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Harém Reverso - Mulheres no Poder

Harém Reverso - Mulheres no Poder

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Moderno
Quando salvei o pequeno menino da queda das arquibancadas no aquário, não imaginei o quanto aquilo mudaria minha vida. Mas seus pais, três Comandos do exército, tinham outros planos para mim e, por vezes, as melhores coisas da vida surgem quando você menos espera. Nunca pensei me tornar a babá dos gêmeos mais adoráveis do planeta, assim como nunca sonhei em morar com três soldados convertidos em mercenários atraentes e musculosos que estão constantemente malhando em sua mansão em Southold para manter a forma física de um Comando do exército. No entanto, aqui estou eu, sozinha em Long Island e sem dinheiro para a faculdade de medicina. Então, quando um resgate fortuito me dá a oportunidade de me reerguer, estou mais do que disposta a assumir a responsabilidade... e todos os deliciosos benefícios vindos com isso. Mas os três homens também se sentem solitários e nossa atração é avassaladora. Semana após semana, sou tentada por três corpos musculosos e exageradamente malhados, até que as linhas são cruzadas e as inibições descartadas e, de repente, eu me encontro na cama com os todos os três. Arrependimentos? Absolutamente nenhum. A não ser não ter descoberto esta parte da minha vida antes. A doçura de Liam é tão perfeita quanto o seu físico; enquanto o sorriso brilhante e os ombros largos de Duncan escondem um segredo muito mais sombrio. Julius é o lobo solitário do grupo – dispensado do comando por empreender uma missão vingativa e quase suicida. Juntos, meus novos amantes formam o escalão superior de uma empresa mercenária clandestina, operando em Manhattan. Mas quando uma missão arriscada e quase impossível os chama, um por um, para o outro lado do mundo? Isso pode abrir portas para novas possibilidades... ou significar o fim de tudo o que construímos juntos. HARÉM REVERSO é um Romance Militar de Harém Reverso emocionante e repleto de humor, ação e suspense. Final feliz garantido!

Capítulo 1 1

Quando salvei o pequeno menino da queda das arquibancadas no aquário, não imaginei o quanto aquilo mudaria minha vida. Mas seus pais, três Comandos do exército, tinham outros planos para mim e, por vezes, as melhores coisas da vida surgem quando você menos espera.

Nunca pensei me tornar a babá dos gêmeos mais adoráveis do planeta, assim como nunca sonhei em morar com três soldados convertidos em mercenários atraentes e musculosos que estão constantemente malhando em sua mansão em Southold para manter a forma física de um Comando do exército.

No entanto, aqui estou eu, sozinha em Long Island e sem dinheiro para a faculdade de medicina. Então, quando um resgate fortuito me dá a oportunidade de me reerguer, estou mais do que disposta a assumir a responsabilidade... e todos os deliciosos benefícios vindos com isso.

Mas os três homens também se sentem solitários e nossa atração é avassaladora. Semana após semana, sou tentada por três corpos musculosos e exageradamente malhados, até que as linhas são cruzadas e as inibições descartadas e, de repente, eu me encontro na cama com os todos os três. Arrependimentos? Absolutamente nenhum. A não ser não ter descoberto esta parte da minha vida antes.

A doçura de Liam é tão perfeita quanto o seu físico; enquanto o sorriso brilhante e os ombros largos de Duncan escondem um segredo muito mais sombrio. Julius é o lobo solitário do grupo – dispensado do comando por empreender uma missão vingativa e quase suicida.

Juntos, meus novos amantes formam o escalão superior de uma empresa mercenária clandestina, operando em Manhattan. Mas quando uma missão arriscada e quase impossível os chama, um por um, para o outro lado do mundo? Isso pode abrir portas para novas possibilidades... ou significar o fim de tudo o que construímos juntos.

Harém Reverso é um romance emocionante e repleto de humor, ação e suspense. Final feliz garantido!

Capítulo 2 2

DELILAH

Seus olhos são de um incrível azul cerúleo com riscas de um tom mais escuro, que fazem com que ele pareça esperto e inteligente, apesar da idade. Olhos que se fixam intensamente em você e encantam sua alma. O tipo que deixará qualquer garota de pernas bambas...

... daqui uns quinze ou dezesseis anos.

-- Oi, fofinho!

O garoto loiro sorriu, de seu lado das arquibancadas. Ele corria de um lado ao outro da escada de concreto, em uma espécie de esconde-esconde entre eu e o que parecia ser uma outra menina de sua idade.

