O silêncio na cobertura não trazia paz.
Era um silêncio com textura, pesado e sufocante, como se tivessem socado algodão em seus ouvidos.
Evelina sentou-se na beirada da cama king size, os pés afundando no carpete creme que custava mais do que o salário anual que seu pai ganhava em vida.
Ela encarou o relógio digital na mesa de cabeceira.
14 de outubro.
Cinco anos.
Mil oitocentos e vinte e cinco dias interpretando o papel da Sra. Juliano Viana. O troféu. A sócia silenciosa. A mulher que sorria em bailes de gala e assentia quando o marido lhe explicava conceitos simples na frente de investidores, apesar de esses conceitos serem baseados em patentes que ela mesma havia escrito sob um pseudônimo.
Ela se levantou. O robe de seda farfalhou.
O movimento foi mecânico.
Caminhou até a cozinha, o chão de mármore gelado contra as solas descalças. A máquina de café expresso sibilou, um som violento no apartamento quieto.
Preparou a mistura de Juliano - setenta por cento Arábica, trinta por cento Robusta, moído especificamente por vinte e dois segundos.
Era um ritual de devoção. Ou, pelo menos, era o que parecia para quem via de fora.
Ela estendeu a mão para a lombada oca de um livro de culinária na prateleira alta. Dentro não havia uma receita de frango assado, mas um telefone descartável com criptografia militar.
Uma única luz de notificação piscava. Azul.
Pressionou o polegar no scanner. A tela desbloqueou.
Havia um e-mail de um remetente anônimo. O assunto era simples: Feliz Aniversário, Sra. Viana.
Evelina não tremeu.
Sua frequência cardíaca, monitorada pelo rastreador biológico disfarçado de relógio Cartier em seu pulso, vibrou suavemente contra a pele - uma notificação que ela habitualmente ignorava. Lia-se constantes sessenta e dois batimentos por minuto.
Ela tocou no anexo.
As fotos carregaram lentamente. Arquivos de alta resolução que não deixavam nada para a imaginação. O cenário era o quarto principal da propriedade nos Hamptons. O registro de data e hora era de ontem à tarde, quando Juliano alegou estar em um evento de caridade de golfe.
Juliano estava lá.
Ele estava deitado de costas, a cabeça jogada para trás em o que parecia ser êxtase.
Montada nele estava uma mulher com cabelos loiros que caíam sobre os ombros como ouro líquido.
Rubia de Alcântara.
Evelina deu zoom.
Olhou para a mão de Juliano, agarrando o quadril de Rubia. Olhou para a boca dele, aberta.
Sentiu uma pressão esmagadora no centro do peito, um peso gelado que nada tinha a ver com amor e tudo a ver com o desperdício de tempo.
Cinco anos escondendo seu brilhantismo para que o ego dele não se ferisse. Cinco anos deixando-o levar o crédito pelo trabalho dela.
Ela saiu do visualizador de fotos e abriu um aplicativo diferente. O ícone era um simples quadrado preto.
Era o portal de recrutamento para "O Protocolo". A oferta estava lá há seis meses. Um projeto fantasma. Uma chance de desaparecer e fazer a ciência que ela nascera para fazer, livre do sobrenome Viana.
O botão na tela dizia INICIAR.
Ela não hesitou.
Não pensou nos votos de casamento ou na maneira como ele costumava olhá-la antes do dinheiro começar a entrar.
Ela pressionou o botão.
Fase Um: Preparação para Extração. Contagem Regressiva: 168 Horas.
O relógio havia começado. Uma semana para desembaraçar a teia, garantir seus ativos e desaparecer no éter.
Ela encaminhou as fotos para um cofre seguro na nuvem, limpou o cache local do telefone e o colocou de volta dentro do livro de receitas exatamente quando o elevador apitou.
Juliano entrou.
Cheirava a Santal 33 e ao ar fresco de outubro. Parecia perfeito, daquela maneira polida e curada que fazia as revistas o amarem. Ajustou as abotoaduras enquanto caminhava em direção a ela, um sorriso estampado no rosto que não chegava aos olhos.
- Feliz aniversário, querida - disse ele.
Ele se inclinou e beijou sua bochecha.
Por baixo da colônia cara, ela sentiu o cheiro. O aroma fraco e enjoativo de baunilha e tuberosa. O perfume de Rubia.
