O ar úmido pairava nas paredes do galpão abandonado, fazendo com que um frio cortante se espalhasse pelo local.
"Ezra, fui sequestrada. Por favor, você tem que vir me buscar..."
Encolhida perto de uma pilha de caixas quebradas, Scarlett Reed tentava se encolher ainda mais, o medo deixando sua voz trêmula. Hematomas cobriam seus braços e costas, onde havia sido atingida por bastões, e as marcas de mãos avermelhadas manchavam seu rosto, que um dia já foi delicado. Com os dedos trêmulos, ela pegou o celular reserva do bolso e ligou para o marido, Ezra Wilson.
Soluços escapavam da sua garganta, enquanto seus dentes batiam uns nos outros.
"Já acabou?", Ezra perguntou com uma irritação evidente do outro lado da linha.
Por um segundo, Scarlett não conseguiu respirar, e um peso opressor pressionou seu peito enquanto ela lutava para falar: "Estou falando a verdade. Eles têm armas, e eu..."
"Já chega. Acha mesmo que eu cairia nessa? Você seria capaz de mentir sobre ter sido sequestrada só para me fazer voltar? Roselyn teve uma parada cardíaca, e eles ainda estão tentando reanimá-la. Será que não pode agir como uma adulta pelo menos uma vez?", ele interrompeu sem hesitar, seu tom seco e incisivo.
"Eu não brincaria com uma coisa dessas. Eu..."
"Vamos resolver isso quando eu voltar para casa. Não me ligue novamente."
A ligação foi encerrada antes que Scarlett pudesse dizer mais alguma coisa.
Olhando para a tela escura do celular na sua mão, ela sentiu as lágrimas embaçarem sua visão.
O desespero se abateu sobre ela como uma sombra pesada, fazendo com que qualquer força que restava na sua expressão desaparecesse.
Apenas algumas horas antes, os dois estavam passeando por um país estrangeiro durante as férias.
Tudo mudou quando Roselyn Lloyd ligou, chorando de dor no peito. No momento em que Ezra ouviu seu choro, deixou Scarlett sozinha numa rua estranha e correu para o aeroporto sem olhar para trás.
Ele nem sequer pensou que ela poderia estar em perigo num lugar que não conhecia.
Tudo o que importava para ele era a mulher que sempre colocou num pedestal, Roselyn.
Depois que ele foi embora, alguém colocou um saco na cabeça de Scarlett e a arrastou para uma van.
Pouco depois, eles a jogaram nesse galpão abandonado e se revezaram para bater nela, usando seus punhos e botas para atingi-la sem piedade. Os tapas estalavam no rosto dela repetidamente até sua pele arder.
Por fim, quando eles se cansaram de agredi-la e saíram para almoçar, ela finalmente encontrou uma pequena brecha para pedir ajuda.
Nesse momento, seu celular vibrou na sua mão com uma nova mensagem - Roselyn havia lhe enviado uma foto no WhatsApp.
Na imagem, a camisa de Ezra estava encharcada de suor enquanto ele segurava Roselyn como se ela fosse algo frágil e de valor inestimável que pudesse se quebrar a qualquer momento, a protegendo.
O medo e o desespero estampados no rosto dele eram sentimentos que Scarlett nunca havia recebido dele nos três anos de casamento.
Uma dor aguda atravessou seu peito, tão intensa que quase a fez perder o fôlego.
Uma risada vazia escapou dos seus lábios, e as lágrimas logo começaram a cair.
Enquanto ela estava entre a vida e a morte, seu marido estava ao lado de outra mulher, dedicando toda a sua preocupação a ela.
Não havia mais nada nesse casamento que valesse a pena ser salvo...
Após limpar as lágrimas do seu rosto, o brilho que antes existia nos seus olhos desapareceu.
Se ela sobrevivesse a isso, a primeira coisa que faria seria acabar com o casamento de uma vez por todas.
Antes que ela pudesse pensar mais, o barulho de correntes de metal ecoou do lado de fora da porta - os homens haviam voltado.
Sem hesitar, Scarlett colocou o celular no bolso e ergueu os olhos para a pequena abertura perto do teto.
Ninguém viria buscá-la. Se ela quisesse viver, teria que sair sozinha.
Ignorando a dor nos seus joelhos machucados, ela subiu na pilha de caixas de madeira e forçou seu corpo a passar pela abertura suja. O arame enferrujado e irregular rasgou seu braço, e o sangue escorreu junto com a água da chuva que entrava.
