Meu noivo, Rodrigo, tinha uma fobia paralisante de germes. Nosso casamento era uma fusão disfarçada - um acordo onde minha fortuna salvaria a empresa falida de sua família.
Mas no altar, na frente do mundo inteiro, ele me abandonou por sua estagiária. Declarou que estava escolhendo "o amor em vez do dinheiro", me pintando como a vilã fria e calculista que tentou comprar um marido.
Ele não parou por aí. Encenou uma tentativa de suicídio do prédio do meu escritório, transmitindo ao vivo para o mundo como minha "crueldade" o havia levado ao limite.
Então, ele e seu novo amor vieram ao meu escritório com sua exigência final: vinte por cento da minha empresa e o colar de valor inestimável da minha falecida mãe.
"A Camila gostou muito dele", ele zombou.
No dia seguinte, durante a reunião de emergência do conselho convocada para me demitir, ele ligou, se vangloriando.
"É xeque-mate, Jade. Apenas aceite que você perdeu."
Coloquei-o no viva-voz para todo o conselho ouvir. "Na verdade, Rodrigo", eu disse, enquanto agentes da Polícia Federal entravam na sala, "eu sou dona do tabuleiro inteiro."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Jade Alencar:
No momento em que vi meu noivo, um homem com um medo paralisante, quase patológico, de germes, beber do copo de sua jovem estagiária, eu soube que meu casamento era um funeral. Apenas ainda não havia sido anunciado.
O ar no bar mal iluminado de São Paulo era denso com o cheiro de cerveja velha, perfume barato e desespero. Era o tipo de lugar que Rodrigo Monteiro, meu noivo, normalmente se recusaria a entrar sem um traje de proteção química. Ele alegava ter misofobia severa, uma condição que o fazia recuar se eu tocasse sua mão sem antes usar álcool em gel. Ele carregava um pequeno e caro frasco por toda parte, um cantil de prata para sua salvação estéril.
No entanto, lá estava ele, em sua própria despedida de solteiro, cercado por seus amigos zombeteiros e meio bêbados. E ele estava rindo. Uma risada profunda e genuína que eu não ouvia há meses.
A risada era direcionada a uma garota mal velha o suficiente para estar naquele bar. Camila Mendes. Sua estagiária. Ela era toda olhos azuis, grandes e inocentes, e uma cascata de cabelos loiros que parecia capturar as luzes de neon baratas e transformá-las em uma auréola. Ela disse algo, inclinando-se para perto, sua mão repousando no braço dele de uma forma que era familiar demais, confortável demais.
Rodrigo jogou a cabeça para trás, rindo novamente, e então ele o fez. Ele estendeu a mão, pegou o copo meio vazio do que parecia ser uma vodca com soda da mão dela e deu um gole longo e deliberado.
A música no bar pareceu desaparecer em um zumbido surdo em meus ouvidos. O mundo se estreitou para aquele único ponto de contato: seus lábios na borda do copo dela. Um copo do qual ela acabara de beber. Um copo que era, por seus próprios padrões rígidos, uma placa de Petri de contaminação.
Meu coração não se partiu. Congelou. Virou um bloco sólido de gelo no meu peito. Isso não foi um erro descuidado. Foi uma declaração. Foi uma traição tão descarada, tão desdenhosa, que era sua própria confissão.
Seus amigos, os mesmos que pisavam em ovos ao redor de sua fobia e brincavam sobre suas "manias", nem piscaram. Eles apenas viram seu amigo se divertindo com uma garota bonita. Eles viram o que queriam ver. Eles não viram o COO das Indústrias Monteiro, um homem cuja empresa familiar estava à beira da falência, uma empresa que eu, Jade Alencar, CEO do Grupo Alencar, estava prestes a salvar com uma fusão disfarçada de casamento.
Eu permaneci nas sombras, na beira da sala, minha presença não anunciada. Eu tinha voado para São Paulo para surpreendê-lo, um gesto romântico. A ironia era tão espessa que sufocava.
