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Grávida de um Adorável Mentiroso

Grávida de um Adorável Mentiroso

Autor:: mora campos
Gênero: Romance
O que você espera do seu primeiro dia de trabalho? Um bom salário? Um bom ambiente de trabalho? Possibilidades de crescimento? Benefícios? Isso já seria suficiente para comemorar. Mas e se você conseguisse isso e algo mais? O primeiro dia de trabalho de Clara não se parecia com nenhum outro. Ela se apresentou para a entrevista ao cargo de enfermeira, fazendo de tudo para ser selecionada. O Chefe de Cirurgia, que seria seu supervisor direto, pediu que ela atendesse seu primeiro paciente, e juntos seguiram para a área de internação. Estar perto daquele paciente a deixou nervosa; ela sabia que era amor à primeira vista, e um leve toque entre seus corpos acendeu uma chama. Olhando-se nos olhos, tentaram agir com razão, mas não conseguiram. Ele a segurou pela cintura, aproximando-a ainda mais da cama, pressionando seu corpo contra o dela. O tempo passou muito rápido e, quando o chefe voltou, ela ainda não tinha terminado de atender o paciente. Apesar disso, estava feliz. Aquele homem traria felicidade ou desgraça para sua vida? Clara se arrependeria de sua fraqueza?

Capítulo 1 Amor na Sala de Internação

Clara sempre sonhou em trabalhar em um hospital renomado, e finalmente esse dia chegou. Com um currículo impecável e motivação à flor da pele, ela se apresentou no Hospital Central, um lugar conhecido tanto pela excelência médica quanto pela rigidez de sua equipe. Vestida com um uniforme branco impecável, tentava acalmar os nervos enquanto brincava com as bordas de sua pasta.

- Clara Gómez - chamou uma voz masculina, grave, mas acolhedora.

Ela se levantou imediatamente, com as mãos levemente trêmulas. À sua frente estava o Chefe de Cirurgia, Dr. Jesús Rivas. Seu porte era imponente, e seu olhar combinava autoridade com um toque de carisma que parecia inato.

- Bem-vinda. Vamos fazer um pequeno teste prático antes de tomar a decisão final - disse ele, começando a caminhar.

Cada passo atrás dele aumentava a pressão em seu peito. O hospital, com seus corredores brilhantes e o suave aroma de desinfetante, parecia um labirinto de possibilidades. Eles chegaram à área de internação, onde Jesús apontou para um quarto.

- Quero que você cuide do paciente nesta sala. Ele precisa de troca de curativos e monitoramento. Voltarei em alguns minutos.

Clara assentiu, mas por dentro sentia como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. Respirou fundo antes de abrir a porta.

Dentro, o quarto estava banhado pela luz do meio-dia que entrava pelas cortinas. Na cama, um jovem descansava com uma expressão serena, mas curiosamente alerta. Seu sorriso despreocupado se alargou ao vê-la entrar.

- Olá - disse ele, inclinando a cabeça. Sua voz tinha uma suavidade que escondia algo mais profundo.

- Olá - respondeu Clara, sentindo o rubor subir pelo pescoço. - Sou Clara Gómez. Estou aqui para atendê-lo.

- Prazer, Clara. Eu sou Mateo.

Enquanto Clara começava a realizar seu trabalho, a tensão no ar se tornava mais palpável. Cada movimento parecia carregado de uma energia desconhecida, como se as próprias paredes estivessem prendendo a respiração.

- Você é nova, não é? - perguntou Mateo com um sorriso que parecia ao mesmo tempo amigável e provocador.

- Sim, hoje é meu primeiro dia - respondeu ela, tentando soar profissional enquanto evitava olhar diretamente em seus olhos, que tinham um brilho desarmante.

- Espero que você fique muito tempo - murmurou ele, e embora as palavras fossem simples, o tom as fazia soar como uma promessa.

Em um momento, enquanto ajustava os travesseiros, suas mãos se tocaram. Foi um contato breve, mas o efeito foi devastador. Clara levantou o olhar, e seus olhos encontraram os de Mateo.

