Agradecimento!
Olá! Obrigado pelo interesse e pela sua disponibilidade em ler minha obra!
Disponibilizo a você uma de minhas melhores histórias, escrita com a alma e com o coração! Espero superar suas expectativas!
Acompanhe esse incrível enredo até o fim, e tenha uma grande experiência! Se surpreenda com um final cheio de surpresas e reviravoltas!
Boa leitura!
INCÓGNITA
Há exatamente um ano, Helena havia desaparecido.
Naquela noite, Cristina, havia recebido uma ligação de um dos vizinhos de seu irmão, Dione, com a denúncia de que sua sobrinha, Marina, de apenas seis anos, estava sozinha e chorando em casa.
A denúncia se confirmou. Cristina encontrou a garotinha em prantos, sem saber explicar o que havia acontecido e onde estavam os pais. Dione chegou logo em seguida. Retornava do trabalho, aparentemente Bêbado, como quase todos os dias fazia. Disse não saber sobre o paradeiro de Helena, sua esposa, e se mostrou surpreso.
Desapareceu sem deixar rastros. Abandonou esposo e filha?! Talvez, levando em conta que Dione era um completo irresponsável, era alcoólatra e vivia se metendo em encrencas.
O paradeiro de Helena até os dias de hoje era uma incógnita, um verdadeiro mistério, mistério esse que Marina na flor da adolescência, adoraria desvendar.
Onze anos depois...
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Onze anos depois...
Marina havia saído do banho cantarolando como normalmente fazia quando estava feliz com o seu dia. Colocou um short curto e ainda só com o sutiã, secava os cabelos com o secador, assentada de frente para a penteadeira. Estava tão absorta em seus pensamentos que nem percebeu um movimento repentino atrás de si...
Um par de mãos negras a surpreendeu tapando os seus olhos com delicadeza mas, com uma destreza que a fez despertar de forma apreensiva à realidade. Ela se assustou e deu um saltinho no mesmo lugar. Com calma desligou o secador, o colocando em cima da penteadeira e pôs suas mãos sobre as que cobriam seus olhos sentindo o calor da sua pele.
__ Duvido que saiba quem é! - Falou o dono das mãos que ela acariciava fingindo tentar descobrir de quem eram. O moreno alto e de pele negra com aqueles olhos negros como a noite, com impaciência na voz, esperava com expectativa a sua resposta.
__ Max... Eu já te falei que não gosto dessa brincadeira. - Falou sorrindo retirando as mãos do rapaz de seus olhos.
__ Você sempre acerta. - Ele aproximou o seu rosto do dela e lhe deu um beijo carinhoso em sua bochecha.
__ Conheço sua voz, e esse seu perfume, seu bobo! - Disse se levantando e o encarando de frente. __ Além do mais, quem mais além de você, entra sem bater no meu quarto? Quase me pega sem roupa! - Falou ainda sorrindo, mas desconfiada de quanto tempo estava ali a observando.
__ Eu bati, mas parece que o barulho do secador não lhe deixou escutar.
__ E as outras vezes foram o quê? - O fitou com olhar oblíquo e apreensiva.
__ Sua mãe disse que estava aqui e eu entrei. Achei que não teria problemas! - tentou se justificar.
__ Vou sair com a Camily. Vamos ao Shopping. Se quiser vir com a gente... É bom que nos dá uma carona. Será um máximo chegar de Mustang! - Falou Marina indo até o guarda roupas vasculhando tudo a procura de uma blusa decente. __ Queria mesmo era ir no show dos Seventeens. Vão se apresentar hoje a noite no parque. Mas, infelizmente eu não tenho ingressos. São caríssimos e já se esgotaram. - Disse escolhendo o look um tanto desanimada.
__ E quem disse que não pode ir? - Ela se virou em direção ao rapaz de rompante e teve uma surpresa. Max segurava dois ingressos do show à mostra em sua mão.
__ Háaaa! Max! Não acredito! - Falou ela soltando os cabides de repente, correndo em sua direção e quase o derrubando com um abraço quando se jogou em seus braços cheia de felicidade.
