Monalisa
Desci as escadas do meu quarto quando meu pai gritou meu nome pela milésima vez. Eu não queria parar de falar com Alex, mas sabia que se não descesse logo eles viriam até meu quarto.
- Até que enfim apareceu, mocinha! - minha mãe reclamou com as mãos na cintura. - Não vai dar um beijo nos seus pais?
Revirei os olhos e terminei de descer as escadas; era um dramalhão sem necessidade aquilo, mas o que eu podia fazer.
- Vocês só estão indo para uma noite romântica, como fazem toda semana. - bufei, deixando que meu pai beijasse o topo da minha cabeça, antes de me virar para minha mãe para ela me beijar também. - Não é como se eu nunca mais fosse ver vocês.
- Deixe de ser malcriada! Só porque é uma adolescente não precisa ser tão chata. - ela falou, como sempre culpando minha idade pelo meu comportamento, mas a culpa era toda deles por serem chatos e protetores.
- Nós voltamos de manhã, a Nona está em casa e qualquer coisa é só chamar; ela vai passar aqui no fim da noite pra ver vocês. - meu pai avisou, o que não era nenhuma novidade, mesmo que eu não fosse mais criança, Nona sempre vinha nos olhar quando eles estavam fora.
- Não sei porque ela tem que vir aqui, já tenho dezesseis anos, tenho certeza que posso cuidar do Brian sozinha! - afirmei, meu irmão tinha três anos; eu era capaz de cuidar dele, não precisava de ajuda.
Os dois se entreolharam, sorrindo, daquela forma apaixonada que eu achava nojenta para a idade deles.
- É só para nos tranquilizar, filha. - ela segurou meu rosto e me puxou para um abraço. Mesmo a contragosto, eu acabei relaxando e aproveitando o momento. - Nós amamos vocês e só queremos mantê-los seguros.
Eu sabia disso, mesmo que fosse um porre ser mantida sempre em segurança. Papai se juntou ao abraço e eu senti mãozinhas agarrando minhas pernas, e quando olhei para baixo vi Brian agarrado a mim sorrindo, como um grande abraço em família.
Mamãe plantou um beijo em meu ombro, deixando a marca do batom vermelho ali, talvez só para me irritar, mas eu relevei naquele momento.
- Agora vão embora antes que percam a noite de vocês! - resmunguei, empurrando-os porta a fora, antes de pegar Brian no colo.
Enquanto eu observava eles irem embora, um frio esquisito subiu por minha coluna e uma sensação de tristeza encheu meu coração.
- Desenho! - meu irmão gritou, me tirando daqueles pensamentos, e eu entrei em casa com ele.
Passei a meia hora seguinte falando no telefone enquanto meu irmão assistia desenho, e quando deu a hora, fui colocar o pequeno na cama. Ia mostrar que eu podia fazer isso sem ajuda; quem sabe na próxima eles não me deixassem sem supervisão.
Sai de mansinho do quarto quando o garoto finalmente pegou no sono e fui até o banheiro, mas parei em frente ao espelho encarando a marca de batom no meu ombro nu, os lábios cheios marcados na minha pele.
Mas o som da porta se abrindo me chamou a atenção e eu saí de lá rápido; precisava alcançar Nona antes que ela gritasse e acordasse o pequeno.
- Oi, Nona! - a alcancei no pé da escada. - O Brian já comeu e dormiu agora; acabei de deixar ele no berço...
Ela segurou meus braços, me calando, e só então eu percebi o olhar dela triste, o nariz vermelho, as bochechas molhadas. Ela estava chorando? O que podia ter acontecido para fazê-la chorar? Nunca a vi assim.
- Oh, menina, eu sinto muito. - um vinco se formou na minha testa e ela voltou a chorar, me confundindo totalmente. - Sinto muito que isso tenha acontecido.
- O que aconteceu, Nona? - perguntei de uma vez, não aguentando mais quando meu coração se apertou.
- Seus pais, minha linda, sofreram um acidente de carro e...
- Não! É mentira! - gritei, já não me importando com Brian, eu só queria que ela parasse de mentir. - Não pode ser verdade, eles estão bem, só iam jantar e ir ao cinema, passar a noite em um hotel e chegar pela manhã.
