Meu pai desapareceu e nem o próprio Espírito Santo saberia me dizer o que havia ocorrido para ele tomar uma decisão tão irresponsável.
Eu não poderia esperar muito de uma criatura tão irracional como ele, pois fazia anos que eu era a pessoa responsável por nós dois. Porém eu também não conseguiria viver com a preocupação me perturbando todas as noites enquanto ele se escondia de seja lá o que, e esse pensamento carregou-me até nossa casa de veraneio no Brasil. O único local onde eu tinha certeza que o encontraria quando seu momento de surto acabasse.
O problema era que procurar por um homem com amor pelo desconhecido, seria como tentar algo quase impossível e, até então, tudo o que eu tinha era uma casa velha e mofada onde passamos nossas férias...
Acreditei que levaria uma eternidade até ele tomar a decisão de ir para à casa, no entanto, não custava tentar.
À casa estava escondida em uma região urbana na Grande São Paulo. Uma área muito tranquila, regada de pessoas educadas com pouco tempo para papear e muito serviço. Meu pai diziam que antigamente a cidadezinha era conhecida como "A casa das artes", pois grandes artistas haviam nascido nela, mas conforme os anos foram se passando aquela história foi se perdendo no tempo junto com à cidade que acabou esquecida pelas pessoas de fora.
Ainda assim, minha mãe foi uma das artistas mais cobiçadas que também haviam saído de lá para explorar o mundo, mostrar seu trabalho pelos quatro cantos e que teve muito êxito nessa jornada. Meu pai sempre tinha ótimas histórias para contar sobre as viagens que ambos fizeram juntos e à maioria dessas aventuras eram projetadas dentro das paredes daquela enorme casa perdida em meio às chácaras.
Não cheguei a conhecer minha mãe. Tudo o que eu sabia era que ela havia crescido naquela casa e partiu para realizar seu sonho quando se tornou uma mulher independente. Depois que conheceu meu pai, nunca mais voltou, mas quando sua família morreu o terreno foi entregue à única herdeira. Eu.
George acreditava que passar as férias lá, era uma forma de me aproximar de mamãe e por isso íamos tantas vezes.
Posso dizer que eu e meu pai éramos uma família de dois muito unida. Essa união foi tão forte ao ponto de sua partida ter me afetado friamente. Eu não consegui encarar aquilo como algo bom, mesmo depois de todo trabalho que papai me deu durante os anos com seus vícios em jogos proibidos.
Passei muitos dias relendo o bilhete de despedida que ele deixou na geladeira e, ainda assim, não parava de pensar que uma hora ou outra ele poderia cair morto em algum lugar.
Por essa razão fiz o que um bom filho faria e tentei encontrar pistas ou qualquer coisa que me desse um rumo, mesmo que nada desse certo no fim de todo esse trabalho, eu precisava tentar.
Havia muito tempo que eu não voltava para aquele lugar. As pessoas na cidade tinham seus olhares curiosos e parecia que já não me reconheciam mais, porém eu não poderia julgá-las. Eu tinha apenas dez anos desde a última visita e todos só iriam perceber quem eu era quando me vissem entrando pelos grandes portões do meu terreno abandonado.
O carro se movia pelas ruas lentamente. Era preciso ser precavido, pois estava ocorrendo um grande evento naquele dia. Haviam diversas crianças e adolescentes fantasiados pela cidade caminhando distraidamente durante seu divertimento com os demais amigos. Deveria ser algo relacionado à cultura oriental. Posso jurar que o mestre Camus de Aquário passando bem perto de mim.
Eu observei a paisagem e à bagunça daquela festança, enquanto refletia sobre o ambiente agradável e deixava o ar puro entrar em meus pulmões limpando meu organismo, como se o ar das árvores ao meu redor conseguisse tirar toda a preocupação de mim.
Eu gostava daquele ambiente. Quando pequena, George me levava para à casa onde poderíamos ter dias divertidos ou para que ele recebesse energias positivas podendo dar asas à imaginação. A maioria de seus trabalhos foram criados naquelas paredes. Outros em passeios pelo mundo e aquele era o grande amor da vida do artista depois de perder sua alma gêmea. Seria bom chegar e encontrá-lo esculpindo uma nova obra, após um momento de reflexão sobre como não deixar sua filha preocupada enquanto sai viajando pelo mundo.
George sempre dizia que eu havia puxado a teimosia de minha mãe. Então, talvez ele estivesse pronto para as buscas que eu estava fazendo e não se surpreenderia quando eu o encontrasse. O grande problema era esse, pois por saber sobre minha perspicácia ele conseguiria driblar-me em alguns momentos. Aquilo me preocupava.
O carro estacionou na frente da casa antiga. O sol entrou forte pela janela fazendo o calor percorrer cada canto do meu corpo até deixar minha garganta seca. Havia tanto a ser feito e eu já estava exausta só de pensar.
- Precisa de um guia pela cidade? - perguntou o uber, me ajudando com as malas. - Posso indicar alguns ótimos.
Pensei brevemente na ideia. Depois de tantos anos indo até lá, eu nunca havia explorado a cidade como os turistas faziam. Não que não fosse de meu interesse - era um lugar realmente bonito e às vezes pacífico -, mas quando pequena minha única vontade era pular amarelinha e assistir tv globinho de manhã. Claro que já tinha visto as festas pela cidade. A grande mansão de festa em frente à praça principal no final da estrada de pedra era bastante agitada em quase todos os dias da alta temporada, e as pessoas sabiam se divertir por ali. Aconteceram até brigas em frente à casa depois dos bailes onde as pessoas atiraram pedras umas nas outras, de modo que até achei perigoso ficarmos na rua naquela época. Mas, tirando alguns imprevistos, eu gostava daquele lugar e das memórias que vivi antes.
Neguei a proposta do rapaz ao perceber que queria manter tudo como exatamente estava em minha cabeça e dei apenas um sorriso para ele pensando em minha maior preocupação enquanto estivesse ali. Encontrar George.
- Bom, nas próximas semanas acontecerá um evento divertido - ele comentou. - Se estiver interessada em nossa história pode aparecer e participar. Não sei se se à moça conhece as histórias, mas é muito agradável.
- Confesso que não me recordo de todas, será um prazer comparecer.
- Ah! Então você era daqui? - Assenti, mesmo que não fosse 100% verdade. - Então as pessoas vão amar revê-la.
Novamente meus pensamentos foram até George, que adoraria aquilo. Não tive como não sorrir ao pensar que ele já estaria perguntando para as pessoas sobre tudo que ocorrera nos últimos anos só para ter algo à esculpir e doar ao evento...
