Isadora
O cheiro de tinta e verniz que usei no dia anterior ainda está no ar quando empurro a porta do ateliê. A luz natural entra pelas janelas altas e se espalha pelo chão, iluminando as paredes, os cavaletes, os pincéis mergulhados em potes de vidro e telas inacabadas.
Meu pequeno caos. Meu refúgio.
Pouso minha bolsa sobre uma cadeira no canto do espaço e respiro fundo. É segunda-feira, mas poderia ser qualquer dia. Aqui dentro, o tempo tem outro ritmo.
Tiro os sapatos, prendo o cabelo no alto da cabeça e visto meu avental manchado de cores que nem lembro mais quando usei. À minha frente, uma pintura do século XIX me encara com a paciência de quem espera há muito tempo. Uma fenda na tela exige delicadeza. É um trabalho minucioso, sem pressa, quase meditativo. Restaurar arte antiga tem algo de terapêutico. Corrigir rachaduras, devolver a cor, resgatar histórias escondidas sob o desgaste do tempo. Recontar um fato para outras pessoas em um novo século.
Se ao menos fosse tão fácil fazer isso com a vida da gente.
Coloco os fones de ouvido e deixo a música calma preencher o silêncio. Meu mundo se resume aos detalhes - os contornos, os tons, a textura do tempo passado. Não há pressa aqui. Não há obrigações impostas. Só meu ritmo, minha paixão, minha escolha. O pincelar preciso, mas leve. O olhar atento em cada ação.
O meu amor pela arte, em destaque a pintura, vem graças ao meu contato com o trabalho da minha mãe. Ela era diretora de um museu e como era só nós duas, o museu se tornou minha segunda casa. Eu saía de casa, ia para a escola e quando saia, estava no museu até a hora de irmos embora.
Eu passava horas de olho em cada obra, em seus detalhes. Comecei ficar curiosa para descobrir sobre a história e seus significados, quais materiais usados para casa obra. Minha curiosidade cresceu ao ponto de me fazer pedir infinitas vezes para ter aulas de pintura.
Minha mãe era contra pois achava que seria perda de tempo e dinheiro, mas eu não aceitei uma negativa. Quando ela viu que não conseguiria me fazer mudar de ideia, cedeu. Comecei a estudar, testar, aplicar e me apaixonar em cada processo.
Desde que comecei, não parei. Quando dei por mim, estava trabalhando como restauradora de arte e confesso que amo o que faço.
Eu sou feliz com a vida que tenho, sou completa. Eu sei disso, mas estou reafirmando toda vez que lembro da insinuação da minha mãe. Ela questionou se não quero casar, ter filhos. Do nada. Sendo que nem namorar, eu namoro.
Não entendo por que minha mãe, assim como tanta gente vive com essa pressa para "acontecer". Casar. Ter filhos. Comprar uma casa com jardim e grade branca. Eu não sou contra quem deseja isso, só não estou com pressa e sinceramente, duvido que seja pra mim. Pelo menos, não agora. Não quando estou começando a viver de verdade.
Sonho em abrir meu próprio estúdio. Um espaço maior, com vitrines de vidro, material, obras e cheiro de café. Um lugar onde arte e liberdade possam conviver sem pedir permissão. Talvez até ministrar oficinas, receber artistas locais, organizar eventos e visitas... Meu plano não envolve véus, alianças ou buquês.
Casamento, para mim, sempre foi como uma moldura bonita em volta de um quadro vazio. Parece promissor, mas quando você olha de perto, às vezes falta o mais importante: conteúdo. Ao menos, todos os casamentos que vi seguiram o mesmo caminho, o fim cheio de ressentimento.
Levanto e vou tomar um copo de água. Quando volto, me sento, pego o pincel mais fino e mergulho no líquido, perdida no tempo e na concentração. Cada pequeno retoque exige precisão. Amo a forma como as cores antigas voltam à vida, como a história se reconstrói aos poucos sob as minhas mãos. É como costurar o passado sem apagar suas cicatrizes. E eu me sinto incrivelmente satisfeita quando finalizo e posso observar o bom trabalho.