O tempo pareceu parar. O mundo fora daquele quarto deixou de existir. O olhar de Mateo era intenso, quase hipnótico, como se pudesse enxergar através de cada camada que Clara tentava manter erguida.

- Isso... isso não é apropriado - disse Clara, mais para se convencer do que para convencê-lo.

Mas antes que pudesse se mover, Mateo estendeu a mão e segurou sua cintura, aproximando-a. O som do coração de Clara ecoava em seus ouvidos como um tambor de guerra.

- Às vezes, o que é apropriado é o que menos importa - sussurrou ele, com um sorriso carregado de mistério.

Clara sentiu que seu mundo inteiro balançava. Havia algo na forma como Mateo a olhava, uma mistura de ternura e perigo que a atraía e assustava ao mesmo tempo.

De repente, a porta se abriu, e Jesús apareceu com o cenho levemente franzido.

- Está tudo bem aqui? - perguntou, com uma voz que parecia mais um aviso do que uma simples pergunta.

Clara deu um passo para trás imediatamente, tentando recuperar a compostura.

- Sim, doutor. Eu estava... terminando de atender o paciente.

Jesús olhou para os dois por um segundo que pareceu eterno, depois assentiu lentamente antes de sair do quarto. Clara sentiu que mal conseguia respirar.

Ela juntou suas coisas rapidamente, evitando olhar para Mateo, mas quando chegou à porta, não conseguiu evitar virar-se uma última vez. Ele ainda a observava, com um sorriso que parecia prometer que aquele não seria seu último encontro.

Quando saiu para o corredor, o ar fresco bateu em seu rosto, mas não conseguiu acalmar a tempestade de emoções que a invadia. Aquele primeiro dia de trabalho não tinha sido como ela imaginava. Encostou-se na parede, levando a mão ao peito para tentar acalmar o ritmo frenético de seu coração.

- O que foi que acabou de acontecer comigo? - murmurou para si mesma, ainda sentindo a intensidade dos olhos de Mateo.

Sem saber, Clara havia dado o primeiro passo em um caminho repleto de promessas tentadoras e segredos perigosos. Uma parte dela queria recuar, mas outra, mais forte, ansiava descobrir o que viria depois.

Dentro do quarto, Mateo continuava olhando para a porta por onde Clara havia saído, como se esperasse que ela voltasse. Sua mente ainda estava presa naquele instante eletrizante: o toque breve de suas mãos, a proximidade de seus corpos, a faísca que havia acendido algo inesperado dentro dele. Por um momento, ele se permitiu pensar que aquela conexão fugaz poderia significar algo mais, mas o som da porta se abrindo novamente o trouxe abruptamente de volta à realidade.

Dana entrou em silêncio, fechando a porta atrás de si com cuidado. Seu rosto mostrava uma mistura de ternura e determinação, essa dualidade que sempre havia definido sua relação com Mateo. Ela usava um vestido simples, porém elegante, e seu cabelo caía em ondas naturais sobre os ombros. Havia algo em seu olhar, na maneira como o observava, que transmitia preocupação e, ao mesmo tempo, uma esperança de compartilhar algo especial.

-Espero não estar interrompendo -disse Dana com uma voz tranquila, embora no fundo fosse possível perceber uma leve inquietação. Seu tom tinha aquela mistura de suavidade e firmeza que ela usava quando tentava esconder o que realmente sentia.

Mateo levantou os olhos para ela e lhe ofereceu um sorriso. Era um daqueles sorrisos que pareciam desarmar qualquer suspeita, mas desta vez trazia uma sombra quase imperceptível, um rastro da emoção recente que ele não conseguia disfarçar completamente.

-Você nunca interrompe, Dana -respondeu ele, tentando fazer sua voz soar sincera.

