Olá meninas, antes de começar eu quero avisar que essa história é a continuação do livro 1, nome - Guto o dono do complexo da maré, está disponível aqui no Lera. Conto com a ajuda de todas vocês para alcançar uma boa qualidade de visualizações, curtidas e comentários neste segundo livro. Obrigada !
( Nove Anos Depois )
*_Guto narrando_*
Eu não tô acreditando que a minha liberdade chegou, tá parecendo que a ficha ainda não caiu, várias paradas estão se passando na minha mente agora, pra quem ficou trancado sem poder ver a família e isolado de tudo por nove anos sabe como é isso, só quem já passou pelo sofrimento de tá atrás das grades sabe que é a pior sensação de tá vivendo por viver todos os dias, e hoje eu tô felizão que eu vou poder respirar livre desse lugar, vou poder ver a rua, voltar pro meu morro, encontrar a minha mulher e o meu filho que deve tá um moleque grandão agora, porra meu coração tá até acelerado aqui, tô contando os segundos pro meu advogado chegar e me tirar logo desse inferno...
O meu mano PL que assumiu as responsabilidades durante todo esse tempo, meu irmão merece todo respeito e consideração, com certeza a minha favela ainda deve tá do mesmo jeito que eu deixei, não paro de pensar na Duda e no meu filho, desde que eu fui preso o meu pensamento sempre foi neles, só de pensar as lágrimas cai, meu filho cresceu sem um pai presente do lado por causa desses vermes, eu fico me perguntando quantas vezes ele deve ter perguntado pra mãe dele sobre mim, eu nem sei o nome do meu filho, esse bagulho machuca o meu coração, eu tava todo feliz quando descobri que a minha mulher ia me dar um filho, eu sempre quis ser pai, e quando eu pude receber esse presente eu já tava longe, é foda, a vida errada não compensa, pode ganhar vários dinheiros, ter poder, autoridade pra mandar isso e aquilo, mas quando cai no sofrimento é que a mente começa a pensar que podia ser tudo diferente, e o preço que eu paguei por seguir no crime foi esse, ficar privado sem poder ver o meu filho crescer e sem dar uma assistência pra minha mulher, esse bagulho é que me deixa mais revoltado..
Por várias vezes eu fui dormir de madrugada de tanto pensar, a cela que eu tava era só pra mim tá ligado ? tinha um ventilador, um colchão fino, e um vaso, era só isso que eu tinha, e o ventilador fui eu que mandei o meu advogado trazer, era mó calor nos primeiros dias, parecia o inferno de tão quente, eu pingava de suor, uma vez ou outra os cana me levava pro pátio pra mim pegar um sol, mas não é a mesma coisa de tá na rua, é tudo cheio de grade até o teto, eu via o sol nascer quadrado, e era bagulho só de dez minutos, não tinha nem tempo pra respirar direito, a comida horrível, tudo feito de qualquer jeito, parecia até comida de porco, e eu tinha comer pra não passar fome tá ligado ? aqui dentro eles trata nós igual bicho, visita eu nunca pude receber, desde que eu vim parar nessa maldita prisão eu nunca tive visita de ninguém, só do meu advogado e era bem raro ele vim, o doutor tentou até entrar com um pedido de autorização familiar para Duda vim me visitar, mas o desgraçado do juiz negou, e assim eu tive que ir me virando sozinho até hoje, pra tomar banho eu tinha que ser acompanhado por uns três policiais, era banho de gato, no mínimo cinco minutos, as vezes não dava nem tempo de tirar o sabão do corpo, pra sair da cela eu tinha que tá algemado, os cana tava sempre em cima me vigiando, bagulho é sufocante, cadeia de segurança máxima é a pior que tem, toda cadeia é ruim, só de ficar trancado é péssimo, mas aqui é horrível mesmo, cheio de restrição..
