças, as asas negras abertas como se desejasse nos cobrir com sua escuridão. Vovó dizia que corvos são sinal de mau agouro e estou começando a acreditar que tinha razão.

Como boa russa, sou supersticiosa. Quando alguém derrama sal em cima da mesa no jantar ou almoço, fico esperando uma briga[9]. Se o meu olho direito coça, tenho certeza de que uma boa notícia[10] chegará. Também fico zangada se no meu aniversário, algum parente me dá chinelos de presente. Isso só pode significar que terei que ser internada em um hospital em breve[11].

Minha irmã caçula, Taisiya, se dobra de tanto rir quando conversamos sobre isso. Seu argumento é de que não há provas científicas de que essas coisas aconteceriam. Não discuto, continuo seguindo os conselhos da vovó e mantendo tudo que possa me trazer má sorte bem longe de mim. Eu poderia lhe dizer que também não há provas científicas de que Deus existe e ainda assim, acreditamos Nele, mas para que magoá-la? Taisiya tem muita fé e pretende passar o resto da vida servindo ao Nosso Senhor.

- O pápa[12] nunca permitirá e além do mais, vai acabar com meus sonhos de ser uma bailarina famosa e viajar me apresentando pelo mundo inteiro.

Ela me encara com pena e eu acho que sei a razão: somos princesas da máfia. Não temos escolhas quanto ao casamento e nem mesmo se vamos nos casar um dia. Ele é certo e se dará tão logo completemos dezoito anos. Talvez, antes. Assim, os planos de viajar com um corpo de balé é irreal.

- Nunca saberá se não tentar, Ana.

Minha irmã é a melhor pessoa do mundo. Sempre doce, engraçada e gentil. Nem dá para acreditar que é filha da minha madrasta. Mas ela é muito maluquinha também.

- Taisiya, é você quem quer ser freira, não eu. Apesar de que, será a freira mais doida do país.

Nossa família é uma exceção na Rússia. Ao contrário da maioria da população, composta de católicos ortodoxos[13], somos católicos apostólicos romanos e desde pequena Taisiya diz que vai ser noiva[14] de Cristo.

Eu quero uma vida bem diferente para mim. Minha mãe morreu quando eu ainda era um bebê e fui criada pela minha madrasta desde que me entendo por gente, que por sinal, me detesta. Kristina não é uma péssima pessoa só comigo,

mas com o mundo inteiro. Mesmo assim, não consigo sentir tanta raiva dela porque me deu de presente minha irmã. Taisiya é o meu sol. Junto com papai, a pessoa que mais amo no mundo.

- Não será uma freira, sua boba. Somente fingirá que quer ser uma e então depois, pode fugir do país.

- Você definitivamente não está bem, irmã. Para onde eu iria? Papai me traria de volta em dois tempos e ia ficar muito zangado.

Ela revira os olhos.

- Até parece que ele fica zangado com você mais do que cinco minutos, né? Se os homens da Organização soubessem o quanto ele é bom para nós, não o temeriam tanto.

- Por sua mãe, ele seria mais rigoroso - falo, antes que consiga me segurar e em seguida, me arrependo. - Sinto muito, irmã. Não deveria ter dito isso.

- Não tem problema. Eu a amo por obrigação, mas sei que mamãe é muito má com você.

Eu desconfio da razão. Tem ciúmes de mim com nosso pai porque sabe que ele ainda é apaixonado por mamãe, mesmo depois de tantos anos depois de ter falecido. Sou a cara dela. O mesmo tom loiro de cabelo, que papai diz que é como mel silvestre, olhos azuis esverdeados, magra e pequena. O corpo ideal de uma bailarina.

Olho para o céu, que agora começa a ficar cheio de nuvens e suspiro desanimada.

Um convento! Que ideia doida da minha irmã.

- Por que veio com essa história hoje? - pergunto.

- Não quero contar a razão para não deixá-la triste.

