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Indelével

Indelével

Autor: Deusa Do Olimpo
Gênero: Moderno
Em Nova York, onde o luxo dita regras e o poder molda destinos, duas famílias dominam mundos diferentes - mas igualmente perigosos. Os Miller, movidos pelo amor acima de tudo e pela honra inabalável. Os Cullen, construídos sobre lealdade, intensidade... e segredos que queimam. Quando Astrid Miller, uma jovem determinada e brilhante estudante de Design de Moda, chega à cidade, ela não está pronta para o impacto que sua nova vida trará. Entre desfiles, ambição e o peso do nome que carrega, Astrid busca independência - e se recusa a ser controlada por qualquer pessoa. Muito menos por ele. James Cullen. Frio, dominante e irresistivelmente perigoso, James construiu um império no gelo - e não aceita perder o controle. Acostumado a ter o mundo aos seus pés, ele não esperava encontrar em Astrid alguém que o desafiasse... e muito menos alguém que o consumisse. Desde o primeiro encontro, o choque é inevitável. Olhares que queimam. Palavras que ferem. Desejo que cresce no meio do ódio. O que começa como um jogo de poder rapidamente se transforma em algo mais sombrio... mais intenso... mais impossível de ignorar. Entre ciúmes, segredos, traições e uma obsessão que foge ao controle, Astrid e James serão forçados a enfrentar seus próprios limites - e descobrir até onde estão dispostos a ir por um amor que pode destruí-los... ou salvá-los. Porque algumas marcas... não desaparecem. Elas se tornam indeléveis.
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Capítulo 1 INDELÉVEL : UM AMOR QUE NUNCA SE APAGA

O cheiro de papel fresco, tecido cru e café com baunilha sempre foi, para mim, a definição exata de lar.

Enquanto caminhava pelas ruas tranquilas daquela tarde de outono, o vento empurrava folhas secas contra a ponta dos meus tênis, produzindo um som seco e rítmico. Eu carregava a tiracolo a minha velha câmera analógica, um tesouro que herdara de Artemis e que raramente saía do meu pescoço. Para mim, o mundo não era apenas capturado; ele precisava ser sentido, emoldurado pela luz imperfeita de um entardecer e eternizado em tons de prata e sépia.

Minha vida cabia inteiramente ali. A faculdade de Design de Moda estava no horizonte imediato, um sonho desenhado a lápis em cadernos de esboços que se acumulavam na minha escrivaninha. Eu queria criar texturas, dar forma aos sentimentos através das costuras, transformar tecidos em extensões da alma. E, quando a pressão dos traços se tornava pesada demais para os meus dedos, havia o gelo.

A patinação não era apenas um passatempo; era o meu refúgio silencioso. A sensação do vento cortando o rosto enquanto eu executava uma pirueta limpa, o som metálico das lâminas raspando na superfície polida da pista - tudo ali me dava uma trégua de qualquer ansiedade. Eu pertencia àquela cidade, àquela rotina, àquela paz construída com o suor dos meus próprios esforços e o carinho inegociável dos meus pais e irmãos.

Ao empurrar a porta de carvalho da mansão da família Miller, fui imediatamente acolhida pelo calor reconfortante que parecia emanar das paredes.

- Se for a minha encomenda de botões vintage, juro que adoto o entregador - a voz de Zeus ecoou da sala de estar antes mesmo que eu pudesse avistá-lo.

Dei risada, tirando o casaco e pendurando-o no cabideiro. Zeus apareceu logo depois, vestindo uma camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, carregando um bloco de notas repleto de rascunhos de joias. Ele parou, me analisou com seus olhos semicerrados de designer e sorriu de lado.

- Não são botões. É só a sua irmã favorita voltando da faculdade - retruquei, bagunçando de leve o cabelo dele ao passar.

- Cuidado com a obra-prima, baixinha - ele murmurou, protegendo o caderno contra o peito com um melodrama exagerado que arrancou outra risada minha.

