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Indecorosa

Indecorosa

Autor:: brubsverena
Gênero: Romance
Júlia passou a adolescência e boa parte da juventude construindo seu autoconhecimento, autoaceitação, empoderamento e apesar do "bullying" que sofre por ser gorda, conseguiu tornar-se uma mulher confiante, independente, formada em Estética e Cosmética e dona do salão de beleza mais conhecido da favela onde ela mora. Tudo parece perfeitamente bem na vida da morena até o Marcelo, seu melhor amigo e amor platônico, ser preso por assassinato. Determinada a descobrir se o homem é culpado ou inocente das acusações, a jovem aceita fazer visitas íntimas a ele na prisão e percebe que o sentimento que ela nutriu durante anos é correspondido.

Capítulo 1 Tensão sexual

Dedico este livro a todas meninas, garotas e mulheres que nunca sentiram-se representadas nas histórias. No meio de tantas protagonistas magras e sempre tão padrões, espero que vocês sintam-se mais acolhidas nessa obra e que, de alguma forma, a Júlia seja uma ponte para todas olharem para os próprios corpos com mais ternura e admiração.

Com amor, Magrí

JÚLIA BRAGA

INÍCIO DE 2020

Faça do espelho seu novo melhor amigo, eu repetia mentalmente, enquanto me arrumava e sorria igual a uma idiota diante do meu reflexo.

- Tu tá linda, sabia? - Marcelo, o meu amigo, se pronunciou, logo atrás de mim, me encarando com os braços cruzados através do espelho e eu assenti, um pouco envergonhada.

- Só estou nervosa, porque é o primeiro encontro há mais de cinco anos. - Fiz uma careta, terminando de ajeitar a alça do meu vestido e uma gargalhada ecoou pelo quarto. - É sério! Desde o meu último namoro eu nunca mais estive apaixonada e só fiquei pulando de pau em pau.

- Eu sei como é isso. Depois que terminei com a Louise, me sinto meio perdido com esse lance de paquera.

- A Louise terminou com você - corrigi, rindo. - E vamos combinar que foi bem feito! Ficar com a Arlene, a melhor amiga dela, foi uma puta sacanagem.

- Eu sei, pô. - O observei afastando-se, cabisbaixo e logo em seguida, sentando-se no colchão.

- Olha, eu não quero te julgar, mas eu sou mulher e me coloco no lugar dela. - Girei os calcanhares para encará-lo e acrescentei: - Você está prestes a completar 31 anos e namorar uma garota tão mais nova, já é problemático em tantos níveis que poderia ficar duas horas te dando palestra sobre o assunto e para foder mais ainda o psicológico da menina, você ainda trai? Porra, RM, nem fodendo tem como te defender!

- Eu tenho mais é que me foder muito nesta vida, né? - concluiu, sabendo que a minha resposta seria sua.

Sorri, me divertindo com a sua resposta.

- Já disse que te amo hoje mesmo você sendo a versão favelada do Hardin de After?

- Nem sei quem é essa porra, mas nada além da sua obrigação me amar, porque eu sou o melhor amigo do mundo. - Ele dá de ombros, sendo incapaz de demonstrar o que sente por mim.

É o jeito dele. Eu entendo. Nunca me incomodou o fato desse homem não saber lidar com demonstrações de afeto. Levando em consideração que o pai é traficante e assassino, eu acho totalmente compreensível que o Marcelo tenha problemas emocionais ou eu tô lendo romances darks demais.

- Eu vou deixar minha localização ligada em tempo real e pelo amor de Deus, fica atento! - Aponto o meu dedo na sua direção, mudando de assunto para quebrar o gelo.

- Não se preocupe, amor. Vou deixar meu celular no último volume e se esse teu chefe se atrever a fazer algo que você não queira, eu o mato.

- Espero que seja uma maneira de falar, RM. Não quero acreditar no que estão falando de você pela comunidade.

Volto a olhar para o espelho pendurado na parede, conseguindo me ver da cintura para cima e gosto do que vejo. Meu cabelo preto está liso, o vestido justo na cor laranja realçou meus seios fartos e modéstia à parte, estou deslumbrante. Abro uma gaveta que fica logo abaixo, escolho a bijuteria barata que vejo e coloco o par de brincos nas minhas orelhas.