__ Hei! Calma aí...- Falou quase perdendo o equilíbrio.
__ Me dê! Quero pegá-los! Quero cheirá-los, quero senti-los...- Falou o liberando do abraço e estendendo as mãos faceira. Estava tão feliz e impaciente que mal se continha.
__ Hei, não tão rápido... - Falou Max os levantando para o alto, a fazendo ficar nas pontas dos pés e pular para tentar pegá-los.
Aquelas eram as mesmas brincadeiras de sempre entre os dois amigos, que se sentiam à vontade um com o outro. Eles gargalhavam e se divertiam muito, quando de repente o moço se desequilibrou numa das tentativas dela de pegar os ingressos e caiu para trás sobre a cama. Inevitavelmente Marina caiu sobre ele. Com os olhos vidrados um no outro, os rostos colados, eles cessaram os risos. Havia um silêncio mútuo entre eles. Um clima tenso pairava no ar com a proximidade dos corpos. Marina sorriu sem graça, sem mostrar os dentes e ergueu o corpo estando sentada sobre seu quadril.
__ Vou ter que lhe matar de cócegas pra me entregar esses ingressos, Max?! - Ela falava na intenção de quebrar aquele clima estranho entre os dois. Começou a trabalhar os seus dedos matreiros pelas costelas dele.
__ Não Mare, aí é golpe baixo! Você sabe que esse é o meu ponto fraco. - Ele falou começando a rir se contorcendo todo com todas aquelas cócegas que sentia.
__ Você se rende Max? - Marina deu uma trégua esperando a resposta.
__ Ta bom! Ta bom! Ta bom... Você venceu! Agora pare de me fazer cócegas, por favor!
__ O que está acontecendo aqui?! - Dione, seu pai, falou furioso ao abrir a porta do quarto de repente e se deparando com a visão da filha seminua sobre o corpo do rapaz em sua cama. Ficou petrificado no lugar olhando a cena com sua garrafa de cerveja nas mãos.
Foi um verdadeiro choque para ele. Ele só poderia imaginar uma coisa. O fato da filha estar seminua, reforçava aquela ideia indecente que se formou em sua mente. Os risos e gritinhos que ouviu da sala deletaram uma intimidade que ele não desejava a sua princesa nesse momento. A expressão tomada de ódio delatou à ela seu descontentamento que rapidamente tentou se justificar.
__ Pai!? Não é o que o senhor está pensando! - Ela se levantou ligeira de sobre o corpo do rapaz e vestiu logo a primeira blusa que achou jogada por ali.
__ Eu posso explicar seu Dione! - Falou Max também se levantando.
__ Você não precisa explicar nada. Eu sabia que essa intimidade com minha filha só poderia acabar nisso! - Cuspiu as palavras com rancor na direção do rapaz já se arrependendo de ter permitido essa aproximação dele na casa.
__ Nisso o quê, pai? Não estávamos fazendo nada! - Marina tentava explicar furiosa. Como ele poderia não confiar nela?
Dione, abalado com o que viu, saiu calado do quarto deixando os dois ali sem uma explicação. A garota já adivinhou o que pai poderia ter ido buscar e logo se adiantou a tentar impedi-lo.
_ Hei, pai... Aonde vai?! - Ela o segurou pelo braço tentando evitar sua saída. Marina estava preocupada, já conhece como ele fica sob o efeito da bebida.
__ Vou fazer o que eu já deveria ter feito há muito tempo. Não deixe esse cretino sair, vou pegar uma coisa e já volto . - Ele se soltou da sua pegada e apenas gritou de volta pra ela do corredor.
__ Papai, volte aqui! Não é o que está pensando! Max só veio trazer uns ingressos e... - A moça começou a se desesperar. Mas, voltou ao quarto. Precisava agir antes que ele voltasse.
