Pov Moira
O saguão do Ministério estava lotado, diversos funcionários chegavam pela rede de flu e pela entrada principal, rumo aos seus postos.
Eu era um deles, correndo em meu salto alto stiletto preto, assim como todo meu traje exceto pela camisa branca e o distintivo preso ao meu blazer.
Avancei os últimos metros até o elevador que chegara ao saguão e entrei menos de um segundo antes das portas fecharem.
- Departamento de Execução das Leis Mágicas, por favor.
- Nova auror? - perguntou a ascensorista.
- Sim - respondi com um breve sorriso - imagino que tenha ouvido falar.
- Ah não - ela riu acompanhada de duas ou três pessoas dentro do elevador e apontou para meu peito - o broche é bem visível.
- É um distintivo - balancei meu rabo de cavalo e mantive o olhar a frente enquanto o elevador fazia vários movimentos.
- Leis Mágicas - ela anunciou assim que paramos.
- Acho que quis dizer, Departamento de Execução das Leis Mágicas - corrigi de forma autoritária.
Saí do elevador tirando o distintivo do peito e o prendendo no cós da calça, cobrindo a maior parte dele com o blazer.
Parei de frente para a porta de número 456 e bati, ela se abriu silenciosamente.
O escritório era muito amplo e possuía um mezanino acima da porta, tudo decorado em tons de marrom, dourado e vermelho, mas estava uma bagunça. Haviam livros antigos que não combinavam com o luxo do local, espalhados pelo chão e algumas das diversas relíquias que Rycroft Philostrate colecionava desde a juventude, também pareciam fora de lugar.
Philostrade era amigo muito antigo da minha família, se tornou meu padrinho quando sua família foi assassinada por saqueadores trouxas e atuou como meu mentor depois que ingressei em Hogwarts. De certa forma, isso o deixava orgulhoso e o fazia reviver alguns momentos de sua adolescência.
Apesar de ter exatamente o dobro da minha idade, Philo era um homem de aparência jovem e muito charmoso, e seu cargo como chefe dos aurores o fazia ainda mais interessante.
Mas eu estava aqui por outro motivo, pelo menos eu achava. Durante os três anos que participei do treinamento dos aurores, depois da escola, Philo sempre deixou bem claro que me colocaria á frente de missões importantes.
Vantagens de ter apadrinhamento no ministério.
Eu esperei por alguns minutos até que Rycroft aparecesse, visão periférica alerta, mãos cruzadas nas costas segurando a varinha com firmeza.
- Vejo que aprendeu rápido - Philo surgiu do andar de cima, descendo a escada ao meu lado dramaticamente.
- Não deixei escapar nada, Padrinho.
Ele veio até mim e me cumprimentou com um abraço frouxo e um beijo em minha bochecha.
- Sinto muito não ter ido á formatura - ele cruzou a sala ignorando a bagunça e se sentou no sofá antes de fazer sinal para que também sentasse - estava no exterior, resolvendo assuntos urgentes.
- Tudo bem, meu pai estava lá - eu dei de ombros mesmo que isso me doesse um pouco - Bem, é claro que ele estava e foi bem rápido.
- Teve honrarias?
- Em todas as matérias mas principalmente rastreamento e vigilância.
- Não estou nem um pouco surpreso - ele piscou para mim, me deixando ligeiramente ruborizada.
- Mas espero que tenha me chamado aqui para mais do que fazer elogios.
- Certamente.
Rycroft apanhou um envelope que eu já havia notado em cima da mesa de centro e me entregou, o abri rapidamente rodando o barbante no botão e retirei seu interior.
- Sua primeira missão.
- Isso é um dragão?
- Sim, precisamos relatar o ocorrido, tivemos um caso mais cedo essa semana na mesma região e...
- Alguma ligação?
- Não, apenas coincidência.
- Achei que isso era função do Departamento de Controle de Criaturas Mágicas.
- Está certa mas eles se sobrecarregaram com aquela confusão com os testralios e nos pediram auxílio.
- Para relatar uma morte de dragão? - eu abaixei a voz, desanimada.
- Hei, Moira - Philo se sentou ao meu lado e passou o braço por meus ombros de forma acolhedora - sei que não é o que você esperava mas muitos aurores esperam meses pela primeira missão. Eu estou lhe dando porque confio em você.
- Eu entendo. Farei com perfeição, padrinho.
- Sei disso, não estou preocupado.
- Onde aconteceu?
- Romênia, basta dar uma olhada no corpo e preencher a papelada, não se esqueça de mencionar que a morte não tem relação com a outra e encerre o caso.
Uma batida na porta e ela se abriu vagarosamente, dando passagem a um garoto bem vestido e de sorriso simpático.
- Com licença, Sr. Philostrade.
- Ah, entre por favor.
Eu me coloquei em pé e cumprimentei o rapaz que foi me apresentado como Dominic Ioannou, recém formado em Hogwarts e admitido para o próximo treinamento de auror.
- Terei um parceiro?