Ela deu alguns passos em direção à cama, deixando que a ternura em seu olhar tentasse preencher o espaço entre os dois. Tinha pensado naquele momento o dia inteiro, buscando as palavras certas para conversar com ele. Desde que Mateo havia sido internado no hospital, Dana fazia tudo ao seu alcance para estar ao lado dele, apoiando-o em cada etapa de sua recuperação. Mas, embora quisesse acreditar que ele valorizava sua presença, não podia ignorar a sensação de que algo havia mudado.

-Trouxe isso para você -disse, estendendo um pequeno buquê de flores brancas que havia comprado no caminho para o hospital-. Sei que não é muito, mas pensei que poderia alegrar um pouco seu dia.

Mateo aceitou as flores com um leve sorriso, embora sua mente continuasse vagando pelas imagens de Clara. As palavras de Dana soavam como um eco distante, como se ela estivesse falando do outro lado de uma parede invisível. Enquanto ela arrumava as flores na mesinha ao lado da cama, Mateo se perguntava como havia chegado a esse ponto. Dana estava diante dele, entregando sua atenção e cuidado sem nenhuma condição, e, mesmo assim, seu coração batia de forma diferente por alguém que ele mal conhecia.

Dana sentou-se na cadeira ao lado da cama, apoiando as mãos no colo. Sua expressão era tranquila, mas, por dentro, uma pequena inquietação começava a se formar. Ela havia notado algo na atmosfera ao entrar no quarto, uma sensação indefinível, como se tivesse interrompido algo que não deveria ter visto. Ainda assim, não disse nada. Talvez fosse apenas sua imaginação.

-Você parece melhor do que da última vez que vim -comentou, tentando soar animada-. Isso é um bom sinal, não é?

Mateo assentiu, forçando-se a se concentrar nela. Sabia que Dana merecia mais do que respostas automáticas ou sorrisos vazios. Ela estava ali porque acreditava neles, no que compartilhavam. E ele, no fundo, sabia que havia construído algo com ela que não queria destruir. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se preso entre o conforto do conhecido e a emoção do incerto. E, acima de tudo, sabia que havia uma verdade que ainda não tinha tido coragem de confessar: seu casamento era monótono, entediante.

Dana, alheia a esse segredo, buscava sinais nos olhos de Mateo, desejando que ele lhe desse uma razão para confiar, para continuar lutando pelo que tinham. Mas as palavras que ele não dizia começavam a preencher o espaço entre eles com um silêncio incômodo, um silêncio que prometia mais perguntas do que respostas.

Capítulo 2 Cruzando Limites

O sol da manhã banhava a cidade com uma luz quente, mas Clara mal notava enquanto caminhava apressada pelo corredor principal do Hospital Central. Passara a noite em claro, incapaz de tirar da mente os olhos de Mateo e o momento eletrizante que compartilharam. "Foi um erro", repetia para si mesma, mas a verdade era que algo dentro dela se recusava a esquecer.

Ao chegar à sala de enfermagem, encontrou suas novas colegas envolvidas em uma conversa animada. Tentou passar despercebida, mas a enfermeira-chefe, Júlia, interceptou-a com um sorriso afável.

- Clara, chegou na hora certa. Hoje você está escalada para o turno na Unidade de Cuidados Intermediários. Familiarize-se com os pacientes. Alguns são novas admissões e precisarão de uma avaliação completa.

Clara assentiu com profissionalismo, mas não conseguiu evitar o nó no estômago ao pensar na possibilidade de encontrar Mateo novamente. O que diria se o visse? Como o encararia sem que seus sentimentos transparecessem? Forçou-se a focar no trabalho enquanto revisava os prontuários dos pacientes designados.

Ao entrar no primeiro quarto, foi recebida por uma senhora idosa com um sorriso caloroso que tornou o ambiente mais leve. Clara dedicou-se à avaliação com cuidado, lembrando-se do motivo pelo qual escolheu essa profissão. Aos poucos, a tensão em seus ombros começou a desaparecer.

No entanto, sua calma desmoronou ao parar diante da porta do próximo paciente. O nome no registro era inconfundível: Mateo Torres. Seu coração disparou, e as palavras de Júlia ecoaram em sua mente. "Mantenha sempre a compostura, não importa a situação." Respirando fundo, preparou-se para entrar.

