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Fingir Até Acontecer

Fingir Até Acontecer

Autor: Cadu Mello
Gênero: Romance
Clara tem 35 anos e um plano perfeitamente racional: fugir deles. Depois de uma demissão disfarçada de "reestruturação", um término sem motivo suficiente para brigar e um aniversário que ela decidiu simplesmente não comemorar, Clara faz a única coisa que parecia fazer sentido às três da manhã: compra passagem para um cruzeiro lotado de gente na faixa dos vinte anos. A lógica era simples. Se ela conseguisse se misturar, talvez a idade parasse de contar. O problema é que ninguém avisou Clara que fingir ter vinte e poucos é um trabalho de tempo integral - e ela é péssima nisso. Erra a gíria. Erra o passo do dance que jurou ter entendido. Erra, principalmente, ao achar que ninguém está percebendo. Entre memes que ela não pega e uma vontade cada vez maior de voltar pro camarote sozinha, Clara esbarra em Tomás: 38 anos, arquiteto, o tipo de homem que todo mundo chama de "tranquilo" porque "estagnado com boa postura" seria rude demais para dizer em voz alta. Ele também não devia estar naquele cruzeiro. E é o primeiro, em muito tempo, que olha pra Clara sem esperar que ela seja engraçada o tempo todo. Tem também Isabela, 22 anos, que decidiu que Clara é um ícone de vida - sem saber que está tão perdida quanto ela, só que chama isso de "se encontrando" em vez de "estar velha". E tem o grupo: Rafa, Xande, Mari e companhia, que Clara passa metade da viagem tentando impressionar e a outra metade percebendo que eles têm tanto medo quanto ela, só que usam palavras diferentes pra isso. O que começa como comédia de choque geracional - gírias erradas, tentativas desesperadas de pertencer, um dance do TikTok que termina no chão do deck - vai, aos poucos, virando outra coisa. Porque Clara descobre, sem querer e sem discurso, que o problema nunca foi ter 35 anos. Foi ter passado os últimos anos rindo antes que alguém a obrigasse a sentir. Fake It Till You Make It é uma comédia sobre performance, sobre a idade que a gente finge não ter medo de ter, e sobre o momento exato em que a gente para de tentar ser interessante para os outros e, sem perceber, se torna. Um romance para quem já riu demais de si mesmo pra não reconhecer o próprio reflexo - e para quem sempre desconfiou que a pessoa mais engraçada da festa é, quase sempre, a mais sozinha.
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Capítulo 1 A decisão questionável

Existem decisões que a gente toma devagar, pesando prós e contras numa planilha mental, dormindo sobre o assunto, conversando com amigos que vão te dar a opinião que você já tinha decidido ouvir. E existem decisões que a gente toma às 23h47 de uma terça-feira, com uma taça de vinho pela metade e o cartão de crédito já digitado de cor.

A minha foi da segunda categoria.

Eu não vou fingir que não sabia o que estava fazendo. Sabia. Só não sabia o tamanho da coisa - e isso, no fim, é o meu problema crônico: entendo os fatos, erro a escala.

Os fatos eram simples. Eu tinha trinta e cinco anos, tinha sido "desligada por reestruturação" de uma startup que, resumindo educadamente, achava que dormir no escritório era sinônimo de propósito de vida. Tinha terminado, três meses antes, um relacionamento de três anos sem uma única briga digna de nota - o que, convenhamos, é o tipo de fim que não te dá nem o consolo de odiar alguém. E tinha um aniversário de trinta e cinco chegando como um trem que você vê vindo de longe e mesmo assim se surpreende quando apita.

Diante desse cenário, qualquer pessoa razoável teria feito terapia, ou yoga, ou aquele curso de cerâmica que todo mundo faz depois de uma crise e nunca mais faz de novo.

Eu comprei uma passagem de cruzeiro.

Não qualquer cruzeiro. Um cruzeiro anunciado, sem nenhuma ironia por parte da empresa que vendia, como "a experiência definitiva para quem tem entre 21 e 29 anos". Eu li isso. Vi o número. Fiz a conta. E cliquei em comprar assim mesmo, com a serenidade de quem está tomando uma decisão completamente normal.