Se ele soubesse o mínimo da falta que iria fazer teria pensado melhor.
Eu me perguntava a todo instante se ele realmente havia pensado em mim quando tomou a decisão. Parecia mais que aquilo não estava fazendo bem a ele mesmo, pois sumir e me deixar ainda mais desesperada não havia mudado muita coisa da rotina que já tínhamos.
Não que eu tivesse deixado de viver enquanto ele estava tentando sair de seus vícios. Eu ainda tentava me divertir. Mas creio que por falhar na maioria das vezes, ele preferiu deixar de ser um peso para mim.
O homem da minha vida era um grande tolo - por acreditar que eu gostaria de noites agitadas - e um renomado artista plástico. Muito conhecido pelos ricos ao redor do mundo, e eu era sua aluna fiel. Havia me apaixonado pelos pincéis e telas em branco ainda muito nova. Claro que foi uma vitória para ele, pois tudo o que estava em sua mente seria passado para frente. Algo importante como um legado.
Pelo fato de sermos conhecidos nesse meio, nosso trabalho era um pouco caro. O que nos garantiu uma boa renda durante anos e alguns investimentos.
Lembro-me até mesmo de ter visto peças de George serem leiloadas em algumas de minhas viagens por valores absurdos depois de seu primeiro desaparecendo. As pessoas me procuravam para saber de notícias e eu não tinha o que lhes dizer, além de me alarmar ainda mais por não ter novidades nem para mim mesma.
Eu não tinha ideia do que fazer e ele simplesmente desaparecia quando percebia meu pânico. Assim pelo menos não precisaria encarar a filha furiosa todo maldito dia.
Eu sabia que depois de admitir seu vício meu pai sentiu que se tornara um grande peso em minhas costas, e que esse era o motivo principal de ter deixado tudo para trás. Afinal havíamos brigado tantas vezes por sua irresponsabilidade que confesso já estar esperando por uma atitude pior de sua parte.
Mas havia limites - importantes - que ele resolveu colocar de lado. E as palavras naquela maldita carta faziam com que todos os limites realmente se quebrassem. Eu poderia ser tola pensando dessa maneira ou egoísta querendo que meu pai estivesse ao meu lado o tempo todo. Mesmo que isso fosse um pouco infantil, não queria que tudo acabasse sem que eu aproveitasse cada chances que tivesse com meu pai. Eu era sua única filha, e depois da morte de Lúcia me tornei sua única família. Isso deixava tudo entre nós muito importante para mim e fiz o que pude para que ele nunca se preocupasse com rebeldias adolescentes para ter menos trabalho em sua vida.
Prestei atenção em todas as aulas, em todas as suas explicações de artes e aprendi a amar uma parte. Mas quando ele admitiu que estávamos perdendo tudo por conta de suas dividas em jogos, tudo o que fiz se tornou raso. Pois para George minha preocupação era apenas pela sobrevivência.
Se ele pensasse com carinho, teria percebido que era por amor. Mas meu egoísta e desnaturado pai viu apenas o que poderia significar em sua própria cabeça. Não chegou a me perguntar de fato o que eu sentia ou pensar como me sentiria depois. Então eu precisava encontrá-lo para dizer tudo aquilo e esfregar seu nariz na parede.
A primeira coisa que fiz depois de me estabilizar na casa foi procurar um bom lugar para saber das novidades locais. Durante minha exploração, encontrei o que parecia ser uma livraria agradável próxima ao fim da rua principal, depois da grande praça. Era um comércio de esquina e tinha um formato arredondado acompanhando o andamento da calçada. A cor marrom e ver era a decoração dele, pois as paredes feitas de madeira estavam recheadas de plantas caindo dos vasos pendurados. Algumas luzes pisca pisca branco percoriam parte da estrutura, para darem charme a iluminação do lugar durante a noite.
Havia um cheiro de café delicioso exalando para fora do local, livros por toda parte e duas pessoas extremamente sorridentes no atendimento.
- Bem-vinda! - Disse o rapaz abrindo seus braços de maneira receptiva quando passei pela porta.
Me aproximei do balcão onde ele se encontrava para pegar o cardápio e analisei rapidamente os valores das gostosuras que tinham disponíveis para mim enquanto abria um sorriso sutil a ele.
- Que lugar bonito - comentei, vendo sua energia alegre e contagiante se elevar.
- Obrigado! Fazemos o máximo para dar o melhor conforto aos nossos clientes. - Sua voz estava tão empolgada que até contagiava quem quer que conversasse com ele. Isso era muito gostoso.
Tinha um rosto jovem, algo próximo aos 28 anos e sua aparência era idêntica à garota no balcão do outro lado da sala que parecia ainda mais feliz. A moça acenou para mim quando a olhei questionando mentalmente sua roupa de trabalho.
O vestido rosa rodado a deixava meiga, no entanto parecia um bolo de aniversário devido as cores e babados.
Eu retribuí seu cumprimento. Voltei meus olhos atenta ao rapaz de cabelos negros que trabalhava com alegria para tentar escolher o que beber. Ele limpou a garganta e tornou a falar:
- Se estiver interessada em uma boa bebida quente recomendo o puro cacau com gotas de licor. É uma delícia e você não vai querer tomar outro.
- É uma invenção local?
- Quem dera! Não é possível que nunca tenha ouvido falar.
Dei de ombros a sua indignação e ele pareceu ainda mais empolgado para me apresentar a novidade.
- Sendo sincero, eu não tenho ideia de quem inventou - continuou ele. - Mas a pessoa foi muito inteligente, porque ficou tão bom quanto tentar imaginar o paraíso. Claro que o meu café é magnífico e faz uma grande diferença. No entanto, o cacau dá um toque de realeza à bebida.
Enquanto ele falava, eu olhava os gestos que suas mãos faziam no ar. Era como se a cada palavra elas dançassem com a voz grossa do seu dono.
Do outro lado da sala, a garota se divertia com o modo como ele falava de seu trabalho e eu só sabia admirar a semelhança entre os dois. Era incrível como ambos pareciam estar sintonizados tanto nas características físicas quanto na energia dos olhos. Tinha uma sensação tão boa no ar que era impossível não ser contagiada.
O rapaz colocou a xícara com o líquido quente sobre o balcão e pingou algumas gotas de licor.
A ideia de beber algo fervendo no calor que estava me parecendo insana. No entanto, o cheiro delicioso que chegou até mim me convidou a ir em frente. Além disso, eu provavelmente iria me acabar em macarrão instantâneo assim que chegasse em casa. Então não seria diferente beber um bom café.