-- Onde está sua mamãe?

A pergunta pareceu confundi-lo. Ele hesitou por um momento, deixando escapar uma risadinha antes de sair correndo novamente.

Uau. Muito fofo ele.

Voltei a prestar atenção no show dos leões-marinhos, que estava prestes a começar. Eu sabia disso porque a domadora, uma morena bonita na casa dos vinte e poucos anos, tinha começado a andar pela plataforma, reunindo todo o material necessária para entreter o público. Incluindo um balde de peixes molengas.

Pude sentir outra onda de tristeza me invadindo, mas me apressei a afastá-la. Normalmente eu estaria apontando e sorrindo.

Partindo pedaços iguais de algodão doce azul e rosa e distribuindoos para minha sobrinha e meu sobrinho.

Só que agora, pela primeira vez na vida, eu estava sozinha no aquário.

-- SENHORAS E SENHORES!

A voz da domadora faz um barulho ensurdecedor com a estática em algum ponto entre seu fone bluetooth e os alto-falantes. Era preciso melhorar o velho sistema de som com urgência.

-- Sentem-se, por favor. O show já vai começar!

Quase na mesma hora, o menininho veio correndo novamente até mim. Ele estava chegando cada vez mais perto, me vendo menos como uma estranha e mais como uma companheira de brincadeira. Acenei novamente para ele, desejando ter comprado algum algodão doce. Por outro lado, alimentar o filho de outra pessoa não era exatamente uma boa ideia.

-- Olhe. -- Apontei para o tanque de vidro. -- É melhor ir se sentar, os leões-marinhos estão chegando!

Ele encarou o tanque por um momento e então voltou a me olhar, com os olhos arregalados.

-- Vai! -- disse, fazendo sinal para ele ir. -- Volte para os seus pais!

Meu mais recente crush riu para mim e então correu de volta para perto da menininha. Um homem grande e atraente, trajando um casaco preto de couro cravejado, está erguendo-a agora em seus braços musculosos. Seu peitoral é tão longo que ele parece maior do que eu, mesmo sentado.

Caralho.

Outro homem insanamente bonito, com um cavanhaque escuro, se senta ao lado do primeiro, cutucando a menina até ela rir. Eu me perco por alguns instantes admirando o momento de diversão que eles parecem estar tendo, entre outras coisas.

Rory ri do mesmo jeito.

Ela certamente ri, pensei amargamente. Minha sobrinha tinha o mesmo riso estridente, enquanto que o de seu irmão, Luke, era mais baixo, como uma metralhadora. Eu conhecia bem a risada dos dois, depois de tê-los feito rir um milhão de vezes.

Agora mesmo, se estivessem aqui, eles estariam encarando fixamente o lado esquerdo do tanque, esperando a abertura dos portões submersos. Os dois leões-marinhos viriam como duas balas, girando e cortando a água cristalina de um lado para o outro em velocidade máxima.

Suspirei, deixando as mãos caídas em meu colo. Em cinco anos, essa era a primeira vez que eu não os trazia aqui para comemorar o aniversário deles. Bem, não exatamente. Quando eles fizeram três anos, nós tentamos o museu infantil em Bridgehampton. E embora o lugar colorido fosse divertido, não chegou nem perto da magia do Riverhead aquarium.

Não, minha dupla preciosa amava esse lugar tanto quanto eu. Da exibição de borboletas e joaninhas até o tanque circular perto da saída, onde podíamos alimentar e tocar as pequenas arraias. Uma vez por ano eu os roubava de minha irmã mais velha, dirigindo para o Leste, para que pudéssemos caminhar pela caverna escura junto ao tanque dos tubarões, admirar os polvos, os cavalos-marinho e, claro, assistir ao show dos leões-marinhos na arena externa.

E claro, eu os mimava o máximo que podia, enviando-os de volta para casa com as barrigas cheias de doces e três ou quatro criaturas marinhas em pelúcia, cortesia da lojinha do Aquarium.

Mas agora...

Agora, Patrícia e o marido John tinham se mudado para Maryland, levando as crianças com eles. E ainda assim, aqui estava eu, visitando o Aquarium neste dia tão especial. Só que dessa vez, sozinha.

