Ahmed foi morar no Brasil ainda criança, quando o casamento de seus pais desandou. Eram ainda casados, porém raramente seu pai aparecia para cumprir o papel de marido e, quando ia, sempre tudo parecia perfeito. Isso fez com que Ahmed crescesse muito apegado à mãe e sem entender por que não moravam juntos, como uma família normal.
Quando realmente se divorciaram, ele teve que ir morar com o pai e não perdoou a mãe por o abandonar. Ela não teve muitas opções, seguindo a cultura deles, árabes.
Mas ele nunca aceitou. Todo o seu amor virou mágoa, justamente quando estava amadurecendo, foi moldado pelo pai, um homem machista, grosso e egoísta.
Assim que Ahmed atingiu a maioridade, foi estudar para assumir os negócios do pai e, na primeira oportunidade, retornou para morar no Brasil, evitando a família toda.
Quando ninguém via, ele não seguia a religião de fato e nem temia por isso. Foi bastante influenciado pelos anos no Brasil e seu pai ficava louco só de imaginar que seu primogênito não era um grande exemplo.
Acionistas de um grupo de pedras preciosas, tinham uma bela fortuna também, da qual Ahmed tinha um acesso bem limitado por ser jovem e solteiro.
Seu pai Ali estava há anos fazendo vista grossa para a enrolação do filho em construir uma família e o pressionou financeiramente. Ahmed morava há anos em um apartamento pequeno, simples, bem básico. Seu carro era bem meia boca também, popular, praticamente não tinha nem acesso a um salário decente e respeitava tudo isso, achando que ia se livrar de um casamento arranjado.
Ali nem podia imaginar o que estava acontecendo. Há meses Ahmed estava envolvido com uma vizinha quase da idade dele. Estavam namorando discretamente. Franciele era bem solta, sensual, experiente e o conquistou na cama sem dificuldades, já que ele não tinha o hábito de ficar com ninguém.
Antes dela, ele só teve uma ficante, com quem teve a primeira vez e se sentiu culpado. Franciele foi direta em demonstrar interesse quando se cruzavam no elevador. Ela puxava assunto, o convidou para jantar, na primeira ficada foram para a cama e não se desgrudaram mais.
Completamente apaixonado, Ahmed começou a pensar em enfrentar o pai, talvez sair dos negócios e ficar por conta. Sua namorada foi muito contra, não entendia o tamanho do respeito dele pela família e começou a pressioná-lo para assumi-la. Estavam brigando há semanas porque ela queria postar as fotos deles de uma viagem que fizeram juntos.
O pai dele estava vindo para ficar meses no Brasil com a atual esposa grávida e outros filhos menores. Ahmed estava organizando a casa do pai, ocupado e preocupado, deu a entender que se continuasse recebendo cobranças da namorada, ia se afastar.
Ela sabia de tudo sobre a rotina dele. Estavam sem conversar direito há dias, se evitando. Quando o pai dele chegou, ela arquitetou um plano para dar um empurrão em Ahmed. Ficou vigiando tudo e, quando soube pelo porteiro que tinham visitas diferentes, foi até o apartamento dele com uma encomenda.
Ele estava na cozinha ocupado. Ali abriu a porta sério, não gostou do jeito dela. Estava com um vestido preto de regata, decotado, agarrado ao corpo. Ela sorriu e esticou a mão simpática:
- Oi, tudo bem? Sou a Franciele, o Ahmed está?
Ali nem respondeu, foi entrando e o chamando. Ahmed ficou todo sem jeito, foi saindo para fora, afastando-a da porta e cochichando:
- O que você quer? Sabe que não pode vir aqui.
Ela ficou o olhando como se estivesse cheia de razão:
- Ele vai ter que aceitar, não é? Uma hora ou outra, vai me conhecer e saber de nós.
Ahmed foi rude e a mandou se calar e ir embora. Ela respondeu um pouco alto:
- Quando vai parar de ter medo do seu pai e contar tudo? É assim que me ama?
