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Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Filho do Amanhã-O destino da humanidade na decisão de um homem

Autor:: Shuryyanimakai
Gênero: Aventura
Os poderes do Inferno e do Céu disputam uma batalha cujo prêmio é o coração de Loan Horsham, um nobre cavaleiro medieval. Intrigas, assassinatos e pactos demoníacos fazem parte dos desafios que o herói precisará superar para entender e ajudar a humanidade a seguir seu curso pelo caminho divino. O inimigo é o próprio Lúcifer, seguido de seus demoníacos asseclas. Eles tentarão seduzi-lo, assim como o famigerado líder fez com os primeiros humanos existentes. Adão e Eva. Contudo, Loan Horsham não é um simples homem. Marcado no nascimento, tanto por Deus como pelo demônio, sua decisão afetará sobremaneira o destino da humanidade. Para ajudá-lo, alguns servos de Deus intercederão, mas é o amor por uma camponesa que pode ser a chave para a resolução de tão perigoso desafio.

Capítulo 0 Prólogo

A literatura brasileira conhecerá, a partir de agora, um autor extraordinário: Roberto Bombarde.

Percebe-se, na leitura deste romance, que os personagens andam de forma livre e com uma fluidez que só grandes escritores conseguiriam localizar no tempo e no espaço a que eles pertencem.

Utilizando uma linguagem singela e de época, o autor consegue entreter o leitor a ponto de transportá-lo a um novo e buscado mundo, mostrando-nos a vida e a morte, o bem e o mal, a razão e o medo, a criação e a conseqüência do criado.

Desde que o mundo é mundo, os homens vivem indagando a razão da sua existência e a importância de ter a fé como uma espada empunhada em favor do bem.

Jason Miller é um personagem que consegue demonstrar ao leitor a presença viva das indagações humanas na consciência do mundo. Visível ou invisível, real ou irreal, o importante é que as palavras fluem e encantam de forma mágica, ao criar entretenimento e propiciar reflexão, acentuando mundos e valores que a idade da razão não consegue discernir com os "olhos do mundo material".

O dinheiro, as terras, as posses materiais, a existência do poder e a vaidade são conseqüências de um mundo caótico que busca sem cessar seu ponto de equilíbrio. O amor ainda é a melhor forma de encontrar a simplicidade, sem se ater às maldades estampadas nos rostos invisíveis de seres e coisas que transcendem o mal.

Se pensarmos que as "armadilhas do mundo" perseguem os seres humanos a ponto de converter homens em árvores malignas - criaturas diabólicas, maldosas, maliciosas e degeneradas -, podemos facilmente entender as linhas mestras deste romance sensacional e misterioso, que denuncia a aurora do mundo que há de vir. A vingança e o terror que acompanham o personagem principal dão a ele vida e fisionomia, assim como aos demais personagens, que a existência previu no lapso de tempo, enfeitiçados pela luxúria, desarmonia, ambição e guerra.

Seguindo a linha fixa dos romances épicos, Filho do amanhã: o destino da humanidade na decisão de um homem é uma imersão nos grandes textos cinematográficos, que levam o leitor ao êxtase da imaginação, ao mesmo tempo em que o faz refletir sobre a razão da existência e dos desafiadores mistérios.

O guerreiro da luz tem de enfrentar todos os dissabores e as armadilhas do rei das trevas, percorrendo caminhos tortuosos; porém, amparado pelo "Supremo Poder de Deus", luta contra as palavras e as manifestações daquele que vive encolerizado pela expulsão de um universo que viu nascer.

Os homens estão sendo ofuscados por um véu escuro que ludibria a visão do dia. O anjo caído tenta de todas as maneiras criar as cidades profanas negadas por Jesus. O guerreiro da luz vê e nega com a mesma intensidade.

O apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, no #Capítulo 12, fala de outros dons deixados pelo Espírito Santo: o domínio da linguagem, da ciência, da fé, das curas, dos milagres, da profecia, do discernimento dos espíritos e da interpretação das palavras. Esses dons ou carismas foram dados aos apóstolos e aos homens escolhidos para que eles pudessem difundir o cristianismo com sabedoria e poder.

Na Terra, os homens brigam nas regiões de Deus. Loan Horsham enfrenta batalhas violentas, defendendo a Inglaterra contra os ímpios guerreiros celtas e saxões, que tentam a qualquer custo destruir tudo e esmagar de vez os adeptos do cristianismo. Este mesmo combatente inglês é o escolhido do Altíssimo para impedir que o anjo negro alcance uma vitória sórdida, na qual insiste desde a criação do mundo, quando Eva degustou do fruto proibido da árvore do conhecimento.

Mais uma vez, a astuta fera veste-se de mulher e tenta, sorrateiramente, iludir o coração do guerreiro, travestida de lobo em pele de cordeiro.

"E o anjo, por sua vez, passa os dedos reluzentes em sua fronte."

Em instantes, Loan é arrebatado em espírito, e ouve-se detrás dele uma dantesca voz, como a de um trovão, que diz:

- O que vedes gravai em vossa memória e enviai a mensagem às igrejas, para que temam a doutrina da Lei, pois só assim fugirão da ira do inferno! Olhai por entre a janela dos mortais e vereis o que poucos tiveram a chance de contemplar...

O autor Roberto Bombarde, neste instigante romance, consegue prender a atenção do leitor, com o desenrolar de uma trama recheada de emoção, ação, suspense, terror, drama, amor e ódio, reunindo de forma surpreendente as homéricas batalhas medievais.

A dantesca cobiça e a desvairada vaidade humana estão impregnadas pelo odor do poder. A luta constante entre o bem e o mal e as armadilhas preparadas por Sammael são a sua busca, sua razão de existência, tentando de todas as maneiras iludir os corações dos homens para aderirem ao mundo julgado e ilusório, onde a expressão da beleza se converte em correntes de aflição e horror eternas.

Podemos antever, nas palavras do célebre poeta alemão Goethe (1749-1832), no prólogo da imortal obra Fausto, no Céu, quando faz referência ao diabo e ao homem:

"O humano tende a afrouxar ligeiro, / Soçobra em breve em integral repouso; / Aduzo-lhe por isso companheiro / Que como diabo influi e incita laborioso".

Na passagem de Pentecostes, o apóstolo Pedro faz um discurso e explica que ali acabara de se realizar o anunciado pelo profeta Joel, há quatrocentos anos: Deus enviaria o Espírito Santo sobre seus servos. No fim da pregação, três mil pessoas convertem-se ao cristianismo.

O guerreiro Loan é um enviado de Deus e, revestido pelo Seu poder, com o Espírito da Esperança envolvendo-lhe a cabeça com a língua de Fogo da Verdade, enchendo de Luz sua espada pelos relâmpagos e pelas labaredas que desceram do céu, seu espírito está pronto para enfrentar as batalhas celestiais entre o bem e o mal, nas hostes redentoras da Terra.

"Foi Jesus levado pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo diabo... Respondeu-lhe Jesus: -Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Levou-O ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e Lhe disse: - Tudo isto Te darei se, prostrado, me adorares. Então Jesus lhe ordenou:

- Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás. Com isto o deixou o Diabo, e eis que vieram anjos, e o serviram. (Mateus 4)".

Como nos grandes romances cinematográficos, Filho do amanhã: o destino da humanidade na decisão de um homem vem comprovar beleza e plasticidade encontradas nas melhores e mais profundas obras realizadas pela sétima arte. A grandeza do livro está desenhada em cada cena, prendendo a atenção do leitor, que viaja até os lugares e imagens, e reconstrói de forma magistral os inesquecíveis momentos e as batalhas travadas pelo homem, não só no campo de guerra no século XIV, mas também na mente e no coração dos homens em busca da vitória da Verdade na senda das virtudes humanas.

Podemos, sem sombra de dúvida, afirmar que Filho do amanhã: o destino da humanidade na decisão de um homem se encontra entre os romances mais instigantes. Como roteiro cinematográfico, está à altura de O senhor dos anéis, com a sutileza superior de recriar não só a história, mas eleger um novo mundo, libertando e despertando a consciência da humanidade sobre os perigos de o homem se desviar da Verdade.

Esperamos que o autor Roberto Bombarde nos agracie com a série planejada, para que a literatura brasileira e a sétima arte possam abraçar -se a essa ilustre e fantástica obra.

Joaquim José Marques Mattar

Escritor e jornalista especializado em Crítica de Cultura (Fenaj).

Roteirista de Televisão e Cinema revelado pela EPTW Globo/ Campinas-SP. É membro da União Brasileira de Escritores, do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e da Sociedade Brasileira de

Autores Teatrais. Dracena/SP

Inverno de 2004/ 30 de Maio Dia de Pentecostes

Prólogo

"E venceram eles pelo verdadeiro sangue do Cordeiro e pela palavra de seu Santo testemunho; e não amaram suas vidas até a morte. Pelo que alegrai-vos os céus, e vós que neles habitais. Mas ai dos que habitam na terra e no mar, porque o diabo desceu até vós, e tem grande ira; pois sabe que tem pouco tempo".

(Ap 12:11-12) Nova York - Estados Unidos

14 de março de 2009

O continente norte-americano eqüivale a 13% da superfície total do planeta. Seu espaço terrestre varia desde os picos desiguais e cobertos extensamente de neve do Alasca e da costa do Pacífico Norte até os cânions e desertos do sudoeste, sem deixar passar as úmidas florestas tropicais da América Central. Mas, em sua região central, encontra-se um vasto cinturão de férteis terras baixas, uma das áreas de cultivo mais produtivas do mundo.

Os Estados Unidos têm favoráveis condições climáticas e tecnologia avançada; eles respondem por quase um terço do PIB mundial, mas a águia da liberdade americana começara a ter seu voo ameaçado por acontecimentos que abalaram todo o mundo civilizado.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi a desigualdade religiosa e política de outros países que acarretou desenlaces bizarros. Nem o tempo nem a história serão capazes de cicatrizar as feridas causadas nas vidas de bilhões de pessoas. Não bastassem a Inquisição, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais e o terrível massacre de seis milhões de judeus no Holocausto, outro terror veio como um raio, rasgando os sonhos de toda a humanidade. Ninguém sequer imaginaria que o coração de Nova York seria atingido pelo câncer de um ódio insensato e monstruoso.

De quantas formas possíveis e quantas vezes nos apoiamos na segurança minúscula de nosso orgulho e na famosa teimosia chamada auto-estima? E o que tem feito isso conosco? "O que somos? O que realmente queremos e podemos?" São tão questionáveis esses conceitos que seria preferível e sábio nos regozijarmos com aquilo que temos. Mas as reações emocionais do nosso "eu" e a fome incessante pelo poder tornou-se uma febre assídua, uma contaminação maciça, corroendo as entranhas de nosso ser. Com as próprias mãos desfiguramos nossa alma e arrastamos com ela nosso caráter cívico e moral.

Um misto de dor, ódio e impunidade alojam-se na alma de cada ser vivo, de cada homem, de cada mulher, de cada criança deste cubículo de universo ao qual chamamos de planeta Terra. Eram sentimentos assustadores, que nos expunham diante de uma tênue balança de certo ou errado. Indagações que geravam medo e incerteza em minha mente.

Sentia um calafrio perturbador ao refletir sobre a maneira que haveria de partir deste mundo cruel e impiedoso, pois ninguém poderia afirmar o que encontraríamos do outro lado.

Um dia Jason estava a trabalho, seguindo a mulher de um cliente, pois ele alegava que sua esposa estava sendo infiel. Estava muito frio naquele dia na Grande Estação Central, quando seus ouvidos capturaram uma melodia triste que saía de uma viola; junto a ela, uma voz afinada, que o fisgou em meio àquela multidão. Não conseguia deixar de olhá-lo mesmo que quisesse. Um jovem rapaz, de pele albina, de cabelos claros e crespos, com um terninho cinza, a camisa branca, mas sem gravata, sentado em um banco próximo a ele. O jovem não relaxava um minuto sequer; estava com uma postura firme, de um verdadeiro profissional; e os dedos, incansáveis, delineavam as cordas daquela viola. De sua boca rosada, seus lábios liberavam uma canção linda e ao mesmo tempo apocalíptica, que, em um bom tom, era enriquecida

pela sua destreza com o instrumento. Um talento marcante, arrebatador, que enlaçava Jason naquela música estranha, que parecia ao mesmo tempo estar acusando-o de seus pecados e lhe dando uma alternativa de salvação. Por um momento ficou parado, vendo-o cantar, porém com um receio desconfortante de que o jovem viesse a lhe fitar com desagrado. Um lado de Jason queria ir embora e continuar seu trabalho, mas seria muita covardia de sua parte se fizesse isso. Instintivamente, para evitar o constrangimento, vasculhou seus bolsos no intuito de deixar uns trocados pela bela apresentação. Olhou para sua mão, que havia pegado uma nota de dez dólares, e, no momento em que finalizava a retirada do bolso e ia se inclinando, o rapaz freou sua ação dizendo:

- Não faça isso! - disse o jovem, fixando seus olhos azuis em Jason. - Estava apenas lhe enviando uma mensagem.

- Como assim? - perguntou Jason.

O rapaz lhe dispensou um sorriso tão bonito que Jason maravilhou-se com aquilo. Ficou completamente paralisado, como se estivesse anestesiado.

- Não se assuste. Não precisa me dar nada. Apenas gostaria de dizer algumas palavras a você, Jason. - Co-como sabe meu nome? - gaguejou.

O jovem, com aquele olhar suave, disse:

- "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa."

Naquele momento, Jason começou a piscar continuamente, e sua cabeça parecia que estava dentro de um turbilhão de lampejos.

- O que quer... dizer? - mesmo sentindo aquelas estranhas tonturas, ainda assim indagou.

- Deus... - sussurrou, vendo que algo estava errado. Colou as mãos à face e,tirando-as logo em seguida, viu que tudo estava em total normalidade. As pessoas indo e vindo, e ele parado ali perto do banco, sem nada entender.

Onde estava aquele moço com a voz mansa e suave e de aparência estranha? Não havia ninguém naquele banco; nem viola, nem o cantor ambulante, nada. Mas o mais assustador, e ao mesmo tempo misterioso, foi que aquele indivíduo o conhecia a ponto de pronunciar seu nome.

Pensamentos desencontrados rondavam sua mente em inúmeros porquês. Isso não podia ter a ver com ele, pois nunca vira esse rapaz antes.

De repente o celular tocou, e a surpresa o trouxe à triste realidade. Fitou o aparelho. A tensão tomou conta dele a ponto de gotas de suor minarem sua fronte. Era seu cliente, que queria um relatório completo da investigação, mas Jason havia perdido a mulher de vista, para dar atenção a algum tipo de alucinação. Não havia outra saída a não ser atender o celular. Inspirou forte, esvaziou os pulmões relaxadamente, expulsou o nervosismo que aquele som lhe transmitia e, calmamente, atendeu à chamada:

- Olá, Sr. Swan, está tudo bem aqui; tudo está de acordo com o planejado - falou.

- Não me venha com conversa fiada, Jason! - bradou. - Você a perdeu de vista, não foi? Naquele momento teve de suspirar, pois estava cansado demais de tamanha cobrança.

- Por favor, Sr. Swan, tenho certeza de que logo descobrirei a verdade sobre sua esposa; só lhe peço um pouco mais de tempo.

Então o cliente respondeu:

- Sabe... bem que Melrick me avisou sobre você; de que não passa de um fracassado, um falastrão. -0--- Meu cachorro é mais esperto do que um detetivezinho de araque como o senhor. - E acrescentou: - Não acharia a vadia da minha mulher nem se a calcinha dela estivesse sobre sua cabeça!

O que disse?

A declaração repentina anuviou de maneira negativa sua paciência, franziu enfurecido suas sobrancelhas. Ouviu muito bem o que acabei de lhe dizer! Agora terá que se ver com meu advogado, seu charlatão! - concluiu Swan

Jason retrucou:

- Quer saber a verdade? Faz jus aos chifres que carrega, por isso precisa de viagra para transar com alguém! - E completou com raiva: - Se o demônio fosse uma garota linda e charmosa, nem no inferno quereria ter relações sexuais com você, seu brocha!

Jason olhou para todos os lados na tentativa de identificar se alguém o seguira, mas tudo o que os olhos captavam era aquela horda de pessoas desconhecidas que passavam por ele, difícil demais para se certificar.

- Vai se arrepender do que disse, Jason! - replicou Swan. Com ar de desaprovação, o detetive respondeu:

- Eu vou ser bem claro com o senhor: sempre faço meu trabalho, e eu chegarei fundo nessa investigação! Não mais... - E desligou o telefone.

Jason emudeceu depressa, constrangido com aquela situação e balançando o braço direito com o celular na mão. Virou a cabeça de lado e contemplou em silêncio os amplos vitrais e as colunas da estação. Teve vontade de extravasar sua raiva em voz alta, pois havia perdido mais um caso. Mas, como não havia o que fazer, simplesmente se conteve; mesmo enfurecido, suspirou profundamente e caminhou por entre a multidão.

A vista noturna da parte meridional de Manhattan parecia realmente ser uma ótima terapia para a mente dos cansados, mas não para aquele homem, entediado pela rotina da grande metrópole e totalmente desgostoso. Desejava apenas estar encostado em um balcão de bar, afogando suas mágoas sob goles de um uísque barato. Seu nome, Jason Miller, um homem de ação, porém sonhador, e também uma pessoa desafortunada.

Sua história era uma constelação de dissabores. Ele odiava pensar nisso, mas o fato era que o acaso o perseguia cada vez mais. Uma retrospectiva agonizante, que incluía cada detalhe ocorrido. O caso da esposa do Sr. Swan fora apenas o estopim para aguçar ainda mais sua mente e trazer à tona outro fato bastante desagradável: havia perdido sua mulher para sempre. Tomou conhecimento disso quando fazia amor com ela. Em seus gemidos de satisfação, o sussurro de outro nome ferroara seus ouvidos. Ela preferiu o aconchego de seu amante, o próprio primo.

A cama do casal, um santuário sagrado dos laços firmes do matrimônio, havia sido profanado por um terceiro personagem, o qual, por ironia, Jason considerava seu melhor amigo. Gabrielle mentira grosseiramente ao dizer a Jason que o amava. Para sua triste surpresa, narrou de forma inacreditável a maneira com que havia ateado fogo em seu vestido de noiva. Um ato de prazer e devoção pedido por seu novo homem. E, como se ainda não bastasse, uma ação grotesca e avassaladora fora expressa por seus lábios prazerosamente, ao descrever os contornos esculturais de seu Apolo do delírio. Com risos de entusiasmo e satisfação, disse-lhe que toda a sua sanha sexual era mantida sobre os lençóis em que ambos dormiam como um casal.

Seu céu foi invadido por nuvens tempestuosas; o coração estilhaçado como um vidro negro do desespero. Não havia mais motivo para ele ficar suportando tudo aquilo. Por fim, não teve outra escolha, a não ser colocá- -la para fora de seu apartamento, e de sua vida.

Embora, em seus pensamentos, ainda desejasse arrancar o coração da messalina, como um alívio ao seu sofrimento, ponderou sobre sua pessoa. E concluiu que era um detetive particular, idealista profissional, e jamais optou por reações de violência; além do mais, estava envolto em outros problemas. Fazia meses que ninguém requisitava seus serviços e o dinheiro já lhe era escasso. Mas, durante esse período de crise, ele recebeu uma estranha surpresa em seu solitário apartamento: a repentina visita de um homem finamente trajado, trazendo consigo um envelope branco - algo que mudaria totalmente sua atribulada vida.

A carta que recebera era um tanto vaga, pois não dizia os motivos, pessoais ou profissionais, pelo qual estava sendo contatado, mas expunha a grande importância de sua presença no local indicado, cujo ponto de econtro seria no Brooklyn.

No envelope, apenas as iniciais L. H. e um estranho brasão de cera vermelha na forma de um leão envolto em fogo, usado como lacre, semelhante àqueles que os lordes feudais usavam para entrega de mensagens, destinadas a um mensageiro que a todo custo teria de levá-las a qualquer lugar. Arte muito praticada na Idade Média, pensou Jason.

Um fato curioso é que o homem que entregara a surpreendente carta declarou trabalhar para um inglês muito rico e misterioso que vivia nas imediações de Londres, na Inglaterra.

Deixando seu apartamento exatamente às 23 horas da noite, Jason resolveu refletir um pouco mais sobre isso, enquanto dirigia. Com o trânsito já mais tranqüilo, chegou ao centro da cidade, escorregando pela Quinta Avenida. Durante sua breve passagem, ele avistou a belíssima Catedral de São Patrício, construída entre 1858 e 1879. Mas aquela linda casa de orações não fora suficiente para apagar as cenas revoltantes, testemunhadas por ele durante a entrada deste ano de vida; coisas que lhe deram vontade de arrancar os olhos. O aumento da criminalidade inspirou um verdadeiro clima de revolta entre a população de Nova York e pessoas inocentes se tornaram vítimas dessa onda criminosa, o que as fragilizou pelo resto de suas vidas.

Já os criminosos, mesmo que comprovada a autenticidade de seus delitos, e por mais cruéis que eles possam ter sido, muitos deles nem chegarão a ser condenados.

Um acontecimento que abalou o país foi o covarde ato terrorista ocorrido no dia 11 de setembro de 2001, quando, na manhã de terça-feira, a encantadora cidade foi completamente encoberta pelas sombras da devastação e o terror veio na forma de um duplo ataque aéreo.

As belas, gigantescas e famosas torres gêmeas do World Trade Center foram esbofeteadas tragicamente. A Torre Sul foi atingida pelo voo 175 da United Airlines, depois do voo 11 da American Airlines, que acertou violentamente a Torre Norte. E um terceiro avião teve uma linha diretriz de colisão com o Pentágono, cujo impacto ocorreu às 9h37, hora local. Nesse Boeing, viajavam 58 passageiros, 4 assistentes de voo e 2 pilotos. O quarto Boeing 757 seqüestrado partiu de Newark, New Jersey, com destino a São Francisco, Califórnia. Ninguém sabe como esse avião caiu; possivelmente foi abatido ou houve confrontos desesperados entre passageiros e seqüestradores. Tudo o que se podia saber é que os destroços dessa aeronave foram encontrados espalhados em um campo próximo de Shanksville, na Pensilvânia.

As perdas humanas nos ataques desse dia sangrento foram elevadas; estima-se que sucumbiram 3234 almas. Cinco das construções próximas às torres e quatro estações subterrâneas de metrô foram seriamente destruídas; em suma, foram 25 prédios danificados em Manhattan.

Mas, hoje, o foco de maior preocupação foi a queda da bolsa em Nova York; muitos acionistas entraram em decadência, bancos abriram falência. Pequenos, médios e grandes empresários foram forçados a demitir funcionários ou a lhes dar férias coletivas. O grande receio nos corações desses trabalhadores era que o desemprego os atingisse.

O governo chegou a tomar medidas seríssimas para poder salvar os bancos e as indústrias multinacionais. O comércio também sentiu muito seus efeitos, pois o consumidor passou a comprar apenas o essencial para a sobrevivência. E o pior disso tudo é que a maioria dos clientes estava pagando com cartões de crédito, e o índice de inadimplência nesse tipo de serviço se tornou assustador. Montadoras tinham estoques dantescos de carros parados e as imobiliárias, casas vazias, contendo placas de "vende-se" e "aluga-se". O negativismo tem sido o patamar nesse ramo.

Os corretores da Bolsa de Nova York comparam esse fenômeno de tormenta econômica semelhante à "Quinta-feira Negra", ocorrida no dia 24 de outubro de 1929.

E essa "crise" atingiu todo o mundo civilizado, um fato cruel numa época moderna. Agora era o momento de acharmos uma solução viável para um conflito tão delicado.

Aquele redemoinho de notícias ruins estava tentando autografar a realidade nua e crua daquilo que estava à sua volta. Naquele instante, ele tentou ignorar; apenas olhava para a cidade. Jason não compreendia tamanha violência, enquanto pensava no acontecido. Ao mesmo tempo, sentia-se brutalizado por ter sido traído pelas pessoas que mais estimava e amava, parecendo-lhe tudo um pesadelo surrealista.

A carta recebida viera na hora certa e era bastante atraente. Sentiu ser seu momento, e de forma alguma iria perder a chance de dar um novo impulso à sua vida. Suspirou aliviado, pois sua pequena agência de investigação, que tinha o nome de "Falência", havia recebido um novo cliente. Antes estava indo bem, mas a ganância de seu sócio foi o calcanhar de Aquiles, vindo como forte vento e derrubando todos os seus sonhos.

Ao seguir pela ponte que dava acesso ao Brooklyn, observava a calma negritude do Rio East, iluminado apenas pelas luzes da selva de pedra que piscava e repiscava em seqüências. Depois de certos contratempos rotineiros, passou pelas ruas de alguns bairros, até finalmente chegar ao local desejado. Estacionou o carro e logo consultou o relógio de pulso. Estava pontual, como exigia a carta. Então desceu, firmou os pés na calçada e recostou-se na porta do veículo, de braços cruzados e olhando fixamente para todos os lados, sem saber o que o esperava. Em seguida, começou a caminhar; olhou para a banda à sua esquerda e viu o que restava da vida daqueles pobres infelizes. Observou os olhos dos dependentes químicos se esbugalharem e seus corpos tremerem ao sentirem as agulhas prateadas de antares injetando seu trágico veneno letal. Isso o fez relembrar e indagar-se:

Como é que um profissional como eu deixou-se ludibriar e vir a um lugar tão perigoso e miserável a esta hora da noite, por uma proposta impressa num simples pedaço de papel? Devo estar ficando louco! Meretrizes desfilavam com a vaidade de um pavão, e de suas bocas saíam palavras mentirosas, porém ardentes e tentadoras, na busca súbita de novos clientes. Por algum tempo, Jason andou totalmente atento, percorrendo os olhos com cuidado por aquela rua depravada.

Para vir ao encontro desse alguém que irá me esclarecer o porquê do chamado misterioso, tive de deixar minha cama quentinha e vir a um dos piores buracos do Brooklyn.

Alguns minutos, reflexões e indagações depois, Jason chegou ao misterioso endereço: um desclassificado e velho edifício residencial, donde freqüentemente moradores e transeuntes são impiedosamente assassinados por gangues e traficantes, que enfrentam-se em busca do controle total daquela área, deixando aos sobreviventes a desagradável companhia de ratos como seus novos inquilinos. Uma verdadeira espelunca, como tantas daquele bairro. Mas, para este homem que não tinha mais nada a perder, este lugar era especial. Seu entusiasmo foi substituído por uma estranha sensação, quase uma premonição. Talvez devesse ter refletido melhor, raciocinou Jason, mas agora não havia mais jeito: era tudo ou nada.

Naquele instante, ele viu um homem gordo e careca, de camisa vermelha, por trás do balcão de recepção, cujo semblante sisudo aparentava ser o de um pitbull em vigia, doido para arrancar a perna de alguém. Na mesma hora, o detetive engoliu em seco seu receio e foi dirigindo-se até ele naturalmente, deixando que seu lado profissional mudasse um pouco o clima do lugar.

Chegando à recepção, identificou-se:

- Boa noite. Eu sou Jason Miller e estou sendo aguardado por...

- Terceiro andar, na sexta porta à esquerda - disse o recepcionista, com o olhar vitrificado sobre o visitante.

- Obrigado - respondeu Miller sem entender.

- E, a propósito, suba pelas escadas, pois o elevador está quebrado há meses. Entendi.

A voz grosseira daquele homem o surpreendeu com uma pontada súbita, mas, sem demora, encaminhou-se para as escadas. Subindo os degraus carcomidos pelos cupins, observou surpreso o tétrico lugar que

fedia a vômito de bêbado. Sob seus pés, o piso de um longo corredor estava servindo de passarela de baratas - muitas das tábuas encontravam-se soltas.

Após seguir alguns metros, deparou-se diante da porta desejada, e o item principal, como descrito na carta, estava atrás dela - um trabalho.

No instante em que a palma de sua mão tocou a madeira rachada, notou que a porta estava entreaberta, dando-lhe a nítida impressão de que alguém a teria arrombado.

De repente, uma voz mesclou-se ao som turvo das dobradiças, quebrando o silêncio do local, ao mesmo tempo em que ele entrou na sala:

- Eu o aguardava, ansioso, detetive. Por favor, não repare na bagunça e nem na aparência desse lugar, mas tenha a bondade de se sentar, Sr. Miller - declarou o estranho anfitrião. Sentado em uma velha poltrona, seu olhar cintilou de satisfação diante do convidado.

O mesmo não se poderia dizer do investigador, que, espantado, indagou:

- Espera... Acho que errei de quarto. Aqui por acaso é o ponto de encontro mencionado pelo Sr. L. H.? - --- Perdoe-me por trazê-lo aqui, mas foi o único lugar apropriado que encontrei para que pudéssemos conversar sem sermos importunados - disse o homem.

