Estava cansada...
-Eu sinceramente não vejo motivos para isso Azaléia! Está tudo indo muito bem! Estamos muito bem!
-Estamos?! - Os olhos verdes da moça transbordavam, lágrimas escorriam sob a extensão de seu rosto delicado.
-Ué!
-Ué?! -Parou por uns segundos o fitando séria, até que um sorriso sarcástico nascera em seus lábios, fazendo com que sua delicada falha genética aparecesse uma de cada lado de seu rosto. -ESTAMOS NA MERDA! - Gritou -Não sei o que ainda estamos fazendo! E você tem a coragem de dizer que estamos bem?! -Suspirou.
-Léa! Por favor, coloca as roupas no lugar. Desfaz essa mala!
-Pra que Natan?! Continuar vivendo à sombra do seu sucesso?!
-Nosso sucesso!! -Rebateu áspero.
-Você enche a boca, e bate no peito com orgulho, sempre colocando o restaurante como seu! - Suspirou forte, sentiu o ar entrar quente e preencher seus pulmões. -Não fale a palavra "nosso" por favor!
-Mas eu amo você! -Aproximou se da moça, e com cuidado a tocou o braço esquerdo.
Estava definitivamente cansada, secou as lágrimas de seu rosto e soltou um riso baixo, anasalado, desvencilhou -se da mão masculina, girou em seus calcanhares se pondo de frente e próximo a Natan. Este ato faria com que, qualquer palavra proferida por ela tocasse o rosto do rapaz.
-Ama a mim e mais quantas Natan?! -O indagou uníssono.
O olhou com profundidade, o intimidando, o deixando contra a parede sem reação, e sem defesa.
Ela sabia das sujeiras que ele escondia, sabia que não era a única.
Natan passava as mãos em seus fios castanhos com ansiedade, e de forma cínica forçava algumas lágrimas, conseguindo apenas olhos castanhos e marejados.
Estava cansada... Cansada da "ceninha" que era sempre obrigada a presenciar, e era sempre assim, briga após briga.
O quarto arejado e no tom azul pastel, luxuoso e com tudo o que uma pessoa podia sonhar, já era
pequeno, e ali não cabiam o casal, as brigas e problemas.
Neste momento o que Léa tinha de real eram, suas malas e sua vontade de dar fim.
-Por favor não perca tempo tentando se explicar, e nem muito menos gaste saliva para inventar alguma mentira. -Sua voz ecoava o quarto, estava tranquila, amena. Ela não tinha mais forças para levantar a voz naquele momento. - Eu espero que entenda. EU ESTOU INDO EMBORA! -Fora seu último fôlego, e o usou para a frase sair mais árdua, mais dura.
Estava cansada, já tinha ensaiado essa cena em sua mente, estava sentindo -se bem, como se fosse uma profissional em términos. Além de sentir, tinha a certeza de que, era muito boa no que estava fazendo, e que o medo de o fazer antes não passava de uma grande bobagem.
Sabia que não seria capaz de amar novamente, quando ela finalmente abriu o coração para o amor, fora descobrindo traição por traição, mentira por mentira. Era a única a sentir amor naquela relação.
Desceu as escadas enquanto secava as lágrimas que insistiam em cair, ouviu passos apressados a seguindo, e de forma quase que inaudível, a voz masculina a chamava, mas era tarde.
Ao chegar na porta de entrada da mansão que vivera por anos, pôde ver todos os empregados, emocionados, e outros com olhar surpreso.
Aquela tinha sido sua família por muitos anos, e ela sabia que essa parte doeria muito mais do que o fim do casamento.
Olhou com tristeza para todos enquanto com um aceno de mão, se despedia.
A única coisa material que Léa levaria consigo seriam, seus pertences pessoais, todo o dinheiro que tinha juntado, e a metade dos investimentos feitos em nome do restaurante.
Jogou suas poucas coisas no porta malas e banco de trás de seu Kia Soul vermelho, entrou colocando o cinto, secou as últimas lágrimas que pretendia chorar, enquanto olhava para o retrovisor aproveitando a deixa para o ajeitar.
Deu partida no carro e na vida.
"Vai ficar tudo bem" Pensou enquanto se esforçava para acreditar.
Mesmo com todo o medo e dúvida em seu coração, tentou consolar a si mesma.