A bile subiu na garganta de Evelina, mas ela engoliu em seco.
- Feliz aniversário, Juliano.
Sua voz estava firme. Era a voz de Evelina, a esposa apoiadora. Não a da Dra. Espindola, a arquiteta de sua destruição.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma longa caixa de veludo preto. Abriu-a para revelar um colar de diamantes, uma corrente delicada segurando uma pedra que era quase vulgar em seu tamanho.
- É lindo - disse ela, fingindo um suspiro de surpresa.
- Tenho que correr - disse ele, verificando o relógio. - Reunião do conselho hoje à noite. Vai acabar tarde. Não me espere acordada.
Ele se virou, oferecendo as costas para que ela pudesse ajudá-lo com a gravata. Estava torta.
Evelina estendeu a mão.
Pegou o tecido de seda. Deu o laço, puxando o nó com força. Deslizou-o até o colarinho.
Por um segundo, apenas um segundo, ela apertou demais. Sentiu a resistência contra a traqueia dele.
Juliano estremeceu, a mão voando para o pescoço.
#NAME?
Ela alisou a seda, recuando com um sorriso suave e apologético.
- Desculpe. Minhas mãos estão um pouco trêmulas. Cafeína demais.
Ele olhou para ela, a irritação piscando em seus olhos antes de mascará-la com aquele charme ensaiado.
- Tenha cuidado.
Ele pegou sua pasta e foi para o elevador. As portas se fecharam, cortando a imagem dele como uma lâmina de guilhotina.
Evelina ficou no centro da cozinha.
O sorriso caiu de seu rosto instantaneamente, deixando para trás uma máscara de fúria fria e dura.
Ela pegou o colar de diamantes do balcão. Ele brilhava na luz da manhã, um símbolo da culpa dele, um suborno para sua cegueira contínua.
Caminhou até o liquidificador de alta potência que usava para seus sucos verdes.
Jogou o colar lá dentro. O diamante atingiu as lâminas com um tilintar surdo.
Ela não ligou. Ainda não. O barulho alertaria os funcionários.
Apenas o deixou lá. Uma promessa.
Caminhou até a janela e olhou para o horizonte de Nova York. A contagem regressiva em sua mente tiquetaqueava.
Cento e sessenta e sete horas restantes.
A chuva em Nova York não lavava a alma; era suja e fria, cobrindo as ruas com uma fuligem que parecia permanente.
Evelina não pegou o carro da empresa. Não queria o motorista, um homem na folha de pagamento de Juliano, registrando sua localização.
Chamou um táxi amarelo, o banco de vinil rachado e cheirando a tabaco velho.
Destino: O Estaleiro Naval do Brooklyn.
Ela usava um sobretudo bege discreto, um cachecol enrolado no pescoço e óculos escuros enormes. Para o mundo, era apenas mais uma mulher tentando não se molhar. Para os scanners de reconhecimento facial na entrada dos Laboratórios Silveira, ela era um fantasma na máquina.
Ignorou a mesa de visitantes. Não precisava de crachá.
Levantou o pulso para o sensor, e o chip escondido em seu relógio - não o rastreador biológico que Juliano conhecia, mas a modificação que ela mesma havia feito - pulsou.
A catraca se abriu com um clique.
O segurança, um homem mais velho chamado Melo que havia sido das Forças Especiais em uma vida passada, olhou para cima. Não disse uma palavra, apenas deu um aceno breve e respeitoso. Ele sabia que ela tinha autorização. Sabia que ela não era a Sra. Viana.
Evelina caminhou pelos corredores, o zumbido dos servidores e o cheiro de ozônio acalmando seu sistema nervoso.
Aquela era sua igreja.
Entrou no laboratório privado da Dra. Fernanda Sálvia. Fernanda estava curvada sobre um microscópio, o cabelo ruivo preso em um coque bagunçado, segurado por um lápis.
#NAME?
- Eu estava iniciando a estratégia de saída - disse Evelina, fechando a porta e trancando-a.
Fernanda girou no banco. Seus olhos se arregalaram.
- Você fez isso? Começou o relógio?
Evelina enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pen drive USB. Era pequeno, prateado e continha dados suficientes para mandar Juliano para a prisão federal por fraude, peculato e roubo de propriedade intelectual.
- O relógio está correndo - disse Evelina. - Tenho seis dias para transferir os ativos e limpar meu histórico. Preciso que você guarde isso.