Segurei a xícara e absorvi um pouco do líquido, sentindo o calor descer pela minha garganta junto ao gosto delicioso de chocolate e café misturados ao leite. O licor estava no fundo de tudo e fazia um misto ainda mais gostoso na garganta.
- E? É a melhor bebida da sua vida, não é? - disse ele totalmente apaixonado.
- Olha, tenho que admitir. É realmente delicioso.
- Eu sabia! - festejou. - Você amou!
Ele estava tão feliz que não pude deixar de rir novamente e a dica era válida, não da maneira exagerada como ele dizia, mas era boa.
A garota se aproximou de nós com seu sorriso vencedor instante depois, iluminando ainda mais seus olhos azuis. Ela transmitia entusiasmo enquanto caminhava confiante. Eu me senti muito bem ali.
- Pronto, conquistou o coração dele para sempre - disse ela ao sentar-se próxima de mim, fazendo aspas com os dedos para sua última palavra.
O rapaz cantarolava algo, mexendo novamente nas soluções de café.
- Melhor eu correr? - perguntei entrando na brincadeira.
- Não se preocupe - ela suspirou de maneira divertida. - O "sempre" dele dura umas duas horas.
- Não sei se fico ofendida ou aliviada.
- Fique aliviada, meu irmão é um romântico sem limites que se apega a qualquer um que lhe dê atenção - ela disse antes de beber o café que ele havia colocado na sua direção.
- Eu ficaria tão feliz se parasse de me difamar para o meu novo amor, querida - retrucou ele revirando os olhos para garota, que sorriu como se estivesse caçoando das palavras do companheiro.
- Tem um novo amor todos os meses e quer apoio? - a morena revelou, seus dedos percorreram os longos cabelos negros que foram torcidos até se tornarem um coque no alto de sua cabeça.
Sua voz tinha um tom de horror, sem deixar de dar um ar de zombaria à conversa. Eu estava tentando me conter durante aquele episódio de comédia entre os dois.
O motivo de serem tão articulados um com o outro deveria estar na extrema semelhança deles. Eram irmãos então. Irmãos gêmeos que tornavam todo o assunto uma briga engraçada de família.
O rapaz levou seus olhos para a entrada por alguns instantes e fez um gesto a garota que pareceu saber quem havia chegado só com aquele gesto do irmão. Ainda assim tive curiosidade para olhar o intruso estraga-prazeres. Encontrei o homem andando até uma área nomeada pela placa como "sala das bugigangas", tinha um pequeno aparelho smartphone nas mãos que ele analisava calmamente durante sua caminhada.
- Parece que voltou - a garota disse de maneira empolgada, mas ao mesmo tempo preocupada. - E não está muito contente.
- É alguém importante?
- Digamos que sim. Já ouviu falar do Grupo Editorial Morgan? - perguntou o moreno e neguei. - Jonathan é o dono desse estabelecimento em que você se encontra agora e herdeiro da grande Editora Morgan, muito conhecida entre os fanáticos por literatura.
- Entendi.
- Não fale como se não fossemos irmãos deles! - A garota o repreendeu, e ele apenas deu de ombros. - Aproveitando as apresentações, você é..?
- London Rider
- Espera. - O rapaz apoiou as mãos na bancada e inclinou seu corpo em minha direção. - À London Rider. Filha dos artistas?
Levantei a xícara em minhas mãos para ele, comemorando sua descoberta sobre mim e ele sorriu abertamente parecendo bem mais animado.
- Temos uma celebridade aqui! - Ele seguiu sua comemoração.
- É um grande prazer para nós então! E um achado para mim - à jovem sorriu de forma vitoriosa. - Eu sou Melissa Morgan, colunista do "diário atual" e vou amar notificar à cidade sobre sua chegada. - Fiz uma careta para ela e sorri em seguida enquanto pensava em como fugir. - Ah! E essa é a coisa que saiu da minha mãe logo atrás de mim, Victor Carter Morgan.
Simplesmente não consegui conter a risada alta, e o rapaz atirou o pano que segurava na garota.
- Lembre-se que eles tinham tudo planejado para um único bebê. E um menino! - exclamou com ironia.
Os dois começaram a discutir como se fossem crianças enquanto eu me divertia cada vez mais com as situações inusitadas que eram contadas.
Porém, minha curiosidade maior havia sido com o rapaz ao fundo do estabelecimento mexendo no aparelho já estava com suas peças espalhadas em uma mesa.
Seus cabelos eram ondulados e pareciam um pouco maiores do que ele deveria estar acostumado, pois o vi se irritar sempre que um fio caía sobre seus olhos durante o trabalho. Ele tinha uma semelhança com os dois irmãos, mesmo que fosse bem sutil.
Me aproximei do homem, sem entender porquê eu queria incomodá-lo.
- Senhor Morgan, certo? - murmurei, tirando sua atenção do objeto.
- Sim. - A princípio me pareceu que seu olhar brilhou ao me ver, pois seu rosto se iluminou por inteiro. Mas rapidamente sua expressão se tornou incômoda.
- Eu queria apenas dizer que você fez um ótimo trabalho aqui. Esse lugar é incrível e seus... acredito que funcionários são maravilhosos.
- Obrigado, é bom ouvir isso desses dois - ele disse parecendo estar orgulhoso. Seus olhos correram para os encrenqueiros do outro lado por um momento e logo voltaram para mim. - Você me parece tão familiar.
- Minha família é dona da propriedade Florescer, deve ter nos visto em algumas temporadas.
- Ah! Sim. Claro. - ele pareceu decepcionado com minha resposta, mas tentou não demonstrar. - Você é a garota das pinturas.
- Pinturas? - Ele apertou um parafuso minúsculo no smartphone desmontado e em seguida apontou com a chave torx para o rapaz discutindo no outro lado do estabelecimento.
- Victor adora a história da sua família. Ele é um grande fã do seu pai - dessa vez a chave foi apontada para a pequena escultura atrás dele. Uma das peças seminuas que meu pai vendeu na cidade quando eu ainda era pequena. - E seu também.
O homem apontou para a parede ao seu lado fazendo-me olhar o quadro de fundo preto recheado de rosas vermelhas e brancas. Minha assinatura estava em dourado bem no canto inferior da peça. Era algo que eu havia doado para alguém há muito tempo atrás.
- Entendi a empolgação dele - falei por fim e o homem à minha frente assentiu.
- Se me desculpar, eu preciso voltar ao trabalho.