Jason, porém, ficou admirado. Mesmo ostentando aquele sotaque britânico e educado e tendo a aparência de um senhor de cinqüenta anos, o homem possuía um rosto esguio, com os traços do corpo benfeitos; vestia um terno leve seguido de um sobretudo de linho puro; tinha ombros largos e firmes e, sentado numa posição ereta, sua postura lembrava a de um soldado militar.

- Se me permite a franqueza, eu imaginava tratar-se de algo banal, como um simples caso de infidelidade conjugal ou de estelionatários, coisas desse tipo... Mas... espero que não se ofenda com a pergunta... caso o senhor não lida com coisas ilegais, não é?

O senhor inglês sorriu:

- Nova York, a capital cultural das Américas, cidade que desperta as paixões, irresistível em suas modelações tentadoras, cujos edifícios contam literalmente a magnífica história de sua arte, um monumento impressionante de galantismo, atrativos estes que fazem desta uma das maiores cidades do mundo, um lugar confortante, que atrai pessoas de todos os cantos do planeta. No entanto, ela também demonstra seu lado sombrio no congestionamento da sobrevivência humana. - E acrescentou, olhando firme em direção a Miller: - E é aqui em Manhattan, nesta ilha, que tudo está prestes a acontecer. E, bom, comecemos do início. Sim, eu sou quem procura, e segundo, não sou mafioso, se isso o tranqüiliza.

- Ufa! Isso me deixa tremendamente aliviado - respondeu, limpando a fronte suada com um lenço recém- tirado do bolso. - Espero que o senhor me entenda. O fato de não conhecê-lo assustou-me um pouco. Compreendo. No entanto, tomei a liberdade de obter algumas informações vitais sobre a sua pessoa. Por exemplo: o senhor é um jogador compulsivo, embora não admita. No entanto, deve muito dinheiro a um cassino clandestino. Cem mil dólares, para ser mais exato. Também sei que sua esposa o abandonou para viver com o próprio primo. Isso sem falar no seu sócio, que roubou todas as suas economias e seus clientes mais fiéis, deixando-o numa situação que costumo chamar de periclitante. Entretanto, tem um amplo tato no que faz. E isso exige certa habilidade para contornar situações que assim o exijam, e muitos de seus casos já foram esclarecidos com estratégias criativas, com muita flexibilidade.

Jason emudeceu, tomado pelo espanto. Mas logo se recuperou.

- Quem é você? E que liberdade é essa de especular minha vida dessa maneira, já que o investigador aqui sou eu?

- Alguém que pode transformar sua vida atribulada em algo totalmente novo. E tenho por costume conhecer bem as pessoas com quem trabalho. Porém não estou aqui para tratar de assuntos pessoais seus e espero que não se ofenda com minha clareza.

Jason foi logo falando.

- Dadas as circunstâncias em que a roda do meu destino conspirou contra mim, vindo do senhor só irá me servir de consolo.

Todavia, a expressão do inglês veio num tom calmo, mas deixou sem ação o detetive, sem ter como refutar.

- Se eu fosse seu inimigo, acha que você estaria respirando aqui comigo?

Tais palavras foram pronunciadas de forma um tanto assustadora, entretanto elas transmitiram o vigor de sua veracidade, um choque percorreu o corpo de Jason. Debaixo daquelas roupas finas, parecia existir uma pessoa na qual podia confiar. Dessa forma, deixou de lado sua reação hostil e resolveu manter-se firme naquilo que foi designado: seu trabalho.

- Entendo. Certo, certo... Mas por que esse lugar? O senhor, pelo que posso ver em suas expressões e vestimentas caras, parece ser um homem bem-sucedido. E mais, existem inúmeros profissionais que executam um trabalho muito superior ao meu, o que me obriga a perguntar: por que eu?

- Não me compreenda mal. Estou cercado por muitos inimigos, os quais seria difícil listar, mas isso é irrelevante no momento. Além disso, Sr. Miller, o que me fez contatá-lo foram as diversas habilidades e qualidades que constam em seu currículo, assim dizendo. Um bom profissional nasce feito. Então, aceita o meu caso?

- Bem, já que estou sendo contratado, falemos de...

- Dinheiro? - indagou. - Será que meio milhão de dólares americanos adiantados e mais meio milhão no término de suas atividades seriam suficientes para cobrir todas as suas despesas neste serviço? - disse, abrindo uma maleta que estava ao lado da poltrona.

- Ahn?! - surpreendeu-se com entusiasmo, vistas tão belas notas enfileiradas com o máximo de capricho atrativo. Talvez se surpreendesse um pouco mais, se não fosse alicerçado em sua afinidade profissional, e até duvidaria da excelente proposta que lhe estava sendo feita por um homem que jamais vira em sua vida. - Sim... - engasgou. - ... E muito satisfatório. O senhor não se arrependerá de ter me contratado; farei valer cada centavo confiado aos meus serviços. - E prosseguiu: - Ah, sim, espero que não se incomode, pois costumo gravar as entrevistas sobre os casos em que irei trabalhar. Isso para um melhor aproveitamento do que for dito; acho que entende o que quero dizer.

Disse isso tirando um minigravador de seu paletó e ligando-o assim que o colocou ao lado da maleta, sobre a mesinha de centro daquela pequena sala.

- E a propósito, qual será meu trabalho?

- Sua missão será embarcar num avião rumo à Ásia. Mais precisamente a Israel. Uma vez lá, você irá para a capital: Jerusalém.

- Jerusalém?...

- Sim. Você deverá encontrar uma moça que atende pelo nome de Élida Naftali, uma jovem muito especial, dotada de um dom fascinante, realmente inspirador, talvez único na face deste planeta.

E acrescentou: - Pegue.

Sem muito entender, Jason tomou em suas mãos outro envelope fechado, o qual, de imediato, foi instruído a abrir. Na sobrecarta, achou várias fotos da tal moça. Ela devia ter uns vinte anos, pensou ele. Vagarosamente, foi estudando o lindo rosto na foto. A moça parecia um anjo; queixo modelado e perfeito, a pele alva feito neve, sem nenhuma mácula de efélides ou espinhas; o nariz moldado como o de uma boneca e a boca formosamente desenhada; e, finalmente, os olhos iguais aos do inglês. Também havia endereços e lugares onde provavelmente poderia encontrá-la. Por fim, os nomes daqueles que o ajudariam em sua busca.

Então, o detetive falou:

- Apesar de estar usando tantos trajes, posso ver que ela é muito bonita. Ela parece ser judia e, perdoe minha sinceridade, ela parece ser sua filha.

O contratante apenas balançou a cabeça, deixando escapar um leve sorriso. Entretanto, Miller fez outra pergunta:

- Tudo bem, mas, assim que eu encontrá-la, o que devo fazer?

- Traga-a para Nova York, pois anseio muito em lhe falar - respondeu o inglês.

- Ah! Já entendi. - E acrescentou: - Desculpe Sr. "L", ou quem quer que seja. Já que não me disse nada sobre ela ter algum laço de parentesco com o senhor, só pode ser algum enrosco em que se meteu, e agora quer dar uma de bom samaritano por ter iludido a coitadinha com promessas de ser uma top model, e blá- blá-blá, em vez de dizer: "Querida jovem, sua função como modelo será apascentar o fogo de alguns ricaços que vivem por lá!"- disse o detetive, com um leve sorriso de sarcasmo; e assim prosseguiu:

- E agora quer que eu a traga para o senhor, de volta a Nova York, para tentar comprar a dignidade física e moral, depois do que esta moça se sujeitou, não é? Ouça, não seria mais fácil procurar por uma bela mulher aqui mesmo? Creio eu ser um grande desperdício de dinheiro ir tão longe, se permite a minha franqueza. Acho que elas são todas iguais, ou o senhor quer dar uma de Marquês de Sade! - concluiu, dando uma piscadela ao homem.

Esse último comentário recebeu um olhar de reprovação, calando de imediato aquele homem que agia de maneira cômica. Com uma expressão de seriedade, lançou-lhe uma inesperada questão:

- E quanto ao homem que roubou, ou melhor, seduziu sua esposa, a que conclusão você chegou? - falou rispidamente, franzindo a testa.

- Desculpe, mas não entendi! - respondeu Miller, sério.

- Em primeiro lugar, detetive, não sou o que sua mente pequena e poluída pensa. Eu, ao contrário do senhor, não fico me destruindo em bares, enchendo a cara. E tudo para quê? Para, ao chegar rastejando em casa, ficar lá no seu quarto pranteando e vendo, em seu notebook, as tragédias ocorridas no mundo e amaldiçoando Deus pelos danos que causa a si mesmo. Em segundo lugar, sugiro que dobre sua maldita e bifurcada língua americana por trás de seus dentes, pois a pessoa que você julga ser uma meretriz na verdade é minha filha! - replicou, indignado e num tom ameaçador.

Jason estremeceu, engolindo em seco e arrependido do que disse. Percebera que havia feito uma grande besteira em ter agido daquela forma, sabendo que a situação de sua vida estava no vermelho. Aquele homem, ofendido, poderia desistir de requisitar seu trabalho; além disso, poderia ser processado por difamação e calúnia. Logo entendeu que a posição do acaso chegara ao ponto delicado, e ele não podia permitir que o sorriso do azar atrapalhasse mais uma vez seus negócios.

Rapidamente disse:

- Eu peço sinceramente todas as desculpas existentes neste mundo, Sr. "L". Não percebi meu grave erro, pois nada sei de sua vida pessoal e particular e não devia ter agido daquela forma - murmurou gentilmente. - Mas ainda não me acostumei com a realidade do meu divórcio, e isso me faz soltar momentaneamente uma fera que fica oculta dentro de mim. Às vezes mal consigo respirar; sinto muito pelo meu péssimo comportamento - exprimiu Miller, com os olhos retesos em lágrimas. O olhar de ira daquele inglês foi transformado e, num sinal veemente de piedade, respondeu:

- Desculpas aceitas, Sr. Miller. É perfeitamente compreensível isso tudo, levando-se em conta a dor que está lhe corroendo. Sinto muito por isso; não posso livrá-lo desse infortúnio. No entanto, estou querendo lhe dar uma oportunidade de reiniciar sua vida...

- Fico grato por sua compreensão - interrompeu Jason. - Por favor, não vamos nos desviar do motivo pelo qual fui contratado. Quanto a mim, se houver algum Deus neste céu poluído de Manhattan, Ele sem dúvida irá limpar meu coração desse tormento.

- Como queira.

Jason reconheceu que tem o péssimo hábito de dizer asneiras quando fica nervoso. Mas, pela primeira vez, sentiu algo especial em seu contratante, uma coisa que nunca havia sentido antes em nenhuma pessoa com quem mantivesse contato profissional.

- Tem mesmo certeza de que deseja trabalhar para mim, Sr. Miller? - indagou. - A pressão psicológica é a mais cruel de todas as torturas e eu sei muito bem disso. Poucos conseguem conter o pânico. Se formos realmente fortes, as cortinas do trauma se rasgam diante de nós, fazendo com que o nosso espírito paladino nos arremesse ao ralo da determinação por bases de estratégias, porém muitos desabam como avalanches amuralhadas pelo desespero, por não conseguirem suportar a tão temida "pressão". - E, então, finalizou: - Será, detetive, que está predestinado a ter sucesso nessa incumbência que estou lhe confiando?

- Pode confiar em mim, meu caro e bom senhor. Não deixarei nenhum fio de decepção em meu caminho - disse Miller.

O misterioso homem estava totalmente satisfeito com essa decisão. Tendo observado de forma esquadrinhada aquele ousado nova-iorquino, acreditou que havia feito a escolha certa.

Pensei que minha visão administrativa de progresso havia sido embaçada por causa da minha idade - falou, rindo docilmente em seguida.

Jason também riu, e foi logo se sentando em outra poltrona. Totalmente ansioso, pôs-se a ouvir. - Acredita no sobrenatural, Sr. Miller?

- Desculpe... mas o que disse?

- Crê em forças além da compreensão humana? Acredite, pois este câncer se alastra dia após dia entre a humanidade, pervertendo a todos, acasalando seus corpos com as imundícies das trevas e gerando seres que podem devorar sua alma como um tornado que devasta uma casa assim que a toca.

- Como? Que história é essa?

- Eu vou simplificar. Já ouviu falar em vampiros? - Claro... Já ouvi muito sobre essas crendices.

Muitos falam que é apenas uma lenda, mas, quando o vampiro mestre ataca suas vítimas, elas recebem um tipo de vírus através de sua mordida, uma praga que se oculta dentro do organismo humano. E, depois de certo tempo, em que o corpo inteiro é infectado, a vítima inicia um elo psíquico com o mestre, tornando- se em seguida um morto-vivo, um escravo a serviço daquele que o inoculou com sua maldição. É quase o mesmo processo, só que, em vez de as pessoas serem mordidas, elas prazerosamente unem-se a esses seres. Ao contrário de terem seu sangue sugado, como fazem os vampiros, eles as infectam com um tipo de semente parasita, que tem a função de sugar as características e a identidade da presa num prazo de 72 horas.

- Então, este pobre diabo irá dar à luz algum tipo de mutante? - indagou o agente com ironia. Sem muito pensar, a resposta veio logo em seguida.

- Na verdade, não será somente a mulher que terá essa sina, mas também os homens, assim como o senhor, poderão passar pelo mesmo caminho de tortura sem fim. E o ser gerado sairá por livre e espontânea vontade, numa cena horripilante jamais presenciada. Depois, este ser devorará os restos daquele que o procriou. Eu torno a repetir, acredite, detetive, isto é real. Eles estão em toda parte, propagando sua peste, expandindo seu crescimento por toda a Terra. Todavia, não são eternos, pois estão sem o auxílio de seu sinistro criador, que é quem lhes dá a essência maligna da imortalidade.

- E quem são eles? - perguntou o investigador particular, tentando entender mais o assunto.

- São descritos pelas Escrituras como os filhos de Abadom, "Zalthuns", seres da danação, emissários enviados do inferno ou como preferir chamá-los.

E continuou:

- É engraçado, não é? Como este mundo é semelhante a um cubo de gelo. Simplesmente, se o expusermos ao calor, ele facilmente se desfaz; acontece o mesmo em relação à raça humana. A carne é corrompida pelo tempo, a fé é quebrantada pelo sofrimento, suas mentes entorpecidas pelos desejos mundanos, e ainda dizem que suas almas são dignas de salvação?

Um pequeno período de silêncio pairou sobre aquela sala.

O homem notou um sentimento de curiosidade no íntimo de seu convidado, porém continuou a mostrar o forte calor de alerta que emanava de suas expressões.

- Desculpe, ainda estou confuso... Poderia ser um pouco mais específico? - solicitou Jason.

- Compreendo. Inconscientemente o senhor sabe o que se passa, porém ainda não parou para pensar no assunto. Eu lhe explicarei qual é o problema que envolve o mundo em que vivemos.

E qual é? - procurou saber mais.

- É com a religião de um modo geral. Existem muitos religiosos que nunca revelam a verdadeira anatomia do terror, ou seja, aquilo que nos fará discernir entre as vantagens do céu e os prejuízos do inferno. É claro que nenhuma alma voltou para contar sobre isso... Eles buscam a disciplina por meio do medo ou de suas insignificantes leis carnais, ou seja, se alguém não agir conforme seus estatutos narcisistas, é excluído daquele ministério e exposto como um réu da fé diante dos outros fiéis, como exemplo de sua rebeldia. Esses "regentes religiosos" confundem a Divina Palavra com autoritarismo, desviando-se de tudo, não entendendo a grandiosa natureza da lei que lhes foi dada como incumbência, que é a propagação do amor de Deus entre os homens dita nas Sagradas Escrituras; pena que é um pouco tarde para saberem disso.

O agente se manteve atento. Seus ouvidos começavam a testemunhar a fascinante história que se processava entre a fé e o futuro da humanidade. Algo que não deveria julgar apressadamente, pois queria ouvir o que seu interlocutor tinha a dizer.

- Estamos no terceiro mês do ano de 2009, e onde está o amor ao próximo? O planeta guerreia consigo mesmo, formando uma competição de forças entre países. A tecnologia continua a avançar, tanto científica quanto historicamente. O colossal e extraordinário crescimento da internet é eminente, a automação ameaça assustadoramente a manufatura humana, causando desemprego em massa, e preconceitos sociais alastram-se por todos os continentes. Epidemias desconhecidas surgem do nada, e outras se tornam mutáveis com o passar dos anos, tocaiando multidões, dizimando boa parte da população nos países subdesenvolvidos. E, finalmente, o mundo é transformado diante da globalização; quando isso acontece, um morador inóspito, comumente chamado de "crise", aparece e causa medo e caos no coração de muitos. Terríveis guerras são levantadas, mediante a cobiça de seus políticos. Terrorismo em nome da religião. E quem é o culpado por tudo isso?

A dúvida de Jason deu lugar ao desejo veemente do saber. Seu ser demonstrou maior interesse mediante a narração daquele homem, para ele um tanto excêntrico. Ele se sentia como uma criança, ao escutar sua primeira história intrigante: receoso e ao mesmo tempo interessado em ouvi-la por completo. Isso era totalmente diferente de seus antigos casos, por isso ficou fascinado.

- Agora, vou levá-lo à origem de toda essa epopeia para a qual está sendo contratado. Ouça com atenção e entenderá por que necessito tanto da presença dessa jovem nesta cidade.

Então, o homem lançou um longo suspiro e, em seguida, pôs-se a falar.

Capítulo 1 PÁGINAS DE LÁGRIMAS

Grã-Bretanha (Inglaterra) Século XIV- Ano de 1318

O mal foi desencadeado pela ganância de um membro da sociedade druida. Por seu intermédio, o anjo negro Sammael, com sua serva Astaroth, perverteu, em atos de magia e por meio de mentiras ilícitas, a maior parte dos druidas, bardos e auguristas existentes na Europa. Sendo assim, como era uma classe respeitada por sua sabedoria e conhecedora dos poderes intermediários de suas tribos, os celtas submeteram-se cegamente à ordem daquele escalão hierárquico, que, formando chefes militares, recrutou cada soldado disponível até criar um grande e poderoso exército. Em seguida, eles uniram forças com os bárbaros saxões, alcançando o rendimento total da Inglaterra. Na seqüência, invadiram outras províncias da Europa com vasta força superior. Atravessaram o Canal da Mancha e atacaram a França, queimando vilas e saqueando as cidades, ameaçando a existência de toda a cristandade.

Foi uma época em que o medo e o terror prevaleceram sobre os povos europeus, denominada por muitos deles a "Era das Trevas".

Nesse tempo, havia a Inquisição (Antigo Tribunal Eclesiástico, também conhecido por "Santo Ofício"), para investigar e punir crimes contra a Igreja e a fé católica. Eles não poupariam ninguém, qualquer que fosse a causa, tudo por "amor" a Cristo.

A configuração do território era a de um bloco montanhoso, envolvido por um círculo de planícies. Aquelas montanhas, relativamente muito antigas e modestas, foram modeladas pelo oleiro escarlate da natureza. Sob os pés dos gigantes de pedra, um denso tapete verde parecia perder seu brilho natural, pois o sol poente cedia lugar à noite. Aos poucos, uma grossa neblina surgia com o avançar da escuridão, bailando por entre as árvores da vasta flora.

De repente, o santuário verde foi profanado por uma sombra que se movia sorrateira na penumbra. O solitário invasor caminhava quase aos tropeços, emitindo sons assustadores pela floresta de Nottingham, até finalmente avistar mais adiante uma enorme fortaleza.

Sangravam-lhe os pés nus, pois haviam sido fustigados pelas pedras pontiagudas do difícil caminho que percorrera. Castigado pelo cansaço da longa jornada, o desconhecido prostrou-se quase imóvel ao chão. Em seguida, lentamente e desajeitado, removeu o capuz, revelando sua identidade. Era uma mulher jovial, porém seus cabelos estavam maltratados pela sujeira, e sua face, marcada pelas chagas do sofrimento.

Afagado em seus frágeis braços, envolto em uma capa vermelha, via-se outra figura que se movia vagarosamente. Condoída, a viajante inclinou a cabeça em direção ao pequeno ser com um desdito olhar, lamentando-se ao perguntar:

- Siegfried, por que o destino é tão cruel a ponto de nos separar?

Por certo tempo, permaneceu ali ajoelhada, aconchegando ao colo a linda e delicada criança, que mal podia sorrir para sua geratriz; somente a observava, sem entender as lágrimas frias caindo e molhando a fina pele de seu rostinho.

- Tu és meu sangue e minha preciosidade, e para guardar a tua vida terei de abdicar da minha. Mesmo que cometa esse terrível pecado, a lembrança de tua formosura ficará gravada em meu coração, por todos os anos de minha existência.

- Meu ato salvará tua vida - declarou a jovem, direcionando o olhar às muralhas escuras de um castelo sinistro, lugar de sua última deixa.

Então, seus lábios feridos sussurraram a história de toda a sua vida, como se aquele pequeno pudesse entendê-la.

- Teu avô, além de ser bem-sucedido, foi um comerciante honesto e honrado. Um perfeito e educado cavalheiro galés, muito respeitado pelos lordes da nobreza. E eu, sua filha, era a única família que ele tinha, já que mamãe não estava mais conosco, pois contraíra uma terrível enfermidade e morrera.

Após uma pequena pausa, prosseguiu:

- Fui uma donzela cheia de sonhos; queria o que todas desejavam: achar aquele que me tomaria em seus braços volumosos e, com intenso carinho, colocaria-me na sela de seu cavalo, para juntos cavalgarmos felizes, rumo às estrelas, vivendo dias deliciosos de paixão e noites tórridas de amor infinito. Mas nem tudo é o que esperamos... Acontecimentos... tive muitos em minha vida, fatos marcantes... lindos... Alguns estranhos também me ocorreram...

Relembrar seu passado era doloroso; no entanto, havia algo que alimentava sua esperança de um dia ser feliz...

Todas as vezes que o Sol exibia sua fulgurante face pela manhã, ela balançava seus cabelos dourados, banhando-os nos seus primeiros raios. Em seguida, entoava jubilosas melodias para seu "Protetor Celeste". De repente, como resposta ao seu afeto, uma águia nunca vista por outros olhos mortais, branca como a neve que cobre as cordilheiras, emergiu do nada e ficou dando voltas circulares em torno da jovem, indo vagarosamente pousar em seu delicado braço.

Então, essa magnífica ave fixou seu olhar no dela, e uma voz mansa preencheu a mente da virgem: --- Rúbia, tu cantas com a pureza de teu coração, e minha essência viaja na eterna carruagem da tua voz.

Seus ouvidos e seus olhos eram os únicos a testemunhar a aparição, privilégio que sempre a emocionava. Depois, uma brisa refrescante, provinda do bater de suas asas, esvoaça levemente os cabelos da moça. Assim o formoso pássaro celeste despedia-se, regressando para a imensidão do céu azul, feito um anjo que retorna ao paraíso.

Mas, na realidade, ela queria muito mais do que aquele mundo de ternura. Rúbia Lands desejava a felicidade de constituir um lar, ter sua própria família e viver com ela os seus anos. Porém, mesmo bajulada por inúmeros cavaleiros e jovens trovadores que a cobiçavam com olhares penetrantes, ela sempre soube que nenhum deles fazia parte de seus sonhos.

Certo dia, seu pai chegou ao mercado cabisbaixo e de semblante pálido, tossindo muito e quase sem fôlego. Pedia a ela, aos murros, que abrisse rápido a maciça porta. Assim que a porta foi aberta, o mercador entrou, seguindo para uma cadeira por trás do balcão. E, logo que se sentou, limpou o suor que lhe escorria pelo rosto.

Só Deus sabia o que teria acontecido a ele, mas Rúbia logo entendeu o porquê de tudo isso.

No momento em que a moça entregou uma caneca de água fresca ao pai, seus ouvidos captaram sons de passos que vinham logo atrás. O Sr. Lands estava acompanhado de um homem estranho, possuidor do título de chanceler, um nobre muito conhecido na Grã-Bretanha, encarregado da Justiça e da guarda dos selos. Seu nome: Henrique Howell. E, para ela, este foi o dia de maior infortúnio em sua vida, pois de alguma forma estranha e sem explicação, a linda moça de cabelos loiros foi anunciada a ele por seu genitor. Não que Rúbia tivesse experiência no assunto, mas lhe parecia que ele estava sendo forçado a fazer algo que seu íntimo desaprovaria.

Por dias seguidos, esse lorde visitava, sempre no mesmo horário, aquele humilde estabelecimento. Sua voz era calma, porém fria; suas roupas eram das mais finas e seus dedos estavam sempre ornados de anéis cintilantes.

Pensando no passado, as horas deslizavam e a Lua movia-se vagarosamente pelo céu noturno. Em sua mente cansada, a jovem ainda se lembrava, com clareza, da maneira funesta com que o fidalgo a olhava.

Aquele olhar malicioso transmitia uma maldade petrificante toda vez que o sentia percorrer seu corpo. Com os joelhos colados em terra, Rúbia narrava ao rebento seu flagelo, sem reparar em outra presença envolta nas sombras, que assistia atenta à cena, abeirada ao peitoril da janela, na torre próxima às muralhas da fortaleza.

Aquela pequena cidade, onde outrora ela cantava para Deus, foi transformada em um pântano de sangue. Henrique Howell mostrou ser o único e verdadeiro tirano, mantendo como lema-chave a ambição e a devassidão acima de tudo, como exclusiva forma de satisfazer seu bel- prazer. Ele muito contribuiu com o massacre de milhares de inocentes, pois o tédio de sua malevolência atingia o auge por onde quer que passasse. Mas isso não bastava.

Com sua grande influência, em pouco tempo dobrou as legiões de soldados, moldados aos vícios lupinos e à luxúria sem fim. Grande foi o número de camponesas violentadas; saqueavam seus lares como maneira de coletarem impostos e matavam seus homens por estarem tramando contra a realeza. Os que não eram entregues cativos para a Inquisição eram mantidos prisioneiros para trabalhar como servos. Aqueles que tentavam fugir eram abatidos pelas hastes de pontas farpadas dos flecheiros. Ali era um lugar onde os clamores dos desesperados nunca eram ouvidos, e os oprimidos eram sentenciados à própria sorte. Essa sombra de medo e morte alastrou-se como uma peste por toda a Grã-Bretanha. Todavia, surgiu um conflito ainda maior e mais perigoso do que as ações covardes de Howell.

A aparição de um exército pagão na Inglaterra fez com que os lordes e os membros feudais das igrejas católica, anglicana e ortodoxa pusessem a plebe e os patriotas como suspeitos de estarem unindo forças com os celtas e os saxões. Esse fato, que provocou o injusto aumento excessivo de impostos e a ruptura de tensões sociais, criou uma tempestade de revolta em todo o povo.

Rúbia olhou o vazio, com ar ausente, perdida em suas negras recordações do passado, sem saber que lá na torre, no interior de um quarto sombrio, adentrou um vassalo robusto, parando e prostrando-se diante da presença daquele ser que permanecia imóvel junto ao parapeito.

- Chamou-me, milady? - indagou o vassalo.

Através da escuridão, um tétrico rosnado ecoou pelas paredes, seguido por um vento gélido que percorreu todo o aposento. Todavia, isso não intimidou o guarda, que permaneceu firme em sua posição. -- Que quereis vós que eu faça, milady? - perguntou novamente.

Então, a sombra encapuzada moveu-se lentamente, revelando os olhos vermelhos, que brilhavam ante o serviçal, e declarou por telepatia o que seus lábios carmins se recusavam a falar.

- Como quiserdes. Tudo será feito conforme o vosso desejo - confirmou-lhe, levantando-se. E, ausentando- se, fechou a porta atrás de si.

Dada a ordem, a mulher misteriosa devolveu a atenção à plebéia que permanecia defronte às muralhas do colosso de pedra.

Enquanto isso, Rúbia tomou para si o cálice amargo de sua vida:

- Meu pai tornou-se mais uma vítima daquele monstro, pois não podia pagar os altos tributos exigidos. Mediante isso, Howell tirou proveito da situação, pois havia sido contagiado pela pureza juvenil da bela moça. Agora, como testemunha ocular, ela contava ao pequeno Siegfried todas as suas desditas raízes. Rúbia, como tantos outros, implorava por um pouco de justiça, na esperança de que ela ainda viesse a prevalecer. Mas, para um homem vil como Howell, a palavra "justiça" era apenas um conto de fadas, porque seu único deus era a riqueza material. E, a todo custo, usaria os métodos mais sórdidos que conhecia, somente para realizar o desejo que tinha pela moça. Mesmo a influência do pai dela junto aos suseranos não foi o suficiente para impedi-lo de realizar seu intento.

Inconformado pela ordem recebida de seu superior, o chefe do feudo, Howell usou o momento a seu favor, atacando de outra maneira, ainda mais eficaz: astutamente, conseguiu duplicar os impostos, como forma de pressionar o povo e de chegar ao seu querer: a bela campônia.

A intensa névoa rodopiava ao redor de Rúbia, trazendo à tona os lampejos de seu sofrimento.