Existe uma lógica ali, juro. Uma lógica torta, mas existe. Eu não queria um cruzeiro para "gente da minha idade" - cheio de casais em segunda lua de mel comparando reformas de cozinha e planos de previdência privada. Eu queria provar uma coisa. Não sei exatamente o quê, ou melhor: sei, mas ainda não tinha coragem de admitir nem para mim mesma, então vou deixar a frase incompleta por enquanto e você vai ter que confiar que ela se resolve lá na frente. Combinado?

O que eu disse para as pessoas foi: "preciso de uma energia diferente". Isso é o tipo de frase que soa profunda o suficiente pra ninguém perguntar mais nada. Funciona quase sempre. Funcionou com a minha mãe, que só perguntou se eu ia usar protetor solar. Funcionou com a Beatriz, minha melhor amiga, que ergueu uma sobrancelha, decidiu não brigar comigo numa terça-feira, e mandou um emoji de barco.

Não funcionou comigo. Mas isso eu só fui perceber depois.

***

A parte engraçada - e olha que eu digo "engraçada" já sabendo o que vem - é que eu sou uma pessoa que se orgulha de tomar decisões pensadas. Sou analista de marketing. Faço planilha até pra decidir o que vou assistir na sexta-feira. Tenho uma pasta no computador chamada "decisões importantes" com subpastas organizadas por ano, o que é ridículo e eu sei que é ridículo, mas nunca deletei porque isso implicaria admitir que sou o tipo de pessoa que faz isso.

E ali estava eu, comprando uma passagem de mil e duzentos dólares pra passar sete dias com gente que nasceu depois do Orkut morrer, sem consultar a pasta, sem fazer planilha, sem nem terminar de processar por que estava fazendo aquilo.

Eu sabia - sei - que "está passando de fase" é uma frase que eu uso sobre o mercado de trabalho quando o que eu quero dizer é sobre mim. Sei que "as pessoas hoje em dia são de outro mundo" é uma forma educada de dizer "eu não entendo mais o mundo e isso me apavora". Sei disso do mesmo jeito que sei que deveria comer mais fibra: intelectualmente, sem que isso mude nenhum comportamento na prática.

O aniversário de trinta e cinco tinha virado, na minha cabeça, uma linha divisória arbitrária entre "ainda dá tempo" e "já era". Ninguém me disse isso. Não tem estatística, não tem lei, não tem nem uma piada de internet que confirme essa fronteira - eu inventei ela sozinha, com material de primeira qualidade: comparação, insegurança e um scroll de duas horas no Instagram vendo gente com vinte e poucos anos fazendo coisas que, tecnicamente, eu também podia fazer, só que escolhia não fazer, e agora estava reescrevendo essa escolha como incapacidade.

Isso é uma engenharia impressionante de autossabotagem, se você parar pra pensar. Eu paro. Foi basicamente o meu hobby daquele mês.

***

Fiz as malas na véspera - coisa que nunca faço, sou do tipo que separa roupa com uma semana de antecedência, dobrada, numerada mentalmente por ocasião. Dessa vez, joguei tudo numa mala pequena, decidida a viajar leve no sentido literal, já que no sentido figurado estava carregando o equivalente a um contêiner.

Não sei de onde achei que a metáfora não se aplicava a mim.

Separei três vestidos que a vendedora da loja chamou de "despojados" - palavra que, decodificada, significa "jovem", que por sua vez significa "não é bem a sua cara, mas vai que". Separei um tênis branco que comprei especificamente pra essa viagem, ainda com aquele cheiro de loja que não sai nem depois de três lavagens. Separei protetor solar, porque minha mãe ia perguntar de qualquer forma e eu queria poder responder com a consciência limpa em pelo menos um aspecto da minha vida.

Não separei, porque não sabia que precisaria, nenhuma resposta pronta para a pergunta "quantos anos você tem?", que ia aparecer antes do que eu gostaria.

***

Na manhã do embarque, tomei café sozinha na cozinha, olhando pra passagem impressa em cima da mesa - sim, impressa, eu sei, ninguém mais faz isso, mas alguma parte de mim ainda acredita que papel é mais real que tela, e naquele momento eu precisava que aquilo fosse real.