Eu tô com 36 anos, fiz vários aniversários aqui dentro, tô me sentindo acabado e velho, aqui nós não tem como se cuidar, meu cabelo tá enorme, tô com cara de maluco, antes de ver a minha mulher eu quero passar em qualquer barbearia só pra melhorar a minha aparência, a Duda deve tá mais linda ainda, ela sempre foi linda, rostinho de princesa, eu não quero chegar lá desse jeito, quero impressionar a minha mulher e quero mostrar pro nosso filho que o pai dele também é bonito, meu moleque deve tá com uns 8 anos, já deve tá até namorando escondido, eu na idade dele era pirado, fazia várias besteiras, pegava um monte de garotinhas na escola, meu pai ficava doido comigo, era surra direto, mas eu vou ser um pai mais tranquilo, meu filho nunca vai apanhar de mim, e eu nem tenho esse direito, por culpa minha ele não me conhece, mas hoje eu vou poder abraçar o meu filhote com toda força, tô emocionado com essa parada, eu vou chorar pra caralho quando eu ver eles, to nem aí pra minha postura de dono de morro, quando o assunto é família não tem um que seja forte... Eu não sei oque aconteceu lá fora o tempo que eu passei aqui, só vou descobrir quando eu sair, mas eu espero que esteja tudo do mesmo jeito que eu deixei..
Agora eu to numa sala de vidro toda fechada, daqui de dentro eu não consigo ouvir nada que os polícia tão falando do lado de fora, tô agoniado e impaciente, já andei de um lado pro outro, já sentei e me levantei várias vezes e nada do doutor chegar pra liberar a minha soltura, eu tô enlouquecendo de tanto esperar, penso e continuo andando de um lado pro outro dentro desse quadrado pequeno de vidro que me colocaram, se passam uns minutos e eu olho pra frente, vejo o meu advogado chegando e falando com os cana, eu paro de andar e fico olhando pra eles enquanto o meu coração bate forte, o polícia se aproxima da porta e abre deixando o doutor entrar, eles entram juntos pra ficar vigiando.
Guto : Porra doutor, demorou em - Eu falo bolado.
Advogado : Me desculpe senhor Gustavo, eu tive um imprevisto - Ele fala e coloca a maleta em cima da mesa.
Policial : Peço que vocês me sigam - Ele me olha de cara feia.
Eu me seguro pra não encarar o filho da puta de volta, o meu advogado me olha e caminha seguindo o cana, eu vou indo atrás e nós saímos da sala de vidro indo em direção à uma outra sala.
Policial : Esperem aqui - Ele manda nós parar.
Eu olho pro infeliz com raiva e ele entra na sala e fecha a porta na nossa cara.
Guto : Desgraçado - Eu falo e aperto os dedos.
Advogado : Se controle senhor, qualquer palavra dita pode te complicar - Ele me olha fixamente.
Eu concordo e nós ficamos esperando por bastante tempo, o polícia sai da sala e fala me olhando.
Policial : O delegado ta esperando, pode entrar.
Advogado : Obrigado - Só ele agradece.
Eu entro junto com o meu advogado na sala do tal delegado, o verme me olha com desprezo.
Delegado : Você teve sorte de ter o seu alvará hoje em moleque, por mim você ficaria aqui por mais uns trinta anos - O desgraçado fala e sorrir.
Quando eu penso em responder o meu advogado me olha me repreendendo e entra na frente.
Advogado : Bom dia Senhor, eu estou aqui para receber os papéis que comprovam o alvará de soltura do meu cliente, por favor - Ele fala de forma educada com o miserável.
Eu fico olhando tudo sem dizer uma palavra, eu não vou dar oque esse desgraçado quer, se eu cair nas provocações dele eu posso acabar preso de novo, deixo o meu advogado resolver os bagulhos com ele, os dois conversa enquanto eu observo, quase vinte minutos depois o delegado de merda entrega o papel, eu assino e passo pro meu advogado.
Delegado : Até logo - Ele fala debochando da minha cara.
Guto : Até nunca mais - Eu falo e dou as costas.
Vou andando do lado do meu advogado, passamos por vários policiais e eles fazem a revista, logo somos liberados, o meu coração vai batendo ainda mais acelerado quando eu vejo o portão e sei que tô perto de sair, uma enorme felicidade é oque eu tô sentindo agora, papo reto, a minha liberdade chegou porra, penso comigo mesmo enquanto caminho de cabeça erguida, os policiais abrem o portão e eu finalmente saio do lugar onde eu fiquei tantos anos preso, eu olho tudo a minha volta e levanto os braços agradecendo a Deus.
Guto : OBRIGADO SENHOR, O CASTIGO FOI SEVERO MAS NÃO ME MATOU - Eu grito felizão comemorando.
Advogado : O senhor conseguiu a sua liberdade, agora aproveite bem e tente não ser preso outra vez - Ele aperta a minha mão.