Quando abriu a porta, Mateo estava sentado na cama, folheando distraidamente uma revista. Ele ergueu os olhos ao ouvi-la entrar, e um sorriso brincalhão apareceu em seu rosto.

- Bom dia, Clara. Parece que o destino insiste em nos reunir - disse ele em um tom leve que escondia algo mais profundo.

Clara tentou ignorar o calor que subia por seu pescoço e concentrou-se em manter o profissionalismo.

- Bom dia, senhor Torres. Estou aqui para fazer um check-up de rotina - respondeu, ajustando o tom da voz para soar neutro.

Mateo observava cada movimento dela enquanto verificava seus sinais vitais, com uma expressão mais séria do que ela esperava. Após alguns momentos, ele quebrou o silêncio:

- Você está bem? Parece um pouco nervosa.

Clara parou, surpresa com a percepção dele. Era tão evidente o que sentia? Manteve a calma e ergueu os olhos para enfrentá-lo.

- Estou perfeitamente bem. Obrigada por perguntar.

Mateo estreitou os olhos, como se tentasse decifrar o que ela pensava. Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a porta se abriu abruptamente, revelando uma mulher alta e elegante com uma expressão cheia de confiança. Ela usava um vestido caro e um perfume que imediatamente preencheu o ar.

- Mateo, querido, vim assim que pude - disse a mulher, atravessando o quarto com passos decididos e plantando um beijo na bochecha dele.

Clara sentiu como se o chão desaparecesse sob seus pés. A conexão que havia sentido com Mateo desmoronou como um castelo de cartas. Tentando manter a compostura, apressou-se a terminar seu trabalho.

- Está tudo em ordem. Voltarei mais tarde para monitorá-lo - disse rapidamente, evitando olhar para ambos enquanto deixava o quarto.

Caminhando pelo corredor, seus pensamentos eram um turbilhão. Quem era aquela mulher? O que ela significava para Mateo? Mas, mais importante, por que sentia como se algo dentro de si tivesse se partido? Encostou a testa na parede fria, tentando acalmar o redemoinho de emoções que a consumia.

No quarto, Mateo observava a porta por onde Clara havia saído, sua mente dividida entre a mulher que chegara e a que acabara de partir. Embora tentasse se convencer de que nada importante havia acontecido, não podia ignorar a sensação de perda que o invadia. Uma sensação que não fazia sentido... ou talvez fizesse.

O dia mal começava e já estava carregado de promessas, segredos e uma tensão que ninguém parecia disposto a reconhecer.

Na hora do almoço, o refeitório estava cheio de murmúrios, pratos batendo e o aroma de café fresco no ar. Dana, com a testa levemente franzida, procurava uma mesa vaga em meio ao burburinho. Assim que se sentou, notou uma figura conhecida entrando pela porta: Clara.

O instinto de Dana foi levantar a mão para chamá-la, mas algo na postura rígida da mulher a deteve. Clara parecia desconfortável, com os ombros tensos e os olhos vagando pelo local como se procurasse uma rota de fuga. Ainda assim, seus olhares se cruzaram por um instante.

Clara hesitou, um pé já em direção à saída, mas Dana não lhe deu tempo para decidir.

- Clara, por favor, sente-se comigo.

O tom não era um pedido, mas também não era uma ordem. Era uma mistura calculada de cordialidade e firmeza que deixou Clara sem opções. Ela suspirou, visivelmente desconfortável, e, após um momento de hesitação, cruzou o espaço entre elas com passos lentos.

- Não queria incomodá-la - disse Clara, ao sentar-se à frente de Dana. Suas mãos brincavam nervosamente com a alça da bolsa.

- Não está incomodando. Na verdade, queria falar com você - respondeu Dana, apoiando os cotovelos na mesa e fixando o olhar em Clara.

Clara desviou o olhar para a janela, evitando a intensidade de Dana. Seus lábios se apertaram numa linha fina, como se estivesse debatendo entre se levantar e ir embora ou ficar e enfrentar o inevitável.