- Um estagiário, Dominic fará anotações e vai ajudá-la com o que precisar no tempo que estiver em missão.
- Se pedir um café, eu vou garantir que ele chegue até você quente e doce.
- Obrigada, mas acho que vou utilizar sua boa vontade com mais inteligência - e me virando para Philo - mais alguma coisa que eu deva saber?
- Nada importante mas receberá ajuda de um especialista.
- Que tipo de especialista?
- Em dragões. Mas não deve se preocupar.
Me despedi dos dois homens naquela sala com um sorriso e uma missão em mãos, mas me preocupar era exatamente o que eu devia fazer.
Pov Moira
- Poderíamos aparatar com tanta facilidade - eu bufei enquanto descia da balsa no litoral da Romênia - o que eles querem tanto proteger?
- Não sei, mas melhor tomar cuidado com o que diz - Dominic apontou com a pena na direção de um grupo de sujeitos mal encarados.
- Eles não mexeriam com uma auror.
Passamos por uma ponte que mal nos aguentava até um pequeno corredor entre as rochas, um véu translúcido cobria a passagem mágica que dava para Spring's Ville.
O nome da vila nada combinava com ela, construções antigas em madeira e ferro com vidros quebrados, Dom andava tão perto de mim que tropeçava vez ou outra nos meus sapatos, mais a frente havia uma colina que se estendia até o topo da montanha e tivemos que subir quase metade.
Certamente, aurores não deviam usar scarpins de salto agulha.
Entre as pedras altas da colina, não era preciso esforço para perceber o animal gigantesco caído no chão com a barriga para cima e a cabeça jogada para trás, a asa direita cobrindo parte de seu corpo
O guarda local estava apoiado com a mão na pedra e o corpo inclinado.
- Estômago fraco - sussurrei para Dom.
- O cheiro não está ajudando.
Tirei um par de luvas de borracha do bolso e as vesti, cobri o nariz e a boca com o cachecol antes de me aproximar.
- Ele não está doente.
Minha atenção foi chamada para um homem abaixado ao lado da cabeça do animal.
- Isso ainda não sabemos.
- O primeiro sinal de doença é nos dentes, os dele estão saudáveis.
- Você deve ser o especialista.
Ele se levantou, era maior e mais largo do que aparentava, seus cabelos ruivos circulavam seu rosto em cachos alinhados e seus olhos de um azul profundo que facilmente me causariam arrepios.
- Sim, Charles Weasley - ele estendeu a mão para mim e eu hesitei, aquele homem poderia quebrar meus dedos sem esforço.
- Moira Scringeour - segurei sua mão, foi firme mas leve, isso me surpreendeu - auror, esse é meu assistente Dominic Ioannou
- Gostaria de dizer que é um prazer mas nessas condições - ele olhou com pesar para o animal.
Era maginifico, uma fera mas ainda assim magnífico.
- Pode me dizer a causa da morte?
- Não, assim como o outro, nenhum indício, parece ter simplesmente caído.
Eu me abaixei perto do corpo, haviam marcas de garras em suas asas e a pele em volta descascava.
- E isso?
- Provavelmente alguma caça tentando se defender, não foi suficiente para feri-lo a tal ponto.
- Me ajude a levantar a asa.
Eu puxei o membro do animal com a ajuda de Dom, era pesado demais para nós mas quando Charles a segurou e empurrou para cima pareceu leve em sua mão.
- Como eu pensei - me inclinei levantando minha varinha e usando-a como lupa - tem marcas aqui, eu já vi isso em algum lugar.
- Tem certeza? pra mim são só veias, vamos terminar logo e sair daqui, por favor - Dom reclamou atrás de mim, ele parecia muito mais incomodado que eu nesse lugar.
Eu passei o dedo sobre as marcas e a pele se desfez sob a luva.
- Aqui, Dom. Me ajude.
- Com o quê? Não trouxemos material pra isso, o Sr. Philostrade foi bem claro em suas instruções.
- Pegue - Charles me entregou um canivete suiço com mais compartimentos que eu podia contar - basta dizer o que quer, se estiver aí vai aparecer.
- Vassourinha de escavação - nada aconteceu, Weasley riu.
- Deixe-me tentar - ele pegou o objeto de volta - escova de limpeza - o que eu procurava apareceu na ponta e ele me entregou - aqui está.
- Obrigada - ignorei minhas bochechas queimando e me abaixei perto da asa, passando a escova pela pele do animal que se desfez como cinzas revelando símbolos em baixo - parecem hieróglifos.
- Conhece essa língua? - Charles se curvava sobre mim, o cheiro de sua colônia me entorpecia e quase bloqueava o cheiro forte do dragão.
- Não, parece antiga. Dom, fotografe isso.
Charles se afastou, assim como eu, dando espaço para que Dominic registrasse toda a asa e outras partes do animal.
- Sabe o que isso significa, Srta. Scringeour?
- Sim, esse Dragão foi assassinado por meio de arte das trevas.
- Podemos ir agora, Moira? Estou congelando.