Guto : Valeu doutor, você foi foda, ficou do meu lado esse tempo todo, vai ter recompensa já é ?
Advogado : Depois a gente conversa sobre isso, agora nós precisamos ir para o aeroporto para voltar para o Rio de Janeiro.
Guto : Porra é mermo, tanto tempo preso que eu esqueci até que tô em Brasília (Distrito Federal)
Advogado : Não se preocupe, de jatinho é uma hora e meia, vamos - Ele me chama pra entrar no carro.
O doutor Everaldo entra no carro e eu faço o mesmo sentando no banco do carona, ele logo dirige e eu fico viajando enquanto olho a paisagem das ruas, tanto tempo vendo só paredes que tudo parece novo, to igual criança curiosa quando ver novos lugares, a liberdade é algo valiosa e que é preciso saber aproveitar, e aqui tô eu, voltando pro meu RJ pra matar a saudades das pessoas que eu amo....
( Continuação )
*_Guto narrando_*
Acabamos de chegar no aeroporto do Galeão (RJ ) foi uma viagem bem rápida, não demorou nem duas horas, tô ansioso pra caralho, desço do jatinho e o doutor Everaldo vem logo atrás, nós vamos andando até chegar no ponto de táxis que tem dentro do próprio aeroporto, acho que o carro que ele foi me buscar no presídio era alugado, porque ele devolveu a chave pra um cara que tava parado lá no aeroporto de Brasília, penso e me aproximo de um coroa que tá do lado de um táxi fumando seu cigarro.
Guto : Bom dia coroa, tem como o senhor levar nós na maré ?
Taxista : Opa, só se for agora, é caminho da minha casa - Ele fala abrindo a porta de trás do carro.
Eu entro primeiro e o doutor Everaldo senta do meu lado, o coroa da a volta entrando no taxi e logo dirige, as batidas do meu coração vão ficando cada vez mais forte, falta pouco pra eu chegar e encontrar a minha mulher e o meu filho, porra eu não sei nem como vai ser a reação deles.
Advogado : Muito nervoso senhor ? - Ele pergunta e sorri.
Guto : Eu não sei nem explicar oque eu tô sentindo, tô só pensando em como a minha mulher vai reagir quando me ver - Eu falo e passo as mãos no rosto.
Advogado : Eu tenho certeza que ela vai te abraçar e chorar muito de felicidade, a maioria das mulheres são assim, elas são delicadas e frágeis, não que sejam fracas, mas, o lado emotivo da mulher é sempre mais aflorado.
Guto : Tá parecendo até que você é mulher kkk, explicou direitinho - Eu gargalho zoando ele.
Advogado : Eu estudo bastante sobre as mulheres, por isso eu consigo explicar dessa forma.
Guto : Entendi, doutor sabe tudo - Eu falo brincando.
Ele nega balançando a cabeça e da uma risada, eu fico olhando a rua pela janela do carro e vejo que algumas coisas mudaram no Rio de Janeiro quase todo, as ruas estão até mais bonitas, tem passarelas por toda parte, mais quantidades de lojas e mercados, reparo tudo por onde vamos passando, quando eu vejo que tá chegando perto da minha favela eu começo a suar frio de nervoso e ansiedade, eu nunca sentir essa parada em toda minha vida, deve ser a saudades que eu senti durante esse tempo todo, penso e em minutos o taxista entra na primeira barricada do complexo da maré, os vapores manda ele parar e abaixar os vidros, os moleques ainda estão na mesma atividade de sempre, eu fico até orgulhoso de saber que na minha comunidade estranhos não entra sem permissão, o coroa abaixa o vidro e um vapor se aproxima.
Vapor : Pra onde tu vai coroa ?
Taxista : Eu to indo deixar um passageiro em casa - Ele fala tranquilo.
Vapor : Abaixa os vidros aí, com todo respeito - Ele fala apontando o fuzil.
O doutor Everaldo me olha rindo, o taxista abre os vidros de trás e o vapor me olha.
Vapor : CARALHO, MENTIRA, é tu mermo patrão ? - Ele arregala os olhos e fala animadão.
Guto : Claro que sou eu porra, voltei rapaziada - Eu abro a porta do carro e saio.
