A boate estava cheia e animada, mas não a contagiava, ela não queria estar ali. Mas as pessoas não a ouviam, seus amigos do grupo de estudo e do trabalho não sossegaram até que ela prometesse que viria. Entrou no ambiente cheio e abafado, o cheiro de cigarro, perfumes, bebidas e suor se misturavam impregnando o ambiente. Sentiu-se meia sufocada, meia deslocada. Destiny era o lugar do momento. Pessoas faziam de tudo para conseguir um convite para o lugar badalado. Ela olhou a pulseira dourada em seu pulso esquerdo, mostrando que ela era do time dos VIPS.
Muitas mulheres a olhavam com inveja, por ela poder transitar em qualquer ambiente que quisesse e ela só pensava com pesar em seu apartamento e em como queria estar nesse momento lendo um bom livro deitada em sua confortável cama. Sacudiu a cabeça tentando assim afastar esses pensamentos e não ficar mau humorada.
Logo visualizou o camarote onde seus amigos estavam. Não conseguiu conter o sorriso ao ver que não era a única desconfortável ali. Brenno, um rapaz de cabelos negros e lisos, alto, de porte franzino, parecia assustado com a movimentação. Olhava para os lados parecendo temer um ataque à qualquer momento.
Ao lado de Brenno, uma linda loira, de cabelos curtos e olhos cor de mel, ria da atitude do moreno o deixando ainda mais sem graça. Melanie, com seu jeito irreverente era a alegria da mesa.
Íris, sua melhor amiga, com quem dividia o apartamento também estava ali. Seus cabelos negros com mechas vermelhas balançavam conforme ela se movia no ritmo da música. Um sorriso travesso lhe adornava o rosto enquanto observava as reações de Brenno às provocações de Mel.
Os três, juntos com ela, formavam um grupo de estudos. Todos almejavam fazer a pós graduação na Universidade de Harvard, uma das melhores do país, onde a seleção era rígida e apenas os melhores conseguiam uma vaga como bolsista. A prova de admissão estava próxima, por isso os quatro se reuniam todas as manhãs na biblioteca para se prepararem antes de irem juntos para o trabalho. Isso fez com que um forte laço os unisse, agora eram como uma família. Sempre estavam saindo juntos, e era por isso que Kiara não podia deixá-los na mão, e mesmo não sendo fã de baladas estava ali, tentando se divertir com os amigos.
Estava quase chegando à mesa dos amigos quando esbarraram em seu ombro, a empurrando para o lado.
– Kiaraaaaaaaaa! – William já foi enlaçando seu ombro, a levando para o lado contrário de onde estava indo enquanto gritava animado.
– Não acredito! Você por aqui? – Kiara não escondeu o desgosto enquanto tentava desesperadamente se desvencilhar do homem atrevido.
– Sou eu que não acredito na minha sorte grande. Ver você por aqui é um verdadeiro milagre. – Will continuou com seu tom alegre, apertando mais o abraço, parecendo não notar o desconforto que provocava em Kiara.
Kiara prefiriu ficar em silêncio. Conformada, abaixou a cabeça e se deixou conduzir até o bar. Sentou em uma das cadeiras encostada no balcão e olhou emburrada para William que permanecia em pé, ao seu lado, dançando animado, sem nunca soltar do abraço.
Não demorou muito e um sorridente barman se aproximou dos dois.
– Namorada nova, Will? – perguntou indicando Kiara com um meneio de cabeça.
– Ainda não, Tom. – William olhou para Kiara e deu um sorriso maroto para o barman – Mas em breve será.
Kiara, chocada demais para falar algo se limitou a lançar um olhar gélido ao homem, que apenas deu de ombro e continuou dançando alegremente.
– E então, o que vão pedir? – Tom perguntou solícito.
– O que minha gata linda mandar! – Will se soltou de Kiara, sentando-se ao seu lado no balcão. Apoiou o rosto na mão esquerda e observou atentamente as reações da mulher, que passou rapidamente do choque para uma irritação mal-contida.