Foi embora chorando. Ali percebeu que tinha algo acontecendo, ouviu parte da conversa. Assim que Ahmed entrou, disse que ela se confundiu com uma encomenda de outro vizinho. Ali ficou sério:
- Quero que acabe com essa mulher espetaculosa. Você vai se casar, vim para acertar seu casamento. Tenho tolerado esse seu jeito há anos, acabou! Este mês você se casa e em um ano quero que tenha tido um filho. A sua irmã já tem dois e uma linda família. Tenho vergonha de você, sem raízes, vive sozinho, não tem um lar, uma esposa que te ame. Vai conhecer a filha de um grande amigo meu, ela é jovem, bonita, vai aprender a ser boa esposa e te dar muitos filhos. Cresceu aqui no Brasil como você, eu sei que isso vai te agradar. Juntos vão buscar o caminho da religião, como deve ser.
Ahmed se calou pensativo, não queria nada daquilo. No dia seguinte fizeram uma festa de boas-vindas a Ali e à família. Um primo dele quem organizou, tinham várias pessoas, famílias conhecidas.
Ahmed chegou por último, foi evitando as pessoas e estava em um canto afastado no quintal quando ouviu um barulho de alguém caindo e um grito. Até se assustou, foi olhar e tinham duas moças, uma no chão e outra em cima do muro. Ele se aproximou para ajudar:
- Oi, machucou? Tudo bem?
Ela afastou as mãos dele rindo, limpando a calça jeans, batendo para tirar a terra:
- Não pode encostar em mim, quer que eu seja chicoteada?
Se virou de costas para ele:
- Vaiii, joga a bolsa, anda logo ou é você que vai arder no mármore do inferno, Latifa.
Ele estava parado atrás, reparando nela, no corpo, no cabelo. Parecia uma brasileira normal, de tênis, calça muito agarrada, regata e brincos enormes de argola. A que estava em cima do muro jogou a bolsa, a outra pegou e se virou, surpreendendo-o:
- Você trabalha aqui? Se continuar olhando as mulheres daqui assim, vai ser expulso.
Saiu rindo, andando de costas e o olhando:
- Pervertido, vai arder no mármore do inferno.
A outra também pulou e saiu correndo rindo. As duas o acharam lindo. Ele estava de roupa social, calça escura, camisa clara, sem barba, cabelo arrumadinho. Ele só deu risada, pareciam duas adolescentes rebeldes.
Soraya e Latifa foram se trocar antes de serem vistas. Colocaram vestidos comportados de manguinha três quartos, sandália rasteira e o véu, cobrindo os cabelos. Foram para a festa rindo, procurando aquele moço tão bonito. Said, pai de Soraya, estava conversando com Ali. Queriam apresentar seus filhos, há anos os dois falavam em os casarem.
Ele a apresentou ao futuro sogro, fez muita propaganda dizendo que ela era dedicada, religiosa, saudável. Ela ficou sorrindo de desespero porque não queria se casar com um desconhecido, achava que seu pai não iria adiante com o casamento arranjado.
Ali estava procurando o filho, o viu de longe e acenou, chamando:
- Aliii, meu filho Ahmed, ahhh, mas vocês vão ficar lindos juntos. Eu mostrei uma foto e ele gostou muito de você, dobrou o dote até, ele sabe que você é uma preciosidade.
Quando Ahmed viu quem ela era, sorriu sutilmente:
- Eu já não te conheço de algum lugar?
Ela balançou a cabeça que não, se fazendo de tímida. Foram apresentados oficialmente. Ali fez questão de falar que eles tinham sorte porque podiam pelo menos se ver antes de casar e, no passado, não era assim.
Saíram de perto um pouco para os dois conversarem. Ele começou a rir:
- Você é uma falsa, ardilosa, o meu pai não vai querer uma nora assim. Esse casamento não vai acontecer.