- Vestido de garota de programa na cor laranja, decote na medida certa, cabelo liso na raiz e ondulados nas pontas - Mariana, minha irmã caçula, elogiou assim que invadiu o quarto.

- Obrigada, piranha. O que você quer?

- Tem como você me emprestar R$150,00 pra comprar três livros de uma autora nacional que eu amo? - Ela faz uma carinha de pidona.

- Já ouviu falar em pirataria? - RM sugere e a minha irmã olha para ele como se quisesse estrangulá-lo.

- Eu não sou uma filha da puta sem noção que vai piratear a autora brasileira, né? Bom senso faz bem, tenta usar.

- Amanhã, eu te dou o dinheiro - interrompi o assunto antes que virasse uma briga.

- Obrigada, obrigada, obrigada! - A garota dá pulinhos de alegria, me abraça e sai sem falar com o Marcelo.

- Ela leva a sério mesmo esse negócio de livros?

- Eu entendo a Mariana defender as autoras que ela gosta, porque é um trabalho bastante desvalorizado no Brasil e quem realmente admira seu esforço, vai consumir de maneira legal para que você receba por aquilo que está expondo.

- É, eu não ia gostar que alguém fumasse maconha que vendo sem pagar, por isso leva logo um tiro na testa pra deixar de ser otário. - O moreno faz o sinal de armas com a mão e aponta para a parede.

- Marcelo!

- Foi mal! Mas o que estão falando de mim?

- Que você entrou para o tráfico de uma vez por todas... - Minha voz vacila. - Que você ficou no lugar do seu pai.

Silêncio.

A minha resposta foi o silêncio e honestamente, eu não precisava de mais nada para ter certeza que o Marcelo estava envolvido até o pescoço com o tráfico de drogas no morro em que moramos.

- Foi o Cigarro que contou para você?

- Não. Por que você sempre acha que é ele que te ferra? O cara não tá nem aí para o que acontece na sua vida.

- Desculpa, Júlia. Eu tinha esquecido que você é a defensora número um daquele moleque.

- É estranho que eu e o Cigarro tenhamos a mesma idade e eu seja lida como uma mulher e ele como um garoto.

- É uma maneira de falar. Óbvio que sei que ele já é um homem. Não precisa militar, porra! - Rebate, na defensiva. - Já enviou seu currículo para ser administradora do Quebrando Tabu?

- Otário! Tamanho macho e fica nessa de pagar de debochado?

- Vai lá com o Cigarro e me erra!

- Queria, ele é um homem gostoso pra caralho, inclusive, fode muito, mas tem namorada! - Provoco e recebo uma pancada de um travesseiro nas minhas costas.

- Esse cara comeu todo mundo?

- Sim, ué. Homem de verdade faz assim: come qualquer tipo buceta. Não fica escolhendo só as magrinhas como uns e outros que eu conheço.

- Falando assim, até parece que quer a minha pica e não tá sabendo pedir...

- Deus me livre. - Bato três vezes na madeira da penteadeira. - Gosto de macho legal e não macho escroto que trai a mina dele.

- Esquece isso, caralho.

- Esqueço não. Vou lembrar para sempre.

- Não quer outro tipo de memória, não? - De repente, sinto sua presença atrás de mim, suas mãos seguram a minha cintura e seu quadril pressiona a minha bunda. - Confessa que é louquinha pra me dar essa buceta.

Quem não é?

- Para com isso, satanás em forma de homem! - Ofego, me distanciando dele para não cair na tentação.

- Tenho certeza que eu faria melhor que o seu chefe.

- Nunca irei saber, meu querido.

Resolvo sair às pressas daquele quarto antes que dê muita merda para nós dois. Desço a escada com cuidado para não cair, já que não estou acostumada a usar salto alto e ao chegar no térreo da minha casa, a minha mãe me olha estranha, franzindo os lábios em desaprovação.

- Esse vestido te deixou mais gorda do que você já é, minha filha.

- Não, mãe. Esse vestido mostra o quanto estou gorda e pra mim, está tudo bem ser gorda. Por que a senhora se incomoda tanto com o meu peso?