Deixei a cena se desenrolar por mais um minuto. Ele não apenas bebeu do copo dela. Ele o pousou, e seus dedos roçaram os dela. Ele se inclinou novamente, seus lábios perto do ouvido dela, e o que quer que ele sussurrou a fez corar e rir, um som enjoativamente doce que cortou o barulho.
Chega.
Saí das sombras e caminhei em direção à mesa deles. O caminho se abriu para mim, não porque eles soubessem quem eu era, mas por causa da aura que eu projetava. No mercado financeiro da Faria Lima, eles chamavam de minha "presença de sala de reunião". Era fria, imponente e absoluta.
Rodrigo me viu primeiro. A risada morreu em seus lábios. Seu rosto ficou pálido, da cor de papel velho. "Jade", ele gaguejou, levantando-se apressadamente, quase derrubando uma mesa. "O que você está fazendo aqui?"
Camila olhou para mim, seus olhos azuis arregalados com uma confusão perfeitamente fingida. A cordeirinha inocente.
"Vim ver meu noivo", eu disse, minha voz perigosamente calma. Eu não olhei para Camila. Ela era um sintoma, não a doença. Meus olhos estavam fixos em Rodrigo. "Mas parece que ele foi curado de sua... aflição."
O ar ficou tenso. Seus amigos se mexeram sem jeito.
"Jade, não é o que parece", ele começou, o refrão clássico e patético de um homem culpado.
"Não é?", perguntei, minha voz baixando. "Você, Rodrigo Monteiro, que uma vez teve um ataque de pânico porque um garçom lhe entregou um cardápio com uma marca de polegar, acabou de beber do copo da sua estagiária."
Ele recuou, como se eu o tivesse atingido. "Foi uma brincadeira. Os caras... eles me desafiaram."
"E agora você é uma foca amestrada?", gesticulei em direção a Camila. "Ela. Ou eu. Decida, Rodrigo. Agora mesmo."
A exigência pairou no ar, pesada e afiada. Ele olhou do meu rosto, frio como granito, para o de Camila, que agora tremia com lágrimas fabricadas. Ele era um homem fraco, e homens fracos são atraídos pela performance da vulnerabilidade.
"Jade, por favor, não aqui", ele implorou, sua voz um sussurro. "Vamos conversar sobre isso mais tarde."
"Não existe mais tarde", eu disse. "Ela ou eu."
Ele hesitou por uma fração de segundo a mais. Naquele momento, eu vi tudo: seu desespero para salvar a empresa de sua família, seu ressentimento pelo meu poder, seu desejo de ter os benefícios da minha fortuna sem o fardo do meu controle. Ele queria a fusão, mas queria seu ego massageado por uma garota que o olhava como se ele fosse um deus, não um projeto a ser resgatado.
Ele não fez uma escolha. Apenas ficou lá, paralisado.
Então eu a fiz por ele.
"Tudo bem", eu disse, minha voz nítida. Virei-me e fui embora sem olhar para trás. Ouvi-o chamar meu nome, um som desesperado e estrangulado, mas não parei.
Voei de volta para o meu apartamento naquela noite. Por dois dias, houve silêncio. Sem ligações, sem mensagens. Silêncio total. Eu sabia que ele estava calculando, pesando suas opções. As Indústrias Monteiro falindo contra seu pequeno caso. Era um problema simples de matemática.
Na manhã do nosso casamento, ele finalmente ligou. Sua voz estava carregada do que eu deveria acreditar ser remorso. "Jade, eu sinto muito. Fui um tolo. É você. Sempre foi você. Estarei no altar. Eu te amo."
Eu quase acreditei nele. A esperança é uma coisa teimosa e estúpida.
Caminhei pelo corredor da grande catedral, a música do órgão crescendo, os bancos cheios com as pessoas mais poderosas da tecnologia e das finanças. Era a fusão do ano. Eu o vi lá, de pé, bonito em seu smoking feito sob medida, seu rosto uma máscara de devoção solene.