Me afastei dela, pegando meu celular e ligando para meu pai, mas só deu desligado ou fora de área. Meu coração disparou no peito e eu entrei em desespero; não podia ser, não podia ser verdade.
Liguei para minha mãe e a mensagem foi a mesma, me fazendo desabar no chão chorando.
- Sinto muito, querida. - ela se abaixou ao meu lado e me abraçou com força, tentando me consolar enquanto meu chão era arrancado de baixo dos meus pés.
- Não pode ser... Meus pais...
Mil e uma coisas passaram na minha mente; meu mundo estava sendo destruído, o que ia ser de mim e do meu irmão, eu tinha perdido tudo. Mas a pior de todas foi quando as minhas palavras se repetiram: "Não é como se eu nunca mais fosse ver vocês", eu não podia estar mais errada.
Minha vida toda mudou naquela noite; tudo o que eu tinha planejado teve que ser mudado e moldado para minha nova realidade.
Luke
- Tudo bem, estou indo trabalhar e o que vocês têm que fazer? - questionei, olhando para os meus irmãos, não me importando de ser repetitivo.
Os cinco estavam no cômodo que era dividido entre a sala e a cozinha, e eu conseguia ver todos da porta. Nik tinha um ano e estava no colo de Stella. Kevin estava na cozinha terminando de comer o macarrão com queijo; mesmo com dez anos, ele ainda era o mais devagar para comer.
- Trancar a porta, não abrir para ninguém. - Stella, a mais velha que ficava com eles quando eu saía para trabalhar, tinha apenas treze anos e eu detestava ter que deixá-la com essa responsabilidade, mas não tinha outro jeito.
- Escovar os dentes antes de dormir. - foi Ava quem respondeu; ela tinha acabado de fazer seis anos e estava brincando de boneca com Mia, que tinha sete anos e eram inseparáveis, provavelmente pela idade próxima.
- E o mais importante? - olhei para todos, pois essa era a parte mais difícil de fazê-los responder.
- Não abrir a porta para ninguém, nem mesmo para a mamãe! - todos responderam de uma vez, e eu respirei fundo, sabendo que ficariam bem por mais uma noite.
- Amo vocês. Tranquem a porta quando eu sair. - falei, já abrindo a porta e saindo de casa direto para a boate; hoje era sexta-feira e seria uma noite cheia.
Agora que eu tinha completado dezoito anos e meio, tinha me tornado legalmente responsável por eles. Não foi fácil fazer isso clandestinamente desde pequeno, enquanto minha mãe, Karen, vivia sumida com suas recaídas com as drogas, e eu tinha que aguentar a barra sozinho.
Mas pior era quando ela aparecia grávida ou com algum maldito namorado que só queria usá-la para comprar drogas. A gravidez era um verdadeiro inferno, porque eu nunca sabia se o bebê nasceria bem ou se ela se mataria enquanto eu tentava mantê-la sóbria e presa dentro de casa.
É merda demais para um garoto aguentar, você deve estar pensando, mas era isso ou chamar a polícia e deixar que todos os meus irmãos e eu fôssemos parar no sistema, dividido em casas, onde eu não saberia o que acontecia e nem poderia protegê-los.
Por isso eu engoli toda a merda dela, até que um ano atrás ela simplesmente desapareceu, depois de dar à luz Nik ela saiu um dia e nunca mais voltou. E eu não podia dizer que não me sentia aliviado, aos dezoito já tinha cinco vidas para cuidar, não precisava dela aparecendo por aqui.
Mas se tem uma coisa boa que aquela mulher me ensinou foi sobre quanto dinheiro se pode ganhar com o próprio corpo.
Parei em frente à XXL pensando em como tinha sido difícil convencer Bella a me aceitar com dezesseis anos. Foi um sacrifício, mas ela acabou cedendo e me deixando dançar.
Até que eu comecei a ter meu próprio show e então as mulheres começaram a querer mais, e eu não perdi a oportunidade. Sim, fazia programa para ganhar a vida, e que se dane qualquer um que tenha um problema com isso.