Tinha juntado dinheiro o suficiente para recomeçar do zero. Sabia que não seria nada fácil, mas se era uma mulher forte o suficiente para se entregar a um homem que a traia, e fingir nada saber, ela conseguiria ser forte perante à solidão.
Era apenas uma menina de vinte e três anos, porém com grandes experiências. Sabia exatamente o que queria, e o que iria fazer a partir dali.
Por seu passado triste, e não ter ninguém para chamar de família, o medo da solidão a invadia, o que ela rapidamente fez desaparecer, naquele momento não seria saudável se deixar levar por sentimentos deste tipo.
Dirigiu durante horas até chegar em seu novo lar, Evergreen no colorado, bem longe de onde morava, longe de todos os pesadelos que a assombram até este momento.
Chegará em seu novo lar. Desejou que a tristeza sumisse, gostaria de não mais lembrar da vida que deixava agora no passado. Queria ter uma amnésia, recomeçar.
Garagem a dentro, ainda relutava sair do carro. Sentiu o peso do entrar no novo sem resquícios do que a feriu. Acreditou que se, entrasse sem tristeza, viveria sem a mesma. Como desejou ser verdade!
Esperou estar pronta!
Respeitou o tempo de sua mente e alma. Era preciso aquela pausa.
Mais uma vez o medo a tentou fazer regredir, e ela balançava a cabeça em sinal de negação.
Voltar não era uma opção!
Jurou enquanto olhava o céu estrelado e negro que, enquanto houvesse fôlego em seu ser, jamais voltaria a viver e aceitar o que viveu e aceitou.
-Agora eu me farei feliz!
Disse branda e crente.
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Evergreen também abrigava um homem solitário, não por escolha, e nem muito menos por desamor.
A droga de um acaso que por anos fora construído, fez com que sua vida fosse à ruína.
Quando mais novo, Kaeller foi cotado pelas forças armadas dos E.U.A como o mais jovem e promissor recruta de todas as décadas.
Kaeller tinha uma forma muito diferente de lidar com situações, mesmo com as mais simples, foi quando o chamaram para o serviço de inteligência, fora o cérebro de várias operações complexas.
Ele era completo, até que por um descuido, se corrompeu.
A corrupção se deu por conta de um Governo sujo e que, ditava atrocidades sem nem ao menos se importar com a vida de inocentes, foi quando conheceu Nagrier.
Nagrier era um rapaz novo, de cabelos ruivos, pele alva, olhar altivo, e corpo franzino, o que conseguiu por muitos meses passar como bom moço para Kaeller. Suas pautas e lutas estavam entrelaçadas, dando assim a oportunidade de uma então "amizade" nascer. O ruivo se mostrou disposto a ser um braço para as lutas sociais que Kaeller lutava! Assim como seu novo amigo, não aceitava a forma que o Governo lidava, com desamor aos que mais necessitavam de ajuda.
Por tempos teve de aguentar calado diante decisões que colocava pessoas em risco de vida.
Nagrier o conquistava com muito mais do que falácias. Tinha poder financeiro, e era um rapaz influente, conseguiu fazer movimentos grandes e que, de alguma forma colocava o Governo contra a parede elevando assim o nome do homem que antes amado, agora odiado por quem antes era "família".
Kaeller estava maravilhado, se não apaixonado pelas conquistas que se via envolvido, graças ao homem que "do nada" decidiu o ajudar na rebelião.
Além de lutas, dividiram noites em bares e bebidas, se tornaram amigos, confidentes. Kaeller se entregou a confiança depositada no ruivo, o fazendo esquecer que pessoas são más, que pessoas enganam... Seu treinamento de anos fora jogado no lixo quando nem ao menos desconfiou daquela boa vontade repentina, o que o levou para o fundo do poço.
Kaeller Deixou de fazer atrocidades com inocentes, para poder fazer com pessoas que realmente tinham culpa no cartório, o que no início o deu um ar de "justiceiro".
Traficantes, estupradores, ladrões... Pessoas no qual a sociedade mesmo odeia.
Mas não era exatamente isso que queria ao pedir dispensa das forças armadas, pensou que estaria envolvido em manifestações, greves, coisas voltada à revolucionar o esquema de politicagem. O que Nagrier mudava de pouquinho em pouquinho, sempre dizendo que tudo era necessário para que chegassem no objetivo principal, o que por um bom tempo comprou Kaeller.
Enganou -se, e muito feio!