Meu coração dói. Eu tinha achado que vir até que aqui poderia fazer eu me sentir melhor. Imaginei que um lugar como este só poderia trazer boas memórias, e que eu poderia fazer uma chamada de vídeo com as crianças no meio do show dos leões-marinhos.

No entanto, eu estava me sentindo mais triste e saudosa do que nunca.

-- Certo -- a domadora gritou de modo animado no microfone. Felizmente a estática tinha passado --, eu quero que todo mundo se prepare para receber animadamente...

E então, tudo aconteceu tão rápido que eu mal tive tempo de reagir. O menininho passou correndo à minha frente, com os braços erguidos no ar, esgueirando-se pela abertura da grade de aço, para voar como o Super-Homem...

NÃO!

Meu coração veio à boca. Sem pensar, minha reação foi imediata, pulando de onde eu me encontrava e me jogando pela mesma abertura estreita. Meu corpo mal cabe ali. O único modo é ir na horizontal, deixando-me totalmente vulnerável aos efeitos da gravidade, enquanto fecho os braços ao redor do garotinho, para protegê-lo da queda inevitável.

Meu Deus!

Estávamos na quarta ou quinta fileira, a uns bons dois ou três metros do chão. Enquanto caímos em queda livre, girei meu corpo para protegê-lo, embalando-o em meus braços enquanto esperava o inevitável choque contra o cimento.

A última coisa que vi foram os dois pais do menininho, olhando horrorizados para baixo enquanto corriam para a borda, agarrando a grade. Logo em seguida senti uma explosão de dor nas costas, ao mesmo tempo que pontos prateados surgiam em meu campo de visão, antes da escuridão total.

LIAM

-- Rápido, vire à direita!

Duncan girou o volante tão rápido que pareceu que estávamos sob duas rodas. O que, considerando o modo como ele estava dirigindo, não seria totalmente impossível.

-- Vamos, cara, vamos perdê-los de vista!

A ambulância tinha virado à nossa frente alguns quarteirões adiante. Eu não tinha muita certeza do quanto estávamos longe do hospital Southampton, mas definitivamente era isso que a ambulância tinha escrito em sua lateral.

-- Dá para calar a boca um pouco? -- disse Julius, no banco de trás. -- Ele sabe para onde está indo!

-- Sim, mas...

-- Além disso -- interrompeu Julius --, não deveríamos estar indo tão rápido. Temos crianças no carro, lembram?

Olhei para o banco de trás, onde Jace e Courtney estavam sentados, quietinhos. Eles pareciam mais desapontados do que chateados com nossa partida tão precipitada. Jace parecia mais abalado por perder o show dos leões-marinhos do que por sua experiência de quase morte.

Quase morte. Puta merda!

Eu não podia acreditar na nossa sorte ou no quanto tínhamos sido descuidados! Jace poderia ter morrido ou ter se machucado gravemente. Foi tudo tão rápido! A coisa toda tinha acontecido em uma fração de segundos...

Se aquela mulher não estivesse lá...

Sentia um arrepio só de pensar em completar o pensamento. E ainda assim, a mulher estava lá. Aquela mulher incrível, linda e rápida como um flash, com instinto maternal suficiente para evitar uma tragédia impensável.

-- Dois segundos -- Duncan murmurou para si mesmo. -- A gente deixou de vigiar ele por dois segundos.

-- Dois segundos é o necessário -- resmungou Julius.

-- Você nem mesmo estava lá -- rebati. -- Estava comprando cachorro quente.

Meu amigo resmungou de novo, relutante ou talvez incapaz de se defender, ali sentando entre as duas crianças. Courtney estava prestes a cair no sono. Enquanto Jace, se entretinha brincando com as fivelas do cinto de sua cadeirinha.

Pelo menos ele está bem, pensei comigo mesmo. Ele nem vai se lembrar disso.

Quanto a mim, isso seria outra história.

-- Ele correu tão rápido -- murmurei --, em um segundo estávamos fazendo cosquinhas em Courtney e no segundo seguinte...

No segundo seguinte Jace estava voando pelo espaço aberto da grade, saltando para o nada em um dos lados da arquibancada de concreto.

E então ela estava voando também, bem ao lado dele.

Graças a Deus.

A mulher tinha caído girando o corpo para proteger Jace da queda. Ela atingiu o concreto com um barulho oco que eu não poderia esquecer enquanto vivesse e então, de repente, Duncan estava puxando Jace de seu abraço protetor. Rapidamente uma multidão se formou ao redor, enquanto fazíamos tudo o que podíamos para mantê-la consciente. Mas o impacto da queda tirou todo o ar de seus pulmões. Sem conseguir respirar e ainda tonta, provavelmente por ter batido a cabeça, ela desmaiou nos meus braços.

