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Grávida do CEO Obsessivo

Grávida do CEO Obsessivo

Autor:: KayCe
Gênero: Bilionários
Aurora Bellini nunca pertenceu ao mundo dos homens como Lorenzo Ferraz. Frio, poderoso e perigosamente irresistível, Lorenzo é o CEO que todos temem, o homem que sempre consegue o que quer e que não aceita perder o controle de nada. Muito menos de uma mulher como Aurora. O que começa com uma noite de desejo e tensão logo se transforma em algo muito maior quando ela descobre que está grávida. Agora, carregando o filho do homem mais obsessivo que já conheceu, Aurora se vê presa em um jogo perigoso de poder, sedução e posse. Lorenzo não pretende ficar longe dela. Ao contrário. Decidido a proteger o herdeiro que carrega, ele a leva para perto de si e deixa claro que ninguém tocará no que é dele. Mas Aurora não está disposta a ser apenas a mãe do filho de um bilionário arrogante e controlador. Enquanto luta para manter sua independência, ela percebe que por trás do homem frio e implacável existe uma obsessão intensa, capaz de consumir tudo ao redor. Entre segredos, ciúmes, desejo e uma atração impossível de negar, Aurora precisará decidir se foge do homem que ameaça dominar seu coração... ou se se entrega ao CEO obsessivo que nunca pretende deixá-la partir.

Capítulo 1 Capitulo 1

A primeira coisa que eu senti foi o salto afundando no gramado perfeitamente aparado da mansão.

A segunda foi arrependimento.

Parei por um segundo na entrada lateral, segurando a alça da minha pequena bolsa dourada contra o corpo enquanto observava o reflexo das luzes nos enormes painéis de vidro da casa. Tudo naquela festa parecia caro demais, brilhante demais, distante demais da minha realidade. Os carros importados alinhados na entrada, a música elegante escapando do interior da mansão, as mulheres em vestidos que provavelmente custavam mais do que vários meses do meu aluguel. Até o ar parecia ter cheiro de riqueza.

- Você ainda pode ir embora - murmurei para mim mesma, mesmo sabendo que não iria.

A mensagem da minha amiga ainda estava aberta na tela do celular.

Para de drama e entra. É só um evento corporativo chique, não um casamento real. Você vai entregar os documentos, sorrir se alguém falar com você e sair. E, pelo amor de Deus, não derruba nada.

Soltei um suspiro, travei a tela e ergui o queixo. Aquilo devia ser simples. Entrar, encontrar a coordenadora do evento, entregar a pasta com os contratos que o escritório tinha mandado às pressas e ir embora antes que alguém percebesse que eu não pertencia àquele lugar.

O plano teria dado certo se, cinco minutos depois, eu não tivesse derramado champanhe em um homem que parecia ter saído da capa de uma revista de negócios e pecado.

- Meu Deus.

As palavras escaparam da minha boca em um sussurro horrorizado enquanto eu observava a mancha dourada escorrer pela frente impecável do terno escuro dele. O mundo ao redor pareceu congelar por um segundo. A taça vazia ainda tremia entre os meus dedos, e o garçom ao lado deu um passo discreto para trás, como se não quisesse ser associado ao desastre.

Levantei os olhos devagar.

Erro.

Grande erro.

O homem à minha frente era alto de um jeito quase ofensivo, com ombros largos o bastante para fazer o corte caro do paletó parecer ainda mais impecável. O maxilar era firme, bonito demais para inspirar qualquer confiança, e os cabelos escuros estavam penteados para trás com uma elegância sem esforço. Mas foram os olhos que me prenderam. Frios. Precisos. Perigosos. Olhos de quem estava acostumado a mandar, decidir e ser obedecido sem precisar elevar a voz.

Ele me encarava em silêncio.

Não com raiva descontrolada. O que teria sido melhor.

Era pior.

Era uma calma glacial.

- Eu sinto muito - consegui dizer, finalmente. - Foi sem querer.

O olhar dele desceu para a camisa molhada e depois voltou para o meu rosto com uma lentidão que me deixou desconfortavelmente consciente da minha própria respiração.

- Imagino que sim - respondeu.

A voz era baixa, firme e tão controlada quanto todo o resto nele.

Limpei a garganta, já sentindo o calor subir pelo meu pescoço.

- Tem algum guardanapo? Ou água com gás? Dizem que ajuda. Não sei se realmente ajuda, mas as pessoas sempre falam isso quando alguma tragédia com tecido acontece.

Por um instante, achei ter visto alguma coisa vacilar na expressão dele. Não exatamente um sorriso, mas algo perto o suficiente para me deixar ainda mais nervosa.

- Tragédia com tecido? - ele repetiu.

- Eu ia dizer "acidente", mas pareceu pequeno demais considerando o preço do seu terno.

Dessa vez, o canto da boca dele realmente se moveu.

Foi mínimo.

Mas aconteceu.

- Você costuma avaliar o valor das roupas dos desconhecidos? - perguntou.

- Só quando derramo bebida neles.

O silêncio que se seguiu não foi confortável. Também não foi ruim. Foi o tipo de pausa carregada que me deixou com a estranha sensação de que, apesar de estarmos no meio de um salão lotado, a atenção dele fazia todo o resto desaparecer.

Ele estendeu a mão, e por um segundo eu só fiquei olhando, confusa. Então percebi que ele queria a taça vazia. Entreguei imediatamente.

- Obrigada por não gritar comigo - falei, tentando aliviar a tensão.

- Eu pareço o tipo de homem que grita em público?

Quase respondi você parece o tipo de homem que não precisa gritar para assustar ninguém, mas tive juízo suficiente para manter a frase presa atrás dos dentes.