Nagrier dizia que amava tê -lo em sua vida, e em sua "família", mas por outro lado, e, de forma adocicada, ameaçava Kaeller caso quisesse sair fora de tudo aquilo, já tinha mostrado as garras, e que usava Kaeller.
O ruivo não era burro, sabia muito bem com quem estava lidando... E era exatamente por isso que, precisava de um homem como ele em sua "família".
Kaeller se via tão envolvido na situação, que quando estava no auge da sujeira já não via como sair sem levar algum tipo de culpa. Poderia ser preso e passar seus dias e últimos dias atrás das grades, ou na melhor das hipóteses ter a sentença de morte aceita. Teve um vislumbre do que poderia acontecer quando, ao assistir tevê se deparou com uma notícia de que, já era visto como ameaça.
Foi aí que o homem de olhos cor de mel, e cabelos brancos conhecera o amor de sua vida, uma mulher sorria enquanto proferia palavras de "apoio" - acho que não dá para piorar o que já está ruim -.
A vontade súbita de sumir daquele mundo para construir um para ele e a mocinha que, bebericava com delicadeza aquele líquido marron feito de álcool com um sorriso sarcástico no rosto, nascera queimando.
Darina era uma mulher incrível, a primeira e a única a ganhar o coração do "soldado matador".
Seu sorriso perfeito, corpo escultural, e jeito sedutor foram os primeiros a fisgar o rapaz, o que com tempo fora descobrindo coisas mais importantes sobre ela.
Seus cabelos longos e loiros já não importavam mais quando, Kaeller descobrira sua doçura, companheirismo, e um jeito especial de apoiá -lo em tudo, principalmente na decisão de ir embora de Vermont, para encarar uma vida nova e longe de tudo na Flórida.
Por lá após uma ameaça da parte de Nagrier, iniciaram uma vida tranquila, até que, a "família" encontrou a mulher que roubara o coração de Kaeller, e de bônus a encontraram esperando em seu ventre uma criança que carregaria o sobrenome do homem.
A mataram, e como aviso deixaram uma carta ao lado do corpo já morto, e jogado na varanda de casa.
Kaeller desabou ao chegar em casa e, deparar -se com a cena.
Pensou em várias realidades aonde em todas, ele arrancava a cabeça do ruivo cretino.
Não precisou de muito para ter a certeza que, aquilo era obra de Nagrier. Era como diziam -depois que entra, só se sai com permissão- mas isso era um absurdo, Kaeller se meteu nisso sem nem ao menos saber o que realmente era "isso".
Naquele momento já não tinha nada a perder. Sonhou tão alto e com ingenuidade, pensou que teria paz para construir sua vida e ter uma família. Por um descuido infeliz se viu diante um caixão fechado, e que aos poucos ia descendo até o fundo daquela cova.
Seus sonhos e sua alma foram enterradas naquele dia, sua humanidade, sua gentileza, sua força, e seu amor.
Restaram apenas Kaeller, e um ódio profundo, que só não o fazia se matar, ou cometer alguma outra loucura por não ter "nada a perder" por ouvir sempre a voz de sua finada esposa sussurrar em seu ouvido.
Estava sendo assombrado por ela, como se a moça ditasse de outro plano como ele deveria tocar a vida.
Ela dizia que ele não tinha perdido tudo, mas nem ao menos sabia do que se tratava esse "tudo"!
Continuava a viver, apenas por acreditar que, se seguisse corretamente o que a voz doce de sua menina, agora morta, se juntaria ao final e de forma digna a ela e seu filho.
Em uma semana deixou sua casa para traz se mudando para Evergreen. Sentiu que aquela decisão agradava sua finada esposa.
A casa longe de tudo e de todos o mantinha preso em seus devaneios.
Podia viver escutando aquela voz a lhe guiar. Tinha enlouquecido, e todas as vezes que debatia isso -sozinho- chegava a conclusão que aquilo era o novo normal.
**********
Seus olhos brilhavam muito, sentia que naquele lugar teria a oportunidade de recomeçar, construir algo de sucesso, e só seu.
A moça rodopiava no meio do que seria, daqui um tempo o salão, todo o ambiente já estava desenhado em sua mente, e futuramente no papel do designer de interiores.
Ela idealizava uma decoração que, combinasse com a vista da varanda dos fundos, aonde se via uma floresta que, nos dias de chuva daria um lindo contraste e aroma natural.
-É meu?! -Indagou.