A casa respirava movimento, mas de um jeito harmonioso. Na cozinha, o som abafado de panelas tilintando indicava que Marta preparava algo especial, enquanto o aroma de alecrim e manteiga se espalhava pelo ar. Subi rapidamente para o meu quarto para deixar a bolsa e lavar as mãos, sentindo aquele contentamento morno no peito. Eu amava minha vida exatamente do jeito que ela era. Nenhuma peça fora do lugar. Nenhuma reviravolta indesejada à espreita.

Quando desci para o jantar, a mesa da sala de jantar principal já estava posta com a elegância de sempre, mas sem a rigidez de um evento formal. Era apenas a nossa família.

Mamãe (Dalas) conversava animadamente com papai (Josh), suas risadas se misturando em uma sintonia de anos. Artemis estava sentado mais ao canto, revisando alguns relatórios no tablet, mas com o semblante relaxado que guardava apenas para os momentos em casa. Samuel, nosso motorista e confidente de longas datas, havia terminado os turnos e deixado a atmosfera da mansão inteiramente sob o domínio da nossa intimidade.

- Até que enfim, Pequena Estrela - papai sorriu, erguendo os olhos do guardanapo que ajeitava no colo. Ele usava o apelido carinhoso que Samuel também repetia com afeto. - Venha sentar-se antes que Zeus comece a inventar teorias sobre o colar de esmeraldas da nova coleção.

- Eu não invento, papai. Eu inovo - Zeus defendeu-se de bom humor, puxando a cadeira para mim.

Acomodei-me entre Artemis e mamãe. O jantar fluiu com a leveza de sempre. Trocamos histórias sobre o meu dia na faculdade de design, os esboços que eu tentava aperfeiçoar, os planos de Zeus para as próximas peças da Miller Jewelry e a seriedade concentrada de Artemis diante dos negócios internacionais que gerenciava ao lado do pai. Mamãe nos observava com aquele brilho orgulhoso nos olhos, a mulher forte e elegante que mantinha todas as engrenagens da nossa união perfeitamente lubrificadas com carinho.

Eu comia saboreando a comida de Marta e o som das vozes que conhecia desde o meu primeiro suspiro. Era um porto seguro. A certeza de que o mundo lá fora podia ser caótico, mas ali dentro éramos intocáveis.

Até que o silêncio sutil caiu sobre a mesa.

Não foi um silêncio pesado de imediato, mas uma pausa na dinâmica da conversa que chamou a atenção de todos. Papai limpou a garganta com suavidade, apoiando os talheres ao lado do prato. Ele olhou para mamãe por um breve segundo, como se buscasse coragem ou validação, antes de voltar os olhos para nós. Os rapazes pararam o que faziam. Eu mesma congelei com o garfo a meio caminho do prato.

- Filhos - começou papai, com aquela voz firme, justa e acolhedora que sempre nos deu norte. - Quero conversar com vocês sobre algo que venho ponderando há meses, e tomamos a decisão esta tarde.

O meu estômago deu um sobressalto involuntário, um frio repentino substituindo o calor do jantar.

- A Miller Jewelry recebeu uma proposta de expansão estrutural sem precedentes - continuou ele, medindo as palavras com cuidado. - Precisamos consolidar nossa sede definitiva e nossa presença no mercado global de alto padrão de forma direta. A partir do próximo mês, a diretoria executiva e as operações centrais da família serão transferidas.

Ele respirou fundo, e o golpe final caiu sobre a mesa com a suavidade de uma sentença irrevogável:

- Nós vamos nos mudar para Nova York.

A frase ecoou na sala de jantar ampla, rebatendo nas paredes de madeira nobre como um eco distante.

Nova York.

A cidade que nunca dorme. O opuesto exato de tudo o que eu conhecia, de cada canto seguro que eu havia mapeado com os meus passos, da minha faculdade recém-começada, da minha rotina, dos meus refúgios.

- Nova York? - Artemis repetiu, franzindo o cenho, o lado analítico do cérebro já calculando logísticas. - Toda a operação principal?

- Sim, meu filho. A mudança será completa - confirmou papai.

Mamãe estendeu a mão por cima da mesa, tocando levemente o meu braço, percebendo instantaneamente a ausência de cor no meu rosto.

- Astrid, querida? Você está bem?