Foram cinco minutos de puro caos, enquanto Julius retornava da área de alimentação. Ele deixou cair a bandeja de cachorrosquentes e correu em nossa direção, enquanto eu colocava minha jaqueta de couro debaixo da cabeça dela, para mantê-la fora do concreto frio. Mas antes que qualquer um de nós pudesse fazer o procedimentos para reanimá-la, o pessoal da ambulância já estava lá. Dois paramédicos materializaram-se do nada, trabalhando juntos para prendê-la a uma maca e a levarem.

-- Ali! Ela está parando!

Seguimos a ambulância direto na rampa de emergência, de onde rapidamente fomos expulsos. Dois seguranças nos apontaram a direção da área de estacionamento para visitantes e em minutos estávamos no balcão da sala de emergência, arrastando as crianças junto conosco.

-- A ambulância acabou de trazer uma mulher -- disse Duncan apressadamente. -- Ela... ela salvou nosso filho de...

-- Nome?

-- O que?

-- Você sabe o nome dela? -- a recepcionista voltou a perguntar.

-- Bem, não, mas...

-- Nesse caso é melhor sentar e esperar -- disse ela. -Informaremos o que está acontecendo assim que pudermos.

Vinte minutos se passaram. Uma hora. Depois de noventa minutos estava escuro do lado de fora e a sala de emergência cada vez mais cheia. Não muito longe, à nossa esquerda, uma mulher de cabelos grisalhos e olhos vermelhos tossia pela décima sexta vez.

-- Não gosto disso -- resmunguei.

-- Nenhum de nós gosta -- suspirou Julius. Ele estava sentado o mais longe possível dos outros pacientes, os braços protetoramente ao redor de um Jace extremamente sonolento. -Mas não podemos fazer nada.

-- Vá perguntar de novo -- implorei --, talvez eles...

-- Já perguntei três vezes -- reclamou ele. -- Duncan duas. Eles estão cansados de nós. Talvez seja a sua vez.

Duncan acenou, concordando e estendeu os braços para pegar Courtney. A pequena anjo loira tinha adormecido em meus ombros quase instantaneamente quando chegamos aqui.

Passei nossa filha para ele e me aproximei do balcão. Dessa vez, tinha uma pessoa diferente atrás dele. Um homem com cerca de metade da idade da outra recepcionista.

-- Olha, eu sei por quem vocês estão esperando e só agora tivemos notícia. A mulher do aquário está bem. Está estável, mas os médicos ainda estão examinando ela. Nesse exato momento ela está sendo transferida para um quarto, onde passará a noite.

-- Podemos ao menos vê-la? Talvez por um minuto ou... -perguntei franzindo as sobrancelhas.

-- Acredito que não seja possível. Me disseram que ela está descansando.

O homem parou, me encarando de cima a baixo. Quando voltou a falar, sua voz era mais suave, quase compassiva.

-- Olha, não tem nada que vocês possam fazer esta noite. Por que não voltam amanhã de manhã, com todo mundo descansado? Vocês poderão vê-la amanhã.

Eu me virei e quase na mesma hora a mulher idosa tossiu outra vez. Dessa vez, o homem sentado ao seu lado tossiu também... sem cobrir a boca.

Merda.

Duncan e Julius pareciam cansados e as crianças estavam exaustas. Na pior das hipóteses, estávamos todos pegando um monte de germes novos. O homem atrás do balcão estava certo, não havia mais nada que pudéssemos fazer ali. Por mais que quiséssemos ver e agradecer nossa heroína, permanecer mais tempo ali só pioraria as coisas.

-- Certo, vamos para casa -- concordei pegando uma das canetas em uma caneca em sua mesa. -- Só mais uma coisa. Você pode me dizer o nome dela?

A expressão em seu rosto se tornou estranha.

-- Eu... eu temo não poder fazer isso também.

-- Por que não? -- resmunguei.

-- Faz parte do regulamento. Regras de confidencialidade do paciente e...

-- Tá bom -- rosnei, mais irritado com as regras do que com o recepcionista em si. -- A que horas começa as visitas amanhã?

-- Às oito da manhã.