- Eu me preocupo com a sua saúde.

- Sério? Ela está ótima. Quer ver meus exames? - Ironizo e caminho em direção à saída. - Até mais, mãe! Fique com Deus.

Caminho lentamente em direção à calçada e quando estou quase próximo ao meu carro, sinto as mãos do Marcelo tocarem meu antebraço, me forçando a olhar para trás.

- Foi mal ter dado em cima de você, não quis te deixar desconfortável e nem sei o motivo de ter feito aquilo.

- A tensão sexual sempre foi foda entre nós dois - afirmei e o vi ficar sem graça.

- A tua sinceridade é algo que nunca irei me acostumar. - Ele coça a sua cabeça, a tombando levemente para o lado.

- Não é bem um segredo que eu já fui apaixonada por você, mas sou gorda e não faço seu tipo.

- Eu nunca disse que é por você ser gorda.

- Mas é esse o motivo, não é?

- Não é, amor. Eu só não quero estragar a nossa amizade.

- Sinceramente, o que nos afastou foi você ter me esquecido completamente depois que começou a namorar a Louise. Sexo só fortaleceria nossa amizade.

- Você é muito oferecida. - Riu, me puxando para perto dele. - E eu gosto disso.

- Não nego que tenho interesse, porém estou indo sentar em outro pau, mas podemos marcar outro dia e recuperar todo o tempo perdido.

Viro de costas para ele, entrando no carro e dando partida no automóvel, o deixando com cara de idiota no meio da rua.

Nota da autora: Esse livro é um spin-off da história Lábios Infernais disponível em outra plataforma (quem quiser o link é só pedir no Instagram: autoramagri). Indecorosa é escrito por Magrí Bandeira com a colaboração da autoracapitu e websbela. Quem quiser, nos siga no Instagram para saber mais sobre todos nossos livros: autoramagri, escritorabela e brubsverena.

Capítulo 2 Encontro desastroso

JÚLIA BRAGA

Durante o caminho ao restaurante, eu não parei de pensar no RM nem por um segundo, porque ele mexe comigo mais do que eu quero admitir e sentir seu toque antes de um jantar romântico não ajudou que a minha mente se concentrasse na oportunidade de sentar em um pau de um gostosão que eu conheci no Tinder há um ano.

Menti para o meu melhor amigo, falando que sairia com o meu chefe e eu não sei como ele acreditou nessa mentira deslavada, já que eu sou proprietária de um salão de beleza e sou a minha própria chefe, mas não quis falar a verdade para não deixá-lo preocupado achando que irei ao encontrar um psicopata.

O Eron Salazar está longe de ser um homem com o qual devo me preocupar nesse sentido. Saímos algumas vezes nos últimos meses, porém os nossos encontros foram em rodas de conhecidos, eu com as minhas amigas e ele com os amigos dele. Nunca rolou mais do que uns amassos e boquetes no carro quando o mesmo fazia questão de me deixar na porta da minha casa, afinal, o mundo é um lugar perigoso para as mulheres ficarem perambulando sozinhas altas horas da madrugada. Enquanto existir estupradores, nós temos que nos proteger e evitar correr riscos desnecessários.

Sorri de lado ao lembrar das diversas qualidades do Eron e comecei a enumerar mentalmente cada uma delas para eu não ceder a vontade ridícula de dar meia-volta no carro para ficar com o RM. Tenho certeza absoluta que aquele desgraçado não deixaria de transar por minha causa e não vou ser trouxa ao ponto de fazer algo que não seria recíproco.

O Eron é charmoso, educado, galanteador, inteligente, esforçado, batalhador, beija bem e essa noite, vou descobrir se sabe foder gostoso.

O Marcelo só me ver como uma amiga e mesmo que eu transasse com ele, não acho que teria o mesmo significado para nós dois. Eu sou a única idiota da dupla que se apaixonou.

- Vai e arrasa na cavalgada, mulher. – Sussurro, apertando com força o volante. - Lembre-se que o RM jamais deixaria de comer uma mulher por você.

