Uma menina magra e descabelada caminhava pela rua revirando as latas de lixo, aquilo chamou a atenção de Mia e Emily, que mesmo novas já eram treinadas para assumir o lugar do pai dentro da máfia canadense, elas abriram junto com o pai um centro de ajuda e treinamento para meninas, em um primeiro momento elas só observaram a garota sem se aproximar, algo nela gritava dor e desespero, elas não a abordaram, mas perguntaram por ela e descobriram onde a garota passava a noite, não era uma informação difícil de conseguir nas ruas, tudo podia ser pago.
Voltaram a noite com Don Anthoni, a menina foi arredia e quase bateu em Emily quando tocou seu braço.
Elas voltaram por vários dias até conseguir convencer a menina a conhecer a fundação, ela não quis entrar no carro, foi caminhando, Emily e Mia a acompanharam ela as olhava com desconfiança, e não respondia às perguntas de Don Anthoni, quando chegaram ela ficou um pouco mais tranquila quando viu várias mulheres ali, ela caminhou pelo lugar sem dizer nada, apenas observando as pessoas.
Emily:- Você pode passar a noite aqui se quiser, está perto da hora do jantar, temos roupas limpas e um chuveiro onde você pode tomar um banho-A garota a olhou por entre os cabelos loiros e revoltos, balançou a cabeça positivamente -Qual o seu nome?
A menina sussurrou em um tom quase inaudível "AVA", ela foi levada ao quarto que utilizaria, como Ava apresentava um comportamento recluso deram a ela temporariamente um quarto individual, as roupas foram colocadas, na cama, Ava as pegou e correu para o banheiro que havia no quarto, ela arrastou uma cadeira com ela, trancou e escorou a porta antes de se despir e entrar no chuveiro onde ficou por muito tempo.
Mia:- Ela deve ter passado por um trauma muito grande, já acionei a doutora Moss-Mariana Moss era psicologa do centro.
Mariana apenas observou Ava, entendeu que precisava ganhar a confiança dela, antes de iniciar uma terapia, ela a conduziu ao refeitório e sentou ao lado dela no jantar, conversando coisas banais que no início Ava não respondia, mas foi relaxando aos poucos e dando respostas curtas.
Mariana foi se aproximando de Ava no decorrer dos dias, criando laços e ganhado confiança, Ava passou a treinar, mas ainda falava pouco sobre sua vida, estudava dentro do instituto e se negava a sair para qualquer atividade externa, ela se sentia mais segura ali dentro.
Mariana:- Como estão os seus treinos?-Ela avia terminado de treinar com Emily, estava pingando suor
Ava:- Foi bom, é um momento que gosto muito-Esta havia sido a frase mais longa dela desde que chegara ali, e isso já fazia três meses.
Mariana:- Isso é bom, o que acha de conversarmos sobre isso mais tarde-Ava ficou em silêncio, ela sabia o que Mariana fazia no instituto
Ava:- Só sobre isso?-Mariana sorriu
Mariana:- Podemos conversar sobre o que você quiser, fique tranquila-Ava balançou a cabeça positivamente
Ava:- Eu vou-A menina respirou fundo e voltou para o seu quarto.
Era uma grande vitória para Mariana, era muito difícil se aproximar de Ava, até mesmo os exames médicos de rotina, foram muito difícil para serem feitos, e alguns ainda não haviam sido.
Mais tarde naquele dia, Ava bateu na porta da sala que Mariana usava como consultório, ela entrou e se sentou, sua cabeça permaneceu baixa todo o tempo.
Mariana:-Fique a vontade Ava, aqui é um lugar seguro, você pode falar o que quiser, não será julgada -Ava mexia com as mãos estava nervosa, seus olhos ficaram vermelhos
Ava:- Podemos falar só do instituto?-Mariana já esperava por isso, levaria um tempo para Ava se abrir
Mariana :- É claro -Ava pareceu tirar um peso das costas, ela falou sobre o Centro, sobre as coisas boas que encontrou ali, sobre a admiração que sentia por Emily e Mia e o que esperava do futuro, Ava evitou falar do seu passado, os dias se passaram e elas tiveram sessões diárias, na quinta sessão Ava estava sentada em silêncio a mais de três minutos.
Ava:- Eu queria falar sobre -Ela fez uma pausa e Mariana entendeu que ela queria falar sobre o passado
Mariana:- Pode falar sobre o que quiser-Ava pigarreou, a lágrima escorreu pelo rosto
AVA ALLEN
Quando entrei no consultório naquele dia, pensei muito, eu olhava as outras meninas da minha idade, muitas ainda brincavam de boneca, e eu com apenas treze anos tinha uma compreensão da vida que nenhuma menina deveria ter, todo esse tempo de sofrimento me fez amadurecer de uma forma sombria, eu queria ser livre e deixar tudo isso para trás, e talvez hoje fosse o primeiro passo para isso.
