Olá, minhas amoras!
Estou de volta com um livro novinho para vocês!
Espero que gostem da Lizandra e do Heitor, porque esse casal vai colocar fogo no parquinho! Rsrsrs
Mas além de muito HOT, essa também é uma história de amor e recomeço, onde o destino vai se encarregar de aproximar dois corações destinados a se conhecerem.
Lizandra (Lily para os íntimos)
Hoje o dia estava bastante movimentado na pousada da minha tia e quase não me sobrou tempo até mesmo para algo simples como uma refeição e eu já estava sentindo os músculos dos braços doendo de tanto esforço repetitivo com a vassoura e outras tantas coisas que já tinha feito desde que acordei pela manhã. Era sempre assim no verão, principalmente quando estamos no último dia do ano e os chalés ficam lotados para o tradicional Réveillon de São Miguel do Gostoso.
Foi com grande alívio que vi o meu horário de trabalho chegar ao fim e comecei a sonhar com um bom banho e ir ao encontro do meu namorado, enquanto guardava os utensílios que eu tinha usado para a limpeza dos chalés dos hóspedes, mas, antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa, eu senti o cheiro doce e forte do perfume de tia Lucrécia e uma oração se formou em meus lábios.
- Lily, querida - ela foi logo dizendo e eu me arrepiando de asco - Eu sei que você já estava encerrando o seu expediente, mas acaba de chegar um dos melhores hóspedes e você precisa ir deixar algumas toalhas extras para ele.
- Mas, tia... - Comecei a retrucar.
- Nada de reclamações, Lily! - ela me interrompeu. - O que custa você ir deixar algumas toalhas para o Luciano Monteiro?
Então, era realmente um hóspede VIP e a minha tia sempre atende a todos os desejos daquele homem, por mais estapafúrdio que pudesse ser.
- Já passa das oito horas da noite e estou trabalhando há quase doze horas, tia - apontei com desânimo - Preciso de comida e descansar, que amanhã já começa tudo outra vez.
Eu não consegui ficar calada desta vez, quando eu me sentia próximo da exaustão, pois eu estava trabalhando há quase um mês sem direito a nenhum único dia de folga desde que começou o verão em Gostoso, um dos destinos turísticos mais apreciados no Brasil e que atrai muitos visitantes durante todo o ano.
- Não me venha com drama, Lily - ela disse já bastante aborrecida - Sabe que o Luciano prefere sempre ser atendido por você. Depois que entregar as toalhas você poderá fazer o que quiser, sua preguiçosa mal agradecida.
Mesmo cansada e louca para encerrar o dia, percebi que era melhor não contrariar a minha tia, pois ela podia se tornar bastante cruel quando ficava com raiva e eu não estava em condições físicas de ouvir todos os seus desaforos, e ainda mais o discurso que ela sempre faz todas as vezes que se aborrece comigo.
- Vou buscar as toalhas - falei e dei-lhe as costas sem me importar em qualquer tipo de despedida cordial.
Preferi adiar um pouco o meu descanso do que discutir com Lucrécia mais uma vez, o que estava se tornando bastante corriqueiro nos últimos meses. Na verdade, a nossa relação estava se tornando cada dia mais tensa desde que eu tinha recebido uma proposta para me mudar para o Rio de Janeiro e trabalhar como modelo.
Eu não tinha aceitado, afinal, não iria confiar em propostas como aquela quando a internet está repleta de relatos de pessoas, principalmente jovens mulheres como eu, que tinham sido enganadas e caído em golpes envolvendo trabalhos no sudeste do país, principalmente em se tratando de algo tão glamouroso como ser modelo.
Pensar nesse assunto me deixava nervosa e irritada, ainda mais quando eu me lembrava das palavras grosseiras da minha tia me mandando usar a minha beleza para algo útil como conquistar um turista milionário.
- Deveria parar de perder tempo com um pobre coitado como o Samuel e aceitar as propostas dos turistas, sua boba - ela repetia sempre que tinha oportunidade - Se a Juliana tivesse a sua beleza eu tenho certeza de que ela nem estaria mais em Gostoso e sim na Europa com algum homem rico, vivendo rodeada de luxo, como a Lourdes fez.
Sorri com cinismo ao lembrar de um desses seus sermões e a cara que a minha prima fez quando ela a envolveu em seus delírios, pois Juliana claramente não era a pessoa que a mãe dela acreditava que ela fosse. Além de ser bastante introvertida, ela sempre me dizia que jamais se envolveria com alguém por causa de dinheiro ou status como a sua mãe vive sugerindo que ela faria.
