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Fome e Amor: Uma Conexão Eterna

Fome e Amor: Uma Conexão Eterna

Autor:: Fifine Schwan
Gênero: Romance
A fome era minha sombra, uma criatura de garras e dentes roendo meu estômago desde os sete anos de idade. Eu já sabia que o mundo se dividia entre os que comiam e os que só podiam olhar. Em casa, a gente mais olhava. Um dia, a sorte bateu à porta: ganhei um frango assado num concurso de desenho. Um frango inteiro, dourado e crocante, a promessa de uma refeição que eu nunca tivera. Corri para casa, mal podia esperar para dividir aquela alegria com meus pais. Mas a alegria virou amargura, um golpe no estômago mais doloroso que a própria fome. Minha mãe pegou o frango das minhas mãos, os olhos brilhando – mas não para mim. Eles sentaram à mesa, dividiram cada pedaço, sem um olhar, uma palavra, ou sequer um osso para mim. Nem uma migalha sobrou. Noite adentro, a fome dentro de mim não roía, urrava. Por que eu, a filha, era sempre a última, a esquecida, a que não merecia nem o fruto da sua própria vitória? A dor daquele desprezo era mais aguda que qualquer pontada de fome. Naquela noite, a fome urrava, mas algo mais nasceu. Com uma faca na mão, sob o luar, fui até a horta da vizinha. Peguei dois tomates e uma espiga de milho. Saboreando cada pedaço, jurei para mim mesma que nunca mais dependeria de ninguém para saciar a minha fome – nem a do corpo, nem a da alma.

Introdução

A fome era minha sombra, uma criatura de garras e dentes roendo meu estômago desde os sete anos de idade.

Eu já sabia que o mundo se dividia entre os que comiam e os que só podiam olhar.

Em casa, a gente mais olhava.

Um dia, a sorte bateu à porta: ganhei um frango assado num concurso de desenho.

Um frango inteiro, dourado e crocante, a promessa de uma refeição que eu nunca tivera.

Corri para casa, mal podia esperar para dividir aquela alegria com meus pais.

Mas a alegria virou amargura, um golpe no estômago mais doloroso que a própria fome.

Minha mãe pegou o frango das minhas mãos, os olhos brilhando – mas não para mim.

Eles sentaram à mesa, dividiram cada pedaço, sem um olhar, uma palavra, ou sequer um osso para mim.

Nem uma migalha sobrou.

Noite adentro, a fome dentro de mim não roía, urrava.

Por que eu, a filha, era sempre a última, a esquecida, a que não merecia nem o fruto da sua própria vitória?

A dor daquele desprezo era mais aguda que qualquer pontada de fome.

Naquela noite, a fome urrava, mas algo mais nasceu.

Com uma faca na mão, sob o luar, fui até a horta da vizinha.

Peguei dois tomates e uma espiga de milho.

Saboreando cada pedaço, jurei para mim mesma que nunca mais dependeria de ninguém para saciar a minha fome – nem a do corpo, nem a da alma.

Capítulo 1

A fome era uma criatura viva dentro de mim, com garras e dentes, roendo meu estômago sem parar.

Eu tinha sete anos e já sabia que o mundo era dividido entre os que comiam e os que olhavam.

Na minha casa, a gente mais olhava do que comia.

Meu pai, Seu João, gastava o pouco dinheiro que aparecia no bar, apostando em cavalos que nunca ganhavam.

Minha mãe, Dona Sônia, passava o dia suspirando, como se o ar que ela soltava pudesse encher a barriga do meu irmão mais novo, Pedrinho.

Para Pedrinho, sempre tinha um pão guardado, um restinho de feijão, um ovo.

Para mim, tinha o cheiro da comida dos vizinhos.

Eu deitava na minha cama, um colchão fino no chão, e ficava imaginando o gosto das coisas. A professora na escola era um grande pão de ló, macia e doce. O diretor era um torresmo, duro e salgado.