-Agora é oficialmente seu! -Sorriu com alegria a entregando o contrato.
-Eu nem acredito que daqui uns meses esse lugar estará cheio de pessoas tomando um café quentinho.
-Piscou lento aqueles olhos grandes e cor de mel. Olhou com alegria para o homem barbudo e branquelo a sua frente.
-Te desejo toda a sorte deste mundo, tenho certeza que foi um bom negócio fechar com você!
-Eu fico agradecida pela ajuda! -Sorriu em agradecimento.
Olhou ao seu redor, andou a passos largos até a varandinha que dava acesso ao cenário natural de montanha, suspirou fundo com os olhos fechados, sentiu a brisa gelada tocar seu rosto.
Sentiu que agora tudo se ajeitaria.
Passaram -se exatos três anos desde que Azaleia tomou sua decisão de partir, estava pensando nisso enquanto balançava seus pés no ar, sentada no balcão olhando a sua volta.
Estava em uma mistura de sentimentos, alguns bons, outros ruins.
Estava em uma nova fase, e olhar para tudo o que aconteceu até ali tinha que enxergar algo bom.
Tudo bem que demorou bastante para conquistar o que queria, mas quando comprou o imóvel não imaginou o trabalho que daria, e nem muito menos que teria que gastar tempo e dinheiro no processo de separação.
Seu ex marido se negava a partilhar tudo o que tinham conquistado juntos, mesmo aquilo estando dentro de um contrato matrimonial, não aceitava o fim do relacionamento de jeito algum, e ele recorria de todas as formas.
A expertise que teve de pegar metade de todos os investimentos a ajudou bastante financeiramente.
Léa fora embora com uma quantia boa, mas como não imaginou que seus bens ficariam tanto tempo "presos" na justiça, por conta de uma pirraça de um homem barbado, gastara tudo no imóvel que comprou, não aceitou financiar...
Levou esse tanto de tempo para realizar seu sonho, pois o que restara de dinheiro juntamente com a "merrequinha" que, tinha em um investimento era o suficiente apenas para não passar fome.
"Foram dias complicados" pensou.
Mas estava orgulhosa, depois de tudo conseguiu os bens partilhados, e ainda teve a satisfação de ver o Juiz dando uma ordem de restrição ao ex "chatonildo" que estava sempre perturbando.
O lugar estava finalmente do jeito que Léa idealizava.
Ao entrar na acolhedora cafeteria, era imediatamente envolvida por uma atmosfera aconchegante e retrô. O piso de madeira antiga range sob seus passos, acrescentando um charme rústico.
Diversas mesas de madeira se estendem pelo salão, convidando os visitantes a se acomodarem em cadeiras de couro confortáveis, onde podem apreciar seu café e delícias enquanto mergulham em um bom livro ou desfrutam de uma conversa tranquila com amigos.
Grandes janelas permitem a entrada de luz suave, criando uma atmosfera serena e convidativa.
No entanto, a verdadeira jóia da cafeteria está nos fundos.
Ao passar por uma cortina de contas, você se encontra em uma varanda espaçosa, que se abre para uma vista deslumbrante da floresta.
As árvores altas e frondosas criam uma parede de verde exuberante que, se estende até onde os olhos podem ver.
Mesas de madeira alinham a varanda, proporcionando um local perfeito para apreciar a tranquilidade da natureza.
E esse era o lugar favorito de Léa.
O som suave dos pássaros na floresta, combinado com o murmúrio de conversas e risos na varanda que, futuramente criaria uma sinfonia de serenidade e convívio.
Sua cafeteria estava em um ponto maravilhoso e estratégico, era um belo refúgio para pessoas que viviam uma realidade caótica trabalhando naqueles edifícios do outro lado da cidade, entrar e enxergar aos fundos da cafeteria um lugar com varandinhas, e janelas grandes que davam acesso e visão aquele espetáculo da natureza era uma fuga perfeita.
Sorriu satisfeita, porém sozinha.
Uma pontinha de chateação alcançou seu coração, mas balançando a cabeça vagarosamente em negação tomou a força necessária para não enxergar as coisas de forma negativa.
"Estou feliz, e serei bem sucedida nisso"
Era o pensamento mais otimista que tivera.
Tudo a sua volta tinha um charme, era simples, era de madeira, e aconchegante como deveria ser.