Enfiei a caneta de volta na caneca do recepcionista com tanta força que ela tombou, espalhando canetas para todos os lados.

-- A gente se vê, então.

Capítulo 3 3

DELILAH

-- Então foi só isso? O impacto me fez ficar sem ar?

O médico estava parado à minha frente, à luz do amanhecer, bocejando sem parar. Ele segurava um copo de café fumegante em uma mão e meu prontuário na outra. Parecia uma cena diretamente saída de alguma série médica semanal.

-- Ainda estamos esperando uma segunda rodada de exames de sangue, mas...

-- Por que?

O homem parado aos pés de minha cama me olhou confuso. Ele não estava preparado para aquela pergunta.

-- Como assim por que, Srta. Gallo?

-- O que estava errado com a primeira rodada de exames de sangue? -- perguntei. -- Tinha algo errado?

Ele voltou a encarar o prontuário, como se esperasse encontrar alguma resposta que não tivesse visto antes.

-- Bem, não, mas...

-- E quanto ao raio-X do tórax? -- perguntei. -- E acredito que vocês tenham feito uma ressonância?

-- Os raios-X não mostraram nada negativo -- disse ele, engolindo em seco. -- Nenhuma costela quebrada. Você tem algumas costelas machucadas, o que pode ser tão ruim quanto uma fratura. Na verdade, mesmo que tivesse fraturado alguma delas...

-- Eu sei. Eu sei -- disse o cortando --, o tratamento seria o mesmo. Você não poderia imobilizá-las; isso ficou no passado. Já que inibe a respiração e os ossos cicatrizam em um ângulo mais superficial do que deveriam.

Eu tinha aprendido a maioria dessas informações em minhas aulas de anatomia no segundo ano de faculdade. Isso quando eu ainda frequentava as aulas e ainda estava matriculada na universidade.

-- Então meu sangue está normal, não quebrei nada e não bati a cabeça -- disse sem rodeios. -- Eu desmaiei por falta de oxigênio nos pulmões por ter batido fortemente no chão.

O homem torceu o bigode, o qual àquela altura de sua vida estava 50% grisalho.

-- Parece que sim -- respondeu, incerto, voltando a encarar o prontuário. -- Aparentemente quando você caiu das arquibancadas...

-- Pulei -- disse, o corrigindo.

-- O que?

-- Eu pulei das arquibancadas -- disse novamente. -- Eu não caí.

O médico soltou o café, pegando a caneta. Quando voltou a me encarar, ele estava coçando o queixo.

-- Se estiver me dizendo que pulou intencionalmente, Srta. Gallo -- disse ele com a voz grave --, temo que precisaremos de outro tipo de médico.

-- Não foi intencionalmente -- disse, suspirando em exasperação. -- Caramba, por que todo mundo sempre tem que presumir o pior

-- Então o que você...

-- Eu pulei para salvar uma criança que estava caindo -expliquei. -- Era um menininho; cabelos loiros, olhos azuis... -- Olhei ao redor, sem saber ao certo o que estava buscando. -- Ele está internado aqui? Ele está bem, certo?

-- Não ouvi nada sobre nenhum menino, Srta. Gallo.

-- Ai que bom -- suspirei aliviada. -- Se ele não está aqui é porque provavelmente está bem. Tenho quase certeza de que absorvi todo o impacto. Do jeito que bati no chão, sentirei isso por um bom tempo.

Me inclinei para a frente, mas quase imediatamente fui obrigada a retomar minha posição anterior ao sentir uma dor aguda atravessar o lado direito do meu corpo.

-- É, eu realmente machuquei algumas costelas.

Eu tinha estado grogue durante o trajeto de ambulância, mas voltei aos meus sentidos rapidamente na emergência do hospital. Eu tinha deixado o pessoal da equipe fazer o que precisava por metade da noite, me examinando por todos os ângulos e então finalmente dormi a outra metade. Mas agora, eu estava farta.

Mais do que farta, na verdade.

-- Algum sinal dos dois homens que me viram cair? -- perguntei esperançosa. -- Altos. Morenos. Lindos. Um tinha uma barba bem aparada... o outro talvez tivesse um cavanhaque, ou...

-- Não -- disse o médico balançando a cabeça --, não tenho ideia sobre quem você está...

-- Deixa pra lá então -- disse retirando a agulha do meu braço. - Obrigada por tudo, doutor. Tenho certeza de que o departamento financeiro estrará em contato comigo.