Um pouco mais decidida, segui o meu caminho firme e forte até o restaurante, que fica em uma área nobre da cidade, admirando a linda paisagem e mesmo com os vidros entreabertos, aspirei o cheiro das árvores ao redor. Me sinto sortuda por morar em uma localidade que ainda não é tomada por prédios gigantescos e carros por todo o lado. Todas as vezes que vou em cidades grandes, me sinto como uma ratinha fora do seu hábitat natural.

Depois de alguns minutos, cheguei na entrada do local, estacionando o carro na frente, peguei a minha bolsa que estava no banco do carona e deslizei para fora do automóvel.

- Boa noite, dona Júlia. - Caio, o manobrista, me cumprimentou, erguendo a mão direita para que eu lhe entregasse a chave.

- Boa noite, meu anjo. - Joguei a chave para cima e ele aparou.

- Bon appétit, madame - disse em tom de brincadeira, me fazendo rir.

Como já nos conhecíamos de outras vindas ao restaurante, tínhamos adquirido um nível de intimidade bacana e eu, particularmente, não me importo em fazer amizades com funcionários dos lugares que frequento. Se eu não sair amiga do segurança de uma balada, não sou eu.

Sem contar que todo mundo deve estar ciente que o Eron fará parte do meu cardápio de refeições hoje à noite.

Desfilei confiante até a recepção enquanto o Caio entrou no meu veículo para procurar uma vaga no estacionamento que ficava ao lado. Como sempre, fui bem recebida pelas duas mulheres que estavam trabalhando na hora que cheguei e fui encaminhada para uma área reservada do restaurante.

A minha mente pervertida já ficou indagando o quão prazeroso seria rolar algo dentro do local de trabalho do Eron. Não me importaria de ter aquele macho como meu prato principal.

O lugar cheirava a luxo desde a entrada, a decoração era toda de madeira com detalhes em vermelho, iluminação baixa que deixava um clima romântico no ar e as cabines eram espetaculares. Assim que fiquei sozinha em uma delas, admirei a mesa redonda com um sofá amplo de couro ao redor, as cortinas e velas acesas. Perfeito.

- Eu espero que esteja a sua altura. - Mãos grandes e fortes apertaram a minha cintura, deixando meu corpo em brasa.

- Por mim, a gente pulava a parte do jantar e íamos direto para a sobremesa que está no meio das minhas pernas. - Me ofereci igual a uma vadia nefasta.

- Espero que não seja na nossa frente. – Ouço uma voz feminina desconhecida e ao olhar para trás, me deparo com uma senhora baixinha que eu nunca tinha visto na minha vida e ao seu lado, o pai do Eron, que está rindo do que acabei de falar. Ambos pretos, elegantes e sorridentes igual ao filho.

Alguém cava um buraco e me enterra?!

- Essa é a minha mãe, Júlia. - Eron apresenta, tentando não rir de mim e eu não sei onde enfiar a minha cara nesse momento.

- Meu Deus, me desculpe! - imploro, ainda encarando a senhorinha sem conseguir imaginar em como explicar que eu não sou uma mulher indecorosa.

Senti meu rosto queimar pelo vexame e fiquei sem palavras por mais de um minuto. O clima romântico foi substituído por um clima tenso e vergonhoso.

- Eles apareceram de surpresa e eu não tive tempo para te avisar que teríamos companhia no nosso jantar - o homem se explicou e eu apenas assenti.

- Vantagens de ter um filho que é dono do próprio restaurante e a propósito, o meu nome é Paulínia - Ela estendeu sua mão na minha direção e nos cumprimentamos cordialmente.

- Vamos sentar? - Rogério, pai do Eron, sugeriu. - Na adolescência, flagramos o nosso filho transando no banheiro da igreja.

- Pai?!

- O que foi? Só quero deixar a Júlia confortável, explicando que já passamos por situações bem mais constrangedoras com você.

Eu não pude deixar de soltar uma risadinha e o clima entre nós quatro ficou mais agradável. Aproveitei o momento de descontração para sentar e agarrar o cardápio que estava disponível sobre a mesa, fixando meu olhar nas inúmeras opções de prato.

Minhas mãos estavam suadas, meu estômago pesou e passei a sentir medo de abrir a boca, porque existia uma grande possibilidade de falar merda.