Desceu da bancada em um pulo e andou em direção a porta da varanda, a abriu e respirou fundo, o som de alguns pássaros cantando a relaxavam, e aquele cheirinho de terra molhada após uma chuva de verão também era satisfatório.
"Não consigo imaginar alguém que não goste de um lugar assim", falou enquanto empinava o nariz com orgulho.
A brisa que a alcançava fazia com que seus cabelos castanhos e longos se agitassem, podia sentir o impacto do vento em seus longos cílios, o feixe de luz tímido incomodava seus olhos cor de mel, sua mão rapidamente os coçou enquanto estavam fechados.
Por mais uma vez um sorriso de canto e orgulhoso repousou em seus lábios rosados.
Estava feliz.
***
-Eu já disse que isso está fora de questão! Chega!
O prateado olhava para aquele rapaz raquítico enquanto sentia seu sangue ferver. Sua decisão estava tomada, e pouco lhe importava o que aquele homem dizia, tudo bem que era seu chefe, e de certa forma possuía poder o suficiente para o mandar para a cova, mas ainda assim preferiu bater de frente.
-Nunca proferi a frase "serei eternamente seu capanga", até mesmo porque, eu não sou, nunca fui. -Disse ameno.
-Você acha mesmo que as coisas funcionam assim, Kaeller?! -Respirou pesado enquanto olhava o prateado no fundo dos olhos, e ele retribuía o olhar carregado de desdém. - Sabe o que posso fazer por sua falta de conduta?
-Esquece! Se você acha mesmo que eu vou ficar amedrontado com a sua ameaça, nem pense em completar a frase, já tomei minha decisão. Apenas vim comunicar.
Kaeller virou as costas para o homem que ainda mantinha os olhos furiosos sob si, mas antes que passasse pela porta sentiu uma mão firme em seu ombro esquerdo, o que fez com que interrompesse seus passos.
-Espero que esteja certo de sua decisão, não terei pena, não pensarei duas vezes antes de responder ao que fez hoje. -Sua voz era baixa, rouca, o que conseguia alcançar o interior de Kaeller.
-Tudo bem! -Sorriu sarcástico ainda de costas. -Não estou lhe pedindo nada, e ficarei feliz em te enfrentar um dia, você sabe o que posso fazer! Não preciso o ameaçar, então é bom pensar bem antes de qualquer decisão.
De forma bruta desvencilhou -se da mão em seu ombro e saiu dali de forma calma.
******
Quando pôde digerir o ocorrido, percebeu que tinha falhado a memória. Nagrier prometeu agir de forma vingativa, e o fez!
Ato qual acabou com a vida feliz que tinha, e com tudo o que sonhou quando soube que sua esposa estava esperando um filho.
Viu tudo desabar em sua cabeça, o mundo, a casa, a vida... Por fora se mantinha firme, não queria transparecer a fraqueza, tristeza e afins.
Após sua mudança para Evergreen, passou três anos tranquilos, nada suspeito acontecia, parecia até que nunca se metera em nada errado, a única coisa que ainda o fazia sofrer era a morte de sua amada.
Passados dois anos de sua mudança e morte de sua esposa, decidiu tocar a vida por necessidade, sentia desejos carnais quando saía vez ou outra para um bar do outro lado da cidade.
Tornou -se comum suas idas as sextas feira a noite.
Aquilo o ajudava a sentir -se vivo, já que não trabalhava por não ter necessidade.
Tinha juntado muita grana dos serviços sujos, e por ser de certa forma "ex militar" recebia uma grana por mês.
Chegou um momento em sua vida que, se não se jogasse no mundo nem que fosse por uma vez na semana, ia sucumbir à loucura por nem saber os motivos de ainda estar vivo.
Sua casa já era bem distante de tudo, bem no meio da floresta, aonde só escutava o som de alguns Cervos, e pássaros.
Preferia assim, ter contato maior com pessoas apenas uma vez na semana.
Foi assim que começou a saciar sua fome carnal.
A primeira mulher em que decidiu dar uma rápida lhe custou um dilema. Ele não conseguia tirar de sua mente que estava traindo sua finada esposa, daí terminou a noite sendo consolado pela ruiva que conhecera no bar.
A segunda vez fora com a mesma ruiva, a mulher se encontrava na mesma intenção que Kaeller, apenas sexo casual.
Não passaram da terceira vez pois a mulher começou a criar certas atitudes de "ficante fixa" e isso Kaeller não tolerava.