Jonathan olhou a bagunça na mesa e eu sorri, assentindo. Acenei para o homem deixando-o se divertir com seu brinquedo e voltei até o balcão para me despedir da dupla dinâmica - já havia me distraído o suficiente por aquele dia - e ao avisar que estava indo, o rapaz do balcão fez questão de me fornecer um café para viagem.
Suspirei o ar livre ao sair do local e fui embora me preparar para pintar algo. Tudo aquilo tinha me deixado, inspirada.
Sentei-me na cadeira de escritório que arrastei até a sacada onde montei o cavalete com a tela branca. Eu pensava nos dois irmãos discutindo divertidamente mais cedo.
Pensei também que sair do meu conforto para viajar tinha suas vantagens. Seria ainda melhor se aqueles dois irmãos estivessem dispostos a me ajudar nas buscas por George, eles deixariam tudo mais divertido. Tirando seu irmão e chefe meio fechado, claro. Ele não parecia que os deixaria sair à toa em um dia ótimo para trabalhar.
Eu observei o sol, implorando para que as horas passassem mais depressa. Por mais que estivesse trabalhando, eu tinha uma grande ansiedade gritando para que o tempo pulasse de uma vez.
Quando finalmente chegou à noite, eu tirei o macacão sujo de tinta que havia colocado para trabalhar e procurei algo leve que pudesse me refrescar. O calor estava demais.
Arrumei a mesa da cozinha onde jantei um pouco de macarrão com legumes. Desfrutei da comida tentando adiantar meu estômago do estresse que estava chegando e voltei à sacada para observar a noite, aguardando os minutos passarem.
Havia um luar lindo e meus olhos reluziam com aquela bela noite iluminada. Recordei-me da infância. Dias que eu implorava para que George saísse comigo em noites como aquela para passear pela rua. Ele sempre estava ocupado demais ou não achava seguro, o que me deixava emburrada em algum canto pela casa - de preferência embaixo das escadas. Então George arrumava algumas folhas e tinta para que eu mostrasse meus dons artísticos, enquanto eu me recuperava da raiva infantil.
Olhei em direção aquela escada sorrindo para a lembrança. Percorri com os olhos por todo local pensando em cada momento que meu pai me divertiu ali, sempre tentando controlar o trabalho e a filha.
Meu coração acelerou ao ouvir o soar da campainha. Percebi que o tempo voou enquanto passeava pelo passado. Me ajeitei o máximo que consegui indo na direção da porta para atendê-la e torcendo para que o visitante não notasse meu vestido desajeitado assim que colocasse seus olhos em mim.
O tecido fino cheio de rosas-vermelhas se colava ao meu corpo dando um desenho bonito à minha silhueta, mas estava tão surrado pelo tempo que me deixava sem graça de receber uma visita como ele.
Ainda assim, não tive tempo de me trocar. Então abri a porta, encontrando os olhos grandes e negros que deslizaram por todo meu corpo até pousarem em meu busto.
- O rosto está mais em cima. - O repreendi.
- Prefiro essa vista - disse o visitante de maneira maliciosa. Mas logo seu olhar encontrou o meu, perdido em desejos.
Deixei-o entrar na casa, me sentindo estranha com aquele olhar cravado em mim. Ele aproximou-se para respirar o meu perfume e os seus olhos se fecharam, dando liberdade a sua imaginação. Parecia que estava degustando um bom vinho enquanto sua mão boba deslizava pela minha cintura.
- Thiago, não o chamei aqui para isso.
Pelo desejo estampado no rosto do rapaz, senti que as minhas palavras apenas o atiçaram mais.
- Colocou esse vestido lindo para quê, então?
O seu dedo indicador segurou o meu queixo, sustentando o nosso olhar.
- Porque estamos numa época quente.
- Óbvio que foi isso - ele sorriu, claramente não acreditando nas minhas palavras.
Não demorou muito para que me beijasse com toda a saudade possível. Aquele jogo durava tanto tempo que nós mesmos não deveríamos recordar do momento em que começou, mas realmente não era o que eu queria naquela noite. Claro que não recusaria seu beijo ousado, no entanto meu intuito não era acabarmos na cama.
- Eu preciso do seu serviço. - Disse antes que me embalasse em seu toque.
- Nossa - o rapaz respirou um pouco ao cortar o beijo e sorriu abertamente. - Que convite interessante.
- Muito engraçado, mas não falo disso. Preciso que procure George.
- O que houve com o senhor Rider?
- O senhor Rider fugiu do hospital sem deixar rastros ao lado de seu melhor amigo. - O rapaz arregalou os olhos e alisou a barba rasa de maneira preocupada.
Claro.
O senhor Fonseca era o melhor amigo de meu pai e consequentemente o pai de Thiago.
Observei o ar de preocupação de meu visitante. Seu desespero nunca havia se mostrado daquela forma para mim. Nossos encontros eram tão cheios de desejos que assuntos à parte ficavam para momentos em ambientes movimentados.
Ele pareceu analisar meu rosto também. Percebendo que eu não estava mais tão tensa como da primeira vez que recebi aquela pancada. Já havia colocado em minha mente que ambos eram adultos há muito mais tempo do que eu, e tinham pleno conhecimento de suas travessuras. Eu só precisava encontrá-los para arrancar suas orelhas e devolver meu pai ao seu lugar.
Deixei Thiago digerir a história enquanto buscava um copo de água para o filho preocupado. Se eu tivesse pensado melhor, teria chamado um detetive do qual o pai não teria sequestrado o meu.
Notei que o homem tremia sentado no sofá e coloquei-me ao seu lado para poder segurar suas mãos e confortá-lo enquanto acariciava o calo em seu dedo.
- Ora, não é para tanto. Cada um deles sabe se cuidar melhor do que nós dois juntos, mas meu pai me colocou em uma situação terrível e eu vou matá-lo pessoalmente.
- Entendo... E soube de algo depois que eles partiram?
Sua pergunta talvez fosse voltada aos sites onde eu fazia as divulgações de nossos trabalhos e teve momentos que também pensei nessa hipótese, mas ninguém comentou nada sobre um possível encontro com o artista pelo mundo.
Então apenas neguei para o rapaz.
- Tudo bem... Por um lado é horrível não ter pistas. Mas... - ele deu um longo suspiro. - É meu pai e o seu também. Duas crianças de setenta anos.
Ele passou as costas da mão em meu rosto. Seu olhar chamativo afundou em mim e eu tentei esquivar-me da atração.
- Eu fico sabendo o valor do seu serviço agora ou quando acabar? - O moreno desceu seu olhar por minha silhueta como se me desse outra opção. Isso me fez estreitar os olhos. - Estou falando sério.