- Você parece o tipo de homem que demite alguém só com um olhar.

Os olhos dele ficaram fixos nos meus por um segundo mais longo.

- E você parece o tipo de mulher que fala o que pensa mesmo quando seria mais inteligente ficar em silêncio.

Senti meu coração tropeçar de leve.

Aquilo deveria soar como uma crítica. Talvez fosse. Ainda assim, havia algo na forma como ele me observava, atento demais, preciso demais, que transformava cada palavra em outra coisa. Um teste. Um interesse. Um risco.

Cruzei os braços, buscando firmeza.

- Ótimo. Então estamos empatados em primeiras impressões ruins.

Dessa vez, o sorriso apareceu de verdade. Discreto, rápido e absurdamente transformador. Ele deixou de parecer apenas frio.

Ficou pior.

Ficou atraente.

- Lorenzo Ferraz - disse ele, como se estivesse me concedendo uma informação rara. - E você é a única pessoa nesta casa que falou comigo sem tentar conseguir alguma coisa em troca.

Franzi a testa.

O nome bateu em mim com atraso.

Lorenzo Ferraz.

Não só o dono da mansão.

Não só o CEO do grupo que patrocinava metade dos eventos empresariais da cidade.

O Lorenzo Ferraz.

O homem que aparecia em revistas, entrevistas e manchetes econômicas com a mesma frequência com que pessoas comuns apareciam em filas de banco. O bilionário reservado. O executivo conhecido por comprar empresas inteiras e esmagar concorrentes com a elegância de quem escolhia gravatas.

Fiquei imóvel.

- Você tem cara de quem gostaria de voltar no tempo e agir de forma diferente - disse ele.

Soltei uma risada incrédula.

- Eu teria começado não jogando bebida em você. Parece um bom ponto de partida.

- E depois?

- Depois eu teria fingido que sabia quem você era antes de abrir a boca daquele jeito.

- Então teria mentido.

- Teria sido estratégica.

Lorenzo inclinou levemente a cabeça, me estudando com um interesse crescente que me deixou mais alerta do que confortável.

- Qual é o seu nome?

- Aurora Bellini.

- Aurora - ele repetiu, como se experimentasse o som na boca. - Combina com você.

Eu deveria agradecer. Ou ignorar. Ou sair dali imediatamente, porque já estava envolvida naquela conversa muito mais do que era seguro.

Em vez disso, perguntei:

- Isso costuma funcionar?

- O quê?

- O olhar, a voz baixa, o comentário calculado. Esse pacote completo de homem perigosamente bem-vestido.

O brilho nos olhos dele mudou. Escureceu. Ficou mais atento.

- Você sempre provoca desconhecidos em festas onde claramente não queria estar?

- Só os que merecem.

- E eu mereço?

Abri a boca, mas hesitei. Porque aquela era a primeira pergunta de verdade desde que nos encontramos. Não era sobre educação nem sobre flerte. Era um convite discreto, quase invisível, para ver até onde eu iria.

Sustentei o olhar dele.

- Ainda não decidi.

Por um segundo, alguma coisa pesada se instalou entre nós. Não era só atração. Atração eu conhecia. Já tinha visto, já tinha sentido, já tinha recusado. Aquilo era diferente. Mais afiado. Mais direto. Como se a presença dele me puxasse para perto enquanto meu instinto mandava manter distância.

Uma mulher de vestido vinho se aproximou naquele momento e tocou de leve o braço dele.

- Estão procurando você na sala de reuniões menor - disse ela, sem esconder o incômodo ao me olhar. - Os investidores já chegaram.

Lorenzo não desviou os olhos de mim imediatamente, e aquilo, por alguma razão absurda, fez minha pele se arrepiar.

- Diga que já vou - respondeu.

A mulher apertou os lábios antes de se afastar.

Soltei o ar devagar.

- Investidores, então. Agora tudo faz mais sentido. Eu realmente deveria ir antes de causar um prejuízo internacional.

- Você não causou prejuízo algum.

- Seu terno talvez discorde.

- Meu terno é substituível.

A resposta veio simples, mas havia alguma coisa por trás dela. Uma intenção baixa, firme, quase íntima demais para dois estranhos que se conheciam havia poucos minutos.

Passei a língua pelos lábios, nervosa, e odiei perceber o instante exato em que o olhar dele acompanhou o movimento.

- Eu vim só entregar uns documentos - expliquei, porque precisava lembrar a mim mesma o que estava fazendo ali. - Já cumpri minha cota de constrangimento da noite.

- Você trabalha para quem?

Hesitei por um segundo.

- Para um escritório terceirizado que presta serviço jurídico para eventos e contratos empresariais. Hoje eu só estava cobrindo um favor.

- Então você não pertence a esse círculo.

Não foi dito com crueldade. Também não foi dito com delicadeza. Era só uma constatação.

Ergui o queixo.

- Nem todo mundo aqui nasceu em berço de ouro.

Os olhos dele desceram devagar pelo meu rosto, atentos demais.

- Não. Alguns brilham sem precisar disso.

Odiei o efeito que aquela frase teve em mim.

Porque não pareceu uma cantada qualquer.

Pareceu observação.

E observações, quando vinham de homens como Lorenzo Ferraz, eram perigosas.

Dei um passo para trás.

- Foi... interessante conhecer você, senhor Ferraz.

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Agora é senhor Ferraz?

- Acho mais apropriado do que continuar agindo como se eu não tivesse acabado de constranger um dos homens mais ricos do país.

- Eu prefiro Lorenzo.

A familiaridade inesperada atingiu meu peito de um jeito estranho. Quente. Incômodo. Sedutor.

Apertei a pasta de documentos contra o corpo.

- Boa noite, então.