Aquele homem chantageou o teu avô, dizendo que, caso não fosse com ele, enviaria uma mensagem ao rei, alegando que o povoado estaria conspirando contra a coroa real, o que resultaria na morte de meu genitor e único protetor e na dos demais. Temi no momento em que os guardas do tirano apontaram aquelas lanças em direção ao peito de meu pai.

Fazendo um último apelo, a jovem caiu em prantos aos seus pés, implorando para o verdugo a vida de seu pai e prometendo que se submeteria à sua vontade, caso ele o poupasse. Rúbia deixou-se levar pelo amor àquele que a criou desde sua meninice. Após ter perdido sua genitora para a peste, seu pai tornou- se a única riqueza que possuía na vida.

Os dias se passavam, e a bela calipso era mantida cativa em uma mansão recém-construída, totalmente às custas dos esforços de pessoas menos afortunadas daquele povoado. Suntuosamente mobiliada, localizava-se a alguns quilômetros da Vila Harleck, onde morava antes.

Era uma tarde chuvosa. Apesar de ela se sentir prisioneira, Henrique permitia que sua musa de cabelos longos cuidasse dos afazeres domésticos, com as demais serviçais. No entanto, permanecia sob os olhares vigilantes e ousados de seus subordinados.

Certo dia, Rúbia se viu só em suas ocupações diárias; as serviçais tinham sido dispensadas de suas funções e os guardas dispersados de seus postos rotineiros, permanecendo em cômodos mais afastados. Ao cair da tarde, a calmaria do momento foi quebrada pelos sons de passos que vinham em sua direção. Seu coração disparou palpitante de pavor ao notar que eles pertenciam ao senhor daquela mansão. Seus olhos brilhavam a cada passo dado. Sua língua áspera circundava a boca, demonstrando sua nítida intenção. Ela tentou fugir, mas a ação desatinada e brutal de Howell sobrepujou todas as tentativas da moça em repelir seu ataque. As forças lhe escaparam do corpo e seus ouvidos testemunharam os sons de vestes sendo rasgadas. A frágil vítima foi brutalmente arremessada de encontro ao piso frio do salão. Contida de horror macabro, demonstrou constantemente com gritos seu medo, segundos antes de sentir as mãos quentes do ímpio nefasto tocando e apertando seus seios firmes e desnudos. Os braços dele envolveram sua figura feminil e a deixou como uma lebre à mercê de uma serpente.

Em seguida, Howell levantou uma das mãos e começou a acariciar a face macia da mulher, enquanto a outra massageava o mamilo esquerdo. Com o polegar sob seu queixo, Henrique imobilizou o rosto dela.

- Por que tentas resistir? Bem sabes que isso é inútil! - disse ele, sorrindo.

O tirano viu que os olhos dela ficaram repentinamente úmidos; ainda assim, levou a mão que segurava o seio por baixo do vestido, descendo levemente pelo corpo, escorregando-lhe os flancos.

- Sou o único homem que a matará de prazer; não resistas; tão somente convide-me a satisfazê-la.

Howell desceu a boca até aos lábios dela, até introduzir sua língua por entre os dentes da campônia. A jovem, por sua vez, pensou em arrancar o músculo móvel da cavidade bucal de seu violador, porém se sentiria imunda se provasse o gosto do sangue sujo daquele animal, e também temeu pelo o que viria depois.

Ela começou a chorar.

- Eu.. .te... odeio - disse gemendo.

Em sua ávida loucura, o chanceler não mais agia em seu estado normal, pois, ao ver as lágrimas serpenteando o rosto dela, começou a sorvê-las.

Rúbia não teve outra escolha a não ser sucumbir diante daquela ação humilhante. Num ritmo frenético e contínuo, Howell roçou seu corpo ao dela, buscando o prazer e a satisfação que tanto esperou. A pobre moça estava deitada no chão de pedra, com as pernas abertas e quase sem nenhuma vestimenta; os braços alvos e delicados imobilizados.

A alegria doentia do chanceler atingiu o ápice ao ver os perfeitos e belos contornos daquele corpo jovem e perfumado. Uma perfeição magnífica, como a veracidade de um diamante, e linda demais para ser apenas uma plebéia. O arfar desenfreado de sua respiração invadiu como aguilhões as narinas de Lands, trazendo repulsa e ânsia. Sorriu como um demente e, sem piedade alguma, penetrou-a violentamente, rasgando sua pureza de maneira grotesca. Ele gemeu, extasiado em sua satisfação animalesca.

Ela pranteou, num sofrimento igual à dor de um pássaro que cai ao ser transpassado por uma seta pontiaguda. Totalmente abalada por ter sido violentada, desmaiou. E ele, nada mais escutou: nenhum sussurro, nenhum protesto e nenhuma reprovação do ato vindo de sua presa. Na sua voraz embriaguez pelo corpo sedutor da estonteante diva, realizou freneticamente, e de diversas maneiras, seu profano vitupério, gritando alteradas vezes seu concluído orgasmo.

Melancolia e revolta estavam misturadas em seu semblante. O anjinho aconchegado em seus braços seria afastado de seu convívio, por motivos que só ela conhecia.

Na torre, a dama oculta, usando de meios inefáveis do místico, ouve e acompanha os argumentos da infeliz, mantendo sempre um sorriso sarcástico nos lábios, sem demonstrar nenhuma expressão de emoção.

Sem sombra de dúvida, elas eram espécies completamente diferentes. Como aquela mulher encantadora e ao mesmo tempo sem nenhuma comoção podia friamente contemplar as angústias e inseguranças da outra mulher, que sofria suas lamúrias debaixo de um ar gélido, se ambas eram da mesma natureza?

Por outro lado, Rúbia sentiu seus pensamentos atingirem ainda mais seu coração e seu espírito. Ela via o mundo como morada de trapaceiros e o destino como um ladrão de esperanças, que não tinha honra.

- Por vezes agonizante, fui forçada a ser sua concubina. Fiquei dias e dias vagando no próprio inferno carnal, realizando atos escusos e sem moralidade. Até que um dia, a luz do consolo brilhou sobre mim, deixando para trás todas as chagas do meu pesar. Mesmo provindo de um ato deplorável e de um homem a quem dediquei o ódio como sentimento, me senti regozijada, recompensada de toda aquela aflição. Eu seria mãe pela primeira vez, sentiria um filho, uma vida se mexendo dentro do meu ventre!

As lágrimas serpentearam por sua face e os lábios novamente proferiram fatos dolorosos:

- Quando seu "pai" soube, toda a sua infrangível arrogância e petulância se estilhaçaram por completo.

As palavras de Rúbia, por serem verdadeiras, feriram a fundo, em ferro quente, o orgulho de Howell assim que soube que iria ser pai. Ele não conseguiu conter-se e ficou enlouquecido. Aquela gravidez foi interpretada pelo algoz como sendo um ato de sacrilégio. Ele a tinha somente como uma mera distração para seus desejos sexuais; uma meretriz que podia ser descartada a qualquer instante.

Os pensamentos daquele homem ficaram moldados em ponteiros de um relógio que parecia ter retornado no tempo, regredindo a uma época mesolítica. Com todo seu desdém, declarou a muitos que seu corpo nobre tinha sido maculado pela lama da miséria. Para ele, a mulher havia se tornado uma maldição gerada pela plebe, para suplantar a dinastia de sua família.

O homem que representava a lei e os interesses do rei, e constantemente abusava do poder que lhe era confiado, estava agora vulnerável diante da simples gravidez de uma plebéia.

- "Poderia eu, um milorde de sangue azul, aceitar um herdeiro bastardo concebido por uma meretriz?" - com toda a modéstia acrescentada de cinismo, Rúbia repete as palavras proferidas pelo tirano.

Em seus olhares infecundos, ela pôde ver suas intenções malignas com relação ao filho. Ele consumia-se pelo ódio, por não haver tido a coragem de executar um crime tão desaprovado pela fidalguia, como também pelo fato de que iria perder a amante pela qual tanto lutara.

- Quando esse sofrimento irá findar? Será que há um fim para isso? - acrescentou ela às suas páginas de lágrimas.

Sim, naquela noite havia um meio de ter esperanças. Deus ouviu suas preces.

As nuvens trajadas de chumbo e enfeitadas por clarões de incontáveis relâmpagos rasgavam impiedosamente a virgindade do céu noturno, e a chuva abençoada caía pesada sobre os campos galeses. Aos poucos a chuva se intensificou ainda mais e os minutos que se seguiram tornaram- -se horas.

No aposento, o medo veio na forma de arrepios sobre o corpo de Rúbia, fazendo-a puxar com as mãos o lençol para cima, até a altura do pescoço.

Já o vil suserano socou de leve o batente da porta, confirmando sua chegada. - Está chovendo demais lá fora, tu não achas, vadia? - comentou com bocejos.

Rúbia assentiu gesticulando com a cabeça, embora ela sentisse pavor e nojo pelo teor decrépito daquelas palavras.

- Quero fazer um brinde a essa maldita tempestade. Tomara que os raios incendeiem toda a raça plebéia!

- bradou Henrique, com a caneca cheia. E sem perder nenhum segundo sequer tomou a bebida de uma só vez, jogando a grande vasilha de prata à sua direita.

O nobre cambaleante deu três passos em direção à cama e logo percebeu que havia bebido demais. O último caneco que tomara foi o golpe decisivo. Voltou os olhos brilhantes e débeis para Rúbia; eles dançavam feito as ondas do mar ao toque pesado de um furacão. Um oceano em fúria, enegrecido pela tormenta de dentro de sua própria cabeça.

Howell foi vencido pelo poder embriagante do forte e doce vinho. Caminhando sem firmeza e sem dizer nenhuma frase, despencou como tora seca sobre a cama de uma maneira um tanto desajeitada. Não deu a mínima atenção a Rúbia, que estava deitada ao seu lado. Encolhida e assustada, pensava numa possível noite de horrores carnais, já que relutar seria impossível, mesmo que quisesse. No entanto, ao contemplar o repugnante amante num profundo estado de inconsciência, percebeu que a esperança renascera, pois o destino concedia a oportunidade imediata para a fuga, pensamento que rondava sua mente todos os dias. Lands ficou admirada, pois ele nunca a deixara uma noite sequer em paz, mas naquele momento o destino havia interferido nos planos do algoz, que preferiu embriagar-se a consumar suas horas de prazer como era de costume.

Com extrema mansidão, suas frágeis mãos tatearam sobre as roupas do ébrio. E, com os gestos sorrateiros como os de uma raposa, conseguiu apoderar-se das chaves. Mesmo sentindo-se fraca devido aos maus tratos que passara, vagarosamente desenleou os grilhões que a mantinham cativa, presa à cama. Trêmula, porém liberta das cadeias de ferro, a mulher cuidadosamente levantou-se do leito, mas sempre com os olhos despertos e fixos naquele que podia tornar a sua permanência ali ainda mais desagradável, como podia também dar fim à sua existência, caso fosse descoberta.

Desconfiada e alerta, como uma pantera acuada, ela transpôs a porta. Seguindo a passos leves e rápidos, chegou ao corredor à frente. Mais adiante se deparou com um guarda que, como muitos, passava todo o seu turno "vigiando", mas acompanhado pelo manto do sono.

Lá fora, os pingos da forte chuva pareciam pedregulhos, metralhando o telhado do casarão e sufocando os passos da fugitiva.

Ela avaliou o índice de periculosidade da sentinela. Passá-lo talvez não fosse tão difícil, a questão era como fazer isso. Perdida em pensamentos na busca por soluções, notou uma espada embainhada junto à parede.

Sempre temendo pela represália que sofreria caso fosse flagrada, não refletiu nem por um instante sobre vida do vassalo e apanhou instintivamente a arma. Mesmo sendo um tanto pesada, sua força de vontade era ainda maior. Segurou-a com ostentação e preparou-se para selar o destino do homem à sua frente, caso fosse necessário. Tal ação fustigava seus princípios, porém não lhe restara outra opção para seguir com um pouco mais de tranqüilidade seu caminho.

Sorrateira, foi ao seu encontro. De repente, os olhos do vigilante despertaram em espanto. Ela não hesitou, desferindo o golpe certeiro e fatal com as únicas forças que ainda lhe restavam.

A lâmina ensangüentada escapou de suas mãos, no mesmo instante em que o corpo da sentinela tombou inerte no chão frio e verteu seu líquido vital. E a cabeça, que fora lançada metros adiante, pairava ainda quente sobre o piso liso do corredor, direcionando-se para sua assassina, tinha olhos agonizantes e um filete de sangue escorria lento pelo lado esquerdo da boca. Essa cena teve sua nitidez aumentada pelo clarão de um raio.

Ela não conteve as lágrimas, porém, com toda a firmeza, engoliu o grito de terror que estava prestes a escapar de sua garganta, ao mesmo tempo em que as faíscas dos relâmpagos cortavam vorazmente os céus enegrecidos.

Pensou em cerrar os olhos e permanecer imóvel, até que tudo aquilo acabasse. Mas, de repente, deu um tapa em seu próprio rosto e tomou a decisão: precisava sair dali.

Numa formidável reação, Rúbia conseguiu aos poucos conter o ritmo da respiração, não se deixando desesperar pelo que fez. Ultrapassou as portas finais sem chamar a atenção dos demais guardas, dando as costas à mansão que fora sua agonia e a tudo o que havia dentro dela.

Do lado de fora, a jovem se deteve por um momento. Contemplou a densa chuva, sentindo-a tocar-lhe o rosto. O vento uivava uníssono, como se entoasse um cântico de louvor à sua coragem, e a natureza chorava feliz, como se de alguma forma os pingos apedrejantes e refrescantes estivessem lavando-lhe o corpo e a alma de todo tipo de humilhação à qual foi submetida, limpando-a da imundície daquela tirania insana, renovando e libertando seu ser de toda a profanação libertina.

Logo, o alerta de sua consciência a demovia de seus pensamentos. Assaltada pela compulsão de dominar a emoção, a mulher de cabelos longos seguiu até uma das cavalariças, onde, sem muito esforço, adquiriu uma montaria. A chuva colaborou já mais fraca e possibilitou a fuga do ginete, que disparou a galope, deixando para trás aquele sofrido cárcere.

Seus pensamentos voltaram-se para a frágil criança, hospedada em seu útero, um pequenino anjo que viria a este mundo para abrandar seu sofrimento e preencher de esperança toda a sua vida. Só não sabia seu futuro, e muito menos o que o destino teria a lhe oferecer.

- Eu fugi para que tu pudesses sobreviver! - declarou Rúbia, em alta voz. Após isso, lembrou-se dos territórios belos e maravilhosos por onde passara e dos amigos e inimigos despercebidos que conquistara. Aquela nova região se caracterizava tanto pelo desenvolvimento das atividades rurais, praticadas na criação de gado bovino e ovino, como também pela cultura de legumes, frutas e flores, nas amplas planícies que separavam os maciços de pedra. O clima era ameno, de características marcantemente oceânicas, um bom lugar para quem tentasse conquistar a paz.

Diante dessa paisagem, um sorriso escapou de seus lábios, enquanto sua face refletiu uma vez mais o brilho da nova esperança.

De Gales, a amazona partiu para o Vale do Wye, próximo às montanhas negras. Mais adiante, ela parou em um vilarejo. Por causa da grande solidariedade daquele povoado, a corajosa viajante conseguiu, sem nenhuma dificuldade, um abrigo e ali pernoitou.

No dia seguinte, já provida de água, remédios e mantimentos, prosseguiu viagem, indo passar por Hay, chegando, após uma longa jornada, a Hereford e finalmente a Ross, na Inglaterra. Lá o destino se encarregava de aproximar as pessoas. De uma forma carinhosa, a filha de Gales conquistou a amizade e o apoio de uma caravana de nômades refugiados do conflito, decididos a tentar a vida em outras regiões. Rúbia parecia mais tranqüila do que aborrecida com a situação e, sem nenhuma objeção, resolveu partir com eles.

Após atravessarem o Rio Severn, chegaram a Gloucester; depois passaram por Stroud e Tetbury, seguindo direto para Bath. Percorreram campos desconhecidos, correspondentes à península que se

projeta entre o Canal de Bristol e o Mar da Mancha, e chegaram à região constituída por três condados: Cornuália, Devon e Somerset.

Como verdadeiros pioneiros que são, desviaram-se de um acampamento saxônio de vigília, percorrendo as terras altas por trechos longos de Tauton Hills, cuja maior parte é formada de arenito vermelho e está mais à frente do território maciço e granítico de Dartmoor. Por um longo tempo, Rúbia Lands seguiu caminho por cidades e províncias desconhecidas, suportando as duras ações naturais do clima e as dificuldades apresentadas. Um sacrifício nobre para alguém que buscava tão somente ser feliz.

Dias e noites se passaram, até que, finalmente, chegaram a um vilarejo ignorado, de onde os nômades seguiram adiante, deixando para trás a pioneira que os acompanhara por províncias longínquas. E, como acontecia nos diversos lugares que percorreu, ali também foi calorosamente recebida pelos moradores. Passado certo tempo, Rúbia, já no sexto mês de gestação, cativava a todos com seu carisma e sua afável solidariedade. Entretanto, sua ingenuidade a impediu de perceber os olhares curiosos e penetrantes de uma velha que por ali andava todas as noites, em busca de esmolas e refúgio.

Dois meses e alguns dias depois...

A necessidade da vida cotidiana cessara e os camponeses retornavam a seus lares, desgastados por um longo dia de dragagem no campo. Era chegado o crepúsculo, e o ar gélido manifestava-se aos poucos, envolvendo a paisagem da flora com o manto da noite, distorcendo sua beleza natural e dando-lhe um aspecto assustador.

Em meio ao ar noturno, saindo do humilde casebre e andando com um pouco de dificuldade devido ao peso da barriga, Rúbia levava consigo um cântaro de barro, seguindo rumo ao poço para pegar água. Abeirada junto a ele, lentamente foi girando a roldana de madeira, descendo o balde às suas profundezas. Subitamente, uma figura se aproximou. Era uma velhinha de estatura baixa, cujo corpo estava coberto de panos mal-ajambrados. Seus cabelos eram brancos feito leite e sua face, castigada pelo tempo.

Rúbia sentiu uma onda de calafrios espalharem-se por todo o seu corpo no instante em que seus olhos pairaram sobre a estranha. Então a ouviu perguntando-lhe:

- Olá. Qual é o teu nome, minha querida?

- Rúbia... - murmurou ela.

- Que fazes aqui, Rúbia?

- Estou tirando um pouco de água fresca.

Encostada à beirada da cisterna escura, a estranha velhinha cruzou os braços para avaliar o esforço da moça.

Após um curto silêncio, a mendiga perguntou novamente:

- Pelo jeito, a barriga te incomoda para fazeres as tuas atividades corriqueiras, não é mesmo? A jovem, cabisbaixa, nada disse. Porém, a outra insistiu.

- Tu não és casada? Não tens ninguém que te ajude? - especulou a mulher.

Land's olhou para ela com desagrado e, não suportando tantas interrogações, lhe respondeu:

- Existem somente eu e meu filho, que ainda não nasceu. E a única e suficiente ajuda que obtive foi a dos aldeões daqui, que com muito carinho e bondade acolheram-me. Deram-me um lar e comida, mas não é por causa do meu estado que eu não posso cuidar de mim mesma!

- Oh! - surpreendeu-se a mulher, olhando com os olhos engordados em direção ao casebre. - Desculpa, criança, não tive a intenção de incomodar-te.

Pediu licença e foi embora o mais depressa que pôde.

No instante em que a camponesa viu aquela senhora pobre movendo-se cabisbaixa, seu coração bateu forte no peito e, açoitada pelo arrependimento, clamou, dizendo:

- Por favor, esperai um instante... De súbito, a mendiga se deteve.

- Peço-te que me perdoe, pois ando muito assustada...

A velha imobilizou os lábios em um sorriso desdentado, enquanto a observava por um momento. Em seguida, andou até ela, dizendo:

- Não, minha cara, sou eu que tenho de pedir-te perdão. E, num gesto repentino, aproveitando-se de sua proximidade, agarrou bruscamente o antebraço da desprevenida moça.

A sombra do medo envolveu Rúbia, deixando-a em estado de inércia.

Com olhar de uma loba faminta, a não tão indefesa velhinha manifestou palavras que gelariam o próprio inferno:

- Eu vejo o pânico pulsar em teu coração. Siiiiim! Vieste de muito longe, só para encontrar a paz que outrora te foi negada. Foges de um homem perverso, um lorde, que plantou em teu útero a semente da sua geração, e que agora deseja destruí-la. Mas não te preocupes mais, pois este filho que esperas é a chave que abrirá as portas de um grande futuro. Pois está escrito que se levantariam falsos profetas para agirem como o Deus Todo-Poderoso. Contemplai o Dia da Ira, quando o Verdadeiro Regente do homem reduzirá os hipócritas a pó!

Os olhos da campônia se retesaram de lágrimas.

- Cuidado para não desviares de teu destino, ó sacerdotisa reprodutora! Tu ainda testemunharás com o queimor presente em sua alma quando as carnes dos pecadores e incrédulos apodrecerem e caírem de seus ossos, e as suas línguas deteriorarem dentro de suas bocas. Pois as minhas palavras são as palavras de meu Deus. E essas dissertações são como uma mordida agonizante de uma serpente. Uma vez ferida por ela, sua chaga nunca mais sarará e a áspide de minhas palavras são "Renovação"!

A mendiga declarou isso em tom agourento, com os olhos engordados por entre as órbitas e tomada de grande cinismo e eufemismo.

Rúbia, automaticamente, retraiu seu braço da mão gélida da nefasta. E, com frases abrasantes, retrucou o que lhe disse aquela mulher:

- Sejas tu quem for, deixe-nos em paz! - E, ao evadir-se rapidamente do local, deixou cair o cântaro de barro, que se estilhaçou próximo aos pés da apavorante figura.

- De leone serpentem habitabit}! - declarou a velha mendiga, gargalhando e analisando a camponesa que corria assustada.

Entrando às pressas na cabana, Rúbia trancou a porta e, tomada pelo desespero, prostrou-se ao chão, em prantos. Um grito de horror escapou de sua boca, enquanto inclinava a cabeça para baixo.

O frio habitava a noite no vilarejo. A solitária moça estava em seu humilde quarto, deitada de lado, em um leito improvisado de capim, apenas forrado por um lençol amarelado, e seu corpo, coberto e aquecido por peles grossas costuradas umas nas outras. A barriga já imensa a incomodava, pois o bebê chutava constantemente em seu ventre, como se desejasse conhecer imediatamente a face de sua mãe. Demonstrando um extremo carinho e cuidado, ela ignorava as dores, acariciando o ventre com gestos leves e circulares. As mãos escorregavam delicadamente sobre aquela pequena vida. Seus lábios de boneca entoavam melodias reconfortantes como um bálsamo para ambos. Como resposta ao seu ato de amor, era presenteada com movimentos tênues e singelos dos pezinhos do bebê, como se ele entendesse aquele carinho.

Pronunciando palavras em baixa voz, ela declarava seu imenso amor ao filho:

- Tu és a luz divina que Deus me concedeu, e bendigo o Teu Santo nome, ó Senhor, por este presente que me destes.

O tempo se arrastava como o deslizar de um caracol, até que finalmente ela dormiu. O véu do sono cobria sua mente cansada, levando-a a transpor os portais dos sonhos. Lá o caminho da imaginação é livre.

A jovem se viu em um vazio luminoso, com apenas uma estrada da qual não enxergava o fim, mas por onde se pôs a caminhar. Ao seu redor, apenas um vácuo de luz. A medida que andava no caminho do inexplicável, impressionou-se com as cores no ar, que mudavam diante de seus olhos. Ora se tornavam verdes como esmeraldas, depois se transmutavam em uma tonalidade azul-anil, variando alternadamente para uma cor carmesim. Em seguida, houve uma junção de outras cores mescladas com as luzes que antes avistara, como se estivesse entrando no empíreo.

A cada passo, a sensação de curiosidade aumentava intensamente. Um dócil brilho reluzente a rodeava, passeando vagarosamente sobre um mar irradiante. Ela então atravessou a luz e o sonho transformou-se num mundo perverso, absorvendo a razão de sua mente. Suas córneas foram eletrocutadas com algo tão repentino que se arregalaram. Ante o choque, verteu falas calmas em brados aterrorizantes:

- DEUS MEU, TENDE MISERICÓRDIA DE MIM!

A sua frente, um castelo negro materializou-se bruscamente. Seu aspecto não era apenas assustador; mais do que isso, se mostrou bastante perturbador para a mente humana, o que não combina com uma arquitetura como aquela: um edifício bizarro, constituído por uma tecnologia arcana. As formações da maciça fortaleza pareciam insondáveis, porém reais, e aliavam-se a uma conjuntura de apavorantes anomalias.

Das fontes laterais das muralhas, jorrou sangue pútrido. Nas paredes dos muros, pessoas totalmente nuas desprendendo gritos que não são deste mundo. Uma a uma, estavam sendo pregadas às paredes com os ossos de suas próprias costelas por criaturas de aparências abomináveis e distorcidas, horríveis demais para o entendimento humano. E, numa atividade diabólica infligida a esses monstros, as desesperadas vítimas estavam sendo estripadas vivas. Como a agonia nunca demonstrava ter fim, nenhum deles conseguia o afago consolador da morte. Mesmo em estado de sofrimento eterno e manietados por seus próprios ossos, as abominações rasgavam os ventres dos moribundos com dentes e garras afiadas com os quais, em seguida, regurgitavam de suas bocas bestiais um organismo negro, viscoso e mole que se debatia constantemente, querendo enlouquecidamente se alojar nas enormes mutilações expostas.

Dentro dos corpos ainda vivos dos cativos, eram depositadas, nas horríveis fendas das terríveis feridas grandes e purulentas, larvas carnívoras que se banqueteavam com os intestinos dos escravizados; donde dispersavam gritos e choros ainda mais agonizantes e ininterruptos.

Em meio àquele horror, Lands tentou retroceder, mas seu corpo não obedecia. Por estar perto demais da desmesurada fortaleza, a mulher sentiu-se tragada por uma força invisível que a fez levitar, arrastando-a para a entrada do pesadelo vivo.

Feito uma alma condenada, enclausurada pelos incontáveis milênios de sofrimento negro, seu corpo foi violentamente puxado em direção ao portão gigantesco no formato de um triângulo. As portas da entrada erguiam-se ligeiramente para cima, dando-lhe passagem ao se debaterem em pleno ar.

No interior daquela decrépita fortaleza, sua matéria, já desprovida de forças, percorreu flutuando ainda mais rápida, passando saliências concêntricas, formadas de corredores que seguem até o coração do castelo, algo jamais visto por olhos humanos, uma construção aterradora e totalmente inadmissível à razão da consciência.

Ficou tão pasma observando o execrável aspecto do lugar que não percebeu o que ainda estava por vir. Seu momento de distração durou poucos segundos, pois, repentinamente, seguida por um som estrondoso, uma dantesca aberração emergiu bocejando de uma lagoa de plasma fétido e coagulado. Chicoteava sua face, inserido naquela imagem medonha, arrepiando os poros da mera mortal.

Com um olhar esbugalhado, Rúbia contemplou uma árvore monstruosa. Seu tronco era constituído de carne apodrecida, retirada dos corpos de muitos moribundos. Em seus galhos, os frutos eram cabeças humanas que blasfemavam seus pecados, e as folhas, serpentes escarlates que vomitavam vermes. As raízes, semelhantes a trombas de mastodontes, bailavam ferozmente; em suas pontas, cabeças iguais às de tubarões, com dentes afiados, mastigavam a própria língua.

No interior da árvore, um bolsão transparente que se assemelhava ao útero de uma mulher, pulsava feito um coração fatídico. Dentro dele, mergulhado em líquidos pustulentos, habitava um nefasto ser ligado a um cordão umbilical: um monstro abissal de sete cabeças e dez chifres. Em cada uma das cabeças, diademas de fogo, e, na principal, um nome: "Mistério".

No punho da criatura, uma terrível espada exalava trevas, com uma lâmina vampiresca que tragava, de forma insaciável, as almas dos menos afortunados que ali pereceram.

O coração dela parecia saltar pela boca, no momento em que sentiu uma horripilante mão agarrando seu ombro esquerdo.

E, num grito aterrador, despertou.

- Rúbia, acorda! O que está acontecendo contigo?

Com a testa molhada de suor e as pupilas dilatadas pelo pânico, Rúbia observou espantada sua amiga que, coincidentemente, segurava seu ombro na mesma posição que havia visto no pesadelo. Atemorizada, retraiu-se e sentou-se em seguida.

- Que fazes aqui? - indagou trêmula.

- Eu ouvi gritos, por isso vim correndo para cá - explicou a outra camponesa, sem nada entender.

Embora a colega estivesse ao seu lado, parecia estar distante. Com as mãos na face, não conseguia compreender os horrores que haviam sido projetados em sua mente.

Quem era a criatura incubada no interior daquela árvore monstruosa?, indagou para si. E por que eu estava presente em um lugar que mais parecia ser o próprio inferno?