– Um Sex on the Beach para mim e uma dose fatal de veneno pro Will. Pode ser cinuareto, por favor. – O tom ácido e a cara emburrada de Kiara fizeram com que o belo loiro dos olhos verdes saltasse da cadeira e a agarrasse.
– Você fica tão fofa e sexy quando está irritada Kiara. – dizendo isso deu um beijo estalado na bochecha da morena, fazendo-a corar de surpresa. – Bem Tom, eu deixo o veneno pra outro dia. Me dá um Manhattan mesmo.
Tom rapidamente fez e serviu os dois drinks e sorrindo para William se afastou para servir outros clientes.
O loiro pegou seu copo e o ergueu para fazer um brinde. Suspirando, Kiara também pegou seu copo batendo de leve no de Will.
– Brindamos a quê? – perguntou curiosa enquanto levava o copo à boca.
– Ao nosso futuro relacionamento. – William respondeu com um sorriso radiante.
Tamanho o choque das palavras Kiara cuspiu sua bebida, engasgando. Isso fez com que o loiro risse ainda mais.
– Calma, Kiara... – Will dava leves tapas nas costas da morena para aliviar a crise de tosse provocada pelo engasgo – Mais cedo ou mais tarde você ficará comigo.
– Não seja presunçoso, William! – o brilho no olhar evidenciou ainda mais o tom de repreensão da jovem.
– Não sou presunçoso... Só realista e persistente. – sorriu abertamente, levantando o queixo convencido. – São as minhas melhores qualidades!
– Afinal o que você viu em mim?
– Você é inteligente, espirituosa, doce... – sorriu lentamente, encostando-se ao balcão, à vontade em seu ambiente. – Além de ser linda demais, eu adoooro doce.
– O que foi que eu fiz para merecer isso? – Kiara abaixou a cabeça, tentando evitar que o homem visse o rubor em sua face. – Sabe Will, às vezes acho que você bateu a cabeça quando era pequeno e as seqüelas persistem até hoje.
– Nada. Você existe e isso é suficiente pra mim. – Adorava aquela sinceridade e simplicidade em falar as coisas de forma tão direta. – Então isso foi bom... Por causa das seqüelas notei o quanto você é maravilhosa... Gosto de você.
– Ah, William... – suspirando, Kiara olhou em direção à mesa onde seus amigos se encontram – Meus amigos estão me esperando...
–Vai lá então Kiara, eu não fico chateado. É só questão de tempo você vir pra mim mesmo. Por isso, não vou ficar com ciúme.
Sem nada dizer, Kiara levantou e passou por William indo em direção de seus amigos, que lhe acenavam euforicamente.
Olhando a morena se afastar, William não resistiu e levantando-se rapidamente voltou a puxá-la, dessa vez levando-a em direção à pista de dança.
– Mas antes de ir ficar com seus amigos você vai dançar comigo.
– Não vou não. Eu não quero. – Kiara falou num tom indignado, tentando se desvencilhar com mais ênfase.
– Ah, o que é que custa, Kia? – o loiro continuou puxando-a em direção à pista. – Você quase não vem aqui, tem que aproveitar.
– Eu já disse que não quero. E detesto quando você me chama de Kia. – A morena estava totalmente contrariada.
Nesse momento a música mudou, indo para uma batida agitada, daquelas impossveis de se ouvir e se manter parado. Kiara ainda tentava se desvencilhar de William, que permanecia com o braço em volta de seus ombros, segurando-a proximo de seu corpo enquanto continuava a arrastá-la para a pista de dança.
Kiara conseguiu travar seus passos bem ao lado da pista de dança. Mas, antes que pudesse fazer alguma manobra pra poder correr até onde seus amigos estavam, uma movimentação chamou sua atenção. Olhando em volta, a morena percebeu que os olhares recaíam na entrada da boate onde um belo moreno adentrava, arrancando suspiros e sussurros de todos os presentes.