Fiquei uns minutos só olhando pra faixa etária escrita ali, pequena, no canto: 21-29. Já tinha visto aquilo antes, claro. Vi quando comprei, vi quando recebi a confirmação, vi quando imprimi. Mas ali, com café esfriando e mala pronta do lado da porta, foi a primeira vez que aquilo pareceu concreto.

Eu ia entrar num navio cheio de gente dez, doze, quatorze anos mais nova que eu. Ia ser, estatisticamente falando, a mãe de alguém ali.

Pensei em cancelar. Cheguei a abrir o aplicativo, dedo pairando em cima do botão vermelho que provavelmente dizia "cancelar reserva" - não me lembro exatamente do texto, e aqui eu preciso ser honesta com você: talvez esteja reescrevendo esse momento pra parecer mais dramático do que foi. Talvez eu só tenha olhado pro celular por três segundos e voltado a tomar café. A memória é assim, generosa com quem conta a história. Eu era a que contava, então acho que o dedo pairou, sim. Vamos com essa versão.

O fato é que não cancelei.

Não porque tive uma epifania de coragem, nem porque uma voz interior sábia me disse "vai, você merece". Não cancelei porque, no fundo, cancelar significava admitir que a viagem inteira tinha sido um erro pensado errado desde o começo - e eu não estava pronta pra admitir isso ainda. Prefiro, historicamente, descobrir que uma decisão foi ruim vivendo ela até o fim, não abortando na largada. É menos eficiente. É bem mais eu.

Terminei o café. Peguei a mala pequena com trinta e cinco anos de bagagem dentro dela, de um jeito que nenhuma companhia aérea jamais vai cobrar excesso de peso porque não é esse tipo de peso.

E fui pro navio.

***

No táxi, a caminho do porto, mandei uma mensagem pra Beatriz: "Vou. Não me julga."

Ela respondeu na hora, porque Beatriz sempre responde na hora, é uma das qualidades dela que eu mais invejo e menos pratico: "Eu nunca te julgo. Só reservo o direito de rir muito quando você me contar depois."

Guardei o celular. Olhei pela janela pro trânsito de terça-feira de manhã, gente indo trabalhar num mundo que ia continuar girando perfeitamente bem sem eu estar nele por uma semana - o que devia ser reconfortante e, por algum motivo que eu ainda não sabia nomear, doeu um pouco.

O navio apareceu no fim da avenida, branco e enorme, parecendo menos um meio de transporte e mais uma declaração de intenções.

Eu não fazia ideia do tamanho da coisa que estava prestes a embarcar.

Capítulo 2 O embarque

O terminal do porto tem um jeito de te preparar pra alguma coisa e, ao mesmo tempo, não preparar pra nada. Fila organizada, faixas coloridas, uma música ambiente animada demais pras oito da manhã. Eu já tinha visitado aeroportos, rodoviárias, consultórios médicos - todos os lugares clássicos de espera ansiosa - mas nenhum deles tinha essa combinação específica de excitação forçada com cheiro de protetor solar em excesso.

Fiquei na fila com a mala pequena entre os pés, checando o celular sem checar nada de verdade, só pra ter uma coisa pra fazer com as mãos. Foi aí que percebi.

Não foi gradual. Foi tipo entrar numa piscina e sentir a água mudar de temperatura de uma vez: em algum ponto entre o carro e aquela fila, a média de idade ao meu redor tinha despencado de um jeito que nenhuma estatística tinha me preparado pra sentir na pele.

Culotes. Muitos culotes. Bonés virados de um jeito que exigia treino específico pra não parecer que a pessoa só esqueceu de virar direito. Um grupo de quatro garotas - vinte e poucos, no máximo - filmando um vídeo em sincronia, com uma coreografia que elas claramente já tinham ensaiado em algum lugar antes de chegar ali, porque ninguém erra uma coreografia daquele jeito sem prática.

Eu olhei pra minha própria roupa. Jeans, blusa branca, tênis novo que ainda cheirava a loja. Não era ruim. Era só... adulta. No sentido mais careta possível da palavra.