- Impossível. Sou a menina sorriso. Preciso ser para poder exibir meus dentinhos superiores separados. É meu charme - falo e, como eu esperava, ela gargalha. - Conte-me o que há de errado, Taisiya. Eu te conheço. Não viria com essa conversa de convento sem uma razão.

- Eu ouvi minha mãe falando com papai. Quer que ele prometa você para um dos primos dela.

- O quê?

- Ele também é membro da Organização. Um membro do alto escalão, Ana. Não tem como papai recusar, porque é um ótimo partido, segundo mamãe disse.

Sinto meu estômago revirar. Eu sabia que teria que me casar um dia e que seria com um homem que meu pai escolhesse, mas não esperava que, com recém-completados quinze anos, eles já estivessem fazendo arranjos para uma união. Nos meus sonhos bobos, acreditei que poderia continuar a dançar e me apresentar, como faço desde pequena.

Kristina, assim como nós, também era uma princesa da Máfia e seu casamento com meu pai foi arranjado. Não sei se o amava quando se casou com

ele, mas agora, acho que sim, o que significa que esses casamentos podem dar certo. Apesar disso, não estou pronta para ser esposa de quem quer que seja. Sou somente uma menina.

- Talvez esse homem, meu futuro marido, me deixe continuar dançando e me apresentar em teatros aqui em Moscou, mesmo. Não pelo dinheiro, só pelo prazer.

- Ele não vai deixar, Ana.

- Por que diz isso?

- Porque eu o ouvi falando com a mamãe. Ele quer herdeiros tão logo se casem.

Sinto um estremecimento de nojo. Isso significa fazer sexo com esse homem desconhecido.

- Quantos anos ele tem?

- Muito mais velho do que o nosso pai. Eu chutaria por volta de uns sessenta.

- Ai, meu Deus!

- É por isso que estou lhe falando para tentar a alternativa do convento.

Diga que vamos juntas.

- Papai nunca vai cair nessa. Ele sabe que não quero ser freira.

- Calma, eu tenho tudo planejado. Você vai falar com ele que quer viver no convento para ficar perto de mim, mas que assim que fizer dezoito anos, sairá para se casar. Quando estivermos lá, vai fugir.

- Você está com febre? Só pode estar delirando, Taisiya. Eu não sobreviveria um dia nas ruas. Fomos criadas como verdadeiras damas, não sabemos nada do mundo.

- Eu sei, Ana, mas precisa confiar em mim. Vamos dar um jeito. Não posso deixar que vá morar com aquele homem. Ele embrulha meu estômago.

Um calafrio me atravessa. Minha irmã é sempre alegre e seu rosto sério agora não combina com a menina doce que me acorda pulando na minha cama todos os dias.

- O que não está me dizendo?

- Esse homem, Ayrtom, não é uma boa pessoa.

- Como sabe disso?

- As coisas que ele e minha mãe conversaram... eu não entendi muito do que falaram, mas não gostei do que compreendi, Ana. Minha mãe não gosta de você. Esse casamento não será em seu benefício.

- Então por que papai permitirá uma coisa assim?

- Você sabe a razão. A Organização vem sempre em primeiro lugar. Está acima da família, inclusive.

- Você parece mais velha que eu. Mais preparada para o mundo, também.

Como isso é possível?

Capítulo 2 Faminto e sedento

Nossa diferença é de um ano, mas Taisiya parece saber todas as respostas e eu sou tudo sobre dúvidas.

- Nossa cozinheira disse outro dia que eu sou uma alma velha. Ela estava me explicando, escondido da mamãe, algumas de suas crenças e disse que na religião dela, as pessoas reencarnam, por isso tem certeza de que eu estou na minha última reencarnação, porque meu coração é velho para a minha idade.

- Você é um anjo, isso sim. Se eu for para longe, se esse plano doido de fugir der certo mesmo, vou morrer de saudade. Não vê-la mais vai ser como perder metade do meu coração.

- É só até você estar segura. Então, poderá voltar para me encontrar.

- Não é o que sonhei para mim. Nem o convento e muito menos um marido, quero um palco e minhas sapatilhas.