Virei antes que ele respondesse. Antes que eu perdesse o juízo de vez e continuasse ali parada, alimentando aquela tensão absurda. Atravessei o salão tentando manter o passo firme e o rosto neutro, mas sentia o peso do olhar dele entre as minhas omoplatas como se fosse um toque real.

Só consegui respirar direito quando alcancei o corredor lateral que levava à área administrativa da mansão.

- Idiota - sussurrei para mim mesma.

Eu não sabia se estava falando dele ou de mim.

Entreguei a pasta à coordenadora, ouvi instruções rápidas, assinei um protocolo e saí pelos jardins laterais numa pressa silenciosa, como se deixar aquela propriedade encerrasse o efeito que Lorenzo Ferraz tinha causado em mim em menos de quinze minutos.

Mas, ao chegar ao portão, percebi que o carro de aplicativo ainda demoraria nove minutos.

Nove.

Soltei um resmungo impaciente e abracei os próprios braços quando o vento da noite passou frio pela minha pele descoberta.

- Seu carro só chega em nove minutos.

Virei tão rápido que quase perdi o equilíbrio.

Lorenzo estava a poucos passos de mim.

Sem os convidados ao redor, sem a música elegante, sem a multidão para suavizar sua presença, ele parecia ainda maior. Mais duro. Mais errado para mim.

- Você me seguiu? - perguntei, antes de pensar melhor.

- Eu vim até a entrada principal e vi você esperando sozinha.

- Isso não respondeu exatamente à pergunta.

Os olhos dele desceram até a tela do celular na minha mão, onde o tempo do aplicativo ainda corria, e depois voltaram para o meu rosto.

- Minha motorista pode levar você.

Soltei uma risada curta, mais nervosa do que divertida.

- Sua motorista?

- Sim.

- Claro. Porque aceitar carona de um bilionário que acabei de conhecer parece uma decisão excelente e equilibrada.

Lorenzo deu mais um passo.

Não o suficiente para invadir meu espaço.

Só o bastante para mexer com o ar entre nós.

- Você me acha perigoso, Aurora?

A pergunta veio baixa, sem pressa.

Eu deveria responder com ironia. Com leveza. Com qualquer coisa menos a verdade.

Mas havia alguma coisa na forma como ele me olhava que arrancava honestidade de mim com uma facilidade irritante.

- Acho - respondi.

A expressão dele não mudou.

- E mesmo assim ainda está aqui conversando comigo.

Engoli em seco.

- Meu carro ainda não chegou.

- Não foi isso que eu quis dizer.

O silêncio caiu de novo, denso, quente, vivo.

Eu podia ouvir o som distante da festa atrás dos muros, o farfalhar das árvores com o vento e o meu próprio coração insistindo em bater forte demais. Havia homens bonitos no mundo. Havia homens ricos, arrogantes, charmosos e inacessíveis. Eu sabia disso. Mas nenhum jamais tinha me olhado como Lorenzo olhava.

Como se já tivesse me escolhido.

Como se a decisão não dependesse inteiramente de mim.

E aquilo deveria me assustar muito mais do que estava assustando.

- Eu realmente preciso ir - falei, ainda que minha voz tivesse saído mais baixa do que eu queria.

Lorenzo manteve os olhos presos nos meus por mais um instante antes de assentir.

- Então vá.

Franzi a testa, surpresa pela facilidade.

Mas antes que eu pudesse me mover, ele completou:

- Só não cometa o erro de achar que vou esquecer você depois de hoje.

O ar pareceu desaparecer por um segundo.

Fiquei imóvel.

Lorenzo recuou, a postura novamente impecável, o rosto voltando àquela calma elegante e indecifrável que o tornava ainda mais difícil de ler.

- Boa noite, Aurora.

Então virou as costas e foi embora, me deixando sozinha no portão, com o vento bagunçando meu cabelo e uma sensação inquieta percorrendo cada centímetro do meu corpo.

Meu carro chegou dois minutos depois.

Entrei sem olhar para trás.

Mas, durante todo o caminho até em casa, as palavras dele continuaram ecoando na minha cabeça como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo.

Só não cometa o erro de achar que vou esquecer você depois de hoje.

E, pela primeira vez em muito tempo, tive a nítida sensação de que minha vida estava prestes a sair dos trilhos.

Capítulo 2 Capitulo 2

Eu dormi mal.

Na verdade, dizer que dormi mal era generoso demais. Eu rolei na cama, revirei o travesseiro, reclamei sozinha no escuro e perdi horas encarando o teto do meu apartamento como se ele pudesse me explicar por que um homem que eu conheci por menos de vinte minutos ainda estava ocupando espaço demais na minha cabeça.

Só não cometa o erro de achar que vou esquecer você depois de hoje.

Quem dizia uma coisa daquelas para uma estranha?

Um homem arrogante, insuportável e absurdamente convencido.

Fechei os olhos com força e puxei o cobertor até a cintura, irritada comigo mesma por ainda conseguir ouvir a voz dele tão claramente. Baixa, firme, controlada. Como se cada palavra tivesse sido escolhida com cuidado. Como se ele soubesse exatamente o efeito que causava nas pessoas.

O pior era que sabia mesmo.

Na manhã seguinte, acordei atrasada, com a cabeça pesada e o mau humor de quem tinha dormido pouco e pensado demais. Meu apartamento parecia menor quando eu estava cansada. A sala e a cozinha dividiam o mesmo espaço apertado, o corredor estreito levava ao quarto e ao banheiro, e a bancada perto da janela estava coberta por papéis, um copo esquecido da noite anterior e a minha bolsa ainda jogada onde eu a tinha deixado ao chegar.