- Não vou cobrar de você. Mas poderia ser recompensado de outra forma, afinal eu também preciso ser consolado. Foi o meu pai que deu uma de insano e pegou George para se aventurarem por aí.
Apertei mais os olhos ao receber suas palavras influenciadoras. Não pude acreditar que estávamos numa relação tão chantagista daquela forma.
- Porque não fazemos assim; você procura George, eu pago em dinheiro. Você encontra os dois para me dar paz e vai se consolar com a sua mulher.
Ele deu-me novamente seu olhar surpreso, me perguntando sem palavras como eu havia descoberto. Ergui sua mão entrelaçada na minha para mostrar o objeto dourado repousado em seu dedo que o fez pigarrear, me soltando as pressas.
- Não é o que...
- Eu realmente preciso que você me ajude nisso - falei da maneira mais carinhosa que consegui. Eu só queria algo que pudesse agarrar-me e sabia que ele faria o máximo para encontrá-lo. Por consideração a meu pai e pela segurança do seu.
- Não vou decepcioná-la - ele disse por fim, me dando o raio de esperança que eu precisava.
- Você quer beber algo? Tem vinho na cozinha - mesmo com o clima estranho no ar, tentei contornar a situação demonstrando empolgação ao meu convite. Ele assentiu.
Fui até a cozinha para pegar o vinho juntamente de duas taças e entreguei uma delas a Thiago, que a sustentou no ar enquanto a enchia. Thiago tomou uns goles curtos parecendo pensativo.
Se para mim era difícil ter que segurar meu pai, para ele era ainda pior. O senhor Fonseca era arqueólogo e, quando jovem, viajou pelo mundo em expedições perigosas para encontrar o desconhecido. Ele amava contar suas histórias e se vangloriar pelas coisas que já vira, o que deixava George ainda mais admirado pelo mundo. Posso dizer que os dois juntos eram uma verdadeira dor de cabeça, pelas risadas altas e sonhos perigosos. O pobre Thiago acreditava que o pai iria se enterrar em algum deserto qualquer dia.
- Sabe, London, pensei que você não voltaria mais para cá - comentou em meio aos goles de vinho.
- Eu também achei. Ainda me lembro da nossa última conversa.
A última vez que o beijei, disse-lhe que não pretendia vê-lo mais e esperava que ele se esquecesse de mim. Eu havia colocado na cabeça que o rapaz só me tinha como uma ficante para as férias e pedi que acabasse com aquilo de uma vez por todas. Como ele mesmo não me deu uma resposta concreta, eu preferi dar as costas àquela brincadeira de adolescente.
- Todos os dias pensei no que me disse, mas infelizmente não fui capaz de ir atrás de você esse tempo todo.
- O que importa é que seguiu adiante. Não continuou remoendo as palavras - joguei no ar como se confessasse que eu havia feito aquilo.
- London, tente me entender - ele sussurrou. - Foi difícil para mim aceitar todas elas e no começo eu só tive raiva de você. Quando resolvi pensar já era tarde.
- Creio que já passou o momento para falarmos disso.
- Me desculpe.
Aquele pedido era claramente por ter iniciado o assunto ao invés de deixá-lo quieto.
- Não importa mais.
Houve silêncio na cozinha por um instante. Tive vontade de aceitar a desculpa se ela fosse direcionada ao passado, mas ele não parecia estar certo de querer isso. Na verdade, sua expressão mostrava o quanto pensava naquilo tudo e talvez no que seríamos se ele tivesse me dado a resposta que eu queria na época, mesmo que não fosse o que ele quisesse também.
- Seu pai falava muito de você para o meu. Parecia que ambos queriam nos juntar.
- Davis também falava bastante de você - confessei.
- Imagina a felicidade dos dois se descobrissem nossas travessuras.
Eu sorri ao pensar naquilo. Eles claramente teriam começado os preparativos para nosso casamento, mesmo que tivéssemos quinze anos.
- Seria divertido - eu disse, vendo aquilo acontecendo em minha mente.
- Ele ficou tão decepcionado quando lhe apresentei Helena. Parecia que esperava outra pessoa.
Estremeci ao perceber o rumo daquela conversa e pigarreei para afastar os pensamentos.
- Mas agora vamos focar no paradeiro deles...
- Sim, claro.
Os olhos de Thiago pareciam decepcionados. Talvez consigo mesmo, afinal tudo tinha acabado daquela forma por falta de uma resposta.
No entanto, o passado não importava mais naquela altura das coisas. Cada um havia seguido seu caminho e precisávamos continuar firmes nas escolhas.
O silêncio pairou sobre nós por mais alguns instantes. Ambos não sabiam como manter a conversa sem que ela chegasse a um clima pesado demais e não era a ocasião certa para aquela discussão. Nós não precisávamos de mais pressão.
Me agarrei na experiência que ele tinha em seu trabalho para esquecer de qualquer outra coisa que me distanciasse do real propósito. O fato é que eu precisava voltar com meu pai para casa para tentar negociar sua dívida e não poderia demorar demais.
Tinha apenas 2 meses para isso.
- Preciso ter acesso aos documentos de George - ele soltou, nos puxando para o que interessava.
- Tudo bem.
- Se puder me enviar no e-mail do escritório seria melhor.
Ele retirou uma caneta do bolso. Percorreu seus olhos pela cozinha até que caminhou em direção a agenda ao lado do telefone. Depois de anotar algo no objeto, me passou para que eu visse o e-mail escrito com sua letra mais elaborada.
- Vou começar as buscas pela manhã - me acalmou. - Você falou com a polícia?
- Na verdade pensei em falar. Mas...
- Mandaram não envolver a polícia.
Afirmei. Sua observação provava que ele já havia entendido minha situação e isso era um alívio para mim. Me agarrei ainda mais ao profissionalismo do detetive.
- Bom, preciso ir... - Finalizou olhando a porta de maneira tristonha.
Me coloquei em sua frente para andar pelo corredor e abri-la.
Thiago se virou para mim quando chegou ao lado de fora. Seu rosto estava tão perto que me fazia sentir o ar escapando de sua boca entreaberta. Os olhos tinham um brilho diferente, sedutor.
- London - ele fez uma pausa tentando encontrar as palavras. - Sobre Helena...
- Não se preocupe - o interrompi. - O que tínhamos era uma brincadeira de adolescentes, um jogo. Mas infelizmente eu não jogo com homens casados.
- Ainda assim sabe enlouquecer qualquer um. - Ele suspirou.
- O que posso fazer? É um dom - brinquei. Nossos olhos se prenderam por mais um tempo antes do detetive se aproximar para tentar me tirar o juízo. Coloquei a mão sobre seu peito para impedi-lo com um sorriso simpático no rosto. - Boa noite, Thiago.