- Confie em Deus. Você terá tudo isso. Vamos juntas falar com o papai. Ele não nos negará esse pedido - diz, segurando minhas mãos. - Assim, teremos três anos de vantagem para pensar no que fazer. Quem sabe até lá esse homem não arranje outra noiva e você ficará livre.

- Não serei livre para sempre. Só conseguirá esse feito porque sua vocação para a fé é verdadeira, assim como a minha é para a dança.

- Não vamos pensar tão lá na frente. Um dia de cada vez, o mais importante é que saiba que eu sempre vou te amar e proteger, Ana. Mesmo que estejamos longe, eu a protegerei.

Capítulo 2

Rússia

Três meses depois

- Eu não acredito que você resolveu ficar doente nas vésperas de irmos para o convento. - digo, fingindo que estou brincando, mas por dentro triste para caramba.

- Não é? Vou perder a festa da chegada. Combinei com a madre superiora um super baile para essa noite, mas vou ficar devendo - minha irmã diz entre tossidas e eu reviro os olhos.

Taisiya pegou uma virose e o médico não a autorizou a viajar enquanto não estiver cem por cento recuperada.

- Não quero ir sem você.

- Não é como se estivesse viajando para o purgatório, Ana. O papai conseguiu até mesmo que as freiras permitissem levar as sapatilhas para ensaiar em seu quarto.

Sento-me na cama, doida para abraçá-la, mas o doutor também disse não a contatos físicos entre nós ou eu poderia contaminar todas as freiras quando chegasse.

- Prometa que vai ficar boa logo - peço. - Não somos gêmeas por obra do acaso, mas eu juro que consigo sentir sua dor.

- Não seja dramática. Seu desejo é ser bailarina, não atriz, Ana.

- Sei que exagero às vezes, mas eu não estou brincando sobre como sentirei sua falta, Taisiya. Não me faça esperar demais.

- Anastacia, está na hora - meu pai fala da porta.

- Já estou indo, papai!

Ele sai para deixar que eu me despeça da minha irmã.

- Eu vou ficar boa logo e veja se não deixa as freiras de cabelos em pé querendo ensaiar de madrugada.

- Estou levando meu fone sem fio. Não vou fazer barulho. Se há alguém que vai revolucionar aquele convento, é você. Quando a imagino como freira, só me lembro daquele filme antigo, Mudança de Hábito.

- Me identifico - ela diz, sorrindo, mas logo volta a tossir.

- Nos vemos em no máximo uma semana? - pergunto, oferecendo o dedinho mínimo para que ela possa apertar com o seu.

- Pode apostar nisso. Sua vida não é tão divertida sem que eu esteja nela.

- Não é mesmo. Preciso de você, Taisiya.

Dois dias depois

- Anastacia, há alguém lá fora que deseja ver você - uma freira diz, entrando em meu quarto sem bater.

Isso não é incomum. Desde que cheguei fui orientada a nunca trancar a porta e embora me irrite, tenho obedecido porque quando Taisiya chegar, compartilhará o quarto comigo. Com a minha irmã aqui, nem vou me preocupar com as freiras me importunando de cinco em cinco minutos.

Nunca fui rebelde, sou uma garota normal. Em casa, papai me deixava emitir opiniões mesmo que às vezes me desse um puxão de orelha verbal quando achava que eu estava exagerando. Aqui eu não posso falar nada. Tenho que fingir ser agradecida até mesmo pelo ar que respiro e a única maneira de aguentar ficar nesse lugar pelos próximos três anos, será tendo minha irmã ao meu lado.

Olho para o relógio em minha mesinha de cabeceira. Uma hora da manhã.

O que a irmã quer comigo a essa hora?

Não tenho muito tempo para pensar porque em seguida ela liga a luz do abajur.

- O que está fazendo ainda deitada? Eu disse que há alguém que quer vê-

la.

Dentro da minha cabeça, eu reviro os olhos.

Será que acha que sou uma boneca? Estava dormindo profundamente e

agora ainda tento me situar no mundo.