A pele bem bronzeada era realçada pela bela camisa branca, colada ao tronco, um terno aberto, para dar um charme. A calça justa e preta, de cintura levemente baixa, bem ajustada, dando ênfase ao movimento fluído do andar do moreno. No rosto, o olhar negro observava o lugar com quase desdem, os lábios cheios moldurados por um cavanhaque bem aparado deixando sua expressão fechada ainda mais enigmatica. Os cabelos negros e curtos, num corte sofisticado. Nos pés, um belo sapato de couro italiano e um Rolex no braço gritavam dinheiro e poder.
Estava acompanhado por um homem alto, de porte musculoso, porém compacto, que vestia uma calça de jeans escuro que lhe delineava as pernas e uma camisa preta de tecido semi-transparente que destacava os cabelos castanhos claros e a pele alva. Seus olhos de um raro tom de verde olhavam a tudo com curiosidade e interesse. Caminhava bem próximo ao moreno, deixando evidente a todos a afinidade entre eles.
Tudo nos dois exalava sensualidade, luxúria. Era impossível não se sentir hipnotizado pela presença deles ali. Tanto homens, como mulheres lançavam olhares de pura cobiça e desejo, almejando por uma oportunidade de aproximarem-se deles.
Alheios à revolução que provocaram no lugar, os dois seguiram direto para o bar, sentando em frente ao balcão, no mesmo lugar onde Kiara e William haviam estado um pouco antes. Fizeram o pedido a um Tom sorridente e voltaram o olhar para os presentes. Recebendo a bebida que lhes era servida os dois brindaram, tomando de uma vez só o conteúdo de seus copos.
Como se essa fosse a deixa esperada, uma música de batida sensual começou a tocar, despertando a todos do torpor que a chegada dos dois homem havia provocado.
Todos começaram a se mover no ritmo envolvente e quente da música, tentando de todas as formas provocar e atrair a atenção dos recém-chegados que pareciam nem notar enquanto conversavam tranquilamente, em sussurros cúmplices, o que atiçava ainda mais a curiosidade e cobiça de todos.
Kiara, que continuava tentando se livrar do aperto de William, ao olhar para o moreno estremeceu. Ela não sabia o porquê, mas sentia que já o tinha visto de algum lugar. Perdido nesses pensamentos nem reparou que Will a arrastava novamente em direção à pista de dança.
– Eu já disse que não irei dançar, William Marshall – irritada, Kiara se soltou do abraço do loiro.
– Adoro quando você me chama pelo nome completo. – Will sorriu provocante. – Isso me excita muito. Na cama, você pode gritar meu nome inteiro quando eu fizer você gozar.
– Ah, não vamos começar de novo. – o tom cansado de Kiara fez com que o loiro lhe apertasse as bochechas, a irritando ainda mais.
– Mas eu não faço nada, é você que sempre briga comigo. – Will fez um biquinho emburrado.
Ao ver a cara de William, Kiara acabou por relaxar e se permitiu sorrir. Há anos que conhecia William Marshall e sempre havia sido assim. O excêntrico rapaz havia se confessado algumas semanas depois de se conhecerem em um dos festivais da cidade e desde então corria atrás dela, tentando de todas as formas conquistar-lhe o coração. Sem sucesso. Kiara o via apenas com um bom amigo que lhe proporcionava muita diversão, apesar de às vezes lhe irritar ao extremo.
Olhando ao redor, seu olhar recaiu mais uma vez no belo recém-chegado e novamente a sensação de reconhecimento a envolveu, lhe causando uma enorme curiosidade sobre a identidade do dono do olhar mais gélido que já encontrara em toda a sua vida, que continuava a beber, alheio a tudo a sua volta.
– Se interessou por ele Kiara? – Will sussurrou de maneira travessa no ouvido da morena, que se assustou, corando furiosamente.
– Não é nada disso Marshall – Kiara falou em um tom mais alto do que desejava, o que provocou ainda mais o lado malicioso de Will.