Era um lugar simples. Pequeno. Meu.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma necessidade estranha de me agarrar ainda mais àquela normalidade.

Tomei banho correndo, prendi o cabelo num coque torto e escolhi a primeira roupa minimamente decente que encontrei. Uma calça social escura, uma blusa de tecido leve em tom claro e um blazer que já tinha visto dias melhores. Passei corretivo nas olheiras, peguei minha bolsa e saí quase tropeçando na pressa.

O escritório onde eu trabalhava ficava no terceiro andar de um prédio comercial antigo no centro, espremido entre uma contabilidade e uma pequena agência de seguros. Nada ali tinha glamour. O elevador travava quando queria, a recepção era apertada e a máquina de café fazia um líquido duvidoso que todos fingiam gostar porque era grátis.

Eu gostava daquilo.

Gostava da vida possível, concreta, sem excessos.

Talvez por isso Lorenzo Ferraz parecesse tão deslocado na minha cabeça. Ele não combinava com nenhuma parte da minha rotina. Era grande demais, caro demais, intenso demais. Um homem como aquele existia em outro universo.

E era exatamente por isso que eu precisava esquecê-lo.

- Você está péssima - disse Clara, assim que me viu entrar.

Larguei a bolsa sobre a minha mesa e lancei um olhar cansado para ela.

- Bom dia para você também.

Clara girou a cadeira na minha direção e cruzou os braços, me examinando com a intimidade impiedosa de quem me conhecia há anos.

- Não, sério. Você está com cara de quem ou chorou por macho ou matou alguém no pensamento.

- Nenhuma das duas opções.

- Então foi ressaca?

- Também não.

Clara estreitou os olhos.

- Foi o evento de ontem, não foi?

Eu devia ter sabido que não escaparia daquilo. Clara tinha sido a mesma pessoa que me mandou entrar na festa sem drama, e agora me olhava com a curiosidade de uma jornalista farejando escândalo.

Sentei na cadeira, liguei o computador e fingi concentração.

- Não aconteceu nada.

- Aurora.

- Eu só derramei champanhe em um homem.

- Isso, vindo de você, já conta como alguma coisa. E pela sua cara, não foi em qualquer homem.

Suspirei e virei o rosto para encará-la.

- Foi em Lorenzo Ferraz.

Clara ficou em silêncio.

Piscou uma vez.

Depois se inclinou para frente como se eu tivesse confessado um crime federal.

- Você derramou bebida no Lorenzo Ferraz?

- Sim.

- O Lorenzo Ferraz?

- Quantos Lorenzos Ferraz você conhece?

Ela arregalou os olhos.

- Meu Deus. E você ainda está viva.

- Eu também achei surpreendente.

Clara soltou um ruído incrédulo e depois abriu um sorriso largo demais.

- Me conta tudo.

- Não tem tudo.

- Tem sim. Você está com essa cara porque tem.

Recostei na cadeira, irritada por ela estar certa. Mais irritada ainda por eu mesma estar alimentando aquilo. Contei a versão resumida. O champanhe. A conversa. O jeito como ele me olhou. A frase no portão. O maldito "não vou esquecer você".

Clara ouviu tudo com uma expressão que alternava entre choque, diversão e interesse exagerado.

- Então deixa eu ver se entendi - disse ela, devagar. - Você foi entregar documentos, invadiu o espaço de um dos homens mais ricos do país com champanhe, flertou com ele sem saber quem era, descobriu que ele era Lorenzo Ferraz e mesmo assim continuou respondendo à altura?

- Quando você fala assim, parece pior.

- Porque é pior.

Passei a mão pelo rosto.

- Ele é arrogante.

- Ele é bonito?

Fiquei em silêncio por um segundo.

Clara arqueou as sobrancelhas.

- Ah, então é bonito.

- Isso é irrelevante.

- Aurora, homem feio nunca fica morando na cabeça de ninguém no dia seguinte. Pode tentar me enganar com outra.

Abri a boca para responder, mas a voz da recepcionista interrompeu antes.

- Aurora, tem alguém procurando por você.

Franzi a testa.

- Por mim?

A recepcionista apareceu na entrada da sala com uma expressão confusa.

- Disse que veio entregar uma coisa.

Eu me levantei, ainda sem entender, e caminhei até a recepção. Clara veio atrás de mim sem nem fingir discrição.

Assim que virei o corredor, parei.

Um homem de terno escuro estava perto do balcão, segurando uma caixa retangular elegante nas mãos. Devia ter pouco mais de quarenta anos, postura impecável, expressão profissional demais para aquele prédio apertado.

Quando me viu, endireitou-se ainda mais.

- Senhorita Bellini?

- Sim?

Ele estendeu a caixa para mim.

- Isto foi enviado pelo senhor Lorenzo Ferraz.

Senti meu estômago afundar.

Clara soltou um som engasgado atrás de mim, claramente se segurando para não explodir.

- Desculpa... o quê? - perguntei, porque meu cérebro parecia ter desistido de acompanhar.

O homem manteve a serenidade irritante de quem estava acostumado a lidar com surpresas alheias.

- O senhor Ferraz pediu que eu entregasse pessoalmente.

Olhei para a caixa como se ela pudesse morder.

- Deve haver algum engano.

- Não há, senhorita.

Meu nome estava escrito à mão em um pequeno cartão preso à embalagem.

Aurora.

Sem sobrenome. Sem formalidade.

Só aquilo.

Meu coração bateu mais forte, e eu odiei o efeito imediato que aquilo teve em mim.

Peguei a caixa por puro reflexo.

Era mais leve do que eu esperava.

- Ele disse mais alguma coisa?

- Apenas que a senhorita entenderia.

Entenderia?

Eu não estava entendendo absolutamente nada.