A fome me deixava com a cabeça estranha.

Um dia, a professora anunciou um concurso de desenho. O prêmio para o primeiro lugar era uma caixa de lápis de cor e um frango assado da padaria da esquina.

Um frango assado.

A imagem daquele frango dourado, com a pele crocante e a carne soltando do osso, tomou conta de todos os meus pensamentos. Eu nunca tinha comido um frango assado inteiro. Às vezes, minha mãe cozinhava um pescoço ou um pé de galinha na sopa rala, e era uma festa.

Eu precisava daquele frango.

Passei três dias desenhando. Usei os tocos de lápis que achava no chão da sala de aula. Desenhei minha casa, mas com uma mesa farta no meio. Tinha pão, queijo, frutas e, no centro de tudo, um frango assado gigante, brilhando como o sol.

Eu ganhei.

A professora Ana me entregou a caixa de lápis e o vale para retirar o frango. Meu coração parecia que ia explodir. Eu segurei aquele papel como se fosse ouro.

Corri para a padaria, troquei o vale pelo frango. Ele veio numa embalagem de alumínio, quente, pesado. O cheiro me deixou tonta.

Eu não comi no caminho. Queria comer em casa, na mesa, como no meu desenho. Queria que minha mãe e meu pai vissem o que eu consegui.

Cheguei em casa correndo, gritando:

"Mãe! Pai! Olha o que eu ganhei!"

Mostrei o frango.

Minha mãe pegou a embalagem da minha mão. Seus olhos brilharam, mas não para mim.

"Pedrinho, vem comer! Sua irmã trouxe janta!"

Meu pai, que estava no sofá, levantou a cabeça.

"Até que enfim essa menina serviu para alguma coisa."

Eles sentaram à mesa. Minha mãe abriu o alumínio e o vapor perfumado encheu a cozinha. Ela partiu o frango. Deu a coxa mais gorda para o Pedrinho. Deu o outro lado para o meu pai. Deu o peito para ela mesma.

Eu fiquei de pé, esperando.

Eles comeram. Comeram tudo. Lamberam os dedos.

Não sobrou nada. Nem um pedacinho. Nem um ossinho para eu roer.

Eles nem olharam para mim.

A fome dentro de mim não roía mais, ela urrava. Um buraco se abriu no meu peito, um lugar frio onde o frango assado deveria estar.

Naquela noite, enquanto eles dormiam de barriga cheia, eu levantei. Fui até a cozinha e peguei a faca de pão.

Não era para machucar ninguém.

Fui até a casa da vizinha, Dona Elvira, que tinha uma pequena horta no quintal. A luz da lua iluminava as folhas verdes das couves e os pés de tomate.

Com a faca, cortei dois tomates bem vermelhos e uma espiga de milho.

Voltei para casa, em silêncio. Escondi meu tesouro debaixo da minha cama.

Sentei no chão do meu quarto escuro e dei a primeira mordida no tomate. O suco escorreu pelo meu queixo. Era ácido, doce e real. Era a comida mais deliciosa que eu já tinha provado.

Era o meu frango assado. E ninguém ia tirar de mim.

Capítulo 2

No dia seguinte, na escola, a menina que sentava do meu lado, a Lúcia, abriu um pacote de bolacha recheada. O cheiro de chocolate invadiu o ar.

Eu engoli em seco. A fome, minha velha companheira, se remexeu no meu estômago. O tomate e o milho da noite anterior já eram uma memória distante.

Lúcia me viu olhando.

"Quer uma?"

Ela me estendeu uma bolacha. Tinha um recheio de chocolate grosso, quase preto.

Eu hesitei. Ninguém nunca me oferecia nada. Minha primeira reação foi desconfiar. Mas a fome venceu.

Peguei a bolacha. "Obrigada."

Comi devagar, aproveitando cada pedacinho. O açúcar derreteu na minha língua, uma sensação quase esquecida.