Ava:- Quero falar do meu passado-Antes que Mariana dissesse mais alguma coisa, comecei a falar antes de perder a coragem
Ava:-Fugi da casa do homem com quem morei por três longos e angustiantes anos, mas não antes de abrir sua cabeça com um martelo, ele estava bêbado sentado no sofá, depois peguei minha mochila e fugi, andei pelas ruas sem rumo por muito tempo, comi lixo, dormi em marquises, apanhei e bati, a vida nas ruas não era fácil, eu já não me sentia mais humana, eu era um bicho que brigava por um pedaço de pão mofado e a noite chorava deitada no chão sujo e frio, eu tinha apenas doze anos.
Aos treze, encontrei Emily e Mia, eu estava dormindo quando fui abordada por elas, não foi fácil confiar, demorou dias, quase um mês para que me convencessem a ir com ela, eu tinha medo de confiar, elas me deram o endereço do instituto e fui lá visitar, quando vi aquele lugar, falei com as pessoas, pela primeira vez em muito tempo senti que talvez, só talvez eu tivesse um lugar seguro por algumas noites e fiquei, os dias se tornaram semanas e as semanas se tornaram meses, e aqui estou anos depois.
Minha vida foi um desastre desde pequena, daquele tipo que não se conta, não se pensa, apenas se tenta esquecer, mas eu não esqueci, eu queria vingança, queria fazer Eduardo sentir a dor que me fez sentir, queria que ele ajoelha-se em desespero por tudo que me fez passar.
Meu pai Eduardo Allen nunca gostou de mim de verdade, ele sempre me ignorou e me excluiu, mas fazia minha mãe feliz, na frente dela ele fingia, e eu ficava em silêncio porque minha mãe era boa comigo, ela me amava e cuidava de mim.
Aos oito anos as coisas mudaram, minha mãe precisou viajar a trabalho e precisei ficar uma semana sozinha com meu pai, foi aí que os abusos começaram.
No primeiro dia sozinha com ele, Eduardo me tratou muito bem, eu fiquei feliz, achei que finalmente ele estava me enxergando, e ele estava, mas não da forma que eu gostaria, naquela noite ele foi até o meu quarto, logo entendi o motivo da sua bondade, ele me disse que se eu quisesse ser amada por ele deveria ficar quietinha, e ser boazinha, naquela noite ele dormiu no meu quarto, disse que naquele dia ia apenas me preparar para a noite seguinte, eu chorei a noite toda, naquela semana não fui a escola, ele ligou dizendo que eu estava doente, e pediu uns dias de folga no trabalho, tudo que aconteceu durante aquela semana foi doloroso, eu pensava estar sendo punida por alguma coisa, mas ele me dizia que aquilo era a forma dele demonstrar o amor que sentia por mim, mas que eu não deveria contar a ninguém, as pessoas não entenderiam, e se eu contasse a mamãe sentiria ciúmes e iria embora.
Quando minha mãe voltou eu me calei, fui me tornando uma criança reclusa, não gostava de ser tocada ou de conversar, ele ainda vinha ao meu quarto, pelo menos três vezes na semana, sempre me perguntei como a mamãe nunca acordou, como ela nunca percebeu, isso durou anos, quando minha mãe faleceu ainda fiquei mais um ano com ele.- Fiz uma pausa, as lembranças eram dolorosas demais.
Mariana:- Quer fazer uma pausa?-Balancei a cabeça negativamente, queria colocar tudo para fora.
Ava:- Quero continuar-Respirei fundo e continuei- Um dia meu pai chegou em casa e disse que eu estava ficando velha eu tinha apenas nove anos, um homem estranho e enorme entrou logo atrás dele, ele segurou meu queixo com força virando de um lado ao outro.
Ray:- Vai servir- Eu olhei para o meu pai sem entender
Eduardo:- Você vai com ele, me cansei de cuidar de você-Ele era um monstro, mas eu não queria ir, o jeito que Ray me olhava me dava arrepios, eu corri e me agarrei na perna
dele, ele era um monstro, mas eu tinha medo do desconhecido-Não adianta chorar, seja boazinha com ele como você é comigo-Meu sangue gelou, eu sabia o que ele estava dizendo, não tive tempo de falar mais, enquanto eu estava em choque, ele desapareceu no corredor e voltou muito rápido, com uma mochila, ele já deveria ter deixado aquilo preparado, jogou a mochila para o homem, que em seguida me ergueu me jogando por cima do ombro, ninguém na rua parecia perceber, mesmo os que viram, não fizeram nada, e assim me vi na casa de Ray, e era muito pior do que com meu pai, ele me trancou em um quarto e ali começou meu novo pesadelo.
