Durante anos, fui conhecida como a única fraqueza de Kael Emerson, a âncora do impiedoso chefão do crime enquanto ele construía um império. Eu achava que era para nós, uma vida que ele estava construindo para me proteger.
Mas então eu descobri a verdade. A garota que me atormentava no colégio, Daiane, era sua amante. Ele a exibia em festas de gala, comprava coberturas para ela e financiava seu santuário multimilionário para gatos.
Ele comprou um santuário para gatos de rua enquanto meu irmão estava morrendo. Implorei por dinheiro para um tratamento que salvaria sua vida, mas ele me disse que estava ocupado e desligou. Meu irmão morreu sozinho. Kael nem sequer foi ao funeral.
Quando ele finalmente ligou, parecia entediado. "Sinto muito pelo seu irmão", disse ele casualmente, enquanto eu podia ouvir Daiane ao fundo pedindo para irem comprar anéis.
Naquele momento, o último pingo de amor que eu sentia por ele simplesmente morreu. Ele havia esquecido cada promessa, até mesmo a que fez de arruinar Daiane por ter gravado "Inútil" no meu pulso anos atrás.
Agora, ele a protege. Ele até a deixou esmagar a última lembrança que meu irmão fez para mim, e depois quebrou meu pulso quando avancei contra ela. Após um acidente de carro que ele causou, ele me deixou sangrando nos destroços para salvar Daiane, sem sequer olhar para trás.
Mas o maior segredo ainda estava por vir. Deitada em uma cama de hospital, uma ligação do cartório revelou a verdade. Kael e eu nunca fomos legalmente casados. A base inteira da minha vida era uma mentira criada para me controlar.
E agora, vou tomar de volta tudo o que ele roubou de mim. Começando pelo seu império.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Helena
O submundo costumava sussurrar que eu era a única fraqueza de Kael Emerson.
A verdade, agora eu sei, é muito mais simples: eu era apenas sua âncora, a única coisa que o mantinha firme enquanto ele construía um império destinado a proteger uma vida que eu nunca estava destinada a compartilhar.
O segredo nem era mais segredo. O caso de Kael com Daiane Lucas - a garota que tinha sido meu pesadelo pessoal no colégio - estava estampado em todos os blogs de fofoca e colunas sociais.
O prego final no caixão foi a festa de caridade há dois meses. Era para ser a nossa noite, uma rara aparição pública juntos. Passei horas me arrumando, escolhendo um vestido da cor dos olhos dele, apenas para vê-lo sair de sua Mercedes-Maybach no jornal da noite, com a mão dela em seu braço.
Ele nem se deu ao trabalho de ligar.
Depois disso, o silêncio em nossa mansão no Morumbi se tornou uma coisa viva, que respirava. A cama ficou fria, os jantares foram cancelados com mensagens curtas de seu assistente, e o espaço entre nós se transformou em um abismo de gelo.
Daiane fez questão de que eu sentisse cada centímetro disso. Mensagens diretas apareciam no meu celular, enviadas "acidentalmente" da conta de Kael - selfies dela usando meu colar de esmeraldas, aquele que ele me deu no nosso primeiro aniversário, seus lábios curvados em um sorriso presunçoso e triunfante.
Enquanto ela brincava de se vestir com a minha vida, meu próprio mundo estava acabando.
Meu irmão, Léo, estava morrendo. Uma doença genética rara o consumia vivo por dentro.
Kael havia me prometido anos atrás, quando não tinha nada além da roupa do corpo e um fogo nos olhos, que moveria céus e terras por Léo.
"Qualquer tratamento, Helena", ele jurou, com a mão sobre o coração. "Não importa o custo."
Liguei para ele há uma semana, minha voz embargada por um desespero que beirava a súplica. Um novo tratamento experimental, por fora dos canais oficiais e astronomicamente caro, era a última chance de Léo.
Kael me cortou, sua voz carregada de uma irritação tão profunda que me roubou o fôlego.
"Estou ocupado", ele rosnou. Eu podia ouvir Daiane ao fundo, rindo sobre algum gato persa que ela queria.
Alguns dias depois, vi as manchetes. Kael Emerson, o impiedoso Don da família criminosa mais poderosa da cidade, o homem que saiu da sarjeta para controlar rotas de navios e políticos com mão de ferro, acabara de financiar um santuário multimilionário para gatos de rua.
Era o projeto de estimação de Daiane, uma jogada de relações públicas para suavizar sua imagem pública brutal.
Ele comprou um santuário para gatos de rua enquanto meu irmão escorria por entre meus dedos.
Léo se foi agora.
No silêncio sufocante do meu luto, meus dedos se moveram por conta própria, encontrando um número que eu não contatava há oito longos anos.
Enviei uma única mensagem: *Preciso de ajuda.*
A resposta veio instantaneamente. *Estou a caminho.*
Esta noite, a televisão no quarto vazio do hospital de Léo está ligada, com o volume baixo. Kael e Daiane estão na tela, cortando uma fita na grande inauguração do santuário. Eles parecem felizes, poderosos. Um casal perfeito.
Meu olhar cai sobre a pequena caixa de música de madeira na mesa de cabeceira, a última coisa que Léo fez para mim. Seus pássaros simples, esculpidos à mão, estão a um mundo de distância da vida brilhante na tela. É uma memória de nosso começo humilde, de um tempo em que as promessas de Kael pareciam reais.
Agora, não passa de um monumento às belas mentiras sobre as quais ele construiu nossa vida.