__ Mari, o que ele vai fazer?
__ Você tem que ir embora logo daqui, Max! Tenho quase certeza que foi pegar a sua arma!- Assim que disse essas palavras, ouviu o barulho de uma garrafa se quebrando em outro ambiente da casa que não conseguiu identificar e logo se iniciou um bate boca do seu pai com sua mãe.
__ Mas nós não fizemos nada, Mari! - O rapaz tentava se justificar apavorado.
__ Mas, ele não entende. Ele muda por completo quando está bêbado. Você sabe muito bem disso!
__ Filha, o que aconteceu?! Dione está furioso... - Falou Helena, ao entrar no seu quarto assustada. Ela tinha cabelos loiros escuros, olhos cor de mel e era tão linda quanto as fotos que tinha espalhadas pela estante e paredes de sua casa.
Helena Machado...

Marina via nela sua própria personificação. Sentiu uma pontada no que denunciava uma saudade. Saudade?! Do quê?! O pânico do momento não a deixava concluir esse pensamento. Apenas tentou raciocinar uma rota de fuga, uma explicação plausível para que a mãe parada ali em sua frente com a expressão de preocupação a ajudasse.
__ Papai nos pegou numa posição muito constrangedora. Está imaginando coisas... - Começou com lágrimas no olhar. Podia sentir as bochechas já molhadas pela trilha que elas deixavam.- Faça alguma coisa mãe, ou ele vai matar o Max! - Falou Marina chorando já implorando pela vida do rapaz.
__ Ele não vai fazer nada disso! Eu não permitirei! Acho melhor você sair pela janela ao lado Max... - A voz protetora dela era ainda como se lembrava. Mesmo a tanta pressão, ela mantinha o controle da situação. Ela já se movia em direção a saída, tencionando mostrar o caminho ao rapaz apavorado.
Assim que deu alguns passos, já viu o marido no corredor com a arma em punho e dando um longo gole na nova garrafa de cerveja que trazia em mãos, sem tirar os olhos do rapaz. Da porta, eles vislumbraram a visão de um homem furioso disposto a lavar a honra da filha com sangue.
__ Por favor seu Dione, não aja por impulso, vamos conversar! Só houve um mal entendido... - Max falava pedindo calma com as mãos em sua frente, mas com o suor já escorrendo pela sua testa. Um misto de medo, terror e certeza de qual seria o seu veredito.
__ Isso é sério Dione?! Olha pra você? Está caindo de bêbado! Qualquer dia desses, você vai chegar em casa, e não mais vai me encontrar! - Aquela frase ecoava na mente de Marina. Parecia um mantra já repetido inúmeras vezes. __ Guarde essa arma, homem! Não está vendo que está assustando o rapaz?! - A mãe tentava colocar juízo na cabeça do marido, ainda descrente que poderia mesmo fazer o que pretendia.
Dione deu de ombros. Já tinha tomado a sua decisão. Não voltaria atrás, mesmo com os suplícios da mulher. Baixou a mão com a garrafa ao seu lado do corpo, levantou o braço direito o erguendo na direção de Max com a arma em punho e com satisfação, puxou o gatilho em pontaria certeira.
Tomada pelo instinto, sua mãe se colocou na frente do rapaz com rapidez e o empurrou para fora da mira, tomando assim, um tiro no peito em seu lugar.
__ Mãnheeee! - Marina soltou um grito gutural.
Ela via a mulher tentar se equilibrar em pé uns momentos absorvendo o impacto da bala. O olhar dela era dirigido friamente na direção do marido não acreditando no que ele acabara de fazer. Colocou a mão em seu peito, tentando assim, aplacar a dor e depois de um longo suspiro, foi caindo ao chão em um amontoado de seu próprio corpo.
Seu pai, pasmo com o que acabou de acontecer. Deixou a garrafa cair de sua mão e se espatifar no chão em mil pedaços. Não acreditava no que tinha feito. Ela era a paixão da sua vida. E ele, fora o responsável por ceifar sua vida ainda tão jovem, tão bela e com tantos sonhos à realizar.