Cerrando os dentes, ela continuou se movendo e, por fim, seu corpo caiu num beco imundo atrás do galpão.
A chuva caía forte, encharcando tudo e transformando o chão numa bagunça escorregadia. No instante em que seus pés tocaram o chão, seu tornozelo torceu com um estalo assustador, e a dor subiu pela sua perna.
Pressionando os lábios para não gritar, ela arrastou sua perga machucada, se escondendo ainda mais nas sombras.
Quando ela saiu cambaleando para a rua principal, os faróis de um carro de luxo cortaram a tempestade.
"Merda! Aquela vadia escapou!"
"Se mexam! Não deixem ela ir longe!"
Os gritos furiosos dos sequestradores explodiram atrás dela.
Scarlett cerrou o maxilar e se forçou a ficar de pé enquanto entrava na rua e acenava com os braços para o carro que se aproximava.
Um rangido agudo dos freios ecoou em meio à chuva.
A janela do motorista se abriu, e ele se inclinou com uma irritação evidente. "Por acaso está querendo morrer?"
Ao invés de responder, Scarlett ergueu os olhos para o banco de trás.
Lá, estava um homem num terno preto sob medida. Seus traços marcantes se destacavam mesmo na luz tênue, e a autoridade calma na sua postura o fazia parecer distante e intocável.
A água da chuva escorria pelo rosto de Scarlett junto com as lágrimas. Após passar a mão pelas bochechas, ela olhou diretamente para ele. "Senhor, fui sequestrada. Consegui escapar, mas eles estão bem atrás de mim. Por favor, me ajude."
O barulho lá fora chamou a atenção do homem, que virou a cabeça lentamente e fixou os olhos na figura dela, coberta de lama.
Mesmo encharcada e abalada, ela se mantinha de pé, com algo indecifrável no olhar.
Atrás dela, passos apressados ecoavam no chão molhado, misturados com gritos furiosos à medida que os homens se aproximavam.
O desespero impulsionou Scarlett para frente, a fazendo bater com as palmas ensanguentadas contra o vidro do carro. Sua garganta ardia ao forçar as palavras a saírem. "Por favor. Eu te imploro, me ajude!"
O som de botas chapinhando na água da chuva ecoava cada vez mais perto.
Do banco de trás, o homem a encarava, como se estivesse avaliando se valia a pena ajudá-la.
Embora o medo apertasse seu peito, Scarlett continuou implorando, lançando um olhar por cima do ombro para os homens que corriam em sua direção, depois voltando a encará-lo com o rosto pálido e lágrimas presas aos seus cílios. "Se você me salvar esta noite, eu não vou esquecer. Vou te recompensar. Juro que vou."
Com um leve sorriso no canto dos lábios, ele disse: "Entre."
Assim que Scarlett entrou, o motorista pisou no acelerador e o motor rugiu.
...
Enquanto o carro avançava pela noite, a chuva batia nas janelas e os gritos dos sequestradores iam se dissipando atrás deles.
Ela ainda estava respirando - ela havia conseguido escapar!
Sem dizer mais nada, o homem pediu ao motorista que a levasse de volta ao hotel onde estava hospedada.
Scarlett tirou o celular do bolso com os dedos trêmulos e, como a água escorria pela tela, o limpou de qualquer jeito com a manga.
No entanto, nada a esperava: nenhuma chamada perdida, nenhuma mensagem, nem mesmo uma única notificação no WhatsApp.
Qualquer esperança frágil à qual ela se agarrava se desfez de vez.
Depois de se forçar a conter as lágrimas que ameaçavam cair e estabilizar a respiração, ela ergueu o queixo e encontrou o olhar do homem. "Posso ter seu contato?"
Sem dizer uma palavra, ele pegou o celular com seus dedos longos, abriu os dados da sua conta e virou a tela para ela.
Após adicioná-lo aos seus contatos, ela enviou 30. 000 para a conta dele.
"Isso é tudo que posso te dar por enquanto", disse Scarlett, inclinando a cabeça para olhar para o homem, que era uma cabeça mais alto que ela. "Quando eu voltar para o meu país, te recompensarei devidamente."
Um leve sorriso surgiu nos lábios do homem enquanto ele mandava uma mensagem com seu nome. "Asher Owen."
Ela rapidamente digitou o seu. "Scarlett Reed."
Com gratidão nos olhos, ela o olhou novamente. "Obrigada por me salvar esta noite. Preciso voltar para meu país agora."