Cheguei ao altar. O padre começou a falar. "Estamos reunidos aqui hoje..."
Rodrigo levantou a mão, interrompendo-o. Uma onda nervosa percorreu a multidão.
Ele se virou para mim. Seus olhos não estavam cheios de amor. Estavam cheios de uma crueldade fria e triunfante.
"Jade", ele disse, sua voz amplificada pelo microfone, ecoando pelo espaço cavernoso. "Eu não posso fazer isso."
Gritos de surpresa explodiram. Meu pai começou a se mover do banco da frente, seu rosto furioso.
"Eu pensei que podia", Rodrigo continuou, sua voz subindo, atuando para a plateia. "Pensei que podia me casar por dinheiro, por negócios. Mas meu coração não me deixa. Estou apaixonado por outra pessoa. Alguém que me vê por quem eu sou, não pelo que posso oferecer."
Ele olhou para além de mim, em direção ao fundo da igreja. As grandes portas de madeira se abriram.
E lá estava Camila Mendes, vestida com um simples vestido branco, lágrimas escorrendo pelo rosto como uma santa martirizada.
"Eu amo a Camila", declarou Rodrigo, sua voz ressoando com falsa retidão. "E estou escolhendo o amor em vez do dinheiro."
Ele soltou minha mão, virou as costas para mim no altar e caminhou pelo corredor em direção a ela. Ao passar pelos bancos, ele não era mais um homem fraco traindo sua noiva; ele era um herói romântico, um homem corajoso o suficiente para desafiar uma rainha corporativa por amor verdadeiro.
A humilhação era uma força física, uma onda de calor que me consumiu. Os sussurros, os olhares, os olhares de pena - queimavam na minha pele.
Em uma hora, estava em toda parte. #AmorAcimaDoDinheiro era o assunto do momento. Uma foto de Rodrigo e Camila, beijando-se apaixonadamente do lado de fora da igreja, era a matéria principal em todos os sites de fofoca. A legenda, postada da própria conta de Rodrigo, dizia: "Siga seu coração. É o único negócio que importa. Estou livre. Com meu verdadeiro amor, @CamilaMendes."
Ela postou uma foto deles de mãos dadas, seu vestido simples contrastando com a opulenta e vazia catedral ao fundo. "Às vezes, o homem mais rico é aquele que não tem nada além de amor", ela escreveu.
Eles estavam me pintando como a vilã. A empresária fria e controladora que tentou comprar um marido.
Eu estava sozinha na minha cobertura, a comida farta da recepção de casamento intocada, o quarteto de cordas em silêncio. Meu celular vibrava incessantemente. Olhei para a tela. Era um alerta de notícias.
As ações das Indústrias Monteiro, que haviam subido em antecipação à fusão, começaram a despencar. Caíam 15%.
Um pensamento frio e claro cortou a névoa da minha humilhação.
Você quer jogar esse jogo? Quer tornar isso público?
Tudo bem.
Peguei meu telefone e fiz uma ligação, não para meu assessor de imprensa, mas para meu chefe de operações na mesa de negociações.
"Léo", eu disse, minha voz desprovida de toda emoção. "É a Jade."
"Jade, eu sinto muito, muito mesmo. Eu vi as notícias. Você está bem?"
"Estou ótima", eu disse. "Tenho uma nova diretriz. Liquide toda a nossa posição em todas as empresas associadas à cadeia de suprimentos das Indústrias Monteiro. Cada uma delas. Depois, quero que você comece a operar vendido nas ações deles. Use todo o peso do Grupo Alencar. Quero vê-los falidos até segunda-feira."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.
"Jade... isso é... isso é uma declaração de guerra."
"Não, Léo", respondi, olhando para as luzes da cidade, meu reflexo uma silhueta fria no vidro. "É uma execução."
