Caminhei pela praia indignada, aquele homem tinha pegado meu dinheiro pago pelo aluguel do barco e saído para o mar sem mim, droga! Reclamei em pensamento me sentindo impotente.
Eu precisava tirar aquelas fotos para terminar meu terceiro portfólio.
A empresa Photo's Adventuri pagaria 50 mil para o vencedor e eu era a última vencedora dos dois últimos anos, precisava me manter no pódio, precisava do dinheiro e sem falar no prestígio que seria conquistar esta posição pela terceira vez consecutiva.
Caminhei pelo deck de um lado para o outro sem saber o que fazer e foi então que avistei um pequeno barco.
Era como se ele estivesse ali esperando por mim... Mordisquei o lábio inferior e caminhei até ele, olhando para o horizonte aberto:
"Afinal, velejar, não deveria ser tão difícil assim, deveria?"
Perguntei a mim mesma me sentindo confiante, o que de ruim poderia me acontecer? Certo! Muitas coisas poderiam acontecer, porém eu ainda precisava tirar aquelas fotos e essa era minha única chance, que outra eu teria?
Sorri e entrei no pequeno barco, nunca me arrependi tanto de ter posto saltos altos, com certeza não era o calçado mais confortável para velejar.
Sentei próxima ao motor e tentei encontrar as instruções, por sorte, havia algumas fotos indicando o que eu deveria fazer para que o motor funcionasse.
Certo, pensei mais uma vez, de acordo com as fotos não era tão difícil assim, era só puxar aquela cordinha ali e pronto...
Assim que puxei a corda com força o motor arrancou me fazendo cair para trás, o susto só não foi maior porque o pavor veio em seguida ao perceber que eu estava navegando em alto mar, o pequeno barco se chocava com força contra as ondas que pareciam querer virá-lo de todo jeito.
George caminhou pelo iate e visualizou ao longe o barquinho descontrolado que logo mais seria engolido pelas ondas do mar, sem acreditar no que via usou uma luneta para aproximar o pequeno barco e então viu que o mesmo era conduzido por uma mulher, ao julgar pelas roupas que ela vestia logo se via que não tinha habilidade com navegação, porém se tinha arriscado tudo para entrar no mar, certamente sabia o que estava fazendo, ou pelo menos, era o que ele queria acreditar, até que de repente o barquinho parou no meio do nada.
Lívia se desesperou ainda mais, seria engolida por aquelas ondas se não fizesse nada, puxou insistentemente a cordinha do motor, mas não teve sucesso, então buscou pelos remos do barco, mais uma vez sem sucesso, não havia nada ali que pudesse ajudá-la, "Deus! Quanta estupidez"! Pensou quando finalmente constatou que ela tinha se lançado ao mar acreditando apenas na sorte.
George coçou os olhos pensando em mais uma vez ignorar a mulher, porém sabia que se não fizesse nada ela certamente morreria em alto mar.
Ancorou o iate e usou a lancha reserva para ir até ela, afinal se resolvesse se aproximar com o iate gigantesco acabaria virando o barco da pobre moça.
Lívia viu uma lancha se aproximando de seu barco e comemorou, estava salva, o homem circulou seu barco com a lancha e então desligou o motor se aproximando calmamente de onde ela estava para não acabar virando seu barco que estava bastante debilitado.
- Tudo bem? Precisa de alguma ajuda?
Ao ouvir a voz grave e forte ela estremeceu dos pés a cabeça, aquele homem não parecia ser real, ele parecia ter sido esculpido por algum artista, o corpo forte e bronzeado destacava os olhos verdes e profundos que se misturavam aos curtos cabelos loiros um pouco queimados pelo sol.
Só quando percebeu que ele a encarava impaciente é que se lembrou de que não tinha respondido e então voltou a si sem graça.
- Desculpe, sim, acho que sim, o motor do barco emperrou.