Ele trocou até de bar para não ter de esbarrar na ruiva, fora um inferno.
Quando caiu no costume, todas as sextas feira dormia com alguém.
***
-Aonde você mora? -Indagou enquanto olhava o rapaz a sua frente. Estava tenso, e respirava pesado. Seus olhos negros como a noite, pareciam tremer, assim como todo seu corpo deveras franzino.
Vez ou outra passava a mão direita no topo de sua cabeça, fazendo com que os fios castanhos balançassem.
-Há dois quarteirões. -Sorriu nervoso.
-Bem perto daqui. -Suspirou ainda olhando a folha A4 em sua mão.
-Nem precisa se preocupar com atrasos, e nem pagar minha locomoção, só vantagens! -Sorriu para disfarçar o nervosismo.
-E você se sente apto para a função? É responsável?!
-Sim senhora! -Quase berrou. -Desculpa. -Deu um pigarro. -Sou responsável sim, e pode criar expectativas em mim.
-Olha Malcon, esse café é o meu bebê, ele é tudo o que tenho, então preciso ter alguém aqui em que eu possa confiar. -O lançou um olhar analisador.
O ar gelado que entrava pela janela da varandinha fazia com que ambos olhassem ao mesmo tempo para o lado de fora, o que sem pudor os tocava, frio e intenso.
As árvores balançavam dando indício de que, a chuva de verão logo cairia, o que já era corriqueiro naquela época.
-Senhora, pode confiar em mim, vou dar o meu melhor e enxergar esse lugar como meu também!
O olhou mais uma vez suspirando, tudo bem que era o melhor do dia, mas não podia passar para ele que era a melhor e talvez única opção.
Decidiu fazer um mistério, apenas para dar mais valor a sua vaga. Mas sabia que ao fim da tarde ligaria dando a notícia da contratação.
-Tem alguma dúvida quanto ao horário e remuneração? -Indagou uníssono.
-Não senhora! Entendi tudo certinho. -Deu um sorriso simpático.
-Bom irei analisar com calma as minhas opções e te retorno. -Ficou encantada por não ver o sorriso otimista sumir do rosto do menino a sua frente, o que fora diferente de todos os outros, sentiu ter gostado dele mais do que deveria.
-Muito obrigado! Sendo sim ou não, foi um prazer conhecer a senhora!
O rapaz levantou e caminhou até a porta de entrada, após o tchau confiante fechou a porta as suas costas.
-Tomara que não seja só impressão minha, gostei mesmo dele! -Disse baixinho, e esperou alguma resposta. Suspirou triste ao lembrar que estava sozinha e que não tinha com quem debater ou pedir opinião.
"Vida triste essa hein" pensou.
Deu de ombros, afinal, não precisava de ninguém para opinar, e nem muito menos para crescer. Estava seguindo sozinha já havia um tempo, três anos para ser exata.
As horas corriam e em um estalo lembrou que teria que ligar para Malcon, pois já começaria amanhã. O que ela fez e deu tudo certo.
Estava tudo certo para finalmente inaugurar, a ansiedade era visível e estava estampado naquele rosto pálido e fino.
Léa estava feliz, e mais contente do que nunca, esperava que aquela felicidade não a abandonasse nunca mais.
Era extremamente esquisito ter ciência do início de um ciclo. Quando se olhava de fora era tudo diferente, mas sabendo que naquele momento tudo acontecia com ela, era de surtar!
Léa sentia uma felicidade honesta, sentia um orgulho imenso de si mesma, só que em alguns segundos passava por um lapso, aonde sentia se insegura, e por vezes não merecedora.
Olhava Malcon e, tentava fazer o mesmo que ele. Sorrir gigante, sem ser forçado, e exalar a alegria de estar em algo novo.
Sentia se culpada por, a dona estar menos feliz que o funcionário. Afinal o que inaugurou foi o seu próprio negócio!
A brisa de verão atravessava o estabelecimento, entrava pelas grandes janelas que davam a vista daquelas copas gigantescas de árvores caquéticas, e saia de forma singela, e sem despedidas pela porta de entrada.
Sua atenção estava voltada a tudo que acontecia ali naquele momento, as risadas, as conversas, o aroma de bolo misturado com café recém passado, isso a fazia sair do irreal, e encarar a realidade que ela mesmo criou.