- Não vamos embora tão cedo, enquanto não descobrirmos o que houve com esse animal.
- Vão investigar? - Charles me perguntou surpreso.
- Claro, eu estou aqui pra isso, sugiro que fique por perto, posso precisar de você.
- Certamente, Srta. Scringeour - ele sorriu com o canto da boca.
- Moira - Dominic sussurrou em meu ouvido - o Sr. Philostrade nos instruiu a preencher a papelada e voltar.
- Não, ele me disse para relatar que uma morte não tem ligação com a outra.
- Para descartar uma epidemia.
- Tenho que ver o primeiro dragão, você pode ficar na vila e nos consiga uma estalagem.
- Você vai com ele?
Dom parecia assustado mas teria que se acostumar rápido se quisesse mesmo ser um auror.
- Sr. Weasley, pode me levar até o corpo do primeiro dragão encontrado?
- Talvez, ele esta sendo cremado na reserva.
- Nesse momento?
- Há dois dias, é um animal grande mas normalmente deixamos as asas por último.
- Ótimo, preciso vê-lo.
Eu não sabia se me importava tanto assim com os dragões, eram lindos e uma pena que tenham sido abatidos mas minha motivação era outra.
Weasley me indicou o caminho descendo a colina pelo outro lado.
- É um caminho longo para fazer com esses sapatos.
- Agradeço a preocupação mas estou bem.
Foi só eu falar pro meu salto ficar preso entre duas pedras e meu corpo ser lançado para frente, eu teria caído e rolado montanha abaixo se Charles não tivesse me segurado entre seus braços.
Seu peito rígido abaixo de minhas mãos me causou um formigamento pelo meu ventre.
- Consegue se soltar?
- De você?
- Da pedra - ele deu um sorriso mais claro.
- Consigo - eu engasguei e sacudi o pé, livrando o sapato.
Esse homem me provoca de maneiras curiosas, tenho que me concentrar mais na minha missão, antes que ele me distraia.
Pov Moira
A reserva, como Charles chamava, era uma antiga construção medieval que parecia prestes a cair a qualquer momento, tanto por sua altura e complexidade quanto por sua localização, no topo de uma colina verde, seu interior era quase inteiramente fei...
Charles bateu suas botas na entrada e se encaminhou para a mesa no centro onde encheu uma caneca grande com uma bebida caseira, hidromel talvez.
- Aceita? - ele me ofereceu a caneca.
- Não obrigada.
- Tem certeza? Vai te esquentar.
Eu não tinha dúvidas de que aquele homem poderia me esquentar de muitas maneiras e bebida não era uma delas mas antes que esses pensamentos me distraíssem outra vez eu apontei para o alçapão
- Para onde leva?
- Para baixo - ele riu, antes de vislumbrar meu olhar impassível - a reserva é lá embaixo.
- Não vamos perder tempo.
Charles deu de ombro e usou a mão que não segurava a caneca para agarrar a argola de ferro e puxar a porta em um movimento rápido, fazendo a madeira bater no chão levantando uma pequena nuvem de poeira.
- Primeiro as damas.
Eu passei por ele esfregando a terra que impregnou em meu blazer, o interior da montanha estava quente e úmido e pude respirar melhor sem que o ar frio queimasse minhas narinas.
Charles desceu em um salto, apoiou a caneca em um degrau e tirou sua jaqueta, revelando uma regata solta, por baixo, era possível ver seus ombros e nuca, como boa parte de suas costas.
- Por aqui - seguiu pelo corredor, era amplo e todo coberto de pedras, grandes portas de metal se elevavam quase até o teto, e sons de rosnados, assim como um calor característicos escapava pelas laterais.
- Prendem dragões aqui?
- Não prendemos, só os impedimos de sair.
- Muito engraçado.
- Nós cuidamos, muitos chegam aqui doentes e machucados, então tratamos deles antes de devolver para seu habitat.
- Parece perigoso.
- Você acha? - ele olhou por cima do ombro e sorriu, notei as diversas cicatrizes em seu corpo, queimaduras e cortes.
Minhas bochechas esquentaram e um calor mais intenso passou pelo meu estomago, me obrigando a tirar o blazer.
- Eles te fazem usar uniforme?
- Não, porque acha que estou de uniforme?
- Se veste assim por opção?
- É o mais apropriado pro meu cargo.
- Tudo bem mas essa é uma região inospta, Srta. Scringeour. Seria mais prudente usar algo que lhe permita correr, se necessário.
- Eu sou uma auror em exercício da função, não acho que alguém se meteria em meu caminho.
- Se você diz, mas saiba que há muito mais em Spring's Ville do que homens e bruxos - antes que eu pudesse responder, Charles segurou uma argola em uma porta grande e usou todo seu peso para abri-la - é aqui.
O interior cheirava a carne queimada e fuligem, tudo naquela reserva parecia ter algo com fogo.
Uma longa bancada se estendia pela sala e no topo haviam janelas estreitas e longas, estavamos na ponta da colina e era possível ver o céu que escurecia.