"Certo. Boa viagem", respondeu Asher antes de se virar para sair.
Mesmo enquanto se afastava, seus pensamentos continuavam nela.
À primeira vista, ela passava uma impressão frágil e lamentável, mas por trás dessa delicadeza, havia um distanciamento discreto e uma determinação inflexível.
Uma mulher como ela não deveria ser deixada de lado, mas deveria ser valorizada e protegida.
A ideia de vê-la novamente despertou nele uma expectativa inesperada.
Após cinco horas exaustivas, o avião de Scarlett finalmente pousou em seu país natal.
No aeroporto, ela pediu um carro e foi direto para a Propriedade Sky, o lugar que um dia considerava seu lar com Ezra.
Quando ela chegou, a casa estava vazia - sem dúvida, ele ainda estava ao lado de Roselyn, abraçando-a e a consolando após o incidente.
Um sorriso fraco e amargo surgiu nos lábios de Scarlett enquanto a ironia a consumia.
Sem hesitar, ela foi direto para o escritório, ligou o computador e imprimiu duas cópias do acordo de divórcio. Assim que os papéis saíram, os assinou imediatamente.
Feito isso, ela entrou no quarto e começou a arrumar suas coisas.
Ela se deparou com o enorme retrato de casamento acima da cama, cuja visão era quase cômica agora.
Sem pensar duas vezes, subiu no colchão, arrancou a moldura da parede e a atirou no chão.
O estrondo ecoou pelo quarto enquanto o vidro se estilhaçava e os cacos caíam no chão.
Os rostos sorridentes naquela foto de casamento jamais poderiam ser juntados novamente.
Sem um pingo de emoção, Scarlett passou por cima do vidro quebrado e pegou sua velha mala pequena.
Aquela era a mala que ela havia levado consigo quando se casou e entrou para essa família. Agora, era a única coisa que pretendia levar ao sair. Dentro da mala, ela colocou algumas camisetas desbotadas, uma calça jeans velha e o álbum de fotos que folheara tantas vezes que as bordas haviam se desgastado.
Todos os vestidos e joias que Ezra havia lhe dado para manter a imagem de esposa perfeita permaneceram intocados.
Dez minutos depois, ela desceu com a mala e colocou os papéis do divórcio assinados no centro da mesa de mármore.
A fechadura de impressão digital na entrada apitou e a porta se abriu.
Ezra entrou, o cansaço estampado em seu rosto. No momento em que viu o retrato de casamento destruído jogado no lixo, sua expressão endureceu.
Sem hesitar, ele foi em direção a Scarlett.
"Você já voltou?", perguntou Ezra, franzindo a testa.
Ela soltou uma risada curta e sem graça e continuou andando. "Você esperava que eu ficasse lá e esperasse eles acabarem comigo?"
O rosto de Ezra ficou mais sombrio quando ele se postou na frente dela, seu tom ríspido de impaciência. "Do que você está brava desta vez? "Eu já te disse no telefone. Roselyn teve uma crise cardíaca, e eu tinha que estar lá. Será que não consegue entender isso?"
Há apenas meio dia, Scarlett havia contado que havia sido sequestrada, mas agora ela estava bem em casa, de volta como se nada tivesse acontecido.
Para Ezra, ela não parecia ter sofrido nada com isso.
Lentamente, Scarlett ergueu os olhos para ele. O carinho que antes ilustrava seu olhar havia desaparecido completamente quando ela disse: "Precisamos acabar com isso. Quero me divorciar."
O choque surgiu no rosto de Ezra antes que ele se endurecesse. "Você tem noção do que está dizendo?"
Com um tom firme e sem qualquer emoção, ela respondeu: "Estou sendo muito clara. Estou pedindo o divórcio."
"Divórcio?" Ezra soltou uma risada curta e zombeteira, enquanto apontava para a decoração luxuosa ao redor. "Depois que nos separarmos, para onde pretende ir? Voltar para o interior? Você aproveitou bem essa vida como senhora Wilson, cercada de dinheiro e conforto. O que mais poderia querer?"
Suas palavras a deixaram arrepiada.
Na mente dele, ela era incapaz de se sustentar sozinha, como se sua existência dependesse inteiramente de um marido.
Ele nunca se deu ao trabalho de saber que, muito antes de se casar com ele, ela já havia conquistado seu nome como uma das melhores designers de joias do país.
Ela havia se afastado dos holofotes e desistido da carreira que amava para se dedicar ao casamento.