Por que eu não fiquei em casa, meu Deus?

Senti quando os três se aconchegaram ao redor da mesa e especialmente, quando o Eron depositou sua mão na minha coxa.

- Sabia que éramos da favela igual a você? - Sua mãe começou a falar orgulhosa de todas as conquistas do Eron mesmo tendo nascido e crescido em uma comunidade pobre, totalmente dominada pelo tráfico de drogas. - Parece pouco, né? A maioria dos clientes desse restaurante, conheceu mais de 20 países antes de completar a maioridade, mas você deve saber a importância que é ter um homem negro e pobre conquistando espaço em uma universidade pública, viajando para outros países...

- Mãe, a senhora está me deixando sem graça - Eron avisou, rindo.

- Deixa ela falar. - Dei um tapinha leve no seu ombro. - Eu fico com o coração quentinho quando vejo alguém que veio da favela vencendo na vida.

- É tão raro que o primo dele acha que venceu na vida, porque tá famoso naquele tico, teco - Rogério lamentou.

- Tico, teco? - Olhei para o Eron com a sobrancelha levemente erguida.

- Tiktok.

- Ah, tá. - Dessa vez, a minha gargalhada foi intensa e contagiou todos ao redor. - Mas, hoje em dia, é uma rede social que pode ajudar a tirar muita gente talentosa do anonimato. Não podemos desmerecer o trabalho dos outros, o importante é que a pessoa não roube o trabalho do outros para de dar bem na vida, né?

Eles ficaram calados e logo, o Eron mudou de assunto. Realizamos os nossos pedidos e ficamos conversando sobre assuntos mais amenos. Sabia que a noite não iria terminar com um sexo selvagem, porém, valorizei a comida gostosa e boa companhia. Aprendi desde muito cedo, a valorizar o lado bom das situações.

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Capítulo 3 O Marcelo foi preso

JÚLIA BRAGA

ALGUNS MESES DEPOIS

- Eu não acredito que os pais do Eron te viram só de lingerie no sofá do apartamento dele! - Constantino gritou completamente eufórico com todos os detalhes que acabei de descrever sobre a noite de sexta-feira. - Você precisa de um banho de sal grosso, né? Primeiro, aquele jantar desastroso. Segundo, você passando mal na hora do boquete e vomitando, porque comeu coxinha vencida. Terceiro, entramos em quarentena antes de você dar para o gostosão.

Ele enumerou as vergonhas que passei, me fazendo querer voltar no tempo em todos esses episódios e nunca ter saído de casa.

- Sinceramente, eu deveria ter continuado em isolamento social - completo, gargalhando de nervosismo, terminando de arrumar o salão de beleza para as primeiras clientes que iremos receber pós-isolamento social obrigatório.

- Nem brinca com isso, miga. - O garoto bateu os punhos fechados três vezes em cima da madeira do balcão da recepção. - Mais uma semana com a minha família e você me encontraria enforcado no quarto.

Apesar da confissão pesada e triste, sua voz soou firme e indiferente, me deixando com uma dor no peito ao ouvir suas palavras duras, mas completamente realistas, porque eu sabia que não era exagero de adolescente. Infelizmente, presenciei diversas cenas abusivas dos pais com o Constantino pelo fato dele ser bissexual.

Como se a sexualidade do garoto fosse algo horrendo e pecaminoso, bem típico de família religiosa e conservadora. Nunca vou entender como alguém que vive dentro da igreja e pregando a palavra de Deus como os familiares dele faz pela favela que moram, conseguem ser tão escrotos ao ponto de desejar a morte de alguém por ser lésbica, bissexual ou gay.

Não faz sentido nenhum seguir Jesus Cristo e jogar ódio gratuito ao próximo.

- Sinto muito, meu amor. Você não deveria passar por isso, aliás, ninguém deveria ser tratado como um ser humano ruim por ter nascido homossexual ou bissexual - disse, me esforçando para não chorar.

Sempre quis ajudá-lo, mas como o Constantino mora no morro rival ao que eu resido, provavelmente o Barão faria algum mal ao garoto assim que soubesse da permanência dele na minha casa.