Ela entregou o pen drive para Fernanda.
Fernanda o conectou em seu terminal isolado da rede. Linhas de código rolaram pela tela. O queixo de Fernanda caiu.
- Santo Deus, Evie. Ele está alavancando as patentes que nem sequer garantiu ainda? Isso é... isso é um esquema de pirâmide construído em biotecnologia.
Evelina caminhou até o scanner de retina na parede oposta. Esse era o passo final para sua pré-autorização.
Inclinou-se. Um laser vermelho varreu seu olho.
Varredura Completa. Sujeito Não Reconhecido.
Evelina digitou uma sequência de números no teclado abaixo: seu ID original de dissertação.
Substituição Aceita. Identidade Confirmada: Dra. Evelina Espindola.
Uma luz vermelha no teto piscou silenciosamente. Diretor no Andar.
Evelina ficou rígida.
Augusto Silveira. O Diretor. O homem era um fantasma, uma lenda na área e assustadoramente perspicaz. Ela não estava pronta para encontrá-lo. Ainda não. Precisava estar totalmente desligada de Juliano primeiro.
- Tenho que ir - disse Evelina. - Não libere os dados ainda. Espere meu sinal.
Ela saiu pela porta dos fundos do laboratório, movendo-se em direção ao átrio principal. O átrio era uma estrutura de vidro maciça, aberta ao público para reuniões de investidores e eventos de relações públicas.
Estava na metade do caminho para a saída quando congelou.
Parado perto dos elevadores VIP, sob o enorme display digital de uma hélice de DNA, estava Juliano.
Ele não estava em uma reunião do conselho. Não estava no centro da cidade. Estava ali, em seu santuário, tentando vender a ciência dela para investidores.
E ele não estava sozinho.
Rubia estava com ele.
Ela usava um vestido inapropriado para um laboratório, algo justo e vermelho. Tinha a mão no antebraço de Juliano, os dedos traçando o tecido do terno dele.
Juliano se inclinou, sussurrando algo no ouvido dela. Rubia jogou a cabeça para trás e riu, um som que ecoou pelo espaço cavernoso.
Evelina se escondeu atrás de uma coluna de concreto. Seu coração batia contra as costelas. Se ele a visse ali, o jogo acabaria. Ele saberia que ela não era a esposa ingênua. Saberia que ela tinha acesso.
Seu telefone vibrou no bolso. Aquele que Juliano pagava.
Mensagem de Juliano: Reunião atrasada. Um tédio infernal. Sinto sua falta.
Evelina observou enquanto ele enviava a mensagem. Viu-o digitar com uma mão enquanto a outra descansava possessivamente na base das costas de Rubia.
Sentiu uma sensação estranha. Não era ciúme. Era dissociação. Sentia-se como uma cientista observando um rato em um labirinto. Um rato que estava prestes a cair em uma armadilha.
Um técnico de laboratório de jaleco branco passou pela coluna, quase esbarrando nela. Abriu a boca para se desculpar, para perguntar se ela estava perdida.
Evelina virou a cabeça. Baixou os óculos escuros apenas um centímetro. Seus olhos eram frios e duros como sílex. Ela colocou um dedo nos lábios.
O técnico fechou a boca, engoliu em seco e se afastou apressado. Ele não sabia quem ela era, mas reconhecia autoridade quando a via.
Juliano e Rubia entraram no elevador. As portas se fecharam.
Evelina soltou uma respiração que não sabia que estava segurando. Saiu para a chuva, a água encharcando seu casaco, lavando as últimas dúvidas persistentes.
Ela não ia apenas deixá-lo. Ela ia desmantelá-lo, peça por peça.
No dia seguinte, Evelina decidiu fazer um expurgo.
A cobertura parecia contaminada. Cada objeto guardava a memória de uma mentira. Ela precisava sentir o peso de seus próprios recursos, o poder que mantivera escondido no escuro.
Foi para a Quinta Avenida.
A Bergdorf Goodman era um templo de um tipo diferente. Cheirava a couro caro e dinheiro antigo.
Evelina não estava comprando as coisas cheias de babados e tons pastéis que Juliano gostava que ela usasse - as roupas de uma boneca dócil. Ela estava comprando para a Dra. Espindola. Linhas afiadas. Paletas monocromáticas. Estrutura.
Estava na seção de designers, passando a mão sobre um casaco de lã preto, quando ouviu a voz.