__ Papai, você matou a mamãe! - Disse Marina em prantos, trocando olhares com ele antes de ir socorrê-la.
Dione, saiu dali descontrolado pelo corredor socando as paredes em sua volta, se segurou no corrimão da escada tentando aplacar as lágrimas que se formaram com a culpa por sua irresponsabilidade. Quase acabou rolando escadaria abaixo por causa da vertigem que o álcool e a dor em seu peito provocaram. O som da porta retumbando pela casa denunciou a sua fuga. Não demorou muito para que se escutasse o barulho da chave na ignição e o ronco do motor de um veículo saindo em disparada pela rua.
__ Isso mesmo, foge novamente como sempre faz! Eu nunca vou lhe perdoar por isso, ouviu bem?! Nunca! Nunca! - Marina gritou para o pai com a cabeça da mãe sobre o colo, em pranto, mesmo não se importando se ele ouvia ou não, o seu desabafo...
Um caminhão baú estava estacionado no acostamento de uma estrada deserta, em uma madrugada fria.
Dione dormia na boleia, de braços cruzados e com a cabeça apoiada no vidro da janela do caminhão. Os resmungos da filha que tambem dormia ao seu lado, o fez despertar. De relance, o pai observa a filha se debater no banco do carona e lágrimas a rolarem pelo rosto mesmo com seus olhos fechados. Não era a primeira vez que a via nessa situação. Isso já tinha ocorrido outras vezes. E como era o costume...
__ Você matou a mamãe e isso não tem perdão! Você matou a mamãe! Você matou a mamãe! - Marina começou a dizer ainda dormindo. __ ASSASSINO!
Ela deu um salto no mesmo lugar e se despertou gritando e chorando sem controle.
__ Hei, hei... Calma! Calma! Foi só um sonho. Vai acabar se machucando desse jeito! - Falou Dione segurando as mãos da filha, a vendo soar frio e se debater tentando se libertar da sua pegada.
__ Me solte! Você matou a mamãe! Você atirou nela! - Marina bradou se soltando abruptamente se afastando dele e se encolhendo no canto da boleia. Dione engoliu em seco e de momento não soube como reagir ao ver a cena de surto da filha.
__ Filha... Acalme-se. Eu não matei ninguém. Você só teve um pesadelo. Estamos dentro de um caminhão, na estrada, transportando a nossa mudança, lembra?
Marina Passou os olhos ao redor, tentando se ambientar e aos poucos ia voltando em si.
O que tinha visto em seus sonhos era tão real e palpável que podia sentir ainda o cheiro do sangue no ar. O desespero de Max, o calor do corpo da sua mãe em seus braços... Enxugou as lágrimas e deu uma fungada na manga da blusa. Estava perdida em sentimentos, realidade, espaço e tempo. Tentou se recompor da melhor maneira possível para encarar a realidade à sua volta.
Tal cena na realidade nem poderia ter acontecido, pois quando sua mãe sumiu, ainda era uma criança de seis anos. E ali, naquele sonho bizarro, já era uma adolescente, apenas com uma mãe mentalizada dos retratos que via espalhados pela casa. Buscar encontrar em seus sonhos e suas lembranças a resposta do que realmente aconteceu á ela no passado, era tudo que mais desejava, e desconfiar de quem quer que seja, fazia parte dessa busca.

Dione vendo o estado da filha ainda em choque pelo pesadelo, tentou lhe acalmar.
__ Vem cá... deixa eu te dar um abraço. - Ele a chamou com uma das mãos. Ela hesitou por algum momento. Ainda tinha o sentimento de ódio deixado pelo pesadelo bagunçando seus pensamentos. Por fim, decidiu que precisava daquele abraço.
__ Sonhei que você matava a mamãe. Foi horrível pai... - Disse o abraçando e chorando se lembrando das cenas que pareciam bem reais.
__ Shiu... Não precisa ficar assim. Foi apenas um sonho bobo. - Depois de um reconfortante abraço, Dione a afastou de seu corpo, segurou seu rosto com as duas mãos e enfatizou:
__ Marina, eu não matei sua mãe. Coloque isso na sua cabeça. Ela nos abandonou e é somente nisso, unicamente nisso que deve acreditar...