As palavras pareciam presas na minha garganta. O choque travou o meu peito. Eu abri a boca para formular uma frase, para dizer que não podíamos simplesmente empacotar nossas vidas e nos transplantar para uma metrópole barulhenta, fria e gigantesca, mas nenhum som saiu.

Nova York significava o fim de tudo o que eu amava naqueles moldes. Significava recomeçar do zero em um lugar onde eu não passaria de uma estranha entre arranha-céus imensos. Eu amava a minha vida aqui. Amava a minha cidade, a minha faculdade, a segurança silenciosa do meu quarto e das ruas familiares.

O jantar continuou ao meu redor em uma névoa abafada. Zeus tentava fazer alguma piada nervosa para aliviar o clima, Artemis fazia perguntas práticas sobre os escritórios, e mamãe tentava me lançar olhares de conforto, mas nada disso alcançava o lugar onde o pânico havia se instalado.

Assim que a refeição chegou ao fim e os pratos foram deixados para trás, levantei-me da mesa com um pedido de licença murmurado mecanicamente.

Subi as escadas correndo, os passos ecoando apressados no corredor até que alcancei a segurança trancada do meu quarto. Fechei a porta pesada com as costas da mão e encostuei a testa na madeira fria, tentando fazer o ar voltar aos meus pulmões.

O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes trêmulas da rua que atravessavam os vidros da janela. Caminhei até lá, sentindo o tapete macio sob os meus pés descalços, e encostei o corpo no batente. Lá fora, a cidade mantinha seu ritmo calmo, ignorando por completo que o meu mundo inteiro acabara de desabar.

Agachando-me próximo ao canto do armário, meus dedos tocaram a lona gasta da bolsa onde eu guardava meus patins de gelo. Puxei-os para perto, abraçando o par contra o peito como se eles pudessem me ancorar ao chão, impedindo que eu fosse levada pelo vento daquela mudança inevitável.

Pela primeira vez na vida, enquanto olhava para o horizonte escuro através do vidro da janela, eu não senti apenas a incerteza do amanhã.

Eu senti medo.

Capítulo 2 ...

O visor do celular brilhava no escuro do quarto como uma fogueira solitária. O reflexo azulado cortava a lente da minha câmera antiga sobre a escrivaninha e iluminava o par de patins de gelo que eu deixara encostado na parede, bem ao alcance dos meus dedos. O peito ainda guardava aquele aperto surdo, uma contração incômoda que se recusava a dissolver, mesmo depois de minutos inteiros respirando o ar pesado daquela noite.

Desbloquei a tela com o polegar trêmulo e toquei no contato de Kendal. Não esperei ela digitar de volta; apertei a chamada de vídeo antes que a coragem me fugisse.

A chamada chamou duas vezes antes de o rosto de Kendal preencher a tela. Ela estava com o cabelo preso em um coque alto e displicente, vestindo uma camiseta larga de banda e segurando uma caneca fumegante. Seus olhos castanhos examinaram o meu reflexo escuro no vídeo por um segundo antes de ela franzir o cenho, o sorriso brincalhão morrendo nos lábios.

- Por que você está com essa cara de quem acabou de ver o fantasma da avó? - ela perguntou sem rodeios, a sinceridade afiada que só a nossa amizade permitia cortando a distância.

- Eles vão nos tirar daqui, Ken - soltei de uma vez, sem filtro, sem introduções polidas. Minha voz saiu mais frágil do que eu gostaria.

Kendal deu um gole na caneca, os olhos arregalando-se levemente.

- Eles quem? Seus pais? Tirar quem para onde?

- A família Miller inteira. A Miller Jewelry. A nossa casa. Tudo - passei a mão pela testa, sentindo a frustração queimar por dentro. - Meu pai anunciou no jantar. Nós vamos nos mudar para Nova York. Definitivo. No próximo mês.

O silêncio do outro lado durou o suficiente para eu ouvir o apito distante de um trem na madrugada. Kendal largou a caneca na mesa dela com um baque abafado e encostou o queixo na palma da mão, encarando-me com uma mistura de choque e empatia genuína.

- Nova York? Caramba, Astrid... Tipo, a Nova York de verdade? Estátua da Liberdade, trânsito infernal, arranha-céus que tiram o sol?

