Vou resumir o pior dia da minha vida com poucas palavras: eu tinha amor platonico por Arthur desde que me entendo por gente, mas nunca tive coragem de conversar com ele, ou ao menos, de encara-lo. E a nossa primeira interação foi com ele me pegando escondida dentro do banheiro masculino.
Mas tinha um motivo para esse desastre...
Fechei os olhos. De início, tudo ficou escuro, depois avermelhado e, por fim, surgiram aquelas bolinhas que pareciam flutuar pelo ar. Ele me abraçava, o único há muito tempo. Esquentava meu corpo e me dava energia.
Não era uma pessoa, claro que não seria. Era o sol. Amava fechar os olhos e senti-lo acalentar meu corpo.
- Senhorita Angeline?
Suspirei desanimada antes de abrir meus olhos, mas não enxerguei nada com nitidez por causa do brilho ofuscante do sol. E nada mudou, tudo estava como antes, eu realmente ia para o colégio e ainda era aquela garota.
Otávio, o motorista, me olhava confuso, provavelmente tinha dito algo e eu não escutei, ou então disse algo no modo automático. As vezes fazia isso.
- Passou protetor solar? - Uma voz austera soou atrás de mim.
Mãe!
- Sim, mãe!
Sua mão agarrou meu braço me fazendo ficar a sua frente. Seus olhos castanhos escuros me analisavam atentamente (como todo santo dia), tentando ver se tudo estava perfeito aos olhos dela. Cabelos alinhados, rosto sem olheiras (infelizmente era algo que sempre aparecia, seja por estresse, noites mal dormidas, provas, treinos...), uniforme impecável, unhas limpas e curtas, pele hidratada e protegida. Sem falar na vistoria da minha mochila. Mataria qualquer um de tédio.
Na tentativa de um reconforto pensava que aquilo tudo era preocupação de mãe, que ela só queria o meu bem. Na maioria das vezes funcionava, eu repetia em pensamentos e minha mente acreditava.
Entramos no carro e seguimos o mesmo caminho que fazíamos a uma década, literalmente. Olhei pela janela enquanto passávamos na rua de cima da minha casa, para aquela enorme árvore em especial, assim como fazia há dez anos. Então lembrei daquela cena, dos seus olhos amáveis que me enxergou do jeito que eu realmente era, e do seu sorriso inocente. Então meu coração se esquentou, assim como o sol fazia todas as manhãs. Aquilo era o bastante para me deixar feliz, por um tempo.
Ao chegar à minha segunda casa, um dos vices diretores abordou minha mãe. O assunto deles não me interessava em nada, mas tinha que permanecer ali, ao seu lado. Poucos alunos chegavam naquele horário, de modo que tinha uma hora livre - não tão livre assim - antes das aulas começarem.
O vento soprou as folhas secas do outono e algumas agarraram no meu cabelo. Tirei-as e quando olhei para o lado, vi um cachorrinho entremeado num dos arbustos médio com pequenas flores azuis, podado milimetricamente que decoravam a entrada do colégio.
Era nítido seu medo, estava perdido e com frio. Seus grandes olhinhos demonstravam desespero. Sua pelagem parecia tão macia. Era tricolor; branco, marron e beje. Era um anjinho. Seus olhos eram claros, não sabia dizer se era verde ou azul.
Quando vi já estava agachada e pegando ele no colo. Suas pequenas patinhas se agarraram em minhas mãos como se não quisesse me soltar mais, como se eu fosse seu porto seguro, aquilo me encheu de dor e alegria. Olhei ao redor para confirmar se ele realmente não tinha dono ou se sua mãe não estava por perto. Analisei-o a procura de algum machucado e descobri que era uma menininha. Era fêmea. Meu coração estava radiante com sua beleza.
- Oh, bebê - acariciei mais ainda seus pelos sedosos e a confortei num abraço forte. - Você não tem casa? Como veio parar aqui, nesse frio? - abracei-a mais ainda, tentando esquentá-la, mesmo com toda aquela pelagem densa ela sentia frio. Sempre tive vontade de ter um cachorrinho, mas minha mãe nunca permitiu.
- Angeline! - Um calafrio percorreu minha espinha, e não era de frio. Antes fosse. - O que está fazendo agachada dessa forma? Na frente do colégio ainda.
Escutei o ranger de seus dentes e com isso meu medo aumentou. Olhei novamente para a cachorrinha e criei forças para encarar minha mãe.
- Ela está perdida... É só uma filhotinha, mãe.
- Isso não é problema seu. Agora, se levante e solte esse filhote. - Seus olhos arregalaram e sua expressão se fechou mais ainda. - Olhe o seu uniforme - indicou para o casaco na cor índigo, que naquele momento estava quase branco encoberto de pelos.
Reprimi um sorriso, pois aquilo não me incomodou em nada. Ficaria feliz em ter aqueles pelos grudados nas minhas roupas, se isso significasse salvá-la e amá-la.
Isabel ordenou que eu tirasse aquela peça, ficando apenas com a camisa branca com botões azuis.
- Tem outro reserva? - sentia a entonação da sua voz, o quanto ela se controlava, e eu, já tremia de medo.
- Sim, no meu armário - respondi num murmúrio que não tive certeza se ela escutou.