– Você não tirou os olhos de cima daquele homem desde que ele apareceu. E depois vem me dizer que não se interessou?! – Will ergueu a sobrancelha esquerda de um modo sarcástico. O brilho em seus olhos deixou Kiara alarmada – Ainda me chamou pelo nome completo. Faz anos que não me chama assim. Isso é porque ele é moreno? Você sabe, posso pintar o cabelo se você preferir... Mas não se preocupe, já disse que não ficarei com ciúmes.
Kiara respirou fundo tentando controlar a raiva que ameaçava explodir. Olhando para a pista de dança atrás de um pouco mais paciência, viu que todos ali dançavam de modo a provocar o moreno e isso fez com que sua curiosidade aumentasse. Evitando olhá-lo mais uma vez fixou seus olhos no rosto de William que continuava a ostentar o ar de pura malícia. Pigarreando, Kiara falou, procurando disfarçar o rubor das faces:
– Will, quem são aqueles dois que praticamente pararam a boate? – o pequeno meneio de cabeça de Kiara indicava o moreno e seu amigo que ainda conversavam entre sussurros.
– Depois fala que não se interessou, né? – gargalhando, William desviou do tapa de Kiara.
– William Marshall! – o tom de repreensão da jovem, seguido do rubor de raiva em seu rosto fez Will agarrá-la mais uma vez naquela noite.
– Falou meu nome completo mais uma vez. Desse jeito eu me apaixono ainda mais. – o sorriso vitorioso de Will aumentou ainda mais, provocando mais um tapa de Kiara, que se desvencilhou com um empurrão.
– Vai ou não responder minha pergunta? – Kiara não escondeu sua impaciência – Se não for... Estou indo ficar com meus amigos.
– Só falo o que sei com uma condição. – Will pegou a mão direita de Kiara, acariciando-a lentamente.
– Qual condição? – em tom seco, Kiara puxou a mão de forma brusca.
– Que você dance comigo. – O loiro parecia uma criança pedindo o brinquedo da loja para os pais. Sua ansiedade era palpável.
– Isso é chantagem – Kiara reclamou, emburrando de novo.
– Se você não fosse teimosa... Eu não precisaria usar dessas artimanhas para que você enxergue o amor que existe entre nós dois. – a segurança com que foram ditas essas palavras chocou Kiara de tal maneira que ela não sabia o que responder.
Os dois ficaram por alguns instantes se encarando. O loiro sustentando um sorriso sereno, Kiara demonstrando todo o choque que sentia.
– Por que você está fazendo isso? – Kiara, em tom baixo perguntou, denotando cansaço.
– Porque o prêmio vale à pena. – dizendo isso deu um beijo na bochecha da morena.
Era notável a falta de paciência de Kiara. Ela estava se controlando ao máximo para manter a postura educada, mas tudo aquilo já a estava cansando. Voltou, então, seu olhar mais uma vez para o alvo de sua curiosidade e respirando fundo respondeu em um murmúrio:
– Está bem, eu danço com você.
– Eu não escutei – cantarolou William empolgado.
– Então devia limpar os ouvidos. – Kiara respondeu de forma malcriada.
– Se não repetir não darei nenhuma informação – Will deu seu sorriso mais cínico.
Espumando de raiva, Kiara respirou fundo, contando mentalmente até dez e respondeu em tom frio e controlado:
– Ok, William. Eu aceito dançar com você.
Sem dizer mais nada e com um imenso sorriso no rosto, William pegou mais uma vez na mão de Kiara e praticamente a arrastou até o centro da pista de dança, seu lugar favorito. Sem dar tempo a morena, envolveu sua cintura em um abraço safado, deslizando suas mãos sobre as costas nuas de Kiara, enquanto sua respiração batia no pescoço, arrepiando-a.