Mas é melhor prestar atenção naquilo que eu estava fazendo e esquecer a minha tia, então separei algumas toalhas limpas e engomadas que estavam embaladas e prontas para o uso e fui rapidamente até um dos chalés da pousada mesmo que a minha tia não tivesse me dito em qual deles o seu hóspede VIP estava. Luciano Monteiro tem um dos chalés reservados conosco, pois aquele é um dos seus destinos preferidos para trazer seus parceiros comerciais.
- Oh, você já está aqui! - Luciano comentou com evidente satisfação ao abrir a porta para mim.
- Trouxe as toalhas limpas - falei, tentando entregar o pacote e ir embora o mais rápido possível.
- Não vá agora - ele pediu em tom simpático - Gosto muito da sua companhia, Lily.
Eu não gostava nenhum pouco da forma como alguns hóspedes se comportavam comigo, principalmente quando falavam com aquela intimidade, mesmo que eu não tenha realmente deixado brecha alguma para aquilo. Mas para que a minha tia não perdesse clientes, eu sempre me mantinha quieta diante de comportamentos como aquele. A Lucrécia jamais me perdoaria se algum hóspede fosse embora da sua pousada por minha causa.
- Desculpe-me, senhor Monteiro - Eu acabei pedindo de maneira delicada - Mas combinei com o meu namorado que iria encontrar com ele daqui há alguns minutos e nem mesmo estou pronta ainda.
Eu sempre fazia questão de ressaltar que tenho um namorado e odiava ter que fazer isso, pois dizer que "não" já deveria ser suficiente. Mas eu jamais poderia deixar brecha alguma para alguma atitude mais inconveniente e tampouco desagradar a minha tia.
- Claro, claro - concordou rapidamente o homem, mas logo veio uma sugestão indesejada - Não vai acompanhar a queima de fogos? Podemos nos encontrar lá.
Eu realmente gostaria de não responder nada sobre aquilo. Não queria dar a entender qualquer coisa minimamente pessoal entre nós, mas precisei ressaltar mais uma vez.
- Irei com o meu namorado, senhor Monteiro.
Diante da expressão de claro desagrado do hóspede, eu apenas sorri e pedi licença após entregar finalmente as benditas toalhas.
Tentei não deixar transparecer nada do que eu estava realmente sentindo naquele momento e caminhei rapidamente para a casa da minha tia, que ficava convenientemente próximo, apenas alguns metros de distância do prédio principal da pousada, local onde ficava toda a parte administrativa, assim como também a recepção do lugar.
Entrei em casa apressada, não queria correr o risco de encontrar com a minha tia mais uma vez naquela noite, pois com toda a certeza ela iria me passar mais alguma tarefa de última hora e eu estava realmente necessitando de um banho demorado e relaxante de ducha, algo que fiz logo que me vi dentro do banheiro minúsculo.
A casa de Lucrécia é pequena e sem luxo algum. O seu interesse estava concentrado apenas na pousada, que é o local onde ela ganha bastante dinheiro, então havia poucos móveis e alguns reparos visíveis para serem feitos, mas aquilo realmente não me incomodava. Pior que qualquer outra coisa é a pessoa dela e eu começava a pensar seriamente em aceitar a proposta de casamento do Samuel e sair de uma vez daquela casa e de perto da minha tia.
Mas o que eu mais temia era ter que continuar na mesma cidade que ela, que por mais que fosse um lugar lindo e com um apelo turístico muito forte, eu talvez não conseguisse emprego em nenhum outro comércio, pois todos iriam se questionar porque eu não trabalhava para a minha própria tia, afinal, a sua pousada era uma das melhores da cidade.
Ninguém sabe realmente o quanto Lucrécia pode ser desagrádavel e que ela é uma mulher mesquinha e cruel, que por algum mistério obscuro me criou desde que a sua irmã Lourdes foi embora com um estrangeiro que conheceu naquela mesma pousada e deixando para trás uma filha de cinco anos.
A minha tia fazia absoluta questão de me lembrar desse fato e de apontar o quanto ela foi bondosa por criar uma criança que não era dela, mesmo sendo uma mulher viúva e sozinha, com uma filha também pequena ainda.
Juliana é filha de Lucrécia e tem vinte e dois anos, praticamente a mesma idade que eu, com uma diferença de apenas dois anos. A minha prima e eu somos muito amigas e mesmo com o temperamento difícil da sua mãe, nós conseguimos viver em relativa paz e nunca tivemos grandes conflitos uma com a outra.