Desliguei o telefone. O choque se foi. A dor se foi. Tudo o que restava era uma determinação gelada e cristalina. Rodrigo Monteiro tentou me humilhar, me transformar em uma vítima. Ele calculou mal. Eu não era uma vítima.
Eu era uma CEO. E ele acabara de se tornar meu alvo de aquisição mais hostil.
Rolei meu feed de mídia social novamente, meus dedos se movendo com precisão desapegada. Vi um comentário de um amigo em comum, um bilionário da tecnologia, sob o post de Rodrigo: "Uau, cara. Atitude ousada. Respeito."
Outro de uma socialite com quem almocei na semana passada: "Tão feliz por vocês dois! O amor verdadeiro sempre vence! "
O mundo estava celebrando meu agressor. Eles estavam aplaudindo minha execução pública.
Meus olhos pousaram no anel de noivado de safira feito sob medida ainda no meu dedo. Era da cor do oceano profundo, uma pedra impecável de 20 quilates do Sri Lanka. Rodrigo fez um grande show ao me presentear, ajoelhando-se em um campo de lavanda na Provence. "Uma pedra tão rara e poderosa quanto você", ele disse, sua voz carregada de sinceridade ensaiada.
Agora, a pedra parecia apenas fria. Um pedaço de carbono pesado e sem sentido. Ele não a comprou. Eu comprei. Os fundos foram discretamente transferidos de uma das minhas contas privadas para a dele, um "bônus pré-fusão" para permitir a ele a farsa de prover para mim.
Minha assistente, Zara, bateu suavemente e entrou na sala. Seu rosto estava pálido de preocupação. "Jade, os mercados estão reagindo. As Indústrias Monteiro caíram vinte e dois por cento no after-market. É um banho de sangue."
"Não é o suficiente", eu disse, minha voz plana. "Eu quero que seja um massacre."
"O conselho... a imagem pública...", ela começou, torcendo as mãos.
"A imagem pública é que meu noivo me abandonou publicamente por sua estagiária. Minha resposta pública será adquirir os ativos da empresa dele por centavos em um leilão de falência", afirmei, virando-me para encará-la. "Não quero que nossa equipe de relações públicas divulgue nenhuma declaração. Nada de 'desejar-lhes felicidades'. Nada de 'pedir privacidade'. Ficaremos em silêncio."
"Mas eles estão controlando a narrativa!", ela protestou. "Eles estão te pintando como um monstro."
Um sorriso lento e frio se espalhou pelos meus lábios. Parecia alienígena no meu rosto. "Ótimo", eu disse. "Deixe que pintem. Um monstro é exatamente do que eles precisam ter medo."
Meu telefone vibrou novamente. Era uma mensagem de Rodrigo.
"Você tinha que fazer isso, Jade? Não pode simplesmente me deixar ser feliz? É cruel."
Olhei para a mensagem, a pura audácia dela me tirando o fôlego por um segundo. Ele me humilha em um palco global, e eu sou a cruel por proteger meus ativos?
Meus dedos voaram pela tela, minha resposta curta e brutal.
"Isso não é sobre a sua felicidade. É sobre as suas consequências."
Bloqueei o número dele. Depois bloqueei o de Camila. Depois bloqueei o do pai dele.
A guerra havia começado. E eu não tinha a menor intenção de fazer prisioneiros.
Ponto de Vista de Jade Alencar:
O zumbido insistente do meu celular me tirou de um sono agitado e sem sonhos. Eu nem me dei ao trabalho de tirar meu robe de seda. O sol estava apenas começando a riscar o céu com tons de cinza e rosa pálido sobre a Baía de Guanabara.
O identificador de chamadas exibia "Eugênio Monteiro". O pai de Rodrigo. O patriarca das Indústrias Monteiro. O homem que praticamente me implorou para casar com seu filho, seus olhos cheios de esperança desesperada pela salvação que eu representava.