- Essa mesma. Aquela que fica a quilômetros daqui, onde eu não conheço um único metro quadrado de calçada, onde a minha faculdade de design vai ter que ser transferida para sabe-se lá onde, e onde eu vou virar uma garota invisível no meio de oito milhões de pessoas.

Kendal suspirou, ajeitando o celular na mesinha de cabeceira para me olhar melhor.

- Amiga, respira. Eu sei que é um choque do cão. Para você, que tem cada centímetro desta cidade mapeado no seu coração, isso parece o fim do mundo. Mas... poxa, estamos falando de Nova York. Você sempre quis o mercado internacional de moda. E o que não falta lá são rinques de patinação profissionais e locações absurdas para você carregar aquela sua câmera analógica para cima e para baixo.

- Não é sobre o que a cidade tem, Kendal. É sobre o que eu vou perder - rebati, sentindo a garganta apertar de novo. Sentei-me na borda da cama, abraçando os joelhos. - Eu amo a minha rotina aqui. Amo desenhar no meu canto, amo a pista de gelo onde treino desde os meus quinze anos, amo descer na cozinha e encontrar a Marta brigando com o Zeus por causa de café. Eu não pedi uma vida nova. Eu gostava da antiga.

Kendal ficou em silêncio por um longo momento. Ela me conhecia o suficiente para saber que conselhos clichês ou frases motivacionais de internet só me fariam querer desligar na cara dela. Ela apenas me deu o espaço necessário para desabar um pouco mais, ouvindo cada palavra com aquela lealdade incansável que sustentava nossa amizade desde os tempos de colégio.

- Eu sei, Pequena Estrela... quer dizer, desculpa, o vício do Samuel pegou em mim - ela sorriu de leve, tentando suavizar o clima. - Eu sei o quanto você raízes profundas aí. Mas você não vai sozinha. Sua família vai junto, e eu não vou sumir só porque cruzamos algumas fronteiras estaduais. Vou continuar atazanando sua vida por mensagem vinte e quatro horas por dia, quer você queira, quer não.

Dei uma risada fraca, limpando rapidamente uma lágrima solitária que havia escapado pelo canto do olho.

- Você é idiota, Kendal Freiser.

- E você me ama por isso. Agora me escuta: antes de se trancar no quarto para chorar pitangas com os seus patins, você já conversou direito com os seus pais? Tipo, conversou de verdade, sem o modo defensivo ativado?

Olhei para a porta fechada do meu quarto. A lembrança do silêncio pesado na mesa de jantar ainda latejava, mas o peso da pergunta de Kendal me fez pensar. Meus pais nunca haviam tomado uma decisão que destruísse a nossa felicidade de propósito. Papai sempre fora justo; mamãe, o porto seguro que nos entendia no olhar.

- Não - admiti em um sussurro. - Eu só fugi para cá depois do anúncio.

- Então levanta essa bunda da cama e vai lá embaixo. Eles merecem pelo menos que você jogue os seus argumentos na cara deles antes de decretar o luto oficial da mudança.

Desligamos com uma promessa mútua de continuar a conversa depois. Fiquei parada por alguns segundos diante da escrivaninha, encarando o reflexo no espelho, antes de decidir que Kendal tinha razão. Fugi não era o meu estilo. Os Miller enfrentavam as coisas juntos, fossem vitórias da empresa ou tempestades familiares.

Desci as escadas com passos firmes, embora o estômago continuasse pesado. A luz da biblioteca ainda estava acesa. Empurrei a porta de correr de carvalho e encontrei papai e mamãe ali. Papai estava sentado poltrona de couro marrom, com os óculos de leitura pendurados no bolso do colete, enquanto mamãe examinava alguns catálogos antigos de tecidos na mesa de centro.

Eles olharam para cima assim que entrei. Nenhum sinal de rigidez ou autoritarismo frio nos rostos deles; apenas aquela expressão de paciência e afeto incondicional que sempre me desarmava.

- Pensei que estivesse dormindo, minha filha - mamãe disse com suavidade, fechando o catálogo e estendendo a mão para que eu me aproximasse.

Caminhei até eles e me acomodei no sofá em frente à poltrona de papai, cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa inconsciente de autodefesa.

