Minhas pernas, minha paixão, minha vida. Tudo desabou no dia em que acordei paralisado em um leito de hospital, vítima de um acidente brutal. Gabriel, meu noivo, que deveria ser meu porto seguro, me sufocava com um cuidado excessivo, enquanto suas ausências e ligações misteriosas de Rafael corroíam minha alma. A alegria de ter acordado logo se transformou em desespero quando percebi o vazio da cintura para baixo, minha vida de dançarino se esfarelando em pó.
A dor física mal se comparava ao tormento da descoberta de um blog anônimo. Nele, cada palavra era uma facada, celebrando minha desgraça e revelando que Rafael, a quem Gabriel chamava de "parceiro de negócios", festejava minha queda. "Ele está quebrado, finalmente. Imóvel na cama de um hospital, um pássaro com as asas arrancadas. Agora, ele não pode mais fugir. Agora, ele pertence a mim." A traição era real, cruel, e eu estava preso, com meu corpo inútil e o coração em pedaços, enquanto Gabriel continuava a mentir.
Ahumilhação de ser um "peso morto", a indiferença de Gabriel que priorizava Rafael, o medo de ser um "objeto de caridade" me levaram ao limite. Ninguém parecia entender minha dor, minha solidão. Por que meu universo se desintegrava pelas mãos de quem eu mais amava?
Mas o destino tinha outros planos. Em um piscar de olhos, eu estava de volta. De pé. Minhas pernas respondiam. Era o dia do acidente. Uma segunda chance me foi dada, e desta vez, eu não seria a vítima. Eu mudaria o jogo, e Gabriel e Rafael pagariam pelo inferno que me fizeram viver.
A primeira coisa que senti foi a mão de Gabriel segurando a minha.
Ele estava ali, como sempre. Sua voz era um sussurro rouco perto do meu ouvido, repetindo meu nome sem parar, como uma oração desesperada. Abri os olhos devagar, a luz do quarto do hospital era branca e forte, machucava minha vista.
Quando Gabriel percebeu que eu estava acordado, ele parou de falar. Seus olhos, vermelhos e inchados de tanto chorar, se arregalaram. Ele levou minha mão aos seus lábios e a beijou, e então começou a chorar de novo, um choro de alívio que sacudia seu corpo inteiro.
"Leo, você acordou", ele soluçou, o rosto molhado de lágrimas. "Você finalmente acordou, meu amor."
Ele se curvou sobre mim, me abraçando com um cuidado que beirava o medo. Eu sentia o calor do seu corpo, o seu cheiro familiar. Era bom, mas algo estava errado. Ele me segurava com muita força, como se eu fosse um objeto precioso que pudesse quebrar a qualquer momento.
"Não se esforce, não fale muito", ele disse, ajeitando meu travesseiro. "Eu vou chamar a enfermeira. Fique aqui, quietinho. Eu cuido de tudo."
Sua preocupação era tão intensa que me sufocava. Eu o amava, mas naquele momento, seu cuidado parecia uma gaiola.
Tentei me mexer na cama, ajeitar meu corpo para uma posição mais confortável. Foi quando percebi. Eu não sentia minhas pernas. Tentei movê-las, mas elas não obedeciam. Nada. Um vazio, um peso morto da cintura para baixo.
Olhei para o lençol branco que me cobria. Estava liso, reto demais. Um pânico frio começou a subir pela minha espinha.
"Gabriel...", minha voz saiu fraca, arranhada. "Minhas pernas... eu não consigo..."
O rosto de Gabriel se desfez. A alegria de me ver acordado foi substituída por uma dor profunda, uma dor que ele tentava esconder, mas que transbordava de seus olhos. Ele segurou meu rosto entre as mãos.
"Meu amor, escuta...", ele começou, a voz trêmula. "O acidente... foi grave. A sua coluna... os médicos disseram... Leo, você não vai mais poder andar."
As palavras dele não fizeram barulho. Elas simplesmente entraram em mim e apagaram tudo. O mundo ficou mudo. Eu só conseguia sentir o peso inútil do meu corpo, a morte dos meus movimentos. O sonho de dançar, a minha vida inteira, tudo se transformou em pó.
Fechei as mãos com força, cravando as unhas nas palmas. A dor aguda era a única coisa real, a única coisa que provava que eu ainda estava vivo.