Ela tinha saído para a casa de uma de suas amigas da faculdade, ela cursava administração em uma universidade em Natal, que é a capital do estado, há mais de cem quilômetros de distância de São Miguel, mas estava de férias no momento e aproveitou para sair e se divertir um pouco.
Depois de me sentir devidamente alimentada, a exaustão parece ter me abandonado e senti que tinha disposição suficiente para sair de casa aquela noite e encontrar com o meu namorado, que diga-se de passagem, eu não o via há dias! Resolvi fazer uma surpresa para o Samuel e ir até a sua casa, tenho certeza que ele ficaria muito feliz em me ver após tantos dias longe, mesmo que tivéssemos combinado que ele viria me buscar em casa apenas por volta das vinte e três horas e ainda faltava mais de uma hora.
Iremos assistir juntos à queima de fogos na orla de Gostoso e depois passear na beira da praia, namorar um pouco.
Agora com grande animação, troquei rapidamente a roupa confortável que eu estava usando por um vestido leve e branco de alcinhas. A noite estava quente e mais pano do que isso era desnecessário, pensei com um sorriso.
Caminhei apressada - hábito de andar rápido e fazer tudo com pressa - e poucos minutos depois eu estava chegando em frente a casa do Samuel, que estava toda escura, o que só poderia indicar que ele não estava em casa. Como a casa não tinha muros na frente e era rodeada de varandas, decidi sentar em uma das cadeiras que estavam ali dispostas com intenção de mandar uma mensagem para o meu namorado e verificar onde ele estava.
Estava digitando quando ouvi algo parecido com gemidos. Gemidos? Eu mesma questionei a minha escolha de palavras, mas continuei em silêncio e fiquei de pé. Provavelmente alguém tinha aproveitado a ausência dos donos da casa e estava usando as redes da varanda para coisas bastante inapropriadas, pensei com desagrado.
Como já estava acostumada com a penumbra do local, analisei as minhas opções, mas logo concluí que eu não deveria denunciar o casal de amantes - estava cada vez mais claro que se tratava disso, pois os gemidos estavam se tornando mais "intensos".
Decidi sair dali o quanto antes, não queria saber quem eram as pessoas e estava prestes a descer as escadas da varanda e ir embora quando um gemido mais forte e um pedido bastante audível me fez paralisar no lugar.
- Mais forte, Samuel!
Eu conheço aquela voz...
- Mais, meu amor!
Juliana!?
Lizandra
Eu estava em choque.
Será que os meus próprios ouvidos estavam me enganando? A voz feminina que estava gemend0 como uma gata no ci0 e o nome que ela repetia de maneira incessante era o que eu estava pensando ouvir? Talvez fosse melhor ir embora e fingir que nada daquilo estava acontecendo.
- Gostos@!
Agora foi a vez de uma voz masculina dizer e depois soltar algo muito parecido com um urro, que me deixou completamente en0jada e logo foi se formando em meu interior um sentimento forte de indignação com a situação que estava vivenciando naquele momento. Eu precisava tomar uma atitude, mas os meus pés pareciam estar plantados no chão da extensa varanda.
- Vamos levantar, Jú. Estou coberto de suor e preciso tomar um banho.
Não havia mais dúvida alguma sobre o dono da voz masculina e eu estava claramente diante de uma dura traição.
- Calma, deixa eu arrumar o meu vestido, Sam - Juliana pediu com um sorriso na voz.
Consegui ouvir os passos deles e as risadas mais próximas. Eu estava na parte da frente da varanda e deduzi que eles estivessem logo no início da parte lateral, pois rapidamente eles estavam dobrando a "esquina" e aparecendo diante de mim, ainda parada tal qual uma estátua idiot@ traída.
- Então, é "Jú" e "Sam"? - perguntei de maneira irônica.
Eles estancaram de imediato e de maneira brusca, chegando até mesmo a ser engraçado a forma como eles quase colidiram um com o outro ao perceber a minha presença na varanda.
- Não é nada do que você está pensando, Lily! - Samuel foi logo dizendo e levantando a mão, notavelmente tentando se esquivar da culpa.
- Claro que não - falei com um sorriso de escárnio - Vocês estavam gemend0 porque é divertido fazer isso pelas minhas costas, não é mesmo?
- Nós iríamos te contar, prima - Juliana teve a decência de admitir - Mas você anda sempre tão cansada para encontrar o Sam, que ele não teve oportunidade.