O ar entrava frio e implacável, contrastando com o calor da fornada á frente.
- Humm, acho que nunca vi uma mulher tão bonita nessa sala.
Encarei o homem que se dirigia a mim, ele se aproximou e tomou minha mão em um beijo áspero, era bonito e atlético e a sua atitude exagerada não o tornava menos atraente.
- Esse é Bentley Mordaque, nosso legista.
- E cozinheiro.
- Sou Moira Scringeour, auror.
O rapaz levantou uma sobrancelha mas logo voltou a sorrir.
- Uma auror e um legista, parece um conto de fadas.
Eu sorri e minhas bochechas coraram.
- Trouxeram o segundo? - Charles virou o restante de sua caneca enquanto esperava a resposta.
- Está bem ali - Mordaque apontou para uma segunda bancada tão grande quanto a primeira onde era possível ver um dragão mal coberto por um pano sujo de lama e sangue - o que houve com ele?
- Eu estou tentando descobrir. Onde está o primeiro? - respondi de imediato.
- Aqui. Bem, partes de dele.
Na bancada havia um par de asas cortadas e alguns pedaços grande de carne e pele assim como uma genitália, incluindo os enormes testículos onde meus olhos se demoraram.
- Não achou que fossem modestos, não é? - Mordaque apoiou as mãos sobre a bancada levantando mais o corpo - tendo em vista o tamanho do dragão.
- Só estou pensando - eu me virei bruscamente fazendo Charles que se postara atrás de mim, dar um passo atrás para me encarar - o que eles tem em comum além de serem dragões? Sexo? Idade? Raça?
- Nada.
- Interessante.
- Mórbido, você quer dizer - Mordaque puxava um carrinho com uma asa em direção á fornada.
- Espere - eu corri para impedir e acabei prendendo o salto, pela segunda vez, em um vão no assoalho e precisei me segurar em Charles que me apoiou firmemente com as mãos em minha cintura, quase o suficiente para me machucar, seu hálito perto o suficiente para me enebriar - Conhaque.
- O que disse.
- Conhaque - eu me ajeitei, ficando em pé - estava bebendo em horário de trabalho.
- Eu disse que era pra esquentar.
- E, Mordaque. Eu preciso dessa asa intacta - eu estendi a mão para Charles que não hesitou em me entregar o canivete suiço, eu peguei a escova e passei pelas asas, como eu imaginava elas escamaram e haviam os mesmos simbolos embaixo - Tire fotos.
- Não sei se notou, Srta. Scringeour mas está em um crematório dentro de uma montanha, não temos câmeras aqui.
- Precisamos avaliar.
- Pode voltar quando quiser, auror - Mordaque sorria de canto - eu quardo para você.
- Ou podemos levar o couro.
- Essas asas tem dez metros de envergadura, Weasley. Como sugere que eu as leve?
- Bem simples, docinho - o legista interveio - Vou separar pra você.
Ele sorriu e tirou uma longa faca do coldre, passando-a pelas asas bem acima dos ossos e a pele do animal se soltou facilmente, sem sangue ou qualquer fluído.
- Couro de asa de dragão - Charles enrolou e jogou sobre o ombro - muito resistente.
Voltei a vestir meu blazer assim que deixamos o subsolo, Charles fez o mesmo com sua jaqueta, o que foi uma pena e um aliviou ao mesmo tempo.
- Qual o próximo passo, Srta. Scringeour?
- Descobrir o que significa os símbolos. Tem alguma biblioteca aqui?
- Não, o povo dessa região não é muito de ler, sabe.
- Entendo, preciso de um favor do ministério, então. Tem uma coruja?
- Por sorte sua a Sra. Weasley fez questão de me presentear com uma, ela fica no meu quarto.
- Esposa?
- Mãe, eu não sou casado. Não é fácil com meu trabalho.
- Eu dúvido muito.
Ele se afastou subindo os degraus de dois em dois.
- Você vem?
- O quê?
- Eu disse que a coruja está no meu quarto.
- Claro - mantive a calma enquanto subia as escadas atrás dele, Charles parecia não se importa em ser visto de costas e eu não pude deixar de reparar nas marcas que suas coxas deixavam no jeans.
Ele me guiou até o último andar e por um estreito corredor, entrando na penúltima porta.
- Cuidado - ele avisou bem a tempo de eu me abaixar enquanto uma coruja cinza cruzava o quarto - pode escrever na cama ou usar a cômoda, o tinteiro está alí.
Eu passei pela cama com dificuldade, imaginando como um homem daquele tamanho se movia aqui dentro, peguei um pergaminho e a pena, usando a cômoda como apoio para anotar todos os livros que eu imagina ter algo referente aquele assunto.
Com a visão periférica eu podia ver o Weasley sentado na cama dando migalhas para a coruja que insistia em se esfregar no bíceps dele.
Sortuda.
- Gosta mesmo desses animais, não é?
- É mais fácil que lidar com humanos, eles não traem, não machucam.