Retirei a mão de seu corpo e cortei o clima fechando a porta entre nós.
Pintei um lindo dogue alemão cinza. O pelo do animal brilhava com o verniz, deixando a pincelada mais realista. Estava perfeito. Eu podia jurar que havia ficado tão real a ponto de ser possível sentir a maciez do seu pelo curto se o tocasse. Por instinto acabei lhe acariciando e percebi que estava certa ao acreditar na vida da tela.
A criatura me olhou profundamente após retirar a enorme cabeça do quadro. Ele rosnou feroz e latiu mostrando os dentes afiados em seguida.
Dei alguns passos para trás não acreditando naquilo, e deixei um grande medo percorrer o meu corpo. Quando o cachorro percebeu a sensação que fluiu de mim, saltou da tela em disparada.
Corri por minha vida, então percebi que o quarto ao meu redor se tornou uma imensa sala azul sem saída. O local se estendia por diversos quilômetros sem sequer uma janela. Ainda que eu corresse com toda a vontade, a cada segundo ouvia as patas baterem rápidas e fortes em minhas costas. Tão perto que me arrancava lágrimas de desespero.
Minhas pernas começaram a falhar em algum momento do trajeto, até me derrubarem cansadas demais para seguir.
O animal aproveitou o seu momento saltando no ar com as garras na minha direção e a boca escancarada. Fechei meus olhos esperando a dor de sua mordida.
- London! - disse a voz de Melissa, a garota que eu conheci no dia anterior e isso me fez procurá-la em algum lugar dali. Ainda assim, nada encontrei. - London!
Chamou-me outra vez quando o cachorro conseguiu pular em minhas costas.
Ergui a cabeça do livro no mesmo instante e pisquei algumas vezes já em busca dos vestígios do meu corpo despedaçado pelo animal. Encontrei uma biblioteca e a moça parada em minha frente com os olhos confusos.
Meus braços estavam cruzados sobre a mesa onde eu, antes, dormia totalmente sem conforto.
- Você está bem?
Olhei ao meu redor. A livraria era bem iluminada pelo sol e os poucos clientes estavam distraídos com seus livros, enquanto degustavam de um delicioso e quente café.
Me espreguicei para recuperar nem que fosse um pouco de energia. A jovem próxima de mim ainda me olhava confusa esperando a resposta.
- Acho que não tive uma noite muito boa.
- Problemas no paraíso? - perguntou tentando ser um pouco divertida.
Seria difícil explicar que meu coração estava em ruínas, que meu pai estava desaparecido depois de gastar tudo o que tínhamos jogando em casinos e que meu investigador era o culpado pelo primeiro tópico.
- Digamos que o paraíso me pediu férias - respirei fundo e limpei a garganta. - Permanentes.
- Quer conversar?
- Não a escute, ela é biruta - comentou o jovem Carter ao passar rapidamente por nós, me causando risos.
A morena deu a língua ao irmão e se voltou para mim abrindo seu melhor sorriso.
- Obrigada. Seria bom desabafar.
Talvez eu precisasse mesmo contar a alguém que não fosse a polícia, tudo o que estava acontecendo. Afinal o grupo que estava atrás de George me mataria se eu mandasse uma frota lhe buscar onde quer que estivesse, e eu estava evitando coisas assim.
Thiago iria encontrar nossos pais e convencê-los a voltar. Eu estava contando com isso.
- Então me diga o que está te incomodando tanto. - Melissa sentou-se à minha frente.
Puxei todo o ar necessário para iniciar aquela história, tentei colocar cada ponto em seu lugar para não confundir a cabeça de minha ouvinte e soltei a respiração quando já estava pronta.
- Bom, eu não vim passear na cidade - iniciei. Melissa estava com os olhos fixos em mim, realmente interessada no assunto. - George foi passar uma temporada em Las Vegas e acabou se metendo em uma confusão enorme. Quando foram nos procurar em Chicago quase destruíram nossa casa e meu pai acabou me confessando que estava devendo meio milhão. Foi então que decidi começar a vender minhas obras também, pois ele não conseguiria chegar nesse valor sozinho.
- E você também não conseguiu, suponho - ela falou entendendo uma parte de tudo e afirmei.
- Até que um amigo dele foi visitá-lo em casa enquanto eu viajava a trabalho e quando voltei os dois haviam ido embora.
- Eles fugiram! - disse o rapaz assustado enquanto passava por nós novamente. Dessa vez tinha uma bandeja nas mãos com duas xícaras extremamente quentes.
Carter colocou as bebidas na mesa para mim e sua irmã. Eu confirmei sua conclusão e soprei o líquido antes de beber.
- Meu pai me deixou um bilhete para dizer que ficaria bem e que daria um jeito de conseguir o dinheiro sozinho, mas que se ficasse iam atrás de mim também. - Sorri como se tivesse dito algo realmente engraçado e absurdo ao mesmo tempo. Respirei um pouco mais para conseguir terminar.
- Mas se ele estava sendo seguido por essas pessoas, por que ainda não foi à polícia? - sugeriu a morena me levando a rir outra vez.
- Um dia me mandaram um recado. Quebraram minha galeria e disseram que estavam atrás da carcaça do meu pai e que eu não poderia avisar ninguém - soltei. Percebi o olhar confuso dos gêmeos e puxei o ar outra vez. - Eles vão matar nós dois se eu chamar a polícia.
- Vocês correm perigo, London. - Carter, sentou-se ao meu lado. - Não acha melhor ter ao menos uma autoridade ciente de tudo?
Se fosse apenas isso o que me assombrava seria muito mais fácil. O problema é que o gênio forte e o orgulho do meu pai o levaria a cometer alguma loucura. Era exatamente esse tipo de extremo que eu estava querendo evitar e conhecendo ele como eu conhecia, sabia que a birra poderia acabar em alguma tragédia.
Por isso exclui completamente a hipótese de colocar a polícia no meio de tudo aquilo.
- Eu pedi a um amigo, conhecido também de George, para me ajudar - expliquei aos irmãos. - Pelo que sei, ele é um investigador maravilhoso e estou contando com ele. George vai ouvi-lo melhor do que eu.
- Entendi... - Melissa tinha os olhos perdidos em seu café. Parecia que minha história havia mexido com ela, como se fosse alguém de sua família.
- Bom, se precisar de mais ajuda para procurá-los, estaremos aqui!
O irmão se prontificou e ela concordou sem questionar. Sorri para os dois, agradecida por poder ter mais gente para ajudar. Seria bom um pouco mais de esperança para o meu coração.