Eu não era um santo e estava longe de ser um bom partido para alguém, mas não tinha problema porque já tinha largado mão dessa coisa de relacionamento e amor. Acho que algumas pessoas simplesmente não nasceram para isso, e eu sou uma delas.
Era isso, eu estava completamente lascada, tinha chegado no fundo do poço e não sabia como ia sair. Minha demissão seria o meu fim, mas aquele velho desgraçado tinha que arrumar uma desculpa para me colocar para fora do hospital, só porque não aceitei suas cantadas nojentas.
Eu não era a pura e recatada, mas quando eu digo não é não e ponto final. Não me interessa se ele é o rei da porra do mundo, o dono do hospital ou do inferno, nenhum homem me tocaria contra a minha vontade.
Mas agora tudo o que passava na minha mente é que eu não podia ficar sem emprego, com a casa hipotecada, um adolescente, uma senhora de idade, o carro quebrado, sem falar nas contas do dia a dia. Meu irmão e Nona contavam comigo, eu não podia decepcioná-los.
- E agora, o que eu vou fazer, Kate? - reclamei com minha amiga enquanto juntava todas as minhas tralhas que estavam jogadas pelo hospital. - Ai meu Deus, vou enlouquecer assim! Vou ter que vender meu corpo pra pagar as contas desse jeito.
- Sabe que posso te indicar para o amigo do John. - ela disse abrindo um sorriso diabólico.
- Ahh claro, o velho maluco que grita com todo mundo e manda todas as enfermeiras embora em dois dias? - apontei os fatos, pelo menos cinco enfermeiras já tinham tentado ficar com esse trabalho, mas o homem simplesmente torna impossível. - Fala sério Kate, preciso de uma solução de verdade.
- Mas eu estou falando sério, Mona. O pagamento é ótimo, você vai ficar na casa dele o dia inteiro, ajudar nas sessões de fisioterapia, garantir que ele coma, saia da cama, tome um sol. - ela deu de ombros como se não fosse nada. - Não é tão difícil assim, o homem está em uma cadeira de rodas, que trabalho ele vai te dar?
- Quer mesmo que eu diga? Ele colocou cinco garotas aqui do hospital para correr.
- Isso faz parte amiga, chefes escrotos têm em todo lugar. - ela se levantou da cadeira e me estendeu o celular mostrando o contato. - Você só precisa escolher qual vai ser, um que você pode ignorar as grosserias e deixar trancado em um quarto, ou o que vai te perseguir pelo hospital e te demitir na primeira chance.
Olhei para a cara da minha amiga, o olhar presunçoso com aquele sorriso perfeitamente alinhado e branco, contrastando com a pele negra. Kate era um tremendo de um mulherão e sabia muito bem disso, por isso não se abateu com minha expressão de desgosto, apenas continuou com o celular estendido.
- Ok! Está bem, eu vou tentar. - me dei por vencida e anotei o número. - Mas se esse cara chutar minha bunda eu juro que vai sobrar pra você!
- Tenho certeza que você vai descobrir como dobrar o Luke. - Kate se sentou com um sorriso esquisito, como se estivesse tramando algo.
Mas eu não tinha tempo para isso agora, precisava ir embora e falar o mais rápido com esse tal de John, que aparentemente era o responsável pelo velho ranzinza. Ainda tinha que dar a má notícia a Nona, mas se tudo desse certo ainda hoje eu teria um novo emprego.
Sai do hospital direto para o ponto de ônibus carregando a sacola enorme com tudo o que costumava deixar ali no hospital, o lugar onde trabalhei desde que me formei, onde dei meu sangue para fazer uma carreira e ser reconhecida, minha segunda casa.
Mas bastou mudarem o chefe para que meus problemas começassem. Para ele, eu era nova demais, burra demais, bonita demais. Tudo em mim era um problema para ele, até que o babaca começou a jogar cantadas nojentas sobre como eu estaria melhor na cama dele, que seria um ótimo médico e mediria minha pressão de todas as formas, como eu melhoraria se ficasse um tempo embaixo dele, entre outras coisas de revirar o estômago.