- Obrigado, Ju, mas eu estou bem. Não precisa ficar tristinha por mim.

Sabia que era mentira, mas assenti. Não ia forçá-lo a dizer qualquer coisa que o mesmo não se sentisse à vontade.

Olhei ao redor do ambiente, verificando se estava tudo limpo e organizado para começarmos as atividades novamente. Logicamente, não iremos disponibilizar todos os serviços de uma vez ou colocaríamos em risco tanto os funcionários como os clientes, por isso essa semana é um teste para verificarmos quais procedimentos estéticos serão mais solicitados ao decorrer desses primeiros dias e se as medidas de segurança serão respeitadas.

Infelizmente, uma boa parcela do povo brasileiro é estúpida e acha que é imune ao vírus, por isso eu sei que mesmo fornecendo todas as orientações para agendarmos e combinarmos todas as informações on-line, a clientela ainda vai querer aparecer no meu salão sem agendar horário ou querendo bater papo durante o expediente.

Eu que lute para lidar com o jeitinho brasileiro de fazer merda.

- Vamos retornar às atividades? - Finjo estar animada, pois a verdade é que eu estou morrendo de medo de ficar doente ou passar doença para a minha mãe que é do grupo de risco.

Constantino abriu as portas de vidro e logo em seguida, subiu os portões de ferro, revelando as duas primeiras clientes do dia, que foram recebidas com bastante profissionalismo como de costume.

[...]

O dia foi desgastante, enquanto os funcionários cumpriram apenas uma parte do horário, eu fiquei mais de doze horas em pé, tentando manter a ordem e a segurança de todos os lados.

A nossa última cliente está sendo atendida pela Raíssa, uma das manicures recém-contratadas, e a freguesa parece extremamente radiante para o primeiro encontro com o inglês que ela conheceu no Tinder durante a quarentena. Seus cabelos encaracolados e volumosos assim como os lábios pintados de vermelho formam o conjunto perfeito.

- Mulheres pretas são tão lindas - Constantino sussurra, sentando ao meu lado. - Sabe, eu gostaria que as pessoas parassem de endeusar somente as que são brancas e magras o tempo inteiro.

- Você sendo preto deve entender melhor do que qualquer um o que é passar por isso...

- E você, como mulher gorda, também.

Sem perceber, ficamos babando na beleza da nossa cliente e só quando me toquei que estava sendo inconveniente é que fui em direção ao caixa para tentar disfarçar minha atitude, porém, assim que sentei no banco atrás do balcão, a sua voz ecoou no salão de beleza quase vazio.

- Você é a melhor amiga do RM.

Arregalei os olhos, um pouco surpresa com a afirmação e demorei cerca de dez segundos para reconhecer a Arlene, ex-namorada do Marcelo, ali na minha frente.

Meu Deus, como eu sou lerda!

A mulher passou quase duas horas no meu local de trabalho, se preparando para um encontro e em nenhum momento, havia percebido que era a Arlene.

- A própria - respondi sem graça.

Apesar dos anos de amizade, não era todo mundo que sabia que eu e o Marcelo somos melhores amigos. É arriscado ser próximo de alguém que é filho do chefe do tráfico, imagina agora que ele ocupou o lugar do pai dele.

Faz algum tempo que houve uma chacina cometida por policiais dentro do nosso morro e ele sumiu.,só sei que está vivo pelo Taz, um dos seus funcionários e amigos.

- E como você está com tudo isso acontecendo?

- Como assim, Arlene? – Sorri para parecer simpática, mas não estava entendendo nada.

Nós não tínhamos o melhor relacionamento do mundo, porque a garota mentiu a idade quando começou a namorar o meu melhor amigo e eu fui contra o relacionamento dos dois quando descobri que uma adolescente estava envolvida amorosamente com um adulto. Obviamente, eu saí como a errada, mal-amada, invejosa e por esse motivo, nunca fomos amigas.

- Você não assistiu aos jornais nos últimos dias, não é? – Sua risada saiu com um humor estranho, meio perverso.

- É, pelo bem da minha saúde mental, eu estou evitando saber notícias sobre o que está acontecendo no mundo.