George ancorou a lancha e com muita habilidade subiu no barco dela, Lívia viu ele se aproximar e percebeu que tinha sido muito simplista em sua descrição, aquele homem era de fato perfeito, seu coração deu um salto e ela se sentou se sentindo envergonhada por não conseguir parar de encará-lo, "o que diabos estava acontecendo com ela"? "Só podia estar muito carente mesmo".
- Não está emperrado, está sem gasolina.
- Oh, sério?
Ele me olhou dos pés a cabeça.
- O que você tinha na cabeça quando resolveu entrar em alto mar com um barco nestas condições, sem remos, sem gasolina e usando estes sapatos?
Eu abri e fechei a boca me sentindo um tanto quanto ofendida.
- O que há de errado com meus sapatos?
Arqueei a sobrancelha como se eu não soubesse a resposta.
- São de salto alto, mal consegue parar de pé neles, quem dirá ficar em um barco, santo Deus! Certamente nem sabe pilotar isso aqui, poderia ter morrido.
Novamente fiz cara de ofendida e o encarei.
- Quem disse que eu não sei pilotar?
- Se soubesse saberia que não teria gasolina suficiente para voltar para a praia e provavelmente nem teria saído.
Eu fechei a boca concluindo que mais uma vez ele tinha razão, senti-me uma completa idiota.
- Vai me ajudar ou não?
Ele sorriu de canto e desviou o olhar.
- Acho que não tenho escolha, não quero ser acusado de ter facilitado a sua partida desse mundo, já tenho as costas pesadas demais para ter que carregar mais esse peso.
Eu cruzei os braços e o vi passar por mim voltando para sua própria lancha.
- Vamos de lancha até meu barco e de lá levo você de volta.
Eu tentei segui-lo, porém meu pé pisou em falso e com a batida das ondas no casco do barco perdi o equilíbrio caindo na água.
George viu a mulher cair no mar e desaparecer diante dos olhos dele, pensou em começar a rir, porém logo a viu voltar à superfície e começar a se debater em desespero, piscou sem acreditar, ainda por cima a pobre não sabia nadar, tinha entrado em alto mar com um barco sem gasolina de salto alto e não nadava, de onde aquela maluca tinha saído?
Ele saltou no mar a segurando pela cintura e a puxando para junto dele, Lívia se agarrou em seus ombros e quase se afundou naquele olhar, porém seu medo da água fez que ela voltasse em si rapidamente.
- Desculpe.
- Suba nas minhas costas.
Ela fez o que ele pedia e juntos nadaram até a lancha, ele a ajudou a subir e depois também subiu sem dizer uma palavra sobre o incidente.
Só quando ele já tinha ligado a lancha e dado meia volta foi que Lívia se lembrou que sua câmera tinha ficado no barco velho.
- Meu Deus, minha câmera! Tenho que voltar!
- Câmera?
- Sou fotografa, preciso dela para trabalhar.
George suspirou pesado e irritado e então voltou até o barco novamente, Lívia se levantou para sair da lancha e quase caiu no mar novamente, George a segurou pelo braço.
- Deixa que eu vá, porque se você cair no mar novamente eu serei obrigado a pensar se a deixo aqui ou não.
Eu olhei para ele incrédula, aquele homem era muito grosseiro, do que adiantava ser tão bonito se quando abria a boca só sabia dizer estupidezes?
Ele caminhou até onde minha câmera estava e literalmente a jogou para mim, eu saltei em desespero para conseguir agarrá-la, se ela caísse na água estava tudo acabado, aquele homem realmente não tinha amor nenhum pela vida, por que se tivesse ele saberia que deveria respeitar a câmera de uma fotografa.
Olhei com raiva para ele, mas ele me ignorou, voltou para a lancha e partiu, assim que nos aproximamos do iate eu concluí que ele não era qualquer pessoa, o iate não era apenas um simples iate, se tratava de um iate de luxo, cheio de requinte.
Ele me ajudou a subir e então prendeu a pequena lancha ao iate e o puxou para cima.
Eu me sentei de lado o observando trabalhar e tremendo de frio dos pés a cabeça por estar toda molhada, ele percebeu e sem dizer uma palavra caminhou até a cabine me trazendo toalhas e um cobertor.