- Deu uma pausa ao ver o olhar de dúvidas da filha e completou: __ ...Pois essa é a única verdade.
__ Isso nunca se passou pela minha cabeça pai. Como você disse: Foi apenas um sonho. - Pareceu suspeita ao tentar se justificar.
__ Mas quando a gente sonha com certas coisas é por que já pensamos de mais sobre elas. - Falou Dione a soltando, com um semblante desgostoso, pegando uma garrafa d'água e a entregando.
__ Eu sei que nunca faria isso. Acredita em mim pai! Eu sonhei isso do nada. - Falou desenroscando a tampa.
__ Está bom então. Eu acredito em você. - Olhou em seus olhos e forçou um sorriso. - Ele tinha quase certeza que a filha já havia imaginado essa possibilidade, já que o sumiço da esposa, ainda era uma incógnita até mesmo para si. __ O cansaço físico nos faz ter pesadelos. Você precisa dormir mais um pouco, se esforçou demais com a mudança.
__ Não estou com sono. Só queria que amanhecesse logo, ou que aparecesse uma boa alma para nos tirar da estrada. - Disse a filha para o pai, fitando a escuridão do lado de fora e dando um gole na água da garrafa.
__ Maldita hora que esse caminhão foi quebrar! O Beto é o culpado, tenho certeza que não fez as revisões necessárias! - Dione exclamou batendo a mão fechada sobre o volante.
Ele havia pego caminhão emprestado com um amigo para fazer mais uma mudança. Já estava acostumado com essas mudanças repentinas, mas não se agradava de ter que envolver a filha nas suas paranoias ou casos mal resolvidos do passado. Pensava na segurança da garota, não querendo que ela sofresse as consequências de seus atos muitas vezes impensados. Já estavam a algumas horas na estrada. Aquela hora bem no meio do nada, só lhes restavam aguardar ou contar com a sorte.
__ Não reclama pai, ele fez muito em nos emprestar seu caminhão. - Marina defende o bomdoso amigo.
__ Você está certa. - Diz se virando para ela e em seguida sorrir sem mostrar os dentes. __ Bom, eu também não estou com sono. Sabe de algum jogo legal para passarmos o tempo? Quer conversar sobre algo? Colocar o papo em dia?
O pai questiona esperando a resposta e a filha o fita por alguns poucos segundos antes de se virar para frente e novamente dar mais um gole na garrafa.
__ Como anda sua vida sentimental? Está afim de alguém? Se estiver, está tudo bem pra mim. Só não me venha dizer que se apaixonou por algum noiado, ou algum babaca, isso eu não admito.
Dione se sentia um completo idiota ao tentar fazer o papel de mãe. Sabia que nunca conseguiria desempenhar muito bem essa tarefa, mas mesmo assim arriscava as vezes.
__ Por que não me fala da tia Cristina e da vez que você e o ex namorado dela, tiraram a vida daquela garotinha quando invadiram a casa dos pais dela para roubar? - Marina, sugeriu, se virando para ele e acompanhando sua reação.
Dione engoliu em seco. "Por que tinha que tocar nesse assunto logo agora?!" Se perguntou. Em seguida tomou a garrafa das mãos da filha e parecendo querer disfarçar seu nervosismo, deu um longo gole em seu conteúdo.
As lembranças daquela maldita noite desfilaram em sua mente como um filme. Cristina sua irmã, devia aos traficantes e para salvá-la da morte, decidiu assaltar a casa dos patrões dela com a ajuda de seu namorado Charles.
11 anos antes. Serra branca, leste do país. 23:00.
Charles Peterson...

Tinha tudo pra ser um plano perfeito, mas tudo deu errado naquela noite. A família não havia ido para o sítio como Cristina havia dito a eles. Eles os fizeram de refém. A garotinha filha do casal, estava muito assustada. Chorava sem parar. Charles a mandava calar aos berros mas isso só piorava as coisas. Dione conversou com jeito com ela, e ela se calou. Charles se irritou ainda mais, ao descobrir que o cofre estava vazio. Deu um sopapo no pai que o fez cair para trás desacordado, e em seguida atirou na cabeça da garotinha depois de ouvi-la começar a chorar e a gritar novamente.