- Eu não consigo dormir sabendo que tudo o que a gente construiu aqui vai simplesmente ser deixado para trás, papai - joguei as cartas na mesa, olhando diretamente nos olhos dele. - Por que Nova York? Por que agora? A Miller Jewelry já é gigante aqui. A minha faculdade acabou de começar. Meus treinos, meus amigos, a minha vida... Por que a gente tem que ir?

Papai suspirou, tirando os óculos e apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele me olhou com uma seriedade branda, a mesma expressão que usava quando Artemis ou Zeus precisavam de orientação firme, mas carregada de orgulho.

- Astrid, olhe para mim - ele pediu, com aquela voz grave e acolhedora. - O mundo corporativo não perdoa quem estagna, meu amor. A expansão para Nova York não é um capricho de momento; é o passo necessário para garantir que o império que construímos para vocês, para os seus irmãos e para os filhos de vocês, continue forte nas próximas décadas. Mas uma empresa não vale um centavo se a família que a sustenta se fragmentar.

Ele esticou a mão e tocou os meus dedos cruzados, desfazendo a barreira que eu havia criado com os braços.

- Nós não vamos porque queremos fugir de casa. Nós vamos porque a família Miller permanece unida, onde quer que seja. E eu jamais, em hipótese alguma, exigiria isso de vocês se não soubesse que temos a estrutura para manter cada um dos seus sonhos intactos.

Mamãe levantou-se do sofá, veio até mim e afagou o meu cabelo loiro-quase-albino com um carinho que me desmontou por dentro.

- Seu pai tem razão, querida - ela sussurrou, encostando o queixo no topo da minha cabeça. - Sabe que ninguém aqui tem a intenção de podar as suas asas. Queremos que você voe mais alto do que imaginava. Nova York tem as melhores escolas de design do mundo, rinques de patinação de nível olímpico e cenários que vão fazer jus a cada fotografia que você decidir tirar com essa sua câmera velha. A mudança é grande, eu sei. Dá medo. Mas nós estaremos lá. Juntos.

Fiquei em silêncio, absorvendo o calor daquelas palavras. A revolta ardente foi murchando, substituída por um nó de resignação na garganta. Eu ainda não estava feliz. A ideia de arrumar as malas continuava a parecer uma injustiça cósmica contra a garota de dezoito anos que só queria paz. Mas percebi, com uma clareza incômoda, que a decisão não era contra mim. Era um caminho sem volta para o qual eu teria que encontrar um jeito de olhar.

- Eu ainda acho que vocês podiam ter nos consultado antes de fechar o contrato - resmunguei, cruzando os braços de novo, mas com um meio sorriso teimoso nos lábios.

Papai soltou uma risada curta, balançando a cabeça em sinal de rendição.

- Sobre isso, admito a culpa. Negócios de grande porte exigem sigilo até a assinatura final. Mas prometo que a partir de agora você terá voto em todas as decisões logísticas da nova casa.

Subi de volta para o meu quarto com passos mais lentos, mas sem o pânico estrangulando o meu peito.

O aposento estava silencioso. A luz da rua projetava sombras geométricas no tapete. Caminhei até a escrivaninha, peguei a câmera analógica, passei os dedos pelas páginas em branco do meu caderno de esboços de moda e toquei a sola gasta dos patins.

A resistência ainda morava ali, mas a curiosidade - aquela velha companheira das mentes inquietas - começou a sussurrar mais alto.

Peguei o celular que havia deixado sobre a cama, desbloqueie a tela e, pela primeira vez na vida, abri o navegador de internet. Meus dedos digitaram devagar na barra de pesquisa: melhores lugares em Nova York para patinação no gelo e fotografia urbana.

A tela iluminou-se com imagens de rinques iluminados por milhares de luzes de Natal, arquiteturas imponentes cercadas por neve e horizontes vertiginosos que pareciam tocar o céu. Entre os resultados, um link específico chamou a atenção, destacando a infraestrutura de uma das maiores academias de formação e alta performance de patinação artística da cidade, famosa por seus rinques cobertos e programas de elite.

Fiquei encarando a tela por um longo tempo, o reflexo azulado brilhando nos meus olhos violeta.