O homem observou com incredulidade enquanto eu removia cuidadosamente a agulha, arrumava os tubos e reaplicava o curativo médico em meu braço. Ele me olhava tão chocado enquanto eu pegava o celular e abria o aplicativo do Uber, que achei que o copo de café fosse escorregar por seus dedos.

-- Você poderia me passar minhas roupas, por favor? -Apontei. -- E puxar a cortina?

-- Srta. Gallo -- gritou ele --, você não pode simplesmente...

-- Ir embora? -- perguntei rindo. -- É claro que eu posso. E eu vou.

Saltei da cama, pisando do chão frio. Merda, por que os pisos de hospitais tinham que ser sempre tão frios? Eles não poderiam ter algum tipo de piso aquecido?

-- Mas você não recebeu alta! -- disse o médico, franzindo a testa. -- Ainda precisamos esperar...

-- O médico do próximo turno vir olhar meu prontuário pela terceira vez? -- perguntei com desembaraço. -- Outra rodada de exames de sangue inúteis?

-- Você não pode simplesmente...

-- Devo esperar duas horas depois disso pelos papéis da minha alta? -- perguntei rindo. -- Depois outra hora para alguém encontrar uma cadeira de rodas desocupada e uma ordem para trazê-la até aqui?

-- Mas...

-- Sim, toda essa baboseira iria levar umas seis ou oito horas -disse eu. -- No mínimo. Eu não chegaria em casa antes do jantar e eu estou faminta.

Peguei minha calça jeans e a vesti diante dele mesmo, puxando-a por baixo da camisola do hospital. Quando peguei minha blusa, suas bochechas já estavam vermelhas.

-- É melhor assim -- disse eu, terminando de me ajeitar. -Acredite.

Encurralado do outro lado do quarto, o médico não teve outra alternativa a não ser encarar o chão até eu terminar de me vestir. Faço uma careta enquanto passo blusa e suéter pela minha cabeça, calço os sapatos e largo a camisola, sem cerimônias, em cima da cama.

Quando o homem abre a boca pela última vez eu o corto antes que ele possa falar qualquer coisa.

-- Muito descanso, gelo e o mínimo de esforço por um tempo. Não é isso?

-- Bem, sim, mas...

-- Mas o que?

Ele apontou para a cadeira vazia onde minhas roupas estavam até pouco tempo atrás. Só que ela não estava vazia.

-- Eu apenas ia dizer que você esqueceu sua jaqueta.

No meio da cadeira de laminado e aço estava uma grande jaqueta preta, de couro. Ela tinha tachinhas nos ombros, exatamente como...

Exatamente como a que o cara segurando a garotinha usava, no aquarium.

-- Essa jaqueta não é minha -- disse quase como um reflexo.

-- Bem, ela definitivamente veio com você -- respondeu o médico, dando de ombros. -- Isso é tudo o que eu sei.

Peguei a jaqueta, chocada com o tamanho e o peso dela. Ela tinha um cheiro de couro, óleo e aço; um cheiro bem masculino. Colônia também. O cheiro era viril sem ser sufocante. Doce, almiscarado e delicioso.

Ainda sentindo um pouco de frio por causa da camisola do hospital, eu me enfiei dentro dela. Pela janela, eu podia ver que o céu tinha ido do violeta para o azul, com um tom amarelado.

-- O café é da cafeteria lá embaixo, não é? -- perguntei. -- Ele é bom?

Como que em piloto automático, o médico apenas balançou a cabeça, devagar.

-- Deixa pra lá, eu dou um jeito.

-- E quanto à sua metade do aluguel -- suspirei, fervilhando de raiva por dentro. -- Você teria como pagar pelo menos isso?

Do sofá, Traci sinalizava que não, com um gesto de mão. Eu já tinha visto esse filme tantas vezes antes que podia imitar cada gesto perfeitamente.

-- O velho nos dará outra semana -- respondeu ela. -- Ele sempre dá.

O "velho" a quem ela se referia era nosso locador, que infelizmente, morava logo no andar de cima. Mesmo trabalhando o número insano de horas que eu trabalhava, era eu quem normalmente lidava com ele. Traci raramente o via e se recusava a abrir a porta nas raras ocasiões em que ele aparecia.

-- Além do mais -- continuou ela --, ele nem precisa do dinheiro. Você viu o Escalade estacionado na vaga dele? Ele está nadando no dinheiro.