- E quanto aos dragões? Acho que podem machucar um bocado - apontei para o pescoço onde ele tinha outra cicatriz.
- São só incompreendidos.
- Ela pode levar, agora? É importante.
- Sim. Vamos, Justine. Precisa levar isso depressa - Charles pulou por cima da cama e me prendeu entre a cômoda e ele.
Sua presença era tão intimidadora e ao mesmo tempo me acolhia, entreguei o pergaminho enrolado e ele prendeu a pata da coruja, fazendo-a voar para fora da janela.
- Obrigada.
- Foi um prazer ajudar.
- Eu preciso ir agora.
- Sim, eu compreendo - Charles afastou o corpo deixando um espaço muito pequeno para passar e eu não sabia como travessar, por fim acabei virando de costa, o que não foi uma boa idéia. Ficou parecendo provocação.
- Bem - eu olhei por cima do ombro antes de passar pela porta - foi um prazer conhecê-lo.
- Igualmente, Srta Scringeour. Chame se precisar de mim?
Para qualquer tarefa?
- Claro, fique atento.
Charles fez questão de me acompanhar durante quase todo o trajeto de volta á vila, mesmo sem que o frio tornasse difícil conversar e a neblina densa mais ainda
A única hospedaria daquele lugar mais parecia um estabulo, ratos correndo libres pelo caibro no teto sem forro, as mesas sujas recebiam novos cardápios e o bar estava com os assentos lotados.
- Moira?
Minha atenção se voltou para o garoto na escada.
- Não temos escolha, temos?
- Sinto dizer que não. Como foi?
- Como eu esperava, as mortes foram obra da mesma pessoa.
- Comunicou o Sr. Philostrade?
- Não, ainda é cedo, preciso saber sobre aqueles símbolos.
- Ah, Moira. Era uma missão simples.
- Se quer simplicidade, Ioannou, sugiro que escolha outra profissão. Se vai trabalhar comigo, aceite que iremos até o fim.
- Tem razão - o garoto abaixou os olhos tristemente - a chave do quarto.
Peguei o objeto e subi, o quarto era ainda mais deplorável, com goteiras e uma janela quebrada por onde passava o ar gélido da noite.
Apanhei o cobertor na ponta de uma das duas camas, estava sujo e duro.
- Eu mereço - bufei e me deitei de costas cruzando os braços na frente do corpo e nem percebi quando adormeci.
Acordei com cheiro de café que fez meu estomago roncar.
- Café? - Dom me perguntou assim que abri os olhos.
Fitei a caneca manchada em sua mão.
- Não, obrigada.
- Você recebeu um telegrama do ministério.
- Já? - eu levantei rápido e apanhei o pequeno envelope na mesa, mas nada dos livros.
- O que diz?
- Nenhum dos livros que eu pedi estavam disponíveis.
- Hum, aposto que aqui não tem biblioteca.
- Tem a catedral - uma mulher gorda e rosada, vestindo uma roupa de camareira muito desbotada entrou no quarto sem bater e começou a esticar a cama - serviço de quarto - ela disse de forma casual.
- Que catedral?
- Na baía, depois do píer. Não conhecem?
- Eu não sou daqui.
Ela olhou para mim pela primeira vez.
- Ah, percebo agora. Bem, a baía é o lado mais movimentado dessa região, tem uma antiga catedral lá, foi destruída e saqueada mas duvido que esses vagabundos tenham levado os livros - ela deixou toalhas novas no banheiro antes de dar uma ultima olhada no quarto - prontinho, com licença.
Ela saiu nos deixando sozinhos.
- Acho que é perda de tempo. Se eram livros antigos certamente foram roubados.
- Também acho, mas vale a pena averiguar. Além do mais, ela disse que é movimentado, alguém pode saber de alguma coisa.
- Certo, vou me informar como faz pra chegar lá.
- Dom?
- Hum - ele parou na porta.
- Chame o Weasley.
Pov Moira
Não fazia sentido ficar a manhã toda no quarto, precisava sair e encontrar algo decente para comer.
A rua na vila estava iluminada e o sol tentava, inutilmente, passar entre as nuvens.
- Bom dia, senhora - um homem de aparência rude e visivelmente bêbado se apoiava na cerca de sua casa.
- Seu velho safado - a esposa gritou da janela.
Não era o tipo de lugar que eu andaria, com certeza, mas as crianças correndo despreocupadas na rua, davam mais alegria á vista.
Avistei uma casa com uma placa onde se lia "Ristorante" e comecei a salivar enquanto andava decidida até lá.
- Não comeria ali, se fosse você.
Me virei bruscamente já com a varinha em mãos apontada no pescoço do indivíduo.
- Hei, hei... calma, docinho.
- Mordaque - eu bufei.
- Surpresa em me ver tão cedo?
- Na verdade, sim. Não tem mais dragões para encinerar?
- Vim com Charles.
- Ele já chegou?
- Como assim? esperava por ele? Não, achamos que você podia querer o couro da asa do segundo dragão.
- Sim, eu quero.