Como de costume, passo horas ali sem perceber. Só noto o tempo quando meu celular vibra sobre a bancada, interrompendo minha bolha silenciosa. É minha mãe.
Mãe – 3 chamadas perdidas.
Franzo o cenho, estranhando já que ela não me liga muito. Mando um áudio rápido:
- Oi, mãe. Está tudo bem?
A resposta vem quase imediata, como se ela estivesse esperando e seguimos trocando áudios:
- Oi. Você está trabalhando?
- Sim.
- Mais tarde, pode me acompanhar em uma reunião? - Estranho, mas ela continua. - É importante e urgente. Preciso de um apoio.
- Como profissional? - a pergunta sai antes que eu pense direito.
- Como filha e profissional.
Mesmo odiando ter que me deslocar no fim do dia e interagir com pessoas, aceito.
- Tudo bem. Onde?
- Na casa dos Vasques.
A casa dos Vasques?
Sinto o estômago revirar. Conheço o sobrenome. Quem vive em nossa bolha social conhece. Família tradicional, antiga, quase aristocrática. Investem em imóveis, hotéis e eventos luxuosos. Nunca tive motivo pra pisar naquela casa, e agora, de repente, sou convocada para acompanhar minha mãe em uma reunião de última hora? Será que eu vou ser convidada a trabalhar em alguma pintura deles?
Tiro o avental devagar, ainda em choque com a mudança brusca de tom no meu dia. Uma hora estou restaurando uma pintura de dois séculos. Na outra, sou arrastada para uma reunião misteriosa com uma família influente.
Saio da sala e vou até o banheiro. Troco as minhas roupas por peças extras que deixo no ateliê. Sigo até a pia e lavo as mãos, seco na toalha e encarando minha aparência no espelho, passo o pente em meus fios bagunçados e tento domar o cabelo, mas é inútil. Ele sempre faz o que quer, como eu.
A expressão que me encara no reflexo, parece mais séria do que o normal. E por mais que eu queira ignorar, há uma sombra de preocupação crescendo em meus olhos.
Reunião urgente com a família Vasques.
Nada de bom deve sair disso.
E uma parte de mim já sente que, a partir daqui, as coisas vão deixar de estar sob meu controle.
Caio
Pontualmente às sete, o despertador toca. Não porque eu precise dele. Estou acordado há vinte minutos, como sempre. Nos últimos dias, além de acordar mais cedo, tenho passado noites difíceis.
Acordo antes da cidade, antes do barulho do trânsito, antes até da luz do sol atravessar as cortinas. Disciplina é liberdade. Isso meu avô costumava dizer. E, com o tempo, percebi que ele estava certo. A rotina não me aprisiona, me protege. Ter foco e saber como será o meu dia, me dá a sensação de controle.
Levanto, calço os chinelos e sigo direto para a cozinha. Preciso de um café forte, sem açúcar. Torradas integrais, uma fatia de queijo branco. Tudo cronometrado. Enquanto como, leio os jornais do dia no tablet. Política, economia, negócios. Nenhuma surpresa significativa. O país continua andando como um navio com o leme quebrado. E ainda assim, alguns aprendem a velejar.
Depois do café, me arrumo e sigo para o escritório. A vista do 24º andar revela São Paulo em todo o seu caos organizado. Carros engarrafados como veias congestionadas. Pessoas apressadas como um formigueiro em fervorosa. Negócios acontecendo em silêncio atrás de cada janela. E eu, no meio disso tudo, tentando manter nossas empresas que sangram discretamente.
A Vasques Empreendimentos já foi referência no setor hoteleiro no Brasil e no mundo. Hoje, mal conseguimos manter a fachada de grandeza. Dívidas se acumulam. A manutenção de alguns imóveis está atrasada. Fornecedores batem à porta com sorrisos falsos e olhos desconfiados. E, claro, a imprensa ainda acredita que estamos "renovando o portfólio" e fazendo um plano secreto para revolucionar tudo com um marketing diferenciado.
Hipocrisia de mercado. Eu a conheço bem.
Meu pai, por outro lado, prefere se iludir.