Dione vendo a crueldade que o amigo fizera, tomado de revolta, o acertou no rosto com um soco o fazendo cambalear e se segurar na penteadeira para evitar sua queda.
"SEU MISERÁVEL! ZERO MORTES, EU FALEI!"
Dione segurou a gola da camisa do homem, enquanto ele sangrava pelo nariz.
" ELA É APENAS UMA CRIANÇA! UMA CRIANÇA! SEU MONSTRO! DASGRAÇADO!"
Dione soltou Charles e caiu de joelhos próximo ao corpo da criança sem vida no chão. Chorou amargamente imaginando que poderia ser Marina ali.
Inusitavelmente a única coisa que estava ali no interior no cofre era um buquê de rosas e um bilhete, com uma declaração de amor para Cristina... Charles após ler o pequeno papel, riu com deboche, o amassou e o jogou com ira junto ao buquê sobre o homem que já se despertava ao chão.
Do lado de fora, as sirenes logo soaram anunciando a chegada da polícia. Charles chamou Dione para caírem fora, mas parecia paralisado e não conseguia se mover. O desespero do pai em pranto ao ver a filha morta com uma bala na cabeça o petrificou no lugar. Charles continuava a gritar com o amigo o incentivando a fugir e como não via resultados, começou a puxá-lo mas Dione por um ato impensável talvez, estava decidido a ficar.
Charles conseguiu escapar. Dione se entregou para a polícia. Ficou preso por um ano esperando o julgamento. Foi acusado por roubo e por participação no assassinato. Não sabia o porquê, mas poderia imaginar, pra sua surpresa o pai da garotinha testemunhou ao seu favor. Pegou quatro anos por roubo, mas a pena foi reduzida pois entregou o assassino da garotinha. Charles está preso agora.
Agora mesmo....
__ Eu não matei ninguém, você sabe muito bem disso! - Dione repreende a filha ao ver que o incluía como assassino da menina.
__ Desculpa pai, eu sei que foi o cretino do ex da tia Cristina. Por culpa dele, ela está morta agora! - Cerrou os punhos.
__ Eu tentei salvá-la, filha! - O pai transmitia verdade.
__ Eu acredito pai. - Sorriu para ele com ternura. __ Tem medo que Charles saia da cadeia e queira se vingar de você por ter o entregado?
__ Não temo por mim... - Deu uma pausa e completou: ...temo por você. - Respondeu preocupado a fitando nos olhos. Marina engoliu em seco.
__ Quem a matou na verdade?
__ Não se sabe ao certo... Charles , talvez os traficantes... Perdi um amigo e uma irmã por causa disso. Repugno e odiarei todo e qualquer tipo de traficante até o último dia da minha vida! - Disse indignado.
11 anos atrás... Serra branca. 9:00.
Dois dias depois do desastroso assalto, e da prisão do irmão, numa manhã bem cedo, Cristina estava aflita em casa. Não sabia como seria sua vida de agora em diante. Tinha a responsabilidade de cuidar da sobrinha, mas temia pelo futuro dela, pois a dívida com os traficantes ainda estava de pé.
As olheiras denunciavam a noite em claro. Enquanto velava o sono da sobrinha que dormia no sofá da sala, segurava trêmula uma xícara de café. já estava ciente da prisão do irmão e do desastre que acabou sendo aquela tentativa de assalto. Deixou a xicara cair de suas mãos e se quebrar ao chão derramando o liquido negro, ao ouvir batidas na porta. Eram de três uma...
A polícia que veio para lhe prender, Charles seu namorado, ou a pior das hipóteses, os traficantes vindo para acertar as contas, pensou. Olhou pelo olho mágico; vendo quem era, imediatamente começou a girar as chaves. Abriu a porta e olhou com espanto o homem parado à sua frente. Não esperava por ele.