- Mas esqueceu, não é tão experiente assim. Não é, docinho.
- Eu tenho nome, Moira Scringeour ou Srta. Scringeour para você.
- Não fica tão na defensiva, acho que podemos ser bons... amigos - ele deu uma piscadinha de lado - além do mais, não sei pronunciar esse nome.
- Duvido. Agora, se me der licença eu preciso comer.
- Vou aconselhá-la mais uma vez a não comer ali.
- Eles servem comida italiana, é melhor que a hospedaria.
Mordaque ficou sério por um segundo, com os olhos sombrios enquanto olhava rápido para a estalagem no começo da rua, mas logo voltou com seu ar cafajeste.
- Italiana?
- Sim, está escrito Ristaurante.
- O velho Wathe é quase analfabeto - ele riu - eles servem carne de baleia quando elas chegam mortas à margem.
- Repugnante - eu ajeitei meu blazer puxando a barra com força - melhor eu seguir meu caminho, com licença.
- Espera.
Eu continuei em em frente sem dar atenção até pisar em algo mole e viscoso. Eu não queria olhar, sabia onde havia pisado.
- As ruas não são assim tão limpas como no ministério, docinho.
- Acha isso engraçado?
- Não, mas devia considerar mudar de roupas. Aliás, se tiver dificuldade com isso, eu me ofereço para ajudar.
- Não há problema nenhum com as minhas roupas.
- Concordo, blazer e salto alto são realmente sexy, mas essa é uma cidade montanhosa, botas seriam mais confortáveis.
- Você é tão intrometido - e bonito.
- Só estou preocupado com seu bem estar - ele deu alguns passos para trás, balançando o corpo de um lado para outro - docinho.
Meu estômago roncava, bati os sapatos sujos no chão de terra e tomei o caminho de volta.
Pov Carlinhos
- Meio cruel fazer a moça andar da reserva até aqui ontem a noite, se temos a carroça.
- Não ia tirar os cavalos naquele frio, estavam dormindo - pulei no chão e desamarrei as cordas que prendiam o rolo de couro - além do mais, a Srta. Scringeour precisa entender como as coisas funcionam por aqui.
- E acha que ter os pés maltratados naqueles sapatos vai mudar alguma coisa? - Mordaque virou o corpo na carroça apoiando o cotovelo na coxa - ela é uma garota rica.
- Eu sei, mas é um começo. Anda, me ajuda com isso.
Ele levantou o couro enrolado e jogou sobre meus ombros.
- Quer que eu entre? - a relutância na sua voz era nítida.
- Não, compre algumas cenouras para os cavalos - enfiei a mão no bolso da jaqueta e joguei moedas para ele.
- Te espero aqui?
- É, vai ser rápido.
Seria difícil subir as escadas carregando duas asas de dragão mas não podia pedir que Mordaque me ajudasse, ele já se sentia mal o suficiente de ver a hospedaria de fora, não queria que a visse por dentro.
Assim que passei pela porta fui recebido pelo proprietário que estava tão feliz em me ver quanto eu em vê-lo.
Homenzinho detestável.
- Weasley, espero que esteja com meu dinheiro.
- Na próxima semana.
- Disse isso o mês todo.
- Vou pagar duas prestações juntas, está bem?! Agora, preciso falar com Moira Scringeour.
- Não tem ninguém com esse nome aqui.
- A auror, talvez a reserva seja no nome do estagiário, Dominic Ioannou.
- Terceiro andar á esquerda - ele resmungou enquanto voltava para o bar.
- Idiota.
Como eu pensei, cheguei ao terceiro andar já ofegante e parei para tomar um ar, encostado na parede eu pude ver o quadro que tanto me incomodava.
A pintura em cores quentes dos pais e um filho, o cabelo amarelo do menino, tão vivo como se fosse real.
- Weasley?
Dominic subia a escada de onde eu tinha vindo.
- Ioannou? Estou procurando a Moira.
- Ela devia estar aqui, eu acabei de mandar uma coruja pra você.
Ele fez sinal para que eu o seguisse e fiz isso mantendo alguma distância.
- Porque me mandou uma coruja? - entrei no quarto carregando o couro e o joguei em cima da cama que despencou no chão com os quatro pés quebrados e uma nuvem de poeira.
Olhei para Ioannou já me preparando pra me explicar mas ele deu de ombros.
- Essa é da Moira.
- Ela não vai gostar - ele ficou olhando com indiferença para o móvel no chão - então?
- Ah, sim. Não conseguimos os livros mas Moira tem um palpite, soubemos de uma catedral, queremos que nos leve até lá.
- Não.
- Não?
- Não está acostumado com essa palavra?
- A Moira é uma auror em exercício da função - ele tomou um ar autoritário e nada simpático enquanto se mantinha pomposo, era engraçado - e você um especialista ao serviço dela.
- Em dragões, não em expedições.
Ele torceu o nariz e ficou ainda mais nervoso, se continuasse se segurando poderia facilmente explodir. A porta atrás de mim se abriu e minha atenção se voltou para ela.