Para a cena ficar ainda mais interessante, no instante em que Juliana disse aquilo, Samuel se aproximou dela e passou o braço por seus ombros, que logo o enlaçou pela cintura também, formando o casal de "milhões".
- Então, a culpa por vocês estarem tendo um caso pelas minhas costas e me fazendo de idot@ é minha por não ter tempo disponível para o meu namorado? É isso que você quer dizer, Juliana!?
- Eu não disse isso! - Juliana protestou - Nós nos apaixonamos e isso simplesmente aconteceu, não foi nada planejado. E não deveria ter acontecido nada entre nós antes do Sam terminar tudo com você, mas há dias ele está tentando fazer isso.
Eu me senti ainda pior ao ouvir essa explicação, pois quando Samuel disse há alguns dias atrás que precisava conversar algo muito importante comigo, eu imaginei que ele iria me pedir novamente em casamento e eu tinha até mesmo chegado a conclusão que desta vez eu iria aceitar a sua proposta. Jamais poderia imaginar que aquilo que ele queria dizer na verdade fosse sobre a sua paixão pela minha prima e o desejo deles de ficarem juntos.
- Você é uma garota legal e muito gente boa, Lily - Samuel continuou com a humilhação - Mas depois de anos namorando com você, percebi que eu não te amo realmente.
- Que bom que você descobriu isso agora, não é mesmo? Imagina que eu tivesse aceitado o seu pedido de casamento de alguns meses atrás e você só descobrisse essa paixão repentina pela Juliana depois de casados? Afinal, o fato dela estar "dando" para você algo que eu não dei não tem nada a ver com isso, não é mesmo?
- Não seja tão baixa, Lizandra! O Samuel e eu nos amamos e vamos ficar juntos.
- Faça bom proveito, "Jú"...
Não permaneci nem mais um segundo naquele lugar e desci as escadas de dois em dois degraus, tentando sair o mais rápido possível daquela varanda e de perto daqueles dois traidores covard€s. A minha prima e o meu namorado. Quem diria que a tímida e introvertida Juliana fosse tão assanhada, pensei com cinismo. Não esperou nem o casamento para entregar-se ao seu grande amor. Hahaha, parece até piada.
Caminhei bravamente pelas ruas de São Miguel do Gostoso sem prestar atenção nas várias pessoas que estavam por todos os lados, a grande maioria turistas sorridentes e bronzeados pelas horas nas praias lindas e quentes da cidade. Muita gente bonita e feliz, mas eu não me sentia nenhuma coisa e menos ainda a outra. Eu só queria chegar ao meu quarto e derramar todas as lágrimas que eu estava contendo a muita custo.
Mas o meu desânimo cresceu ainda mais quando encontrei Luciano Monteiro, pois tive certeza de que ele iria se oferecer para me acompanhar até a pousada e eu não tinha vontade alguma de falar com ninguém, menos ainda de me forçar a ser simpática com um estranho.
- Vejam só, se não é a garota mais linda da cidade aqui na minha frente - Luciano brincou.
Eu forcei o meu melhor sorriso e foi apenas isso. Não consegui fazer nada além.
- Está indo para casa? - ele perguntou aquilo que eu mais temia - Lucrécia estava à sua procura.
Aquelas palavras fizeram soar um alarme em meu cérebro "Ah, não!". Eu não tinha disposição alguma para falar com a minha tia agora e menos ainda para fazer qualquer coisa que ela venha a me pedir hoje. Só então compreendi que o melhor a fazer no momento é não voltar para casa agora.
Mas, para onde eu poderia ir sozinha? Não tinha mais nenhum outro lugar que eu pudesse ir.
- Não estou voltando pra casa - falei de maneira sucinta.
Luciano pareceu ficar bastante satisfeito com a minha resposta e logo fez a oferta que eu já previa que faria, me convidando novamente para ir com ele ver a queima de fogos e por total falta de opção, eu aceitei.
Caminhamos então pelas ruas juntos, mas tentei manter a maior distância possível do Luciano. Não queria que ninguém pensasse que havia algo entre nós, afinal, em uma cidade pequena como Gostoso, tudo era motivo para boatos sobre os moradores.
- Onde está o seu namoradinho? - Luciano perguntou, puxando assunto e já começando de maneira errada.
- Vou encontrar com ele mais tarde- ele não precisa saber o que aconteceu e posso usar isso como desculpa para ir embora quando for necessário.