- Já vou me levantar, irmã - falo, sem fazer ideia de quem é minha interlocutora porque meus olhos ainda não conseguem focar nada. - A senhora poderia me dizer quem quer me ver?

- Seu padrinho.

A resposta curta me faz ter a sensação de uma bola de ferro revirando em meu estômago.

Ruslan está aqui?

Ele é meu padrinho e também o ex-Pakhan da Organização e apesar de ainda ser uma menina, entendo uma coisa ou outra sobre a Irmandade, das conversas que ouvi do meu pai com seus homens. Sei que o Papa só viria me ver se algo muito sério tivesse acontecido. Ainda mais a essa hora.

O que passa pela minha cabeça é que Taisiya piorou e sinto meus olhos doerem de vontade de chorar.

- Anastacia!

Levanto-me em um pulo. Sem olhar para a freira, corro para o banheiro e pego atrás da porta a roupa que usei durante o dia: saia plissada xadrez até os tornozelos e camisa branca, de manga curta e botões. Mais sem graça, impossível. Ainda não uso hábito de noviça porque por enquanto, sou apenas uma estudante, já que aqui também é um internato só de meninas.

Saio apressada e ansiosa.

- Por favor, leve-me para vê-lo. Estou pronta.

A caminhada para encontrá-lo me traz sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que quero ter a certeza de que a minha irmã está bem, temo pela resposta. Meu coração bate tão forte no peito que posso jurar que o sinto contra minha caixa torácica.

Quando chego à biblioteca, vejo meu padrinho de costas. Mesmo que há muitos anos, quando eu ainda era pequena, tenha passado o cargo para seu neto, o atual Pakhan Yerik, não há uma só alma em solo russo que não o tema.

Ruslan é um homem grande e somente sua presença já faz com que as pessoas abaixem a cabeça em respeito. Até mesmo Taisiya e Kristina pareciam desconfortáveis na frente dele, como se não soubessem como agir.

Eu, não. Ainda que saiba quem ele é porque desde pequena fui educada para ter respeito pelos homens da Organização, principalmente se tratando do nosso líder, eu nunca o temi. Ruslan sempre foi como um avô para mim, já que o meu próprio nunca cheguei a conhecer, de nenhum dos lados.

- Padrinho? - chamo.

Acho que ele já sabia que eu estava aqui. Meu pai sempre disse que o ex- Pakhan nunca dava as costas nem mesmo para um amigo e o fato de ter demorado para se virar, faz meu estômago ficar em nós.

Quando ele finalmente o faz, a maneira como me olha tira toda a força das minhas pernas. O que quer que tenha acontecido, não é uma boa notícia que me traz.

- Anastacia.

Ele estica a mão na minha direção para que eu a beije, como de costume. Ando até onde está só Deus sabe como porque todo meu corpo parece ter uma consistência gelatinosa.

Segurando a mão enorme nas minhas, beijo-a com carinho. Eu lhe dedico quase tanto amor quanto ao meu pai.

Quando volto a encará-lo, o que vejo faz as lágrimas começarem a cair sem controle.

- Taisiya? - pergunto, implorando na minha cabeça para que ele diga que

não.

Antes que me dê uma resposta, no entanto, várias peças do quebra-cabeça

que sua presença aqui representa, começam a se encaixar.

Se aconteceu algo à minha irmã, por que não é meu pai quem veio me contar e sim o meu padrinho?

- Taisiya? - insisto e a pergunta arranha minha garganta. Em uma única resposta, ele pode fazer meu mundo inteiro desaparecer.

Suas mãos vêm para o meu rosto e olha nos meus olhos quando finalmente

diz:

- Todos.

Capítulo 3 Faminto e sedento

Capítulo 3

Boston - Massachusetts

Três anos depois

- Parece entediado - Leonid fala, com ironia.

Essa é sua ideia distorcida de piada porque segundo ele, estou sempre entediado.