Moira entrou no quarto bravejando e arrancando as roupas.
- O que eles pensam que eu sou - blazer.
- Moira? - Ioannou levantou a mão tentando chamar sua atenção, em vão.
- Se eles querem que eu me vista como uma camponesa - a camisa branca.
- Moira, espera.
- É exatamente o que vou fazer - o fecho do sutiã.
Ela era bonita, as poucas mulheres na reserva eram mais brutas que eu mas Moira era delicada, feminina e eu pensava em como ela poderia ser doce em baixo daquela pose de auror.
Mesmo assim seria errado olhar o corpo dela dessa maneira sem que ela ao menos soubesse, limpei a garganta em duas tossidas rápidas.
Ela se virou assustada cobrindo os seios com as mãos e tentou falar alguma coisa várias vezes mas acabou desistindo quando viu que as palavras não saíam.
- O Sr. Weasley está aqui.
- Eu estou vendo, Dom. Obrigada.
Ela me encarou, dei alguns passos lentos em sua direção até ficar lado a lado com ela e me abaixei para perto de seu ouvido.
- No seu lugar, eu teria continuado o show.
Saí para o corredor me sentindo provocado, as roupas apertando na virilha. Lá embaixo, Mordaque dava cenouras aos cavalos.
- Missão cumprida?
- Sim, e espero que essa seja a última asa de dragão que temos que retirar.
- Weasley? Weasley? - Moira corria para a rua agora usando um suéter mesmo que ainda fosse possível ver que não usava sutiã.
- Em que posso ajudá-la?
- Meus olhos são aqui em cima - ela bravejou chamando minha atenção - Dominic me contou da sua recusa em me servir e devo dizer que é inaceitável.
- Você goste ou não, Srta. Scringeour. Eu não vou fazer uma expedição perigosa pela montanha, ainda mais com pessoas inexperientes.
- Não sou inexperiente.
- E aprendeu sobre exploração e escalagem na sua escola de aurores ou nas aulas de etiqueta?
- Porque acha que fiz aulas de etiqueta? - Moira estava na defensiva e a conversa se tornou quase uma discussão.
- É filha do ministro, não é?!
- Vejo que fez sua lição de casa, no entanto, não pense que me conhece.
- Que seja - dei de ombros enquanto arrumava o interior da carroça - mas não há nada na caredral. Seria inútil.
- Eu tenho uma intuição.
- É vidente?
- Não.
- Anote isso - eu disse para o garoto atrás dela que trazia uma prancheta e uma pena - Não vou levar vocês por um palpite. Encontre outra pessoa.
Um estrondo alto como uma explosão seguido de gritos foi ouvido de uma rua próxima, corri junto a Mordaque até o local.
No meio da rua um dragão repousava, me aproximei a tempo de sentir o vapor quente da sua última respiração, meu peito apertou.
Um grito ensurdecedor fez os curiosos cobriram os ouvidos e correrem desesperados mas eu estava habituado com esse som.
- O que é isso? - Moira gritou com as mãos sobre as orelhas.
- É um filhote - eu apontei para o céu onde um dragão enorme circulava e berrava - e aquela é a mãe, está furiosa.
- O que faremos?
- Eu não sei, Mordaque - olhei para o rosto impassível de Moira - estejam prontos ao anoitecer, no cais.
Pov Charles
O cais ficava no interior da vila, o outro lado da baía era tão longe que não dava para avista-lo nem mesmo com a luneta. Desviei o olhar da imensidão e me sentei sobre um barril velho enquanto esperava, a primeira pessoa a aparecer não era bem quem eu imaginava.
- Você não vai - enfatizei para Mordaque quando o vi se empoleirar no pier.
- Se ele vai eu também vou.
Bentley apontou para o cachorro de porte médio ao meu lado. Brutus era um cão velho e quase surdo da raça Bloodhound.
- É um cão farejador, é útil.
- Eu também, posso carregar suas coisas - ele pegou a mochila de couro ao meu pé e colocou no ombro - ou distrair a auror. Por falar nisso, onde ela está?
- Espero que a caminho.
Brutus se deitou de barriga e esticou o queixo no chão, deixando as orelhas esparramadas.
- Sério, porque trouxe o cão?
- Acredito que a senhorita Scringeour não tenha muito apreço pelos animais que estamos tentando salvar, talvez algo mais próximo e familiar desperte nela esse interesse.
- Ah claro - ele disse ironicamente - até por que Baelfire e dragões tem muitas semelhanças. Um cospe fogo e o outro tem incontinência urinária... sério, Charles... esse cão tem uns cem anos.
- Não ligue pra ele - eu falei para o cão que mal levantou a cabeça - Bentley tem se sentido muito oprimido ultimamente.
- Agora sei porque esse pulguento está aqui, vai usá-lo pra provocar a auror, como faz comigo.
- Não sei do que está falando.
Ter Mordaque aqui não me deixava muito a vontade, o caminho até a catedral era cruel, implacável e suas motivações eram emotivas demais, para dizer o mínimo.