O homem fez um breve aceno de cabeça e foi embora antes que eu pudesse insistir. Fiquei parada no meio da recepção, segurando a caixa como uma idiota, enquanto Clara praticamente vibrava ao meu lado.

- Abre isso agora - sussurrou, com urgência.

- Não.

- Aurora.

- Clara, eu estou trabalhando.

- Você está segurando um presente enviado por Lorenzo Ferraz. Ninguém nesta sala vai conseguir voltar ao trabalho enquanto você não abrir isso.

Infelizmente, ela tinha razão. Até a recepcionista estava tentando fingir que não prestava atenção, mas claramente prestava.

Voltei para minha mesa com a caixa nas mãos e me sentei devagar. Minha pulsação estava rápida demais para um simples objeto embalado com fita preta.

Clara se encostou na divisória ao lado da minha mesa, me observando com olhos arregalados.

- Abre.

Soltei o ar e puxei a fita.

Dentro da caixa havia um vestido.

Parei por um segundo, encarando o tecido escuro, macio, sofisticado demais para pertencer ao meu mundo. Debaixo dele, havia outro cartão.

Dessa vez, reconheci a caligrafia firme no mesmo instante.

Para substituir o champanhe derramado pela nossa primeira impressão. Hoje, às oito. - L.F.

Fiquei olhando para as palavras por tempo demais.

Clara arrancou o cartão da minha mão antes que eu reagisse.

- Hoje, às oito? - Ela me olhou como se estivesse prestes a ter um colapso de empolgação. - Ele te chamou para sair.

- Não.

- Aurora.

- Isso não é um convite. É uma ordem disfarçada de elegância.

- E desde quando isso não faz parte do charme de um homem desses?

Virei o rosto para ela com uma expressão seca.

- Em todas as épocas da história.

Clara riu.

Eu não.

Peguei o cartão de volta e li de novo, mais devagar. O vestido. A hora. A assinatura. O tom seguro. Como se ele já esperasse que eu fosse. Como se mandar aquilo para o meu local de trabalho não fosse uma invasão absurda.

Porque era.

Era exatamente isso.

E ainda assim, havia alguma coisa naquele gesto que me deixava inquieta de um jeito difícil de nomear. Não era romantismo. Não era delicadeza. Era intenção. Lorenzo Ferraz não fazia nada pela metade. Nem mesmo quando decidia aparecer na vida de alguém.

Fechei a caixa com mais força do que o necessário.

- Eu não vou.

Clara soltou uma gargalhada curta.

- Vai, sim.

- Não vou.

- Vai porque está ofendida, curiosa e atraída. E essa combinação sempre termina mal.

- Obrigada pela confiança.

Ela sorriu, sem o menor sinal de arrependimento.

- Eu te conheço.

Passei o restante da manhã tentando trabalhar, mas foi inútil. O vestido parecia ocupar espaço demais mesmo fechado dentro da caixa. O cartão estava guardado na gaveta, e ainda assim eu conseguia sentir o peso das palavras como se estivesse com ele nas mãos.

Hoje, às oito.

Nenhum pedido. Nenhuma pergunta. Nenhum talvez.

Só certeza.

No horário do almoço, peguei o celular mais vezes do que gostaria de admitir, como se em algum momento fosse encontrar uma explicação razoável para tudo aquilo. Não encontrei.

Também não encontrei mensagem nenhuma.

O que, de alguma forma, era pior.

Porque significava que Lorenzo não achava necessário insistir. Ele tinha enviado o vestido e isso bastava. Como se o gesto falasse por si. Como se ele já tivesse deixado claro que, quando decidisse algo, o mundo ao redor simplesmente se ajustaria.

Aquilo deveria me irritar.

E irritava.

Mas também mexia comigo de um jeito perigoso.

No fim do expediente, eu ainda estava repetindo para mim mesma que não iria.

Levei a caixa comigo porque não queria deixá-la no escritório e alimentar a fofoca por mais um dia. O céu já estava escurecendo quando saí do prédio, e o movimento da rua seguia apressado, barulhento, comum. Gente atravessando fora da faixa, vendedores gritando ofertas, buzinas, cheiro de asfalto quente.

Minha vida.

Meu mundo.

Segurei a alça da bolsa em um ombro e a caixa contra o corpo no outro braço, decidida a entrar no metrô, ir para casa, tomar banho e esquecer aquilo. Talvez comer qualquer coisa gordurosa. Talvez assistir alguma série ruim. Talvez recuperar o resto da sanidade que perdi desde a noite anterior.

- Senhorita Bellini.

Parei no meio da calçada.

Fechei os olhos por um segundo antes de me virar.

Não era Lorenzo.

Era o mesmo homem que havia levado a caixa ao escritório, agora parado ao lado de um carro preto estacionado próximo à calçada. Elegante, discreto e completamente deslocado no caos do centro.

- O senhor Ferraz está aguardando.

Meu coração bateu forte demais.

- O quê?

- Estou aqui para levá-la.

Soltei uma risada sem humor.

- Eu não confirmei nada.

- Fui instruído a buscá-la às dezenove horas.

Olhei para o carro, depois para ele, e senti uma mistura de indignação e incredulidade subir pelo meu peito.

Aquilo era um absurdo.

Um completo e arrogante absurdo.

- Ele sempre acha que pode decidir pelos outros?

O motorista não respondeu. Provavelmente porque era inteligente.

Apertei a caixa contra o corpo.

- Pois diga ao seu chefe que eu não entro em carros enviados por homens controladores que se acham donos da situação.

O homem apenas inclinou a cabeça.

- Posso transmitir suas palavras exatamente como foram ditas, se a senhorita preferir.

Abri a boca.

Fechei.