Silenciei a chamada e joguei o celular nos lençóis de seda ao meu lado.
Tocou de novo. Imediatamente.
Silenciei novamente.
Uma mensagem de texto se seguiu. Depois outra. E outra. Uma cascata frenética de súplicas digitais. Meu celular vibrava contra a cama como um inseto preso.
Finalmente o peguei, meu polegar pairando sobre a tela.
Eugênio: Jade, por favor, atenda o telefone. Precisamos conversar.
Eugênio: Isso é um desastre. Você tem que parar com isso.
Eugênio: O que o Rodrigo fez foi imperdoável, eu sei, mas isso? Isso está nos destruindo!
Então, uma nova mensagem, de um número que eu ainda não havia bloqueado. Rodrigo.
Rodrigo: Você está feliz agora? Você está destruindo minha família. Tudo porque seu ego foi ferido.
Rodrigo: Eu me apaixonei, Jade. Isso é um crime tão grande? Você não pode controlar quem alguém ama. Você tentou me controlar, e eu me libertei. Por que você não pode simplesmente me deixar ir?
Rodrigo: Isso é mesquinho e vingativo. Prova que eu estava certo sobre você. Você é uma vadia cruel e sem coração.
Soltei uma risada curta e aguda. Era um som oco na vasta e vazia cobertura. Cruel? Ele achava que isso era cruel? Ele ainda não tinha visto o que era crueldade.
Ele se postou diante de nossos amigos, nossas famílias, o mundo inteiro, e me rotulou como uma megera incapaz de ser amada que teve que comprar um marido. Ele pegou minha vulnerabilidade, o afeto genuíno que eu sentia por ele, e o transformou em uma arma para me humilhar. Ele e sua pequena estagiária eram agora os queridinhos da internet, um conto de fadas moderno do amor conquistando a ganância corporativa.
E eu era o dragão a ser abatido.
Ele, o homem que usava sua suposta misofobia para manipular todos ao seu redor, que recuava quando eu tentava segurar sua mão, mas não tinha problema em compartilhar saliva com outra mulher. Ele, que sussurrou promessas de um futuro, uma família, enquanto já construía uma vida com outra pessoa.
Ele me transformou em motivo de chacota. Meu nome, o nome que eu construí em um império de poder e respeito, era agora uma piada em um drama sórdido de tabloide.
Por que você não pode simplesmente me deixar ir?
A pergunta era tão absurda, tão completamente desconectada da realidade de suas ações, que era quase engraçada. Ele não queria ser "deixado ir". Ele queria escapar das consequências de um acordo que ele quebrou. Ele repudiou publicamente nosso contrato, e agora estava chocado que as penalidades financeiras estavam sendo aplicadas.
Outra mensagem dele vibrou.
Rodrigo: Estou te implorando, Jade. Pelo bem do que quase tivemos. Cancele tudo. Podemos chegar a um acordo. Não destrua tudo.
Um acordo. Claro. Esse era o objetivo final. Ele achou que poderia me desgraçar publicamente, virar a opinião pública contra mim, e então forçar minha mão a um generoso pacote de saída para fazê-lo ir embora. Ele não queria apenas me deixar; ele queria ser pago por isso.
A raiva fria dentro de mim se condensou em um único e afiado ponto de foco.
Peguei meu celular e enviei uma mensagem, não para Rodrigo, mas para minha assistente, Zara.
Eu: Acelere a Fase Dois. Quero pressão máxima. Agora.
A resposta de Zara foi instantânea.
Zara: Entendido.
Caminhei até as janelas do chão ao teto e olhei para a cidade que despertava. Meu outro monitor já estava ligado, exibindo os dados do pré-mercado. As Indústrias Monteiro (I.M.) estavam em queda livre. Era uma cachoeira de vermelho. O valor de mercado deles estava evaporando em tempo real. Milhões de reais, virando fumaça a cada segundo que passava.
Era uma bela visão.