No começo, eu não compreendia muito bem quando ele me dizia coisas assim. Ou melhor, eu entendia ao pé da letra. Ler as pessoas não é o meu forte. Muito menos captar que nem todas as vezes suas palavras correspondem ao que meu interlocutor quer dizer, mas depois de quase duas décadas convivendo com o cretino, já sei diferenciar uma brincadeira de quando está falando sério.

- Foi muito divertido - o motorista, um novato, diz, se intrometendo na conversa ao olhar para trás.

Hoje em dia, é muito raro que eu vá às ruas resolver problemas. Principalmente porque estamos em guerra contra um cartel mexicano e Yerik deu ordem de que nos expuséssemos o mínimo possível. Dessa vez, entretanto, foi inevitável. Primeiro porque a merda voou no ventilador no meu território e segundo porque gosto de punir os traidores eu mesmo.

Muita coisa mudou desde a madrugada em que Ruslan me salvou da morte.

Leonid diz que sou quase humano agora.

Hoje em dia, eu já consigo entender um pouco mais das pessoas e suas emoções.

Medo, alegria, irritação. Sei detectar cada uma dessas vibrações.

Sentimentos, no entanto, ainda continuam sendo uma espécie de código secreto para mim.

Há algo, porém, que segue sendo o meu norte. Regras. Ainda sou obsessivamente apegado a elas.

Não dou uma segunda chance a quem quer que quebre as minhas.

- Você é muito bom com a faca, chefe. Não sobrou muitas partes deles que não parecessem bifes fatiados.

- Foco na estrada - comando e o garoto imediatamente se vira. Nossos olhos se encontram pelo retrovisor e vejo medo em seu semblante.

Não é algo que eu deseje. Na verdade, me é totalmente indiferente que me temam.

Alguns homens da Organização se regozijam de despertar o pavor de todos às suas voltas, para mim basta que obedeçam minhas ordens sem questionamentos e que nunca quebrem nossas malditas regras. Isso lhes garantirá uma morte honrosa, quando a hora chegar. Porque mais cedo ou mais tarde, ela chegará.

A vida de um comandado não é difícil. Ele obedece seus superiores e mantém a boca fechada. Em troca, o bolso estará sempre cheio. Tirando a parte de que os soldados podem ser abatidos a qualquer momento, claro. Mas quem entra para a Organização sabe que tem um alvo nas costas.

- Maxim - Leonid me chama outra vez, porque estou preso dentro da minha cabeça, como acontece na maior parte do tempo.

Seu tom muda e agora sei que está falando sério.

Todos os cinco homens com quem mais convivo, incluindo o ex-Pakhan, se preocupam comigo. Sempre foi assim, desde que me juntei à Irmandade, ainda adolescente.

Ruslan disse que é porque eu não falo muito. Mas depois de tanto tempo, já não era para terem se acostumado?

Talvez o único que consiga me entender seja Ruslan. No começo, era apenas ele com quem eu conversava e assim mesmo, não tinha muito a dizer. Nunca tive amigos, já que até que meu pai descobrisse minhas habilidades, eu vivia trancado na gaiola.

Depois que cuidaram dos meus ferimentos quando me resgataram, o ex- Pakhan quis saber por que enfrentei meu pai naquela noite, quando as chances de que ele me matasse eram grandes.

Eu falei a verdade. Não aceito que regras sejam quebradas porque elas geram mudanças. Gosto de fazer tudo igual. Da rotina. Ela permite que eu compreenda o mundo à minha volta.

- Achei que você se divertiria ao sairmos para brincar, como nos velhos tempos. - Ele continua.

- Não brincamos. Torturamos aqueles homens para que servissem como exemplo.

- Foi maneira de dizer. Volto-me para ele.

- Sangue não é divertido. Suja minhas roupas e agora vou ter que jogar esse terno fora.

- Tem dinheiro para comprar a empresa que faz esses ternos, irmão. É verdade, mas não gosto de nenhum tipo de sujeira ou desordem.

- Por que achou que seria divertido sairmos juntos como no passado?

- Não sente falta do trabalho nas ruas?

- Não. Nunca gostei daquilo. Prefiro o escritório - falo, começando a me irritar.