- Se aqueça, ou ficará doente.
Eu sorri sem graça.
- Obrigada.
Mordisquei o lábio sem saber se deveria ou não puxar assunto, porém se eu iria viajar com ele eu merecia saber pelo menos o seu nome.
- Me chamo Lívia, e você?
Ele me olhou sério.
- George.
O assunto se encerrou novamente e ele se voltou para a cabine, eu me levantei e peguei minha câmera, eu precisava aproveitar aquele momento.
- Se importa se eu fotografar? É para um trabalho.
- Contando que eu não apareça tudo bem.
Eu sorri concordando, porém após tirar algumas fotos, não resisti talvez uma foto não fizesse tanto mal assim, mirei a câmera para ele, porém até que eu pudesse disparar o flash ele veio em minha direção e puxou a câmera das minhas mãos.
- Eu disse que não.
Tremi ao ver aquele olhar raivoso e aquela voz bufante e então engoli minha saliva.
- Desculpa.
Era melhor eu não provocá-lo, George certamente não era um exemplo de paciência.
Assim que chegamos no porto ele ancorou o iate e eu desci, nem acreditei que estava em terra firme, minhas pernas ainda tremiam sem parar.
Vi uma menina vir correndo na direção do barco com os braços abertos.
- Tio George! Tio George!
Ela pulou nos braços dele e o abraçou enquanto ele brincava com ela no ar, ali estava a outra face de um homem completamente diferente do que eu tinha conhecido, George de fato era uma caixinha de surpresas, irritante, porém muito misterioso e intrigante também.
- Tio George, essa moça é sua namorada?
- Não querida, vá indo para casa e eu já logo vou.
Ele a soltou no chão e depois que a menina tinha ido se aproximou de mim.
- Acho que você se vira agora, não é?
- Sim, obrigada por sua ajuda...
- Ok.
Nada de beijos, abraços ou demonstrações de afeto, apenas um "ok" grosso descompromissado e vazio.
Ele me deu as costas e seguiu na direção contrária a minha, mas por que será que eu estava tão desolada? Certamente seria por que eu não estava satisfeita com aquela despedida, aquilo poderia ter terminado muito melhor, não estava acostumada a ser tão facilmente ignorada por um homem, suspirei, porém talvez fosse melhor assim, George não era um homem para mim, nossas energias não combinavam muito bem.
George chegou à casa de praia dos pais e se dirigiu até a piscina, onde seu padrasto preparava um churrasco acompanhado de sua irmã e sua mãe.
Margaret olhou para o filho que tinha se aproximado.
- Analu veio correndo cheia de novidades, disse que estava acompanhado de uma moça belíssima, por que não a convidou para almoçar conosco?
George lançou um olhar raivoso para a sobrinha que agora tinha se escondido atrás de sua irmã.
- Analu fala demais, não havia ninguém comigo.
George deu às costas a mãe voltando para dentro da casa, precisava de um banho para se livrar da água do mar.
Margaret olhou para Analu.
- Para onde a moça que viu foi?
- Não sei vovó, eles conversaram um pouco só e ela seguiu para a direção contraria dele.
- Pois volte lá e veja se a encontra, se a encontrar diga a ela para vir almoçar conosco, diga a ela que foi George que a convidou.
- Mamãe! – Reclamou Suzana ao perceber que a mãe estava inventando mentiras.
- Não me repreenda Suzana, mais do que eu sabe que George precisa para de se martirizar e arrumar alguém que acabe com o mau humor dele, quem sabe essa garota não é a saída.
Suzana balançou a cabeça, sua mãe e4stava sempre tentando fincar George nos braços de alguma mulher, mal sabia ela que isso só o deixava ainda mais irritado.
Eu cheguei a um bar que ficava na beira da praia e pedi um peixe frito e uma cerveja, sentei-me calmamente observando a paisagem.
- Que lugar mais lindo! Estou apaixonada!