Eu conhecia Eugênio Monteiro. Ele era um empresário da velha guarda, de uma geração que valorizava o orgulho acima de tudo. Ele estaria em pânico. Veria o legado de sua família, uma empresa que estava em seu nome por três gerações, virando pó por causa do psicodrama idiota e ganancioso de seu filho. Ele não ficaria parado vendo isso acontecer. Ele agiria.
Exatamente como previ, meu celular acendeu com uma nova mensagem de Rodrigo. O tom era marcadamente diferente. A arrogância se fora, substituída por uma fina camada de pânico.
Rodrigo: Jade. Ok. Eu entendi. Você está com raiva. Eu mereço. Vamos conversar. Por favor.
Rodrigo: Eu faço qualquer coisa. Só... recue os cães de caça. A empresa não vai sobreviver a isso.
Rodrigo: Eu te dou um pedido de desculpas público. Direi que estava errado. O que você quiser.
Suas súplicas eram como música. Li e reli, saboreando a mudança da autojustificação arrogante para o medo rastejante. Ele estava começando a entender. Estava começando a perceber que não tinha apenas cutucado um urso. Ele tinha entrado voluntariamente na jaula de um leão faminto, armado apenas com seu próprio ego.
E o leão estava prestes a se alimentar.
Ponto de Vista de Jade Alencar:
Deixei-o marinar em seu próprio pânico por uma hora, observando os números vermelhos na minha tela ficarem mais intensos. As ações das Indústrias Monteiro foram agora suspensas devido à extrema volatilidade. Eles estavam sangrando valor a uma taxa catastrófica.
Finalmente, mandei-lhe uma única frase de volta.
Eu: Se quer conversar, mostre-me que é sincero.
Sua resposta veio em menos de dez segundos.
Rodrigo: Eu sei o que fazer. Vou consertar as coisas. Eu prometo.
A resposta foi... estranha. Vaga. Não era o rastejar desesperado que eu esperava. Era outra coisa, algo com uma corrente subterrânea que eu não conseguia decifrar. Uma estranha sensação de confiança, quase. Um arrepio de inquietação percorreu minha espinha. Que jogo ele estava jogando agora?
Afastei o pensamento. Eu tinha uma empresa para administrar. Passei o dia em reuniões consecutivas, meu foco absoluto. O Grupo Alencar funcionava com eficiência implacável, e eu era seu motor. Traição e coração partido eram emoções. Negócios eram lógica. E, logicamente, eu estava desmantelando um concorrente que se provou ser um passivo.
Quando saí do escritório, o sol já havia se posto, pintando o céu com pinceladas de fogo de laranja e roxo. Senti uma pequena parte da tensão em meus ombros começar a diminuir. A primeira parte do meu plano estava completa. A ferida financeira era profunda, mortal.
Então meu telefone tocou. Era minha melhor amiga, Maya. Sua voz estava afiada de alarme.
"Jade, você viu as notícias? Viu as redes sociais do Rodrigo?"
"Não", eu disse, minha mão apertando o volante. "Estive em reuniões. O que ele fez?"
"Ele está no telhado do seu prédio de escritórios", disse Maya, suas palavras saindo apressadas. "O prédio do Grupo Alencar. Ele está transmitindo ao vivo. Ele está... Jade, ele está ameaçando pular."
Um bloco de gelo se formou no meu estômago. Não de medo por ele. De fúria.
"E ele está culpando você", continuou Maya, sua voz tremendo de fúria em meu nome. "Ele está dizendo a todos que você o empurrou para isso. Que sua 'crueldade' e 'recusa em deixá-lo ir' não lhe deixaram outra escolha. Está em toda a internet. A polícia está lá, equipes de notícias... é um circo."
Eu entendi agora. Aquela estranha confiança em sua mensagem. *Eu sei o que fazer.*
Essa era a sinceridade dele. Uma tentativa de suicídio encenada. Um espetáculo público projetado para armar a simpatia pública e me transformar de uma mulher injustiçada em uma vilã assassina. Ele estava tentando me queimar ameaçando atear fogo a si mesmo.