Ponto de Vista: Helena
Enquanto eu estava de luto, Kael cobria Daiane de presentes - uma nova cobertura com vista para a cidade, um carro esportivo vermelho-cereja, a vida que eu deveria ter.
Eu via as fotos online, uma galeria do meu futuro roubado que servia como um contraste gritante e doloroso para a minha realidade.
Paguei o caixão simples de Léo com meu cartão de crédito. Levei suas cinzas em um pequeno barco e as espalhei no mar cinzento e agitado.
Sozinha.
Kael não foi ao funeral. Ele nem sequer ligou.
Ele enviou um arranjo absurdamente grande de lírios brancos, uma flor que sempre detestei. Joguei no lixo sem nem olhar o cartão.
Ele finalmente ligou três dias depois.
Sua voz era impossivelmente casual, como se estivesse perguntando sobre o tempo.
"Oi. Sinto muito pelo seu irmão."
Um nó frio e duro se apertou no meu estômago.
"Você escolheu um santuário de gatos em vez da vida dele", eu disse, minha voz sem emoção.
Ele suspirou, um som de pura exasperação. "Helena, foi uma boa jogada de imagem. Você tem que pensar no quadro geral."
Ouvi Daiane rir ao fundo, um som agudo e tilintante que me deu arrepios.
"Vamos comprar anéis mais tarde, amor?", ela arrulhou.
A última brasa vacilante de amor que eu tinha por Kael morreu naquele momento.
Simplesmente... se apagou.
No dia seguinte, pedi ao meu advogado para preparar os papéis do divórcio. Kael me fez assinar um acordo pré-nupcial anos atrás, um que me deixava com quase nada.
Com uma mão que não tremia, assinei meu nome de solteira, Helena Ramos, e enviei uma foto do documento para o contato jurídico que o pessoal de Josué havia fornecido.
Eu só queria acabar com aquilo.
Havia algumas coisas de Léo no primeiro e minúsculo apartamento que Kael e eu compartilhamos, antes do dinheiro e do poder. Eu tinha que pegá-las antes que se perdessem para sempre.
Ao me aproximar do prédio antigo, minha respiração ficou presa na garganta. A Mercedes-Maybach preta de Kael estava estacionada bem embaixo da nossa antiga janela, um predador elegante em uma parte esquecida da cidade.
Meus próprios pés me levaram pelas escadas rangentes, minha mão tremendo enquanto eu encaixava a chave antiga que ainda guardava no meu chaveiro na fechadura.
A porta se abriu com um rangido, e eu os vi.
Kael tinha Daiane pressionada contra a parede - a mesma parede onde nossa primeira foto juntos costumava ficar. Ele a beijava, as mãos emaranhadas em seu cabelo loiro, com uma paixão que eu não via nele há anos.
Eu congelei, uma estátua esculpida de sombra no corredor, incapaz de respirar.
"Comprei o quarteirão inteiro", Kael murmurou contra os lábios dela, sua voz densa de possessividade. "Vou demolir tudo para construir uma nova torre. A cobertura é sua."
Ele estava me apagando. Apagando *nós*.
Ele estava literalmente demolindo nosso passado para construir um futuro para ela.
Ponto de Vista: Helena
Meu pé prendeu em uma tira de metal solta no chão. O som agudo ecoou no pequeno apartamento, e eles se separaram num pulo.
Kael se virou, seus olhos se fixando em mim na porta. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de algo - preocupação, talvez até culpa - antes de ser engolido por pura irritação.
"Helena? Que diabos você está fazendo aqui?"
Daiane saiu de trás dele, um sorriso doentiamente doce estampado no rosto. Sua voz era pura atuação.
"Ah, Helena. Eu sinto muito, muito mesmo por... você sabe. O colégio. Éramos apenas crianças."
"Não ouse", eu disparei, a única palavra cortando sua atuação como um caco de vidro.
O rosto dela se desfez instantaneamente. Ela se virou e se derreteu contra o peito de Kael, seus ombros tremendo com soluços teatrais.
"Eu só estava tentando ser legal."
Os braços de Kael a envolveram protetoramente, seu olhar endurecendo ao pousar em mim.
"Qual é o seu problema? Deixa isso pra lá."
Minha mente voltou ao vestiário do colégio. Daiane e suas amigas me seguraram, a ponta fria e afiada de um compasso cravando na pele macia do meu pulso enquanto ela gravava a palavra "Inútil" na minha carne. A cicatriz ainda estava lá, uma linha pálida e irregular que eu via todos os dias.
Lembrei-me de Kael me encontrando chorando na biblioteca depois. Ele pegou minha mão, seu polegar traçando a marca vermelha e irritada, e me prometeu, com a voz num rosnado baixo: "Um dia, eu vou acabar com ela por você, Helena. Eu juro."
Outra mentira linda e vazia.
"Entra no carro", Kael ordenou, sua voz não deixando espaço para discussão.
Daiane interveio, enxugando uma lágrima inexistente. "Sim, vamos todos juntos. Podemos ser amigos."
Ela estendeu a mão para o meu braço, suas unhas perfeitamente feitas cravando deliberadamente na pele sensível ao redor da minha antiga cicatriz.
A dor, aguda e familiar, disparou pelo meu braço. Eu recuei por instinto, puxando meu braço de seu toque.
Meu recuo a fez tropeçar para trás. Ela caiu com um suspiro dramático, desabando no chão em um monte, e para quem visse, parecia que eu a tinha empurrado.