"Gostou?", ela perguntou, sorrindo.

"Sim. Muito."

No outro dia, ela trouxe um sanduíche de queijo e me deu um pedaço. No dia seguinte, uma maçã. E assim, uma amizade nasceu, alimentada por lanches compartilhados.

Eu me sentia estranha. Feliz por ter uma amiga, feliz por comer algo diferente todo dia. Mas também sentia uma pontada de vergonha. Eu não tinha nada para oferecer em troca.

Essa sensação começou a me incomodar. Eu não queria ser só a menina que recebia. Queria dar alguma coisa também.

Então, a ideia veio. Uma ideia perigosa.

O dinheiro da merenda.

A prefeitura dava um pequeno valor para cada aluno, que a gente usava para comprar um lanche na cantina da escola. Minha mãe sempre pegava o meu dinheiro. Dizia que era para "ajudar nas contas de casa", mas eu sabia que ia para o bolso do meu pai ou para comprar alguma coisa extra para o Pedrinho.

Eu nunca tinha visto a cor daquele dinheiro.

Mas eu sabia que a diretora entregava os envelopes com o dinheiro para os pais uma vez por mês, na reunião.

No dia da reunião, eu bolei um plano. Falei para minha mãe que a reunião tinha sido cancelada e remarcada para a semana seguinte. Ela acreditou, mal prestava atenção no que eu falava.

Fiquei escondida perto da sala da diretora. Vi os pais saindo, um por um, com os envelopes brancos na mão.

Quando minha mãe não apareceu, a secretária guardou o meu envelope numa gaveta.

Esperei a escola ficar vazia. A porta da secretaria estava só encostada. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Entrei. A gaveta estava destrancada. Peguei o envelope com o meu nome: Maria.

Corri para o banheiro e abri. Dentro, algumas notas de dinheiro. Parecia uma fortuna.

No dia seguinte, antes da aula, fui até a padaria. Com o meu dinheiro, comprei o doce mais caro que tinha na vitrine. Um sonho, cheio de creme, coberto de açúcar.

Entreguei para a Lúcia na hora do recreio.

"Pra você."

Os olhos dela se arregalaram. "Nossa, Maria! Que lindo! Mas não precisava!"

"Eu quis te dar."

Ela comeu o sonho com gosto, e eu me senti a pessoa mais rica do mundo. A sensação de dar era ainda melhor que a de receber.

Mas a felicidade durou pouco.

Naquela noite, minha mãe chegou em casa furiosa.

"MARIA!"

O grito dela ecoou pela casa inteira. Ela segurava um cinto de couro na mão. O cinto do meu pai.

"A diretora me ligou. Onde está o dinheiro da merenda?"

Eu gelei.

"Eu não sei do que a senhora está falando."

"Não sabe? Mentirosa! Ladra! Roubando dentro da escola! Que vergonha!"

Ela me arrastou para o meio da sala. Meu pai e Pedrinho assistiam, como se fosse um programa de televisão.

A primeira cintada acertou minhas costas. Doeu. Uma dor aguda, queimando.

A segunda, nas pernas.

"Você vai aprender a não roubar! Vai aprender a não mentir!"

Eu caí no chão. Ela continuou me batendo. A fivela do cinto arranhou meu braço.

Mas algo estranho aconteceu.

Enquanto a dor explodia pelo meu corpo, um pensamento claro surgiu na minha cabeça.

Atrás do sofá, caído no chão, estava o papel que embrulhava o sonho que eu dei para a Lúcia. E no papel, ainda tinha um pouco do açúcar que caiu do doce.

Enquanto minha mãe gritava e o cinto estalava na minha pele, eu me arrastei, devagar, em direção ao sofá.

Fingindo me encolher de dor, estiquei a mão e passei o dedo no açúcar.

Levei o dedo à boca.

O gosto doce se espalhou na minha língua.

Naquele momento, em meio aos gritos e à dor, eu sorri.

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