Ela sorriu com cinismo:
- E eu ouvi falar que você gosta de homem, por isso é tão velho e seco, sem esposa ou filhos. Eu não quero um marido que vá me deixar largada em casa.
Ele ficou sério:
- Não quero uma criança como esposa. Esse casamento não vai acontecer.
Ela sorriu acenando para o pai e o futuro sogro, falou baixinho só para ele ouvir:
- Não vai mesmo, você não gosta de mulher.
Ele também sorriu:
- Como você vai saber? Se não é uma ainda? Já ficou mocinha? Nem deve ter seios ainda, isso é enchimento.
Ela se afastou indignada, o deixou falando sozinho, ficou trocando olhares curiosos o resto da festa, sem saber como se sentia referente à proposta. Sua amiga ficou eufórica com a beleza dele, começou a dar bons motivos para Soraya casar e se conformar com a sorte.
Ahmed comentou com o pai que a achou muito jovem. Ali sorriu com orgulho:
- E o que você queria? Uma noiva seca? Ela está terminando os estudos, vai ter tempo para se dedicar à família e, o melhor, você vai ensinar ela a ser boa esposa. Acabou de alcançar a maioridade, não tem muita coisa em casa. Vai se deslumbrar com a vida que vão ter, vou comprar uma casa bem grande, confortável e um carro para vocês.
Ahmed não disse mais nada, também ficou a olhando de longe, intrigado com o fingimento dela. Percebeu que no fundo tinham algo em comum: não seguirem os costumes como suas famílias gostariam.
Ficou achando que iria dar um jeito de não se casar, porque de fato a achou muito nova, não via como iria se interessar e ter uma vida com uma moça assim, já que ele era um homem feito, estudado e viajado.
Antes de irem embora, Ali insistiu para o filho ir se despedir da noiva. Estava falando como se estivesse tudo certo. Soraya estava no canto da sala, perto da mesa de doces. Latifa correu saindo de perto quando o viu vindo. Ahmed se aproximou para pegar um doce:
- Meu pai insistiu para eu me despedir, ele acha que você não sabe o quanto é feia. Talvez algum rapaz cegueta queira se casar com você. Quando crescer e tiver peitos. Tchau, feia!
Ela ficou sorrindo irritada:
- Desde que seja homem de verdade! Tchau, seu viad...
Silenciou porque passou alguém perto, foi embora refletindo sobre ele ser bonito, levou na brincadeira a implicância dele, achando que era charme. Antes de conversar com o pai, ouviu ele falando no celular, era sobre trabalho e dinheiro, deu para entender que estavam com problemas financeiros.
Iriam até mudar de casa, para uma menor. Said estava com problemas de saúde há meses e dificuldades financeiras. O casamento ia ajudar nisso e, querendo ou não, ele ia fazer Soraya casar.
Ela percebeu que não tinha opção, perguntou o que iria acontecer se o marido não fosse como deveria ser. Seu pai lhe chamou a atenção, como se ela fosse tola por pensar assim, acreditando em fofocas. Deixou claro que o bem-estar dele e da família dependia do casamento.
Ficou falando que ela ia ter uma boa casa, carro, estudos, deu a entender que o próximo casamento seria com um homem bem mais velho, divorciado, cheio de filhos para ela cuidar, a encheu de medo.
Ainda mentiu, dizendo que o noivo adorou ela e era meio doidinho como ela, porque cresceu no Brasil. Ela começou a ver tudo com outros olhos, disse que queria o conhecer melhor, achou que teria meses até estar pronta, que durante o noivado ia se aproximar, fazer amizade com Ahmed.