- Mas se não veio passear e está nesse rolo todo, o que faz aqui? - Finalmente a morena tornou a falar.
- Por dois motivos - comecei. - O primeiro é que talvez meu pai venha para nossa casa quando estiver sem saída, ele ama esse lugar. E o segundo foi para encontrar esse amigo que iria me ajudar.
- Thiago Fonseca! - falaram os irmãos, contentes.
O jovem Thiago havia sido policial militar antes de abrir seu escritório de serviços particulares na cidade. Então era óbvio que todos ali o conheciam.
Mais uma vez afirmei as conclusões dos irmãos que me deram os sorrisos mais sinceros que puderam.
Os dois passaram alguns instantes tentando me distrair com conversas aleatórias depois disso. Ríamos em meio aos atendimentos de clientes que entravam e saiam do estabelecimento. Poderiam parecer duas pessoas desconhecidas, mas mesmo assim tentaram me dar apoio e ajudar com algo tão delicado para mim.
Eu não me prendia cem por cento no caso de meu pai. Pois, sabia que mesmo sendo teimoso ele iria me mandar alguma notícia em algum momento. Mas eu precisava encontrá-lo antes que os seus cobradores fizessem isso.
Saber que Thiago iria fazer o possível por nós e que meus dois novos amigos também queriam ajudar era ainda melhor. As chances estavam crescendo ainda mais, poderíamos ir encontrando mais pessoas para ficarem atentas até que alguém os visse em algum lugar ou ouvisse algum rumor.
Poderia estar criando esperanças demais. Ou estar me iludindo muito cedo. Mas infelizmente só iria conseguir dormir assim.
- E se nós fosse a uma baladinha? - sugeriu Carter, mas sua irmã fez uma cara feia para a proposta. Eu mal havia percebido que eles já estavam fazendo planos para me distrair.
- Um sarau literário! - ela disse com brilho nos olhos.
- Ou uma exposição de artes. - Ambos me olharam como se eu tivesse dito algo fora do comum. - Trabalho com isso, gente!
- Se te animar, podemos montar um estande para expor seu trabalho na festa da cidade. O que acha? Eu vou cobrir todo evento, sei exatamente com quem falar.
O convite da morena foi tentador. Seria bom poder pintar algumas coisas para me distrair e até mostrá-las aos clientes em potencial. Meus olhos brilharam de empolgação e aceitei de imediato.
- Jonathan provavelmente vai comprar tudo - comentou Carter. - Se tem um lugar que parece uma galeria de artes é a casa dele. Imagine quando ver o estande.
Melissa sorriu sutilmente enquanto seu irmão recolhia nossas xícaras para lavá-las. Tentei manter meu contentamento em seu controle normal, mas não posso negar que a ganância ganhou meu coração com aquela informação.
- Pensei que o admirador de artes fosse você. - Comentei ao me lembrar das palavras de Jonathan no dia anterior.
- Está brincando? Eu não passo nem perto dele. À mansão parece uma grande galeria. - Carter se inclinou ligeiramente em minha direção para sussurrar. - Tudo que sei aprendi com ele.
Observei o local onde o homem estava no dia anterior. Então ele era um admirador também e sabia da minha história. Talvez tenha ficado envergonhado de admitir isso, por essa razão direcionou o comentário para seu irmão.
- Bom, eu tenho muito à fazer. - Melissa me tirou dos pensamentos ao quebrar o silêncio, e a morena saiu empolgada com seu novo trabalho.
Pelo que me disse, a cidade havia deixado em suas mãos toda a organização do evento e parecia que minha participação a deixava ainda mais feliz com tudo aquilo. Suspirei imaginando quantos quadros eu tinha na casa e se poderia pintar algo para completar uma pequena coleção.
O celular vibrou em meu bolso do jeans durante os pensamentos e uma energia me dominou por inteira. Um misto de ansiedade e nervosismo quase me impediram de atender o detetive.
- Bom dia, senhorita Rider, tudo bem? - perguntou ele, agindo profissionalmente.
- Na medida do possível - confessei. - E você?
- Bem... Recebi os documentos do senhor Rider e já dei início às buscas. Meu parceiro foi até o local onde ele estava jogando para colher os depoimentos de algumas pessoas. - Ele fez uma pausa e o som de papéis sendo folheados invadiu a conversa. Depois de respirar fundo, continuou. - Preciso que dê também o seu depoimento e nos permita entrar no apartamento onde o senhor Rider desapareceu.
- Tudo bem. Quer que eu vá ao escritório agora?
- Por favor. Vou te mandar o endereço, fico no aguardo.
Ele finalizou a ligação como se fosse alguém indiferente. Talvez estivesse apenas tentando manter uma distância controlada entre nós ou havia ficado chateado com nossa despedida na noite anterior. Aquilo me incomodou de alguma maneira, mas tentei colocar a cabeça no lugar.
Thiago não era mais nada para mim, então não deveria me abalar.
- Novidades? - Carter veio em minha direção assim que guardei o celular.
- Ainda não... O detetive Fonseca quer que eu dê mais algumas informações para o caso. - Os olhos azuis do rapaz pareciam tão interessados em tudo ao meu redor, que me trouxeram uma boa e grande ideia. - Você quer ir comigo?
- Não sei se posso sair, ainda são onze horas.
- Ah! Pelo amor de Deus - lhe interrompeu sua irmã. - Ninguém vem aqui e sei mexer muito bem na cafeteira. Vai com ela!
- Certeza?
- Quem você acha que vai aparecer aqui querendo te ver? O Papa? Sai daqui logo.
Melissa parecia que já havia decidido por seu irmão. Eu apenas olhei nos olhos do rapaz esperando sua confirmação para sairmos e quando o mesmo deu de ombros junto de um sorriso, eu me levantei.
- Bom, eu dirijo. Sei onde fica o escritório - concluiu ele, me acompanhando até a porta de saída.
Carter e eu andamos pelo estacionamento até o carro. O rapaz abriu para mim a porta do passageiro e quando me sentei ele a fechou, dando a volta para tomar o lugar do motorista. Ao ligar o carro o som automaticamente foi acionado e enquanto ele saia do local a música calma percorreu nosso ambiente.
O trajeto foi bem rápido. O escritório do detetive Fonseca ficava a mais ou menos quinze minutos de distância da livraria e seu estacionamento estava completamente vazio.
Quando Carter parou de frente para porta de vidro, eu pulei do automóvel indo na direção da entrada. O rapaz veio em seguida e entramos no local nos deparando com a jovem recepcionista sorrindo abertamente para os visitantes.