Fora um pesadelo tão inacreditável e insano que ela, até agora, sentia-se incapaz de obter as respostas para aquele enigma macabro. Sua amiga permaneceu de pé ao lado da cama, pois sentira uma pontada de piedade ao reparar no estado de Rúbia, e mais uma vez perguntou:

- O que há contigo? Por que dizes estas palavras tão estranhas? E o bebê, como está?

De olhos semicerrados, ela virou-se para a camponesa e seus lábios trêmulos proferiram o aflito desabafo:

- Elizabeth, não agüento mais este tormento; todas as noites me vejo perseguida por pesadelos horríveis! Preciso me confessar para alguém, caso contrário, ficarei louca!

Tomada de preocupação e curiosidade, Elizabeth se acomodou ao lado da moça, esperando em silêncio a revelação. Então, deixando escapar um suspiro, a afligida começou a falar. Recostada na cabeceira do leito, a outra presente escutou atenta a amarga história.

Por muito tempo, Rúbia manteve segredo sobre aquele que a fez sofrer. Pelo menos desde o dia em que chegou ao vilarejo. Novamente, a mistura de alívio e tristeza invadiram seu simples coração. Como mãe que havia de se tornar, e com muitas atribulações, temia pela vida da criança. Esse fato a forçou a tomar a decisão de revelar a identidade do pai de seu filho.

Entretanto, Elizabeth pensou que ela estava inventando tudo aquilo e, como não queria criar nenhum problema, lhe disse:

- Não te preocupes mais, refletiremos sobre teus receios amanhã; procura descansar agora. - Desculpa ter te usado como testemunha de cena tão vergonhosa e tomado teu tempo - falou Rúbia.

- Somos muito unidas e jamais te deixarei só. Vamos, tenta relaxar; tens que pensar no filho que terás - e acomodou-a na cama, vindo a afastar-se em seguida.

Repentinamente, algo invadiu o pensamento da moça, que, confusa, chamou a amiga que saía: - Elizabeth?

- Sim, o que queres?

- Como tu entraste aqui, se a porta estava trancada?

A pergunta abalou a ambas, e Elizabeth não só pensou que Land's era uma pessoa estranha e aflita, como também que parecia ser bastante alienada.

O silêncio foi quebrado:

- Estás um tanto equivocada, pois, quando cheguei, a porta estava entreaberta... - A afirmação pegou Rúbia de surpresa, enchendo-a de assombro, fazendo-a lançar um olhar de busca ao redor. - Não! Não pode ser! Tu não viste uma mendiga de aspecto fúnebre andando por aí?

- Não... - disse Elizabeth.

Era uma senhora estranha e assustadora, que andou me dizendo coisas horríveis sobre meu bebê, e depois disso saí correndo. Lembro-me de que, em seguida, tranquei a porta com uma corrente em um cadeado... Elizabeth percebeu que Land's estava muito perturbada, exprimia um amontoado de devaneios, realmente uma situação embaraçosa.

- Amiga, minha gente trabalha no campo há anos e, por mais humilde que seja, cada um tem seu próprio lar. Nasci aqui e, em todo esse tempo, jamais vi essa velha peregrina que tu mencionaste.

- Elizabeth, estás me dizendo que inventei tudo isso?

Então, o olhar da colega desfaleceu e ela se retirou do quarto sem mais nada a dizer. A voz de Rúbia se perdeu nos quatro cantos das paredes, enquanto suas mãos frágeis percorreram a face suada.

Elizabeth deixou a cabana um tanto desconfiada daquela história e do porquê de Lands afirmar tais absurdos. Verdade ou mentira, ela tomou aquilo como um indício de que a camponesa se perdera na paixão por algum jovem aventureiro. Depois, por certo, fora expulsa de casa por ter desonrado a imagem íntegra da família. Por isso peregrinara muito, até chegar à vila. Por outro lado, a plebeia poderia estar dizendo a verdade e, diante disso, não quis aproveitar a oportunidade de se tornar uma "dama da nobreza" por meio do herdeiro que esperava. Nesse ponto, era deveras difícil saber qual seria o fato que envolvia aquela estranha vida. Refletindo por algum tempo, foi vencida pela dúvida e deixou a especulação de lado. Havia muito que fazer, além de consolar a pobre infeliz. Resolveu, assim, não querer mais saber da vida íntima da colega sonhadora.

O desânimo tomou conta do corpo e do espírito de Rúbia, e naquela mesma noite ela foi quase dominada pelo medo. Deitada em seu leito, lutava arduamente para não dormir, mas a força avassaladora do sono a sobrepujou. Atingindo o auge do descanso, os sonhos giravam em sua mente, num turbilhão de vozes e falas a perturbarem seus pensamentos.

De súbito, o sono lhe foi novamente tirado, mas, dessa vez, por um tom mais elevado. Um timbre cujo som assemelhava-se ao crocitar de um pássaro e que, mesmo originando-se à distância e do lado de fora da cabana, chegava com nitidez aos seus ouvidos.

Alguns minutos se passaram e, sem dar muita atenção, simplesmente mexeu-se para o lado, cuidadosamente, no intuito de achar certo conforto, pois a barriga a perturbava um pouco.

Outra vez, ela escutou o misterioso ser piar com mais intensidade, e uma vez mais. Ignorou-o, não levando em conta a eventualidade do acaso. Minutos depois, quando tudo parecia estar calmo, a jovem gestante teve sua tranqüilidade abalada, pois aquele ruído voltou a manifestar-se ainda mais alto, deixando-a confusa e acima de tudo curiosa.

Assim, levantando-se lentamente e com sono, retirou-se do quarto, passou pelo cômodo seguinte e dirigiu-se até a porta.

Assim que saiu, seu coração foi tomado de sobressalto, tão admirada que estava pela esplendorosa visão. A tristeza se dissipou instantaneamente. Ao erguer seu rosto em direção ao céu enluarado, avistou admirada um intenso clarão sobrevoando o vácuo estrelado. De dentro daquele lume de luz, uma águia branca se revelou. A mesma que tempos atrás havia pousado em seu antebraço, enquanto a donzela entoava seus cantos melodiosos para Deus, na época em que vivia feliz em sua terra natal.

Atônita e com os olhos banhados de lágrimas, contemplou a magnífica ave que brilhava intensamente, voando em círculos sobre sua cabana. Rúbia deu uma longa risada, pois se sentiu abençoada diante

daquele evento miraculoso. Para uma mulher que vivera desenrolando os pergaminhos de puro sofrimento, aquela cena a ungiu com o bálsamo de pura paz, acalentada pela presença divina de um Pai Universal.

Mas havia algo estranho. De uma maneira curiosa, aquele ser alado fazia acrobacias um tanto desconcertantes, como se a chamasse em seu auxílio, por meio de voos rasantes, demonstrando com sinais o pedido de que o acompanhasse para algum lugar.

Mesmo um pouco ressabiada, a moça resolveu seguir a águia alva. Mas, antes de prosseguir, a camponesa estendeu devagar o braço, em posição reta, porque precisava ter certeza se aquilo era fruto de uma imaginação alienada ou um presente dos céus enviado solenemente para sanar todo o seu temor. De alguma forma, queria ter a conclusão pelo contato.

O pássaro pareceu entender a fragilidade e o receio emanados do íntimo da jovem, mas, constatando sua concordância, pousou suavemente em seu antebraço, como fazia no passado. E assim que Rúbia sentiu o toque macio da ave rara reconheceu que se tratava mesmo de sua amiga que há muitos anos não via. Exibiu um sorriso longo de felicidade, dobrou sem pressa o braço, vislumbrando com intenso respeito o ser de notável beleza, plurnagem e formosura. Piando inúmeras vezes, a figura alada comunicou-se com ela num diálogo entre dois seres, mulher e natureza juntas, ligadas em um fascinante e profundo estado de comunhão. Então, de repente, a jovem estendeu o antebraço, donde o pássaro se lançou para o alto, voando em direção à mata.

Ao entender a mensagem que lhe foi enviada, a mulher ignorou as dores e o peso de seu ventre e vagarosamente encaminhou-se para a floresta sinistra, iluminada pela rainha de prata.

Passo após passo, ela penetrou no santuário natural, tendo por companhia e guia a amiga alada, que permaneceu voando em meio às árvores. O vento noturno e frio ondulava os trajes em volta da graciosa figura de uma calipso gravídica. Os raios do luar filtravam-se pelas frestas da flora, e a trilha à frente se alongava, expondo uma paisagem mais espessa e estreita.

Apesar da impressão de que havia algo à espreita em meio às sombras dos carvalhos, Rúbia agiu tranqüilamente; ela não sentiu nenhuma sensação de perigo iminente ou de aflição, mas sim a proteção divina que aquecia sua alma com as asas da fé.

O cansaço quase a dominou, e um minuto a mais seria o suficiente para que ela caísse de joelhos; porém, o que aconteceu a seguir renovou-lhe as forças.

Ela viu a luz adiante desaparecer e, em seu lugar, avistou a imagem de um homem tombado; um cavaleiro que, gravemente ferido, murmurava baixo em aflição. Tinha no seu peito uma flecha longa e negra mista em carmesim, plantada profundamente, talvez a centímetros do coração.

A seta pontiaguda havia causado danos enormes a outros órgãos, e o sangue vertia em abundância. Completamente desvalido, ele mal podia se mexer: sua armadura estava em pedaços, a malha de ferro rasgada em várias partes, completamente fragmentada, e o corpo daquele desconhecido totalmente ensangüentado. Ele mais parecia uma alma que havia fugido do inferno.

A primeira reação dela foi de aproximar-se ainda mais do pobre homem. O coração da moça demonstrou um intenso estímulo de piedade, porém, dada sua circunstância atual, o odor do sangue daquele indivíduo lhe chegou até o nariz, de modo que lhe causou enjoo e teve de se agarrar ao tronco de uma árvore. Sentiu, pois, a cabeça rodar e o estômago entrar em grande turbulência. Foi visitada em seguida por ânsias de vômito, o que era natural naquele momento, e o frio intenso da noite ressecava a pele fina de sua face. Um suor fétido e febril escorria rubro sobre o rosto do forasteiro, que balbuciava baixinho gemidos delirantes. Olhando para cima, Rúbia não mais encontrou sua parceira voadora, que misteriosamente havia sumido. E tudo o que contemplou foi o céu de estrelas, onde a rainha Lua continuava a brilhar soberana. Imaginou então, naquele momento delicado e decisivo, que o pássaro fulgurante poderia ter sido um anjo enviado por Deus para amparar aquele pobre moribundo que se

encontrava em agonia. E o militante, com os olhos enfraquecidos, quase não conseguia enxergar o semblante piedoso da mulher postada à sua frente.

Devido à perda excessiva do líquido vital e do esforço para manter-se consciente, as pálpebras pesavam-lhe cada vez mais, fazendo-o desfalecer.

Ele sentiu o breu das trevas vagarosamente se manifestando em seus olhos, como se estivesse imergindo no útero das sombras. Então desmaiou.

Ele avistou a esperança nascendo novamente, leve e descompassada, sorrateira na noite fina. Transpondo os véus da morte, imigrando em direção à luz da vida, abandonando atrás de si a amante frígida, das quais muitos guerreiros não escapam. O ar fresco passou pela face cansada, e lá fora o brilho do sol espalhava-se ao vento, provando-lhe que ainda pertencia ao mundo dos vivos.

Nos dias que se seguiram, Rúbia Land's precisou do apoio de todos do vilarejo e das habilidades medicinais de um velho médico para poder ajudá-lo.

Nesse dia, ele acordou vagarosamente do suposto mundo dos mortos. - Eu... Estou...? - perguntou o paciente, envolto em faixas por todo o tórax.

- Tu realmente tens a ajuda dos céus, pois sangraste em excesso. Toma deste caldo grosso; isso irá ajudar- te a recobrar as forças.

- Onde... estou? Que faz uma mulher grávida aqui neste lugar? Rúbia explicou devagar:

- Estás seguro em minha cabana. Encontrei-te quase morto na floresta. Por não ter forças suficientes para erguê-lo, voltei e pedi ajuda aos aldeões para que fossem comigo resgatar-te.

Mesmo sentindo muitas dores, o homem demonstrou gratidão e simpatia pela jovem:

- Gostaria de agradecer os cuidados que tu e teu povo tiveram comigo. Sinto que, se tu não tivesses me encontrado, meu fim seria concluso - disse isso segurando delicadamente a mão da moça.

Embora estivesse lúcido, ele estava um tanto lento e desconfortável mediante a gravidade dos ferimentos. Sua mente estava desordenada, mas mesmo assim conseguiu projetar nela o retrato de uma guerra sangrenta, lançando-o em pensamentos fúnebres. Esfregar seus lábios machucados não apagava da memória o horror de ver gente sendo mutilada por espadas e lanças impiedosas. Essa não é uma situação prazerosa, nem uma que se queira sentir novamente, porque o flagelo que sentira em sua carne fora apenas um espinho na pata de um felino, se comparado à aflição que ora habitava cruelmente sua alma.

- Tu deves ser um combatente. Concluo pelo pouco que restou de tua armadura. Mas como foste parar naquela mata, e quem o atacou dessa forma? - perguntou Rúbia, que, envergonhada, afastou sua mão da dele, tomando em seguida certa distância.

- Mulher, tu perguntas demais.

E ela silenciou, enquanto ele continuou:

- Por outro lado, foste tu que me salvaste. Então, tenho uma dívida para contigo. E dispensou-lhe um sorriso, mesmo entristecido com as aflições do corpo.

Por certo tempo, aquele homem de porte robusto a observou, encantado com a sensualidade aprazível de sua beleza jovial, deixando a moça quase sem jeito e avermelhando seu rosto formoso.

- Como te chamas? - perguntou ele.- Rúbia...

- Estás com o semblante rosado, por acaso tens receio de mim? Ela, por sua vez, sorriu timidamente.

- Não é isso... É que nenhum dos homens que conheci fez-me sentir dessa forma. - Como assim?

Rúbia cruzou os braços e o olhou com atenção. - Deixai pra lá.

Então, ao notar que havia à sua frente uma delicada flor do campo, usou de brandura em suas palavras e demonstrou todo o seu apreço pela jovem, quando declarou sorrindo:

- Rúbia, não precisas ficar acanhada na minha presença. Na verdade, tua companhia é de grande valor. --- Vê, ajudaste-me a esquecer um pouco as dores.

As palavras do cavaleiro invadiram o local como um aroma de rosas, perfumando tudo à sua volta. O som agradável daquela voz vinha de forma graciosa, limpando o coração delicado e a alma aflita da mulher de toda desconfiança. Assim, sentindo-se amparada por aquelas frases eloquentes, sentou-se próxima a ele.

- Tu falas como se fosses um nobre, um rei. Quem tu és, donde vens e por que me dizes palavras tão agradáveis? - indagou a formosa camponesa, calma e lentamente, mantendo sempre os olhos semi- abaixados.

- Já te disse, salvaste-me a vida, e meus agradecimentos, mesmo sendo sinceros, nada são comparados ao teu ato. E já que desejas saber sobre mim, eu te contarei - respondeu com carinho. - Não é fácil dizer-te o que passei, mas tudo bem...

Ela retribuiu sua fala com um olhar alegre, dizendo: - Podes confiar em mim.

- Meu nome é Loan Horsham; pertenci a uma família de remanescentes da sagrada Ordem do Leão... Pertenceu?!

- Sim. De todos os membros da família, eu fui o único a abdicar de todos os privilégios. E queres saber por quê?

- Sim.

- Havia um fator estranho em minha vida. Por mais bem-sucedido que fosse e cobiçado por muitas donzelas, aqui dentro, no fundo do meu coração, sentia que algo me faltava - disse, tocando de leve o peito envolto de faixas. E Loan iniciou a odisséia de suas raízes, apesar de um pouco fraco, decidido a revelar tudo a ela.

Ele era filho do conde Charlie Horsham, um homem severo e muito respeitado pela sociedade fidalga, assim como temido por seus adversários.

Por meio de inúmeras vitórias em guerras travadas, a família gerou uma insígnia nobre. Sua heráldica era o brasão do leão candente, título recebido como significado de soberania e força.

Para Loan, todos os títulos e as propriedades não passavam de mera ilusão. As batalhas travadas, os inimigos massacrados, para quê? Procurava um significado para aquilo.

E Rúbia ouviu uma história de lutas fúteis, cobiças insanas e desejo pelo poder.

Depois do tempo próprio, as horas avançaram, e a luz dourada do sol se avermelhava rápido. O crepúsculo velado estava cada vez mais escuro, permitindo apenas ao vento gélido apresentar a noite em meio ao farfalhar de galhos e folhas que caíam fenecidas das árvores.

Quietas estavam as ruas de Birmingham. Os poucos que as percorriam moviam-se com a rapidez de um gato. As pessoas mostravam seu desdém negando-se a olhar para o céu, desacreditadas de que Deus ainda estaria lá.

Mesmo em suas casas, com portas trancadas, mercados e estalagens fechados, aquele povo podia ouvir claramente cânticos entoados em uníssono. Na praça, reuniam-se grupos de sacerdotes encapuzados de preto, que prostravam-se, gritando sobre as pedras brancas e ásperas do pavimento. Não só o vilarejo, mas também toda a região estava em pânico total, pois aquela horda de sacerdotes enaltecia o nome da Deusa Mãe. E seus seguidores aumentavam de maneira impressionante. Muitos cristãos que já haviam perdido a fé foram convertidos e experimentaram o poder do lado negro que desafiava todos os nobres, e o conselho feudal da Grã- Bretanha media forças contra sua deusa.

Em boa parte, quase todas as crenças religiosas estavam sendo apagadas pelo ceticismo. Permitiram que a escuridão fizesse um ninho sobre eles, entre os quais, a cada nascer do sol, um corpo era encontrado com os membros estripados nos altares de seus próprios templos, como oferendas aos deuses pagãos. Pressionados pela maior parte da plebe e pelos senhores feudais, juntaram-se em plenário reis, governadores, marqueses, duques, condes e toda a burguesia do clã de cada país, para debaterem o grave assunto e a perigosa situação.

Participaram também os prelados, os capelães e os membros de variadas igrejas, na tentativa pacífica de ajudar os fidalgos a esquecerem suas divergências políticas e religiosas e a formarem uma assembléia que fizesse o exame daquela questão avassaladora.

Muito foi falado a respeito dos trágicos acontecimentos ocorridos em suas terras natais e no resto do mundo, especialmente na Inglaterra e nas amplas regiões de toda a Grã-Bretanha.

Após algum tempo de discussões, organizaram uma comitiva que acompanharia as idéias e as estratégias necessárias para darem solução ao caso.

Os Horsham também se faziam presentes. Ao lado de seu pai e de seus irmãos, Loan sentia a repugnância percorrer suas entranhas, e o palpitar do seu coração foi aumentando cada vez mais no decorrer daquela reunião. Ele já tinha ouvido muitos rumores, mas aquele discurso foi tomado como uma atitude herética, pois eles apenas discutiam como poderiam ocultar seus tesouros dos olhos da plebe e do exército ímpio, caso a guerra fosse iminente. Propriedades e animais seriam prioridade de proteção; recrutariam os jovens, os velhos fazendeiros e depois as pessoas saudáveis da zona urbana, para lutarem pelos seus reis e pelos senhores feudais, que, dessa maneira, estariam prestando auxílio a seu país. As igrejas seriam defendidas a todo custo contra a depredação dos invasores, nem que isso custasse as vidas dos servos e dos alforriados.

As palavras foram sendo sussurradas lentamente de sua boca, mas algo o forçava a gritar como um louco. Tamanho fora o asco que seu ser mal pode se conter e, levantando-se do auditório, o homem bradou em alta voz:

- Vós! Matilhas de lobos insaciáveis, como podeis julgar serdes justos, se sacrificais o vosso próprio povo sofrido, permitindo que pessoas, assim como ovelhas, se arremetam à lâmina do machado do inimigo? Sois iguais a chacais que comem da carniça de suas riquezas e depois, não satisfeitos, devoram- se uns aos outros como abutres esfaimados!

A multidão burguesa ficou totalmente emudecida, diante daquelas ousadas e pesadas frases que surtiram o efeito de um chicote de espinhos, açoitando o orgulho de todos que se julgavam importantes naquele recinto. Alguns deles chegaram até a deslizar os dedos no cabo de suas armas, enquanto a chuva de protestos continuava a atingi-los numa violenta declaração:

- Hereges! Como podereis escapar da ira de Deus? Arrependei-vos de vossas iniquidades, e abandonai essa fortuna ilusória, que vos levará a arderem no lago de fogo do inferno! E verdade que devemos defender nossa terra amada desses bárbaros, mas que lutemos todos juntos sem que tenhamos que usar a nossa gente oprimida como escudo. E, se tivermos que tombar, morramos então como verdadeiros varões de honra e não como os covardes que aparentais ser!

Homens com olhares irados murmuravam entre eles; já outros formavam um cerco contra o opositor, que continuou:

- Vós comestes uma vespa e, no entanto, vomitais uma serpente. Bendito será aquele que se humilha e louva o nome de Cristo com dignidade, pois não foi para isso que Ele criou este mundo, para que pudessem manchá-lo com o sangue dos inocentes!

- É Loan, o filho do conde Horsham... - sussurravam indignados.

Não suportando o tamanho ultraje, o conde esbofeteou violentamente o rosto do filho e, num ato de furor, puxou a espada da bainha, levando a lâmina ao rosto de seu próprio rebento. Loan não entendeu de imediato por que o conde fizera aquilo.

- Por que bates no meu rosto e, em seguida me ameaças com a tua espada, pai?

- Cala-te, seu maldito! - retrucou Charlie Horsham. - Desonraste a sabedoria deste conselho e a imagem da família com tuas ofensas e calúnias! Embriagaste-te tanto, a ponto de usares os Ensinamentos Sagrados para maculares o meu nome?

Durante um momento, o silêncio pairou naquele local. E, então, veio o grito do primaz:

- Sacrilégio! Esse jovem, além de nos sujeitar à vergonha, também é um assecla do diabo, e sua alma terá de ser purificada. Prendei-o e o preparai para o juízo do Santo Ofício!

Todos os fidalgos, tomados pela euforia, exigiam sua morte, enquanto os guardas se aproximavam para efetuar a prisão.

Com o corpo ereto, numa atitude de desafio aos seus, o conde Horsham estendeu seu braço com a palma aberta em direção aos subordinados; logo em seguida, intercedeu pela vida de seu rebento.

- Por favor, eminência! Rogo-vos que perdoeis a imprudência de meu filho, que, mesmo sendo um varão, pouco sabe das dissertações heréticas que aqui proferiu.

Novamente alguns nobres silenciaram. Outros, porém - a minoria - discordaram do pedido de Horsham. Então, um grito repentino surpreendeu a todos:

- Caro milorde! Todos que aqui estão ouviram claramente essas heresias e ficaram completamente perplexos com essa insanidade verbal. Contudo, vós pedis ao Tribunal Ministerial da Santa Madre Igreja para que redima o perjúrio deste homem?

De forma alguma desejo suplantar vossa autoridade - replicou Charlie, em objeção àquele nobre que o encarava com um olhar de lobo. E, voltando-se ao cardeal-patriarca, argumentou com engenhosa sabedoria:

- Mas vós, como ministro de Deus, e com toda a vossa sabedoria, bem deve saber que a misericórdia é uma virtude e o perdão é um dom dos céus que lhe foi dado.

Ao ouvir tais palavras, o cardeal e os membros da classe clerical sentaram-se em suas cadeiras e, com olhares soberbos, avaliaram ponderadamente o clamor do fidalgo com todo o conhecimento que possuíam. Por um breve tempo, eles confabularam, até que, dada a decisão final, o primaz fitou os olhos no conde.

A expressão séria do prelado desconcertou ainda mais o nobre, e ele sentiu como se uma garra de aço esmagasse seu coração. Contudo, permaneceu em silêncio, esperando o veredito.

- Se vós realmente dizeis a verdade, provai a todos aqui presentes que ele não é um traidor da Santa Igreja de Deus e nem da pátria de Vossa Majestade!

Aliviado e ao mesmo tempo aborrecido, Charlie Horsham dirigiu um olhar frígido a Loan, enquanto desembainhava sua lâmina. E com a espada em punho afastou-se de Loan, em segundos realizou um ato ousado que poucos teriam coragem de executar.

- Com a vivacidade do meu sangue, provarei a fidelidade de minha família à coroa real e principalmente para vós, eminência!

Suas palavras deslizaram juntamente com o sumo espesso, assim que o aço afiado talhou a palma da sua mão esquerda. Tal audácia causou assombro a muitos que protestavam. O sangue vertido daquele nobre devolveu àquela turba de senhores feudais a honra medíocre que achavam terem perdido.

Os irmãos de Loan, condoídos pela vergonha que o pai passara, prestaram-lhe auxílio. Entre eles, um despojou-se de sua capa e envolveu com todo o cuidado a mão ferida que sangrava excessivamente. Naquele momento, era lorde Horsham que se sentia laçado pela desonra e, em voz baixa, ordenou que os vassalos e seus filhos, exceto aquele que o humilhara, seguissem-no imediatamente.

Loan tentou justificar-se, mas foi abruptamente barrado por seus irmãos, que o menosprezaram. As lágrimas brotaram de seus olhos castanhos e pela primeira vez sentiu a solidão abraçá-lo. Sua mente

ficou confusa e, nesse momento, poderia ser comparado a um anjo expulso do paraíso: abandonado pela sua própria estirpe e rejeitado por seus amigos.

Em silêncio, Loan percorreu a passos lentos o piso liso do salão, em meio aos opressores que se entreolhavam em silêncio. Ele foi tomado repentinamente pelo receio e pela vergonha, sentindo em seu coração uma grande relutância pelo que havia feito e uma aversão de si mesmo.

De repente, outra figura robusta interpôs-se entre ele e a saída. Como prova de provocação, lançavam- lhe insultos:

- Ei, cão! Acaso achas tu que o sangue vertido deste lorde foi mesmo o suficiente para restituir as máculas de injúrias, às quais nos expusestes? - dizia Howell, com um tom ferino e opressor.

Loan levantou seu olhar em direção à face inescrupulosa daquele homem que ostentava o título de chanceler. Sorrindo e com pena, mesmo com o pesar que havia abatido seu espírito, não hesitou sob nenhuma circunstância em lhe responder:

- Se tu não tivesses pecado contra ti mesmo e contra Deus, certamente aceitarias a verdade com muita mansidão, pois ela não nos leva à perdição, mas nos ajuda a encontrar a Paz Eterna, algo que os teus tesouros corruptíveis não te podem dar. Mas, como cometeste vitupérios ante teus semelhantes, a "verdade" te feriu como uma faca de dois gumes, transpondo a tua alma vaidosa.

Loan reparou que a mão do chanceler estremeceu junto à lâmina embainhada. Por um momento, ele ficou ali observando, estudando a reação daquele homem que a qualquer instante poderia estar com sua arma em punho e cobrar com a vida o preço de seu orgulho ferido.

- Tens muita coragem, fazes jus à tua raiz - disse o fidalgo, com palavras que mais pareciam a morte se anunciando.

Houve uma pequena pausa, tempo suficiente para que se conhecessem. Então, sem mais nada a dizer, Howell abriu espaço para Horsham, que seguiu direto, sem nenhuma preocupação de olhar para trás.

Capítulo 2 ALIANÇA SANGRENTA

Seus pensamentos fizeram com que se sentisse agoniado, e agora não mais conseguia reprimir os lamentosos acontecimentos que selaram seu âmago.

Loan contou vagarosamente sua desventurada história repleta de dissabores.

Dias atrás, se não estivesse ferido daquela forma, talvez tivesse relatado os fatos aos membros da Igreja, já que foi destituído para sempre dos laços familiares.

Agora, ele nem mesmo sabia onde estava, talvez muito longe do antigo lar. Seus sonhos foram consumidos pelo destino, fazendo-o perder qualquer esperança de sua vida aproximar-se de uma realidade próspera e abençoada.

Ele era duro até consigo mesmo, o que não era surpresa para os nobres que deveras o conheciam. Horsham também o conhecia bem e conhecia a linhagem que o gerara. Isso o fazia sentir falta das aulas de combate que praticava com um espadachim e esgrimista muito habilidoso: seu pai. E agora, Rúbia era o único ser humano ali presente, mesmo nada sabendo a respeito dela; entretanto, era nela que estranhamente depositava toda a sua confiança.

Ele se lembrava nitidamente de tudo. Sabia que outros burgueses murmuravam coisas más a seu respeito; todavia, o que mais o magoava realmente não era o acontecido no comitê, mas sim o que ocorreu na noite em que retornou ao castelo dos Horsham.

A sensação era como o arfar de um chacal que está prestes a morrer, no instante em que testemunha o olhar repulsivo de seus parentes. Vagarosamente, contemplou triste o choro de sua mãe, cujas lágrimas molharam seu requintado vestido, ao mesmo tempo em que ela tinha os delineados lábios lacrados ante a autoridade do consorte.