Uma mulher - ou melhor, uma menina, porque chamar de mulher já é fazer ela mais velha do que provavelmente era - passou por mim usando um top que dizia "TEAM BRIDE" em letras cor-de-rosa, seguida por um bando igualmente vestido, uma delas segurando um balão em formato de flamingo que já estava murchando visivelmente antes mesmo do embarque.

Eu me senti, pela primeira vez desde que comprei a passagem, uma pessoa infiltrada num evento que não era meu.

A sensação não durou muito, porque logo veio outra, pior: a de que eu não conseguia mais fingir, nem pra mim mesma, que não tinha percebido o tamanho da bobagem que fiz.

***

O check-in em si foi rápido, impessoal, feito por um funcionário de sorriso profissional que perguntou minha idade só pra confirmar o documento e não fez cara nenhuma quando leu o número - o que, de alguma forma, me irritou. Eu queria uma reação. Um piscar de olho. Um "ih, mas a senhora não é meio grande pra esse cruzeiro?" pra eu poder ficar ofendida e usar isso como combustível. Ele só carimbou, sorriu, disse "aproveite a viagem" com a mesma entonação que provavelmente usava com todo mundo, e me devolveu o passaporte.

Isso é o problema de imaginar cenas de conflito antes delas acontecerem: a realidade quase nunca dá a deixa que você preparou.

Subi a rampa de embarque cercada por gente rindo alto, tirando foto de tudo - da rampa, do mar, de si mesma na rampa com o mar atrás - enquanto eu carregava minha mala pequena tentando parecer que aquilo era completamente normal pra mim, que eu fazia esse tipo de coisa toda hora, que eu era, é claro, uma pessoa despojada que embarca em cruzeiros pra gente de vinte anos com frequência e naturalidade.

Ninguém, claro, estava prestando atenção em mim o suficiente pra perceber a atuação. Isso eu só entendi bem mais tarde: que boa parte da vergonha que sentimos é assistida por uma plateia de um - nós mesmos.

***

O saguão principal do navio parecia ter sido desenhado por alguém que assistiu muitos vídeos de festa e nenhum documentário sobre acústica. Luzes em tons de rosa e roxo, uma DJ já tocando alguma coisa com muito grave às nove e meia da manhã, e telas gigantes anunciando a "programação do primeiro dia" com nomes de eventos que eu não entendia completamente - "Welcome Foam Party", "Sunset Silent Disco", "Speed Friending Deck 9".

Speed friending. Eu li aquilo três vezes tentando entender se era uma piada.

Fiquei parada ali por um momento, mala ainda na mão, absorvendo a cena com a expressão de quem está calculando uma rota de fuga, quando uma recepcionista do navio - sorriso genuíno, esse sim, o que doeu um pouco mais que o do check-in - perguntou se eu precisava de ajuda pra achar meu camarote.

"Não, imagina, tô super por dentro", eu disse.

Não estava. Levei doze minutos e duas voltas erradas pra achar o corredor certo, andando por um navio que parecia ter sido projetado especificamente pra confundir gente que finge saber onde está indo.

***

O camarote era pequeno, funcional, com uma varanda minúscula que dava pra um pedaço de mar que já parecia diferente do mar que eu conhecia - mais azul, mais artificial, como se tivesse sido tratado especificamente pra parecer feliz. Deixei a mala em cima da cama, sentei na beirada, e fiquei ali por um tempo que não soube medir.

Foi o primeiro momento de silêncio real desde que saí de casa. E, nesse silêncio, veio a primeira dúvida honesta da viagem, sem disfarce de piada, sem racionalização, sem frase de efeito pra passar pra Beatriz depois.

O que eu vim fazer aqui, afinal?

Eu tinha respostas prontas - "energia diferente", "quebrar a rotina", "aniversário diferente" - mas nenhuma delas resistia ao silêncio daquele camarote por mais de dez segundos sem parecer, bem, mentira. Ou não exatamente mentira. Um jeito educado de não olhar direito pra verdade.

A verdade, ou pelo menos o pedaço dela que eu conseguia acessar naquele momento, era mais ou menos assim: eu tinha certeza - uma certeza que ninguém tinha me dado, que eu tinha fabricado sozinha com jornada dupla de comparação e insegurança - de que a vida "de verdade" estava acontecendo em algum outro lugar, com outras pessoas, numa idade que eu já tinha ultrapassado sem perceber a saída.