No meio do meu silêncio, o celular de Gabriel tocou. Ele olhou para a tela e seu rosto mudou. Uma expressão complexa, indecifrável. Ele se afastou um pouco para atender, a voz baixa.
"Preciso ir. É urgente", ele sussurrou. "Prometo que volto logo."
Antes que ele desligasse a tela, eu vi o nome. Rafael.
Ele me deu um beijo na testa, um beijo rápido e culpado, e saiu do quarto. O som da porta se fechando foi o som mais solitário que eu já ouvi.
Sozinho, peguei meu celular com as mãos trêmulas. Abri uma rede social qualquer, sem saber o que procurar. Um post de um blog anônimo e famoso estava no topo dos mais lidos. O título me gelou por dentro.
"Hoje, o mundo dele desabou. E o meu começou."
Um pressentimento horrível tomou conta de mim. Mesmo assim, com o coração batendo descontrolado no peito, eu cliquei.
O post era curto, quase poético na sua crueldade.
"Ele está quebrado, finalmente. Imóvel na cama de um hospital, um pássaro com as asas arrancadas. Agora, ele não pode mais fugir. Agora, ele pertence a mim. A culpa vai te consumir, G., eu sei que vai. Mas não se preocupe, eu estarei aqui para te consolar."
As iniciais. G. Gabriel. O pássaro de asas arrancadas. Eu. Cada palavra era uma faca afiada cravando na minha ferida aberta. A coincidência era impossível. Era sobre nós.
Senti o ar me faltar. O quarto do hospital começou a girar. Eu olhei para as minhas pernas inúteis, cobertas pelo lençol, e um grito ficou preso na minha garganta. Eu queria rasgar tudo, quebrar tudo. Em vez disso, comecei a bater com os punhos nas minhas coxas. De novo e de novo.
Eu não sentia a dor dos golpes. Só sentia o vazio, a ausência de sensação. A frustração era um veneno queimando minhas veias. Eu estava preso neste corpo, nesta cama, nesta vida que não era mais minha.
Quando Gabriel voltou, horas depois, eu tinha parado. Estava apenas olhando para o teto, exausto. Ele trazia consigo uma pequena caixa de madeira.
"Olha o que eu trouxe", ele disse, com um sorriso forçado. Ele abriu a caixa. Dentro, estava o par de sapatilhas de balé que usei na minha primeira apresentação profissional. A apresentação onde nos conhecemos. "Para você se lembrar de quem você é. Um artista. O melhor dançarino que eu já vi."
O gesto era para ser doce, mas pareceu uma piada cruel. Olhar para aquelas sapatilhas era olhar para um fantasma. A pessoa que as usou estava morta.
"Onde você estava?", perguntei, a voz fria.
Ele hesitou por um segundo. "Resolvendo uns problemas da empresa. Tive que encontrar um... um parceiro de negócios."
"Dr. Mendes?", perguntei, casualmente. Dr. Mendes era o pai de Rafael. Um homem poderoso e perigoso, com quem Gabriel vinha tentando fechar um contrato há meses.
O corpo de Gabriel ficou tenso. "Sim. Foi com ele. Mas não vamos falar de trabalho agora. Vamos falar de nós."
Ele se sentou na beira da cama e pegou minha mão. Seus olhos buscavam os meus, cheios de uma devoção que me dava náuseas.
"Leo, eu te amo mais que tudo. Eu nunca vou te abandonar. Nós vamos passar por isso juntos, eu prometo. Eu vou cuidar de você para sempre."
Suas palavras eram um bálsamo e um veneno ao mesmo tempo. Uma parte de mim, a parte fraca e assustada, queria acreditar nele. Mas a outra parte, a que leu aquele post, só sentia o gosto amargo da mentira.
Nós íamos nos casar em dois meses. Os preparativos estavam quase prontos. Ele começou a falar sobre isso, sobre a casa que estávamos reformando, sobre a nossa futura vida juntos. Sua voz era animada, mas meus pensamentos estavam longe.
Eu me imaginava entrando na igreja. Não andando até o altar, mas sendo empurrado em uma cadeira de rodas. A imagem era tão nítida, tão humilhante, que senti meu estômago revirar. Quando a enfermeira entrou para checar meus sinais vitais, a náusea me venceu e eu vomitei na bandeja ao lado da cama, fraco e patético.