Respirei fundo.

- Ótimo. Transmita.

Dei meia-volta antes que ele pudesse responder e continuei andando com o coração disparado. Meu passo estava rápido demais, duro demais, e eu mal sentia o peso da caixa nos braços.

Eu devia me sentir aliviada.

Devia.

Mas a verdade era que uma parte minha estava quente, elétrica, viva demais.

Como se dizer não a Lorenzo Ferraz não tivesse encerrado nada.

Como se tivesse apenas dado início ao jogo.

E, por algum motivo idiota, perigoso e completamente fora do meu controle, eu já começava a suspeitar que ele não era o tipo de homem que aceitava recusas com facilidade.

Capítulo 3 Capitulo 3

Eu sabia que ele não aceitaria aquilo bem.

Mas, quando finalmente cheguei em casa, larguei a caixa do vestido sobre o sofá e tranquei a porta do apartamento atrás de mim, tentei convencer a mim mesma de que o assunto tinha terminado ali. Eu tinha recusado. Tinha deixado claro. E, por mais arrogante que Lorenzo Ferraz fosse, ele ainda devia entender o significado simples e universal de um não.

Ou pelo menos foi nisso que tentei acreditar enquanto tomava banho, vestia uma camiseta velha e um short confortável e prendia o cabelo em um coque frouxo. Coloquei água para ferver, fiz um macarrão instantâneo porque meu talento culinário e meu estado emocional não permitiam nada mais elaborado, e me joguei no sofá com a intenção de assistir qualquer coisa tão idiota que desligasse meu cérebro por algumas horas.

Não funcionou.

Toda vez que eu olhava para a caixa preta sobre a poltrona, meu estômago se contraía do mesmo jeito. Como se aquele objeto tivesse vida própria. Como se ocupasse mais espaço do que deveria no meu apartamento pequeno demais, na minha noite silenciosa demais, na minha cabeça já lotada demais.

Hoje, às oito.

Passei a mão pelo rosto e resmunguei sozinha.

- Narcisista do inferno.

Eu ainda estava xingando mentalmente Lorenzo Ferraz quando a campainha tocou.

Congelei.

Olhei para a porta.

A campainha tocou de novo, dessa vez mais longa.

Meu coração desacelerou por um segundo, só para então voltar a bater forte demais. Ninguém me visitava sem avisar. Clara não aparecia do nada. Minha vizinha do andar de baixo costumava mandar mensagem antes de subir quando precisava de alguma coisa. E eu definitivamente não tinha encomendado comida.

Levantei devagar.

A terceira vez foi uma batida firme na porta, não a campainha.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

Andei até a entrada em passos silenciosos e parei, olhando pelo olho mágico.

Prendi a respiração.

Lorenzo.

É claro que era Lorenzo.

Por um segundo ridículo, meu cérebro se recusou a processar a imagem dele parado no corredor estreito do meu prédio. Aquilo parecia errado em tantos níveis que chegava a ser quase ofensivo. O terno escuro, o corpo grande demais para aquele espaço apertado, a postura impecável, a presença absurda. Era como ver uma peça cara demais de outro mundo jogada dentro da minha realidade simples.

Fechei os olhos por um instante.

Quando abri de novo, ele ainda estava ali.

- Eu sei que você está aí, Aurora - a voz dele atravessou a madeira da porta, baixa e calma.

A familiaridade no jeito como ele disse meu nome fez um arrepio descer pela minha espinha.

Fiquei imóvel por mais dois segundos, debatendo comigo mesma se fingia que não estava em casa. Mas, honestamente, já era tarde para isso. Ele sabia. E eu também sabia que um homem como Lorenzo não tinha subido até o meu apartamento para ir embora depois de ser ignorado.

Abri a porta só o suficiente para meu corpo preencher a passagem.

- Você perdeu a noção completamente?

Os olhos dele desceram por mim num único movimento lento, atento, detalhado demais. Da minha camiseta larga ao meu short simples, das pernas nuas ao cabelo preso de qualquer jeito, até voltar ao meu rosto.

Eu odiei sentir o calor instantâneo que aquele olhar provocou.

- Boa noite para você também - disse ele.

- Não. Não vamos fazer isso. Você mandou um carro atrás de mim sem eu confirmar nada e agora aparece na minha casa? Isso não é normal.

Lorenzo não pareceu minimamente abalado pela minha irritação.

- Não, não é.

A resposta me fez franzir a testa.

- Então você admite?

- Admito que você não me parece o tipo de mulher que aceitaria um pedido comum.

Cruzei os braços.

- E isso, na sua cabeça distorcida, justifica agir como um perseguidor elegante?

Por um instante, algo brilhou nos olhos dele. Não ofensa. Quase humor.

- Elegante é melhor do que perseguidor.

- Nenhum dos dois é bom.

Ele sustentou meu olhar sem pressa, sem vacilar, como se a minha raiva fosse apenas mais uma camada interessante a ser observada.

- Posso entrar?

Soltei uma risada curta, incrédula.

- Não.

- Então vamos conversar aqui no corredor?

- Lorenzo, nós não temos nada para conversar.

- Temos. Você recusou meu convite.

- Exatamente. Fim da história.

- Não para mim.

A forma simples como ele disse aquilo fez meu estômago apertar.

Eu devia bater a porta. Devia. Era o óbvio, o sensato, o coerente. Só que havia alguma coisa perigosamente hipnótica no fato de ele realmente ter vindo até ali. Não por ego ferido, eu percebia isso. Não só por isso. Havia intenção demais na presença dele. Foco demais. Como se, desde o instante em que me viu naquela festa, algo tivesse travado dentro dele numa direção sem retorno.