Era um som estridente e penetrante que fez seus dentes rangerem.
Vitória Viana. Sua sogra.
- Esta costura é atroz - dizia Vitória para uma assistente de vendas aterrorizada. - Você sabe com quem está falando?
Evelina congelou. Espiou por entre as araras de roupas.
Vitória estava sentada em um pufe de veludo como uma rainha em um trono. Ao lado dela, rodopiando em frente a um espelho triplo, estava Rubia. E sentado no sofá, parecendo entediado, mas segurando a carteira, estava Juliano.
Claro. A "Reunião do Conselho" continuava.
Evelina considerou ir embora. Poderia sair pela porta lateral. Mas então olhou para Juliano. Ele parecia tão confortável. Tão seguro em sua enganação.
Não.
Ela tirou o casaco preto da arara. Vestiu-o sobre o vestido. Serviu perfeitamente. Abotoou-o, levantando a gola. Saiu de trás da arara.
- Olá, Vitória - disse Evelina.
Sua voz era suave, ecoando sem esforço pela sala silenciosa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Vitória se virou, o rosto empalidecendo sob as camadas de maquiagem.
- Evelina? O que diabos você está fazendo aqui? Você parece... sem graça.
Juliano saltou do sofá. Seus olhos disparavam entre Evelina e Rubia. O pânico explodiu em suas pupilas.
- Evelina, querida. Eu... eu encontrei a mamãe e a Rubia. Nós estávamos apenas... escolhendo um presente para você.
Rubia parou de girar. Olhou Evelina de cima a baixo, um sorriso de escárnio brincando nos lábios. Inclinou-se para Vitória e sussurrou, alto o suficiente para todos ouvirem:
- Elle n'a pas de je ne sais quoi. Très ennuyeuse. (Ela não tem borogodó. Muito entediante.)
As assistentes de vendas olharam para baixo, tentando esconder o constrangimento. Juliano parecia aliviado por Evelina provavelmente não ter entendido.
Evelina sorriu.
Era um sorriso aterrorizante, mas ela o manteve direcionado a Rubia. Deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Rubia, até sentir o cheiro do perfume de baunilha.
Inclinou-se, os lábios roçando a orelha de Rubia, e sussurrou tão suavemente que nem Juliano nem Vitória puderam ouvir.
- Au contraire, chérie. C'est ton goût qui est ennuyeux. Et ta grammaire est atroce. (Pelo contrário, querida. É o seu gosto que é entediante. E sua gramática é atroz.)
Os olhos de Rubia se arregalaram em choque genuíno. Ela recuou, encarando Evelina como se fosse um fantasma. Evelina piscou, depois recuou, o rosto voltando a uma máscara de simpatia insossa.
- O que você disse? - perguntou Juliano, sentindo a tensão, mas perdendo o contexto.
- Só disse a ela que o vermelho realça os olhos dela - mentiu Evelina com fluidez.
Ela caminhou até o balcão onde Juliano havia deixado seu cartão Black. O cartão que estava vinculado à conta conjunta. A conta que era tecnicamente financiada pelos royalties das patentes do trabalho inicial dela, embora Juliano tivesse assinado os papéis.
Pegou o cartão. Parecia pesado e frio.
- Vou levar este casaco - disse ela à assistente. - E, na verdade...
Ela olhou para a bolsa de edição limitada que Rubia estava cobiçando. Aquela que custava doze mil dólares.
- Acho que a Rubia precisa de um presente de despedida.
Ela ergueu o cartão. Juliano estendeu a mão.
- Evelina, espere...
Evelina dobrou o cartão. O plástico gemeu, depois se partiu com um crack alto e seco que ecoou pela boutique.
Ela jogou as duas metades dentro da sacola de compras aberta de Rubia.
#NAME?
Ela enfiou a mão na bolsa e tirou uma pilha grossa de dinheiro - notas que havia retirado de seu cofre privado naquela manhã, irrastreáveis e frias. Bateu o dinheiro no balcão.
- Fique com o troco - disse à assistente atordoada.
Ela girou nos calcanhares, o casaco preto ondulando atrás dela como uma capa, e saiu da loja.
Não olhou para trás. Não precisava. Podia sentir o choque de Juliano irradiando como ondas de calor, mas sabia que ele não a perseguiria. Não com a mãe e a amante ali para administrar.