Meu marido, o Capo de São Paulo, agarrou minha mão com força enquanto entrávamos na sala à prova de som.
Ele não estava ali para me salvar.
Ele estava ali para assistir o médico da família arrancar minha mente.
Uma estranha chamada Sofia alegava que eu a tinha vendido para um bordel doze anos atrás.
Era mentira.
Mas Dante me olhou com olhos frios como mármore, acreditando na mulher que soluçava em seus braços em vez da esposa que ele havia jurado proteger.
"Sente-se, Helena", ele ordenou.
Ele me prendeu na cadeira. Ele observou enquanto injetavam fogo líquido em minhas veias para forçar uma confissão.
Ele me arrastou para os canis, me forçando a alimentar os cães dos quais eu tinha pavor, e assistiu enquanto eles rasgavam minha carne.
Ele até me trancou em um freezer para "esfriar" meu ciúme.
O golpe final não foi a dor.
Foi ouvi-lo planejar uma Renovação de Votos com Sofia, com a intenção de me exibir como Madrinha de Honra dela para me ensinar humildade.
Percebi então que Helena Moraes tinha que morrer.
Então, eu ateei fogo no quarto do hospital.
Deixei minha aliança de casamento nas cinzas e desapareci na noite.
Seis meses depois, Dante me encontrou em Paris.
Ele caiu de joelhos, implorando por perdão.
Eu o olhei com olhos mortos e lhe entreguei uma faca.
"Se mate", eu disse.
"Essa é a única maneira de eu acreditar que você está arrependido."
Capítulo 1
Meu marido, o Capo di tutti i capi da máfia de São Paulo, agarrou minha mão com força enquanto eu entrava na sala à prova de som. Era um toque que eu um dia desejei, mas ele não estava ali para me salvar.
Ele estava ali para assistir o médico da família arrancar minha mente.
Segundo a mulher que soluçava nas sombras, eu a tinha vendido para um bordel doze anos atrás. Uma mentira. Tinha que ser.
Olhei para a cadeira no centro da sala. Carvalho maciço. Amarras de couro grosso e gasto.
Então olhei para Dante.
Seu rosto era uma máscara de mármore frio, desprovido do calor que me saudou no altar há apenas dois anos. O homem que me olhava agora era um estranho vestindo a pele do meu marido.
"Sente-se, Helena", ele disse.
Sua voz era baixa, vibrando com a mesma autoridade letal que comandava legiões de soldados e fazia tremer os Dons rivais no Rio de Janeiro e em Fortaleza. Não era um pedido. Era um veredito.
"Dante, por favor", sussurrei, minhas pernas virando água debaixo de mim. "Ela está mentindo. Eu não a conheço. Minha irmã morreu no incêndio. Nós vimos o corpo."
"Aquele corpo era uma isca", a mulher chamada Sofia engasgou. Ela estava encolhida na poltrona, enrolada em um cobertor - meu cobertor, percebi com um solavanco doentio. Ela ergueu os olhos, vermelhos e inchados. "Você sabia, Helena. Você os viu me arrastarem. Você queria ser a única. Você queria a fortuna dos Moraes só para você."
Ela deixou o cobertor escorregar.
A prova estava mapeada em sua pele. As cicatrizes em suas costas eram visíveis - marcas de ferro, queimaduras de cigarro, um mapa do inferno gravado na carne.
A mandíbula de Dante se contraiu. Uma veia perigosa pulsava em sua têmpora.
Ele caminhou até ela e colocou a mão em seu ombro. A gentileza do gesto fez a bile subir pela minha garganta. Ele havia jurado me proteger. Ele havia jurado queimar o mundo por mim.
Agora ele estava entregando o fósforo para uma estranha.
"A evidência é irrefutável, Helena", disse Dante, recusando-se a encontrar meu olhar. "O DNA dela bate. O testemunho dela bate com a linha do tempo. E você... você tem estado instável desde o aborto."
"Eu não estou instável!" gritei.
Dois guardas avançaram, seus movimentos sincronizados e brutais. Eles agarraram meus braços.
Eu me debati, chutando. Eu não era uma soldada como eles, mas era uma sobrevivente. Eu tinha saído da sarjeta com unhas e dentes muito antes dos Moraes me encontrarem.
"Dante! Olhe para mim!" implorei enquanto eles me forçavam a sentar na cadeira. As tiras de couro cravaram em meus pulsos, frias e implacáveis. "Eu sou sua esposa! Eu sou sua Helena!"
Ele finalmente olhou para mim.
Não havia amor em seus olhos negros como o abismo. Apenas um senso de dever distorcido e sombrio. Ele me olhou como um juiz sentenciando um criminoso de quem um dia teve pena.