Franzi o cenho, deixando transparecer a dúvida que rondava a minha mente naquele instante: se solicitava que ela parasse de falar, porque era um risco para a funcionária a sua frente ou se indagava sobre o que a mulher estava falando.

- A Nathalia foi encontrada morta e estão acusando o RM de tê-la assassinado - Raíssa explicou com a voz abafada pela máscara presa no seu rosto, fazendo meu coração disparar.

Meus olhos pularam na sua direção e eu não consegui esconder o choque ao saber dessa informação. Voltei a ficar em pé tão rápido que a minha cabeça girou, cambaleei para trás e fui obrigada a me apoiar na estante atrás de mim.

Como assim o Marcelo matou uma mulher?

Não. Não. Não.

Isso não faz sentido.

Ele não faria isso.

Ou faria?

- Por que ele cometeria uma atrocidade desse nível tão repugnante? - indaguei, sentindo minhas mãos trêmulas e gélidas. - Ele não tem motivos para matar uma garota.

- Claramente, você não conhece a Nathalia, patroa. - A Raíssa voltou a falar ao mesmo tempo que finaliza as unhas da Arlene. - A garota era completamente desequilibrada, fez o inferno na vida de várias meninas no Twitter, um dos piores ataques que ela cometeu foi justamente contra a Louise Albuquerque, a namorada do Cigarro, mas tem muito mais coisas graves que ainda estão ocultas.

- E o que pode ser mais grave do que fazer um exposed falso e sem provas contra uma adolescente a ponto da menina tentar suicídio pelo hate que levou?

- Dizem as más línguas que, supostamente, a Nathalia promovia festinhas virtuais entre vários adultos e adolescentes, rolava coisas muito inapropriadas entre eles, entende? Ela falava que se as meninas já tinham pentelho na xota é porque eram capazes de fazer as suas próprias escolhas. - A garota bufou, nitidamente puta, antes de terminar de contar as burrices da falecida. - Não satisfeita, fez uns perfis fakes de traficantes no WhatsApp, incluindo de bandido da favela inimiga que ela morava, e usava eles para ameaçar as pessoas que ela e as amigas não gostavam. Não sei exatamente como os traficantes souberam, porém houve boatos de que ela estava ameaçada de morte.

Já tinha ouvido falar da Nathalia, mas só coisas boas. Ela parecia uma mulher tão madura, evoluída, iluminada, que vivia sendo atacada sem motivos e eu nunca entendi o motivo dela falar que era tão odiada e perseguida. Sempre achei muito maduro que no final de cada ataque recebido, a mulher chegava a desejar luz na vida dos outros que a faziam mal. O próprio xodó de Jesus Cristo.

Será que a imagem de boa pessoa era só uma fachada para aliciar menores de idade?

Como alguém consegue enganar tantas pessoas assim?

Automaticamente, lembrei do meu ex-namorado abusivo e em como ele é exaltado pelas fãs nas redes sociais após ter participado de um reality show, contudo, a Nathalia é uma mulher que sempre lutou pelos direitos das mulheres e uma feminista não seria desonesta de defender a ideia que adolescentes sabem o que estão fazendo como desculpa para deixar adultos se aproveitarem de meninas mais novas.

Tenho uma irmã de dezesseis anos e percebo que mesmo ela sendo bastante inteligente, nunca ia ter o discernimento de não cometer certos erros como eu, nove anos mais velha... Uma pessoa com que está estudando em uma universidade não seria burra dessa forma. Não faria sentido ela acreditar nisso.

- Desculpa, mas eu não sei se acredito que isso seja verdade. É muito fácil falar as coisas de uma mulher que já morreu, pois ela não está mais aqui para se defender. E se a Nathalia não fez mal para ninguém e isso tudo é só uma teoria maluca dos haters dela?

- Os pulsos da Louise discordam. - Ouvi uma voz conhecida interromper nossa conversa e ao olhar para a entrada do salão, meus olhos encontraram o Cigarro com a feição preocupada. - Eu preciso conversar com você. É urgente.

Minha cabeça ficou ainda mais confusa com a chegada do garoto e não conseguia raciocinar direito para tentar entender que porra que está acontecendo.

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