- Sinceramente, Angeline... Meu dia não começou nada bom, acho melhor você não me perturbar o resto dele - ralhou com toda sua imperiosidade revestida de um terninho e saltos.
Algo no meu peito comprimiu. E toda aquela "preocupação de mãe" que tentava enganar a mim mesma ia embora. E mais uma vez ela não se lembrou daquela data.
Escutei o choro da cachorrinha e com isso meus olhos inundaram. Encarei minha mãe enraivecida, como se fosse adiantar algo, mas era a única coisa que conseguia fazer.
- Não posso dar as costas um minuto que você já me passa vergonha - resmungou enquanto subíamos as escadas.
Engoli em seco e respirei fundo, mas a minha vontade era de retrucar todas suas ordens ridículas e voltar lá correndo e pegá-la para mim. Contudo, algo mais forte do que podia controlar, me impedia de fazer tal ato.
- Levante a cabeça! - ordenou enquanto caminhávamos para dentro do colégio.
Era sempre assim ao seu lado. "Levanta a cabeça... Ajeita os ombros... Coluna ereta... Corrija suas pernas".
Não gostava de encarar as pessoas, não pelo fato de ser tímida, mas pelo modo que me olhavam. Sabia muito bem a forma que eles me enxergavam, que acreditavam que eu era, quando na verdade era o contrário. Então abaixava a cabeça, pois não gostava de me ver através deles. Aquela não era eu. E há muito tempo não sabia exatamente quem eu era.
- Boa aula! - disse secamente.
Isabel seguiu pelas escadas, para sua sala no último andar, a coordenadora do colégio. Segui até o corredor dos armários, alguns alunos já estavam ali, escorados em seus respectivos armários, trocando experiências com seus amigos.
- Olha só, a Intocável resolveu querer mostrar o que não tem - escutei uma voz aguda irritantemente forçada e não precisava olhar para saber quem era. Catarina.
Fechei meus braços em cruz no meu peito, segurando firmemente as alças da mochila no meu ombro. Suas amigas, como sempre, compartilhavam das risadas e piadas. E eu, apenas ignorava, como sempre.
Dei passos mais rápidos até meu armário e coloquei o código no cadeado para destravá-lo. Arregalei os olhos assustada com o som de uma música clássica que ressoou alto o bastante para todos que estivessem ao redor pudessem ouvir.
Dividida entre pegar o casaco e desligar aquilo, optei por tentar silenciar a sonata n° 11 por Mozart. Ela era linda, mas aquele não era o momento.
Minha respiração começou a ficar acelerada e minhas mãos a suarem. Envergonhada, comecei a mexer naquela bailarina que girava numa caixinha aveludada.
- Onde desliga isso? - já estava desesperada, e pelo campo visual que tinha dava para ver que muitos me olhavam. Odiava ser o centro das atenções. Odiava.
- FELIZ ANIVERSÁRIOOOO! - a voz rouca da minha melhor e única amiga alertaram a todos algo que eu não queria que soubessem. Abaixei a cabeça e respirei fundo, era impossível ficar nervosa com ela.
Por fim, descobri um pino logo atrás da bailarina e desliguei. Kaia dava pulinhos de alegria, balançando suas marias-chiquinhas cor de mel.
Abracei-a agradecendo o presente. E pelo que conhecia dela, não terminaria por ali. Não que achasse ruim, pelo contrário, ela fazia os meus dias melhores e aquele em especial mais ainda. A única que se lembrava do meu aniversário. Não que eu tivesse muitos contatos e familiares, longe disso, mas os poucos que conhecia, ela sempre era a única que lembrava.
- O universo me disse que esse aniversário seu será diferente - informou energizada, mexendo da forma que só ela sabia suas grossas e naturais sobrancelhas.
A conhecia desde criança, quando me mudei para a mesma rua em que ela morava. Estava carregando meus poucos brinquedos numa pequena caixa, quando escutei uma voz vindo de algum lugar, depois de muito tempo procurando, encontrei-a. Numa árvore.
Kaia sempre foi muito brincalhona e ativa. Suas brincadeiras eram as mais malucas por assim dizer. Isto é, se a pessoa considerasse descer deitada num skate em uma rua íngreme e com declive fora do normal. Com ela eu podia ser assim também, mas de tanto ser reprimida por minha mãe, acabei por me transformar em algo que às vezes nem eu mesma reconhecia.
- E o que mais o universo disse? - questionei-a entrando na brincadeira, mas ela levava a sério sobre esse assunto. Quase toda semana contava algo sobre como meu mapa astral mudava, ou seja lá o que mudava a nossa vida. Não que não acreditasse, mas nunca parei para realmente refletir naquilo.
- Se a pessoa souber as chances de não concretizar são enormes - me olhou com o queixo erguido e um sorriso astuto.
- Claro! - balancei a cabeça rindo.
Beijei sua bochecha e a abracei. Estava muito feliz, ela fazia meus dias melhores. Ela era mais que uma amiga, era uma irmã, uma confidente, meu escudo.
E que tipo de amiga eu era? Foram incontáveis vezes que deixei de brincar com ela durante nossa infância para satisfazer os caprichos de Isabel. Às vezes era difícil chamá-la de mãe.