"Minha Helena nunca venderia o próprio sangue", disse ele suavemente. "Você está doente, *tesoro*. A culpa distorceu sua mente. Você reprimiu a verdade para conseguir viver consigo mesma."
Ele acenou para o Dr. Ricci.
O médico se aproximou com uma seringa. O líquido dentro era de um amarelo pálido e doentio que parecia brilhar sob as luzes fortes.
"É uma combinação de escopolamina e um novo composto", murmurou o médico, batendo no vidro para remover uma bolha de ar. "Isso a ajudará a acessar as memórias reprimidas. Vai quebrar as barreiras da negação. Será... desagradável."
"Faça", disse Dante.
Ele me deu as costas. Foi até Sofia e a puxou para seus braços, cobrindo os olhos dela para que ela não tivesse que testemunhar minha ruína.
A agulha perfurou minha pele.
Fogo.
Fogo líquido correu pelas minhas veias, queimando meu sangue. Atingiu meu cérebro como uma marreta.
Eu arquejei, minhas costas se curvando para fora da cadeira contra as amarras. A sala começou a girar. As cores se misturaram, derretendo o mundo em um pesadelo. O rosto do meu marido se dissolveu em um monstro.
"Dante", grasnei.
"Shh", ouvi-o dizer a Sofia. "Eu te peguei, Júlia. Você está segura agora. A justiça está sendo feita."
Minhas memórias começaram a se rasgar.
A luz noturna que ele fez para mim quando eu tinha doze anos. Sumiu. Substituída por uma memória de mim rindo enquanto uma garota gritava em uma van.
Os tsurus de origami que eu dobrei para ele. Sumiram. Substituídos por mim contando dinheiro em um beco escuro.
"Não", solucei, o gosto de sangue metálico inundando minha boca. "Isso não é real. Isso não é real!"
"Aceite a verdade, Helena", a voz de Dante ecoou de todos os lugares e de lugar nenhum, um deus do julgamento em minha mente em ruínas.
A dor era absoluta. Não era apenas física. Era a sensação da minha alma sendo removida cirurgicamente sem anestesia.
Olhei para ele uma última vez através da névoa. Ele estava acariciando o cabelo dela. Ele estava sussurrando confortos para a mentirosa enquanto eu queimava viva.
E naquele momento, o amor que eu nutri por Dante Moraes por dez anos não apenas se quebrou.
Morreu.
Deixei a escuridão me levar.
Acordei em um quarto que não era meu.
As paredes eram pintadas de um bege pálido e sufocante que parecia se fechar sobre mim. Minha penteadeira, geralmente cheia de frascos de perfume de cristal e escovas com cabo de prata, estava completamente vazia. A foto do casamento que sempre ficava na mesa de cabeceira - Dante levantando meu véu com um olhar de reverência - havia sumido.
Em seu lugar, havia uma foto emoldurada de Dante e Sofia. Eles estavam sentados em um banco de jardim, sorrindo. Parecia antiga. Parecia terrivelmente real.
Minha cabeça latejava com uma dor surda e rítmica. Minha mente parecia vidro estilhaçado que fora colado de volta na ordem errada, refletindo uma realidade distorcida que eu não conseguia reconhecer.
A porta se abriu com um clique.
Dante entrou. Ele estava vestido com um terno de carvão, impecável, perigoso. Ele cheirava a café expresso forte e poder bruto e descontrolado.
"Você está acordada", ele afirmou, sua voz desprovida de calor.
Sentei-me, agarrando os lençóis contra o peito. Eu não sabia como olhá-lo. Meu cérebro me dizia que ele era meu marido, mas meu instinto gritava que ele era meu torturador.
"Onde estão minhas coisas?" perguntei. Minha voz estava rouca, arranhada pelo silêncio.
"Sofia está frágil", disse Dante, ajustando suas abotoaduras com movimentos precisos e deliberados. "Ver seus pertences... isso desencadeia o estresse pós-traumático dela. Ela se lembra de você arrumando as malas dela na noite em que foi levada. Ela precisa se sentir em casa aqui. Esta era a casa dela primeiro, Helena."
"Eu não arrumei as malas dela", sussurrei, a memória nebulosa, mas a convicção forte. "Eu tinha seis anos."
Dante suspirou. Era um som de impaciência clínica. "A terapia leva tempo. Sua negação está profundamente enraizada."
Ele caminhou até a cama e se agigantou sobre mim. Ele não me tocou. Ele me olhou como um problema a ser resolvido, um cálculo que não havia fechado.
"Vista-se", ele ordenou. "Você tem tarefas."
"Tarefas?"
"Você precisa aprender humildade. Você precisa se reconectar com a realidade de suas ações. Você vai cuidar dos canis hoje."