- Você sempre faz isso? - perguntei. - Quando alguém te contraria, você invade a vida da pessoa até conseguir o que quer?

- Nem sempre.

- Que alívio. Então sou um caso especial.

- Sim.

A palavra saiu sem hesitação.

Sem jogo.

Sem charme disfarçado.

Só verdade.

Meu corpo inteiro ficou estranhamente tenso.

Lorenzo deu um passo à frente, mas parou antes de tocar a porta.

- Passei o dia inteiro pensando em você - disse ele, a voz ainda baixa, controlada. - E isso não costuma acontecer comigo.

Eu deveria ter revirado os olhos. Debochado. Rido na cara dele.

Mas não fiz nada disso.

Porque ele não parecia um homem dizendo a frase certa para conseguir levar alguém para a cama. Ele parecia irritado com a própria confissão. Como se aquilo o desagradasse quase tanto quanto mexia com ele.

- Isso não é problema meu - respondi, embora minha voz tenha saído menos firme do que eu queria.

- Está se tornando.

O silêncio caiu pesado entre nós.

Eu podia ouvir uma televisão ligada em algum apartamento distante, o barulho do elevador subindo no fim do corredor, o som da minha própria respiração ficando mais rasa. Lorenzo ocupava aquele espaço de um jeito absurdo. Tudo nele parecia grande demais. A altura, a presença, a intensidade. Até o silêncio dele parecia maior que o normal.

- Você não pode simplesmente aparecer aqui - falei, mais baixo desta vez.

- E, no entanto, eu apareci.

- Isso não torna a situação menos absurda.

- Não. Mas torna honesta.

Franzi a testa.

- Honesta?

- Eu poderia ter mandado flores. Joias. Poderia ter feito tudo do jeito correto, previsível, ensaiado. Mas eu não queria uma resposta educada, Aurora. Eu queria olhar para você quando dissesse não.

Meu coração bateu uma vez, forte.

- E agora você olhou.

Os olhos dele escureceram um pouco mais.

- Sim. E continuo não gostando da resposta.

A ousadia daquela frase deveria me irritar ainda mais. Em vez disso, ela fez alguma coisa quente e perigosa se espalhar dentro de mim. Uma sensação ruim. Errada. Quase elétrica.

Apertei mais os braços contra o peito.

- Você é insuportável.

- Já me disseram isso antes.

- Imagino que com frequência.

- Não por mulheres que me interessam.

A resposta veio imediata demais.

Firme demais.

Meu corpo inteiro percebeu antes da minha mente. O calor no pescoço. O estômago apertando. A consciência irritante da proximidade dele. Eu odiava o efeito que Lorenzo Ferraz tinha em mim. Odiava porque ele sabia. E, pior, porque não parecia disposto a esconder que sabia.

- Você nem me conhece - rebati.

- Conheço o bastante.

- Em duas conversas?

- Conheço o bastante para saber que você não se impressiona com dinheiro, não baixa a cabeça quando se sente pressionada, fala o que pensa mesmo quando seria mais seguro mentir e tem o hábito irritante de continuar na minha cabeça quando eu deveria estar pensando em coisas mais importantes.

Pisguei, surpresa.

Não pela observação em si.

Mas pelo fato de ele ter prestado atenção de verdade.

Aquilo não era um homem repetindo frases treinadas. Era um homem que observava. E homens que observavam demais eram sempre mais perigosos.

- Você analisa todo mundo assim? - perguntei.

- Não. Só quem importa.

Meu estômago afundou de novo.

Dei um passo para trás, mais por instinto do que por decisão. Lorenzo notou. Claro que notou. Os olhos dele acompanharam o movimento com a atenção afiada de sempre.

- Você está com medo de mim? - perguntou.

A pergunta veio calma, mas havia algo tenso por baixo da superfície. Não fragilidade. Lorenzo Ferraz não era frágil. Era controle. Um controle tão rigoroso que qualquer rachadura parecia ainda mais intensa.

- Eu estou tentando decidir se deveria estar.

Ele inclinou a cabeça, me estudando.

- E qual foi a conclusão?

Olhei direto para ele.

- Que você é o tipo de homem que transforma interesse em obsessão muito rápido.

Por um instante, o rosto dele ficou completamente imóvel.

Então, bem devagar, o canto da boca se curvou.

Não era um sorriso de diversão.

Era pior.

Era reconhecimento.

- Talvez - disse ele.

O ar ficou preso nos meus pulmões.

Ele não negou.

Não tentou suavizar.

Não recuou.

Só aceitou.

Aquilo deveria me fazer fechar a porta na cara dele imediatamente. Só que, em vez disso, eu continuei parada, encarando-o como uma idiota, sentindo meu corpo reagir a uma honestidade que eu não estava preparada para receber.

Lorenzo baixou os olhos para a minha boca por um segundo rápido demais para ser inocente.

- Convide-me para entrar, Aurora.

A voz dele saiu mais baixa.

Mais íntima.

Meu coração praticamente bateu no pescoço.

- Não.

- Você quer.

- Isso é diferente.

- É?

Aquele homem tinha o dom insuportável de fazer perguntas que não eram perguntas. Como se já soubesse a resposta e só quisesse me ver lutar contra ela.

Agarrei a borda da porta com mais força.

- Você é arrogante.

- Sim.

- Controlador.

- Às vezes.

- Obsessivo.

Dessa vez, ele não respondeu imediatamente.

Seus olhos permaneceram nos meus por tempo demais, escuros, firmes, intensos de um jeito quase sufocante.

- Ainda estou decidindo até onde isso vai - disse, por fim.

Meu ventre se contraiu de leve com aquelas palavras, e eu me odiei por isso.