- Sobre o que quer falar? - perguntou, finalmente, em um tom seco que denunciava sua resistência.

Dana sorriu suavemente, embora seu olhar carregasse uma mistura de determinação e curiosidade.

- Sobre você, sobre mim... e sobre o que parece que você está evitando.

- Não sei do que está falando. Sou nova neste trabalho e não gostaria...

- Só queria que fôssemos amigas. Estou muito sozinha, longe da minha família e com meu marido nesse estado.

- Eu gostaria, mas não durante meu horário de trabalho - disse Clara enquanto se levantava para sair.

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tudo o que nenhuma das duas estava disposta a dizer. Contudo, também foi o início de algo inevitável: uma conversa que prometia mudar tudo entre elas.

Capítulo 3 O Encontro do Destino

O sol da tarde filtrava-se entre as folhas das árvores, projetando sombras dançantes sobre a mesa do café ao ar livre. Mateo estava sentado com uma xícara de café, mexendo lentamente o líquido enquanto olhava distraído para a rua. Não esperava companhia, mas algo no dia o fazia sentir que o destino estava prestes a surpreendê-lo.

- Este assento está ocupado? - perguntou uma voz suave.

Mateo levantou o olhar e encontrou Clara, uma mulher de cabelos presos de forma casual e um sorriso que, embora tímido, iluminava seu rosto. Ele indicou a cadeira à sua frente com um leve sorriso.

- Claro, está livre - respondeu Mateo.

Clara sentou-se com um movimento gracioso, colocando sua bolsa sobre a mesa. Por um momento, ambos ficaram em silêncio, como se o mundo tivesse se reduzido ao pequeno espaço que compartilhavam. Finalmente, Clara quebrou o gelo.

- Não costumo fazer isso, sentar-me com desconhecidos - disse ela com uma risada nervosa. - Mas parecia um bom lugar para escapar do barulho.

- Fez bem - respondeu Mateo com uma voz calma. - Às vezes, um pouco de tranquilidade é tudo de que precisamos.

A conversa fluiu com surpreendente naturalidade. Começaram falando de coisas triviais: o clima, o café, a cidade. Mas, logo, as palavras começaram a ganhar profundidade. Clara mencionou que havia conhecido alguém que Mateo conhecia bem.

- Sabe? Conheci sua esposa - disse Clara de repente, abaixando a voz como se temesse invadir um terreno delicado.

Mateo levantou uma sobrancelha, surpreso.

- A Dana? Quando foi isso?

- Alguns dias atrás. Foi algo breve, mas o suficiente para entender que ela é uma mulher forte. Embora... parecesse carregar um peso grande.

Mateo suspirou, deixando a xícara sobre a mesa. Por um momento, pareceu debater-se entre falar ou guardar silêncio. Finalmente, optou pela honestidade.

- Dana é... incrível. Mas nosso relacionamento não funciona. Tentamos de tudo, mas parece que estamos sempre caminhando em direções opostas. Tenho pensado em terminar.

Clara o olhou fixamente, processando suas palavras. Não havia julgamento em seu olhar, apenas uma compreensão silenciosa.

- Deve ser difícil - disse ela finalmente. - Tomar uma decisão assim não é algo simples.

Mateo assentiu, agradecido pela empatia. Falar com Clara parecia estranhamente fácil, como se pudesse despir-se de todas as aparências e mostrar-se como realmente era.

- E você? - perguntou ele, mudando o foco. - O que te trouxe aqui? Não está trabalhando hoje?

Clara sorriu, embora sua expressão trouxesse uma mistura de melancolia e esperança.

- É meu dia de folga, mas não tenho para onde ir. Acho que também estou procurando clareza - confessou. - Às vezes, a gente precisa sair da rotina para encontrar respostas. Vou fazer um plantão esta noite, minha amiga pediu e aceitei cobrir o turno.

