A música alta fazia o chão vibrar sob os pés de Alana, mas, ainda assim, ela se sentia completamente deslocada.
Aquele lugar não era para ela.
Luzes coloridas piscavam sem parar, iluminando rostos desconhecidos, corpos colados e risadas exageradas. O cheiro forte de bebida e perfume misturado deixava o ar pesado.
Ela respirou fundo, tentando ignorar a sensação ruim que apertava seu peito.
- Você tá estranha hoje - disse sua amiga, segurando um copo. - Relaxa, tenta se divertir.
Alana forçou um sorriso.
- Eu só preciso de um pouco de ar.
Sem esperar resposta, ela saiu dali, atravessando a multidão até alcançar a parte externa da casa.
O silêncio lá fora era quase estranho depois de tanto barulho.
Ela apoiou as mãos na parede, respirando fundo.
Mas a sensação não passou.
Pelo contrário...
Piorou.
Foi então que ela sentiu.
Aquela sensação.
Como se estivesse sendo observada.
Seu corpo inteiro ficou tenso.
Devagar, ela virou o rosto.
E o encontrou.
Encostado no carro, com os braços cruzados, estava um homem que não combinava com aquele lugar.
Alto.
Imponente.
O olhar fixo nela, intenso demais... quase sufocante.
- Fugindo da festa? - a voz dele era grave, calma... perigosa.
Alana engoliu seco, tentando manter o controle.
- Talvez.
Ele se afastou do carro e começou a se aproximar.
Passo por passo.
Seguro.
Dominante.
O tipo de homem que não pedia nada... apenas tomava.
- Você não parece pertencer àquele lugar - ele disse.
Ela ergueu o queixo, tentando não se intimidar.
- E você parece?
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
- Eu pertenço a qualquer lugar que eu quiser.
O coração dela acelerou.
Algo estava errado.
Muito errado.
Mas, ao mesmo tempo...
Era impossível ignorar.
- Qual é o seu nome? - ele perguntou, parando perto demais.
Ela hesitou.
Uma parte dela gritava para ir embora.
Para correr.
Mas outra parte...
Queria ficar.
- Alana.
Ele repetiu o nome dela devagar, como se estivesse guardando.
- Kael.
O nome soou pesado.
Importante.
Perigoso.
E, mesmo sem saber o motivo...
Alana teve certeza de uma coisa.
Aquele homem não era alguém comum.
Ele se aproximou ainda mais.
Agora, não havia espaço entre eles.
Alana podia sentir o cheiro dele... forte, marcante.
- Você devia ir embora - ele disse, mas não se afastou.
Confuso.
Contraditório.
- Por quê?
O olhar dele escureceu.
- Porque eu não sou o tipo de homem que você deveria conhecer.
Aquilo era um aviso.
Claro.
Direto.
Mas, mesmo assim...
Ela não saiu.
- E se eu quiser conhecer? - ela desafiou.
Por um segundo, o silêncio dominou tudo.
Então ele sorriu.
Mas não era um sorriso qualquer.
Era perigoso.
- Então você acabou de tomar a pior decisão da sua vida.
O coração dela disparou.
E, naquele momento...
Sem perceber...
Alana cruzava um caminho sem volta.
Mas algo dentro dela dizia que ainda não tinha acabado.
Que aquilo era só o começo.
Alana tentou se afastar, criando um pequeno espaço entre eles.
- Você sempre fala assim com quem acabou de conhecer? - perguntou, tentando recuperar o controle.
Kael inclinou levemente a cabeça, analisando cada detalhe dela.
Como se estivesse estudando.
Como se estivesse decidindo algo.
- Não - respondeu. - Só quando vale a pena.
O coração dela acelerou de novo.
Ela odiava o efeito que ele causava.
Mas não conseguia ignorar.
- Você é sempre tão convencido assim?
Ele deu um passo à frente.
De novo.
Diminuindo qualquer distância que ainda existia.
- Eu só falo o que é verdade.
O silêncio voltou.
Pesado.
Carregado.
Alana sabia que precisava ir embora.
Mas seus pés continuavam presos ao chão.
Como se alguma força invisível a mantivesse ali.
- Isso é loucura... - ela murmurou.
- É - ele concordou, sem desviar o olhar. - E mesmo assim você ficou.
Aquilo atingiu direto.
Sem defesa.
Sem saída.
Ela desviou o olhar por um instante, tentando organizar os pensamentos.
Mas quando voltou a encará-lo...
Já não havia mais dúvida.
Nem razão.
Nem volta.
E, no fundo...
Ela sabia.
Aquela noite não seria esquecida.
Alana sabia que deveria ir embora.
Cada parte do seu corpo gritava por isso.
Mas, estranhamente... ela não conseguia se mover.
Kael estava perto demais.
O olhar dele preso no dela, intenso, como se enxergasse além do que ela mostrava.
- Você sempre foge... ou só quando fica com medo? - ele provocou, a voz baixa e controlada.
Alana cruzou os braços, tentando esconder o quanto estava afetada.
- Eu não tenho medo.
Mentira.
E ele sabia.
O leve sorriso no rosto dele entregava isso.
