O funeral do meu pai tinha acabado. Eu herdei a sua construtora, mas havia uma condição impensável: eu tinha de dar à luz um herdeiro dentro de um ano.
O problema? Eu e o meu marido, Leo, estávamos há dois anos a tentar ter um filho sem sucesso, e ele não aguentava mais, pedindo o divórcio.
Mas o verdadeiro choque veio na clínica de fertilidade. A médica revelou que o Leo sabia, há mais de um ano, que ele era o infértil, e me deixou culpar o meu próprio corpo e sofrer sozinha.
Mentirosos. Fui traída pelo homem em quem confiava, que me assistiu a lutar e a chorar, sabendo a verdade todo este tempo. A raiva era cega, a mágoa profunda. Como poderia seguir em frente e salvar o legado do meu pai?
Foi então que o advogado sugeriu algo louco: um casamento de conveniência. E eu, desesperada, faria um pacto com o diabo, propondo um arranjo com o filho do maior rival do meu pai.
O funeral do meu pai acabou. O ar estava pesado, cheirava a terra molhada e a flores murchas.
A minha mãe, Sofia, estava ao meu lado, mas o seu olhar estava fixo no meu marido, Leo.
O advogado tinha acabado de ler o testamento. O meu pai deixou-me a sua empresa, a construtora que ele construiu do zero.
Mas havia uma condição.
Eu tinha de dar à luz um herdeiro dentro de um ano.
Olhei para o Leo. Ele estava desconfortável, a mexer no colarinho da camisa.
Eu sabia porquê.
Tentávamos ter um filho há dois anos. Dois anos de consultas médicas, tratamentos e esperanças desfeitas.
A voz da minha mãe quebrou o silêncio.
"Filha, não te preocupes. O Leo está aqui. Vocês vão conseguir."
As suas palavras eram para me confortar, mas soaram ocas.
Mais tarde, em casa, o silêncio era ainda mais pesado.
Peguei no meu telemóvel e liguei à clínica de fertilidade. Marquei uma consulta para a manhã seguinte.
Leo ouviu-me. A sua expressão endureceu.
"Eva, já chega. Eu não aguento mais isto."
A sua voz era baixa, mas cheia de uma exaustão que eu conhecia bem.
"Leo, é a última vontade do meu pai. É a nossa última oportunidade."
Ele abanou a cabeça.
"Não é a nossa oportunidade. É a tua. Eu não quero mais fazer parte disto. Estou farto de ser tratado como uma máquina de fazer bebés."
"Não é justo dizeres isso," respondi, a minha própria voz a tremer. "Nós passámos por isto juntos."
"Não, Eva. Tu passaste por isto. Eu só estive lá para as injeções e os exames. A tua mãe, a tua tia, todos a olharem para mim, a perguntarem-se o que há de errado comigo."
"Leo, vamos divorciar-nos."
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. Ficaram suspensas no ar entre nós, feias e definitivas.
Ele olhou para mim, os olhos arregalados por um segundo. Depois, uma espécie de alívio inundou o seu rosto.
"Talvez tenhas razão. Talvez seja o melhor."
Ele não discutiu. Não lutou. Apenas concordou.
Naquele momento, percebi que o nosso casamento já tinha morrido há muito tempo. O testamento do meu pai foi apenas o prego final no caixão.
Ele virou-se e foi para o quarto de hóspedes. Ouvi a porta fechar-se com um clique suave.
Fiquei sozinha na sala de estar, a olhar para o telemóvel na minha mão. A consulta de amanhã parecia inútil agora.
A empresa do meu pai. O seu legado. Tudo dependia de algo que eu não conseguia fazer. Pelo menos, não com o Leo.
A minha tia Clara, irmã da minha mãe, ligou-me. A sua voz era estridente e acusadora.
"Eva! O que é que se passa contigo? A tua mãe acabou de me ligar, a chorar! Como é que podes falar em divórcio numa altura destas? O corpo do teu pai ainda nem arrefeceu no túmulo!"
"Tia, não entendes."
"Não entendo? Eu entendo perfeitamente! Estás a ser egoísta! O Leo é um bom homem. Ele tem estado ao teu lado. E agora, porque o teu pai te deixou esta responsabilidade, vais deitá-lo fora? A tua mãe está destroçada! Ela contava com vocês os dois para continuarem o negócio da família!"
Desliguei o telefone. Não conseguia ouvir mais.
Egoísta. Talvez eu fosse.
Mas ficar com um homem que já não me amava, apenas para cumprir uma condição, parecia uma traição ainda maior. A mim mesma e à memória do meu pai.
Na manhã seguinte, fui à clínica sozinha.
O ar condicionado era demasiado frio. As cadeiras na sala de espera eram desconfortáveis.
A Dra. Alves chamou o meu nome. A sua expressão era profissional, mas simpática.
"Eva, como estás a sentir-te?"
"Estou bem," menti.
Sentámo-nos no seu consultório. Havia modelos de plástico do sistema reprodutor feminino na sua secretária.
"Recebi os teus últimos resultados. E os do Leo."
Ela fez uma pausa, a olhar para os papéis.
"Eva, os teus exames estão perfeitos. Não há nenhuma razão física para não conseguires engravidar."
Esperei. Eu sabia que havia um "mas".
"Os resultados do Leo... bem, a contagem de espermatozoides dele é extremamente baixa. E a motilidade também é muito fraca. Para ser franca, as hipóteses de conceção natural são praticamente nulas."
O ar saiu dos meus pulmões.
Praticamente nulas.
"Ele sabia disto?" a minha voz era um sussurro.
"Sim. Nós discutimos os resultados com ele há mais de um ano. Sugerimos várias opções, incluindo um dador de esperma."
Um ano.
Ele sabia há um ano.
Ele viu-me a injetar hormonas, a chorar a cada menstruação, a culpar o meu próprio corpo. Durante um ano inteiro. E nunca disse uma palavra.
A raiva era uma onda quente que subia pelo meu peito. Era tão forte que me deixou sem fôlego.
Agradeci à Dra. Alves, a minha voz robótica e distante.
Saí da clínica e entrei no meu carro. Fiquei sentada ali, a olhar para o trânsito, mas sem o ver realmente.
A traição era tão profunda, tão completa. Não era apenas sobre o bebé. Era sobre cada momento de dor que ele me deixou passar sozinha, sabendo que a "culpa" era dele.
Peguei no telemóvel e liguei-lhe.
Ele atendeu ao segundo toque.
"Eva?"
"Tu sabias," disse eu, sem rodeios. "Tu sabias há um ano."
Silêncio do outro lado.
"Leo, responde-me. Tu sabias?"
"Eva, eu ia contar-te..."
"Quando? Quando é que ias contar-me? Depois de mais um ano de tratamentos inúteis? Depois de eu perder a empresa do meu pai?"
A minha voz subiu, cheia de uma fúria que eu não sabia que tinha.
"Eu não queria magoar-te! Eu pensei que talvez... talvez um milagre acontecesse."
"Um milagre?" ri, um som amargo e feio. "Tu não querias magoar-me? Deixaste-me pensar que eu era o problema! Deixaste a minha família olhar para mim com pena! Deixaste-me odiar o meu próprio corpo!"
"Eu sinto muito, Eva..."
"Não, não sentes. Tu só sentes pena de ti mesmo. Da tua masculinidade ferida. O divórcio está de pé, Leo. Quero que saias de casa até ao final do dia."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
As minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o volante.
Fui para o escritório. O escritório do meu pai.
Precisava de pensar. Precisava de um plano. Um ano. Eu tinha um ano.