- Ainda não é verão não, intocável - uma voz masculina e zombeteira interrompeu nossa conversa. Suspirei pesadamente e logo desesperei. Meu casaco.
- Meu casaco! - lamentei para Kaia, ela me olhou tomando uma expressão nada boa.
- Vai lá, eu seguro seus livros - dito isso, entreguei a ela e corri ao meu armário, mas olhei para trás vendo a cena que ela armava com o garoto que tropeçou no seu pé (propositalmente colocado a frente dele) e caiu ao chão e seus amigos riram. Voltei meu foco em abrir o cadeado e pegar o casaco.
Caminhei enquanto abotoava o uniforme. Mesmo com três livros de botânica e um caderno, ela enlaçou uma de suas mãos no meu braço.
Ao chegar à sala, como sempre, recebia os olhares e fuxicos de quase todos. Era impossível não conhecer alguém ali. Porque simplesmente não existiam novatos, eram sempre os mesmos. Repito: OS MESMOS. As turmas quase nunca mudavam também.
Desde sempre estudei naquele colégio interno. Ele era especial, o aluno começava desde o primário e ia até o ensino médio, onde era encaminhado para a melhor universidade. Ele era conjugado com a academia de esportes, tinha inúmeras modalidades, o aluno que escolhia (essa era a ilusão que eles passavam para nós, mas eu sabia a verdade) e desde criança praticava e participava de diversos torneios nacionais e internacionais.
Na parte da manhã estudávamos, à tarde treinávamos e a noite tinha a revisão dos estudos. Era uma rotina cansativa, mas já estávamos acostumados.
Sentávamos em dupla. Nossa mesa ficava a frente da sala e ao lado da janela. Sentei e organizei os livros de acordo com os horários.
- Bom dia, Intocável! - Lucca tamborilou os dedos na minha mesa.
Meu corpo enrijeceu. Elevei meus olhos até a metade de seus corpos. Os três parados a nossa frente. Marcus apoiou sua perna na minha mesa, deduzi que fosse ele pela sua pele morena. Lucca ainda mantinha a mão ali, sua voz era única.
E o último que sobrou era ele, Arthur. Ele permaneceu com os braços cruzados. Sentia que me analisava. E como sempre era o único que na maioria das vezes ficava calado. Aos poucos subi o olhar, me desafiando a olhá-lo. Meu coração disparava cada centímetro a mais que via de seu corpo. Aquele relógio era diferente... era novo. Ele ficava tão bem de azul... e quando seus olhos iam se encontrar com os meus, abaixei a cabeça.
Digna de pena!
Belisquei meu pulso, com raiva. Estava cansada de mim mesma. Isso era possível?
Se minha história fosse um livro, não passaria do primeiro capítulo e me entediaria.
- Querem alguma coisa? - kaia reverberou ao meu lado, batendo a garrafinha de água na mesa.
- Queremos, mas ao que parece não vamos conseguir - Marcus disse com um tom sugestivo seguido de uma risada.
- Caíam fora daqui! - ela esbravejou. Sua cadeira quase caiu quando ela se levantou abruptamente e quase jogou água neles.
Os três seguiram rindo até a porta, só então respirei.
- Babacas! - murmurou, sentando-se.
Ri para minha amiga que sempre tinha essa reação quando eles vinham me importunar.
- Obrigada!
- É um prazer enxotá-los todas as vezes - confessou enquanto mexia nas suas tranças. - Arthur é o único que nunca diz nada, fica apenas te encarando - disse com um fio de desconfiança na voz.
- Hm...
Kaia apenas confirmou o que eu imaginava.
Não tinha muito que falar. Não queria contar meu único segredo. Porque todas as vezes que imaginava ele sendo revelado, parecia que o mundo desabaria.
Será que era assim com todo mundo? Será que todos se sentiam assim a ponto de guardar a sete chaves seus segredos?
Não queria que ninguém soubesse a forma como ele mexia comigo. Não queria que descobrissem que o sorriso que exibia antes de dormir era por ele. Não queria que ela ou ninguém soubesse que sempre quando tinha a oportunidade o espiava (Aah, eu amava fazer aquilo). Se fechasse meus olhos teria todos seus traços gravados na minha mente.
Kaia não estava errada, ele era diferente sim, mas com o passar dos anos ele mudou, infelizmente não era mais aquele garotinho fofo e heróico que conheci.
E nem eu. Não me lembrava da última vez em que sorri verdadeiramente, ou que não mantinha a cabeça baixa, com medo. Eu era ridícula.
Aquela era a semana dos simulados, o que significava que tínhamos um intervalo a mais na parte da manhã, que duravam vinte minutos. Durante as provas não parava de olhar através das janelas, preocupada com a cachorrinha. E no final, depois de quase perder o tempo na última questão decidi que pegaria ela. Com o intervalo estendido seria perfeito para encontrá-la.
- Kaia, você me ajudaria em algo? - perguntei assim que olhamos o mural do gabarito.
- Sempre! - confessou com a expressão distante. Ela sempre ficava assim depois que fazia as provas de física. Kaia era uma garota esguia, não tão alta, mas ao meu lado era como se ela ganhasse dez centímetros a mais e eu dez a menos.