O ar me faltou nos pulmões.
Dante sabia. Ele sabia melhor do que ninguém. Quando eu tinha oito anos, o cão de guarda de uma família rival rasgou minha panturrilha. Eu ainda tinha as cicatrizes irregulares e prateadas. Eu não conseguia ficar perto de cães grandes sem que minha garganta se fechasse.
"Dante, não", implorei, minhas mãos tremendo violentamente. "Por favor. Qualquer outra coisa. Eu esfrego o chão. Eu limpo as cozinhas até minhas mãos sangrarem. Não me faça chegar perto deles."
"O medo é falta de disciplina", disse ele friamente. "Os Cane Corsos são da família. Você aprenderá a respeitá-los, assim como aprenderá a respeitar sua irmã."
Ele agarrou meu pulso com um aperto de ferro e me puxou da cama.
Dez minutos depois, eu estava na área de cascalho dos canis da propriedade. O cheiro de almíscar e carne crua pairava pesado no ar úmido.
Três enormes Cane Corsos andavam de um lado para o outro na cerca. Eles eram músculos e dentes, criados para matar sob comando.
Sofia estava lá. Ela usava um vestido de verão branco, parecendo um anjo que desceu ao inferno. Ela estava em segurança atrás do portão.
"Eles estão com fome, Helena", ela disse com uma voz enjoativamente doce. Ela estendeu um balde de carne crua. "Dante diz que você tem que alimentá-los com a mão."
Dante estava na varanda, observando. Seus braços estavam cruzados. Ele era o juiz, e esta era a minha sentença.
Peguei o balde. Minhas mãos tremiam tanto que a alça batia contra o plástico.
Entrei no cercado.
O macho alfa, Brutus, rosnou. Era um som baixo e retumbante que vibrava fundo no meu peito.
"Bom menino", sussurrei, as lágrimas embaçando minha visão. "Bom menino."
"Ele sente o seu medo", gritou Sofia. "Pare de ser tão covarde. É vergonhoso."
Ela pegou uma pedra do caminho.
Antes que eu pudesse reagir, ela a arremessou. Atingiu Brutus em cheio no flanco com um baque doentio.
O cachorro se irritou.
Ele não olhou para Sofia. Ele olhou para a presa trêmula à sua frente.
Ele avançou.
Gritei, levantando os braços para proteger meu rosto. Mandíbulas se fecharam em meu antebraço. Dentes cravaram na carne. A dor foi branca e imediata, queimando meus nervos.
"Socorro!" gritei. "Dante!"
Caí para trás na terra. O cachorro estava me sacudindo, rasgando o músculo.
Um tiro soou.
O cachorro me soltou e recuou, choramingando. Dante não atirou no cachorro; ele atirou para o ar.
Ele pulou a cerca, mas não correu para mim. Ele correu para verificar o cachorro.
"Brutus, deita!" ele comandou.
Eu estava caída na terra, segurando meu braço sangrando. O sangue encharcou minha camisa, tornando o tecido escuro e pesado.
Sofia estava gritando. "Ela o provocou! Eu vi! Ela tentou bater nele com o balde!"
Dante se virou para mim. Seus olhos eram abismos.
"Levante-se", ele sibilou.
"Ele me mordeu", solucei, o choque fazendo minhas palavras se arrastarem. "Ela jogou uma pedra..."
"Mentirosa", Dante cuspiu. "Sofia ama esses animais. Você os odeia. Você odeia tudo que eu amo."
Ele me levantou pelo braço ileso. Ele me arrastou para fora do cercado como um saco de lixo.
"Vá para a enfermaria", disse ele. "Dê um jeito nisso. E depois suma da minha vista."
O pesadelo não terminou aí.
Mais tarde naquela noite, Brutus foi encontrado morto. Espumando pela boca. Veneno de rato.
Dante invadiu meu quarto. Ele jogou um pacote de veneno na minha cama. Tinha sido encontrado na minha gaveta.
"Eu não fiz isso", eu disse, entorpecida. Meu braço estava enfaixado, latejando no ritmo do meu coração.
"Você matou um soldado leal porque é fraca", disse Dante. Sua voz estava terrivelmente quieta. "Você desrespeitou a Família."
Ele me agarrou pelos cabelos e me arrastou escada abaixo. Ele abriu as pesadas portas de carvalho para o pátio.
Era novembro. Uma chuva gelada caía, transformando os paralelepípedos em gelo cinza e escorregadio.
"Ajoelhe-se", ele ordenou.
"Dante, por favor. Está congelando."
"Ajoelhe-se!" ele rugiu.
Caí de joelhos nas pedras. O frio encharcou minhas calças finas instantaneamente, mordendo minha pele como agulhas.