Seus irmãos ausentaram-se, pois nenhum deles queria ser seu intercessor. Como a maioria dos jovens nobres daquela época, Loan aguardou pacientemente a presença do pai, para ouvir ou receber algum tipo de represália, após ter cometido algo que desmoralizou a imagem da família.

Porém, mesmo angustiado, respeitou a lei familiar e sua tradição, algo que para ele significava honra e disciplina.

Então lá estava ele, o conde Horsham, um homem de estirpe, que descia lento os degraus de pedra, de peito ereto e com o manto de opressão estampado no olhar. Ao mesmo tempo, escondia seu coração partido, indeciso com o que iria pronunciar. Mesmo assim, foi ter com ele.

E, naquela noite, o conde declarou ao filho o preço de sua vergonha, a sentença formulada, e o perdão esperado lhe foi negado.

O destemido moço, com a expressão contrita, observava a mão ferida do fidalgo, que fora talhada pela espada e cujo sangue havia comprado a vida de um membro da família: a sua. Em troca dessa redenção, Loan teria que deixar de ser um dos Horsham e abdicar de suas raízes e dos laços familiares que antes lhe pertenciam por direito. Acima de tudo, deixaria de representar a Ordem do Leão, título que simbolizava o respeito e os poderes entre os senhores bretões.

Depois, o conde deu a ele a parte que lhe cabia de sua herança e ainda lhe forneceu um bom cavalo. Também lhe entregou comida e água por uma semana, além de uma capa vermelha, mas sem o brasão da família, transformando-o em um viajante qualquer, sujeito até a mendigar uma noite de abrigo.

Montando em seu cavalo, compreendeu que aquilo não era um sonho. O ex-nobre foi obrigado a ignorar a piedade de sua mãe, dos servos e das amas, acatando a ordem do pai sem opor-se a nada. Tudo o que ele pôde fazer foi menear a cabeça debilmente e de maneira desfalecida, afastando-se em seguida.

Loan partiu para terras distantes, rumo a um novo destino, sem nenhum medo de se arrepender e sem olhar para trás, como lhe foi ordenado.

Saindo de Londres, passou por longas e densas florestas, além de estradas estreitas, viajando muito até chegar a Birmingham, totalmente convicto de que iniciaria uma nova vida, por novos ideais.

Queria nascer de novo; me lavei daquela escravidão monárquica, para encontrar a verdadeira riqueza com meu Deus! O que me faria falta seriam os meus entes, e nada mais - acrescentou Loan à jovem. - Sabe, depois que fui banido de meus domínios, tive um exemplo para carregar por toda a vida. Meu pai pôs a honra e a posição social acima de tudo, até mesmo da família, e isso jamais farei com outra pessoa. Com clareza, tive plena convicção de que, de tudo o que foi dito àqueles homens, nada havia sido em vão. Abandonar tudo por amor a Deus era meu maior desejo, pois queria ser diferente deles. E ele sabia que eu estava lutando para tornar a vida melhor para todos e construir um lugar de amor e solidariedade para os filhos do amanhã, para que não se sujassem com a imundície chamada ganância.

Mas isso é muito triste... Como pudeste passar por tudo isso e ainda continuares perseverante? - indagou a moça.

É pela crença em Cristo, o verdadeiro Verbo do Deus Vivo. Foi pela procura obstinada desse tesouro celeste que perdi tudo o que mais amei e conquistei neste mundo. Mas, se te apegares à fé viva e não medires a potência do visível e do invisível, torná-la-ás a cura das feridas, o alívio para a alma, e será também a esperança e o bálsamo para teu coração contrito.

Ele havia dado quase tudo o que tinha para as pessoas que nada possuíam. Doara seu melhor cavalo para um pequeno e modesto sitiante, que perdera seu pangaré ao ter a pata quebrada. Como o dinheiro lhe era escasso, sem outro animal para ajudá-lo a arar a terra, o pobre, com sua esposa e filhos, certamente enfrentaria muitas dificuldades para sobreviver.

Com o ouro que possuía, Loan ajudou a muitos sem pestanejar, comprando mantimentos para quem não tinha o que comer e ainda providenciando remédios para os enfermos. Assim, demonstrou o verdadeiro sentimento de amor ao próximo, sem pedir nada em troca a nenhum deles, e logo foi se tornando amigo do povo. Todos gostavam dele, inclusive os fundadores do povoado.

Embora tudo aquilo fosse gratificante, na verdade, o que realmente queria era tornar-se um discípulo de Deus, entregar-se a Ele de coração e alma e manter sua natureza ligada a Cristo Jesus.

Ao lado de peregrinos, o cavaleiro do leão rumou para uma nova jornada. Saiu de Birmingham, indo para Kidderminster, depois Stourport. Após muitos dias, chegaram às margens do Rio Severn. Atravessando- o, pararam em Gloucester para um breve descanso. Totalmente obstinados, partiram no dia seguinte em direção à longínqua Shepton, não muito longe do Canal de Bristol. Levam alguns dias e noites, mas, para os peregrinos, isto é apenas uma simples rotina aventureira.

Chegando ao seu destino, o solitário viajante separou-se da caravana e foi a um mosteiro antigo.

O frio avançava por toda parte. As matas enegreciam quando o brilho do sol escapava ao seu alcance. Nesta hora, os insetos apareciam bailando e a claridade se afrouxava após o dia. Iniciava-se o crepúsculo.

Na abadia, os frades o recebiam com muito carinho, mas a alegria deles tornou-se ainda maior quando o abade ficou sabendo qual era a intenção daquele inesperado visitante: instruir-se nas aprendizagens religiosas, exercitar-se e passar provações a que se sujeitam naquela ordem.

Para tornar-se um monge, Loan, como noviço, passou por uma longa penitência, para a remissão de seus pecados e para a purificação da alma. Depois renunciou a si mesmo, jurando um voto solene de castidade, rejeitando os deleites da carne, os manjares desta Terra, e os perigos do vil tentador e seus sete pecados mortais para servir somente ao Deus vivente.

Após passar pelo culto de ascensão e ordenação em nome do Nosso Senhor, Horsham teve seus cabelos cortados e suas unhas aparadas; em seguida, foi cuidadosamente trajado pelos membros do mosteiro e se tornou, então, um súdito a serviço da moralidade e das leis da Igreja.

Vestido de um traje mongil, ele recolheu as roupas antigas e atirou-as ao fogo. À medida que as chamas começavam a lambê-las, seu espírito sentia estar se desenleando para sempre do perverso mundo. Pela primeira vez se rejubilou com uma paz que jamais sentira antes. E assim permaneceu por sete meses.

Em uma noite calma e serena, o novo frade dormia tranqüilo em sua simples cama, quando, de repente, um clarão surgiu rasgando o ar à sua frente e o despertou. Uma aparição surpreendente e magnífica tornou o ocupante daquele aposento aterrorizado e ao mesmo tempo alerta.

Por um longo momento, seus olhos castanhos examinaram fixamente o lume, que vagarosamente atenuava seu brilho, mostrando com clareza que a luz viva apenas abriga e protege o verdadeiro visitante. E, após alguns segundos, a luminosidade desapareceu por completo, e em seu lugar apareceu um menino lindo e de face inocente. Seus cabelos são longos e brancos como a neve e seus trajes ofuscam a visão por tamanha alvura.

Parado perante ele, a figura se pronunciou: - Loan.

- Quem és tu... E o que queres de mim? - indagou surpreso.

- Não temas, cavaleiro do leão, pois estou aqui por ordem do "Grande Rei", para te dar a boa nova.

As manifestações claras e determinantes daquela criança tocaram fortemente seus sentimentos, levando brandura ao seu coração, algo que a riqueza material jamais lhe daria.

Então, disse o menino:

- Eis que meu Senhor, teu Deus, agradou-se de ti, pois deste aos pobres os teus bens e não te arrependeste disso; cuidaste dos doentes e ajudaste os necessitados sem pedir nada em troca. Por isso, as tuas orações, que dedicaste incansavelmente, o Senhor recebeu por bem-aventurança.

E, vendo o anjo, Loan prostrou-se na sua presença e, inclinando a cabeça para levar sua face ao chão, disse-lhe:

- Não te curves diante de mim e não faças nada para me reverenciar! Deves louvar o Unigênito de Deus, dar-lhe graças e engrandecer Seu poderoso Nome.

O monge, levantando-se devagar e com os olhos inundados, indagou:

- Que ato benéfico fiz para merecer essa honra gloriosa? Porventura irei contigo para o paraíso? O emissário da luz estreitou os olhos, respondendo pela segunda vez:

- Mereceste honras aos olhos de Deus com as tuas obras, e Ele escolheu-te dentre todos os homens da Terra por causa de tua caridade e coragem, pois negaste as ilusões deste mundo e enxergaste os tesouros do céu. Tu e o fruto da tua futura geração sereis abençoados grandemente. Tuas ações converterão corações, tanto como são os grãos de areia que estão na praia. Tua mão será a rocha que passará para as próximas dinastias o que ainda há de vir, donde esmagarão a cabeça da serpente rubra através das épocas de sua linhagem, até que chegue o dia em que o Criador porá fim a todo este flagelo.

E Loan deu ouvidos ao varão, que continuou a falar que ele fora escolhido para lutar contra um terrível adversário, o qual não poderia ser morto por armas terrenas e que desencadearia um grande mal na Terra, caso não fosse detido.

Durante três dias, tu deverás preparar-te em espírito, para que não caias em fraqueza. Serás valoroso como o fogo e o broquel nas lutas, pois o que vais enfrentar é maior do que todo o sofrimento do mundo. Horsham escutou atento às revelações sobre o que estaria por vir.

Terminado seu pronunciamento, o emissário de luz se apartou dele do mesmo modo que chegou.

O monge não relutou, pelo contrário, sentiu em seu coração toda a fé se manifestando como brasa e envolvendo sua alma com o fogo da virtude. Horsham sentiu as lágrimas brotando, pois nunca antes tinha sentido tamanho conforto e o poder dos céus ao mesmo tempo. O ar do simples aposento cheirava a fragrância de rosas. Para seu fascínio, aquele aroma significava o perfume da santidade que pairava levemente no local.

E sucedeu que, após três dias, uma visão misteriosa apresentou-se às autoridades eclesiásticas das igrejas de cada país. E assim os países monárquicos formaram uma grande aliança. Cada exército seria liderado por seus comandantes, e cada brigada seria auxiliada por uma horda de guerreiros templários, no caso de o inimigo manifestar suas ações sobrenaturais. Após os países consumarem a junção de forças, reuniram-se vários regimentos responsáveis e experientes no conhecimento de guerra.

Essas instituições que foram criadas misturaram-se às ordens religiosas de padres, frades e seus membros. Além dos votos de pobreza, castidade e obediência, uma regra aprovada e muito antiga foi aceita pelo papa: tratava-se da Lei de São Bento. A diferença fundamental entre os regimentos e as ordens religiosas estava na função militar de combater com a mente pura e o coração limpo pelo supremo e verdadeiro Rei: Jesus.

Antes extinta com mão de ferro e fogo pela Igreja, agora restituída e constituída a nova Ordem dos Templários.

As ordens agiriam do mesmo modo que os templários predecessores no tempo das Cruzadas e eram formadas por três classes: a dos clérigos, que recebia a ordenação sacerdotal e encarregava-se do serviço religioso da instituição; a dos leigos, que representava o papel de escudeiros; e a dos cavaleiros, a força combatente templária, cujos membros foram recrutados exclusivamente entre os fidalgos, cabendo somente a eles o governo efetivo dessa ordem, bem como de suas províncias.

Para mim, aconteceu um fato inédito. Estava na capela rezando, com o crucifixo em minha mão direita, consolidado na plena comunhão com Deus, quando notei a presença de alguém que se aproximava pela porta da frente. Imediatamente avisei meus irmãos de fé e fomos até lá para recepcionar o visitante. Ao abrir a porta, vimos uma horda de soldados ingleses que haviam cercado o local, sob o comando do lorde cardeal.

Meus lábios e os dos meus irmãos frades ficaram cerrados ao mesmo tempo. A seriedade estava estampada nos rostos daqueles soldados e monges templários; um a um fitaram-nos em meio a tochas, na hora em que o lorde cardeal se aproximou de mim e, com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se para implorar minha ajuda. Pediu a mim e aos membros clericais que o acompanhássemos. Cada militante, em seu momento íntimo de reflexão, fez o mesmo, abaixando suas longas lanças e tochas em reverência ao escolhido.

Ninguém pronunciava uma palavra sequer, ninguém se movia. Em todo aquele lugar o silêncio rezava em cada coração bretão. O que se passava nas almas daqueles homens de armaduras de malhas de ferro? Segurança, medo, dúvida ou havia uma forte crença, a mesma que o emissário do Deus Todo-Poderoso havia me presenteado?

No início ficamos apreensivos, mas logo fomos aliviados por suas palavras. O cardeal disse que vinha em nome da paz e que também tinha uma mensagem para minha pessoa. Falou-me em nome de todos os conclaves e prelados: que um anjo de luz mostrara a eles em visões, por meio de sonhos, os terríveis fatos que estavam prestes a sobrevir. Não tinha mais dúvida alguma: Deus tinha um plano de força para minha frágil existência.

A alguns membros da Igreja, por possuírem o temor e a obediência à doutrina divina, foi concedida a visão de que Loan havia sido escolhido para ser um cavaleiro ungido de luz, um guerreiro iluminado que traria a paz duradoura e o terror nas almas de todos os inimigos de Cristo: por ser donzel, não possuir nenhuma mácula carnal, ser abstinente, humilde e ter a prudência como virtude, ostentando um coração puro. A ele foi dada, como privilégio, a autoridade de liderar o exército britânico, sem chance de recusa. Pelas mãos do primaz, Loan recebeu novas vestimentas de guerrilha, tendo estampada, no peito da armadura, a cruz de malta - símbolo da ordem templária. Sua missão seria dizimar os adoradores da besta e manter a lei religiosa e primordial do cristianismo.

Alguns lordes protestaram a respeito, principalmente o chanceler, mas a Igreja reprimiu tal objeção, efetuando ordens papais das mais rígidas, para o apoio total a Horsham.

A Irlanda e toda a Grã-Bretanha uniram-se a Loan, em Birminghan, dizendo: - "Eis que somos o teu braço e a tua espada!"

Também vieram todos os monarcas e sacerdotes de vários reinos para aquele lugar onde o "cavaleiro do leão" fez com eles um juramento de alma. E, perante os olhos de Deus e dos homens, o cardeal untou com óleos consagrados as cabeças dos paladinos escolhidos para comando, para que eles recebessem as graças divinais e trouxessem, aliadas à sua coragem e força, a vitória de suas nações.

Todo o sul e sudoeste da Inglaterra se renderam de forma aterradora aos celtas, que, juntamente com os saxões de intenso poderio, conquistaram a França; em seguida, atravessaram o Canal da Mancha, invadindo aquele país, destruindo cidades e queimando vilas. Ricos e pobres, nobres e servos, plebeus e alforriados foram encurralados sem terem para onde fugir ou se esconder. Uma enorme multidão de dois mil patriotas foi impiedosamente massacrada. Homens foram enterrados vivos dos pés até o pescoço, para terem suas cabeças pisoteadas pelos corcéis dos cavaleiros inimigos. Crianças foram despedaçadas e as mulheres grávidas, atiradas ao fogo. E fizeram isso só para não terem de lutar com a próxima geração de cristãos.

Em Londres, por vários e tenebrosos dias, soldados e mercenários do conde Horsham tentaram resistir à pressão mortal dos bárbaros saxões, mas a máquina de assédio inimiga obteve uma grandiosa vantagem sobre suas tropas. Os anglos haviam rompido a forte resistência do castelo. Alguns deles conseguiram escalar a alta muralha com cordas, outros por meio de escadas, porquanto um grande exército havia conseguido derrubar o maciço portão. Do lado sul, os grupos de vigias foram facilmente vencidos. Os inimigos se agruparam e, bem enfileirados, dispararam flechas de suas bestas simultaneamente. Dois tentaram reter o ataque com os escudos, mas foram surpreendidos por lanças hábeis que zuniam ao vento, indo atravessar a parótida de um deles, que tombou sem desferir um suspiro sequer, e o peito do outro, que caiu muralha abaixo.

Aquele era o dia vermelho, misturado à carne chamuscada por óleo quente e membros despedaçados. Os sons eram agora os brados de ira e medo dançando no ar. Os saxões haviam tomado o castelo Horsham. Todos haviam sucumbido ante as armas e o poder de selvageria daqueles que foram enviados a Ragnarók.

Próximo dali, as planícies inglesas são constituídas por terrenos sedimentares, alternados de camadas resistentes e friáveis, o que resulta num relevo típico: as rochas sólidas são formadas de calcários e arenitos.

Contudo, na Bacia de Londres, onde se originam diversas das demais elevações da região, exatamente ali desenrolou-se uma batalha brutal. O exército do Reino Unido lutou corajosamente com esperanças de repelir as forças rebeldes que dominavam a batalha.

Os brados eram constantes, enquanto espadas e lanças afoitas visitavam as entranhas dos adversários. Mas as brigadas destroçadas dos inimigos fugiam em pânico quando as forças de Loan Horsham, o valoroso paladino do leão, os perseguiam com fé em seus corações, gritando em alta voz louvores ao Deus vivo. Dessa forma, os lobos vorazes foram reduzidos a cordeiros assustados, e os poucos que sobraram não podiam compreender como eles, sendo os mais hábeis e os mais bem armados, foram facilmente vencidos por aquele esquadrão de soldados, sendo que a maioria era constituída de fazendeiros e camponeses.

E as turbas de combatentes celtas de tudo fizeram para resistir ao ataque de selvageria pura dos bretões, que neste instante os assolava. Os três primeiros a avançar perderam a vida estripados pelos golpes da afiadíssima espada de Loan.

Um dos rebeldes largou sua lâmina, já que o escudo não mais existia, numa tentativa inútil de segurar as próprias vísceras que se derramavam da barriga aberta. Outro celta, não gostando do que viu, lançou traiçoeiramente sua lança contra as costas de Horsham, mas, por um súbito instinto, ele se desviou com grande velocidade, indo calar para sempre o outro combatente, que segurava as entranhas em suas mãos ensangüentadas. O soldado olhou para Loan em estado de choque ao ver seu companheiro de combate empalado, cujo corpo deslizava inerte no cabo da lança rumo ao chão carmesim. Ao mesmo tempo, ficou admirado com a agilidade daquele inglês, pois nenhum homem que usasse uma armadura daquelas jamais se esquivaria da forma que ele fez.

Voltando em si seu espírito de animalidade, o soldado celta desembainhou a espada e, desprendendo um grito de ódio, correu ao encontro de Loan. O cavaleiro templário também correu na direção do seu inimigo e, rápido como relâmpago, o celta foi abatido num simples zumbido de lâmina, forçando a garganta a cuspir sua cabeça metros adiante. Com a armadura pintada de sangue, Loan apenas se virou para avaliar o resultado de seu feito.

Seria preciso um oceano de palavras para descrever tamanha matança. Melhor seria apenas dizer: - "Quando o clangor desta batalha terminará?".

Agora o campo estava cheio de cadáveres mutilados e nenhum soldado celta sobrevivera.

Do lado oposto, os guerreiros sobreviventes e muitos dos feridos levemente comemoravam a vitória de pé, com toda a euforia; outros, ajoelhados, recuperavam lentamente o fôlego, em meio ao rio vermelho. Toda vez que Loan erguia sua espada era como um estandarte-guia para um novo combate. Vencida a batalha, uma estrela luminosa anunciava que a procurada vitória resplandecia diante daquele povo. A alegria e o louvor para o Pai Celeste, ante o obstáculo vencido, eram explícitos em seus rostos, mas também perdurava a tristeza e a dor deixadas por aqueles que haviam partido.

Verdadeiros varões de honra e coragem, que deixaram para trás seus pertences e suas famílias para lutar por suas terras e edificar o nome de Deus, tornaram-se mártires para os que ficaram e exemplo para gerações futuras.

Então, essas tropas partiram para Hackney, com destino a Wandsworth, em Londres. Chegando próximos às correntes do Rio Tâmisa, pararam. Em seguida, os fadigados homens montaram acampamento no local para poder passar a noite, porque o sol já era quase posto.

Loan recusou o conforto das tendas e escolheu alguns soldados para que ficassem de sentinela durante algumas horas, enquanto a maioria preparava-se para dormir. A seguir, pegou uma das pedras daquele lugar, envolveu-a com sua capa salpicada de sangue seco e a fez de cabeceira, deitando-se no solo frio. Adormeceu, então. Pela primeira vez, em doze dias de guerra, dormiu profundamente.

E sonhou... Viu dois seres que investiam um contra o outro, numa luta infinda, que nenhum deles conseguia vencer: uma águia branca lutava contra um enorme e demoníaco dragão escarlate, cujas cabeças são símbolos dos pecados mortais.

De repente, a ave mística foi atingida na asa pelas venenosas garras do enorme réptil. E, diante da grave agressão sofrida, suas forças escaparam de sua matéria, e as asas pesaram a ponto de ela cair num baque forte no chão.

Totalmente imobilizada e fraca mediante o terrível confronto, nada podia ser feito, ficando totalmente à mercê de seu adversário. Parecia o fim certo, pois o ser feito de trevas se aproximava revolto, ocultando toda a esperança de que a ave pudesse sobreviver.

Ele estava totalmente determinado a estraçalhá-la, de tal modo que não restassem vestígios do inimigo para enfrentar novamente.

De novo, os músculos da criatura se retesaram e, quando as unhas vorazes estavam perto de alcançar seu objetivo, surpreendentemente um relâmpago foi cuspido dos céus, atingindo a fera bestial, que gritava com lamentos pungentes, fazendo estremecer todo o firmamento da Terra.

O demônio nada entendera daquele ataque brusco, enquanto seu enorme e pesado corpanzil se arrastava em caminho reto sobre o pó da terra. Seu orgulho foi maculado, coberto pelos tecidos da hesitação e do vacilo, entretanto suas mandíbulas malditas pressagiavam a vingança e a morte contra aquele que ousou afrontá-lo.

Então, de súbito, a abominação reptiliana finalmente sentiu, sem nenhuma sombra de dúvida, uma mudança. Ouviu cantares de anjos e de arcanjos que louvavam incessantemente o nome Daquele que se chama Santo e Supremo, que é exaltado e elevado o Teu pensamento, pois grande é o Seu poder.

A fera rugiu com grande ira, soltando lufadas de enxofre de suas muitas narinas, mas uma luz, embora fraca, distante e vinda dos altos céus, esbofeteou os olhos vermelhos do monstro, que se retraiu num ato de assombro. As nuvens vinham alvas, flutuando soberanas no céu, e a aurora que estava por trás delas vinha expulsando aquela paisagem espectral.

De repente, naquele momento solene, houve um novo clarão, como se as massas anuviadas tivessem lançado um arco-íris branco ligando-as à terra. Em forma de uma ponte arqueada e causticante de brilho, a besta escarlate bramia e sibilava de ódio, como se adivinhasse o que estava por vir. Em sua forma extrema, desprendia faíscas, e sobre ele vinha retumbando pelas nuvens um grande leão incandescente, que desceu sobre a ponte iluminada, desprendendo de sua boca um rugido, que saiu com grande estrondo. A criatura da escuridão se sentiu inquieta, assistindo à cena em rosnados, como se estivesse tomada por um desespero repentino, vendo com terror seu pior inimigo se aproximar rapidamente dela. Com toda a imponência e poder, o leão pôs-se entre o dragão e a desfalecida ave caída, que piava num apelo de socorro.

O belo animal, contemplando sua angústia, seguiu em seu socorro e, com todo o cuidado, tocou-lhe a asa ferida, realizando uma cura milagrosa por meio da chama que brotava de sua pata. Mas não cauterizou apenas a parte ferida, e sim realizou a cura da chaga fatal, que já se alastrava por seu corpo. Agregando renovadas forças, abrindo intensamente suas asas e sentindo-se ainda mais forte do que antes, a águia devolveu-se ao céu.

Então a fera flamejante voltou sua atenção ao sáurio bestial. Rugindo com os sons de muitos trovões, lançou-se contra a criatura rubra. O dragão-demônio não esperou pelo ataque e, bradando para o leão, atirou-se encolerizado ao seu encontro.

Foi grande o estrondo causado pelo choque dos dois. Eles se combateram de forma árdua e ferina, como verdadeiros titãs. Lutaram ferozmente, até que o felino de chamas douradas pisoteou a cabeça-líder da besta, cuja boca vomitava injúrias contra o Reino do Altíssimo.

No ar, a ave branca resplandeceu como a luz das estrelas, crocitando num tom ecoante, imergindo contra o dragão-maligno, que já se encontrava subjugado. E as garras do pássaro iluminado arrancaram das órbitas os olhos da besta-fera, para que não mais engane a humanidade com suas burlações astutas. Desprendendo maldições de sua boca imunda e possuída pela ira, o monstro foi horrivelmente tragado pelo poço da própria cegueira, e nunca mais seria visto.

Acima dos dois animais, o pássaro e o leão, um Ser fulgurante como o Sol fez-se presente. E, com uma voz mansa e serena, falou-lhes:

- Sou vosso Deus e Criador. Há muito contemplo vossa obediência e a fé que habita vossos corações, semelhantes a uma rocha inabalável, pois não se deixam burlar pelas trevas e nem pelas riquezas temporais. E por isso os abençoarei, darei a vós a semente da minha Palavra. E dela nascerão os filhos valorosos, que combaterão as hostes malignas e darão uma visão além àqueles que ainda não veem. Eis que estarei convosco e vos protegerei por onde quer que forem. De ambos farei jóias de minha coroa e não vos deixarei até que hajais feito o que vos digo.

Assim que as expressões verbosas e repletas de luz penetraram fundo no coração dos dois seres, eles olharam um para o outro e, para espanto de ambos, admiraram-se: o leão de fogo havia se transformado em um homem, enquanto no lugar da águia luminosa surgira uma linda mulher. E eles estavam trajados com vestes inigualáveis, com brancura jamais vista na Terra.

Após presentearem um ao outro com um sorriso angelical, os dois ataram as mãos e caminharam felizes para o lume celeste.

Despertando repentinamente do sono, os lábios de Loan começaram a murmurar: - O Senhor esteve aqui comigo, neste lugar; deu-me novamente a graça desta visão. Tremendo, prostrou-se de joelhos e disse:

- Meu Deus, por que mostrais para este servo indigno essas revelações?

Ouvindo apenas o ruído do rio, e olhando fixo para o céu, mais uma vez indagou: - Que inimigo será este que assolará ainda mais esta terra tão sofrida?

Novamente os sons da natureza:

- Nesta visão, no meu entender, represento o leão candente; mas quem é a mulher que ostenta o símbolo da águia? Porventura ela é a chave que preciso para vencer o mal?

Mais uma vez o silêncio perdurou, como resposta ao seu apelo. Entretanto, persistindo na fé que habita seu coração, o cavaleiro proferiu palavras em tom baixo, de oração. E sua exaltação seguiu por horas.

Em plena madrugada, Loan se levantou um tanto entristecido e, pegando a pedra que havia usado como cabeceira, guardou-a na sela de seu cavalo. Em seguida, juntou-se a seus homens antes do alvorecer para o desjejum, reuniu as tropas e prosseguiram a viagem,

Chegando a Wandsworth, ali pararam para se reabastecerem de provisões. Na cidade, todo o regimento se dispersou: uma parte encaminhou seus cavalos às cocheiras para alimentá-los, outros deles foram ao ferreiro no intuito de consertar ou afiar suas armas, e alguns poucos buscaram cerveja nas tavernas, para limpar o pó de suas gargantas secas.

Os olhos curiosos dos valentes homens foram atraídos pela deslumbrante feira, situada na rua central da cidade, por onde, em meio a inúmeras mercadorias e tentadoras ofertas, Loan e seus homens trafegaram em silêncio, observando, muitas vezes, mulheres devassas que se ofereciam a todos que por ali passavam e mercadores desonestos, com suas eloquências astutas.

O líder guerreiro estava apreensivo, pois estavam em um ninho de víboras, no centro do furacão e, contudo, nenhuma emboscada havia sido efetuada. Muito menos um alarme sequer. O que será que os saxões e os celtas estariam planejando? pensava ele.

Enquanto isso, na taverna "Gralha Cinzenta", alguns dos seus muitos homens, cansados pelo tédio de nada estar acontecendo, lançaram-se ao prazer embriagante do vinho. Os cônjuges infiéis buscavam consolo e se curvavam ante as falsas carícias das rameiras da estalagem, cometendo todo tipo de concupiscência, que suas esposas jamais fariam.

De repente, em meio à euforia dos beberrões, um grupo de homens de semblantes sisudos adentrou sem ser notado, pois muitos soldados já se encontravam embriagados e vários deles estavam entregues à devassidão. Despreocupados e descuidados, ignoraram por completo a presença dos estranhos que os circundavam como uma matilha esfaimada.