- Essa manhã eu vi uma cachorrinha perdida ali na entrada e já sabe qual foi a reação da minha mãe, queria saber se...
Ela arregalou os olhos, esquecendo de olhar suas notas e sua atenção era totalmente em mim.
- Vamos lá agora, ela pode ficar na minha casa, meus pais não vão brigar... - franziu a testa - Quer dizer, acho que não... não importa, vamos resgatá-la - afirmou extasiada.
Estávamos indo juntas, mas parei e segurei no seu pulso.
- Vamos fazer assim, você pega minha mochila e eu a procuro, já que sei onde ela estava.
Kaia assentiu e nos separamos.
Respirei fundo e comecei a procurar por ela. Não a encontrava em lugar algum. Olhei em cada arbusto, cada entrada e nada. Meu horário livre já estava acabando e em breve tinha que subir para a última aula.
Devia ter passado uns dez minutos, e nada de encontrar ela. Kaia me encontrou ali com a mochila e juntas a procuramos. Por fim a achamos do outro lado da rua, novamente entre arbustos.
Assim que a tinha em meus braços, fiquei um tempo a mais para que se acostumasse comigo.
- Vou ser sua mamãe - disse encantada com sua beleza. Ela era muito fofa. - Vou te dar todo o amor do mundo, vamos ser amigas. Seu nome vai ser... Lizzie.
- Ah, meu Deus! Por que será né?! - Kaia inquiriu rindo, mesmo já sabendo a resposta.
Sorri e ela abriu a boquinha exibindo aqueles dentinhos afiados, parecia rir também. Jane Austen que me perdoe, mas era muito fã dela e colocaria sim o nome de uma de suas personagens no meu bebê.
- Bem, Lizzie, estamos atrasadas para a última aula. Vou te colocar num lugar quentinho e não tão macio, mas prometo que terá um lugar só seu mais tarde.
Seus olhinhos me analisavam, até parecia que ela entendia perfeitamente o que dizia.
Ela era quietinha, não parecia ser do tipo inquieta e bagunceira. Peguei-a com cuidado e coloquei na minha bolsa.
O resultado disso mais tarde, foi:
- Está tudo bem, Catarina? - o professou perguntou depois de dez espirros sucessivos dela.
- Não... Atchiim - outro espirro. - Não entendo, só dou essas crises de espirro quando tem algum cachorro sarnento por perto.
Olhei de relance para Kaia, que colocava o dedo na garganta forçando um vômito diante da fala da Catarina. Ri das suas caras e bocas, mas de repente criei na minha mente várias versões onde Isabel arrancava minha cabeça. Se eu fosse descoberta seria algo inaceitável, não só para minha mãe, mas para as regras do colégio.
Minha sorte era que faltavam poucos minutos para a aula acabar e ela estava quietinha. Mas os espirros da Catarina não cessaram. Com medo de ser descoberta, pedi licença para o professor e sem ter seu consentimento saí da sala apressada.
No meio do corredor avistei minha mãe conversando com um professor. Seria o meu fim. Minhas mãos tremiam e minha respiração... Bem, até aquele momento eu não respirava.
Antes que ela me visse, entrei na primeira porta que vi. Era o banheiro.
Assim que fechei a porta e escorei na mesma trancada, com a bolsa apertada contra meu peito, soltei o ar e respirei melhor, mas logo vi algo estranho.
Não!
Não!
Mil vezes não!
Estava no banheiro masculino. MASCULINO!
Se nunca tive alguma crise de Pânico, com certeza teria uma ali.
Vários garotos entravam, alguns silenciosos, outros barulhentos.
Somente a Kaia me ajudaria naquela enrascada, mas como se ela nem sabia onde eu estava.
Congelei quando escutei a voz deles, daquele trio maldito. Exceto o Arthur. Sorri um pouco, mesmo em completo e total desespero.
- Sai logo daí - Marcus bateu na minha porta, que estremeceu com seu toque. - Quero usar.
Droga!
Meus olhos estavam saindo da órbita já. Olhei pela milésima vez a tranca. Estava trancado. Será que ele poderia abrir? Tudo poderia acontecer.
- Deve ser o Fred - Lucca zombou - ele sempre fica uma hora dentro do banheiro.
- Sonhando com as garotas que jamais vai pegar, de certo - Marcus e sua boca suja. Todos os outros riram. - Fred, seu nerd virjão, se você não sair daí em um minuto eu vou subir no banheiro ao lado e filmar você brincando com a mão.
Que nojento! Ele não seria tão ousado de subir, seria?
Lizzie começou a se remexer dentro da bolsa. Se ela chorasse ou latisse seria o meu fim. Sentia meu coração na garganta. Percebi que segurava a respiração de novo.
- Olha aí, Arthur - um deles pediu. Já não sabia mais reconhecer a voz.
QUÊEE?
- Deixa o cara... - escutei sua risada.
Até você, Arthur?
- Se está demorando tanto assim deve estar pensando na Catarina - Marcus falou.
Qual era a invocação que eles tinham com ela? Seus peitos enormes? Só isso?
- Ou com a Int... - Arthur não finalizou a frase.
- Com quem?
- Ou se ele está demorando pode ser que esteja apenas com diarreia - escutei sua voz um pouco mais perto... Como se não tivesse aquela parede de granito que nos separava.