- Precisamos conversar - diz ele assim que entro na sala dele, no final da manhã. A voz está baixa, mas tem o tom grave de quem não está disposto a adiar o inevitável.
Fecho a porta atrás de mim e me sento em frente à sua mesa. O escritório é o mesmo há mais de trinta anos. Madeira escura, quadros antigos, uma aura de autoridade que já não combina com o momento. Deveríamos repaginar tudo, mas com qual dinheiro?
- Sobre o que exatamente? - pergunto.
Ele gira a cadeira lentamente, os olhos fixos na cidade lá fora. Está mais magro do que lembro. O terno parece grande demais nos ombros.
- A empresa. O que mais seria? - diz, por fim.
Cruzo os braços e fico quieto, esperando-o continuar.
- Os números não mentem, Caio. Estamos encolhendo.
- Eu sei. Estou acompanhando cada planilha.
- E o que pretende fazer?
- Cortar contratos, vender dois hotéis que não geram lucro, renegociar as dívidas. Já falei com três fundos interessados. Se conseguirmos um aporte até o fim do trimestre, ainda podemos reverter parte da imagem. Não gosto muito da ideia de fazer empréstimos com bancos, mas talvez seja o caso de repensar...
- Isso não é suficiente - ele me corta.
Sua voz carrega a frustração de quem já teve tudo sob controle e agora observa o império ruir.
- Eu sei, pai. Mas o que podemos fazer?
- Tem uma outra possibilidade - ele continua, devagar, como se ainda escolhesse as palavras. - Um investimento indireto, mas sólido.
- Seja claro, pai. O que está sugerindo?
Ele se levanta e caminha até o bar no canto da sala. Serve um copo de uísque, embora seja cedo demais para isso. Bebe um gole e me oferece, nego com um aceno. Ele se aproxima e me encara.
- Os Monteiro têm capital de sobra. E influência.
Sinto o corpo enrijecer com o rumo da conversa.
- Que tipo de negócio você está propondo?
Ele dá um meio sorriso. Cínico. Cansado. Confuso.
- Um acordo. União entre famílias. Os Monteiro têm uma filha em idade de casar. Você é o herdeiro da Vasques. É o tipo de aliança que dá manchete de jornal e segurança nos bastidores.
Fico em silêncio por alguns segundos. Não porque estou considerando a ideia. Mas porque tento entender se ele realmente acredita no que está dizendo.
- Você está sugerindo que eu me case para salvar a empresa?
- Estou sugerindo que você pense como um homem de negócios. Um casamento estratégico não é novidade. Não é sobre amor. É sobre sobrevivência.
- Eu não preciso de uma esposa. Preciso de investidores.
- Você precisa de estabilidade, fala de imagem, mas que eu me lembre todos falam sobre você ser distante e até sem sentimentos. E uma aliança com os Monteiro garante exatamente isso, uma melhora de imagem. - Respira fundo. - Sabia que muitos investidores gostam de colaborar com pessoas sérias, com famílias e imagem inabalada?
Bato a mão sobre a mesa com mais força do que pretendia.
- Eu não sou moeda de troca.
- Não é troca, Caio. É estratégia. Você sempre foi o mais racional da família. Pense com a cabeça. Esse casamento pode ser o passo mais inteligente que você já deu.
Me levanto e caminho pelo espaço, inconformado. Passo a mão pelos cabelos, tentando conter a irritação.
- Eu não vou casar com uma desconhecida só porque você não soube administrar bem os negócios.
- Não precisa jogar na minha cara que investi de forma errônea - diz com um tom seco. - A decisão é sua. Mas saiba que, sem essa união, é provável que a Vasques precise declarar falência até o fim do ano.
Olho para ele. Para o uísque na mão, para os olhos duros. Ele não está blefando.
O nome da empresa carrega o sobrenome da minha família. O mesmo nome que moldou minha infância, que me ensinou a ser frio quando necessário, firme quando desafiado. É mais do que orgulho, é responsabilidade. Eu aprendi a ser responsável com meus antepassados e sempre segui.