Tudo tinha um ar positivo, e os clientes pareciam gostar bastante da experiência que aquele lugar trazia, e era isso que Léa sonhou, ela estava realizando sua vontade de fazer pessoas felizes, nem que fosse por um breve momento através de seu negócio.
Daquele jeito o dia ia passando, clientes entravam com expectativas, e iam embora com uma baita de uma realidade gostosa.
-Acho que acabei por aqui, chefe!
Malcon terminava de limpar o chão amadeirado, e mesmo cansado não esboçava desânimo. Seus ombros continuavam sustentando sua postura, que estranhamente era ereta.
-Eu prometo que não iremos mais fechar tarde deste jeito. -Soltou seus longos cabelos, antes presos em um rabo de cavalo. - Não imaginei que a inauguração iria até tão tarde! Peço desculpas!
-Uau! -Suspirou. -Devo estar no paraíso.
-Como?! -Indagou se aproximando do rapaz.
-Uma chefe que pede desculpas? Logo no primeiro dia?! - A olhou confuso.
-Não entendi. -Sorriu amarelo enquanto repousava suas mãos em seus quadris.
-Geralmente, os chefes são mais... - Olhou para o teto enquanto tentava organizar sua fala. -São mais secos, acho que para impor respeito.
-Acredite, Malcon, existem formas mais eficazes de impor respeito! - Sorriu com simpatia enquanto repousava a mão direita no ombro do rapaz. - Não espere de mim o que outros fazem! Não acredito nessa filosofia aonde faço você engolir que, sou a chefe, e que eu quem mando!
-Sério?!
-Uhun! Agora vamos! Vou te dar carona até su casa!
-Não precisa se incomodar! -Deu um leve tapa no ar. -Eu vou andan...
-Já é tarde! Não vou deixar que ande por aí sozinho, sendo que não me custa nada o levar.
-Já que insiste. -Deu de ombros, demonstrando ter sido vencido.
Léa esboçou um sorriso simpático, e a passos largos foi de encontro a sua bolsa, o que Malcon rapidamente imitou, quase em um salto, pegou sua mochila voltando ate a porta de entrada.
-Vamos?!
Ele apenas meneou a cabeça de forma positiva.
*******
-Eu disse que morava perto!
-Eu percebi! Moramos próximo. -Disse amena.
-E... Aonde a senhora mora?! -Indagou curioso.
Léa esboçou uma careta, estava surpresa com a insistência do rapaz em chamá- la de Senhora.
Segurou firme no volante enquanto estalava sua língua no céu da boca.
-Bom, talvez se parar de me chamar de Senhora, eu fale aonde moro, Malcon.
-Me desculpa, é que... -Levou a mão até a maçaneta do carro. -É costume... -De forma delicada e, quase inaudível, abriu a porta colocando seu pé direito para fora. -Você é minha superior...
-Me chame de Léa, você, ou senhorita. -Ergeu as sobrancelhas, e logo após semi cirrou os olhos, enquanto olhava em direção a uma bela casa. -Você mora aqui?
-Sim! -Sorriu com simpatia.
-É uma bela casa!
-Obrigado. Só não a convido para entrar pois, meus avós já devem estar dormindo.
-Que isso! Não elogiei com a intenção de entrar. -Deu um tapa no ar.
-Léa, acho melhor irmos dormir! Sério! Isso tudo está esquisito...
-Isso tudo?!
-Sim!!! Olha, obrigado! Muito obrigado mesmo! -Saiu do carro, fechando a porta com delicadeza.
Em uma rápida olhada, Léa pôde reparar um pouco mais na casa.
Era de fato linda!
Tinha uma sacada com balaústres marron, e que ia de uma ponta a outra da casa, na parte de baixo uma varanda toda de madeira, o que dava contraste com as ripas brancas na parte de fora.
Chamava atenção por ser modesta, e ao mesmo tempo muito linda.
Tinha cara mesmo de casa de vó.
Na varanda havia duas cadeiras de balanço, no quintal tinha uma árvore grande que, com toda a certeza, os salvava do calor.
-Te vejo amanhã, chefe!
-Descansa!
Léa deu partida no carro indo de ré até a entrada da rua, no qual pegou a principal novamente. Morava há sete quarteirões da casa de Malcon.
Era impressionante como, mesmo sendo nove da noite a rua estava "deserta". Lembrava até um filme de terror que tinha assistido na semana passada, seu corpo arrepiou com a lembrança em sua mente.