__ Senhor Tavares?! - Falou quase num suspiro.
O seu patrão e pai da garotinha morta estava em sua porta. Um homem magro de quarenta e dois anos, cabelos grisalhos e bem penteados.
__ Por que, Cristina? - Questionou, com olhar ainda carregado de tristeza pelo luto.
__ Me perdoe Senhor Tavares, eu não queria que nada disso tivesse acontecido. O senhor sabe o quanto eu amava a Laurinha... Eu... sinto muito por ela... - Dizia desesperada e em pranto abraçando o homem e molhando a camisa em seu peito com as lágrimas que começavam a rolar.
__ Entenda, eu estava desesperada, entre a vida e a morte e ainda estou!
__ Por que você não se abriu comigo, nada disso deveria ter acontecido... - Falou o homem lhe afastando, segurando o seu rosto com as duas mãos e fitando aquele par de olhos azuis, agora carregados de desespero.
__ É uma quantia muito alta, como poderia ter lhe pedido algo assim? - Explicou a mulher.
__ Dinheiro para mim não é problema. Eu a ajudaria com imenso prazer.
__ Mas agora tudo está perdido. Eu sou uma estúpida! Sua filha está morta e eu sou a culpada por isso! - Cristina chorava ainda mais.
__ Acalme-se! - O patrão pedia com a voz mansa.
__ Por favor senhor Tavares, me prometa uma coisa... Olhe... essa é minha sobrinha Marina, filha de Dione meu irmão. Ele se arrependeu do que fez, e se entregou para a polícia. - Se afastou, e mostrou a garota dormindo profundamente no sofá. Tavares foi até ela.
__ Como ela é linda! - Percebeu que trazia muitas lembranças da filha.
__ Prometa que se algo acontecer comigo, o senhor vai cuidar dela? - Tavares apenas intercalava o olhar entre a mulher e a criança no sofá e permanecia em silêncio.
__ Cristina, eu... minha esposa ela... - Tentou dizer que sua esposa jamais aceitaria isso, a essa altura já estava ciente de uma possível traição do marido.
__ PROMETA! - A mulher gritou para ele. __ O senhor é a única pessoa com quem posso contar, vamos, prometa para mim! - As lágrimas voltavam a rolar sem controle e a molhar ainda mais o rosto da mulher que temia por uma resposta negativa do homem que engolia em seco aumentando a sua angústia com aquele tortuoso silêncio. __ Eles vão me matar... - Falou baixo, fechando os olhos e forçando as lagrimas a saírem pressionadas pelas pálpebras.
__ Ninguém vai fazer mal a você. Eu não permitirei... - Cristina abriu os olhos. Tavares segurou o maxilar da moça com delicadeza e começou a beijá-la. Após o beijo, Cristina questionou:
__ Por que fez isso? Está se aproveitando da minha fragilidade?
__ Ainda não percebeu que eu te amo? - Tavares sorria embobo, segurando as mãos da mulher e fitando seus olhos. __ Desde o primeiro momento em que eu te vi, senti algo muito forte por você.
__ Quando estava sob efeito das drogas ou até mesmo do álcool, você me dava atenção, conversava comigo e até disse uma vez que me achava bonito e que eu merecia alguém melhor ao meu lado do que perpétua, minha esposa. - Sorriu. __ Numa noite você estava tão alucinada que subiu sobre o meu corpo e queria que transasse com você a qualquer custo. Recusei. Era tudo que eu queria, mas não nessas circunstâncias. Ontem vi que você me observava abrir o cofre e propositalmente digitei bem devagar a senha, pois sabia que queria decorá-la. Não deixei dinheiro pra você, mas sim um buquê de rosas e um bilhete onde me declarava e dizia que lhe daria a grana para pagar os desgraçados que lhe ameaçam de morte. Esperava que fosse você a abrir aquele cofre.