Sério? Ela realmente tinha dito isso? Eu dividia o apartamento com a mulher de 25 anos mais imatura do planeta.

-- Se não pagarmos, ele vai nos despejar -- insisti. -- Não seria nada difícil, Traci. A gente nem mesmo tem um contrato.

-- Ele não pode nos despejar -- argumentou ela. -- É preciso seguir todo o processo de ordem de despejo antes.

Suspirei tão fundo que minhas costelas voltaram a doer. Merda, por que mesmo eu concordei em morar junto com essa idiota?

-- Relaxa, Delilah. -- Minha companheira de apartamento sorri, adicionando uma risadinha para ajudar a aliviar o clima. -- Eu terei o dinheiro. Não se preocupe.

-- Quando? Uma semana antes do vencimento do mês que vem?

-- Não. Eu só preciso ver o Mark antes -- disse ela confiante. -As coisas têm estado intensas entre nós dois. Você viu todas as flores que ele me enviou?

Se eu vi? Elas praticamente estavam tomando a cozinha inteira! Devia haver uns seis ou sete buquês, de diferentes formatos, tamanhos e variedades. Dava para imaginar que uma florista tinha aberto uma floricultura em um apartamento de merda no subsolo. No entanto, eu tinha que admitir, o cheiro era maravilhoso.

-- Ao invés de gastar centenas de dólares com flores que já estarão mortas semana que vem -- teorizei --, talvez seu namorado pudesse te emprestar esse dinheiro e, com isso, você pagar o que deve?

Os comerciais tinham acabado e Traci estava novamente prestando atenção na televisão. Quando finalmente me encarou de novo, parecia irritada.

-- Espera, como é que é?

Como é que é?... Ela era tão estúpida. Eu odiava isso! Com o tempo, a expressão favorita de Traci tinha se tornado minha criptonita.

-- Esquece -- suspirei com raiva. Eu estava mais irritada do que nunca hoje, provavelmente porque minhas costelas doíam muito e eu me recusava a tomar remédio. -- Você poderia pelo menos tirar algumas das suas coisas daqui? Eu preciso da mesa.

-- Pode tirar -- respondeu Traci, cheia de preguiça --, é só empurrar pro lado.

Usando o braço eu abri um espaço na entediante mesa amarela de fórmica, de modo a poder pagar algumas contas. Ao fazer isso, um cartão escrito à mão caiu de um dos buquês, acertando minha mão.

Argh, rosnei internamente, lutando contra a vontade de ler aquilo (embora eu soubesse que o faria de qualquer jeito). A última coisa que eu preciso agora é de alguma coisa estúpida, melosa...

Eu parei, piscando. O cartão não era para Traci. Ele era para mim.

-- Traci?

-- Quê?

-- De quem você disse que eram as flores?

Com um braço ainda sobre o sofá, minha colega de apartamento levou outra colher de sorvete até a boca.

-- Mark me enviou.

Você tem certeza disso?

-- Certeza -- disse ela, dando de ombros. -- Quer dizer, eu não perguntei a ele, na verdade, apenas agradeci por...

Ignorei o resto da frase e virei o cartão. Ele estava endereçado diretamente a mim, com um endereço de devolução para o hospital Southampton. Bastou uma olhada rápida nos outros buquês para ver que todos tinham vindo da mesma florista. Todos eles para mim.

Que merda era aquela?

Rapidamente liguei para o número principal do hospital e fui transferida para o setor de emergência. Depois de ser passada de uma pessoa para outra três vezes, fui atendida por uma mulher chamada Rose.

-- Sim, eu fui a pessoa que encaminhou as flores para você -disse ela com alegria. -- Elas eram lindas, não eram?

-- Sim, elas eram -- concordei. -- Mas... por que?

-- Bem, elas foram enviadas para você, meu bem. Foram trazidas logo depois que você saiu. Os homens que as trouxeram ficaram bem chateados por terem se desencontrado de você. E eu prometi encontrar suas informações e encaminhá-las para você.

Eu me virei. Traci continuava assistindo televisão, totalmente distraída.

-- Estes homens deixaram algum contato? -- perguntei rapidamente.

-- Não -- disse Rose, pensativa --, acredito que não. Mas você sempre pode telefonar para a floricultura. Tenho certeza de que eles ficarão felizes em ajudar.

-- Sim, claro -- disse começando a me sentir animada. -Obrigada, Rose.

-- Fique bem, docinho.

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