Infelizmente não consegui me livrar dele, mesmo denunciando para a direção do hospital por assédio. A resposta que tive foi que eram apenas piadas entre amigos e nada mais.
- Piadas entre amigos minha bunda. - resmunguei para mim mesma, mas as pessoas no ponto de ônibus me ouviram e me olharam como se eu fosse maluca.
Talvez eu fosse mesmo, depois de tudo não me surpreenderia se acabasse em uma camisa de força.
Eu tentava ser sempre positiva, era isso o que me mantinha de pé na vida, o que não me deixava me abater, mas nos últimos meses não tinha sido fácil. Ouvir as palavras "está demitida" hoje, acabou comigo e com qualquer animação. Foi um verdadeiro golpe inesperado.
Passei o caminho todo até em casa remoendo esse assunto, quando cheguei só queria me deitar e me enrolar na cama.
- Oi menina! - Nona exclamou correndo até a porta da frente quando eu entrei. - O que aconteceu que está aqui tão cedo?
- Adivinha Nona? - soltei, jogando minha bolsa na entrada e me livrando dos sapatos. - Aquele verme me demitiu, tanto fez que finalmente conseguiu acabar com meu trabalho.
- Aí meu amor, sinto muito. - ela não se segurou em me abraçar, mesmo com a roupa do hospital ela me apertou tentando me acalmar. - Nós vamos dar um jeito, não se preocupe.
- Eu já consegui um emprego, Nona! Arrumei um emprego que com toda certeza vai ser bem melhor pra mim. - afirmei para ela e vi um sorriso radiante surgir no rosto rechonchudo da mulher.
No caminho para casa, eu tinha ligado e falado com o responsável pelo paciente, John me disse que eu podia ir até lá amanhã cedo mesmo, que o emprego era meu.
Eu não pude ficar mais feliz e com o sorriso de Nona eu sabia que não importava o que o velhote fosse fazer, eu ia manter aquele trabalho.
- Então temos muito o que comemorar e não lamentar, com toda certeza foi para o bem essa demissão. - ela esfregou meus braços de forma carinhosa e se afastou. - Vou preparar um prato pra você, deve estar com fome.
E então sumiu no corredor indo para a cozinha. Aquela mulher tinha ficado na nossa vida depois que meus pais morreram, ela não tinha nenhuma obrigação, mas quando soube que não tínhamos nenhum parente vivo não hesitou em nos adotar e cuidar de nós por todos esses anos.
Por isso eu faria qualquer coisa para ficar nesse novo emprego, não ia desapontá-la. Aquele tal de Luke poderia me irritar, gritar, me xingar e espernear, mas eu não ia desistir, ia me apegar a esse trabalho como se fosse meu bote salva-vidas.
No dia seguinte eu acordei cedo, tomei um banho e me arrumei antes de sair. A casa não era tão longe da minha e eu agradeci por isso, um caminho rápido de carro, eu poderia até mesmo ir de bicicleta, essa era mais uma vantagem para que eu quisesse esse emprego.
Quando cheguei na frente da casa do precisei bater uma vez, me surpreendi com o tamanho do lugar, mas tudo se desfez quando a porta se abriu rapidamente.
- Oi! Você deve ser a Monalisa. - o homem alto e forte passou para o lado me dando espaço para entrar. - Pode vir, Luke está nos fundos tomando sol.
- Oi, você é o filho dele? Mora aqui? Queria saber mais sobre o trabalho, como vai funcionar. - perguntei indo atrás dele, que andava a passos largos atravessando a casa.
- Ele pode te esclarecer tudo, mas filho? Acho que está confundindo. Tem certeza que veio a casa certa? - ele questionou parando em frente à porta de vidro que dava para um jardim.
- Tenho certeza que estou no lugar certo. Você é o John, amigo da Kate, que foi quem me indicou o trabalho para cuidar de um idoso chamado Luke.
O homem começou a rir e eu olhei em volta confusa, sem entender qual era a graça ali e qual seria a confusão que eu tinha feito. Só esperava que não tivessem arrumado outra pessoa.