A conversa continuou até o sol começar a se pôr. Cada palavra, cada olhar compartilhado, ia construindo uma ponte entre eles. Clara e Mateo não sabiam, mas aquele encontro marcaria o início de algo que mudaria suas vidas para sempre.

Naquela noite, o hospital estava mais tranquilo que o habitual. As luzes dos corredores criavam um ambiente tênue, e o eco de passos distantes acompanhava a calma aparente. Mateo havia pedido a Dana que ficasse em casa sob o pretexto de verificar algo relacionado às contas bancárias, mas, na verdade, buscava outra desculpa para ver Clara. Havia algo na presença dela que o acalmava e inquietava ao mesmo tempo, um contraste que não podia ignorar.

Quando a encontrou na sala de descanso, ela estava absorta em um livro, com uma xícara de café fumegante entre as mãos. Seus cabelos presos em um coque desarrumado e o brilho quente das luzes faziam-na parecer terrivelmente humana e próxima. Ao notar sua presença, Clara levantou o olhar, e um sorriso espontâneo iluminou seu rosto.

- Não esperava te ver por aqui a essas horas - disse Clara, fechando o livro suavemente.

Mateo tentou responder com naturalidade, mas não conseguiu evitar o nervosismo que o percorria.

- Acho que precisava de uma desculpa para vir... embora, na verdade, só queria te ver.

Clara arqueou uma sobrancelha, divertida, mas também surpresa pela sinceridade de Mateo.

- Então essa era a verdadeira intenção? - perguntou, enquanto um leve rubor surgia em suas bochechas.

Ele riu, coçando a nuca com certa timidez enquanto segurava a muleta firmemente.

- Sou péssimo em inventar pretextos, não é?

A risada de ambos encheu a sala, rompendo a tensão inicial. Conversaram por minutos sobre trivialidades: os pacientes mais peculiares do dia, os cafés próximos ao hospital, e até mesmo sobre o livro que Clara estava lendo. Porém, sob a leveza das palavras, havia algo mais, um magnetismo palpável que os unia.

Num momento, Clara aproximou-se da janela, olhando para as luzes da cidade que piscavam ao longe. Mateo a seguiu, apoiando-se no batente. O silêncio entre eles não era desconfortável; parecia que as palavras não eram necessárias.

- Clara - começou ele, com um leve tremor na voz -, desde que te conheci... sinto que há algo em você que não consigo entender, mas que me atrai de uma forma que nunca senti antes.

Ela girou lentamente para olhá-lo. Seus olhos refletiam uma mistura de surpresa e emoção, e, por um momento, pareceu não saber o que dizer. Finalmente, sussurrou:

- Eu também sinto algo parecido. Mas não sei se é o momento...

Mateo assentiu com um sorriso que tentava ser tranquilizador.

- Não tenho certeza de nada ultimamente, mas com você... sinto que tudo faz sentido.

Clara o olhou, com o coração batendo rápido. Deu um passo em direção a ele, encurtando a distância, e Mateo levantou a mão para tocar suavemente seu rosto. Seus olhares se encontraram, e, por um instante, ambos hesitaram. Mas o momento os envolveu, e quando seus lábios se tocaram, todo o resto desapareceu.

O beijo foi lento, cheio de uma ternura contida que vinha crescendo desde o dia em que seus caminhos se cruzaram. Foi um instante breve, mas eterno, um pacto silencioso que ambos entenderam sem necessidade de palavras.

Quando se separaram, Mateo acariciou o cabelo de Clara, enquanto ela manteve os olhos fechados por mais alguns segundos, como se quisesse gravar o momento na memória. Ao abri-los, um sorriso tímido surgiu em seu rosto.

- Não sei o que vai acontecer depois disso, Mateo - disse ela, com um tom que misturava alegria e cautela.

- Nem eu, Clara. Mas, se tem algo que aprendi ultimamente, é que há momentos em que vale a pena arriscar tudo.

Ela o olhou e assentiu. Talvez tivessem um futuro incerto pela frente, mas, naquele instante, com as luzes da cidade como testemunha, apenas importava o que havia nascido entre eles.

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