Olhando para trás agora, esse sacrifício parecia totalmente ridículo.
"Se alguém quiser o título de senhora Wilson, pode ficar com ele", declarou Scarlett, seus olhos cheios de frieza. "Os documentos estão sobre a mesa. Leia e assine."
Sem esperar pela resposta dele, ela se virou e se dirigiu à porta, arrastando a mala.
Uma sombra profunda cruzou o rosto de Ezra, que soltou uma risada áspera. "Scarlett, se você sair por essa porta hoje, nem pense em voltar."
"Fique tranquilo. Não tenho a menor intenção de voltar", respondeu Scarlett sem hesitar, um sorriso frio surgindo nos seus lábios enquanto o encarava.
Nesse momento, Sylvia Wilson, mãe de Ezra, desceu as escadas, usando uma camisola de seda. Ao avistar a mala ao lado de Scarlett, ela parou abruptamente. "O que é isso? Está pensando em ir embora?"
Scarlett a encarou com calma. Um leve sorriso surgiu no canto da sua boca, mas sua voz não tinha nenhum calor ao responder: "Sim. Estou pedindo o divórcio. Não é isso que você sempre quis?"
Desde o dia em que entrou na casa dos Wilson, ela foi alvo de críticas intermináveis e humilhações silenciosas. Sylvia encontrava defeitos em tudo o que ela fazia, a lembrava de que era órfã e nunca perdia a chance de elogiar Roselyn, herdeira da família Lloyd, enquanto a menosprezava a cada oportunidade.
Sylvia a observou por alguns segundos antes de soltar uma risada aguda. "Você já deveria ter ido embora há muito tempo."
Então, ela desviou sua atenção para o filho. "Ela é um desastre ambulante. Mantê-la aqui só vai trazer problemas. Ela é uma órfã sem origem. Como poderia ser digna de você? Roselyn é a única que combina com você. Termine esse casamento e abra caminho para ela."
Um olhar pesado surgiu no rosto de Ezra ao dizer: "Mãe, já chega."
"Por acaso estou mentindo? Ela se casou com você e vive no luxo, mas ainda reclama", respondeu Sylvia sem hesitar, cruzando os braços. "Scarlett, já que é você quem está pedindo o divórcio, não se atreva a vir implorar para voltar depois."
Ao olhar para os dois, Scarlett foi tomada por uma sensação de incredulidade.
Essa era a família que ela havia cuidado nos últimos três anos, as pessoas que ela tanto se esforçou para agradar.
Uma risada vazia escapou dos lábios de Scarlett, que endireitou os ombros e os encarou sem hesitar. "Entrar para essa família foi o maior erro que já cometi. De hoje em diante, não teremos mais nada a ver um com o outro. Não quero ver nenhum de vocês novamente."
Após dizer isso, ela segurou a alça da mala e saiu sem sequer olhar para trás.
"Scarlett! Volte aqui!"
Ezra se moveu por instinto, prestes a ir atrás dela, mas Sylvia segurou seu braço e o puxou de volta.
"Por que está indo atrás dela? Ela só está fazendo cena para levar vantagem. Espere um pouco. Quando ela perceber que não conseguirá sobreviver lá fora, voltará por conta própria. E quando isso acontecer, faça com que ela entenda seu lugar."
Ezra ficou paralisado enquanto a figura de Scarlett diminuía e, por fim, desaparecia na noite. Uma dor aguda apertava seu peito, como se algo que ele deveria ter segurado tivesse escapado entre seus dedos.
...
Do lado de fora dos portões da mansão, o vento soprava entre as árvores, e suas folhas farfalhavam sob o céu escuro.
Com sua mala atrás de si, Scarlett caminhava pela rua tranquila, respirando o ar fresco. Pela primeira vez em muito tempo, sua mente se clareou.
De repente, faróis apareceram à distância, e um carro de luxo preto diminuiu a velocidade antes de parar na frente de Scarlett.
A porta traseira se abriu, e uma perna longa pisou no chão.
Usando um terno preto sob medida, o homem se portava com uma confiança inabalável. Suas feições marcantes e postura composta indicavam poder e prestígio.
Ele caminhou em direção a ela e, no momento em que notou o rosto pálido e o vestido manchado de lama, algo se alterou no seu olhar decisivo.
"Scarlett", ele chamou, sua voz profunda e trêmula, apesar do esforço para controlá-la. "Sou seu irmão. Passei o último ano te procurando e finalmente te encontrei."