- Eu sou o John e Kate é minha amiga, essa é a casa de Luke, mas não há nenhum idoso aqui. - ele passou para o outro lado da porta e eu o acompanhei antes que apontasse para o homem na cadeira de rodas. - Aquele é o Luke!
Semicerrei meus olhos querendo enxergar melhor e eu precisei respirar fundo quando me dei conta do corpo musculoso, bronzeado, os braços fortes e o peitoral largo brilhavam contra o sol, até mesmo as pernas dele eram torneadas e firmes.
O rosto estava inclinado para trás, mas eu conseguia ver a barba loira, assim como os cabelos dele que pareciam tão macios. E me deu uma vontade maluca de descobrir como seria os olhos dele, mas estavam fechados me impedindo de descobrir isso.
- Esse... Esse é o homem que eu vou ter que cuidar? - perguntei quase perdendo o fôlego.
Meu Deus eu ia ter que dar banho naquele homem, ajudá-lo a se vestir, se secar? Deus me ajude e não me deixe cair em tentação, porque com toda certeza se isso acontecesse eu ia cair e quicar naquele colo!
Eu estava preso naquela maldita cadeira há muitos meses e odiava cada um dos dias. Primeiro, eu não quis sair da cama; neguei que aquilo estivesse acontecendo comigo; preferia mil vezes que aqueles desgraçados tivessem me matado, porque ao menos eu não estaria tão miserável assim.
Trabalhar sempre foi algo importante para mim. Depois dos meus irmãos, o trabalho era o que me dava um propósito, uma noção de que eu não era um merdinha qualquer. Mas agora eu estava na pior situação da minha vida, sem poder andar, sem poder trabalhar, sem poder fazer absolutamente porra nenhuma!
- Está com pressa, gatinha? - gritei sorrindo quando vi Magie correndo para o banheiro. A música ressoava pela casa, e mesmo que fizesse poucas semanas que eu estivesse morando ali com ela, a nossa sincronia parecia de anos.
- PUTA QUE PARIU! - a loirinha gritou assustada, levando a mão ao peito. - Não tem o que fazer não?
- Não, monitorar seu banho é muito melhor. Acho que vou sair para jantar com o pessoal. Deixar vocês mais à vontade. - falei a seguindo e parando na porta do seu quarto.
- Está me pedindo permissão? - ela perguntou debochando, abrindo uma fresta e colocando a cabeça para fora.
- Estou me certificando de que vai sobreviver sem a minha beleza por uma noite.
Magie abriu um sorriso e empurrou meu ombro me afastando um pouco. E por mais que estivesse adorando nossa convivência, eu queria muito que ela e meu melhor amigo se acertassem essa noite. Eles mereciam isso, assim como o bebê na barriga dela.
- Você é um ótimo irmão, sabia? Está até me fazendo pensar que ter sido filha única foi uma bosta.
- Awnn vem aqui, loirinha. Eu te adoro como minha irmã. - puxei a cabeça dela para baixo do meu braço, antes de bagunçar os cabelos que ela tinha acabado de pentear.
- Meu cabelo, Luke! - os dedos finos alcançaram minhas costelas me fazendo cócegas, sabendo ser o jeito mais rápido de me derrotar. - Esquece, já não te quero mais como irmão!
Então eu ouvi um barulho do lado de fora, apesar da música alta e das nossas risadas, eu claramente tinha conseguido escutar o som de passos. Magie tocou meu braço, mas meu corpo todo estava tenso e os ouvidos apurados apenas para tentar ouvir melhor.
Me virei para ela, colocando um dedo sobre os lábios, pedindo para que ela continuasse quieta. Peguei meu celular no bolso e deslizei o dedo na tela, fazendo a música cessar, colocando um fim no elemento surpresa dos invasores e no mesmo momento os passos soaram mais alto.
Os olhos de Magie se arregalaram e eu soube que ela tinha escutado e entendido o que estava acontecendo.
- Entre no quarto e tranque a porta. - sussurrei já segurando nos ombros frágeis e a empurrando para dentro do quarto.
- O que vai fazer? Vem comigo? - ela perguntou em desespero, e eu quase cogitei a ideia por ver seus olhos assustados, mas eu precisava ganhar tempo, o quarto não era um bom esconderijo, não demoraria até nos encontrarem ali.