A única recepção foi a do cão do taverneiro, que surgiu sorrateiro em meio às mesas dos fregueses, iniciando seu ladrido contra aquela horda. Apesar do desdém dos indivíduos, o animal continuava a mostrar seus dentes e a rosnar ameaçadoramente, até que uma figura misteriosa, vestida com um casaco largo, tendo a cabeça coberta com estranho capuz púrpura, entrou pela porta principal da taverna. Removendo a cobertura sobre a cabeça, revelou ser uma bela e deslumbrante mulher. Os olhos da lady de cabelos esvoaçantes fitaram firmes os do animal. Então, a atitude do cão mudou totalmente. De latidos selvagens passou a dar gemidos assustados, vindo a fugir do local.

Ela contemplou um risonho soldado terminando de esvaziar sua caneca de cerveja. No mesmo instante em que ela piscou, uma espada voraz riscou o ar, decepando a cabeça daquele que havia dado o derradeiro gole.

Os olhares aterrorizados dos presentes mesclaram-se aos grunhidos de fúria dos adversários, que apenas esperavam por um sinal para poder dar início à sua sanha assassina.

À medida que as mãos de alguns combatentes deslizavam sorrateiras ao cabo de suas lâminas, o braço feminino da misteriosa diva se levantou para o alto. Então, o grito de guerra foi anunciado pelos lábios da desconhecida, oprimindo a esperança de muitos que ali estavam. E a investida deu origem a uma batalha sangrenta, enquanto sua líder nada mais fazia: somente observava.

Atemorizado, o dono da taverna abrigou-se às pressas detrás do balcão. Ele se manteve imóvel, pasmado perante a carnificina que se desenrolava em seu estabelecimento. As peles dos assassinos foram banhadas pelo líquido espesso que brotava em abundância das veias arteriais de suas vítimas, bêbadas demais para poderem manter-se de pé.

Aquela mulher macabra assistia a tudo dando gargalhadas que arrepiariam as rochas mais resistentes. Era um espetáculo maravilhoso, considerou ela. O som descomunal das armas em atrito, a luta mortal daqueles blocos de homens enlouquecidos para matar, e outros desesperados para sobreviver, envoltos numa perfeita comunhão avassaladora; tornava-se um casamento de sangue e ódio.

O número de corpos despedaçados por lâminas aumentava; alguns gravemente feridos, mas ainda vivos, contorciam-se como cobras no chão. Mais aterrorizante que o gemido dos desditosos mutilados, das cadeiras e mesas destruídas, eram os gritos selvagens dos guerreiros e o rumor de espadas e machados implacáveis desunindo a carne dos ossos dos presentes.

Dizendo uma frase, a fêmea áspide proferiu seu ultimato:

- Que as almas dos que nos enfrentam pereçam no fogo do tormento eterno, pois eu sou o caminho destes que me renegam! E acrescentou de maneira sarcástica: Sou a perpétua MORTE!

Naquele mesmo instante, as feições da mulher estranhamente mudaram. O nariz e o queixo modelados, os olhos grandes e belos dominavam sua fisionomia. Os cabelos longos e lisos, pintados pelas trevas, e a pele branca adotavam uma forma indizível do ego profano e inexplicável do horror, despertando a atenção daqueles que permaneciam em combate.

A filha do obscuro aproximou-se um pouco mais e, com toda a aberração formada diante dos presentes que ainda restaram, ela cravou as unhas das mãos, uma em cada lateral da face, arrancando todo o rosto. O terror dominou ambos os lados. Eles ficaram sem saber o que fazer, se atacavam aquela criatura ou se incitavam um duro conflito para que se matassem uns aos outros; já que a alternativa de fugir daquele lugar ficara totalmente fora de questão. De repente, uma força invisível estilhaçou o aço de seus instrumentos cortantes, privando-os de qualquer esperança de sobrevivência. Um redemoinho formou-se sem volta dela, enquanto sua face foi ao chão, derretendo-se no piso, semelhante ao chumbo que é atirado ao fogo.

Um vento quente emanou ligeiramente sobre o grupo de homens aflitos, e um poço negro surgiu bocejando, no lugar que dantes habitado por um rosto, que momentos atrás apresentava o lindo semblante de uma deusa.

De súbito, serpentes ardentes jorravam de dentro daquele buraco escuro, bramindo sons de arrepiar. Alertados pelo bramir das anomalias, alguns homens reuniram o pouco de coragem que lhes restava e, empunhando todo tipo de destroços, resolveram encarar os demônios. Mas antes que pudessem expressar qualquer tipo de reação, os répteis incandescentes se lançaram nas parótidas dos audaciosos combatentes ou enrolaram-se em seus corpos.

Eles se contorciam desesperadamente, sentindo o brasido toque das coisas diabólicas; num dantesco calor, os pulmões e as entranhas foram queimados, à medida que iam apertando-lhes violentamente a carne. Os dentes em brasa das cobras laceravam as gargantas dos soldados, que nada mais podiam fazer, senão tornarem-se frutos maduros, prontos para serem colhidos pela morte. Nem mesmo o inocente proprietário da taverna escapou ao ataque voraz das abominações, que, num golpe mortal e certeiro, extirparam a dentadas os seus pulmões.

De repente, todo o recinto passou por um tipo de explosão. O enxofre e o fogo alastraram-se por todo aquele lugar, inclusive por algumas casas que estavam próximas.

Devido ao estrondoso barulho, os olhos dos habitantes se assombraram e as faces de muitos empalideceram, despertando a atenção de Loan e de seus homens, que correram rapidamente para o local da tragédia, tendo sempre as armas em punho. Olhando para aquela gigantesca fogueira, Horsham observou atônito, sem saber como aquilo teria acontecido. E, imóvel, passou alguns minutos observando o acontecimento funesto, juntamente com os outros guerreiros e com os pacíficos e assustados moradores da cidade. O local estava sendo tomado por uma cordilheira combustiva e a fumaça negra se assimilava a nuvens piroclásticas que iam moldando imagens e formas de monstros famintos, cujos braços gasosos se estendiam para a platéia aflita.

Com tristeza pelos companheiros, ele nada pôde fazer, além de assistir às chamas ardentes incinerando seus desventurados corpos. Porém, os habitantes olhavam para o intenso fogo e tinham os cabelos eriçados de pavor, ao verem, no incêndio, uma figura encapuzada, envolvida por uma túnica enorme, surgindo daquele cenário infernal, parecendo uma fênix que emerge do fumo de uma fornalha. Abandonando a parede ardente atrás de si, a figura satânica pronunciou-se insolentemente, num desafio ao comandante cristão:

- Loan, o gladiador do leão celeste, um néscio sincero, um inepto desviador das coisas mundanas e um serviçal de meu inimigo!

O tom das palavras daquela feiticeira fez com que os soldados erguessem seus olhos turvos rumo ao comandante. E, aproximando-se de Horsham, um dos homens falou:

- Capitão, este demônio que saiu do fogo declarou conhecer-te. Por acaso, fazes parte disto?

Ele ignorou as críticas do vassalo porque seu coração estava coberto de tristeza: os mesmos homens que outrora lutaram valentes ao seu lado agora estavam mortos; e os outros, desconfiados dele, mediante a declaração ousada daquela bruxa, que dissera ter o devido conhecimento de sua pessoa.

Virando-se em direção ao macabro ser, disse-lhe:

- Quem és e donde vens? Que mal fiz para receber a tua violência e a dúvida de meus soldados, execrável criatura?

E a figura maligna respondeu:

-Tu serves a um Deus inútil, e ainda deseja nos desafiar? Escutai, ó servo ignóbil. Desiste de lutar em vão, e una-se à sua "verdadeira mestra". Presta-me reverência ou morrerás como um fraco que és!

Então falou Horsham:

- Um dia morrerei, ser bestial, mas como um verdadeiro cristão, e não como tu queres: será com uma espada na mão e com louvores a Deus nos lábios! Não estarei de joelhos quando a vida de meu corpo for tirada! - completou Loan, com ira.

Sua posição ereta, numa atitude de desafio à oponente, foi elogiada por ela, ironicamente: - Ha, ha! Para um mísero mortal, até que tu ostentas fortes palavras, filho da Inglaterra!

Com a rapidez de um gato, um dos soldados bretões transpôs a multidão assustada e, com um machado nas mãos, arremeteu violentamente o mortífero instrumento contra a rainha do mal que ali permanecia.

E ela, voltando a face oculta para o agressor, apenas gesticulou para que uma força invisível devolvesse o metal prateado e pesado ao verdadeiro dono. Da mesma forma que foi, retornou, atravessando brutalmente a armadura, indo alojar-se na frágil carne do soldado, destroçando-lhe as costelas e o coração. O desventurado nem teve tempo para gritar, caindo no chão áspero, segundos antes de as trevas da morte extinguirem sua chama de vida.

A mórbida visão instilara, com um impacto, o medo no coração de muitos. Irrompeu, então, o desespero na maioria da multidão e as pessoas correram para todos os lados, tentando buscar a segurança de seus lares.

A última coisa de que aquele inglês vai se lembrar é do terror estampado nos rostos da aglomeração de gente em fuga, desfalecendo ainda mais a fé de seu coração. Naquele momento, os gritos de mulheres e crianças devolveram à brigada o ódio animalesco, e eles, vagarosamente, avançaram.

Mas, cansado de ver tamanha matança, o grito de Loan Horsham ecoou entre eles:

Parai! Não deixeis que vossas mentes se corrompam dessa forma! - E o altivo inglês puxou a espada da bainha, intervindo, ao colocar-se entre a diabólica mulher e seus homens, que gritavam por vingança:

Saia da frente, capitão, ou nós te desmembraremos juntamente com esta serpente! Loan respondeu:

- Esta terra será amaldiçoada se uma gota de sangue dessa feiticeira for derramada aqui!

A ímpia, admirada com o confronto de Loan e seus soldados, removeu o capuz, revelando o brilho de sua beleza demoníaca. E, com um sorriso sarcástico, ela declarou a Horsham:

- És realmente um valoroso combatente, servo do leão. Mas, cuidado, pois nosso reencontro será inevitável; e, quando isso ocorrer, aí então testarei tua bravata.

Ao dizer isso, a filha de Sabath elevou os braços para o alto e, por segundos, todos os olhos se fecharam com uma luz reluzente que parecia irromper dos portões do tempo e do espaço.

E, assim, quando os olhos do estupefato povo se abriram, nada mais restava naquele lugar, a não ser uma fumaça florescente e fétida, juntamente com as cinzas quentes e fumegantes de seus mortos.

Após haver se recuperado da ação desesperada, Loan nada mais respondeu e, desviando a atenção, olhou para o céu. Seus ouvidos testemunharam os lamentos de muitos que, indignados, encaminharam-se para diferentes lados, ficando apenas ele, um homem desalentado que permanecia em pé e totalmente parado no meio daquela rua central.

A noite caiu e a cada hora havia a expectativa de que alguma calamidade voltasse a suceder. Os soldados bretões reuniram-se em vários grupos e comentavam, em murmúrios, a atitude do líder. Eles acreditavam que Loan tivesse traído a Ordem Sagrada, pisando nas leis de Cristo e abandonando sua Pátria, pois havia intervido a favor de uma serva do diabo ao frear o ataque da turba. Loan teria de ser punido por esse crime, e, se falhassem, seus homens acreditavam que um grande castigo viria das mãos de seus superiores, que os lançariam impiedosamente à fogueira. Mas como poderiam condenar seu comandante se essa questão é debatida somente pelos membros do tribunal eclesiástico que compõem a Inquisição? Durante a sórdida reunião, um deles acabou por dizer que, como Loan estava perturbado diante de tanta violência, talvez não tivesse parado para refletir sobre quantos perderam a vida naquele incêndio. Decidiram então que, assim que ele fosse dormir, enviariam um homem de confiança, sem o conhecimento de seu superior, para levar a falsa notícia para Birmingham: a heresia de Loan Horsham.

costumeiramente, o guerreiro-chefe afastava-se das tropas, para orar sozinho, e em seguida repousar seu fatigado corpo. E assim o fez naquela noite.

Os traidores, vendo que era a oportunidade esperada, sem mais delongas, enviaram um mensageiro a Birmingham.

Enquanto isso, durante a oração, Loan foi vencido pelo cansaço da debalde luta, vindo a adormecer rapidamente.

O sonho invadiu-lhe a mente pelas nuvens brancas do desconhecido e ele ouviu um chamado atrativo, fraco e longínquo. Era seu nome que ecoava por espaços infinitos e pelo túnel do tempo.

Sem nenhuma arma para defesa, apoiado em sua pouca fé em Deus, mesmo fraco e confiante no instinto de guerreiro, Loan atravessou a neblina fria, alcançando um corredor luminoso. À sua frente viu uma escada adornada de jade e subiu por ela. Seus olhos admiraram tamanha suntuosidade. E assim escalou degrau após degrau, até atingir o alto, onde uma figura de vestes brancas aguardava-o pacientemente.

- O quê? Quem és tu, um fantasma? - Palavras de temor foram ditas pelo guerreiro, que retrocedeu.

- Não temas, sou eu. Já não te lembras mais de mim, guerreiro contrito? - respondeu o ser divino que se aproximava vagarosamente do homem.

-Como saberei se tu não fazes parte das artimanhas daquela bruxa? - indagou.

- Escute, homem de alma ferida, assim como um seixo atirado ao mar é levado aos lugares mais distantes da imensidão, as epopeias do mundo terreno abalaram o equilíbrio celestial.

A voz do anjo alertou o coração de Loan, que parou de falar, deixando apenas seus ouvidos colherem cada dissertação que o emissário de luz lhe transmitia. Estava bem consciente daquilo, de que o ser à sua frente era verdadeiramente um guardião militante de Deus.

- O Senhor, nosso Deus, tem te observado atentamente, Loan, filho do leão ardente. Entristeceste o coração do Criador e envergonhaste Seus olhos com tuas obras. Destes ouvidos ao Pai, mas na missão que te foi enviada, pela falta de discernimento, permitiste que teu inimigo te confundisse, fazendo-o agir conforme a própria vontade dele.

E acrescentou:

- E por causa da tua inépcia, batalhas duríssimas virão a ti, entre as quais tu mesmo poderás condenar o futuro de todos os seres viventes.

Então, Loan replicou:

- Sê mais claro, porque não entendo o que queres me dizer!

- Vem, mostrar-te-ei tudo o que for necessário para que possas entender. Mesmo um tanto desorientado, o guerreiro obedeceu.

Então, o anjo passou os dedos reluzentes em sua fronte. Em instantes, Loan foi arrebatado em espírito e ouviu atrás dele uma dantesca voz, como a de um trovão:

- O que presenciarás, grava na tua memória e envia como mensagem para as igrejas, para que temam a doutrina da Lei, pois só assim fugirão da ira do inferno! Olhe por entre a janela dos mortais e verás o que poucos tiveram a oportunidade de contemplar.

Mesmo com receio, Loan novamente submeteu-se à divina voz, aproximando-se lentamente. De repente, uma brisa abriu a janela celeste, causando espanto aos seus olhos. E o terror invadiu-lhe a alma.

Viu, então, o futuro da raça humana: a luta entre os Estados da Europa se iniciaria em 1914, durando quatro anos. O cruzado percebeu os motivos sem fundamento e contemplou embasbacado aquelas visões. Seus olhos colheram, sem acreditar, os frutos da evolução do homem. Máquinas motorizadas em vez de cavalos, metralhadoras e granadas e terríveis bombas atômicas substituirão os arcos e as flechas, as lanças e catapultas tornar-se-ão totalmente obsoletas mediante uma era que virá.

Ele sentiu-se impotente, cético e admirado, porém nauseado e frouxo com o choque das cenas: o antagonismo germano-eslavo nos Bálcãs, as ambições colonialistas da Alemanha e a corrida armamentista intensa na Europa a partir de 1905. Seus olhos testificaram que mais de oito milhões de pessoas perecerão, e que vinte milhões ficarão gravemente feridas.

A imagem de um novo inferno apresentou-se diante do cavaleiro: a sombra da Segunda Guerra que se alastrará como uma praga no ano de 1939, quando alemães invadirem a Polônia, a Inglaterra e a França, e estes países declararem guerra a eles. Por isso, milhões de pessoas perderão inocentemente suas vidas. Ao olhar perplexo do cavaleiro, homens ditadores e políticos ousadamente apareceram desafiando os céus em busca do poder. Falsas seitas recheadas de dogmas, por meio de profetas enganadores e blasfemadores, tentavam seduzir toda a humanidade.

Multidões de pessoas, em noites e noites, ignoravam as disciplinas cristãs e o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, para concluírem pactos de sangue em nome de entidades do mal, em encruzilhadas, cemitérios, florestas e locais satânicos, na desesperada busca por fama, riqueza e prazeres da carne.

A ciência, aliada à ganância, avançava em grandes proporções, buscando suplantar a lei da criação divina, por meio de clonagens humanas, de animais e de alimentos transgênicos. Viu o uso de células- tronco não para o benefício humanitário, mas para fins egoístas e ambições desmedidas. A água, um presente do Todo-Poderoso para todos os seres vivos do planeta, estava sendo armazenada em dutos e comercializada a preço de ouro.

O templário observa, com tristeza, loucos contestando com divagações extremas os feitos de Deus e tentando igualar-se a Ele, com suas novas criações, achando-as são perfeitas, pisando de forma vergonhosa nos Mandamentos Sagrados. Outros, negando Sua santa existência, afirmando que a humanidade fora gerada por extraterrestres ou que tem grau de parentesco com os símios.

Ao vislumbrar os cristãos sendo caçados como animais, suas córneas se inundaram de amargas recordações. O amor e a fé de muitos se esfriam diante de tanta opressão em suas provações.

E o guerreiro viu a natureza se vingar dos homens, com furacões, vulcões, tsunamis, terremotos e outros flagelos, como castigo por sua abusiva ganância.

Pasmado diante das cenas aterrorizantes mostradas pelo emissário de luz, Loan tentou desviar a atenção, mas inexplicavelmente seu rosto petrificou-se e seus olhos se recusaram a fechar.

- Eis a fonte de todo esse sofrimento! - afirmou o ser divino.

As visões tornaram-se cenas gigantescas, criando uma tempestade de imagens que penetraram em sua mente.

Ele observou outro anjo, o mais belo e mais grandioso de toda a falange, mas que, por sua desobediência em desafiar o Criador, teve a ignomínia de ser rejeitado por Deus e, em seguida, expulso do Paraíso Celeste.

Lançado pelo Arcanjo Miguel por dimensões incontáveis, proferia, em sua queda, blasfêmias de vingança contra Aquele que o repeliu. Caiu na boca esfomeada do inferno, onde a fome de almas nunca é farta, e os globos oculares dos homens se fecharam para não vislumbrar os horrores que lá habitavam.

Loan sentiu o aroma de frescor de seu acompanhante. O medo que habitava em sua alma se extinguiu, dando-lhe ao espírito a segurança imposta pela presença serena daquela luz.

O demônio deseja a primazia total sobre a raça humana, pois a guerra em que tu combates é insignificante comparada à trama que essa criatura abissal planejou.

E prosseguiu:

- Em seu projeto maligno, ele pretende distorcer as Sagradas Escrituras e alterar o futuro da Terra.

O cavaleiro continuou imóvel, porém alerta. De repente, um grito de expulsar o coração pela boca escapou dos seus lábios, enquanto seu corpo oscilava para trás. Ele vislumbrou multidões, nações inteiras de seres humanos, ricos e pobres, homens, mulheres e jovens, estendidos nus, horizontalmente na terra, proferindo num coro desordenado toda a sua agonia. Seus ventres rasgavam-se de dentro para fora, num processo mesclado de dor e loucura infinita, roubando a visão dos moribundos, que mal conseguiam enxergar um vegetal lenhoso e bizarro, de aspecto monstruoso, emergindo de cada um deles. As raízes repugnantes agora serpenteavam ousadamente sobre os cadáveres e, ao encontrarem um lugar apropriado, penetravam profundamente em suas carnes, músculos e nervos, passando de forma incisiva e brutal, indo fixar-se nas partes articulares dos ossos.

Os corpos se empalideciam à medida que as raízes sugavam os fluidos vitais daquelas figuras que um dia foram humanas, nutrindo as árvores arcanas, que revigoravam-se com o hospedeiro, após seu nascimento. Agora eram as árvores que se tornavam hospedeiras de uma geração de demônios.

A floresta macabra só tinha um objetivo: extinguir todos aqueles criados à imagem e semelhança de Jeová, para depois repovoar a Terra com uma nova e profana raça; tudo para impedir o "Juízo Final".

De repente, um semblante satânico apresentou-se na janela mística, fazendo Horsham retroceder. - Meu Deus!

O anjo respondeu, com toda a mansidão de sua voz:

- Não temas, estás protegido nas mãos divinas do Criador; o demônio não o vê. - E tranquilizando-o: - Não é contra os tormentos terrenos que o Senhor te quer em combate, mas sim contra as hostes malignas nas regiões celestiais. O Hades oculto existe e monstros espirituais podem ser invocados pela língua que os decreta. Depois de tomarem conta das vítimas, remetem-nas ao mais profundo abismo de imoralidade humana, onde, nada restando delas, se lançam somente ao desejo de privar-se da própria vida. Foste trazido aqui para receber uma arma contra o monstro cruel que está por vir!

Confuso, Loan indagou:

- Mas por que eu? Já não vos basta minha fé e minha espada? Derramei rios de sangue para proteger meu país. Honrei a palavra de Deus... Ela foi para mim um escudo...

Então, o anjo replicou:

- A fé é um oleiro que modela o coração, que te faz vaso novo para o Salvador. Se não a tivesses, acaso seria merecedor de todas essas revelações? Tens um bom coração, porém não usas tua prudência para discernir as obras celestiais; tu fostes embaraçado pelo devorador de almas, guerreiro precipitado.

O templário emudeceu.

- Com tua espada, cortastes extremidades contrárias. Erraste em tua batalha, pelejaste contra a carne, quando devias fazê-lo contra o espírito ímpio que veio ao teu encontro. Destes ouvidos ao teu orgulho e ao prelado, homens que acreditaram ser privilegiados pelo Rei Eterno, mas não o são, pois não fazem a vontade Dele. E, pela cegueira de seus próprios pecados, foram enganados por uma falsa visão, provinda do adversário de suas almas. E tu, juntamente com eles, te tornaste boneco nas mãos do gênio impiedoso. Loan, indignado, indagou:

- Dizes-me que fui enganado?! Mas foste tu que me disseste para proceder dessa forma.

- Minha fala somente ouviste, porém não a compreendeste. Torno a dizer-te que tua árdua batalha será contra um inimigo espiritual que nenhum artefato terreno poderá matar.

Loan tentou opor-se, porém nenhuma censura partiu de seus lábios, pois os fatos apresentados eram tão verdadeiros e transparentes que de forma alguma teria meios para contestá-los.

Diz ao Rei que minha falha foi imperdoável. Não sou digno de completar a tarefa a mim incumbida. Ouvindo o melodrama do cruzado, o enviado divino sorriu, dizendo:

Loan, responde-me. O que significa Deus para ti?

- O Supremo Criador do universo, Mestre do tempo e do espaço, Pai do amor e da bondade, Senhor da misericórdia. Somente Ele é digno de Majestade...

- Se sabes com tanto afinco, por que te é difícil crer no que acabas de dizer? O silêncio do cavaleiro veio como resposta ao anjo.

Loan Horsham, sabes que Deus Pai é misericordioso e perdoa todo aquele que se arrepende, por pior que seja seu ato. Ele te conhece desde o ventre de tua mãe e nunca errou em Sua escolha. Portanto, preparar- te-ei para o que está por ocorrer.

Que posso fazer sendo apenas um homem?

O Imperador da bondade é infinito de poder; espalha onde não podes juntar, faz aparecer onde não existe, amarra as águas em Sua cintura e segura o vento com as mãos. Ele se torna presente em tudo e escolhe um fraco para que possa confundir o forte. E é por esse motivo, acima de tudo, que te trago a peça necessária para o combate.

E acrescentou:

-Teu país temporal um dia findará, mas tu, se fores fiel na tua jornada, habitarás uma Pátria infinita de amor; como todo aquele que teme Seu Nome e pratica Sua justiça.

Loan ficou admirado com as palavras fortes do ente celeste.

Este é teu destino. Caberá somente a ti impedir que mortais inocentes passem por esse suplício. Ergue a tua mão direita, Loan, cavaleiro do Deus Vivo.

Completamente surpreso, aquele homem levantou a palma direita de sua mão, como ordenou o emissário. Subitamente, o ser divino começou a levitar e uma luz o revestiu.

Horsham, de pé, olhou o mensageiro iluminado, encarando o dantesco sol infindo. Relâmpagos brancos partiam de sua aura como serpentes incandescentes. O cavaleiro não desviou o olhar e, apesar do fulgor, a luz não lhe feriu os olhos. Pelo contrário, refrigerava-lhe a alma.

Em questão de segundos, as inúmeras faíscas atingiram a mão mortal do escolhido, gravando em sua palma um misterioso símbolo.

- Está feito. Tu possuis o dom necessário para vencer o mal, mas toma cuidado com a regente da escuridão, que fará tudo para confundir tua fé.

Eu me lembrarei.

- Tudo o que é importante já te foi mostrado. Guarda o que viste em teu coração, e fé e confiança em teu espírito. Eles te fortalecerão na guerra final.

Abruptamente, o lugar e o anjo desapareceram. Então, ele se viu repentinamente caindo num vácuo branco.

Despertando num estado de apreensão, Loan se levantou do leito improvisado e, quando olhou para a palma de sua mão direita, os cabelos eriçaram em sua nuca: havia um símbolo estampado. Os contornos eram os de uma pomba, uma figura branca, um pequeno pássaro que representa a paz entre os homens. Amanheceu e o Sol nasceu por trás das planícies. Pouco depois, o comandante e as guarnições partiram de Wandsworth. Alguns levaram consigo o peso da culpa em suas consciências, outros conservavam o medo do sobrenatural, por terem contemplado coisas que seus olhos antes duvidavam.

Lentamente, um dos imediatos se aproximou de Horsham e perguntou:

Milorde, perdoe minha ousadia de me aproximar assim, no entanto devo dizer-te que ouvi um boato entre os homens de que tu protegeste uma bruxa de ser morta por eles. Alguns deles falam em motim.

Ele retrucou:

- Eles são ingênuos e infames como velhas. Será que esses hipócritas não entendem que não estamos lidando com uma simples guerra? O inimigo demonstrou não ser deste mundo e nossas espadas são inúteis contra ele!

E confirmou:

- Estes homens são livres; eles podem voltar para casa, se desejarem. Fazer bastante amor com suas esposas e se embriagar até morrer. Quem sabe os vermes terão um paladar deleitoso ao degustarem da carne desses covardes!

- O que queres dizer? - indagou o soldado, espantado com a ousada frase.

- Estou querendo dizer que, se eu houvesse permitido que atacassem aquela aberração, esses corajosos guerreiros que tu observas agora estariam servindo de comida aos abutres e às varejeiras que vagam por carne morta.

O homem ficou surpreso com as palavras de seu capitão e assentiu em silêncio, pois a justificativa tinha total fundamento. Entretanto, como convencer os outros, se suas mentes estavam entorpecidas demais para entender isso?

O dia passou e as tropas de Loan seguiram para o último estágio.

Os exércitos de outros países conseguiram dizimar por completo as forças adversárias, recuperando seus territórios natais. E agora se preparavam para reforçar os regimentos ingleses, para a retomada total de Londres.

Os arqueiros galeses não serão vistos, pois chegarão pelos flancos; a maior parte dos aliados da França virá do sul da Inglaterra, por Brighton; e os recrutados irlandeses se aproximarão pelo canal de Bristol.

Duas semanas depois...

O último e decisivo combate da história seria travado exclusivamente em Londres, onde meses atrás o solo inglês havia sido banhado de sangue, tornando-se um enorme tapete escarlate.

Uma verdadeira aliança entre os reinos monárquicos reuniu e liderou seus melhores combatentes de várias províncias, cidades e aldeias. Quase todo o continente europeu sucumbiu ante a invasão avassaladora de uma raça bárbara e tirana.

De início, o império contrário encontrou pouca resistência, mas a Igreja, com os nobres de outros países, anexou uma poderosa aliança de guerrilha, para resistir, aniquilar e retomar as terras que lhes foram furtadas abusivamente.

A batalha duraria um dia, mas seria como uma eternidade: os poucos que sobrevivessem contariam seus mortos, enquanto outros, com suas mentes turvas, se lançariam adiante, submergindo em sonhos, almejando a tão esperada paz.

Os feridos e os inválidos de outras batalhas preparar as flechas e afiaram-lhes as pontas. Barris de óleo foram transportados por carroças, e feixes de lanças, entregues aos soldados. Por fim, duas linhas de ataque foram formadas pelos exércitos de cada país. Numa região ao norte, já não tão próxima da capital, o dia se tornou testemunha da danação que se aproximava, e o eco dos tambores se juntou ao chocalhar das lanças e ao tilintar do aço puro.