Kiara ficou tensa ao sentir as carícias de Will, mas preferiu nada dizer. Pelas informações que ele lhe passaria valia a pena o sacrifício. Tentou deixar com que a música a envolvesse e a ajudasse a se soltar, mas a cada deslizar das mãos do loiro ou a cada arrepio causado pela respiração dele em seu pescoço sua concentração diminuía, dando lugar a uma fúria que ameaçava explodir a qualquer momento.
Percebendo a tensão do corpo em seus braços, William mordeu de leve seu pescoço, sendo empurrado logo em seguida por uma Kiara irada:
– Dá pra parar de se aproveitar e cumprir sua parte do acordo?
– Só começarei a falar quando você relaxar e aproveitar a dança – calmamente o loiro se aproximou, voltando a acompanhar as batidas da música.
Se vendo sem opção, Kiara começou a se movimentar, tentando entrar no ritmo imposto por Will. Rapidamente o rapaz de cabelos quase platinados encaixou seus corpos, tornando a dança mais sensual.
Fechando os olhos, Kiara se afastou de William e passando as mãos pelo próprio corpo, deixou-se envolver por completo pelo ritmo da música.
O loiro comia Kiara com os olhos, dançando de maneira a sempre esbarrar em alguma parte do corpo da morena e isso não passava despercebido por ela que sempre mudava a direção de seus movimentos, tentando impedir os toques.
Kiara sentia os 'esbarrões' e respirava fundo para não perder o autocontrole. Já havia conseguido se soltar e até podia dizer que se divertia quando a voz de William a despertou de seus devaneios.
– O moreno se chama Nikolaos Korsac, Nik para os conhecidos. Ele é o filho caçula dos Korsac, os donos do império de computadores russos. E o outro é seu amigo britânico Richard Cool. Os dois chegaram no início dessa semana ao EUA vindos da Inglaterra, onde Korsac mora desde seus 10 anos. E hoje é a segunda vez que os dois vêm a essa boate. – sem parar de dançar, William observou as reações de Kiara a cada nova informação.
– Por que Korsac voltou depois de tanto tempo? – era nítida a mudança de comportamento de Kiara, que agora estava mais relaxada, inteiramente interessada na conversa. Todo o clima hostil de momentos antes fora dissipado e apenas o brilho de curiosidade a envolvia.
– Seu irmão mais velho morreu há pouco tempo. Então ele foi chamado para resolver toda a papelada e tomar posse dos negócios que ele mantinha aqui. – ao ouvir isso, Kiara abriu os orbes e olhou para Nikolaos que continuava no bar, observando a pista de dança. Uma sensação estranha a envolveu. O nome não lhe era estranho, mas não conseguia recordar de onde já o tinha ouvido.
"Será que é ele?", – pensou quando uma idéia lhe passou pela cabeça, mas não deu tempo de desenvolvê-la, pois ouviu William continuar a história.
– Parece que ele está procurando por uma noiva por causa de uma cláusula do testamento, ou algo parecido. Ele é extremamente rico por causa da herança de seu irmão, além da fortuna pessoal que conquistou trabalhando na Inglaterra.
– Então é só por isso que ele chama a atenção. – Kiara falou em um tom pensativo mais para si do que para William.
– Pode ser. Bem, isso é tudo o que eu sei, agora aproveitemos o final da música. – O loiro mais uma vez se aproximou de Kiara que não disse nada, ainda perdida em seus próprios pensamentos.
A batida da música mudou para algo mais quente, mais sensual e William se aproveitou disso para se esfregar ainda mais na morena.
Kiara estava cada vez mais incomodada com os toques de William, mas por se sentir em débito pelas informações apenas torcia para que a música terminasse logo.
O loiro estava cada vez mais excitado ao ver Kiara dançar. Cada serpentear, cada movimento ousado dela fazia seu baixo ventre latejar de desejo.
A morena, cada vez mais entorpecida pela música começou a soltar mais o corpo, rebolando de forma a atrair os olhares para si. Suas mãos percorriam novamente o seu corpo, se acariciando de forma totalmente luxuriosa. A dança estava em seu sangue, ela sempre se sentia livre quando envolvida por uma boa música. Logo, não era só William que se excitava ao vê-la dançar.