Foi então que vi uma menina vir correndo em minha direção, demorei um tempo para reconhecê-la, mas logo vi que se tratava da mesma menina que tinha abraçado George.
- Oi...
- Olá pequena.
- Meu titio mandou chamá-la, disse que gostaria que almoçasse conosco.
- É sério isso? – Desconfiei.
- Sim!
Ela me garantiu sorrindo, eu sorri de volta e me levantei cancelando o pedido e a seguindo, quem diria que existia um coração dentro daquele peito de ogro, pelo visto ele tinha percebido que tinha sido muito grosseiro comigo e queria se desculpar.
Assim que cheguei a tal casa de praia me senti um peixe fora d'agua, aquele lugar era muito mais requintado do que eu estava acostumada, vi suas mulheres bem vestidas me olharem com interesse e sorrirem.
- Olhe só ela veio! E Analu não mentiu em nenhum detalhe, ela é lindíssima!
Eu sorri sem graça.
- Obrigada.
A mulher caminhou até mim e me abraçou carinhosamente.
- Sou Margaret, mãe do George, e você como se chama querida?
- Lívia.
- Que nome lindo.
Agradeci novamente me sentindo muito sem graça a mulher era de fato simpática, porém eu não estava vendo George, onde ele estaria? Se ele tinha mandado me chamar por que não estava me esperando chegar?
Nessa hora George veio de dentro da casa sacudindo os cabelos molhados, seus olhos se estreitaram me olhando, porém de um jeito bem ruim, me puxou pelo cotovelo me levando para o lado.
- Que diabos está fazendo aqui?
Eu gaguejei ficando desconfortável.
- Sua sobrinha disse que mandou me chamar.
Ele olhou para a pequena Analu que voltou a se esconder atrás de Suzana.
Margaret por sua vez saltou na frente.
- Não, fui eu quem mandou.
- Mãe... Nem conhece essa mulher!
- Melhor ainda, vejo aqui uma ótima oportunidade de conhecer, agora fique calado e Lívia querida sinto muito pela grosseria de meu filho, apenas o ignore como eu.
George balançou a cabeça ficando visivelmente irritado e então se afastou, eu o observei se afastar sem graça e me afastei um pouco também sem saber como interagir com aquelas pessoas.
- Não liga para ele. – Disse Suzana se aproximando de mim, ela me estendeu a mão me cumprimentando. - Deixa eu me apresentar como deveria, sou Suzana, sou irmã mais velha daquele grosseirão ali.
- Sou Lívia.
- Como foi que conheceu meu irmão?
- Bom, ele meio que me salvou mais cedo, mas pelo visto já está arrependido.
- Salvou? Como assim, tenho um herói na família? Devo fazer um alarde?
- Não, por favor, ele já está muito irritado com a minha presença, não será divertido se você falar qualquer coisa agora.
- Como foi que ele salvou você?
- Eu estava velejando e meu barco estragou. – Menti, não iria dizer que saí feito uma maluca com um barco sem remos ou gasolina. – Se ele não tivesse aparecido e me socorrido eu teria virado comida dos corvos.
- Nossa! Quanta bravura! Estou impressionada com o senhor George, ele normalmente não é tão generoso.
Eu comecei a rir.
- Ele também me salvou de morrer afogada, pulou no mar para me resgatar quando eu caí na água.
Suzana pareceu ficar impressionada.
- Terei que me controlar com essa, mas estou realmente muito impressionada, e acredite eu conheço muito bem o meu irmão ele pode parecer estar chateado, mas se ele te salvou então acredito que ele se importe e faz muito tempo que ele parou de se importar, se de repente você conseguiu despertar o interesse dele a ponto dele te socorrer, pode acreditar em mim, você é importante.
Eu olhei de canto para ele que estava de costas cortando alguns petiscos, queria poder acreditar em Suzana porque não era a apenas a aparência, tinha algo nele que me atraia feito um imã.
- Por que não vai lá falar com ele? Quem sabe agora com mais calma e sem a pressão da mamãe, vocês não se acertam.