Ele não deu muita importância aos planos de seu pai. Alguns dias depois foram a uma reunião de trabalho. Ali falou cheio de orgulho que ia casar seu primogênito em alguns dias, até começou a convidar pessoas. Ao saírem de lá, foram para o apartamento de Ahmed. Ele o questionou, dizendo que não ia ficar com aquela menina tão nova, porque estava apaixonado por outra. Ali se irritou e perdeu a paciência:
- Com aquela mulher que se mostra para todos na rua, você não vai ficar. Eu investi muito para te fazer um bom homem, inteligente, estudado, honesto, para trabalhar nos negócios da família. Paixão dá e passa, mulher assim não serve para ter família. Ela é velha, não vai te dar muitos filhos, não segue a religião. Se vai insistir nessa aventura descompensada, tentando matar o seu pai de desgosto, vou te afastar de tudo. Quero que saia do apartamento, devolva o carro e na minha casa não entra mais. Seus irmãos vão saber que foi tomado por um gênio ruim enquanto virava as costas para sua família. É isso o que quer?
Ahmed disse que não, se calou, entregou alguns documentos ao pai e o acompanhou até a porta. Quando foram se despedir, Franciele saiu de shorts curto e a parte de cima do biquíni, ia para a piscina do prédio. Ali ficou horrorizado, falou alto:
- Eu tô no infernoooooooo! Você vai embora desse lugar comigo.
Voltou para dentro:
- Ela vai arder no mármore do inferno e te jogar junto.
Franciele achou graça, acenou e entrou no elevador. Ali ficou histérico de bravo, o fez ir ficar em sua casa, só para mantê-lo longe dela, aproveitou para apressar as coisas, convidou Said e a família para jantarem, era praticamente o noivado e os noivos nem sabiam.
Soraya não tinha muitas coisas comportadas e bonitas, colocou uma calça de alfaiataria nude, camisa social de seda rosa, se maquiou bem, olhos esfumados marrom com delineado preto bem marcado, batom nude, emprestou o véu de sua amiga e a sandália também, ficou ansiosa para ver Ahmed.
Ele nem sabia que ela iria lá, saiu escondido, foi ver Franciele. Ela estava brava e ameaçou terminar, tentou o manipular, quis transar no carro. Quando ele não quis fazer nada e se mostrou indiferente, ela se alterou, dizendo que ia vê-lo voltar correndo como um cachorro.
Fez toda uma cena desnecessária, despertando o lado ruim dele, orgulhoso e rancoroso. Ele concordou que iriam terminar então, ficou por isso, nem se despediram.
Ali não o viu sair. Quando sentiu sua falta, começou a ligar várias vezes. Ahmed ignorou. Quando chegou levou um xingo, disse que tinha ido colocar um ponto final naquilo. Seu pai entendeu e ficou radiante, crente que o filho faria a coisa certa.
O mandou se arrumar e ir receber a noiva. Said tinha ido falar de negócios também, iria receber dinheiro após o casamento. A esposa de Ali estava indisposta. Uma das filhas dele ficou na sala para receber Soraya e a chamou para ir ao quarto, porque só ficariam homens na sala.
Quando estavam indo, a menina foi chamada por uma criança chorando em um quarto, disse que ia ver e já voltava. Soraya ficou parada perto de uma área de luz, olhando o céu. Ahmed saiu do quarto fechando os botões da camisa, quando a viu, sorriu com maldade:
- Ooo feia! Meu quarto é ali, quer conhecer?
Ela sorriu com cinismo o olhando fixamente, só imaginando como ele era sem camisa:
- Vai me maquiar? Fazer as minhas unhas?
Ahmed foi se aproximando mais, sério:
- Vou brincar de casinha, ainda brinca de bonecas, imagino?
Cara a cara, chegou muito perto, a intimidando, olhou para os lados, verificando se não estava vindo ninguém. Ela continuou o encarando também, o olhando de baixo para cima, pela diferença de altura:
- Não, eu que sou a boneca, com certeza vai querer brincar comigo. Seu papai te obrigava a brincar de carrinho? Jogar bola?
Em segundos ele colocou as duas mãos nos seios dela:
- Só bolas pequenas, assim.
A pegou de surpresa, no susto ela se afastou, caiu de bunda dentro da área de luz, em cima das plantas:
- Está louco? Alguém pode ver!
Ele se abaixou rindo:
- Então, se ninguém ver, posso te tocar?