William quase não conseguiu se controlar, vendo-a virar de costas para si, gingando os quadris para um lado e pro outro, sensual, acompanhando as batidas quentes da música. Colou-se atrás dela, segurando na cintura estreita, fazendo os mesmos movimentos sinuosos, esfregando o membro teso entre as bochechas de seu bumbum redondinho, quase não contendo o gemido longo que chegava aos seus lábios. Não agüentando mais, agarrou os ombros de Kiara e a girou, parando-a de frente para si e aproximou-se de seus lábios para beijá-la.
Assustada com a reação de William, Kiara o empurrou com força e cambaleando para trás acabou por esbarrar em Nikolaos que passava por ali, derrubando a bebida que ele carregava em sua camisa branca.
O tempo pareceu parar. O olhar gélido de Nikolaos paralisou Kiara, que esperou uma reação violenta. Mas o que veio a deixou ainda pior do que se tivesse levado uma surra, quando Nik se virou para Richard e disse em tom de desprezo:
– Essa aqui não serve nem para fachada. Seria vergonhoso tê-la ao meu lado – e irritado se afastou indo em direção ao banheiro, acompanhado pelo amigo.
William e Kiara se entreolharam. O loiro detinha uma expressão de surpresa, enquanto Kiara demonstrava confusão, seus lábios articulavam, mas nenhum som saía, parecia ter perdido a capacidade de falar com o choque.
E pela segunda vez naquela noite, a boate pareceu parar, observando os dois que continuavam se encarando, como se procurassem uma explicação para o que tinha acabado de acontecer.
Vários comentários podiam ser ouvidos. Eram nítidos os vários cochichos e olhares de curiosos que tentavam entender o motivo das palavras do enigmático senhor Korsac, e isso foi a gota d'água para que a paciência de Kiara acabasse. Sem nada dizer deu as costas à William e foi em direção da mesa onde seus amigos estavam e ali ficou até o final da noite.
Kiara estava trancada em seu quarto, deitada de barriga para baixo sobre o carpete, tendo à sua volta inúmeros livros, cadernos e apostilas. Tentava desesperadamente se concentrar para poder estudar, mas os acontecimentos daquela noite não lhe saíam da cabeça.
O shortinho de moletom e a regata azul clara não a protegiam do frio do fim da madrugada e ela começava a tremer, mas não se importava. Em sua cabeça milhões de coisas passavam e por mais que tentasse organizá-las, não obtinha sucesso. Desistindo de estudar, fechou os livros e cadernos e levantando-se do chão colocou-os sobre sua mesinha de cabeceira de forma organizada.
Caminhou com passos lentos até seu guarda-roupa onde parou na frente do espelho. Analisou seu reflexo, procurando alguma coisa em sua aparência que justificasse as palavras de Nikolaos Korsac. Percebeu o que estava fazendo e repreendeu-se por isso. Foi aí que se lembrou de onde ouviu o nome Korsac, essa lembrança lhe causando um tremor involuntário.
Suspirando pesadamente, caminhou até a extremidade do quarto e abriu o guarda-roupa. Retirou com cuidado uma pilha de roupas bem dobradas e as colocou no chão. No espaço vazio que ficou retirou uma placa de madeira que disfarçava a entrada de um compartimento secreto. De dentro desse compartimento, Kiara retirou dois envelopes. Voltando a fechar o compartimento, os pegou e sentou-se em sua cama.
Abrindo o primeiro envelope retirou uma carta datada de três meses antes. Leu-a por inteiro e seus olhos brilharam pelas lágrimas contidas.
Suspirando, abriu o segundo envelope com as mãos trêmulas. Hesitante, começou a ler a carta datada de duas semanas antes. Ao chegar ao meio da carta as lágrimas venceram suas barreiras e vieram lhe banhar o rosto, impedindo-a de continuar a leitura. Dobrou-as e as guardou em seus respectivos envelopes e as pôs sob seu travesseiro.