- Entre e se esconda! Vou chamar a polícia e pegar a arma, já venho.
Corri até meu quarto, me recriminando por deixar a arma no guarda-roupa, se tivesse com ela em mãos, eu poderia ir direto para o quarto com Magie e protegê-la lá. Mas eu não esperava um ataque, por isso não estava preparado. Na verdade, nem tinha ideia de quem poderia estar invadindo a casa: ladrões, alguém a mando do ex-marido dela, ainda tinha a família rica dela.
Eu saí do quarto, destravando a pistola no mesmo instante que a porta foi arrebentada com uma pancada. Não esperei um segundo, já fui atirando e me desviando para o corredor para me proteger das balas que vinham do lado deles. Vi um corpo caindo no chão, mas ainda não era suficiente, tinham muito mais deles ali.
- Seu desgraçado! VOCÊ VAI MORRER POR MATAR MEU IRMÃO! - um deles gritou, e eu me desviei tentando fazer a mira certeira antes que ficasse sem munição. Mas antes que as balas saíssem da arma a janela foi espatifada, um homem pulou entrando em casa e acertando meu corpo com os pés. Minha arma voou para longe com a força, assim como meu corpo cambaleou para trás.
Eu tinha sido encurralado, os homens portando armas bem maiores do que a minha e claramente com um treinamento tático.
- Agora você me paga! - um deles parou na minha frente e acertou um soco em meu queixo, jogando minha cabeça para o lado antes de me dar outro na boca do estômago.
Um dos outros homens foi até o quarto de Magie, seguindo pelo corredor, e eu consegui ouvir a porta sendo aberta, bem antes de acertarem um chute na parte de trás do meu joelho, me fazendo cair no chão.
A joelhada certeira no meu nariz veio logo em seguida, enchendo minha visão de estrelas, enquanto meu corpo tentava assimilar a dor.
- Não é tão fodão agora sem a arma, não é, bonitão? - ouvi um deles debochar, enquanto o outro puxava meu cabelo e dava dois socos em meu rosto.
- ACHEI A VADIA! - ouvi o grito dela e o som estridente que Magie soltou, fazendo meu sangue ferver.
Me debati, tentando me livrar do agarre dos outros e poder brigar por ela, defender a minha amiga e o seu bebê. Mas senti algo pesado bater em minha nuca, me deixando tonto e prestes a desmaiar.
- E o que a gente faz com o cara lá na sala?
- Mata! Ele não tem nenhuma serventia.
Foi a conversa confusa que ouvi enquanto tentava me concentrar em avistar Magie.
- NÃO! SEU DESGRAÇADO! - ouvi o grito dela e aquilo me impulsionou ainda mais a lutar contra minha tontura.
Mas não consegui nem ao menos sair do lugar. Não demorou para saírem do quarto a arrastando enquanto seguravam uma arma apontada para a cabeça dela.
- Me desculpa, loirinha. - sussurrei no instante em que nossos olhares se cruzaram. Magie estava grávida, a última coisa que ela precisava agora era toda essa merda.
- Não é culpa sua! - ela tentou me garantir, mas a culpa já me invadia. - Não desisti, a gente vai sair dessa! - então acertaram a cabeça dela e Magie tombou nos braços do homem.
- Mata ele e sai! - foi a ordem do homem que segurava a loirinha, então todos começaram a sair, um por um, deixando a casa.
Assim que meus braços estavam soltos, meus olhos focaram na arma, eu só precisava ser rápido para alcançá-la. Encarei o único homem que havia sobrado e aproveitei o instante que ele se distraiu olhando para a porta e corri até minha arma.
Foi então que ouvi os disparos e a força acertando meu corpo, me fazendo cair de cara no chão. Eu não tinha entendido como ele conseguiu ser mais rápido, ou onde eu havia sido atingido, mas conseguia sentir o líquido quente escorrendo por meu peito e não nas minhas costas.
Não demorou para que o frio começasse a se espalhar por meu corpo e eu sabia que deveria ser forte e aguentar até que a ajuda chegasse, mas o cansaço e o frio me dominaram aos poucos.