Era brilhante. E era desprezível.
Tive que me forçar a respirar. Inspira. Expira. Minha mente, geralmente uma fortaleza de cálculo calmo, era uma tempestade de fúria branca e quente. Ele estava usando a forma mais extrema de chantagem emocional imaginável, e estava fazendo isso no meu palco. Meu prédio. Minha empresa.
"Maya, eu tenho que ir", eu disse, minha voz tensa.
"Não vá lá, Jade! É uma armadilha!", ela implorou.
"É o meu nome que ele está arrastando na lama do topo do meu prédio. Eu não vou me esconder", eu disse, e encerrei a chamada.
Virei o carro em um retorno brusco, os pneus cantando em protesto. Meus nós dos dedos estavam brancos no volante. Com a mão livre, abri o Instagram de Rodrigo.
A transmissão ao vivo estava ativa. Milhares de pessoas estavam assistindo. E lá estava ele, o rosto pálido e manchado de lágrimas, o vento chicoteando seu cabelo perfeito. Mas seu último post foi o que fez meu sangue gelar.
Era uma captura de tela da nossa troca de mensagens. Minha mensagem - *Se quer conversar, mostre-me que é sincero* - estava destacada.
Acima dela, ele havia escrito uma legenda: *Eu tentei contato. Implorei por misericórdia. Eu queria consertar as coisas. Esta foi a resposta dela. Ela pediu uma demonstração de sinceridade. Acho que esta é a única que me resta dar. Se eu morrer esta noite, é porque Jade Alencar decidiu que minha vida valia menos que seu orgulho. Me desculpe, Camila. Eu te amo.*
Soltei um som que era metade risada, metade rosnado. O desgraçado manipulador. Ele havia distorcido minhas palavras, as transformado em armas e se pintado como uma vítima trágica sendo empurrada para a morte.
Joguei o celular no banco do passageiro e pisei fundo no acelerador.
Ao me aproximar da sede da minha empresa, vi as luzes piscando. Vermelho e azul estroboscópicos contra o vidro e o aço do arranha-céu. Carros de polícia, caminhões de bombeiros, uma ambulância. Um enorme colchão inflável estava sendo montado na rua abaixo. Uma multidão de curiosos se reunira, seus rostos inclinados para cima, seus celulares erguidos, gravando o drama.
Contornei o caos, dirigindo para a garagem subterrânea privada. Não parei no saguão. Peguei meu elevador privativo diretamente para o último andar, o andar executivo, que tinha acesso ao terraço.
As portas se abriram para uma cena de caos controlado. Policiais, negociadores de crise. E no meio de tudo, a família Monteiro.
A mãe de Rodrigo estava soluçando, amparada por um parente, o rosto uma bagunça de lágrimas e maquiagem. Eugênio estava rígido, o rosto cinzento, os olhos fixos nas portas de vidro que levavam ao terraço.
E Camila. Ela estava lá, claro. Vestida com algo recatado e pálido, ela chorava histericamente, uma imagem perfeita de uma amante angustiada. "Rodrigo, não! Por favor! A culpa é minha! É tudo culpa minha!", ela gritava, alto o suficiente para todos ouvirem.
Era uma grande performance. Um circo de três picadeiros de luto fabricado.
E no picadeiro central, de pé na borda estreita do lado de fora da barreira de segurança de vidro, estava Rodrigo. Suas costas estavam para a cidade, o vento puxando seu terno caro. Seus braços estavam abertos, como um mártir em uma cruz.
E a poucos metros de distância, um de seus amigos bajuladores segurava um celular, a transmissão ao vivo ainda rodando, capturando cada momento agonizante para o mundo ver.
Isso não era uma tentativa de suicídio.
Era uma execução da minha reputação, transmitida ao vivo.