Então minha intuição martelou na minha cabeça. Não podia ser. Pela primeira vez, meu sexto sentido tinha de estar errado.
Olhei para cima e o vi. Engoli em seco. Seus olhos cintilavam diversão ao contrário dos meus que clamavam para que não contasse aos outros que estava ali. Seria o meu fim. Mordi a boca reprimindo um ganido sufocado. Balancei a cabeça em negativo implorando para que não me revelasse.
Ele entortou a cabeça e ficou me analisando de uma forma que não sabia o que significava e não queria descobrir.
Aaah! Queria gritar. Aquela era a primeira vez que mantínhamos o contato visual e tinha que ser daquela forma? Tão vergonhoso. Tão, tão humilhante.
- Vocês têm que ver isso - disse abrindo um sorriso malicioso.
Lucca soltou outra piada desnecessária:
- Aposto que quebrou a mão ou o p...
Mas o Arthur o interrompeu.
Arregalei os olhos e minha boca não conseguia se fechar.
Não, ele não faria isso.
Não faria!
Faria?
Jamais imaginaria que aquele dia, tão comum, se transformaria naquela diversão. Jamais imaginaria que a encontraria ali, no banheiro masculino. Estava mais do que intrigado em saber o motivo da Intocável estar ali. Se ela estava em uma enrascada, era óbvio, estava estampado no seu belo rosto, que naquele instante estava praticamente da mesma cor que seus cabelos ruivos.
- Vocês têm que ver isso - disse sorrindo diante do seu sofrimento. Estava em cima do granito que separava os banheiros.
Claro que não deixaria meus amigos subirem ali e a verem. Mas pareceu divertido ver seu olhar desesperado implorando pela minha ajuda. Até que me dei conta que eles falavam muita besteira. Não que ela fosse uma criança, mas certas coisas eram pesadas para uma garota escutar. Então dei meu jeito e despachei-os. Se ela achava que ia se livrar de mim também era porque não me conhecia.
Fiquei esperando logo na entrada do banheiro, mas parecia que ela pretendia passar o resto do dia ali.
Os corredores começaram a ficarem vazios. Todos já estavam indo para o treino.
Fred, mais conhecido como o nerd virjao, veio correndo todo desajeitado, mas logo barrei sua entrada.
- Lamento, mas está ocupado.
- C... co... como assim? - gaguejou aflito.
- Vai a outro banheiro, Fred - avisei sério.
Sem esperar saiu correndo.
Resolvi entrar e descobrir qual era a dela.
- Ei... - cheguei bem próximo a porta - Todo o colégio já foi para o treino. Pode sair - dito isso escutei um murmúrio agudo. Muito estranho. Será que ela estava passando mal? - Intocável? Você está bem? Abre a porta.
Dei dois toques na porta e ela não deu nenhum sinal de que iria abrir. Bufei, pensando em alguma forma de destrancar, mas escutei ela se mexendo e então a porta abriu e lá estava ela. A Intocável de sempre. Sua boca estava comprimida e seus olhos vidrados na porta. Num instante ela corria até a saída, mas fui mais rápido e me coloquei entre ela e a porta.
- Não tão rápido, Intocável. O que aconteceu? - perguntei, enquanto buscava alguma resposta em seus traços. O cheiro dela era tão suave, mas tomava conta daquele espaço. Percebi que era a primeira vez que realmente ficava sozinho com ela, a primeira vez em anos que tinha sua atenção só para mim.
- Por favor, preciso ir. Tenho que treinar - pediu com a voz carregada de inquietação.
Soltei uma risada fraca.
- Eu também. Qual é, eu te salvei, me deve uma - inclinei levemente o tronco para ficar da mesma altura que ela.
Ela me encarou espantada. De perto seus olhos pareciam bem maiores. Senti uma sensação diferente ao devolver a troca de olhares.
- Eu... Eu apenas entrei no banheiro errado e... E quando fui tentar sair vocês entraram...
Sua bolsa começou a se mexer sozinha. Imediatamente minha atenção caiu lá. Seu corpo retesou. Então não foi um movimento estranho que repetiu, mas sim um choro.
Encarei-a desconfiado. Troquei o peso de uma perna para outra. Angeline parecia que ia ter um ataque de pânico. Sem aguentar, ri da situação.
- Ai ai... Ora, ora! O que temos aqui - avancei um curto passo no seu rumo. Estávamos bem próximos. Involuntariamente meu nariz aspirou seu cheiro suave, mais do que devia. - Me deixa ver - pedi num sussurro.
Ainda sem me olhar, ela fez menção de abrir.
Tudo aconteceu muito rápido. Num instante ela estava agachada, pronta para abrir e me mostrar o que quer que fosse. E no outro, a voz da sua amiga brotou do inferno e então ela escapou de mim feito uma pluma.
Observei as duas correndo na direção oposta do alojamento de treino.
O que será que a Intocável estava aprontando? Talvez, justamente por ser ela, aquela história não saiu da minha cabeça o resto do dia.
No outro dia, durante a aula, ao invés de olhar os slides, apenas prestei atenção na voz do professor, e meus olhos ficaram atentos a qualquer movimento que ela fazia. Não foram muitos. Ela parecia um robô sobre aquela cadeira. Seu braço nem se mexia direito para escrever. Sua postura era incrível.