Mas ele tinha razão, Moira precisava se situar de onde estava e com quem estava lidando mas minha mãe criou um cavalheiro, jamais diria coisas tão desagradáveis para ela, não diretamente.
Me surpreendi quando ela apareceu com seu assistente, aparatando á alguns metros de nós, ela usava botas e mal tinham salto, couro e uma saia longa que dava total liberdade de movimento, parecia outra pessoa.
Uma pessoa com quem eu adoraria me ver sozinho.
- Boa tarde, Sr. weasley - ela ainda mantinha a pose - Mordaque? Estou surpresa, esperava uma equipe mais qualificada.
Eu ri com a ingênuidade dela.
- Não se preocupe, temos um cachorro - Bentley respondeu.
- E armas - bati com a mão espalmada no no coldre.
- Uma espada?
- Nunca se sabe, não é? Essa é uma região...
- Inospta. Já usou essa palavra Sr. Weasley.
- Essa é a graça com as palavras Srta. Scringeour - me levantei ficando bem á frente dela, perto de mim Moira parecia ainda mais pequena - você pode usar, elas não gastam.
Ela engoliu em seco mas não expressou nenhuma emoção. Atrás dela, mais uma vez, Dominic tremeu e seus olhos se arregalaram como se fosse explodir mas as palavras se recusaram de sair da sua boca.
- Que seja - era Moira quem falava - desfaça o feitiço de desilusão, vamos logo com isso.
- Não há feitiço.
- E onde está o barco?
- Estará aqui - peguei o relógio no bolso e examinei por alguns segundos - agora.
O píer começou a tremer e Moira se desequilibrou, caindo sobre mim, a segurei pelos cotovelos e sorri ao ver sua expressão assustada me encarando. Seus olhos subiram de onde os meus estavam e se concentraram atrás de mim.
- Moira, isso é um navio subaquático - Dominic parecia muito preocupado - é uma violação do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia.
- Eu percebi, Dom - ela se soltou de mim dando dois passos atrás para me olhar de forma confortável - não viajaremos de forma ilegal.
- Se acalme, vamos pela superficie.
Uma rampa de madeira caiu formando um caminho entre o píer e o navio e no topo dela apareceram dois indivíduos, um subordinado quieto e a capitã com um largo sorriso e um charuto na boca.
- Espere, Brutus - falei com o cão que ainda nem havia se levantado e dei um breve olhar para Moira - deixe as damas irem na frente.
Ela sacudiu o cabelo e levantou o queixo.
- Dominic, pegue a prancheta.
O assistente lutou contra a pasta e mais ainda contra a pena que entregou para Moira assim que chegamos ao topo da rampa e entramos no navio.
- Bem vindos á bordo - a capitã se dirigiu ás pessoas que ela não conhecia - eu sou Acacia Santierra, capitã do Estrela do Norte - ela deu alguns passos até Moira - mas você pode me chamar de mamãe.
- Moira Scringeur - respondeu duramente enquanto assinava o documento que Dominic havia pego na pasta e o entregou á capitã.
- O que é isso?
- Uma multa, navios subaquáticos são ilegais.
O rosto de Acacia se fechou e seus olhos se estreitaram enquanto chega perigosamente ainda mais perto de Moira.
Ela pegou o documento e levantou entre seus rostos e então o rasgou vagarosamente, me vi na obrigação de intervir antes que a viagem acabasse sem nem começar.
- Acacia, posso ver o plano de bordo?
- Claro, acho que terminamos aqui.
Moira mais parecia de gesso, não demonstrava nenhum sentimento mas suas mãos trêmulas me diziam que estava com medo, Mordaque já havia entrado no convés e ela seguiu no mesmo caminho.
- Pode levar a bagagem, serviçal? - disse em tom cortês o assistente - marujo?
- Esse é Einar, ele não fala - respondi olhando do subordinado para Dominic - ou escuta, na verdade, acho que ele nem entende nossa língua.
Acacia fez um gesto rápido e o homem que até então, não havia movido um músculo se colocou para frente apanhando as malas do chão com muita facilidade.
- Vai me dizer porque vão até a bahia? - Acacia disse assim que ficamos sozinhos.
A rampa começou a se recolhei de volta ao convés.
- Tenho que levar a auror até a Catedral.
- Não há nada lá, Charlie.
- Ela tem uma intuição e pra ser bem sincero, eu também.
- Isso é perigoso e ainda mais com o menino.
- Ele vai ficar bem.
- Devia deixá-lo no barco, posso inventar alguma coisa.
- É melhor que Bentley fique comigo. Vai ser bom ter um amigo por perto, de qualquer maneira.
- Vejo que não foi a única companhia que trouxe?
Franzi os cantos do olhos, sem entender o que ela quis dizer e Acacia apontou para o horizonte onde um dragão voava rápido, pela curvatura da asa e pelo tamanho arriscaria dizer que era um Barriga-de-Ferro Ucraniano.