Vários vapores vem correndo pra falar comigo, começa a soltar vários fogos e os moleques dão tiros pro alto comemorando a minha volta, o doutor Everaldo fica no canto, o vapor me passa o fuzil e eu atiro várias vezes pra cima enquanto grito felizão, os moradores vão aparecendo na rua e logo eu vejo uma multidão gritando o meu vulgo, é bonzão saber que a comunidade toda gosta de mim.
Guto : QUEM SORRIU NA MINHA IDA, VAI CHORAR NA MINHA VOLTA EM CARALHO - Grito e dou mais tiros pro alto.
Eu mando um vapor pagar o taxista e o coroa vai embora, eu fico mais um tempo cumprimentando geral, do nada eu sinto uma batida no meu ombro e quando olho pra trás vejo o meu mano PL, ele me dá um abraço forte enquanto os fogos continuam estourando no céu.
PL : Caralho irmão, mó felicidade tá te vendo aqui de novo, demorou mais chegou porra - Ele bate nas minhas costas e me abraça de novo.
Guto : Porra irmão tu não mudou nada em moleque, mó saudade que eu tava da minha comunidade e de vocês - Falo olhando pra ele com mó alegria.
PL : Porra parceiro nem fala, essa comunidade não é igual sem você, e eu já tava ficando doido de ter que administrar tudo sozinho, bagulho é foda.
Guto : Mas agora que eu voltei vai ficar tudo suave, e tu tá ligado que eu vou retribuir tudo que tu fez por mim né - Eu falo segurando os ombros do meu mano.
PL : Tá maluco irmão, nós tá aqui pra isso mermo.. Caralho mané, eu nem tô acreditando que tu tá aqui de novo - Ele me olha felizão.
Guto : Pode acreditar parceiro, mas aí, bora ali comigo irmão - Eu chamo ele e vou andando apressado saindo do meio da multidão.
O PL vem caminhando atrás, quando nós saímos do meio do povo eu estendo a mão pedindo a chave da moto dele, o meu mano me entrega, eu faço sinal pra um vapor e o moleque se aproxima, mando ele pagar um taxi pro doutor Everaldo ir embora, ele sai pra fazer oque eu pedi e eu subo na moto do meu mano, ele monta na garupa e eu acelero indo pra uma barbearia, em minutos eu chego e nós entra, o moleque que corta cabelo me olha surpreso, eu sento na cadeira e peço pra ele deixar o meu cabelo na régua, enquanto o barbeiro vai me deixando mais bonito, eu e o meu mano troca umas ideias... Quase uma hora depois ele termina.
Guto : Ai mano tu tem como pagar meu corte de cabelo ? depois eu te devolvo - Falo com o PL.
Ele pega a carteira e paga o moleque, me olho no espelho e fico satisfeito, minha aparência melhorou muito e eu tô me sentindo até mais leve depois de cortar o cabelo, nós saímos da barbearia e eu paro olhando pra ele.
Guto : Irmão eu tô nervosão.
PL : Qual foi, passa a visão mano ? - Ele me olha atento.
Guto : É que eu não sei qual vai ser a reação do meu filho quando me ver tá ligado ? não sei se o meu moleque vai querer me reconhecer como pai, eu fiquei muito tempo longe da minha família - Eu falo desabafando com meu mano.
O PL me olha estranho e ao mesmo tempo parecendo preocupado com alguma parada.
PL : É.... mano, eu... bora sair daqui - Ele fala todo nervoso.
Guto : Qual foi irmão ? tá acontecendo algum bagulho ? já me fala logo - Eu pergunto estranhando o jeito dele.
Ele desvia o olhar e coça a cabeça, essa parada tá estranha, tem alguma coisa acontecendo, penso enquanto encaro ele.
PL : Irmão tem um bagulho que eu preciso te falar, mas aqui não é lugar tá ligado ? bora lá pra salinha.
Eu encaro ele boladão, odeio rodeios, o bagulho comigo tem que ser papo reto, mas se o meu mano tá me chamando pra um lugar mais reservado é porque o assunto é sério, penso e sigo ele, o PL sobe na moto e eu subo também, ele acelera indo varado em direção à boca, geral na rua grita por mim, mas agora eu tô sem cabeça, não da pra falar com ninguém, só quero saber oque o meu mano tem pra me contar e depois vou ver a minha família.... Em menos de dez minutos ele para a moto em frente à salinha, eu desço e os vapores que ficam fazendo a segurança da porta vem me cumprimentar.
Vapor 1 : Porra chefe, tô felizão que tu voltou.