Luciano insistiu para que eu o acompanhasse a um dos hotéis da orla onde estava acontecendo uma grande festa com artistas famosos nacionalmente, mas eu jamais poderia aceitar algo assim. Eu nem estava vestida para ir a um lugar de alto nível como esse! Quando ele percebeu que realmente não iria me convencer, optou então por continuar na orla onde estavam concentradas muitas pessoas para acompanhar a virada do ano e enquanto ele tomava alguns drinques, eu aceitei apenas um refrigerante.
Mas enquanto eu olhava as pessoas e pensava na grande decepção que sofri naquela noite, também me questionava sobre o que iria acontecer a partir de agora, quando todos ficassem sabendo que o meu namorado e a minha prima tinham simplesmente descoberto que se amam e querem ficar juntos.
Contudo, em momento algum passou pela minha cabeça que aquilo iria acontecer tão rápido, até que eu vi, como em um pesadelo horrível, o mais novo casal caminhando juntos de mãos dadas diante de todo mundo, sem se importar nem por um segundo em como eu iria me sentir sobre isso.
- Aquela não é a sua prima... a Juliana? - Luciano perguntou com um sorriso, que logo se tornou ainda maior ao ver o acompanhante da minha prima - Aquele que está abraçado a ela não seria o seu...
- Sim... - confirmei com dificuldade, um bolo se formando na minha garganta - É ele mesmo.
Heitor
Depois de muita insistência da Heloísa eu tinha aceitado acompanhá-la para passar o Réveillon em São Miguel do Gostoso e agora eu me questionava porque eu sempre acabava cedendo aos caprichos da minha irmã chata e impulsiva. Logo eu respondia a mim mesmo: Eu a amo, apesar de tudo.
- Você deveria tentar se divertir, Heitor! - Heloisa repete a mesma frase pela enésima vez só naquela noite - É sempre tão certinho.
- Sou um cara responsável, foi isso que você quis dizer, não? - sugeri de maneira irônica.
- Um chato! Foi isso que a Heloisa quis dizer - Bernardo diz, se intrometendo no assunto.
- Não lembro de ninguém aqui ter pedido a sua opinião, Bernardo - falei de maneira rude.
- Gente, vamos apenas aproveitar o réveillon? - Heloísa tenta mais uma vez - É possível ou não?
- A Heloísa tem razão - Catarina diz de maneira cordata - O que acham de descer e nos juntar ao restante dos hóspedes e assistir a queima de fogos?
Todos concordaram em seguir a sugestão de Catarina e pedimos a conta dos drinques que tomamos no bar do hotel e fomos nos reunir a maioria dos outros hóspedes, que estavam na área de festa próxima a piscina e onde estavam espalhadas várias mesas com buffet completo e atrativo, com muitas comidas tradicionais do Réveillon e também por comidas típicas da região Nordeste.
Enquanto experimentava algumas das iguarias, olhava em torno do ambiente, reconhecendo alguns rostos e torcendo para que Heloísa e Bernardo logo encontrassem companhias interessantes e esquecessem da Catarina e de mim. Logo que isso aconteça, eu pretendo voltar à minha suíte e dormir. Estava entediado, essa era a única palavra que poderia me definir naquele momento. Tenho certeza de que a minha namorada não se importaria de perder o restante da "festa".
Catarina e eu namoramos há dois anos e pretendo pedi-la em casamento no dia do aniversário do meu avô Vicente que vai acontecer dentro de um mês e este será o meu presente para o patriarca da família Alves de Bragança, tendo em vista que o seu maior desejo no momento é que seus netos casem e tenham filhos, pois ele não vê a hora de ter crianças correndo pelos jardins da sua mansão.
Apesar dos planos de casamento para muito em breve, não posso dizer que amo a minha namorada, pois não acredito no amor nem acho que possa um dia me apaixonar. O único motivo pelo qual a escolhi para ser a minha esposa é pelo vínculo existente entre nossas famílias e o fato de conhecer Catarina há anos e termos bastante afinidade um com o outro.
Não vejo problema algum em termos uma relação tranquila, ou como Bernardo sempre faz questão de dizer, um namoro morno e sem graça. Mas a opinião do meu melhor amigo e maior mulherengo que eu conheço realmente não vem ao caso.
- O que acha de voltar para a nossa suíte? - perguntei discretamente a Catarina logo após a meia noite e depois que perdi Heloísa e Bernardo de vista.
- Vamos ficar só mais um pouco... - Catarina pediu em um estranho tom de voz.