Eu ainda não estava pronta para amar a ideia.

Mas, enquanto fechava o navegador e desligava o aparelho, decidi que, se a vida realmente me obrigaria a começar do zero em meio aos arranha-céus daquela cidade gigantesca, eu faria questão de descobrir exatamente do que ela era capaz.

Capítulo 3 ....

A luz da manhã entrou pela janela do meu quarto cortando a penumbra com uma suavidade fria, desenhando listras douradas sobre as tábuas do assoalho. Eu não havia dormido direito, com a mente ainda a reboque das imagens que descobrei na tela do celular na noite anterior. O rinque imponente em Nova York, com sua arquitetura moderna e gelo impecável, piscava nos meus pensamentos como uma promessa silenciosa, embora o medo de perder o meu lugar no mundo continuasse a apertar o peito.

Levantei-me antes que o sol estivesse totalmente alto e caminhei até a escrivaninha. Minha velha câmera analógica estava ali, fria ao toque. Peguei-a, pendurando a alça no pescoço, e fui até a janela. O quintal de casa exibia a névoa fina do outono, as folhas caídas formavam um tapete cor de cobre sobre a grama, e o vapor escapava da chaminé da casa do caseiro ao fundo. Apontei a lente, ajustei o foco manual e disparei. O clique abafado do obturador quebrou o silêncio da madrugada. Para mim, fotografar não era apenas registrar imagens; era um modo de reter o tempo antes que ele escapasse por entre os dedos. Eu conseguia enxergar beleza na forma como a luz despontava torta sobre o telhado ou na solidão elegante de uma cadeira vazia no jardim. Detalhes que passariam despercebidos aos olhos apressados dos outros ganhavam peso e significado através da minha lente.

Desci para a cozinha guiada pelo cheiro familiar de café fresco e pão tostado.

A mesa da família já reunia os meus pais e irmãos. Papai lia uma pauta impressa sobre o layout logístico da mudança da Miller Jewelry, enquanto mamãe conversava baixinho com Marta sobre os prazos de encaixotamento dos móveis da ala leste. Artemis, sempre compenetrado, conferia algo no tablet ao lado do prato de frutas, e Zeus cortava uma fatia de bolo com um entusiasmo matinal que beirava o irritante.

- Bom dia, dorminhoca - Zeus cantarolou assim que puxei a cadeira ao lado da dele. - Tem uma olheira charmosa de quem passou a madrugada investigando a concorrência na Costa Leste. Ou será que estava pesquisando a arquitetura dos cafés de Manhattan?

Parei com a xícara de café a meio caminho da boca, lançando-lhe um olhar estreito.

- Eu estava dormindo, Zeus.

- Claro que estava. E eu sou o herdeiro do trono britânico - ele riu, piscando um olho para Artemis, que ergueu os olhos do tablet por um segundo com um meio sorriso divertido. - Não adianta disfarçar, baixinha. Eu conheço essa sua cara de quem traçou um plano estratégico de fuga ou de sobrevivência urbana.

- Deixe sua irmã em paz, Zeus - mamãe interveio com carinho, embora seus olhos brilhassem com uma ponta de curiosidade maternal. Ela colocou uma xícara extra para mim e afagou meu ombro ao passar. - Mas falando nisso, Astrid... A correspondência chegou mais cedo. Tem algo para você ali no aparador da entrada.

Meu estômago deu um salto descompassado. Levantei-me da mesa com passos lentos, sentindo o peso de cada olhar da minha família nas costas. Sobre o aparador de mogno, repousava um envelope de bordas grossas e oficiais, timbrado com o logotipo da universidade em Nova York para a qual a minha transferência acadêmica havia sido submetida às pressas por Artemis na semana anterior.

O papel timbrado confirmava a aceitação imediata e o início das aulas no campus de Manhattan logo após a nossa chegada.

Até então, a mudança era apenas uma ideia abstrata, um pesadelo distante que papai havia jogado sobre a mesa de jantar. Mas ao segurar aquele pedaço de papel pesado, a realidade caiu sobre mim com a força de uma avalanche. Havia uma data. Havia um endereço. Havia uma burocracia intransigível determinando o fim da minha vida exatamente do jeito que eu conhecia.