- Eu sei, gênio. Gosta de planejar e é bom nisso. Não estou querendo ser um filho da puta.

- Seria uma novidade.

- Está sendo irônico?

- Não. É só o que eu penso. Não conheço sua mãe, mas sei que é uma expressão que se usa quando alguém é um bastardo, e você é um.

Ele gargalha.

- Você é esquisito para caralho, Maxim e ainda assim, uma das minhas pessoas favoritas no mundo.

- Não tem como saber disso. Não conhece tanta gente assim para uma análise comparativa.

- Jesus, eu senti saudade de você, cara!

Olho para ele porque nunca sei quando está falando sério. Gosto tanto de Leonid quanto dos outros, mas com ele eu quase chego a ter conversas. Assim, acho que ele me fez falta também. Não deveria porque é um cara imprevisível, o que vai na contramão do que prefiro em minha vida.

Há muito tempo não nos concentramos mais em Atlanta. Desde que Yerik assumiu como Pakhan, os territórios foram divididos e cada um dos subchefes mais próximos - nós quatro - enviado para um estado-chave da Organização.

- Vai mesmo ter que sair da Califórnia? - pergunto.

No começo, a subchefia dele era em Seattle, mas não aguentou ficar muito tempo por lá. Se mudou meses depois do casamento de Dmitri[15] com Yulia[16] para a Califórnia.

Foi logo após a primeira guerra contra um cartel mexicano menor ser controlada. Há cerca de três meses, no entanto, o inferno explodiu. Dessa vez, contra o mais poderoso cartel de drogas da América do Norte, Los Morales[17].

Yerik ordenou que Leonid voltasse, já que era o único dos seus homens de confiança que permanecia no comando na costa oeste.

Há também um cuidado maior em relação às esposas e aos filhos. Os do Pakhan são os mais próximos da adolescência e principalmente seu garoto mais velho, anda meio incontrolável, segundo Talassa reclamou ao telefone comigo ontem.

É diferente quando nós somos ameaçados do que quando o perigo recai sobre a família. Acho que ninguém do alto escalão da Organização teme a morte, mas uma sensação estranha enche minha cabeça quando penso em um dos meus sobrinhos - os filhos de Yerik, de Grigori e de Dmitri - feridos.

- Vou ficar entre Atlanta e aqui com você. Não há muito o que ser feito na outra costa por ora. Já tem algum plano?

- Agora não - falo, porque além do novato, há um dos nossos homens conosco no carro.

Ele acena com a cabeça, porque entendeu o que eu não disse: não podemos confiar em qualquer um depois do vazamento de uma de nossas rotas que descobrimos hoje.

- Certo, e o que tem de bom nessa cidade?

- Quer uma mulher para foder?

- Você, como sempre, um lorde. Sim, amigo. Quero uma. Ou várias. - Ele ri. - Vamos à sua boate. Soube que há uma stripper nova por lá. Estou precisando me distrair depois dessa merda toda hoje.

- Divirta-se. Eu não posso. Tenho uma reunião com Ruslan. Preciso tomar um banho antes, no entanto.

- Ele está no país?

- Sim - digo simplesmente, sem explicar que não tenho a menor ideia de por que o antigo Pakhan deseja me ver.

- É por isso que quer ir em casa antes? Para se trocar? Sabe que o Papa não se importará com um pouco de sangue. - diz, olhando para minha roupa que contém somente alguns respingos que, no terno escuro, mal aparecem. Como bem disse o garoto há pouco, sou hábil com a faca. - Depois podemos ir juntos à boate. Acho que precisa transar também, cara. Seu humor está uma merda.

- Não, o que eu preciso é me limpar. Eu não gosto de sujeira e estou imundo.

Ele me encara em silêncio. Às vezes eu acho que ele sabe sobre o meu passado, mesmo que nunca tenha tocado no assunto. Eu não me importo.

Volto a olhar para fora da janela.

- Tudo bem, irmão. Vá cuidar da sua limpeza. Podemos sair amanhã.

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