Olhei atentamente para a minha namorada quando ela pegou mais uma taça de champanhe da bandeja do garçom que estava passando e tenho certeza que aquela deveria ser pelo menos a quarta vez em que eu a via fazer isso.
- Você não acha que já bebeu muito por uma noite? - perguntei sem disfarçar a reprovação em minha voz.
Catarina pareceu estar muito atenta a algo do outro lado da enorme piscina e nem mesmo se importou em prestar atenção ao que eu estava falando, o que me incomodou bastante.
- Catarina? - tentei.
- Sim? – apesar da resposta, eu realmente não tinha a sua atenção, e percebi em seu rosto uma expressão clara de desagrado.
Olhei mais uma vez na mesma direção em que Catarina tanto prestava atenção, mas não entendi realmente para o que ela estava vendo. Mas logo constatei que o Bernardo já estava aos beijos com uma garota qualquer, algo bastante comum para o meu amigo e que não deveria ser surpresa alguma para nenhum de nós.
- Qual o problema? - perguntei já irritado com a atitude estranha de Catarina.
- Não há problema algum - respondeu com aborrecimento também - Somos todos livres para fazer o que bem entender, não é mesmo?
Aquela pergunta me deixou espantado e parecia mais ser uma retórica, pois ela nem mesmo esperou que eu respondesse qualquer coisa e já estava virando a taça e tomando todo o conteúdo em um único e longo gole.
- O que está te incomodando? Não estou entendendo.
Catarina não me respondeu e de maneira bastante inapropriada e surpreendente, virou as costas e saiu caminhando entre as pessoas sem nem mesmo olhar para trás, me deixando sem entender nada do que tinha acabado de acontecer.
Decidi esperar algum tempo antes de voltar para a nossa suíte, local para onde eu acreditava que a Catarina estivesse, mas quando cheguei ao quarto não havia nenhum sinal de sua passagem pelos aposentos requintados do hotel de luxo no qual estávamos hospedados.
- Onde ela pode estar?
Agora eu estava verdadeiramente preocupado com a minha namorada, afinal, ela não estava em seu estado normal e isso aliado ao fato de estar sozinha por aí poderia ser muito perigoso.
Catarina é uma negra linda de cabelos lisos, cortados na altura do ombro e tem um corpo magro e delicado, com pernas longas extremamente elegantes e tudo isso forma um quadro bastante chamativo e que pode despertar a atenção de algum bastardo mal intencionado, o que é bastante preocupante.
Pensar nisso fez com que eu voltasse ao local onde estava acontecendo as comemoração e que estava ainda mais lotado agora que tinha começado a tocar um cantor de bastante sucesso. Ainda assim, andei por toda a área, atento a qualquer sinal da Catarina ou de quem quer que pudesse dar alguma informação sobre ela.
Por sorte eu encontrei a minha irmã, que como eu já imaginava, estava abraçada a um homem com quem parecia estar se divertindo muito e eu me senti bastante incomodado em interromper o seu momento.
- Não sei onde a Catarina está - falei logo de uma vez.
Heloísa ficou tão preocupada quanto eu e nós combinamos de seguir em direções diferentes e comunicar um ao outro em caso de encontrar a minha namorada.
Decidi procurar também na orla da praia e caminhei atento a todos que por ali estavam, até que uma garota solitária sentada à beira mar me chamou atenção, mesmo que eu tivesse certeza de que não se tratava da Catarina, algo me fez parar e ficar observando as suas ações.
A praia parecia estar se aproximando cada vez mais de onde a garota estava, pois a cada vez que iam e vinham as ondas, mais elas quebravam próximo a garota e ela não parecia se importar por estar se molhando cada vez mais. Cheguei a pensar que ela talvez tivesse adormecido, mas seus ombros pareciam tremer fortemente e entendi que na verdade ela estava chorando copiosamente.
Outro fato preocupante era que naquela parte da orla a praia estava quase deserta, com poucas pessoas caminhando em direção a parte mais movimentada e tudo indicava que iria ficar ainda mais vazia no decorrer do tempo. Mas a garota não deve estar se dando conta disso ou até mesmo desejar estar completamente sozinha para chorar o seu pranto aparentemente tão sofrido.
Por algum motivo, eu não consegui ir embora e fingir que não vi aquela cena nitidamente triste e até mesmo... deprimente de uma garota chorando sozinha em pleno Ano Novo, enquanto as ondas da praia a molhavam mais e mais.