Eu sorri e me levantei sim isso poderia funcionar.
- Oi... – Eu disse me aproximando ainda sem graça. – Me desculpe por ter vindo assim, eu realmente achei que você tinha mandado me chamar.
Ele se virou para mim observando as sandálias na minha mão.
- Você fica realmente pequena sem saltos.
Eu sorri sem graça, sim eu era muito baixa, gostava de dizer que eu tinha 1m e 55 cm, porém a verdade é que era 1m e 53 cm, por mais que fossem dois centímetros apenas de diferença, aqueles dois centímetros sempre me irritavam, eu era praticamente uma anã.
Já George era muito alto, eu não sabia dizer ao certo, mas imaginava que ele tinha pelo menos 1m e 85 cm.
- Vou ver isso pelo lado positivo, quando eu estiver perto de você, estarei na sombra.
- Perto de mim? – Ele caçoou. – Acredite querida, depois desse dia não espero mais ter que vê-la, o que aconteceu hoje foi um incidente desagradável.
Todas as minhas esperanças de manter algum contato com ele morreram ali mesmo, meu coração se fechou por completo depois dessa.
- Desculpe, não pensei que causaria tanto desgosto a você vindo aqui, eu só não quis magoar a sua sobrinha dizendo não.
- E desde quando uma mulher como você se importa com uma criança?
Aquilo me acertou em cheio, ser grosseiro e até mal educado tudo bem, mas querer me julgar sem nem ao menos me conhecer era um pouco demais, quem ele pensava que eu era?
Fechei os olhos com raiva tentando esconder uma lágrima, porém ela teimosamente escorreu pelo canto da face, apontei o dedo na cara dele e gritei o mais alto que pude.
- Nunca mais haja como se me conhecesse! Você não me conhece e não sabe quem eu sou para tirar suas conclusões sujas e estupidas sobre mim! Babaca!
Todos olharam para nós e eu peguei minha bolsa enfurecida e saí, só tinha me arrependido de não ter ficado no bar com meu peixe frito e minha cerveja, isso que dava me deixar levar pelas aparências, aquele homem não merecia um segundo do meu tempo.
Margaret caminhou furiosa até o filho.
- O que foi que você fez agora?
- Nada oras, ela é quem é louca!
- Não seja cínico! Que eu não o criei dessa forma! Agora pare de agir com infantilidade e vá se desculpar com ela!
George bufou indo atrás de Lívia, mas quando chegou na frente da casa a viu entrar em um táxi e sair.
"Dane-se" pensou... Ele nunca mais a veria mesmo, que diferença fazia se desculpar ou não.
Após algumas semanas eu recebi a notificação da premiação do concurso de fotografia, pela terceira vez consecutiva eu era a vencedora, sorri de ponta a ponta da orelha e fui até a o banco para resgatar meu prêmio.
Na volta passei no hospital para visita-la.
- Senhorita Lívia! Mas que bela surpresa.
Exclamou o Dr. Roger, médico responsável pelo tratamento de minha irmã menor, senti uma pontada de culpa ao me lembrar que eu não havia respondido nenhuma das mensagens dele, na verdade eu o ignorava a meses, ele fazia tanto por minha irmã, e era tão gentil comigo, então será que eu estava sendo muito errada em não dar uma chance a ele? Suspirei pesado e me voltei para ele sorrindo, tentando mandar para longe aqueles pensamentos.
- Oi, Dr. Roger.
- Eu já disse que pode me chamar apenas de Roger, sem formalidades, não disse?
Corei, sem graça, eu sabia por que ele estava sendo tão gentil e isso fazia com que eu me sentisse ainda pior.
Porém, logo voltei a vestir a minha armadura, sendo gentil ou não, ele estava fazendo o trabalho dele e eu devia me concentrar em arrumar dinheiro para custear o tratamento de Penélope, então ele teria que entender que o romance precisava esperar, eu só esperava que ele fosse maduro o suficiente para não confundir as coisas.