Todos os sons foram abafados pelos tropéis do combate.

O forte encontro de titãs se iniciou. Os arqueiros galeses e ingleses despacharam uma chuva maciça de flechas contra os invasores. Do outro lado, os guerreiros das trevas se defendiam como podiam, usando imensos escudos; mas alguns foram abatidos. Então, terminada a primeira ofensiva, o exército negro bradou, desafiando a capacidade e a autoridade de seus oponentes.

Os comandantes das guarnições ordenaram à cavalaria um ataque avassalador contra os rivais, que não cessavam de gritar. A alegria da tropa montada durou pouco, pois, na sanha afoita de massacrar os inimigos, nem perceberam que o campo estava cheio de buracos escavados, uma armadilha mortal.

À medida que as patas dos eqüinos penetravam nos pequenos orifícios, as blasfêmias de selvageria dos ulanos se transformaram em vozes esganiçadas, com o estalar dos ossos de patas quebradas dos animais, que tombavam, esmagando alguns dos cavaleiros caídos. Um a um, foram caindo como moscas, causando espanto e preocupação aos exércitos aliados.

Com as pernas quebradas, um cavaleiro rastejava atordoado no chão úmido, quando, de súbito, notou uma substância viscosa fixada em quase toda a sua armadura. Desesperado, o condenado adivinhou o plano deles e, em prantos, implorou por misericórdia. A histeria ecoou no grito do grande líder de armadura negra, que teve a face encoberta, jamais vista pelo seu regimento. A resposta ao apelo dos soldados feridos foi um silvo de setas inflamadas. Instantes depois que as hastes de fogo atingiram o alvo, as chamas surgiam como invocadas do inferno, cobrindo os vivos e os mortos. Homens e equinos tinham seus lamentos cessados para todo o sempre. A combustão ardente era alimentada pelo óleo que antes fora esparramado deliberadamente em boa parte do campo de batalha.

O fogo e a fumaça começaram a escurecer o local, tornando-se uma imensa muralha ardente e impedindo a investida dos dois lados: tanto os aliados quanto o exército maligno, ambos recuaram temporariamente até que as chamas se acalmassem e a visão se tornasse evidente.

No centro de Londres, as hordas de Loan surgiram do leste, enquanto os exércitos liderados por nobres e auxiliados por outros templários vieram do oeste. Ao se unirem em forças, esmagaram o infeliz exército do mal, transformando a sede inglesa em um dantesco mausoléu de cadáveres e sangue.

Já era tarde, mas o céu demonstrava que a noite havia se deitado sobre o resto do dia. O horizonte estava negro, por nuvens pintadas pelo chumbo escuro, trincadas pelas imagens de relâmpagos reluzentes, e o vento uivava como uma trombeta do Juízo Final. E o agitado e pesado ar procedia de uma grande tempestade que estava se manifestando no meio da extenuante e sangrenta batalha. Repentinamente, as nuvens foram chamuscadas por um clarão branco, de onde muitos raios golpeavam os campos, seguidos dos estrondos ensurdecedores dos trovões. Parte do agregado nuvioso que dominava a atmosfera começou a girar de maneira assustadora, donde chamara a atenção dos muitos soldados que estavam sobre a muralha da última fortaleza que ainda resistia com avassaladora firmeza. Vários grupos ficaram imóveis, atemorizados com o que estava acontecendo no céu. Chegaram a pensar que era a presença da fúria estarrecedora da Deusa-Mãe, acreditando que um mau presságio estava por vir. Concluíram que sua divindade não estava nada contente com aquela decisiva batalha.

Tais disciplinas de atenção que demonstraram fizeram com que os arqueiros galeses desferissem centenas de flechas, que zuniam terrivelmente sobre as ameias. Várias setas arrancavam faíscas das pedras molhadas, outras resvalavam nos elmos dos vigias celtas e muitas atravessavam as gargantas que nada fizeram para se defender. As armaduras de outros que caíam se tornaram inúteis, pois as pontas das hastes facilmente se alojavam no tórax e despedaçavam os crânios junto aos elmos.

Embora a muralha fosse bastante larga e tivesse nove metros de altura nos quatro cantos, de modo que cinco homens poderiam trafegar livremente sobre o passadiço e o parapeito, muitos tentavam a todo custo mantê-la em sua posse. Em alguns pontos havia ameias nas pedras, e através delas os arqueiros das muralhas retribuíam uma saraivada de flechas contra os inimigos lá embaixo.

O acesso ao parapeito do grandioso muro era feito por escadas maciças em forma de meia-lua, uma do lado direito e outra do lado esquerdo, que desciam até o pátio externo do forte. Também no pátio havia uma grande escadaria larga no meio, que conduzia à parte central da muralha. E era por ela que um formigueiro humano abastecia os arqueiros que ainda resistiam.

Os corpos dos mortos eram banhados em óleo e depois empilhados junto ao portão frontal, para bloqueá- la como uma imensa barricada. E, sem nenhuma comoção por seus entes ou amigos de batalha, quatro homens estavam com as tochas em riste, prontos para cremar os mortos, no caso de o inimigo tentar invadir o lado interno da fortaleza. Mas, se porventura alguns deles conseguissem cumprir a façanha de transpor a pira de carne em chamas, seriam imediatamente recepcionados pelo grupo de anglos que esperava pacientemente com suas bestas recheadas de setas afiadíssimas.

Os vigias arqueiros disparavam suas flechas, aglomerando em combate as figuras inglesas, irlandesas e francesas, num tapete escarlate, preto e prateado. Com os gritos da batalha, os celtas e os anglo-saxões unidos em braço forte tentavam bravamente em campo reter o inimigo seis vezes maior em número e que vinha como um tsunami iminente.

- Vamos, meus guerreiros, mostrem a eles o inferno! - gritou Horsham.

Com o suor escorrendo dos poros, queimando impiedosamente os olhos e as feridas, presentes de uma guerra irascível, um denso tapete de homens e lâminas escrevia sua história nas páginas do vento. As penas eram as espadas, molhadas na tinta carmesim tirada sem nenhum remorso das tinteiras humanas. No forte grito do cavaleiro, os homens foram ainda mais estimulados pelo ânimo ao verem seu valente líder abrindo caminho sobre a horda inimiga, que, tombada sobre a terra molhada de sangue e de chuva, começava a derramar suas lágrimas, nada mais podendo fazer além de estrebuchar e perecer.

Como chacais esfaimados por carne fresca, os soldados franceses, de músculos retesados, anteciparam a ação de sua ousadia, enquanto uma grande série de escadas de madeira estava sendo posta à beira da muralha. Os flecheiros celtas e saxônicos enfileirados na beira empurravam desesperados o quanto podiam as escadas, enquanto disparavam dardos e flechas inflamados continuamente. Alguns franceses eram abatidos; muitos deles encontravam o fim ao se espatifarem com as escadas, esmagando seus companheiros em terra num baque seco e aterrorizante. Mas a resistência deles era facilmente fraquejada, pois três fileiras de arqueiros irlandeses reagiram ainda mais vorazmente.

Muitos deles caíram como moscas, e aqueles que sobreviveram à queda tinham as costelas quebradas por chutes e gargantas atravessadas por lanças afoitas. As tochas que tremeluziram do meio do campo até a entrada do portão aos poucos iam se apagando. As gotas da tempestade caíam com grande intensidade, e relâmpagos se projetavam sobre as sombras dançarinas e vorazes, atuando em plena devastação sobre um palco dantesco rubro e de corpos mutilados.

No entanto, os ingleses lutavam de forma organizada e ousada. Numa carroça improvisada, jazia um imenso tronco de carvalho, com uma grande ponta na dianteira. Aqueles homens não se importavam com mais nada, muito menos com a história de cada um deles. Tudo o que mais almejavam era pôr o portão abaixo a todo custo, não importando quantas vezes eles tentariam.

Todos agrupados, corriam simultaneamente empurrando aquele pesado tronco como um aríete, indo e vindo vezes seguidas, em estocadas cada mais violentas. O afogo tomou conta dos internos, pois o único entrave que tinham era o portão principal da fortaleza e sabiam que, se seus inimigos entrassem, seriam estripados como porcos. O comandante responsável por aquele castelo havia sido abatido minutos atrás por uma flecha irlandesa. A muralha já não era tão intransponível como antes, e a defesa havia caído. Os franceses conseguiram subir pelas escadas e escalar com cordas pelo muro. Em poucos minutos, quase todos os guerreiros da defensiva foram neutralizados. Mais um pouco e escorregariam do passadiço rumo às escadarias laterais e central, para tomarem posse do pátio principal. Os vigias feridos amaldiçoaram sua deusa por tê-los abandonado na amplitude da necessidade. Quinze dos melhores soldados da França neutralizaram os escudos e as espadas dos celtas, e os saxões, sem terem tempo de manusear suas imensas lanças, tornaram-se presas fáceis, com facas, machados e espadas separando suas cabeças dos ombros.

Os olhos dos combatentes afligidos ficaram baços, e apenas se arregalaram de terror quando testemunharam o som forte de um trovão e o romper do portão principal. A barricada de corpos ardentes, divisa única no extinto portão, foi varrida sem nenhum índice de honra. Os invasores saltaram sobre os corpos e se jogaram um a um contra as paredes da entrada principal.

Assombrados ao verem tamanha crueldade, os homens deixaram cair suas armas e se prostraram com grande clamor no chão encharcado. Naquele momento, os ingleses e os templários, com os aliados que antes estavam embalados numa batalha infinita, subitamente pararam diante deles. Os raios faiscavam sobre vossas cabeças, e os trovões retumbantes, sincronizados com a pesada chuva que desabava, eram o único som audível naquele instante.

Mas também se ouvia os murmúrios chorosos dos derrotados e o escárnio dos vitoriosos. Loan Horsham, seguido por cada comandante e autoridade do seu próprio regimento, foi da entrada até o corredor do pátio principal. Olhou triste para o que restou dos portões: a madeira e as vigas grossas totalmente despedaçadas; as barras de ferro, que outrora mantinham firme e presa a densa madeira, agora se encontravam desarticuladas; os fortes pregos tortos; e as imensas dobradiças arrancadas do lugar e partidas ao meio.

Loan voltou para o comandante francês ao seu lado e disse:

- Conseguimos, lorde Dontesqueier! O último trunfo de nossos inimigos acabou de fenecer agora. O castelo de Londres pertence novamente ao rei e à Inglaterra.

O lorde francês sentiu que as palavras de Loan soaram como um final que há tempos não chegava. E a chuva que caía era para limpar as marcas de uma guerra acirrada e sofrida. Ele também desprendeu um brado, em francês. Muitos de seus homens também gritavam e erguiam suas armas para o alto. De repente, não só eles, mas todos estavam rindo e comemorando do seu jeito boas previsões para o futuro. Diziam que a esperança promissora havia retornado e a invasão de toda a Europa havia finalmente findado.

Os militantes liderados pelo leão britânico, com outros oficiais, irromperam as fronteiras da capital, enfrentando e dizimando sem nenhuma compaixão as tropas célticas e saxônicas, reconquistando cidadessemi-destruídas.

Muitos dos que lutaram ouviram os zumbidos de setas vorazes, entrecortados pelos gritos de feridos que pereciam em luta e pelos brados da guerra. Eles entraram com ímpeto pelos portões de vários castelos, massacraram os invasores que defenderam as muralhas e nenhum guerreiro ímpio foi poupado.

Já a Igreja incumbiu-se de um rígido procedimento de interrogatório, seguido de tortura e, por fim, a condenação de todos os hereges.

Líderes celtas, saxões e sacerdotes druidas foram capturados para julgamento nos bancos dos réus. Jovens e velhos, inclusive mulheres druidisas e saxônicas, sacerdotisas de uma confraria que venera Odin, senhor de Asgard, a Deusa-Mãe e o espírito místico da árvore, todos foram interrogados, julgados e sentenciados à morte pelo inquisidor-mor, pois preferiram morrer a ter de aceitar Cristo como seu verdadeiro Salvador.

As mulheres consideradas bruxas tinham seus seios despedaçados por tenazes em brasa e depois eram colocadas em grandes sacos de couro, em cujas pontas havia pedras amarradas, para, em seguida, serem lançadas vivas ao rio.

Já os hereges recebiam um tratamento muito diferente da Inquisição: a passagem por uma longa penitência de suplício era completada, antes de serem agraciados com a morte. Muitos foram enforcados em Londres, a mando da Igreja; outros foram queimados, para que sua existência nociva não mais incomodasse os cristãos. A medida que os corpos eram devorados pelo fogo, o sangue pingava ou as veias rompidas estouravam e chiavam nas incandescentes brasas. Tudo o que aqueles moribundos infelizes desejavam naquela hora de pura agonia era ter o líquido carmesim suficiente para acabar com as chamas.

Passados alguns meses, no castelo recém-restaurado do rei, o dia era ocupado por um festim em comemoração à sua grandiosa vitória sobre os arautos do contrário. As canções dos menestréis, acompanhadas por melodias de flautas, pequenas violas, liras, harpas e tamborins, inspiravam-se apenas no morticínio, e as gargalhadas ecoavam entre os matadores de homens.

Uma sátira irônica foi proferida por um soldado bretão, que se regozijava ao dizer que estava embriagando-se não com vinho, mas sim com o sangue dos inimigos cujas vidas tiraram.

Quanto a Loan, ele não se alegrou nem um pouco; ao invés disso, envergonhou-se. Lembrou-se do martírio das pessoas e ao mesmo tempo da obrigação de estar servindo em vão a sua pátria. Sentiu-se desiludido, pensando que estaria protegendo os inocentes dos inimigos de Deus, embora o anjo o tivesse repreendido.

Ao esfregar suas cicatrizes, parecia sentir o cheiro de carne retalhada entupir suas narinas. Mas era o peso de culpa no seu espírito, que jamais se extinguiria. Em sua mente havia uma sensação de sentir-se usado e sujo.

Loan viajava em pensamentos a relembrar os primeiros fatos que fizeram desencadear em sua vida todo esse mar tempestuoso. O passado voltava para assombrá-lo.

Era chegado o anoitecer e, na porta de seus aposentos, um dos servos anunciou a chegada de um inesperado visitante ao castelo dos Horsham, que desejava urgentemente ter uma audiência.

De imediato, um dos serviçais anunciou ao jovem nobre sua chegada:

Lorde Loan, perdoai o incômodo, mas está aqui um homem que deseja muito vos falar. Incitado pela curiosidade, disse:

Presumo que essa pessoa tenha algum nome... - Diz chamar-se Zélothy e é um franciscano.

- Dizei a ele que me aguarde. Descerei em breve.

Passados alguns minutos, Loan Horsham seguiu para a antessala onde aquele desconhecido transeunte o esperava.

- Sim, meu senhor, o que desejais?

Aparentemente aflito, o homem com vestes de frei levantou-se do divã às pressas e seguiu ao encontro dele.

O frei olhou fixamente para o homem de cabelos bem modelados e porte de verdadeiro gladiador. E percebeu então que era Loan, o herdeiro da casa dos Horsham. Concluiu ter chegado a hora de revelar um grande e terrível segredo.

- Não temos muito tempo, precisais ouvir o que tenho a dizer-vos... Pois não, dizei! - falou Loan com expressão de espanto.

- Deveis aceitar Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador, o mais breve possível. Perdoai-me, frei, mas já creio nisso...

Porém não está revestido do espírito, como mandam as Sagradas Escrituras da Bíblia. Pela santa conversão, limpareis o vosso interior de toda a perversão e enchereis vossa alma de luz e verdade proveniente do Espírito Santo de Deus. Somente assim podereis derrotar o rei dos demônios.

Loan tentou contradizê-lo, mas foi abruptamente interrompido pela voz desesperada do visitante:

Ele matou muitos para conseguir o que quer, e matará tantos quanto for necessário, para quebrantar vossa fé. Só por meio da magnificência de nosso Senhor Jesus poderá resistir ao manjar que irá oferecer-vos. - Aceitai o Salvador enquanto há tempo!

Em meio a palavras desconexas, Loan, um tanto indignado, buscava uma maneira para dar fim àquela desagradável situação. Ao mesmo tempo, procurava compreender por que o frei apertava firme aquela cruz de madeira que trazia presa a um cordão no pescoço.

- Perdoai-me, tenho assuntos inacabados a tratar, os quais exigem a minha urgência.

Disse isso dando-lhe as costas. Zélothy, por sua vez, de maneira eufórica, agarrou forte o braço do fidalgo, deixando-o tomado de sobressalto.

- Eu vos imploro, ouve o que tenho a dizer-vos. Conheci vosso avô e em sua casa testemunhei algo bizarro, pois na época éramos muito amigos. Ouve-me, eu vos imploro...

Contemplando tamanho medo estampado na face daquele homem, Loan mostrou-se caridoso e resolveu voltar a atenção para o alienado franciscano.

Muito bem, continuai. - deu um sorriso amargo.

- Necessito salvar-vos, só assim redir-me-ei com Cristo, pelo grande pecado que cometi. Todos aqui correm um grande perigo.

- Como assim?

- Sei tudo sobre um membro de sua família...

- Qual deles? - perguntou Loan, tomado pela curiosidade.

- Escutai-me: naquela noite, ajudei a trazer o mal à casa de seu avô; eu o vi voltar à vida...

- Mal?

Sim. O mal encarnado na aparência de uma mulher. - Quem? É alguém que eu conheça?

Não, esta mulher nefanda é diferente; com seu coração maligno, ela ressuscitou o...

De repente, outra figura entrou na sala, interrompendo o diálogo forte de ambos. Era o lorde Charlie Horsham, pai de Loan, com o olhar fixo no visitante.

- Queira desculpar-me a interrupção, frei. Admiro vosso interesse em visitar-nos e demonstrar seus conhecimentos religiosos para meu filho Loan; todavia, precisamos neste exato momento comparecer a uma importante reunião, na qual requisitam a presença imediata, minha e a de meus filhos. Podeis ficar à vontade até nosso regresso.

Sentindo-se frustrado, o franciscano respondeu:

- Agradeço-vos a amável hospitalidade, milorde. Mas, não vos incomodeis comigo, haverá outras oportunidades para dialogarmos mais sobre os desígnios de Deus.

ao dizer isso, cumprimentou Loan um tanto apressado e, sem que o conde percebesse, passou-lhe um pequeno papel durante o aperto de mãos.

- Ficai em paz.

Cabisbaixo, o frei retirou-se, rumando pensativo à saída daquela casa ilustre. Loan voltou seu pensamento àquela repugnante festa de vitória:

Essas pessoas enganam-se achando que estão fazendo a vontade do Pai, matando seus semelhantes, por pior que sejam, e usando com altivez sua autoridade, pensando cumprir a lei filantrópica de Jesus Cristo. Ao invés disso, estão semeando e cultivando a destruição para si mesmos, condenando e afirmando o sufrágio de suas almas para o desfrute do inferno, e satisfazendo o mal mediante ações atrozes.

Mesmo refletindo assim, ficou à mesa com os outros, observando-os em silêncio, mas permanecendo à parte das festividades. Após algum tempo, a maioria dos convivas se prostrara, num estupor de embriaguez.

Quando chegou a meia-noite, o guerreiro templário rapidamente se ausentou do salão de festas e, adquirindo algumas provisões, montou na sela de seu cavalo. Silenciosa e vagarosamente, aproximou-se dos portões, sempre bem vigiados. Com algumas palavras, ordenou às sentinelas que os abrisse, pois precisava partir com urgência. Em silêncio, os vassalos resignadamente obedeceram.

A noite caiu em sua profundidade, e havia muitas estrelas brilhantes no céu. Então em silêncio, Loan, a galope, dirigiu-se para o norte, tendo apenas os olhos e ouvidos atentos indo estrada adiante, com o vento noturno ondulando sua capa ao brilho da formosa Lua, que, como um farol, iluminava seu caminho.

No tempo de batalha em que esteve, depois de ver tantas vísceras esparramadas, bruxas serem queimadas pela Inquisição, pais de família mortos, deixando o pânico e o sofrimento como herança para os parentes vivos, Horsham aprendeu as lições básicas da árdua vida, ou pelo menos refletiu sobre elas, enquanto as horas deslizavam sorrateiras.

Apesar de ter sido rejeitado por seus entes no passado, ele sabia que tinha uma família; passados os terríveis dias de guerra, estava aflito, embora com esperança de reatar os laços familiares, após a crise que ambas as partes sofreram.

As horas já haviam deslizado pela rampa do tempo, e o cavaleiro estava só, passando no meio de um vale, onde houvera uma horrenda batalha. O lugar agora se tornara um antro de morte e putrefação. Os únicos sons que se ouvia eram o zunir das moscas e o bater de asas dos abutres que se banqueteavam com a carne pútrida dos soldados mortos.

Quando os primeiros raios do sol tocaram o solo, a neblina matinal dissolveu-se. Com isso, a vista mórbida da carnificina foi revelada. O cruzado repugnou-se diante de tamanha imagem de destruição que a guerra gerou; por outro lado, agradeceu a Deus, que lhe concedera habilidade e experiência suficiente para não ter se tornado mais uma vítima, como aqueles pobres coitados.

Observando o caminho, um tanto cuidadoso, o aventureiro solitário conduziu habilmente seu cavalo para que não pisoteasse os corpos mutilados nem as armadilhas em forma de buraco, onde ulanos em luta pagaram um alto preço diante do primitivo método dos inimigos. O sol erguia-se lentamente, e o combatente inglês quase se asfixiava com o penetrante fedor que se elevava no ar.

Tudo era pungente e cheio de desesperança. O mundo não havia acertado o passo, e ele pressentia que aquilo não acabara, sendo que qualquer coisa poderia acontecer... Qualquer coisa...

O tempo agora parecia passar bem devagar, e Loan, depois de viajar muito, finalmente chegou à casa, ou ao que restou dela. Seus olhos se arregalaram e um grito de horror brotou de sua garganta, ecoando nas paredes das ruínas. Os músculos dos braços ficaram tensos e os sentidos aguçados. Desceu rápido da montaria e correu até os escombros.

Ele sentiu a solidão abraçá-lo e o barulho de paredes ruindo. Loan reprimiu-se, pois as imagens daquele cenário triste lhe revelavam que sua casa fora profanada. Seus guardas, servos e pessoas a quem ele muito se afeiçoou durante sua infância agora estavam espalhados no chão, e suas carnes, de forma atroz, consumidas pelo fogo.

Todo o patrimônio construído por gerações não passava de cinzas. Tudo o que tinham de valor, ouro, tecidos de seda, especiarias em geral, havia sido furtado por aqueles verdugos animalescos.

Ele suspirou. Inconsolável, continuava andando sempre em frente, procurando algo em meio aos escombros, querendo ter certeza do destino de seus pais e irmãos, já que os serviçais estavam todos mortos. O cheiro fétido de carne queimada invadia-lhe as narinas, fazendo-lhe embrulhar as entranhas, em ânsias.

Virando-se para o lado, seu corpo inteiro estremeceu. A espada, da qual muitos sentiram o golpe letal, escapou-lhe da mão, e o coração pulsou com mais violência.

Ele avistou cinco túmulos enfileirados, feitos de pedras, e na frente deles, cruzes de cabeça para baixo feitas com galhos de árvores, contendo objetos pessoais. Era tudo que havia restado de uma estirpe de nobres.

Aproximando-se das sepulturas, ele cuidadosamente retirou pedra após pedra para confirmar o que a consciência confusa e aflita lhe dizia e esclarecer a dúvida que o torturava. O sobressalto veio com o cheiro acre que exalava dos corpos, agigantando ainda mais o fogo de sua ira: os cadáveres estavam sem as cabeças e sem vestimentas, e todos os corpos encontravam-se marcados pela tortura.

Os pensamentos do inglês sustentavam um intenso ódio pelos nobres e por si mesmo, no momento em que sua mão recolhia um anel, do dedo encaveirado de um dos cadáveres, contendo o emblema da família. Uma vez mais, sua mente foi visitada pelas recordações intrigantes que rodearam sua vida em meio a todo aquele sofrimento.

Loan chegou ao local indicado por aquele que o havia visitado um dia atrás. Sim, ele havia guardado bem aquele bilhete dos olhos de todos. Nem sequer pudera conversar com Zélothy, mas a curiosidade furtara- lhe o sono durante a noite; estava ansioso sobre o que aquele homem poderia lhe dizer. Achou apropriado o local para o encontro, pois jamais admitiria outra interrupção.

Mais adiante viu o frei sentado à beira do lago, onde pacientemente o aguardava, jogando algumas pedras na água, que se agitava lentamente.

Aproximando-se dele, anunciou:

- Muito bem, eis-me aqui. Dizei-me o que tendes a revelar.

Zélothy, porém, não fez nenhum movimento brusco. E, continuando a lançar as pedrinhas, começou a falar:

- Havia um sinal no céu que foi visto por muitos: uma mulher vestida do Sol, cujos pés apoiavam-se na Lua. Sua cabeça estava adornada com uma coroa de doze estrelas. Ela estava grávida e, com as dores do parto, gritava com ânsias de dar à luz. De repente, surgiu outro sinal no céu, e dele apareceu um dragão escarlate que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre elas sete diademas. Sua calda levou consigo a terça parte das estrelas e jogou-as sobre a Terra. Depois, a fera parou diante da mulher que havia de dar à luz, porque no momento em que a criança nascesse ele a devoraria. E ela deu à luz um varão que, com autoridade, haveria de reger todas as nações com vara de ferro. Mas seu filho foi arrebatado para o refúgio de Deus em seu trono. - E continuou: - O livro das revelações me ditou isso.

Não vim aqui para ouvir sermões de um frei louco! - replicou Loan.

- Será na forma de uma mulher que "ele" se manifestará. Mas seu tempo na Terra é curto. O corpo que ocupa não é apropriado para sua permanência, pois fica debilitado rapidamente e apodrece. Ele precisa de um corpo gerado pelos mesmos laços familiares, mas que possua seu sangue negro nas veias. Haverá um escolhido que será incitado a cumprir três profecias; e, no instante em que forem consumadas, Satã subjugará seu espírito e tomará sua carne como vestes. Assim ele poderá livremente travar sua terrível ofensa contra o Criador e seu Filho.- Escutai, acho que...

Ide para a Floresta Verdejante, em Nottingham. Lá, procurai o velho Mictã. Ele vos dirá tudo que precisais saber para que purifiqueis sua alma e seu corpo.

- O que dizeis? - bradou Loan, sem nada entender.

- Se não fordes resgatado pelo Pastor, serás massacrado pelo Lobo! - respondeu Zélothy no mesmo tom de voz.

- Vim para saber de vós por que minha família corre perigo. Sereis afastado dela...

- Como assim?

- A besta não deixará que fiqueis unidos. Vossos entes serão dizimados feito cordeiros, e isso vos fará cumprir a segunda profecia.

- O que me dizeis não faz sentido algum. Acaso estais embriagado?

- Um membro de vossa família é um assecla do demônio. Ele matará todos que amais e depois vos provocará para que toda a luz de vosso coração seja desfeita. E, quando a criatura obtiver êxito no que quer, semeará a semente arcana sobre a raça humana, e suas proles tomarão o lugar deles.

Basta!

Loan tentou impedir que Zélothy continuasse a falar, mas ele não lhe deu ouvidos e prosseguiu:

E, assim que não restar nenhum homem na Terra, ele cobrirá este mundo de trevas, com o sangue de bilhões de inocentes.

- Vós sois um louco! - gritou Loan irritado, por aquilo que achava não passar de uma "história absurda". Zélothy tentou convencê-lo:

- O mal tem de ser detido, agora!

Pedistes que viesse aqui. Cumpri minha parte. Agora, deixarei que vos embriagueis nessa loucura. - Vá a Nottingham e procure Mictã enquanto há tempo...

Loan retrucou:

- Eu vos ouvi; escutai-me agora: jamais quero estar em vossa presença novamente! Zélothy, em brados, avisou-o:

- Acautelai-vos! Sereis submetido a uma difícil escolha. Andareis sobre o corpo da serpente do desconhecido. Encontrareis em sua boca a verdade na forma de páginas, revelações de vidas passadas, que vos envenenarão a alma!

Sem querer ouvir mais nada, ele simplesmente montou em seu cavalo e deu as costas ao franciscano, que bradava em desespero.

Assim que escutou o primeiro trote de seu animal, Loan foi resgatado para a dura realidade, no mesmo instante em que apertava forte, em sua mão, o anel de seu falecido pai. Apesar dos conselhos que frei Zélothy lhe dera naquela época, o cavaleiro resolveu não levá-los em consideração, acreditando firmemente tratar-se de um lunático.

Lembrou-se de que dera ouvidos a uma entidade, acreditando ser ele um anjo enviado por Deus. Deixou seu caráter ser reformulado pela obediência à lei divina em ser santo e anunciador da boa nova de sua conversão pelo Criador Majestoso do universo. Honrara com o coração as leis primordiais de Cristo, mas foi-lhe dada como recompensa, de sua fidelidade e submissão, a destruição da própria estirpe. Isso o fazia questionar-se.