A única coisa que me tirou a atenção dela foi quando senti algo molhado no meu ouvido. Já sabia o que era e quem. Sem chamar a atenção do professor, torci o braço do Marcus e ele deixou a caneta com uma bolinha de papel molhado cair ao chão.
- Nojento - resmunguei enquanto ele ria e massageava o braço.
- É nojento sim, Arthur. - O professor concordou comigo. E quase todos riram. Eles achavam que meu comentário era sobre a matéria, mas era do maldito cotonete molhado.
A aula acabou e fomos almoçar.
Subíamos as escadas, conversando sobre o torneio que estava se aproximando. Marcus não queria entrar, mas era o que mais tinha chance de ganhar no seu peso, contudo não ia admitir isso a ele, só serviria para inflar seu ego. Lucca queria mais que todos nós. Acreditava que ele tinha chance assim como eu, mas ao contrário dele eu não queria. Até gostava de todo o treino, em como o boxe me ajudou a passar por diversos problemas desde sempre, mas não gostava das competições. De todos os torneios que nosso colégio já teve, minhas vitórias ajudaram a preencher o mural de troféus, mas não era o melhor nem de longe.
Nossa modalidade ficava no penúltimo andar, então sempre subíamos 8 andares. Logo abaixo de nós, algumas meninas do balé subiam, rindo e conversando sobre... Coisas de garotas.
Todas já usavam suas roupas de treino. Aquela meia calça quase transparente, uma blusa colada em seus corpos e uma saia de tule que balançavam de acordo com o andado delas. Algumas rebolavam mais, outras andavam que nem um robô e tinha ela, a Intocável. Ela vinha atrás de todas, e sozinha, algo raro de se ver.
Todos no colégio a chamavam e a conheciam assim, ninguém sabia como começou, mas eu sim, porque fui eu que a apelidei assim. Era simples, ninguém chegava perto, ela não ficava com ninguém. Muitos outros rumores já foram inventados, alguns diziam que era por causa da sua mãe, vulgo diretora do colégio. Outros falavam que ela tinha alguma doença, ou até que era lésbica, mas que também era duvidoso essa última opção, porque ninguém, ninguém nunca a viu com outra pessoa. Ela não tinha nenhum histórico de algum deslize.
Exceto aquele do banheiro. Semicerrei os olhos no rumo dela, que parecia abstraída.
Seu olhar era sempre altivo, isto é, quando estava na presença de sua mãe. Nunca olhava para ninguém, exceto sua amiga. Nunca sorria para ninguém, exceto sua amiga. Nunca conversava com ninguém.... exceto sua amiga, acho que deu para entender. Ela parecia ser de... De outro mundo. Nada parecia abalar ela. Suas notas eram as melhores. Sua beleza era diferente, era exótica. Muitas garotas pareciam intimidadas com sua beleza, já os garotos nem se davam o trabalho de tentar, pois era algo impossível, era como se ela fosse inalcançável. Então apenas a admirávamos de longe.
- Estão vendo o que estou vendo? - Lucca começou e já sabíamos como ia terminar - Vejam e aprendam...
Desceu alguns degraus para alcançá-las.
- Minhas bailarinas, como vocês estão? - abraçou as gêmeas australianas. Elas não eram australianas, mas as características físicas delas (olhos claros, pele bronzeada, cabelos claros com ondas soltas...) fazia como se fossem, então o apelido pegou.
- Descarado, filho da mãe - Marcus murmurou, descendo mais rápido para alcançar elas.
Ri da competição que eles faziam para chamar atenção delas. Eles nem percebiam que faziam isso, apenas exerciam.
-... Quero ver esses rostinhos no torneio de luta.
Angeline subia as escadas, como se não tivesse escutado meu amigo, mas conhecendo ele sabia que não ia deixar passar algo.
- Ora, ora... Se não é a Intocável - Lucca disse e a garota ao seu lado riu de forma debochada.
- Que foi? Está pensando se sobe ou não? - Catarina, a mais vulgar de todas ali perguntou enquanto se aproximava de mim. Ou tentava, já que não dava muita atenção a ela.
- Não vamos te tocar - Marcus zombou e mais garotas riram.
Mantive ali em cima, observando todos. Ela parecia mesmo ponderar se subia ou não. Seus olhos não passavam da altura mediana de nossos corpos. Seu peito se expandiu e ela soltou uma lufada de ar e continuou a subir.
Catarina tocou minha coxa e sussurrou um comentário totalmente desnecessário sobre ela com sua voz melosa claramente forçada.
Com as pernas vacilantes, subiu os degraus segurando no corrimão de metal. Lucca pegou uma mecha ruiva de seu cabelo e num reflexo seu corpo retraiu e andou mais rápido. Algo em mim me fez ficar incomodado. Ele estava indo longe demais.
- Macios e cheirosos! - Lucca constatou.
Assim que ela passou por mim, vi que seus olhos se fixaram na mão da Catarina pousada na minha coxa.
Balancei a cabeça e retirei sua mão dali. Depois que todas elas subiram, restando apenas nós três, Lucca pronunciou:
- Sabe de uma coisa - Apoiou seus braços no meu ombro e no do Marcus. - Vamos adiantar a aposta.