- Sim, você disse, e bom na verdade eu vim para ver em quanto está a minha dívida.
- Lindsey reclamou esses dias, mas não se preocupe... Ao que depender de mim, jamais deixarei sua irmã sem tratamento.
- Eu sei, mas não poderá segurar as pontas sempre... A clínica não vai perdoar minha dívida todas às vezes.
- Conseguiu algum dinheiro?
- Cerca de 50 mil... Eu sei que não cobre tudo, mas será que com esse valor podem segurar as coisas?
- É claro que sim! Mas, aceitaria um conselho?
- Diga...
- Arrume um emprego fixo, sua dívida cresce devido aos juros pelo atraso de pagamento, dessa forma nunca conseguirá dar a volta... Se tiver um emprego fixo, conseguirá estipular um valor por mês e facilitará as coisas.
- Eu estou tentando, juro que estou, mas fotografia não é bem uma área que oferta muitas vagas, talvez eu precise desistir disso de vez e pensar sobre o conselho que me deu em alguma outra área de atuação.
- Eu compreendo, quer talvez visitar sua irmã agora? Assim você relaxa um pouco e pensa sobre o que conversamos.
Ele disse fazendo um carinho em meus ombros, me senti acolhida, porém eu sabia que mais cedo ou mais tarde eu seria cobrada, se não por ele, por algum outro superior da clínica e eu não fazia ideia de como poderia resolver tudo.
- Sim! Por favor...
Penélope minha irmã tinha nascido com uma doença degenerativa nos ossos, e estava internada à cinco anos na clinica Longevittá, única especializada naquele tipo de doença.
Eu olhei ela do vidro e ela sorriu para mim, acenando freneticamente, mesmo sendo uma criança muito doente Penélope nunca foi de se queixar, as vezes choramingava por ter que colher sangue ou fazer infeções, vivia me perguntando quando iriamos para casa, mas isso tudo era normal, perto de tudo que ela já tinha passado, porém eu não tinha resposta para essa última pergunta, na maioria das vezes eu tentava enrolar ou desconversar mudando de assunto, mas ela estava crescendo e logo eu teria que ter uma conversa séria com ela sobre isso, não tinha condição de eu leva-la para casa, sem o cuidado que ela tinha ali na clinica ela poderia se machucar com muito mais facilidade, sem falar que eu jamais conseguiria dar conta de estar com ela 24 horas por dia e ainda custear o tratamento, na verdade eu já não estava conseguindo assim imagina de outra forma.
Penélope estava internada desde os três anos de idade naquela clinica, aquele lugar já tinha se tornado seu lar, nossa mãe tinha falecido a alguns anos e o pai de Penélope e meu padrasto, nos abandonou assim que soube da doença da menina, ou seja, eu estava sozinha para cuidar dela, ela era tudo que eu tinha, e eu era tudo que ela tinha.
Entrei, sorri para ela e me aproximei da cama.
Ela estava mais magra que o normal, parecia fraca, mas ainda assim sorriu de volta animada.
- Oi meu amor, como se sente?
- Mana! Você veio me ver... Fazia tempo que não vinha, onde esteve?
Lembrei-me da tragédia que tinha sido minha semana anterior, quando por estupidez minha eu quase havia me matado em um barco, sem remos e sem gasolina, respirei fundo engolindo a raiva e a vergonha que tinha de mim mesmo, o rosto do rapaz bonito, porém nada gentil, se formulou involuntariamente, e eu abanei a cabeça jogando tudo no passado.
- Trabalhando meu amor, eu precisava conseguir dinheiro para o seu tratamento, desculpe se a mana se ausentou.
- Tudo bem, irmã, eu entendo, apenas fiquei com saudades... Você conseguiu o dinheiro? As tias não vão mais me mandar embora?
- Consegui querida, consegui um pouquinho, mas deve ser o suficiente, não se preocupe.
Ela encheu os olhos de lágrimas.