"Você fica aqui até entender o que é lealdade", disse ele.
Ele bateu as portas. Ouvi a fechadura pesada clicar.
Ajoelhei-me ali por horas. A chuva virou granizo. Meu corpo começou a tremer violentamente, depois parou de tremer, o que foi pior.
Olhei para a janela da sala de estar, quente e dourada.
Eu vi Dante. Ele estava sentado perto do fogo. Sofia estava no chão, a cabeça apoiada em seu joelho. Ele acariciava o cabelo dela, olhando para as chamas.
Ele parecia um rei em seu trono.
E eu era apenas uma camponesa morrendo em seus portões.
Três dias se passaram no branco estéril do quarto de hospital, um borrão de hipotermia e pneumonia.
Dante me visitou exatamente uma vez.
Ele ficou ao pé da cama, checou o relógio e me disse que a Comissão se reuniria no iate naquele fim de semana. Ele disse que minha ausência pareceria suspeita.
Ele não perguntou como eu me sentia. Ele não me tocou.
Então, no sábado, me envolvi em um vestido de mangas compridas para esconder os curativos e os hematomas que estavam sumindo.
O iate, *A Vingança*, era um palácio flutuante. Champanhe fluía em rios dourados e intermináveis. Homens de smoking discutiam territórios e remessas enquanto suas esposas comparavam diamantes afiados o suficiente para cortar vidro.
Eu estava parada perto da amurada, segurando uma bandeja de taças de cristal como uma serva.
"Helena", uma voz ronronou.
Eu me virei. Sofia usava um vestido que custava mais do que a casa onde cresci. Era vermelho. Vermelho-sangue.
"Você parece pálida", disse ela, sorrindo por cima da borda de sua taça. "Dante quer que você sirva o Don do Comando do Rio. Ele está com sede."
"Eu sou a esposa dele", eu disse, minha voz firme apesar do tremor de medo em meu peito. "Não sou uma garçonete."
"Você é o que Dante disser que você é", ela sussurrou, inclinando-se até que eu pudesse sentir seu perfume caro. "E agora, você é uma vergonha."
Ela pegou uma taça da minha bandeja e a enfiou na minha mão. "Beba. À minha saúde. À irmã que você vendeu."
"Não posso", eu disse rigidamente. "Sou alérgica aos sulfitos desta safra. Você sabe disso."
"Beba, ou eu começo a gritar que você me beliscou."
Olhei para o outro lado do convés. Dante estava em uma conversa profunda com Juliano, um chefe rival da Costa Oeste. Juliano estava olhando para mim, seu olhar intenso e avaliador. Dante não estava olhando para mim.
Bebi o champanhe.
Minha garganta começou a coçar imediatamente. Urticária surgiu no meu pescoço, escondida pelo colarinho alto, mas o calor era inegável. Meu peito se apertou.
Sofia riu. Ela agarrou meu braço e me puxou para a popa, longe da multidão.
"Olhe para você", ela zombou. "Patética. Você sabe por que ele te mantém? Por causa do contrato. Ele não pode se divorciar de você sem perder os territórios do porto. Mas acidentes... acidentes acontecem."
O vento chicoteava o cabelo dela em seu rosto.
"Eu quero ser a Rainha", ela disse simplesmente. "E só há um trono."
Ela olhou por cima do ombro. O convés estava vazio.
Sem aviso, ela se jogou para trás contra a amurada. Ela gritou, um som de gelar o sangue. "Socorro! Ela está me empurrando!"
Dante apareceu instantaneamente. Ele se moveu com a velocidade de um predador.
Ele viu Sofia agarrada à amurada. Ele me viu parada ali, ofegante, meu rosto corado pela reação alérgica.
"Helena!" ele rugiu.
Ele não perguntou. Ele não hesitou.
Ele me empurrou.
Foi um empurrão forte e brutal, destinado a me arrancar dela.
Bati na amurada. Meu equilíbrio se foi. Eu virei por cima da borda.
A água me atingiu com a densidade de concreto.
Fria. Escura. Salgada.
Eu afundei. O vestido pesado me puxou para baixo como uma âncora. Meus pulmões queimavam. Eu chutei, lutando para chegar à superfície, lutando contra o oceano.
Cheguei à superfície por uma fração de segundo. Vi as luzes do iate. Vi Dante debruçado na amurada.
Ele estava se esticando para baixo.
Mas ele não estava se esticando para mim.
Ele estava puxando Sofia para cima, envolvendo-a em seu casaco, verificando seu rosto em busca de arranhões.
Gritei o nome dele, mas a água encheu minha boca.
Ele não olhou para baixo. Ele virou as costas e se afastou com ela, me deixando para as ondas negras.