A aposta era jogo que os dois gostavam de fazer todo ano. Era uma competição escrota sobre qual dos dois pegaria mais garotas. A primeira vez participei, mas vi o quanto era sem sentido fazer aquilo, então parei. Os dois até me perturbaram com isso, mas não deram a minha falta.
- Por que a pressa? - perguntei curioso.
- Monta logo um bordel para você - Marcus zombou.
- Quem sabe - deu dois tapas no trapézio dele. - Quem sabe.
- Ordinário!
- Mas dessa vez será diferente. Vamos ter uma convidada em especial - fez uma pausa olhando para cima - A intocável vai estar no topo da lista.
Marcus gargalhou alto e todos ao redor olharam. Ri junto com ele, mas não na mesma altura. Aquilo era piada.
- Você eu sei que não consegue - Lucca zombou dele. - E você... Bem, até que tem alguma chance - disse para mim, dando de ombros.
- Você é o que menos tem chance - Marcus contrapôs - Ela te odeia, você não deixa a garota em paz.
- Isso porque ela não me conhece - disse de forma indecente para seu quadril.
Novamente senti um incomodo ao escutar ele falar daquela forma a respeito da Angeline.
Tirei as luvas suadas e dependurei a regata na porta do meu armário.
Mais um dia de treino extenuante. Com a competição se aproximando o treinador pegava mais pesado. Estava exausto.
- Corno, me espera - xinguei-o fazendo se virar para trás.
Guardei as luvas e as faixas dentro da mochila e caminhei até eles.
- Vamos assistir as dançarinas treinando - Lucca sugeriu com seu jeito safado de sempre.
- E subir lá em cima só para vê-las dando piruetas? - Marcus debochou.
- Deixa de ser escroto. Sabe que o ballet é mais do que piruetas - contradisse ele.
- Como é? - perguntou me encarando como se tivesse brotado garras do predador no meu rosto.
- Arthur tem razão. São belas garotas com roupas coladas...
Novamente, começaram a falar besteiras. Às vezes participava das piadas, mas na maioria das vezes os ignorava. Como não tinha o que fazer resolvi segui-los. Mas sabia que o verdadeiro motivo era para vê-la.
Passamos pelo corredor estreito e esgueiramos atrás das cortinas. Marcus, desastrado como sempre quase derrubou alguns materiais empilhados numa prateleira.
Lucca deu um tapa na nuca dele.
- Fica quieto!
- A culpa não é minha se o espaço é pequeno.
Os dois discutiam enquanto isso meus olhos vasculhavam o estúdio a procura dela como um predador, o que não foi difícil. De cara fui atraído pela dona dos cabelos ruivos mais exóticos que conhecia.
- Caralho!
Elas faziam exercícios em dupla. Uma ficava no chão, deitada e com as pernas na posição de borboleta, enquanto a outra, com o corpo esticado, tinham seus pés sobre uma barra e suas mãos apoiavam na parte adutora das coxas da garota de baixo e então ela fazia flexão.
- Mano, que isso... - Marcus estava embasbacado.
- Ah, nem deve ser tão foda assim - Lucca como sempre tinha que fazer algum comentário maldoso.
Angeline estava por baixo, ao passo que uma das gêmeas custava fazer a flexão apoiada nas coxas dela, dava para ver seus braços finos tremendo. Angeline parecia dar apoio a ela, subindo levemente as coxas. Três flexões depois, a australiana não aguentou e caiu entre as pernas dela.
- Nossa! Que visão - Como sempre, Lucca tinha que ver malícia em tudo.
Depois daqueles exercícios elas se alongaram nas barras fixas a parede. A flexibilidade delas era fora do normal, mas a dela, como sempre, destacava.
Assim que a professora liberou, elas saíram uma de cada vez.
Lucca e Marcus saíram atrás delas, pareciam dois cachorros tarados, nem notaram que eu não os segui.
Esperei que todas as bailarinas saíssem e entrei no estúdio. Era bem diferente do nosso. Mais iluminado, com espelhos ao redor e barras fixas. Atravessei-o e fui para o vestiário. Também completamente diferente do nosso.
Com um ar totalmente feminino, em cada armário tinha fotos delas.
A encontrei de costas para mim, sentada num dos bancos, desamarrando os laços da sapatilha. Iria descobrir sobre o episódio do banheiro ali mesmo. Aproximei mais um pouco, ela ainda não tinha notado minha presença, parecia focada com...
- Ish! - resmunguei de dor só de olhar para seu pé. Estava avermelhado e com bolhas, a unha do seu dedão parecia querer se descolar. Ver aquilo fez meu estômago revirar. Não de nojo, mas sim pela dor que ela não devia estar sentindo, só que ela não demonstrou.
Angeline me olhou, assustada. Algumas mechas ruivas tampavam seu rosto. Quis tirar aquela mecha para que pudesse ver melhor seus olhos. Era raro fazer contato visual com ela. Tão raro que me deixou desnorteado esquecendo o real motivo de estar ali, logo voltou sua atenção ao pé. Quase pronta para arrancar a unha.
- Se eu fosse você não faria isso...
Ela parecia confusa quanto a minha intromissão, mas resoluta em não me dar ouvidos.