Mas e quanto a mim? Minha vida, minhas escolhas? Vou ser mais uma peça nesse tabuleiro?
Saio da sala sem responder e bato a porta sem me preocupar com os bons costumes. O ar parece mais pesado no corredor.
De volta ao meu escritório, fecho a porta, encosto as mãos na mesa e encaro meu reflexo na tela do computador desligado.
Um casamento.
Com alguém que eu não conheço.
Por obrigação.
Por estratégia.
E o pior de tudo? Parte de mim já sabe que tem grandes chances de aceitar.
Porque quando o navio afunda, você segura o leme com as duas mãos e faz o que for preciso.
Mesmo que isso custe sua própria liberdade.
Isadora
Eu sabia que a reunião não seria boa, mas não imaginava que seria assim.
Quando entrei na casa dos Vasques, meu coração já estava em alerta. O ambiente, silencioso e imponente, com móveis antigos e cortinas pesadas, não ajudava. Parecia mais um palácio do que uma casa. Eu, que cresci em um ambiente parecido, estava sendo jogada em um jogo de gente grande ao voltar para um lugar como esse, mesmo tendo lutado para sair e viver minha vida como queria.
Os Vasques não são uma família qualquer. São donos e influentes em diversos setores. Minha família sempre mantiveram uma posição de respeito na sociedade, mesmo assim, me sinto diferente nesse momento. Era para ser uma reunião tranquila, de negócios, pensava eu. Porém, logo que pisei na sala de estar, pude sentir o peso no ar.
Meus pais estavam sentados à mesa com o Sr. Vasques e sua esposa. A senhora Vasques, sempre com aquele sorriso de aparente simpatia, agora parecia mais rígida do que nunca. Não demorou muito para que a conversa começasse.
- Você chegou, filha. Sente-se - disse minha mãe, gesticulando para a cadeira ao lado dela.
Eu cumprimento todos e me sento, ainda tentando entender o que está acontecendo.
- Eu sei que você pode estar um pouco surpresa por termos marcado essa reunião, mas... - minha mãe começa, sempre com aquele tom de voz sério, como se estivesse prestes a anunciar algo importante. O olhar dela, por outro lado, estava estranho, distante. Não parecia a mulher que eu conhecia.
- Mas o quê? - corto ela, meu tom mais ríspido do que eu gostaria, mas não consigo segurar. A minha paciência já se esgotou. - O que está acontecendo aqui? Eu mal entrei, e já sinto que me prepararam para algo.
O silêncio cai sobre a sala como uma cortina pesada.
Minha mãe troca olhares com o casal. A expressão dela é difícil de ler, mas os olhos evitam os meus. Ela sabe que o que está prestes a ser dito vai mudar tudo, e não quer ver o que está por vir.
É o Sr. Vasques quem fala primeiro, com aquele jeito formal e impessoal, como se estivesse falando de qualquer outra coisa.
- Então, sabemos que sua família tem enfrentado algumas dificuldades mercadológicas, e nós... bem, nós podemos ajudar.
- Ajudar? - minha voz sai mais alta do que o esperado. Meus dedos se entrelaçam, e eu pressiono as palmas das mãos contra as pernas para tentar controlar a raiva crescente. - Como assim? Ajudar como? Em troca do quê?
É o momento de verdade. A tensão cresce no ar, e percebo que os olhos de todos se voltam para mim, como se eu fosse uma peça de xadrez sendo posicionada sem minha permissão.
Minha mãe, que estava em silêncio, finalmente se manifesta.
- Filha, a empresa precisa do Sr. Vasques precisa de um investimento. Nós precisamos de uma boa posição depois do que passamos, então, o Sr. Vasques ofereceu ajuda, uma parceria boa para ambos, mas... há um preço.
Meu estômago vira. Um preço? Que preço?
Eu encaro meu pai que permanece quieto, e pela primeira vez, vejo algo diferente em seu olhar. Não é só o olhar de um homem que tenta resolver um problema que ele mesmo começou. É um olhar de desespero, como se soubesse qual será a minha reação. Ele está me entregando a um jogo que não escolhi jogar.