Voltei à mesa em silêncio e sentei-me novamente. Meus dedos apertavam a borda do envelope até os nós dos dedos ficarem brancos.

- Chegou? - perguntou papai, com a voz contida, buscando meus olhos com uma mistura de orgulho e cautela.

- Sim - consegui responder, engolindo seco. - Universidade de Design de Nova York. Matrícula efetivada para o próximo semestre.

A mesa silenciou por um instante. Artemis olhou para mim com aquela seriedade fraterna que escondia uma proteção feroz, enquanto mamãe suspirou levemente, vindo sentar-se na cadeira em frente à minha para segurar minha mão livre.

- Eu sei que parece assustador, filha - mamãe disse com suavidade. - Mas você vai brilhar tanto lá quanto aqui. O seu talento não depende de coordenadas geográficas.

- Não é sobre o meu talento, mamãe - murmurei, olhando para o café escuro na minha xícara. - É sobre o lugar. É sobre o meu rinque.

A menção à patinação trouxe à tona a lembrança dos meus treinos em Seattle. O cheiro de gelo limpo, o som abafado das lâminas cortando a superfície fria, a sensação indescritível de liberdade toda vez que eu executava um salto perfeito e voava por alguns segundos antes de aterrissar com precisão milimétrica. Aquele rinque guardava cada gota do meu suor, minhas frustrações engolidas e minhas maiores alegrias desde os quinze anos. Eu tinha medo de que, ao cruzar o país, eu perdesse essa parte de quem eu era.

Porém, por baixo desse medo, a imagem do complexo de patinação que eu descobrira na internet na noite anterior insistia em pulsar como uma fagulha teimosa. Talvez... apenas talvez... houvesse um jeito de continuar.

O restante da manhã passou em um ritmo denso, marcado pelo início prático da transição. A tarde nos encontrou no corredor dos quartos, onde Marta já havia providenciado as primeiras caixas de papelão cor de pardo e rolos grossos de fita adesiva.

Entrei no meu quarto e fechei a porta. O espaço, antes perfeitamente ordenado com meus livros, tecidos, cadernos de esboços e retratos analógicos, parecia subitamente impessoal, como se já estivesse sendo esvaziado pelo tempo.

Aproximei-me da escrivaninha e montei a primeira caixa, dobrando as abas de papelão com movimentos mecânicos. Comecei a guardar meus livros de história da arte, os tubos de tinta, as canetas técnicas e os blocos de rascunho. Cada objeto colocado ali dentro simbolizava um pedaço do meu passado recente sendo empacotado para caber em um caminhão de mudança.

No fundo da gaveta inferior, meus dedos roçaram uma fotografia antiga, revelada em preto e branco com bordas irregulares. Era uma foto tirada no inverno passado, no rinque de Seattle. Eu aparecia no centro da pista, de braços abertos, com o vapor saindo da boca e um sorriso genuíno congelado no meio de uma pirueta.

Fiquei longos minutos encarando a imagem, sentindo um nó apertar a garganta. Mas, diferentemente da noite anterior, o pensamento não se limitou à perda. Enquanto meus olhos percorriam a fotografia, comecei a me perguntar como seria registrar os invernos de Nova York através da minha lente, como seria patinar sob as luzes de um rinque novo, como a minha história continuaria a ser escrita do outro lado do país.

Coloquei a fotografia cuidadosamente dentro de um livro de esboços que iria na mala de mão. Guardei mais alguns objetos pessoais na caixa de papelão, mas parei abruptamente quando cheguei ao canto do armário.

Abaixei-me e toquei a lona gasta dos meus patins de gelo. Eles continuavam ali, com as lâminas perfeitamente amaciadas e ajustadas ao formato dos meus pés.

Puxei-os para fora da penumbra do armário e os coloquei sobre a cama, intactos, fora de qualquer caixa de mudança.

Eu ainda não estava pronta para guardá-los. E, enquanto passava os dedos pelas fivelas de couro, percebi que algumas coisas essenciais não precisavam ficar para trás. Elas viajariam comigo, atravessando o país, prontas para recomeçar no gelo de uma cidade desconhecida.

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