Eu ia morrer ali, ia morrer naquele chão depois de não ter conseguido salvar a vida da minha amiga e do seu bebê. Eu era o culpado por levarem Magie, e foi com isso em mente que apaguei e não vi mais nada.
Eu daria qualquer coisa para ajudar Magie, faria tudo de novo, mas no fim não serviu de nada o meu momento. Eu matei um homem e eles se vingaram tentando me matar, atirando duas vezes. Se não tivesse me virado, nenhuma daquelas balas teria acertado minha coluna, eu com certeza teria morrido. Teria acertado algo vital, mas ao menos eu não estaria enfiado naquela maldita cadeira.
- Me diz de novo por que você está aqui? - questionei John a contragosto.
- Só vim passar um tempo com você.
Não queria ninguém atrás de mim, não queria fiscalização e muito menos uma enfermeira na minha cola. Mas eles continuavam insistindo, eu não tinha para onde fugir. Até mesmo a mãe de Magie me forçou a aceitar uma casa de presente, a porra de uma casa! Como se eu não tivesse a minha própria.
Mas Patrick, John, Sophie, e em especial Rosa, me obrigaram a me mudar, com a desculpa que eu poderia voltar para minha casa depois que eu me recuperasse. Aqueles filhos da puta faziam isso porque sabiam que eu não poderia andar novamente, nunca mais conseguiria me levantar e andar sozinho.
- Pode ir embora, porque eu não quero você aqui! A única coisa que preciso é saber quando Magie acordar e pronto.
Estava feliz que meu amigo e a pequena tinham sido salvos finalmente, foram dias difíceis de preocupação, principalmente com o bebê. Mas agora eu só queria ver ela acordada novamente e bem. Já tinha ido visitar Alejandro e ele foi categórico em me pedir que fosse até uma loja e o ajudasse a escolher uma aliança. Já que ele não podia deixar o hospital, eu fiz isso, gravei metade dos anéis da loja até que ele escolhesse o anel perfeito para a loirinha. Agora só precisava esperar mais um pouco.
Eu estava feliz por eles, Magie tinha sofrido muito longe de Ale e eu sei que ele sofreu do mesmo jeito. Os dois mereciam ser felizes e se amavam, então era mais que perfeito. Infelizmente algumas pessoas não tinham nascido para isso, como eu, ou minha mãe. Acho que a maldição que minha vó falava para ela, que nós não nascemos para ser amados, era verdade.
Mas uma batida na porta me tirou dos meus pensamentos. Eu só queria um pouco de paz e tomar meu banho de sol, antes de me arrastar de volta para a cama.
- Quem diabos você trouxe para acabar com meu sossego? Eu espero que não seja mais uma enfermeira ou eu vou jogá-la na rua como fiz com as outras!
O idiota apenas me olhou e saiu sem dizer nada, ele com certeza tinha trazido outra enfermeira. Nenhum deles aceitava que eu não queria nem precisava de uma babá.
Eu só queria poder ficar sozinho e remoer um pouco a minha vida de merda, antes de dar um jeito de trabalhar mesmo em cima daquela coisa. Ainda estava de olhos fechados quando ouvi John voltar e não estava sozinho.
- Aquele é o Luke! - o ouvi dizer e quis bufar ou atirar algo no idiota, mas apenas fiquei quieto, fingindo que eles não estavam ali.
- Esse... Esse é o homem que eu vou ter que cuidar? - a mulher gaguejou e eu quis abrir meus olhos para vê-la, algo na voz dela me deixou intrigado, mas o melhor era continuar fingindo que não tinha ninguém ali.
- Sim, esse mesmo! Não existe nenhum velho Luke, só aquele ali. - Velho? Aquela era nova, de onde tinham tirado essa de velho? Isso já era demais!
- Me disseram que era um velho ranzinza e amargurado, que chutava todas as enfermeiras para fora...
- Ranzinza sim, amargurado só se for de ter que aguentar gente idiota a minha volta, chuto todas para fora com toda certeza com a perna que não consigo mexer. - gritei com deboche, dando um basta naquela conversa e me virando para eles. - Mas velho querida, é uma coisa que não pode me chamar.