- O que você está dizendo? - pergunto, quase sem fôlego, agora com a voz mais baixa, continuando a conversa com minha mãe, como se fosse só nós duas ali.
- Um casamento, mas é mais um acordo, uma relação profissional.
- Você está me vendendo? - pergunto, incrédula.
- Não, filha - responde minha mãe, tentando suavizar a situação. - Não é assim. Mas esse casamento pode salvar nosso legado e a do Sr. Vasques, e você... vocês dois...
Ela não consegue completar a frase. O peso daquilo me sufoca.
- O quê? O casamento? Com quem? - minha voz vacila. A indignação toma conta de mim. Meus olhos se enchem de lágrimas, mas eu me recuso a deixá-las cair. Não posso. Não agora.
O Sr. Vasques, com aquele sorriso imperturbável, explica o que ninguém queria ouvir.
- O seu casamento com o meu filho, Caio, pode resolver muitos problemas. A união entre as nossas famílias traria segurança para os negócios de ambas as partes. E ele, claro, está disposto a ajudá-la também.
Caio Vasques.
Aquele nome soa como uma bomba. Caio é o herdeiro dos Vasques. O homem com o qual minha família quer que eu me case. Não posso acreditar. Não quero acreditar.
- Eu não vou me casar com ninguém para salvar nada - grito, levantando-me da cadeira, a voz tremendo de raiva e vergonha. - Isso é absurdo!
Meu pai, então, se levanta também, mais rápido do que eu esperava. Seus olhos têm uma intensidade que eu nunca vi antes. Ele vem até mim, pega meu braço com força, quase me fazendo perder o equilíbrio.
- Você não entende. Eu não tenho escolha, filha. Você não tem escolha. Tudo está afundando. E nós... - ele pausa, engolindo em seco, como se uma verdade dolorosa estivesse prestes a sair. - Nós fizemos coisas para chegar até aqui, coisas que não podem ser desfeitas. Você tem que fazer isso.
- Sabe o mais engraçado? - incito, não achando graça de nada. - É você me falar o que devo fazer, que eu deveria ajudar para salvar algo sendo que se vocês estão afundando é por sua culpa.
Minha acusação o faz soltar o meu braço, choque por minhas palavras. Eu nunca tinha falado sobre isso assim, em sua cara. Para ser sincera, sempre evito-o. Minha mãe o aceitou de volta depois de tudo, mas eu não consigo esquecer que as dificuldades que passamos veio por culpa dele em primeiro lugar, em segundo, da minha mãe.
Eu o encaro com a firmeza que minha mãe não teve, e no fundo dos olhos dele vejo algo que jamais imaginei. Medo. Ele tem medo. Ele está apavorado. Aquele homem que sempre foi tão seguro de si agora está vulnerável, e é a minha vida que ele está colocando na balança para melhorar sua vida. Egoísta.
- Então, não, pai. Não vou fazer isso. Eu não sou uma peça de xadrez.
A dor no olhar dele permanece. Não sei se pelo o meu ataque, ou por eu não aceitar seguir com essa ideia. Ele tenta falar, mas nada sai. A sala inteira está em silêncio, e eu me sinto pequena. Silenciosa. Uma dor insuportável aperta meu peito.
Mas eu não vou ceder. Não dessa forma.
Me viro e vou em direção à porta. Antes de sair, ouço a voz da minha mãe, mais fraca, quase inaudível:
- Filha, por favor. Não é só sobre nós. É sobre todos. Sobre o que já fizemos. Sobre o que será seu quando não estivermos mais aqui - tenta me manipular.
Mas as palavras dela já não fazem mais sentido. Eu sei que ela está tentando proteger suas coisas, tentando se reerguer, mas isso... Isso é manipulação pura.
Saio pela porta, deixando para trás a casa dos Vasques, as pessoas que estão fora da realidade e tudo o que uma vez pensei que fosse minha família.
E, no entanto, uma sensação de vazio me invade. Algo mais profundo está se desenrolando, algo que ainda não compreendo.
Mas eu não vou deixar que me controlem. Não vou.
Mesmo que isso acabe comigo, eles não vão me manipular.