Ava parou de falar, respirou fundo e enterrou o rosto entre as mãos, Mariana esperou que ela se acalmasse, ofereceu lenços e água.
Mariana:- Quer continuar?-Ava suspirou, balançando a cabeça positivamente
Ava:- Eu posso parecer cruel, mas os dias mais felizes dá minha vida, foi quando Ray chegou em casa uma noite e me disse que Eduardo havia morrid@ em um incêndio, o outro foi quando bati em Ray e fugi de casa-Ela ficou em silêncio-Acho que falei bastante desta vez-Ava deu um sorriso triste
Mariana:- Falou sim, o importante é você colocar tudo isso para fora, e iniciar sua cura, ainda é muito nova, e passou por coisas muito difíceis, mas elas não podem estagnar a sua vida-Ava balançou a cabeça positivamente
Ava:- Será que um dia serei normal, doutora?-Mariana sorriu
Mariana:- Você é normal meu amor, só precisa reaprender algumas coisas que foram tiradas de você, e se você prestar atenção nas pessoas, ninguém é muito normal-Ava riu, a primeira risada espontânea desde que chegou ali, isso aqueceu o coração de Mariana, ainda tinham um longo caminho, mas ela tinha esperanças de poder ajudar aquela menina tão quebrada.
A partir daquele dia Ava treinava com mais afinco, ela insistia em treinar com armas, mas Emily e Mia não permitiram, ela era muito nova, era a melhor na sua turma na luta corpo a corpo,
Com o passar do tempo Ava se tornou uma das meninas de elite que trabalhavam junto a MIa e Emily, para Dom Anthoni, aos dezoito foi morar na mansão.
Ava fez tratamento e passou pelas sessões até sair do centro, depois se recusou a continuar, ela se tornou fria, focada apenas em seu trabalho, no qual era boa até demais, seu círculo de amizades era as pessoas da casa e as meninas que trabalhavam com ela, e isso depois de terem muito tempo juntas, ela tinha dificuldade em confiar nas pessoas.
Ava estava entrando na casa, voltava de uma longa e cansativa missão, Emily estava na sala com Mia.
Mia:- Como foi?-Ava deu de ombros
Ava:- Tranquilo, tocaia básica entramos limpamos o local libertamos cinco mulheres
Emily:- E os homens que estavam lá? Os que estavam de guarda para elas.
Ava:- Me desculpe, não sobrou ninguém, eles resistiram, quando saímos deixamos a equipe de limpeza lá
Emily:- Tudo bem, vamos encontrar outra forma de chegar a essa organização, vá descansar -Elas estavam rastreando uma organização de tráfico de pessoas e estavam com dificuldades para descobrir o cabeça de tudo, acharam que interrogando um dos
homens que m@rreram hoje.
Emily:- Arrumamos outro jeito, vá descansar Ava-Ela saiu indo para o quarto, tomou banho e depois se jogou na cama , em algumas dias simplesmente não conseguia dormir, sempre que fechava os olhos imagens dá sua infância vinham a tona e este era um destes dias, ela se sentou na cama e socou o travesseiro
Ava:- Merd@- Jogou as pernas para fora da cama e esfregou o rosto irritada, abriu a gaveta e pegou um cigarro indo para sacada, não fumava com frequência, apenas quando estava muito nervosa ou ansiosa, deu uma longa tragada e observou a fumaça esfregando o peito que doía sempre que tinha essas lembranças-Quando isso vai passar?-Falou baixinho-Quando?-Se encostou no batente fumando lentamente, a noite estava calma da sua janela via o jardim e os soldados que faziam a ronda, sabia que não dormiria, então se trocou e foi se juntar a eles, pelo menos ocuparia a mente e depois de muito cansada talvez conseguisse dormir
Os soldados olharam para ela um pouco confusos.
Soldado:- Temos algum problema?-Ela olhou para ele com uma fisionomia neutra
Ava:- Nenhuma novidade, apenas quis ver como estão as coisas-Eles ficaram em silêncio, respeitavam as ordens dela, Ava deu algumas voltas falou com os homens e ajudou nas rondas da madrugada, quando percebeu o dia estava amanhecendo, suspirou, voltou para o seu quarto, tomou banho e se preparou para o dia.