O sentimento de culpa persistia, porém ela não era somente sua; refletia. Era também da Igreja e de todos os fidalgos de cujo grupo fazia parte. Sua mente o julgava: havia falhado com seus entes queridos, em um momento crucial. Sua crença estava acima de tudo, era seu único propósito, um dever sagrado. Ela o levou a renunciar o mundo por amor a Deus. E, no entanto, ele não pôde defender seus pais e irmãos, pois tinha a incumbência de retomar a Inglaterra das mãos dos adoradores pagãos.

Trágico e triste, todo o acontecido ficou gravado na memória e no semblante do leal guerreiro, de forma um tanto desesperadora. Indagava-se: onde poderia estar seu erro? Será que algum dia conseguiria livrar- se da sentença pela qual a consciência o condenava, para alcançar o perdão daqueles que foram mortos desprovidos do seu auxílio?

Neste momento, naquele lugar, a terra que antes inspirava poesias e beleza encontrava-se deflorada pelo terror da guerra.

Loan Horsham, o nobre pertencente à sagrada Ordem do Leão, estava com o coração sangrando pelo delito. Com a mente em conflito, despiu a mão direita da luva e, observando-a, pôs-se a meditar: Dias atrás, recebi na palma o símbolo de uma pomba, presente dado dos céus, por um anjo, para que fizesse frente às forças do mal.

Os olhos do cruzado engordaram-se de raiva e seus pensamentos foram tomados por uma nuvem negra. Sabendo que sua linhagem jamais voltaria ao seu convívio, uma blasfêmia projetou-se dos lábios. Sacou, então, um punhal da cintura e elevou-o para o alto.

- Eu renuncio à minha fé e a tudo que ela representa, e que o fogo do inferno consuma o maldito que me impôs este selo!

Impiedosamente, atravessou a lâmina pontiaguda sobre a palma da própria mão. Ao corte decisivo, o símbolo foi banhado de sangue.

Naquele momento, um relâmpago rasgou o espaço, ofuscando o límpido céu azul, e seu raio atingiu com força a terra, a alguns metros do transgressor. O peso do trovão fez estremecer o chão sob seus pés, como repreensão ao seu ato pecaminoso.

Loan já sentira muitas dores em seu forte corpo, mas nada comparado ao que estava sentindo com aquela gravíssima lesão. O sangue jorrava em abundância. No entanto, retirando a arma perfurante, ele não se deu por satisfeito e, ignorando o que acontecia à sua volta, novamente plantou o punhal na mão, na tentativa de desunir a marca da carne. Mediante tamanho sofrimento, Horsham emitiu um grito tão selvagem de agonia que poderia fazer desmoronar o restante das paredes que, por enquanto, permaneciam de pé. Prostrado ao lado das sepulturas violadas, o som estridente partiu de seus dentes cerrados, pois começava a arquejar, na tentativa enlouquecida de absorver o ar.

Após algum tempo, blasfemou:

- Nada mais... De ser lacaio de fantasmas!

Enfraquecido ante a imensa aflição e pela perda excessiva de plasma vital, lançou-se ao chão, ligando sua face ao pó da terra. Brados irados se converteram em prantos inconsoláveis. Chorou constantemente, desde a hora matinal até a hora da vigília. Seus sentimentos estavam quebrantados, e sua mente, inundada pela dor.

Ainda que coberto pela amargura, extraiu forças do espírito e juntou os corpos de seus familiares. E em respeito a eles ateou-lhes fogo, cremando-os, para não deixá-los à mercê de animais selvagens.

Dois dias depois...

Mal a noite caiu em Castle Bromwich, divisa de Birmingham, e as ruas já não estavam tão movimentadas quanto antes. Surgindo em uma delas, um cavaleiro invadia o seu silêncio, com o trote vagaroso de seu cavalo. Seu corpo estava quente, mas o calor que sentia não era provocado pelo clima, e sim pela chama da revolta que consumia sua alma. Percorrera campos verdejantes e passara por planícies áridas com o único objetivo de chegar àquele lugar.

Na mão mutilada, a agonia era opressiva e enervante. O animal estava entregue ao cansaço, e o combatente desacreditado tinha os pensamentos voltados para o cemitério que antes fora seu lar, e onde todos os seus parentes foram impiedosamente chacinados, restando deles apenas lembranças estilhaçadas. Por tudo isso, sua vida seria dedicada à caça dos assassinos, e somente com a vida deles vingaria sua família.

E a noite caiu na Inglaterra, feito uma mulher que se entrega ofegante ao seu amante.

O cavaleiro templário chegou ao fim da jornada, avistando à sua frente uma grande fortaleza. Descendo da sela de sua montaria, avançou lentamente até as dantescas portas maciças, escondendo o objetivo que somente ele conhecia.

No interior do castelo, em um aposento especial coberto de grande luxo, um homem, vestido com trajes exuberantes, preparava-se para deitar em seu leito, quando bateram à porta.

Transpondo-a, um dos serviçais anunciou, prestando-lhe reverência:

- Perdoai a falta deste vosso servo, eminência, mas há um cavaleiro que deseja falar-vos com extrema urgência.

- E quem é ele? - indagou o representante da Santa Igreja. -- Ele diz ser um nobre, um homem chamado Loan Horsham...

- Trate-o como tal! - retrucou o cardeal, admoestando a atitude irônica do serviçal. - Dizei a ele que irei recebê-lo.

- Sim ,eminência.

Envergonhado, o servo retirou-se dos aposentos.

Em outra parte do castelo, Loan estava apreensivo. Apesar da aflição pela qual passava, desejava falar às pressas com o ministro da fé, talvez apenas para desabafar e tirar o peso de seus ombros, seu tormento. Para ele, os minutos se tornavam uma eternidade e a paciência parecia esvair-se.

De repente, ouviu os passos de guardas que se aproximavam. Um deles declarou: Sua eminência irá cordialmente receber-vos, irmão Loan. Por favor, vinde conosco.

E foi. Andando por cômodos e corredores que percorria ao lado de outros membros da Ordem, ele observava a austeridade e a rigidez de toda aquela arquitetura.

Entrementes, num luxuoso salão da fortaleza de pedra, tendo apenas uma imensa mesa de madeira e uma cadeira que ostentava beleza em seus formatos melindres, o sacerdote estava sentado em ócio, os olhos fitos na porta, na expectativa de ouvir o que aquele cruzado tinha a lhe dizer. Não esperou muito, e a porta se abriu. O vassalo fez um gesto para Horsham entrar, anunciando:

Sir Loan Horsham, eminência.

A luminosidade tênue do corredor invadiu o salão momentos antes de ele adentrar o local e de a pesada porta fechar atrás de si. Com um olhar frio e passos firmes, Loan atravessou o recinto, ficando frente a frente com o prelado-mestre. Este se levantou e estendeu sua mão para o guerreiro; porém, ele se manteve imóvel, negando-se a prestar reverência a seu superior. O cardeal-patriarca nada comentou, mas seus olhos cintilaram com insatisfação pelo ato de desonra cometida pelo soldado-monge. Sentando-se, então, em sua confortável cadeira, disse:

Espero que tenhais um bom motivo para vir a esse castelo. Loan respondeu:

- Eu vos respeito.

Não me parece que tenhais sido sensato; nem mesmo honrastes minha autoridade. - Como disse, eu vos respeito - repetiu Loan ao lorde religioso.

- Podereis começar honrando a vós. Vós vos tornastes um guerreiro de Cristo e um bravo varão, cujas ações despertaram a atenção e os elogios do rei. Não dizeis nada sobre isto?

- Acabo de vir de minha casa, ou do que restou dela, e o que vi não me agradou nem um pouco. Minha família foi chacinada com os piores requintes de crueldade e seus corpos foram abandonados à própria sorte, refugos da terra, tudo isso por vontade dos nobres!

Eu soube disso. Meu fiel mensageiro trouxe-me a notícia desta terrível tragédia. Houve grande pesar da monarquia; infelizmente, foi uma perda profundamente lamentável.

Loan retrucou:

- A carne deles é a minha, eminência, e já carrega a estampa da Inglaterra!

Os bárbaros pagãos estão mortos e o que eles fizeram foi sepultado no inferno com eles! - respondeu o prelado. - Eu conhecia lorde

Horsham, vosso pai: um fidalgo de enorme grandeza. Não foi sem motivo que adotaram o emblema do leão candente. Além disso, morrer como um herói que defende sua moralidade fidalga é uma honra tanto para quem parte quanto para quem fica.

O ato não foi somente de meu pai; vi isto nele. Este título maldito e a riqueza que adquiriu espalharam-se em seu sangue como uma peste irreversível. A ordem monástica e a Inquisição acabaram com minha linhagem bem antes que os inimigos pudessem destruí-la.

O ministro eclesiástico replicou:

- Onde existir a altivez da plenitude, o imponente governo em responsabilidade e tamanha sede de poder, e até mesmo um sentimento de comiseração, o erro não será aceito perante os nobres; apesar disso, aprendemos e progredimos com as falhas. O império britânico te responde que és o único remanescente da sagrada Ordem do Leão. Ele está pronto para unir a vossa vida à dele, num grande futuro!

- Há outros caminhos que posso seguir - declarou Loan. O cardeal o contradisse:

- O caminho é Vossa Majestade, o Rei. Além de ter o poder de vos restituir vossa castigada terra, irá também condecorar-vos com títulos jamais sonhados. Ele vos dirá para não vos acorrentares a velhos ressentimentos de culpa e não vos apegares a uma sombra de impossíveis vinganças fúteis, pois o que aconteceu com os vossos não foi por procedência vossa. Todos nós dependemos do nosso rei. A independência perfeita não existe, e, no presente, o mundo é a monarquia. Tenho certeza de que vós escolhereis isso.

Loan visualizou bem a face do cardeal-patriarca e, deixando as palavras fluírem de sua boca, anunciou vagarosamente a resposta:

Neste exato momento, eu rompo minha aliança com a Igreja e renuncio às propostas de vosso rei.

As duras palavras do inglês surtiram efeito de um raio que divide uma árvore ao meio. Acendendo o fogo da ira e levantando os olhos para o templário, o cardeal lhe disse:

Atravessei por aquela porta e assentei-me nesta cadeira. Falei-vos com amizade, condolência e respeito, como teria falado com o próprio rei. Mas, quando me levantar daqui, serei a mão de Deus pronta para aniquilar todos aqueles que desafiam a coroa real! Há demasiados homens infames, com inveja e ambição, que tentam usurpar o trono de Vossa Majestade! Homens que se extinguiram para sempre deste mundo, tais como o líder deles, Jacques de Molay, e toda a sua ordem Templária, graças às primícias do céu que foram concedidas ao Santo Papa Clemente V e ao rei da França, sua majestade Felipe IV, esses importantes varões varreram aquela corja do mapa de uma vez por todas!

As palavras assustaram o cavaleiro, retorcendo suas feições, fazendo- -o balbuciar em réplica, quanto mais a dor tocava com uma estocada lancinante sua mão que ainda sangrava.

Ora, eminência, não foram os membros da Santa Madre Igreja que enviaram uma carta para Vossa Santidade, o papa, pedindo que restituísse a Ordem dos Templários em toda a Europa para que pudessem fazer frente aos inimigos de Cristo, e agora querem nos descartar num processo inquisitorial como se fôssemos algum tipo de moléstia? É isso que queres me dizer? - E acrescentou: - E não foi o próprio Jacques de Molay, antes de ser queimado na injusta fogueira da Inquisição, que anunciou ao rei e ao papa que eles teriam de comparecer diante do tribunal de Deus, antes que aquele ano terminasse?

O cardeal sorriu com uma afirmação irônica, embora as palavras de Loan causassem um furor sobejante em seu íntimo.

- "Eis que eu farei, aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem, eis que eu farei que venham e adorem, prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo. Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra. Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa." - relatou o prelado as escrituras.

- Poderias tu ser mais específico? - perguntou com um ar de indiferença.

- O que eu quero deixar bem claro, Loan, é que a Ordem dos Míseros Cavaleiros de Cristo nada mais é do que um arauto das trevas, veneradora de um ídolo místico e diabólico, do qual os antigos Templários bem antes de vós foram flagrados praticando ritos nefastos em suas cerimônias secretas. Sua pútrida devoção era entregue a um ser nefando sob a forma de uma cabeça com três faces hediondas, denominado Baphomet.

Ainda não me disseste o que eu quero saber. - replicou o cavaleiro.

- Supus que, em minhas atuais circunstâncias, seu cérebro selvagem inspiraria um pouco mais a inteligência, em vez de apenas manusear a espada. - disse o prelado.

Horsham o encarou com uma fúria silenciosa, sabendo que o cardeal queria lhe transmitir uma notícia nada agradável. No entanto, resolveu exprimir sua dedução.

- Entendi, queres me deixar claro que somos apenas meros fantoches, e que estaríamos nos moldando na coisa que predispomos a destruir, o mal cultivando o próprio mal. Que estaríamos usando o nome de Deus em vão como num baile de máscaras, para poder fazer o que bem entendermos: matar nossos semelhantes, estuprar mulheres indefesas, vender crianças e velhos só pra obter lucros e servir de adoradores de demônios só para conquistar riquezas e satisfação aqui na Terra. É assim que nos julgam, eminência?

Então, o prelado-mestre respondeu:

- Sua determinação e coragem em se expressar é surpreendente, devo dizer, mas, quanto à possibilidade que mencionaste, está repleta da mais nítida verdade.

Naquele exato momento, o cruzado percebeu quais seriam as intenções da Igreja e do rei. Um chicote de traição atingiu em cheio a devoção por seu país, terra pela qual antes daria sua vida com extrema honra. Por meses ele se dedicou com sentimento e sangue, fazendo transbordar com espírito combatente todo o seu valor de luta. Mas agora ele percebeu que era peça mais do que descartável, uma ameaça para toda a Europa, cada homem que se vestisse de manto branco com a cruz de malta vermelha estampada sobre o ombro esquerdo. Os novos templários, os hospitalários, os monges e os padres que compunham a Ordem seriam capturados, torturados e forçados a confessar, sem culpa, crimes de heresia, e seriam levados à morte pelo poder da Inquisição.

A amplidão daquela discussão já estava atingindo seu auge. Dois homens em um salão, donde o brilho tremulante das grossas velas era sua testemunha e lá as bestas espirituais escarneciam como música sombria na mente do templário. Numa rodopiante revolta de sua alma guerreira, atravancado de indulgências sobre a própria vida, sobre as irremediáveis chagas infinitas, seus ouvidos foram forçados a coletar uma exposição sucinta de um fato.

Além disso, recebi uma mensagem de tuas tropas, alegando que tu protegeste uma serva do diabo. Eles olhavam para ti como um enviado de Deus, e o que dizem de ti hoje? Que não passas de um herege! - bradou o sacerdote. - Se permaneceres aqui, tornar-te-às um inimigo dos nobres!

Com um ar de desafio, Loan manifestou de modo claro e terminante o teor ousado de suas palavras:

- Já sou inimigo dos nobres.

Então o ministro eclesiástico, admirado pela pesada confissão, replicou:

Mesmo que queiras, não posso proteger-te da catástrofe pessoal se ficares aqui. Tu és uma ameaça grande demais, até mesmo para a Santa Madre Igreja!

Com pose desafiadora, Loan respondeu ao ministro eclesiástico:

Acaso me consideras um perigo por que lutei com virtude e fé sem exigir pagamento de ninguém? E prosseguiu:

- Esse erro não perdurará em minhas costas. Porém, não foste tu, eminência, que, com a ajuda oculta de alguns fidalgos e o apoio de outros templários corruptos, arrecadaste grandes quantias, cobrando altos tributos de todos os patriotas, e desviaste tudo dos cofres reais, só para realizar as mais diversas transações sem que ninguém pudesse acusar-te, pois temias por tuas vidas, com medo da Inquisição? Isso não é mesmo verdade, santo cardeal?

A existência daquelas alegações foi como o estilhaçar de um vidro após o impacto de uma pedra. Loan sabia que sua atitude poderia custar-lhe a vida, mas, confiando em si, ele aguardava atento a resposta daquele fidalgo eclesiástico.

- Destruíste por completo o emblema de tua família! Expuseste teu pai ao ridículo perpétuo. Ele derramou seu honrado sangue para salvar a tua ignóbil vida, e pelo que pude contemplar foi um gesto louvável, mas sem fins proveitosos! Aceitei o preço do sangue dele, para alcançares teu perdão e livrar-te do Santo Ofício! Em consideração à amizade e à memória de Charlie Horsham, ordeno-te que te retires deste país antes que eu clame a autoridade dos céus e o poder da Santa Madre Igreja, conferida a mim, para que te destrua pessoalmente, ser blasfemo!

Loan não teve coragem de reprová-lo, para não acender ainda mais sua fúria. Apenas reprimiu uma lamentação provocada pela ferida em sua mão, e em silêncio deu as costas ao ministro religioso, indo direto para a porta de saída.

Novamente as palavras do fidalgo atingiram os ouvidos do ex-templário, fazendo-o parar por instantes. - Deixe a Inglaterra, já tens o meu aviso!

Então, o cavaleiro retirou-se do salão a passos largos, deixando para trás o cardeal, que permaneceu pensativo e iracundo, apertando firmemente seus braços nos entalhes da cadeira.

Passando pelo corredor que antes atravessara, Loan viu um grupo de dez soldados templários montando guarda por alguns andares do castelo. O olhar rápido havia sido o bastante para alertá-lo. Em instantes, poderia ser capturado e submetido a torturas, para que confessasse, em falso, seu apoio ao mal. Embora se visse livre para ir e vir, ele sentiu algo penetrando sua alma, prevenindo-o de algum perigo.

Nada mais havia para ele naquele país de cobiça e corrupção. E, acatando a ordem da autoridade monástica, seguiu com seus passos firmes cruzando o pátio.

Da janela dos aposentos, o prelado-mestre lançava um olhar preocupado em direção ao solitário combatente, instantes antes de ele sair daquela fortaleza com seu cavalo, quando outro homem adentrou em seus aposentos.

- Mandaste-me chamar, eminência?

- Sim, Mordred. Temos um gravíssimo problema. Ordenai a um mensageiro que leve essa mensagem ao rei. Dizendo isso, o fidalgo, de túnica branca bordada com fios de prata, abriu uma caixa de madeira decorada artisticamente e, pegando um rolo de pergaminho, entregou-o ao vassalo. Nele estava escrito: Encontramos o corpo de milorde Loan em um altar, totalmente nu, desmembrado e terrivelmente desfigurado pelos auguristas que ainda restaram.

Enquanto isso, no presente...

As lágrimas de Loan rolavam por sua face ferida, fazendo com que Rúbia se compadecesse dele. Não fiques triste, estás entre amigos aqui.

Mesmo com os olhos molhados, ele se esforçou para sorrir.

São enunciações bastante consoladoras, mas sinto-me deslocado neste lugar; estou completamente perdido...

- Não te sentes seguro aqui? - interrogou a moça.

Segurança... Eu a sentiria com minha família... Isso se eles estivessem vivos - resmungou o homem. Sentindo-se magoada, a camponesa inclinou levemente a cabeça, enquanto Loan, ao reparar, disse, envergonhado:

- Desculpe-me, Rúbia, eu te molestei com minha grosseria...

- Não - balançou a cabeça como se o compreendesse. - Entendo o quanto sofreste, e que ainda não estás totalmente recuperado, mas o pior já passou. - a voz da moça lhe expressou ternura.

A mente dele já tinha se acasalado com o ódio, e o sentimento de furor já fazia parte do seu ser interior. Apesar das frases calmas e doces da moça, aquele homem continuava a insistir no passado.

Estava eu passando por Dartmoor, quando fui intrepidamente surpreendido por um grupo de homens encapuzados que se diziam ser entes dos celtas mortos e queriam obter seu consolo com a minha vida. Andando despercebido, Loan seguiu com sua montaria por uma trilha localizada no coração da mata, porém o que aconteceu a seguir quebrou toda a paz daquele lugar. Com muito alarde, uma turba encapuzada de túnicas negras surgiu em meio à flora. Avançando contra aquele cavaleiro solitário, os homens apresentavam uma intensa fúria lupina. O brado dos agressores aterrorizou o equino, pondo-o empinado sobre as patas traseiras.

No esforço de se manter montado no animal, Loan desequilibrou-se dos estribos, desabando ao solo, atingindo-o num impacto seco e doloroso.

Durante um momento, ouviu apenas o relinchar de seu cavalo, que fugia apavorado floresta adentro. Então, veio o grito feroz do líder, anunciando aos da emboscada que era chegado o momento exato para o ataque.

Mal se recobrando do tombo, Loan, guiado pelo desespero, foi forçado a ignorar a dor de sua mão direita, que voltara a verter sangue. Tateando às pressas a cintura, segurou firmemente o punhal e, levado pelo instinto, discerniu um dos agressores que se aproximava rápido para desferir-lhe o golpe mortal de seu machado.

No tempo certo, Horsham ergueu-se com a agilidade de uma serpente e o atacou como um tigre faminto, plantando sua lâmina na parótida do infeliz inimigo, não lhe dando tempo sequer para uma nova investida. No mesmo momento, outro encapuzado reagiu, arremetendo-se contra o cavaleiro na velocidade de um lobo, mas, com extrema habilidade, o corpo do templário girou, torceu-se e desviou- se, enquanto a lâmina inimiga apenas perfurou sua capa, deslizando inofensiva entre o braço e o peito.

Por sofrer um ataque direto, o hábil combatente apertou firme o cabo de sua arma mortífera e, lançando-a rápido, fracionou o capuz e o crânio do outro na altura das orelhas, com um só golpe.

Sentindo-se confortado, ele chegou a pensar que aqueles homens que o atacaram eram os mesmos que outrora mataram sua família. Sendo assim, manifestaram-se para pôr fim ao remanescente de uma poderosa linhagem. Isso o animou muito, revelando-lhe um sorriso cínico nos lábios.

Mas deteve-ve no súbito instante em que uma das figuras revelou-se para ele, desconcertando-o em sobressalto.

- Mordred? - admirou-se Loan, que por instantes se deteve.

- Tu não és digno de estar entre os vivos, pois inventaste perjúrios contra vossa eminência - respondeu Mordred.

- Perjúrios? Usando o nome Santo de Deus, tu e tua corja usais de métodos obscenos para atingires objetivos torpes! Não passais de excrementos podres! - respondeu Loan, com o ódio fumegando em seus olhos.

Quando Horsham correu em direção a Mordred, outra figura traiçoeira se precipitou sobre o ex- templário. Em vão, pois a tentativa se tornou fracasso quando o traidor sentiu o metal frio dilacerar suas entranhas. Percebendo uma nova investida, Loan, aflito, agarrou o indivíduo que, ainda vivo, bradava de dor e usou-o como escudo. O inimigo, sem demonstrar nenhuma piedade, atravessou o corpo do próprio companheiro. E a ponta da espada atravessou a armadura de Horsham, atingindo a malha de ferro apenas com um tinido.

De forma brusca, o renegado tentava retirar a arma das tripas do moribundo, que, em mortificação, arranhava a face do inglês. Cego por um momento, Horsham se libertou, arremessando brutalmente seu agressor contra uma árvore próxima.

Vencido pelo cansaço físico e fraco pela perda constante do líquido rubor, por causa do ferimento de sua mão, o cavaleiro cruzado cambaleou em direção à floresta, sabendo que seus algozes viriam ao seu encalço para terminar o serviço.

Com a vista embaçada, devido ao escarlate que vertia da testa, Horsham tentava manter-se em combate. Todavia, hesitou em desferir seu golpe, até ser tarde demais. O flagelo o abraçou como uma serpente que crava suas presas. No momento crucial em que sentiu uma flecha de ponta farpada trespassar o lado esquerdo do tórax e o aço frio da espada de Mordred atingí-lo por trás em seu flanco direito, diante de tamanho suplício a espada do cavaleiro do leão lhe escapou da mão, e suas forças se escassaram por lutar com um número maior de soldados.

Fatigado, Loan tropeçou e caiu.

A lucidez pouco a pouco foi sendo substituída pelo estado de inconsciência, e a locomoção de seu corpo, comprometida pela violência da luta.

Sem mais nada a fazer e tampouco a murmurar, ele aceitou a visita da eterna derrota. Sua respiração lentamente o abandonou, convertendo-se em arquejos angustiantes, e apenas seus ouvidos testemunharam as pragas proferidas pelos seus algozes, que, cuspindo nele, se preparavam para desencadear seus golpes de misericórdia. Mesmo contra seu desejo, ele desmaiou.

Hospedado em um casebre, agora já aconchegado num leito de capim, Loan usou seu braço para enxugar os olhos em lágrimas, enquanto Rúbia, penalizada diante da amarga história, delicadamente alisou os cabelos escuros do enfermo, carícias que se tornaram um bálsamo, consolando-o.

Ele não conseguia entender apenas uma questão: durante aquela batalha travada entre ele e seus rivais, como conseguiu sobreviver se estava desfalecido devido aos graves ferimentos? Eles estavam em maior número, o que o desfavorecia ainda mais. Quem o teria salvado? Que guerreiro teria intercedido em seu favor, sabendo que também correria o risco de perder a cabeça? E seus verdugos? Onde estariam? Que fim tiveram?

Durante certo tempo ficou se perguntando, mas, como sempre, a resposta nada mais era que um vácuo no desconhecido. Ao olhar a palma da mão ferida, observava-a tomado de admiração, pois outrora, num instante de ódio, havia retalhado violentamente o símbolo nela desenhado.

Sentia o corpo físico totalmente ferido e enlaçado pelas dores, exceto a mão direita, que havia sido, de alguma forma inexplicável, restituída dos cortes, deixando o desenho totalmente intacto. Loan pensou profundamente sobre a situação e concluiu que, apesar das blasfêmias, havia declarado contra os céus, e Deus, com sua infinita misericórdia, enviara um de seus emissários para salvá-lo da morte certa nas mãos daqueles desgraçados, embora não soubesse de que maneira. Depois, somente a mão direita foi restaurada; ainda mais bonita do que antes. Mas a nuvem da dúvida interpôs-se novamente entre a desconfiança e a fé.

- Acaso teria sido mesmo um anjo dos céus o responsável pela minha salvação? Se sua teoria estivesse correta, restava apenas uma indagação. Por que houve somente a cura de um único membro em seu corpo?

A pergunta se dissipou como fumaça que se espalha ao vento. Após algum tempo, logo lhe ocorreu que essa situação poderia ser uma nova e inesperada chance. Afinal, tinha uma missão e precisava cumpri-la a qualquer custo.

Todos os seres viventes corriam risco de extinção, e a Loan foi dada a tarefa de impedir isso. Abandonou a idéia de continuar a falar de sua vida com Rúbia. Pediu carinhosamente para ela que o deixasse só, pois queria descansar e, ao mesmo tempo, refletir. Durante esse tempo que escorria pela natureza humana, de todos do vilarejo que estavam preocupados com a saúde do forasteiro, apenas uma pessoa se sentia desapontada. Seu nome era Elizabeth Baldric, e ela não o via como membro daquela vila. Pelo contrário, Loan havia se tornado um embusteiro das atenções. Só ouvia dos aldeões de que maneira milagrosa aquele homem havia sobrevivido, mesmo no estado em que foi encontrado. Pelo visto, Rúbia havia abraçado a tarefa de cuidar daquele estranho forasteiro com grande zelo, mesmo grávida.

Rúbia se comportava como esposa dele; então ela suspeitou que ele fosse algum tipo de feiticeiro, ou coisa parecida, a ponto de sua melhor amiga parecer apaixonada por um homem que nunca viu antes. Elizabeth sempre mantinha os braços cruzados, observando com atenção a maneira carinhosa com que se tratavam. Principalmente, quando a camponesa o alimentava. Isso a afligia muito, fazendo-a menear a cabeça completamente contrariada.

Baldric se sentiu como uma peça descartável, uma serviçal que ajudou uma campônia galesa refugiada e solitária e que carrega uma vida em seu ventre. Ela estendeu a mão para essa mulher desamparada, dando o teto de sua própria cabana. Cedeu para Lands sua cama, enquanto dormia no chão sobre alguns cobertores de lã. Até a comida era divida em partes desiguais, por reparar que sua amiga comia por dois. Agora, quando esse cavaleiro apareceu do nada naquela noite, suas vidas mudaram completamente. Era como se o sentimento que Elizabeth sentia por Rúbia houvesse sido lançado no mar do esquecimento, e tal comportamento a deixou com o coração despedaçado.

Baldric não queria aceitar aquele fato ultrajante e foi em direção à choupana de uma velha, que muitos consideravam misteriosa. Acreditavam que ela possuía poderes sobrenaturais, além de predizer o futuro. Um resmungo partiu da boca de Elizabeth, e um arrepio percorreu a pele clara de seu corpo. Esfregou os braços em seu próprio manto, fechou os punhos e contraiu os dentes, na tentativa de controlar aquela sensação estranha.

Ela deu seus passos finais, olhou para trás para avaliar se alguém a observava e aproximou-se depressa da cabana.

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