E, ao invés de examinar essa certeza, eu comprei uma passagem pra ficar fisicamente cercada da prova dela.

Isso, dito assim, parecia até inteligente. Ridículo, mas inteligente. Enfrentar o medo indo direto pro meio dele. Só que eu sabia - sabia mesmo, lá no fundo, do jeito que a gente sabe as coisas que não quer admitir - que eu não tinha ido ali pra enfrentar nada. Tinha ido pra confirmar. Achando, com aquela lógica furada e íntima que só a gente mesmo entende, que se eu conseguisse "passar" naquele ambiente, se eu conseguisse me misturar, dançar as músicas certas, entender as piadas certas, de alguma forma isso provaria que eu ainda não tinha "saído de moda" como pessoa.

Uma prova que ninguém, além de mim, estava pedindo.

***

Bati o rosto de leve nas duas mãos - gesto que uso desde criança pra "resetar", coisa que aprendi vendo minha avó fazer antes de qualquer decisão importante e que carreguei pra vida adulta sem nunca questionar se funcionava de verdade - e me levantei.

Se eu ia estar ali mesmo, ia estar ali direito. Troquei de roupa - um dos vestidos "despojados" da vendedora, que na luz do camarote parecia menos certo do que na loja, mas já estava comprado, já estava na mala, e eu não tinha trazido plano B.

Me olhei no espelho pequeno da porta do banheiro. Trinta e cinco anos, vestido que não era bem meu, tênis ainda duro de novo, e uma expressão no rosto que eu reconheci imediatamente: era a mesma que eu fazia antes de apresentações importantes no trabalho. A cara de quem já decidiu que vai fingir que está tudo bem antes mesmo de saber se vai estar.

"Tá", eu disse pro espelho, em voz alta, sozinha, o que devia ser mais estranho do que foi. "Vamos lá."

Saí do camarote, tranquei a porta, e segui o som da música que vinha do saguão, cada vez mais alto conforme eu me aproximava - como se o navio inteiro estivesse me avisando, com bastante antecedência, que eu não fazia ideia do que estava prestes a enfrentar.

No corredor, esbarrei - literalmente, ombro contra ombro - com alguém que vinha na direção contrária. Um homem, mais ou menos da minha idade, único detalhe que meu cérebro registrou antes de qualquer outro, com uma expressão facial que eu reconheci antes mesmo de processar por quê: era exatamente a mesma que eu tinha acabado de fazer no espelho.

"Desculpa", ele disse.

"Imagina", respondi.

Nenhum dos dois se moveu por um segundo a mais do que o necessário.

Capítulo 3 Tomás, o outro infiltrado

Existe um tipo específico de reconhecimento que não precisa de palavras. Você vê alguém do outro lado de uma sala lotada e, sem trocar uma frase sequer, sabe: essa pessoa também não devia estar aqui.

Foi mais ou menos isso que aconteceu no saguão, vinte minutos depois do esbarrão no corredor.

Eu tinha ido até lá seguindo o som da música, decidida a "participar", palavra que na minha cabeça significava algo entre "aparecer" e "sobreviver". O ambiente era exatamente como eu tinha visto antes - luzes rosa, grave alto demais, uma DJ animada gritando frases de incentivo que ninguém pediu - só que agora cheio, de verdade, de gente que sabia se mover naquele espaço de um jeito que eu claramente não sabia.

Peguei um copo de alguma coisa frutada num balcão, mais pra ter o que segurar do que pra beber, e fiquei encostada perto de uma coluna, no que eu esperava que parecesse "observando com tranquilidade" e provavelmente parecia "aguardando resgate".

Foi então que o vi de novo. O homem do corredor. Encostado numa coluna do outro lado do saguão, copo na mão, também sem beber, também com aquela postura de quem calculou a distância exata entre "presente na festa" e "não exatamente na festa".

Nossos olhares se cruzaram. Ele ergueu o copo, um gesto mínimo, quase irônico, tipo um brinde a uma piada que só nós dois entendíamos. Eu ergui o meu de volta, sem saber muito bem o protocolo pra essas coisas.