- Eu não queria ter nascido doente, isso não é justo! Se eu fosse saudável você não precisaria trabalhar! Dou tanto trabalho para você, deve ter sido por isso que o papai me abandonou!
Eu a abracei com força.
- Não fale isso! Nunca mais, entendeu? – Eu disse olhando para ela e a segurando pelos ombros. – Eu amo você e você nunca será um trabalho para mim, você é minha irmã e eu te amo do jeitinho que você é, se o Celso nos abandonou é porque ele foi covarde, e quer saber mais? Ele não sabe a preciosidade que ele perdeu! Você é a melhor irmã que eu poderia ter!
- Mas por minha causa você vive trabalhando!
- Penélope querida, a vida dos adultos é essa mesmo, não há muitas opções, mesmo que você estivesse em nossa casa e indo a escola, mesmo que morasse comigo, e tivesse uma vida saudável, ainda assim eu teria que trabalhar... Nada mudaria...
Ela fez um beiço, porém logo se desarmou e pareceu me entender se desculpando.
Assim que saí do quarto de Penélope eu me senti exausta, cada dia que passava eu sentia que a perdia cada vez mais, meu sonho era tirá-la dali e cuidar dela em casa, oferecer um tratamento alternativo, onde ela pudesse levar uma vida normal, porém a cada dia que passava esse sonho se tornava, mais e mais distante.
Cheguei a recepção e pedi para ver a conta, fiquei em pedaços, Roger tinha toda razão a dívida só fazia crescer mais e mais, passei a mão nos cabelos nervosa e alcancei discretamente o pacote com o dinheiro para a secretária que me olhava de cima abaixo como se me medisse.
- 50 mil? Sua dívida é bem maior que isso.
- Eu sei, porém é o que eu tenho para hoje, será que conseguem segurar ela por mais alguns dias, prometo conseguir mais, assim que possível.
A mulher suspirou olhando de canto como se eu estivesse pedindo alguma esmola, será que ela tinha família? Tinha filhos? Deus, ela muita maldade.
- Ok, vou ver o que posso fazer.
- Obrigada.
Eu disse me retirando de cabeça baixa, "aonde eu conseguiria mais dinheiro"? Eu estava começando a ficar sem opções.
A dívida estava em $ 87.000 dólares, com os 50.000 que eu tinha dado agora ainda restavam 37.000, que deveriam ser pagos antes que o juros voltasse a subir, era um valor muito alto.
Assim que alcancei a saída desmoronei nas escadas da clínica à chorar, eu precisava conseguir mais dinheiro, caso contrário eles a mandariam para um hospital público onde eu sabia que não havia tratamento para ela.
A casa onde morávamos tinha sido deixada por minha mãe antes de morrer, não era das piores, porém estava longe de ser aconchegante, talvez se eu vendesse alguns móveis conseguisse arrecadar o dinheiro restante, fechei os olhos pensando sobre o assunto e nesse mesmo minuto como se minhas preces fossem ouvidas meu telefone tocou.
- Alô?
- Boa tarde, por gentileza Lívia Raught?
- É ela...
- Nossa! Sua voz me parece tão familiar, sou Margareth Thompson Hammer, da editora de revistas de turismo Hammer.
- Sua voz também, me parece conhecida, porém não estou lembrada apenas pelo nome, deve ser impressão, no que posso ajudá-la?
- Querida, estou ligando para marcarmos um almoço, estou muito interessada em seu trabalho, vi recentemente que recebeu um prêmio em fotografia muito renomado, aliás, já é a terceira vez que leva o troféu para casa, parabéns!
- Sim, fui a ganhadora três anos consecutivos da Adventury Photograf, muito obrigada.
- Excelente, se importa se marcarmos um almoço para sexta feira então? Adoraria saber mais sobre você!
- Claro!
Respondi animada, a mulher agradeceu parecendo satisfeita e desligou, eu nem conseguia acreditar no que estava acontecendo, isso não parecia real, isso mais parecia um sonho, eu tinha realmente uma entrevista de emprego! Deus, minha sorte estava finalmente mudando!