__ Como a polícia soube do assalto? Já havia alertado ela antes? Se iria me arranjar a grana, por que fez questão da presença deles?! Senhor Tavares... O senhor iria me entregar? - O olhou de esguelha.
__ Não! Claro que não. - Sorriu. __ Eles taparam a boca de minha sogra por ter dado uma crise de pânico. A amarraram pés e mãos, e a trancaram num cômodo. Eles pensaram ser minha esposa. Perpétua conseguiu sair pela porta dos fundos sem ser notada e ligou para a polícia.
__ Minha nossa! Que tola que eu fui... __ Eu vou sair dessa vida! Eu estou mudando, eu juro que vou mudar! - Falou forçando um sorriso.
__ Eu acredito em você. - Se aproximou dela e segurou firmemente suas mãos.
__ Eu não disse que o achava bonito só por que estava sob o efeito das drogas, eu realmente te acho bonito. Percebi que o senhor me olhava diferente e que até gostava de mim. Pensava ser só coisa da minha cabeça, afinal de contas você é um homem casado e jamais destruiria a sua família.
__ Topa fazer uma loucura e sumir no mundo comigo Cristina?! - Tavares falou com entusiasmo.
__ O que?! co-como assim?! - Cristina queria entender, mas pelo olhar, parecia ter gostado da ideia, afinal, precisaria mesmo de um refúgio se não quisesse ser morta.
__ Eu perdi minha filha e meu casamento está em crise. Quero deixar tudo para trás e ir embora com você! Nós três, você, eu e sua sobrinha. O que acha?! - Sorria em bobo.
Cristina não lhe deu resposta, apenas começou a beijar o homem loucamente. Sabia que todos os seus sentimentos estavam um tanto confusos, mas beijá-lo naquela hora, era tudo que queria.
Tavares agora estava próximo ao sofá onde Marina dormia e Cristina de costas para a porta que ainda estava aberta. Após o beijo, Cristina abraçou Tavares e falou:
__ Eu aceito... Sim, eu aceito fugir com você! - Falou com entusiasmo com um largo sorriso no rosto.
__ Então arrume suas coisas e vamos logo antes que...
Tavares se calou ao ouvir o barulho de um tiro e o gemido de Cristina que amoleceu o corpo em seus braços e arregalou os olhos.
__ CRISTINA, NÃOOOO! - Gritou desesperado ao ver o assassino(a) de sua amada com a arma em punho, do lado de fora.
Agora mesmo...
Marina adorava falar sobre a tia amada e relembrar aquela história.
__ Quer se tornar algum tipo de justiceiro? Se quiser, você já tem uma aliada. Seria um prazer ver quem tirou a vida da tia Cristina, pagar pelo que fez! - Falou cerrando o punho mais uma vez.
__ Entendo a sua revolta, mas fique tranquila, ainda vou descobrir o responsável por isso.
__ Você ainda carrega ela, a bala? - Marina perguntou fitando o peito do pai.
__ Nunca deixei de usar... - Dione falou retirando de dentro da gola de sua camisa, uma corrente de prata com uma bala na ponta, à deixando a mostra.
__ O projétil que tirou a vida da tia Cristina! - Marina comentou admirada sem tirar os olhos da corrente.
__ O responsável por isso, morrerá com a mesma bala na cabeça. - Dione falou com revolta.
__ Sim. Faça isso por ela. Tia Cristina merece descansar em paz.
__ Ela descansará. - Disse com convicção.
__ Mamãe me abandonou, tia Cristina foi morta e você foi preso. Ficar sozinha em um maldito orfanato não foi nada fácil pra mim. Foram os quatros piores anos da minha vida!
__ Eu sinto muito por isso filha. A culpa é minha. Eu fui um inconsequente. Prometo que daqui pra frente será tudo diferente. Em fim você terá orgulho de mim. - Falou com pesar.
__ Por ela ter te deixado eu compreendo, mas ter me abandonado, isso eu não perdoo! Até acho que você poderia...
__ Shiu... - Dione pede silêncio ao escutar vozes exaltadas vindas do lado de fora da boleia.