Começou a passar a mão na perna dela, de baixo para cima, em direção à coxa:
- Não quero uma noiva espetaculosa, sem vergonha, oferecida e que não seja virgem.
Com um temperamento tão ruim quanto o dele, ela teve medo de ser prejudicada, não pensou duas vezes, o chutou no meio das pernas:
- Não quero um noivo que nem sabe me tocar e respeitar.
Ele caiu sentado com dor. Sua madrasta ouviu, foi na porta do quarto e perguntou o que tinha acontecido. Soraya respondeu se afastando dele:
- Olá, que bom te encontrar, ele caiu e eu fiquei com medo de o ajudar, porque não podemos ficar sozinhos.
Ele se levantou bravo, foi indo para o quarto de volta:
- É... não foi nada!
Soraya começou a rir:
- Tudo bem? Desculpa não te ajudar, gosto de seguir os costumes, não quero prejudicar o nosso casamento!
A madrasta dele disse que ela estava certa e a levou para dentro de seu quarto. Começou a falar como era quando se casou, perguntou se a mãe dela havia ensinado como ser boa esposa. Soraya ficou sem jeito, chateada, porque a mãe havia falecido há muitos anos, disse que o pai a ensinava um pouco.
Nabilah era a terceira esposa de Ali, disse que ia ensiná-la, perguntou se era virgem, pediu para não mentir, porque o marido saberia quando fossem dormir juntos e já falou que podia ajudar a fingir que era, ficando mais apertada.
Soraya falou a verdade, era virgem e não entendia nada de sexo. Nabilah começou a explicar como ela deveria se preparar sempre para dormir com o marido: estar com os cabelos limpos, cheirosos com óleo de argan, mirra e canela, também usar óleo corporal afrodisíaco, estar bem depilada com o corpo liso.
Deram muitas risadas, Nabilah quem ia ajudar ela com o enxoval, as lingeries, falou até do Kama Sutra, disse que conseguia engravidar sempre que queria e ia ensinar ela a fazer o mesmo, para terem logo um filho, porque Ali só ia dar a casa e fechar o negócio com Said quando Soraya engravidasse.
Ela estava sendo um pouco manipulada, mas no fundo começou a querer se casar com ele, achou ele muito ousado e deduziu que a vida seria mais fácil do que com um marido fiel à doutrina da religião.
Quando foram jantar, os noivos sentaram um ao lado do outro, pareciam tímidos, respeitosos, mas na verdade só estavam com birra. Ele ficou com dor, só esperando a oportunidade de retribuir, sorriu sutilmente para ela algumas vezes.
Quando todos estavam distraídos com a irmã dele dançando, ele derrubou suco nas pernas de Soraya, se levantou pedindo desculpas, a deixou toda suja, tiveram que ir embora mais cedo.
Quando foram se despedir, ela falou que queria o conhecer melhor, sugeriu que ele ligasse ou mandasse mensagem. Ele pegou o celular para anotar o número:
- Precisamos nos encontrar a sós.
Ela sorriu imaginando que iriam se beijar, concordou, foi embora fantasiando várias coisas, queria sentir o cheiro da pele dele, o abraçar, roçar seus corpos de roupas. Ele só queria conversar, deixar claro suas intenções.
Trocaram os contatos, não tiveram como conversar nada. No dia seguinte ele mandou bom dia. Ela estava na escola de manhã, respondeu às pressas:
"Oie bom dia, quando vai vir me buscar na escola? ??"
"Sempre vou embora sozinha e de ônibus, saio às 13 hrs"
Ele ficou curioso para saber mais da vida dela, teve certeza que era completamente desvirtuada, até a achou meio oferecida, respondeu pensando em lhe fazer uma proposta:
"Hoje!!!! Me manda o endereço."
Ela mandou, ficou ansiosa falando dele para as amigas, mentiu dizendo que estavam ficando, namorando e já iam noivar por causa das famílias, disse que era rico e bonito. Quando deu o horário de sair, quase fizeram uma comitiva para vê-lo.