- Bom dia! Em que posso ajudá-los? - ela disse e eu retribui o sorriso.
A jovem tinha os cabelos longos e cacheados, desciam por seus ombros até abaixo do busto numa tonalidade vermelha. Seu terninho azul-marinho brilhava com os raios do sol e aparentava ser quente demais para a pobre garota usá-lo naquela época do ano.
- Bom dia. Eu sou London Rider - avisei. Vi os olhos da jovem se fixarem no caderno em cima de sua mesa. Parecia que meu nome lhe era familiar. - O senhor Fonseca me pediu que viesse agora para depor.
- Sim, claro. Está bem aqui - ela disse extremamente contente. - O escritório é no segundo andar. Final do corredor. Sala 4.
- Obrigado, Sofia - agradeceu o jovem Carter para a garota que ainda sustentava o sorriso. Entendi a empolgação dela; eles se conheciam.
Dei-lhe um breve aceno, seguindo para o elevador ao lado de seu balcão.
As portas se abriram no segundo andar e um longo corredor se estendeu à nossa frente.
Bem ao lado de nós estava a larga escadaria de incêndio forrada com carpete azul que também percorria todo o lugar. Algumas portas adiante Thiago me esperava, com o olhar totalmente confuso. Acreditei que por me ver acompanhada.
- Victor - o nome saiu de seus lábios com nossa aproximação.
- Detetive - meu acompanhante cumprimentou-o. - Como vão os negócios?
- Peculiares.
- Vamos começar? - Os interrompi e o ruivo abriu caminho para entrarmos no grande escritório.
Passei os olhos pelos dois, notando um clima pesado. Eles pareciam estar brincando de não piscar e sabe-se lá o que aconteceria se alguém perdesse.
Pigarreei para que notassem minha presença e Thiago rapidamente me olhou como se repreendesse a eventualidade, em seguida apontou para uma pequena porta no fundo da sala. Onde eu provavelmente daria meu depoimento.
- Se nós permitir, senhor Morgan, essa é uma conversa particular - informou o detetive se aproximando de onde me mostrou.
- Tudo bem. Eu aguardo aqui - tranquilizou-me o moreno. Ele se sentou na poltrona creme ao lado da porta e me deu um breve aceno.
Fiquei confusa com a situação inicialmente, mas segui o detetive depois de retribuir a despedida. Talvez eles tivessem uma rixa passada e, por isso Carter relutou para ir.
A sala escura de depoimento era pequena. Tinha uma mesa ao centro e duas cadeiras, uma de cada lado. A janela grande era coberta pela persiana que logo foi aberta para deixar o sol entrar no lugar. Sentei-me na cadeira da direita e Thiago bem à minha frente.
- Namorado novo? - ele me perguntou. Revirei os olhos ao notar finalmente o que havia acontecido antes e ele percebeu minha inquietação. - Tudo bem. Vamos começar.
O rapaz puxou uma pequena pasta de dentro da gaveta da mesa, de onde retirou o caderninho de anotações e a caneta. Thiago limpou a garganta e começou:
- Me diga quando foi a última vez que viu seu pai.
- Acredito que há cerca de um mês e meio - revelei. Tentei relaxar contando a história, mas eu sabia que ele estava se enchendo de outros tipos de perguntas. O que me deixava desconfortável. - Recebemos a visita do senhor Fonseca, que nos acompanharia numa viagem a trabalho. Mas ele sugeriu que só eu fosse já que a exposição era minha e meu pai estava um pouco exausto dos eventos que participou. Enquanto isso ele cuidaria de George.
Durante minha fala, o detetive anotava todas as palavras no caderno. Seus olhos as vezes se erguiam para me analisar, mas voltavam rapidamente ao objeto entre seus dedos.
- Então fui e os deixei. Davis sempre me deu notícias até o fim da exposição, por isso não me preocupei. Mas quando cheguei em casa eles já não estavam e havia um bilhete de George na geladeira dizendo que tinham ido numa expedição.
- Você ainda tem o bilhete? - perguntou ele finalmente, e eu assenti. - Se puder me trazer, seria bom analisar todas as provas. Continue...
- Bom, eu perguntei ao porteiro se ele os viu sair e o rapaz me disse que um dia eles foram dar uma volta, mas não retornaram.
- Levaram alguma mala ou objetos pessoais?
- O porteiro me disse que ninguém além do meu pai e Davis entraram na casa e que quando sumiram estavam sem nada - respirei fundo, tentando acalmar meus nervos antes de continuar. - Enfim, quando mandei mensagem ao senhor Fonseca pedindo sua localização, ele sumiu. Não atendeu mais o telefone, não me respondeu e creio que tenha jogado o celular fora.
Thiago bufou com a informação. Seu pai tinha o costume de sumir e fazer sempre daquela forma, por isso minha conclusão poderia ser válida.
- E você falou com os vizinhos ou algum outro trabalhador do prédio?
- Todos disseram a mesma coisa. Meu pai saía para passear com o amigo quase sempre e então, um dia, não voltou mais.
- Tudo bem então. Eu vou falar com esse porteiro e tentar pegar as gravações das câmeras de segurança - ele falou de maneira rápida, com um certo tipo de raiva. Parecia que algo lhe incomodava durante minha presença em seu trabalho até que ele não suportou mais segurar todo aquele mistério; sua mão bateu com força na mesa e ele soltou. - O que está tentando fazer?
- Desculpe, não entendi - franzi o cenho ao receber aquela pergunta e o detetive pareceu rosnar.
- Trouxe esse cara aqui para me provar algo?
- Ele é um amigo, sabia o caminho. - Me levantei da mesa arrumando os cabelos. - E se estiver saindo com alguém não interessa a você.
- Não faz isso. - A tensão tomou conta do lugar. Os olhos de Thiago passaram de raiva para mágoa e me penetraram como se implorasse algo. - Você se foi, o que queria que eu fizesse?
- Você se casou, o que quer que eu faça?
Ele tinha os pensamentos perdidos, talvez confusos. Mas eu não faria parte daquilo. Já tinha problemas demais para ter que aturar tanta pressão.
Ouvimos a batida na porta e a voz de Carter abafada pela madeira.
- Gente? A recepcionista disse que a mulher do detetive está esperando ele lá embaixo para almoçar. Vocês ainda vão demorar?
Eu sorri para o homem em minha frente, um sorriso completamente conformado e ele pareceu petrificar com a situação.
- Vamos demorar? - questionei-o e ele negou.
Dei de ombros caminhando em direção à porta para abri-la e então poder ir embora.