Ele atravessou o saguão devagar, sem pressa, desviando de um grupo que tentava puxá-lo pra dançar com uma facilidade que sugeria prática recente naquele exato movimento.

"A gente já se esbarrou hoje", ele disse, chegando perto. Precisou quase gritar por causa da música.

"Literalmente", eu respondi.

"Tomás", ele disse, estendendo a mão, gesto formal demais pro ambiente, o que de alguma forma tornou tudo mais confortável.

"Clara."

Apertamos as mãos ali, no meio do que tecnicamente era uma festa de espuma anunciada nas telas - a espuma, felizmente, ainda não tinha começado -, dois adultos se cumprimentando com formalidade de reunião de condomínio.

***

A gente saiu do saguão sem combinar, só andando na mesma direção, até chegar num deck lateral bem mais silencioso, com cadeiras de balanço voltadas pro mar e praticamente ninguém por perto. O som da festa ainda chegava, abafado, como um problema que você decide ignorar por um tempo.

"Café da manhã de gente de vinte anos", ele disse, se sentando numa das cadeiras. "Achei que ia ser mais suave."

"Eu também. Errei feio."

"Como é que você foi parar aqui?", ele perguntou, e havia genuína curiosidade na pergunta, não julgamento - o que eu agradeci internamente, porque já tinha me preparado, sem perceber, pra uma versão mais afiada dessa mesma pergunta.

Considerei a resposta oficial. "Precisava de uma energia diferente." Mas alguma coisa na cara dele - cansada, honesta, sem a performance que eu tinha visto em todo mundo até ali - me fez optar por outra coisa.

"Impulso ruim", eu disse. "Terminei um relacionamento sem dor de cotovelo suficiente pra justificar, perdi um emprego que eu nem gostava tanto assim, e vou fazer trinta e cinco anos daqui a duas semanas. Aí vi um anúncio de cruzeiro jovem e decidi que a solução era provar que ainda consigo ser jovem. Não sei provar pra quem."

Ele riu - não uma risada grande, mas real, do tipo que sobe pelo nariz mais do que sai pela boca.

"Isso é a coisa mais sincera que alguém me disse desde que embarquei", ele falou. "E olha que só faz seis horas."

"E você?"

Ele demorou um pouco pra responder, olhando pro mar em vez de pra mim, o que eu já ia aprender, com o tempo, que era um dos jeitos dele de ganhar espaço antes de falar sobre si mesmo.

"Trinta e oito. Minha irmã me deu essa passagem de aniversário como piada. Disse que eu precisava 'sair da caixa'. Achei que ela ia cancelar de última hora, tipo sempre faz. Não cancelou."

"E você veio mesmo assim?"

"Eu não sabia dizer não sem parecer que estava com medo de alguma coisa", ele disse, e depois, quase se corrigindo: "O que, evidentemente, eu estava."

Aquilo ficou no ar por um segundo. Ele tinha dito a frase com o mesmo tom leve de tudo o mais, mas havia um peso ali embaixo que eu reconheci - não porque eu entendesse do que se tratava especificamente, mas porque reconheci a estrutura. Era o mesmo mecanismo que eu tinha usado a manhã inteira: dizer a verdade disfarçada de piada, torcendo pra que ninguém prestasse atenção suficiente pra notar que era verdade.

***

Ficamos ali um bom tempo, sem pressa de voltar pra festa, trocando informações soltas do jeito que duas pessoas fazem quando decidem, sem anunciar, que vão continuar se falando depois daquele dia. Ele era arquiteto - "tecnicamente", disse, com uma ênfase que eu não entendi ainda, mas guardei. Eu era analista de marketing, "tecnicamente desempregada", o que rendeu outra risada dele.

Descobri que ele também tinha reservado o camarote sozinho, também tinha chegado sem plano além de "aparecer", também tinha aquela sensação, na fila do embarque, de estar entrando numa piscina gelada demais pro próprio corpo.

"Você acha que a gente devia voltar lá?", perguntei, num certo ponto, olhando de volta pro saguão distante, ainda pulsando luz rosa.

"Devia", ele disse. "Não sei se vou."

"Eu também não sei."

Ele olhou pra mim então, pela primeira vez com atenção total, sem aquele desvio pro mar que ele fazia quando falava de si mesmo.