- Tem sim - ele disse, dando mais um passo. - Mas não de mim.
O coração dela disparou.
- Então de quê?
Ele se inclinou levemente, ficando ainda mais próximo.
- De querer ficar.
O ar pareceu sumir.
Alana desviou o olhar por um segundo, tentando recuperar o controle.
Mas quando voltou a encará-lo... já era tarde.
Ele segurou a mão dela.
Firme.
Quente.
Dominante.
O toque fez seu corpo inteiro reagir.
- Vem comigo - ele disse.
Não foi um pedido.
Foi uma decisão.
O carro era silencioso demais.
Luxuoso demais.
E aquilo só aumentava a sensação de que ela estava entrando em algo perigoso.
Alana olhava pela janela, observando as luzes da cidade passarem rápido, tentando organizar os pensamentos.
Mas era impossível.
Tudo nela estava confuso.
- Você sempre leva desconhecidas pra casa? - perguntou, tentando manter alguma distância.
Kael não respondeu na hora.
Apenas a observou, como se estivesse avaliando cada reação dela.
- Só as que me interessam.
Ela engoliu seco.
- E por que eu?
Ele virou o rosto na direção dela, sem hesitar.
- Porque você não é como as outras.
Aquilo deveria soar como uma cantada.
Mas não soou.
Soou como algo mais sério.
Mais profundo.
Mais perigoso.
Alana desviou o olhar novamente, sentindo o coração bater mais forte do que deveria.
- Você nem me conhece.
- Conheço o suficiente.
- E o que você acha que sabe?
Ele demorou um segundo antes de responder.
- Que você tenta parecer forte... mas tá fugindo de alguma coisa.
Aquilo acertou em cheio.
Alana ficou em silêncio.
Ele tinha ido longe demais.
- Você fala demais pra alguém que acabou de me conhecer - ela respondeu, tentando se defender.
- E você se protege demais pra alguém que claramente quer se perder.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Carregado de algo que nenhum dos dois queria admitir.
Quando chegaram, Alana não conseguiu esconder a surpresa.
A cobertura era enorme.
Elegante.
Fria.
Com uma vista que dominava toda a cidade.
Luzes se espalhavam como estrelas lá embaixo.
Era bonito.
Mas também... solitário.
- Bonito, né? - ele perguntou.
- Demais... - ela respondeu, quase sem perceber.
Mas não era da vista que ela estava falando.
Kael se aproximou devagar.
Sem pressa.
Como se tivesse todo o controle da situação.
E talvez tivesse.
- Última chance - ele disse. - Você pode ir embora agora.
Alana sabia.
Aquele era o momento.
Se ela fosse embora...
Nada daquilo aconteceria.
Nada mudaria.
Mas...
Ela não se mexeu.
- E se eu não quiser ir?
O olhar dele escureceu.
O ambiente pareceu ficar menor.
Mais fechado.
Mais perigoso.
Kael ergueu a mão lentamente e tocou o rosto dela.
O polegar deslizou pela pele com uma calma que não combinava com ele.
- Então você fica.
O beijo veio sem aviso.
Forte.
Intenso.
Dominante.
Como se ele estivesse esperando por aquilo desde o momento em que a viu.
Alana tentou resistir por um segundo.
Mas foi inútil.
Quando percebeu...
Já estava completamente envolvida.
As mãos dele puxaram seu corpo contra o dele, sem espaço para dúvidas.
Sem espaço para fuga.
O calor entre os dois cresceu rápido demais.
Perigoso demais.
- Isso é errado... - ela murmurou entre o beijo.
- Eu nunca prometi ser certo - ele respondeu, a voz rouca.
Aquilo só piorou tudo.
Ou melhor...
Só tornou impossível parar.
Naquela noite...
Alana se perdeu.
Nos braços de um homem que ela não conhecia.
Mas que, de alguma forma...
Parecia conhecer exatamente cada fraqueza dela.
Cada reação.
Cada limite.
E ultrapassar todos eles.
Horas depois...
O silêncio tomou conta do quarto.
A respiração ainda pesada.
O corpo quente.
Mas o clima havia mudado.
Kael estava distante.
Frio.
Como se tivesse voltado a ser aquele homem inacessível.
Alana virou o rosto na direção dele.
- Isso foi um erro... - sussurrou.
Ele demorou alguns segundos para responder.
Quando respondeu...
Foi direto.
- Foi.
A resposta caiu como um peso.
Sem emoção.
Sem arrependimento.
Sem nada.
Alana fechou os olhos por um instante.
Aquilo não deveria incomodar.
Mas incomodou.
Mais do que ela gostaria de admitir.
- Então por que você me trouxe aqui?
Ele virou o rosto lentamente, encarando ela de novo.
- Porque eu quis.
Simples.
Frio.
Definitivo.
E naquele momento...
Alana entendeu.
Ela não sabia quem ele era.
Não sabia o que ele fazia.
Não sabia o tipo de vida que ele levava.
Mas sabia de uma coisa.
Kael não era um homem comum.
E se envolver com ele...
Nunca seria algo simples.
E, no fundo...
Ela sentia.
Aquilo ainda ia dar muito errado.