Os olhos dela estavam cravados em meu corpo, esquadrinhando cada pedaço com os olhos de admiração, como todas as enfermeiras antes dela fizeram. Mas isso só me irritava ainda mais, porque me lembrava do que eu nunca mais poderia fazer.
Ao menos a admiração dela me deu tempo de olhar seu corpo de cima a baixo, analisando ela sem ter que disfarçar. A mulher era baixinha, mas o corpo tinha curvas e eu notei isso mesmo com as roupas dela, o quadril largo, a bunda empinada e o par de seios que parecia se espremer dentro do sutiã apertado.
- Com toda certeza, não tem nada de velho aí. - Ela sussurrou e inclinou a cabeça de lado, tentando me olhar melhor, fazendo os cabelos longos e castanhos caírem em ondas para o lado.
Os olhos dela eram duas pedras verdes enormes, brilhando, eu só não sabia se era pelo sol ou pela imagem à sua frente.
- Que bom que percebeu isso, agora já pode ir embora, sou capaz de me cuidar sozinho! - exclamei, levando as mãos às rodas da cadeira, me colocando em movimento, querendo olhá-la mais de perto antes de demiti-la.
- Claro que pode, estar em uma cadeira não te torna incapaz de nada...
- Apenas de me levantar, andar e ter uma ereção! - a interrompi novamente e dessa vez ela engasgou, começando a tossir, mas sem conseguir evitar olhar para o meu pau.
- Você vai poder andar, Luke, para com essa merda! Os médicos disseram que você tem muitas chances de voltar a andar.
- Sim, eles só não conseguem fazer porra nenhuma para me ajudar! - gritei irritado e cansado daquela repetição otimista deles. - Problemas psicológicos, trauma. Eu tomei dois tiros, passei por cirurgias, vai por mim isso não é sobre trauma!
Empurrei a cadeira passando no meio dos dois e não me importando nenhum pouco em ser educado, aquela era a minha vida, a merda do meu sofrimento. Porque eles simplesmente não me deixavam encarar isso como eu queria, do mesmo jeito como sempre encarei a vida, de forma bem realista e nenhuma pouco sonhadora?
- Na verdade, isso é uma coisa boa, significa que você pode voltar a andar antes do que pensa. - a mocinha irritante falou nas minhas costas. - Vai depender da sua vontade de voltar a andar, seu cérebro pode comandar seu corpo e ajudar seu corpo a se recuperar, você só tem que pensar positivo!
Respirei fundo, absorvendo toda aquela bosta de positividade e trabalhar para que meu cérebro me ajudasse. Tudo aquilo não passava de uma ideia estúpida.
Me virei lentamente e a encarei, querendo arrancar o sorriso esperançoso do rosto dela.
- Como é mesmo o seu nome?
- Monalisa Clark! - ela respondeu, abrindo ainda mais o sorriso e me estendendo a mão.
Então uma ideia passou por minha mente e eu retribuí o sorriso, aceitando a mão e apertando de forma inocente, mas o olhar dela mudou no exato segundo em que eu apertei mais forte, antes de puxá-la e fazendo-a cair sentada em meu colo.
O corpo dela se acomodou contra o meu, como se estivesse no lugar mais confortável, ou como se nossos corpos se encaixassem perfeitamente. Mas eu não era hora de pensar nisso!
- Dona Monalisa Clark, obrigada pela visita, mas eu não preciso de uma babá ou de uma enfermeira. - falei, vendo de perto a expressão surpresa dela, e me apressei em direção à porta. - Então tenha um bom dia.
Abri a porta e envolvi a cintura dela, pronto para jogá-la do lado de fora, deixando claro que não a queria aqui.
Mas ela agarrou meu pescoço no mesmo instante em que eu ergui seu corpo, os braços apertados em volta de mim nos deixou perigosamente perto, seu rosto se esfregou contra o meu, e nossas respirações se misturaram quando ela sussurrou.
- Vai ter que aprender a lidar comigo, senhor Luke, porque eu não pretendo ir a lugar nenhum!