"Posso te dizer uma coisa que talvez soe estranha?"

"Pode."

"Acho que você não veio aqui pra se divertir com gente de vinte anos", ele disse, devagar, escolhendo as palavras. "Acho que você veio aqui pra descobrir se ainda consegue. E acho que, no fundo, você já sabe a resposta antes de perguntar - só não quer aceitar ainda."

Eu ri, um pouco alto demais, um pouco defensiva demais, do jeito que a gente ri quando alguém acerta perto o suficiente pra doer um pouco.

"Isso é muita análise pra quem te conheço há uma hora."

"Desculpa", ele disse, sem parecer muito arrependido. "Deformação profissional. Passo o dia analisando espaços que as pessoas dizem que querem e não são bem o que elas precisam."

"Achei que você fosse arquiteto, não terapeuta."

"Às vezes dá na mesma coisa", ele disse, e havia, de novo, aquele peso embaixo da piada - algo que eu ainda não sabia nomear, mas que ia voltar, capítulos depois, com um nome específico: uma gaveta, um projeto de 2019, um medo que ele ainda não estava pronto pra admitir em voz alta.

Naquele momento, eu só anotei mentalmente que Tomás dizia coisas verdadeiras vestidas de observação casual, e que isso era, ao mesmo tempo, reconfortante e absolutamente irritante.

***

A festa continuava lá longe, mais alta agora, provavelmente com a espuma já liberada, a julgar pelos gritos que chegavam em ondas. Nenhum dos dois se moveu.

"Vou te dizer uma coisa também, já que você foi tão generoso", eu falei, decidindo que merecia devolver a gentileza com a mesma moeda. "Acho que você não veio aqui pra sair da caixa como sua irmã queria. Acho que veio porque, no fundo, também precisa provar alguma coisa pra si mesmo - só que ao contrário de mim. Eu quero provar que ainda tenho energia. Você quer provar que ainda tem coragem."

Ele não riu dessa vez. Ficou em silêncio um instante, olhando de novo pro mar, e quando falou, a voz tinha um tom diferente - mais quieto, sem a leveza de antes.

"É engraçado", ele disse. "A gente se conhece há uma hora e você já acertou uma coisa que eu levei anos pra admitir pra mim mesmo."

"Bem-vindo ao clube. Eu também levei a viagem inteira pra admitir a minha versão, e olha que a viagem começou hoje de manhã."

Ele sorriu, um sorriso menor, mais cansado que os anteriores, e ergueu o copo de novo - o mesmo gesto do começo, o brinde silencioso.

"Aos infiltrados", ele disse.

"Aos infiltrados", repeti.

O sol começava a baixar sobre a água, tingindo tudo daquele laranja artificial que parece bonito demais pra ser real, e por um momento - só um momento - eu esqueci que estava cercada de gente vinte anos mais nova, esqueci a passagem impressa, esqueci a faixa etária no canto do papel.

Foi Tomás quem quebrou o silêncio, olhando o relógio.

"Tem uma coisa chamada 'Speed Friending' às sete no deck nove", ele disse, com o tom de quem lê uma sentença de morte. "Minha irmã perguntou se eu ia. Falei que sim antes de saber o que era."

"Achei que era piada quando vi no telão."

"Não é piada. É real. E, pelo que entendi, obrigatório se você não quiser passar o resto da semana sem conhecer ninguém."

Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, e os dois soubemos, sem precisar dizer, que nenhum de nós ia àquilo sozinho se pudesse evitar.

"Vamos juntos?", perguntei.

"Vamos", ele disse. "Já que a gente já é dupla de infiltrados, mais vale ser dupla infiltrada em tudo."

Levantamos das cadeiras de balanço, ainda com o sol laranja artificial caindo atrás de nós, e caminhamos de volta em direção ao som da festa - dois adultos se preparando pra entrar, propositalmente dessa vez, na fogueira que tínhamos passado a última hora evitando.

Eu não sabia ainda, mas aquela seria a última conversa fácil que teríamos por um bom tempo. A partir do Speed Friending, tudo ficaria - como boa parte das coisas boas fica, quando você examina de perto - bem mais complicado do que parecia de longe.

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