- O que estava fazendo no banheiro masculino, Intocável? - voltei o foco e nisso seu corpo ficou rígido parando tudo o que fazia. Antes de cutucar na unha praticamente descolada, olhou-me novamente.
Ela era linda, mas intocável. Como se fosse a pintura mais famosa em um museu e todos pudesse apenas admirá-la de longe, pois teria aquela faixa amarela de restrição, a faixa no caso seria sua mãe. Ri internamente.
- Está querendo ensinar-me como cuidar dos meus pés? - retrucou com um tom divertido. - Uma bailarina que praticamente saiu do útero da mãe já fazendo um pliê? - elevou uma sobrancelha. Meus olhos foram atraídos para sua boca que formou um sorriso tímido, quase imperceptível, mas eu notei.
- Uaau! - estava surpreendido por ter se dirigido a mim e por aquela nova face que descobri, talvez sarcasmo? - Consegui fazer você falar comigo, de novo. Duas vezes na semana. Que avanço! - disse enquanto passei uma perna sobre o banco e me sentei a sua frente.
Sorri feliz por ter conseguido falar com ela. E não passou despercebido como ela ficou afetada com meu sorriso. Gostei.
- Não estou querendo te ensinar, até porque sei que vocês, bailarinas, sofrem bem mais com esses machucados nos pés do que nós, meros e reles boxeadores.
Senti seu olhar indagador em mim. Como se duvidasse das minhas palavras.
- Mas acho que se você arrancar vai doer...
- Eu não ia arrancá-la, só estava tentando deixá-la menos incomoda até chegar em casa - explicou enquanto cortava a ponta da unha - Não é o correto, mas... - deu de ombros como se já fizesse aquilo várias vezes.
- Quer ajuda? - ofereci tentando realmente ajudá-la. Ver aquela unha quase solta balançar e seu dedo avermelhado parecia sofrimento demais.
Ela negou num murmúrio e se levantou, mas a impedi. Tinha avançado a mão para segurá-la, mas no final não tive coragem.
- O que quer que eu faça? - Na mesma velocidade em que me encarou, ela cortou o contato visual. - Se não falar, vou te interrogar novamente sobre o banh...
- Pega uma faixa dentro do meu armário - disparou - é aquele ali, aberto.
Balancei a cabeça diante da sua insistência em não me contar. Levantei-me e fui até seu armário. Era extremamente organizado, tinha várias fotos dela em apresentações, outras com sua amiga. Uma em especial me chamou a atenção, era a foto mais destacada ali. Ela usava uma roupa branca, assim como as sapatilhas. O fotografo soube capturar o momento. Ela parecia voar... como um anjo. Tão linda.
Escutei ela soltar um suspiro e então me dei conta que demorei demais para pegar uma simples faixa. Assim que fiquei a sua frente, bati na minha coxa para que colocasse sua perna ali. Ela parecia curiosa, o que deixou sua expressão facial mais fascinante ainda. Sua beleza ficava a cada segundo mais atraente ainda, se é que isso era possível.
- Coloque sua perna aqui para eu enfaixar - pedi.
Só naquele momento percebi que ela não era tão tímida assim, mas sim assustada. Tinha algo a mais dentro dela. Que ela era inteligente isso era de conhecimento geral, mas tinha algo que cintilava em seus olhos, algo que queria descobrir.
- Não precisa... Na verdade vou fazer isso em casa - disse, claramente nervosa.
Deixei que se levantasse, mas no primeiro passo que deu não aguentou perdendo o equilíbrio. Desastrosamente ela caiu em cima de mim.
Soltei um gemido de dor quando seu cotovelo bateu no meu olho, mas não forte o bastante para ficar roxo no dia seguinte. Aquilo doeu, mas foi esquecido ao sentir todo seu corpo sobre o meu, sentir seu cheiro, sua pele. Minha nossa!
Ajudei a se sentar novamente a todo o momento fitando-a. Seu rosto ficou vermelho como um pimentão. Ao pegar sua perna para colocar sobre minha coxa tentei ignorar a sensação quente que tive do toque da sua pele sob a meia calça fina. Raspei a garganta me ajeitando melhor.
- Você é bem teimosa, Intocável - disse enquanto enfaixava delicadamente seus dedos machucados. - Só queria te ajudar... Sei que não falamos muito, quer dizer nunca conversamos, mas não sou nenhum estranho.
Fiquei observando cada movimento seu, vez ou outra sentia seus olhos subirem, mas não fazia contato visual.
- Prontinho! - passei a mão sobre a faixa no seu pequeno pé.
- Obrigada! É... é melhor eu ir...
- Tudo bem - não a permiti que terminasse, pois sabia que se tratava da sua mãe. - A gente se vê amanhã, espero que não seja no banheiro masculino de novo - brinquei e com isso seus olhos quase saltaram. Não aguentei e soltei uma risada alta e ela retribuiu com um sorriso discreto.
Fiquei um tempo ali, parado. Ainda em choque. Todas as partes em mim gritavam para conhecê-la melhor.
Se estar perto dela, estar com ela, significasse entrar naquela aposta boba, então que assim fosse. Não deixaria que o Lucca ou qualquer outro garoto chegasse perto dela.