Era como conversar com algo perigoso e saber exatamente disso, mas continuar chegando perto mesmo assim.

- Você devia ir embora - sussurrei.

Lorenzo deu mais um passo.

Agora perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro dele. Limpo, sofisticado, masculino demais. Perto o suficiente para que eu precisasse erguer mais o rosto. Perto o suficiente para que o corredor inteiro parecesse pequeno.

- Se eu for embora agora - disse ele, a voz baixa, firme, quase roçando na minha pele -, você vai pensar em mim a noite toda.

Minha respiração falhou.

- Isso é presunção demais até para você.

- Não. Isso é observação.

Eu devia odiar aquele homem.

Talvez odiasse um pouco.

Mas o pior é que meu corpo não parecia compartilhar da mesma revolta que a minha cabeça. Porque Lorenzo estava perto demais, bonito demais, atento demais. E havia uma força crua na maneira como ele me olhava, como se estivesse se segurando em uma linha muito fina entre controle e impulso.

- Você não pode decidir esse tipo de coisa por mim - falei.

- Eu não decido. Eu percebo.

A sinceridade fria na resposta me desmontou por um segundo.

Lorenzo ergueu a mão devagar, com tempo suficiente para que eu recuasse.

Eu não recuei.

Os dedos dele tocaram uma mecha solta do meu cabelo perto do rosto, deslizando-a com leveza para trás da minha orelha. O gesto foi tão simples, tão pequeno, que deveria ter sido inofensivo.

Não foi.

Meu corpo inteiro ficou em alerta.

Meu coração disparou.

E, pela primeira vez naquela noite, vi uma rachadura real no controle de Lorenzo. Estava nos olhos dele. No modo como a respiração pareceu pesar por um segundo. Na tensão dura da mandíbula. Como se me tocar tivesse feito algo pior do que ficar longe.

- Você é uma péssima ideia - murmurei.

- E mesmo assim abriu a porta.

A resposta atravessou direto a minha resistência.

Porque era verdade.

Eu tinha aberto.

Tinha ficado.

Tinha discutido.

E continuava ali, com um homem que claramente não combinava com a minha vida, com o meu prédio, com a minha rotina ou com qualquer decisão sensata que eu já tivesse tomado.

Lorenzo desceu os olhos para a minha boca de novo.

Devagar.

Sem disfarçar.

- Me manda embora, Aurora.

A frase me pegou desprevenida.

Não pelo conteúdo.

Mas pelo tom.

Era quase um desafio. Quase um pedido. Quase uma última chance para que eu recuperasse o juízo antes que alguma coisa entre nós cruzasse uma linha mais difícil de desfazer.

Eu sabia disso.

Ele também sabia.

E talvez fosse exatamente por isso que nenhum de nós se movia.

- Vá embora - falei, mas as palavras saíram baixas demais, fracas demais.

Os olhos dele voltaram aos meus.

- Você não quer que eu vá.

Dessa vez, eu não tive resposta.

Porque qualquer resposta seria uma mentira.

E Lorenzo viu isso. Eu soube no instante em que a mão dele desceu devagar do meu cabelo, passou pela lateral do meu pescoço sem realmente tocar e parou na madeira da porta, ao lado da minha cabeça. Me cercando sem encostar. Pressionando sem prender.

- O que você quer de mim? - perguntei, e odiei o quanto aquilo soou honesto.

Ele demorou um segundo para responder.

Quando respondeu, a voz saiu mais baixa do que nunca.

- Ainda não tudo. Mas estou chegando lá.

Meu corpo inteiro reagiu àquelas palavras.

Não era uma promessa romântica.

Era pior.

Era uma ameaça dita como confissão.

Antes que eu pudesse decidir se batia a porta, o puxava pela camisa ou fazia qualquer loucura entre uma coisa e outra, uma porta se abriu do outro lado do corredor.

O barulho quebrou o momento como vidro.

Eu me afastei um passo de Lorenzo imediatamente, o peito subindo e descendo rápido demais. Uma senhora do apartamento ao lado colocou a cabeça para fora, nos observou com curiosidade indiscreta e depois fingiu que procurava alguma coisa no tapete.

Que maravilha.

Passei a mão no rosto, tentando recuperar o mínimo de dignidade.

- Agora você vai embora - falei, mais firme.

Lorenzo lançou um olhar curto para a vizinha e depois voltou a me encarar.

Por um segundo, achei que ele fosse insistir.

Mas então assentiu.

Um movimento pequeno. Controlado. Perigoso justamente por isso.

- Amanhã eu vou te ver de novo.

Franzi a testa.

- Isso não é uma decisão sua.

- Não - respondeu ele, recuando enfim. - É uma certeza minha.

Meu coração tropeçou.

Lorenzo deu um passo para trás, depois mais um. A distância deveria aliviar alguma coisa. Não aliviou. Ele continuava ocupando espaço demais até longe.

- Durma bem, Aurora.

A forma como ele disse meu nome de novo, baixa, firme e estranhamente íntima, fez um arrepio descer pela minha nuca.

Então ele se virou e caminhou pelo corredor como se aquela visita absurda tivesse sido a coisa mais natural do mundo.

Esperei até que ele desaparecesse no elevador antes de fechar a porta.

E só quando a tranca encaixou é que percebi o estado em que eu estava.

Respiração curta.

Pernas fracas.

Mãos trêmulas.

Encostei as costas na porta e fechei os olhos.

- Isso é um desastre - sussurrei para o apartamento vazio.

Porque era.

Eu ainda não sabia o tamanho exato daquele desastre.

Mas uma coisa já estava muito clara.

Lorenzo Ferraz não tinha entrado no meu apartamento.

Só que, de algum jeito muito pior, ele já estava entrando na minha vida.

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