Quase perto da rua de sua casa, pode ver o semáforo para trocar de cor, e por não ter, aparentemente ninguém na rua, achou uma boa ideia dar uma acelerada no carro para não ficar parada no sinal vermelho.
Ela não contava que, naquela belíssima noite estrelada, aonde as luzes de alguns postes conseguiam iluminar as calçadas, um homem acompanhado de um Pug, atravessaria a rua sem nem perceber o carro acelerando.
Não contava também que, o freio UBS funcionava tão bem, e graças a irresponsabilidade em relação ao cinto de segurança pode constatar isso ao quase bater seu delicado rosto no volante.
O cachorro rapidamente rosnou, o que foi seguido de latidos altos.
Léa arrastou seus olhos no homem furioso a sua frente, o mesmo que, com raiva dava um tapa forte na lataria do carro.
A raiva era tanta que, seus músculos do braço e ombro estavam tensos, e suas veias saltavam, o que fora observado pela moça com afinco, mas logo ao perceber que estava tempo de mais com os olhos naquele lugar em específico, voltou seus olhos para a face masculina.
Estranhou ao ver um corpo jovem contrastando com um cabelo grisalho, e seu rosto coberto por uma máscara preta.
Fazia tempo que a pandemia passara, tinha perdido o costume de ver pessoas andando com uma daquelas.
Ao perceber seus olhos furiosos sob si, gesticulou um pedido de desculpas, seus olhos quase saltavam de medo, e estavam tão marejados que, mesmo na escuridão o rapaz podia ver.
E aquela cena a sua frente, uma moça delicada, e com olhos medrosos e marejados, o fez recuar, seu olhar rapidamente mudará de bravo a complacente.
Com a sobrancelha arqueada ele deu um passo para o lado, porém sem tirar seus olhos da moça a sua frente.
Ela deu uma leve ré no carro, e com o jogo para a esquerda, acelerou saindo dali.
O homem seguiu o carro com os olhos, vendo que logo a frente ele quebrava para a esquerda, sumindo ao entrar na rua.
Ele balançava a cabeça de forma negativa, enquanto abaixava o tronco para afagar a cabeça de seu cão.
Com o coração quase saindo pela boca, Léa entrou na garagem, e ao sair do carro cambaleou e quase tropeçou em suas próprias pernas.
Sabia da gravidade de seu ato irresponsável, agradeceu aos céus por não ter acontecido nada mais grave, mas, o que era estranho era o fato daquele homem não sair de sua mente.
Léa chegava a suar frio, não sabia dizer se era por conta do susto, ou por de certa forma ter sentido atração pelo rapaz.
Sua mente voltava inúmeras vezes naquele corpo, naqueles olhos... E mesmo com o banho gelado que tomara antes de dormir, ela não parava de pensar nele, seja lá quem fosse.
Ainda assim, desejou nunca mais o ver, pois ele realmente lembraria, e com clareza, de seu rosto. Temia que fosse algum guarda, ou policial. Cismou que ele olhara a placa de seu carro, e já esperava uma bela audiência para resolver a multa bem merecida!
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Já em casa, o grisalho apanhava em seu armário um pote com ração, Dooke ao sentir o aroma de comida no ar, veio entre roncos e tropeços pular em seu tutor, revelando a excitação que sentia.
Era incrível como, coisas tão simples o fazia feliz!
Talvez Kaeller tivesse andado para bem longe, fora de fato uma caminhada longa, sua mente se encontrava tão perturbada que, nem tinha sentido a distância que percorreu.
Suspirou tão forte que seu pulmão queimou, ele precisava organizar sua mente, e por estar nesse estado, sua casa também encontrava se bagunçada.
Olhou a sua volta com devido desprezo. Quando foi que chegara a esse nível?!
A passos desanimados fora em direção ao banheiro.
Apos o banho, ainda de toalha na cintura, se jogou na cama, e de forma astuta, e petulante sua mente projetou a imagem mais cedo.
Olhos assustados, lábios entreabertos, respiração ansiosa...
O que aquela mulher pensava estar fazendo?!
Poderia ter a olhado mais, reparado mais, só que o susto e, o breve medo de ser alguém perigoso querendo causar um acidente, o deixou sem reação.
Sentiu raiva por não ter ido até a janela do carro para a acalmar, era visível o quão ela estava mais assustada e fora de órbita.
Mas o que importava?
Nem era importante assim...