A luz do sol invadiu o quarto sem pedir permissão.
Forte.
Incomodando.
Alana se mexeu lentamente na cama, sentindo o corpo pesado... e a mente ainda mais.
Por alguns segundos, ela ficou ali, de olhos fechados, tentando entender onde estava.
Até que tudo voltou.
De uma vez.
A festa.
Kael.
O beijo.
A noite.
O coração dela acelerou.
Os olhos se abriram rapidamente.
Ela se sentou na cama, olhando ao redor.
Silêncio.
Frio.
Vazio.
Sozinha.
- Claro... - murmurou, passando a mão no rosto.
Aquilo não deveria surpreender.
No fundo, ela já sabia.
Homens como ele não ficavam.
Não explicavam.
Não se importavam.
Alana levantou da cama devagar, sentindo um aperto estranho no peito.
Olhou ao redor mais uma vez.
Nenhum sinal dele.
Nenhuma mensagem.
Nada.
Como se tudo aquilo tivesse sido apenas um momento...
E só.
- Foi um erro... - sussurrou para si mesma.
E precisava acabar ali.
Ela se vestiu rapidamente, pegou suas coisas e saiu daquele lugar sem olhar para trás.
O caminho de volta foi silencioso.
Pesado.
Cheio de pensamentos que ela tentava evitar.
Mas era impossível.
Kael não saía da cabeça dela.
O jeito que ele olhava.
O jeito que ele falava.
O jeito que ele dominava tudo ao redor...
Inclusive ela.
- Para com isso - murmurou, irritada consigo mesma.
Aquilo precisava acabar.
E ia acabar.
Horas depois...
Alana caminhava pela rua, tentando voltar à rotina.
Mas algo estava diferente.
As pessoas estavam estranhas.
O clima... tenso.
Homens parados em pontos estratégicos.
Carros escuros passando devagar.
Olhares desconfiados.
Seu coração começou a bater mais rápido.
- O que tá acontecendo...?
Ela diminuiu o passo.
Algo dentro dela dizia para ir embora.
Para sair dali.
Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa...
Um carro preto parou no meio da rua.
O tempo pareceu desacelerar.
O ar ficou pesado.
A porta do carro se abriu.
E ele desceu.
Kael.
Mas não era o mesmo homem da noite anterior.
Agora...
Ele era outra pessoa.
O olhar frio.
A postura dominante.
A presença que fazia tudo ao redor silenciar.
As pessoas abaixavam a cabeça.
Outras simplesmente saíam do caminho.
Ninguém ousava encarar.
Ninguém ousava falar.
- Abaixa a cabeça - alguém sussurrou ao lado dela.
Alana não se mexeu.
Não conseguia.
Estava paralisada.
Confusa.
Até ouvir:
- É ele...
- O dono do morro.
O mundo dela girou.
O coração disparou com força.
- Não... - ela sussurrou, sem acreditar.
Tudo começou a fazer sentido.
O jeito dele.
A frieza.
O controle.
O perigo.
Kael não era só um homem qualquer.
Ele era o homem mais temido dali.
O tipo de homem que ninguém enfrentava.
O tipo de homem que ninguém desafiava...
E ela tinha passado a noite com ele.
O olhar dele percorreu o lugar.
Observando tudo.
Controlando tudo.
Até parar nela.
Direto.
Intenso.
Sem desviar.
Alana sentiu o corpo inteiro gelar.
Ele lembrava dela.
Claro que lembrava.
E o pior...
Ele estava vindo na direção dela.
Cada passo dele parecia mais pesado que o anterior.
Mais dominante.
Mais perigoso.
As pessoas ao redor se afastavam automaticamente.
Abrindo caminho.
Como se aquilo fosse natural.
Como se ele fosse dono de tudo.
E talvez fosse.
Alana tentou recuar.
Mas seus pés não obedeceram.
O corpo travou.
A mente gritou.
Mas ela ficou ali.
Parada.
Esperando.
Kael parou bem na frente dela.
Perto demais.
O mesmo olhar intenso.
Mas agora... muito mais frio.
- Então foi pra isso que você sumiu? - ele disse, a voz baixa.
Alana engoliu seco.
- Eu... eu não sumi.
Mentira fraca.
E ele sabia.
O olhar dele escureceu.
- Não mente pra mim.
O tom não era alto.
Mas era pior.
Era uma ameaça.
O coração dela disparou.
- Eu não te devo nada - ela respondeu, tentando parecer firme.
Erro.
Um grande erro.
Kael deu um passo à frente.
Invadindo completamente o espaço dela.
- Deve sim - ele disse, baixo. - Você me deve explicação.
O ar ficou pesado.
Difícil de respirar.
Alana ergueu o olhar, tentando não se intimidar.
- Aquilo foi só uma noite.
O silêncio caiu.
Perigoso.
E então...
Ele sorriu.
Mas não era um sorriso bom.
Era frio.
Calculado.
- Pra você, talvez - ele disse. - Pra mim... não.
O coração dela falhou uma batida.
E naquele momento...
Alana percebeu.
Aquilo estava longe de acabar.
Na verdade...
Só estava começando.