Ele nem desceu do carro, estava impaciente. Ela saiu procurando, mandou uma mensagem:
"Se atrasou?? Vc vem ainda???????????"
Ele estava um pouco longe, virando a esquina, mandou foto da rua, mostrando. Ela foi até ele sozinha, abriu a porta do carro:
- Oi. Para onde vamos? Posso ficar a tarde toda fora, eu disse que ia fazer um trabalho de escola.
Ele estava sério, reparando nas roupas dela: calça legging agarrada preta, tênis, blusinha de alça decotada, maquiagem forte, brincos grandes. Foi ligando o carro:
- Vamos almoçar! Quero saber se está realmente pronta, porque pelo o que estou sabendo, não temos opção em negar o casamento.
Ela ficou séria, confusa:
- Como assim, pronta? Mal-educado e desrespeitoso como é, não deve seguir a religião. Eu pelo menos tento, só não gosto de pagar mico na escola.
Ele ficou pensativo:
- É, não sigo muito mesmo. Vamos a um restaurante desses pequenos, discretos. A sua família é grande, né? Quantos irmãos você tem? Como são as coisas em sua casa?
Ela pensou para responder, envergonhada:
- Ahhh, eu cuido deles desde que minha mãe faleceu. Sou a mais velha, tenho dezoito. Tem os gêmeos, de dez anos, Mu e Mumu, chamam Mohamed ambos. A Hosniya é a caçula, tem três anos, ela foi morar com uma tia nossa, faz mais de um ano, porque estava muito difícil cuidar dela. Eu estudo de manhã, cuido da casa, faço comida. Os meninos ficam período integral na escola. Meu pai trabalha desde cedo até a noite, na loja e no barracão da confecção dele. Não tinha quem cuidasse da Hosniya, então... foi uma solução temporária, meu pai perdeu muito dinheiro e fechou dois barracões. Tivemos que cortar os gastos desnecessários, com empregadas, escolas caras, babás. Quando eu terminar a escola, quero muito trazer a minha irmãzinha de volta. Com certeza a sua vida é bem mais interessante.
Estavam entrando em um estacionamento, ele respondeu cínico:
- Tem que ser, na minha idade é o mínimo.
Desligou o carro, foi se preparando para descer:
- Tenho uma carreira, estudos, sou bilíngue, cuido dos negócios do meu pai, somos acionistas em um grupo de pedras preciosas.
Abriu a porta do carro:
- Sempre anda mal vestida assim? Seu pai sabe disso?
Ela também abriu a porta pensativa:
- Ele não sabe! Eu me troco na rua todos os dias. Eu estava na escola e não em um baile.
Foi descendo do carro:
- Se você é tudo isso de bom, por que ainda não se casou?
Ele também desceu, foi caminhando em direção à entrada ao lado dela:
- Porque eu não quis e ainda não quero. Vou ser sincero com você, meu pai quer que eu me case e tenha filhos. Tem muito em jogo agora, por isso, estou considerando a possibilidade de casar. Você está longe de ser um exemplo de noiva, e eu sei que seu pai vai se beneficiar com os negócios depois do casamento. Nós só temos que casar e ter um filho em um ano.
Parou na porta do restaurante:
- Vamos ganhar uma casa grande, carros, vou te dar tudo, como deve ser. Você é nova, vai poder aproveitar a vida depois do divórcio. Vou te encher de presentes e tudo o que ganhar fica com você depois do...
Ela ficou séria, pensativa:
- Não quer se casar? E ter uma vida comigo?
Ele foi entrando evitando olhar para ela:
- Não! Eu não acho possível te amar e nem quero tentar. Vai ser um casamento de contrato, um acordo. Aceita? Pensa na sua família, vai poder cuidar dos seus irmãos, desde que engravide.
Sentaram em uma mesa nos fundos, era tudo bem simples, ela ficou sem muita reação:
- Eu preciso pensar.