Vapor 2 : Eu também, a comunidade sentiu tua falta pra caralho, não é diminuindo o PL nao, ele representou cuidando da favela o tempo que você tava privado, mas tá ligado que nós já tava acostumado contigo né - Ele fala na humildade.
Guto : Eu to ligado rapaziada, daqui a pouco eu dou uma atenção pra vocês, vou resolver umas paradas aí - Aperto a mão dos moleques.
PL : Fé aí rapaziada.
Eu entro na salinha e vejo que tá tudo diferente e mais bonito, a cor das paredes que eram brancas agora tá cinza e tem alguns móveis novos, eu reparo tudo e sinto uma grande felicidade de tá de volta no lugar onde eu sou cria.
PL : Po irmão eu mudei alguns bagulho porque já tava ficando velho tá ligado ? mas se tu quiser pode botar do teu jeito.
Guto : Assim tá bonito mano, pode deixar.
Eu puxo uma cadeira e me sento, o PL faz o mesmo e começa à bolar um baseado pra nós fumar, enquanto ele desfaz a maconh@ eu pergunto.
Guto : E aí mano, oque tu tem pra me falar ?
Ele me olha sério e coloca os bagulhos em cima da mesa.
PL : Porra mano, papo reto mermo, eu nem sei nem como te contar essa parada, eu queria te falar de uma forma melhor pra tu não surtar de vez, mas... eu acho que não tem um jeito melhor de te falar isso e....
Guto : Bora logo mano, fala oque tu tem pra falar de uma vez sem ficar fazendo rodeio, eu já tô nervosão aqui - Eu falo puto olhando pra ele sério.
O PL respira fundo e concorda balançando a cabeça.
PL : A Duda foi embora daqui mano, ela levou o teu filho junto e já faz tempo - Ele fala de uma vez só.
Eu sinto o meu coração disparar como se fosse sair do meu corpo, tudo ao meu redor eu vejo ficar escuro e me levanto rápido.
Guto : Oque tu falou mano ? foi isso mermo que eu escutei ?
PL : Pior que foi irmão, a Duda levou o teu filho e foi embora junto com o VT, aquele braço direito do HG do complexo do alemão, isso já tem uns cinco anos, e parece que ela tá feliz, da última vez que eu fui lá pra resolver umas paradas com o mano, ela tava na garupa da moto desse moleque desfilando pela favela - Ele fala com raiva.
Guto : Não mano, isso é mentira, a Duda nunca ia fazer isso comigo, ela falou que me amava, isso é brincadeira né ? - Eu olho pra ele enfurecido.
PL : Mano, eu queria que fosse brincadeira - Ele fala e me olha preocupado.
Guto : CARALHO, MENTIRA QUE ELA FEZ ISSO COMIGO, EU VOU MATAR ESSA DESGRAÇADA, EU VOU ACABAR COM ELA - Eu grito descontrolado.
PL : Mano se acalma - Ele se aproxima de mim.
Guto : ME ACALMAR COMO PORRA ? EU FUI FEITO DE OTARIO DE NOVO CARALHO, EU TAVA PRESO ESPERANDO O DIA DE SAIR PRA FICAR JUNTO COM A MINHA FAMÍLIA, E ESSA VAGABUNDA ME TRAI DA PIOR FORMA ?
Eu fico cego pelo ódio e empurro o PL pra longe de mim, dou um chute na mesa derrubando o computador e outras coisas no chão, eu pego uma cadeira e jogo longe.
Guto : FILHA DA PUTAAAA, ESSA PIRANHA VAI MORRER DA PIOR FORMA, TRAIÇÃO EU NÃO ACEITO DE NINGUÉM NESSA PORRA, VAI TOMAR NO CU - Saio destruindo tudo dentro da salinha enquanto eu grito furioso.
PL : PORRA GUTO, SE ACALMA IRMÃO
Ele tenta me segurar mas não consegue, eu sinto o meu sangue fervendo dentro do meu corpo inteiro, as minhas mãos tremem de ódio e eu dou vários socos no espelho pendurado na parede, os cacos de vidro entram na minha mão e o sangue escorre pelos meus dedos.
Guto : ELA TIROU O MEU FILHO DAQUI E LEVOU PRA MORAR COM AQUELE DESGRAÇADO TALARICO, VAI MORRER OS DOIS.
Eu continuo destruindo tudo, o meu coração e a minha alma ta dilacerado, parece que eu perdi o domínio do meu próprio corpo e da minha mente, eu não tô conseguindo nem me controlar, parece que eu fui possuído pelo ódio, tudo que se passa na minha cabeça agora é coisa ruim, eu vejo a forma como a Duda vai morrer nas minhas mãos e isso me causa um grande desespero e raiva, quebro tudo dentro da sala enquanto o PL me olha sem saber oque fazer, eu grito e xingo várias vezes, as lembranças da traição da Samara me vem novamente me atormentando, o passado tá se repetindo de novo, mas dessa vez eu juro que vou acabar com tudo e nunca mais vou confiar em ninguém, saio da salinha transtornado, o PL vem atrás de mim tentando falar comigo mas eu não dou cabeça, subo na moto dele preparado pra encarar a vagabunda que destruiu a minha vida.
PL : Mano eu não vou deixar tu ir lá não, olha como você tá .
Guto : ME DÁ A PORRA DA CHAVE DA MOTO CARALHO, EU TO MANDANDO - Grito furioso.
PL : TU NÃO VAI SAIR DESSE JEITO CARALHO, TA QUERENDO MORRER NA PISTA ?
Guto : FODA-SE OQUE VAI ACONTECER, ME DÁ A CHAVE - Eu puxo ele pela blusa.
Os vapores ficam olhando pra nós de longe, eu arranco a chave da cintura do PL e ligo a moto dele, acelero o mais rápido e piloto feito um louco em direção à saída do morro, hoje eu acabo com a vida desses dois miseráveis....
*_PL narrando_*
Porra eu tô de cabeça quente, o Guto acabou de voltar pra favela e já saiu pra fazer merda, eu tô me sentindo culpado por ter falado pra ele sobre a Duda, mas não tinha oque fazer, uma hora ou outra ele ia descobrir, o meu mano tá malzão de novo e eu nem consegui fazer nada pra ajudar, aconteceu a mesma coisa do passado, só que a diferença é que a Duda meteu o pé com outro enquanto o meu mano tava privado (Preso), do mesmo jeito eu considero isso como uma traição, bagulho é foda, eu tô torcendo pra ele não fazer nenhum besteira, mas conhecendo bem o meu irmão é difícil ele se controlar quando tá tomado pelo ódio, eu ainda consigo ser mais racional, ele só faz os bagulhos na emoção, espero que o meu mano não acabe com a vida da mulher que é mãe do filho dele, independente da traição, eles tem um filho no meio disso tudo, e o Gabriel meu afilhado não merece ver essas paradas acontecendo, agora eu não tenho oque fazer, só posso esperar o meu irmão voltar, e tomara que ele não se meta em uma grande confusão só por causa de uma mulher que nem valeu a pena...
Na época que a Duda decidiu ir embora com o VT eu ainda tentei dar uns papos nela pra ver se ela desistia da ideia, mas ela já tava determinada a morar com esse otario, eu sempre fui muito presente na vida do meu afilhado, o Gabriel pra mim é como se fosse o meu filho, a Layla também tratava ele como uma mãe, o moleque vivia lá em casa junto com as nossas filhas, ele é um garoto que precisa muito de atenção, sempre que eu podia trocava umas ideias com ele, eu me sentia no direito de saber oque passava na cabeça dele, e oque ele fazia na escola e outras paradas já que o pai dele tava preso e ele nunca conheceu, mas agora ele tá distante de nós e eu nem sei oque o moleque tá passando, ele não queria ir embora da favela, mas a maluca da mãe dele forçou o garoto a ir com ela, eu tenho mó raiva da Duda desde esse dia, pra mim ela morreu, não quero nem ouvir a voz, foi mó covardia que ela fez com o meu mano e com o próprio filho, tirar o moleque de nós foi demais, ela podia ter ido sozinha, eu ia cuidar do meu afilhado igual eu cuido das minhas meninas, mas uma hora ela vai se arrepender de ter saído daqui pra morar no complexo do alemão com aquele talarico dos infernos, eu só espero que o Guto consiga pelo menos trazer o filho dele de volta, o meu mano tem todo direito de ficar perto do filho dele, e os dois merecem se conhecer mesmo depois de tanto tempo...
Agora falando de mim e da minha família, eu ainda continuo o mesmo apaixonado pela minha mulher, ela é a minha rainha, gostosa, tem tudo que eu preciso desde o início, nada mudou na nossa relação, na verdade até mudou mas foi pra melhor, eu amo a minha mulher e as minhas filhas, a Clarinha tá com 12 anos, tá grande e muito bonita, parece muito com a mãe dela, desde pequena ela me chama de pai, e ela cresceu me respeitando e me reconhecendo como o seu pai, mesmo sabendo que o seu verdadeiro pai fui eu mesmo que matei, nunca escondemos isso dela, e a Clarinha nunca sentiu raiva de mim por isso, pelo contrário, ela me agradeceu por ter salvado a sua mãe de um monstro, essas foram as palavras dela pra mim, a minha filha tá uma moça, eu fico sempre de olho pra malandro nenhum tentar chegar perto, pra ficar com ela vai ter que ser um cara muito responsável e trabalhador, não quero as minhas meninas nas mãos de bandidos, eu sou bandido mas não quero que elas sigam esse caminho, a nossa caçula tem 4 aninhos, ela se chama Isadora, a minha garotinha é linda, parece uma princesa, eu sou um pai muito bobo com elas, a Layla as vezes até briga comigo e diz que eu preciso colocar limite, mas eu não consigo quando eu vejo aqueles olhinhos brilhando querendo fazer bagunça kkk, eu acabo deixando mesmo escutando depois da minha mulher, a Clarinha as vezes vai pra casa de uma amiga dela que fica uma rua depois da nossa, eu sempre mando alguns vapores ficar de olho nela quando ela vai em algum lugar sozinha, eu confio na minha filha, mas eu não confio nesses canalhas que ficam em cima igual urubu, ninguém é nem doido de mexer, eu mato na hora, como diz a minha mulher, eu sou neuróticão, tudo eu bato neurose, mas isso se chama cuidado e preocupação, eu cuido delas porque eu amo e como homem eu tenho que proteger as minhas meninas...
Nós moramos na nossa própria casa, saímos da casa da minha mãe pra ter mais liberdades tá ligado ? mas a minha coroa nem queria deixar, ela é muito apegada as netas e quase ficou louca quando eu disse que já tinha comprado uma casa, faltou me bater kkk, dona Jussara mesmo estando de idade ainda tá na ativa, minha mãe é braba papo reto, minha coroa sempre fez e continua fazendo de tudo por nós, ela ama a Layla, ela fala que se um dia eu errar com a minha mulher que ela vai me dar uma coça que eu nunca vou esquecer, eu já falei que sobre isso ela pode ficar tranquila, a minha mulher nunca vai ter decepção comigo, só alegrias, as vezes eu levo as crianças pra casa dela e faço churrasco pra geral ficar junto, a minha mãe adora quando vamos lá, a casa dela fica uns quinze minutos de distância da nossa, é bem perto, eu tô sempre perto da minha mãe, e nunca vou abandonar minha coroa, foi ela que sempre lutou pra me dar o melhor, e hoje tudo que ela precisa eu dou em dobro, ela merece muito mais, a Clarinha ama ir pra casa da avó, lá ela sempre foi muito bem tratada, desde pequena a minha mãe criou um amor muito forte por ela, já a Isadora ama ficar grudada comigo, as vezes eu tô deitado com a Layla e a Isadora aparece se enfiando no nosso meio kkk, mas eu sou grato e feliz pra caralho pela família que eu tenho, eu não troco por nada nesse mundo, elas são as mulheres da minha vida, e enquanto eu tiver vivo vou lutar por nós...
A comunidade da maré continua como sempre foi, desde que o Guto foi preso fui eu quem fiquei cuidando de tudo por aqui, botei várias ordens pra não virar bagunça e reforcei a segurança na barreira pra não ter estresse com polícia, operação aqui acontece as vezes, mas nós sempre colocamos os cana pra voltar de ré, os vapores tão tudo mais treinados, os moleques larga o aço quando os vermes tenta invadir, na nossa favela rato não se cria não, sustentei até aqui, tive várias dores de cabeça por ter que resolver tudo sozinho durante nove anos, mas agora que o meu mano voltou eu vou entregar essa responsa pra ele e vou continuar sendo o seu braço direito, ser dono de favela não é mole não, nego acha que é fácil, não sabe oque nós passa...
Agora eu vou mandar os vapores organizar a bagunça que o meu mano deixou na salinha, e depois vou passar em casa pra dar um beijo na minha mulher e nas minhas filhas....