Levantou-se enxugando as lágrimas que teimavam em cair, indo até a janela do quarto e ali ficou por minutos a observar em silêncio os poucos carros que passavam pela rua.
Sentando-se no parapeito da janela começou a analisar tudo o que lhe aconteceu durante o dia. Seus amigos a obrigando a ir à boate, seu encontro com William, a chegada de Korsac e seu amigo, as informações que Will havia lhe passado, seu esbarrão acidental em Nikolaos e o final catastrófico que se seguiu a isso.
Suas emoções estavam à flor da pele, todas alvoroçadas, borbulhando como lavas de um vulcão prestes a entrar em erupção. A lembrança de Korsac a menosprezando na frente de todos não lhe saía da mente.
Estava furiosa!
Não com Nikolaos. Afinal, não poderia esperar uma atitude educada depois de derrubar bebida na camisa dele. Mas, sim, consigo mesma.
"Como pude ficar calada diante de tamanha afronta?", – pensou enquanto ia até sua cama, onde se deitou olhando para o teto, esperando que o dia amanhecesse.
ooOoo
Nem bem o dia amanheceu e Kiara já estava de pé preparando o café da manhã para si e para Íris. Ambas tinham reunião do grupo de estudo logo pela manhã antes de irem trabalhar. A prova para admissão na Universidade era na próxima semana. Tudo estava tão corrido que as duas mesmo morando juntas quase não se viam, muito menos viam os amigos de longa data. Foi por isso que marcaram de ir à boate, mesmo se encontrando durante as reuniões do grupo de estudo não conseguiam tempo de se divertirem juntos. Mas com o desfecho do encontro, Kiara achou que deveria ter escutado seus instintos e ter ficado em casa estudando.
Não demorou muito e Íris acordou, indo até a cozinha. Não se surpreendeu em nada ao ver a morena lá. Afinal, escutou os passos dela dando voltas e voltas pelo quarto, inquieta.
– Bom dia, Flor do meu dia. – cumprimentou tentando conter um bocejo.
– Bom dia Íris. – respondeu Kiara oferecendo uma xícara de café recém-feito.
As duas tomaram café em silêncio, se conheciam há tanto tempo que não precisavam travar uma conversa para saber como a outra estava. Um simples olhar lhes revelava o que mil palavras não conseguiriam explicar.
Depois de tomarem café e arrumarem o apartamento, as duas saíram juntas rumo a casa de Brenno, onde se preparavam para a prova. Essa era a rotina dos últimos dois meses. Entrar no mestrado em Harvard era um sonho que estava perto de se realizar. Kiara queria se especializar em Restauração de Edificios, Íris queria entrar no curso de Planejamento Urbano.
Andavam pela rua enquanto conversavam sobre amenidades quando Kiara foi chamado por um homem. Sem reconhecer a voz continuou andando até que o chamado se repetiu. Ao olhar para trás para ver quem a chamava, Kiara gelou. De todas as pessoas no mundo ele era a última pessoa que esperava. Nikolaos Korsac caminhava rapidamente em sua direção com uma expressão mal-humorada. Parou a alguns passos de onde Kiara e Íris estavam e disparou a pergunta:
– Você é Kiara Elliot, não?
– Sim, sou eu mesma – Kiara respondeu meio hesitante.
– É você a mulher conhecida como Rato de Biblioteca? – perguntou sacudindo uma folha no ar, bem a frente do rosto de Kiara.
Kiara o encarou, admirando os traços bonitos, porém irritados do homem a sua frente. Seu olhar desceu reparando nas roupas que ele usava. Dessa vez estava vestido com uma camisa azul marinho semi-aberta, deixando à vista boa parte do peito alvo. Uma calça preta e justa, seus classicos sapatos italianos e um Rolex diferente do usado na noite passada.
– Responda! É a...
– Já ouvi. – Kiara o interrompeu.
– E então?
A pergunta veio acompanhada de uma expressão de contrariedade, denunciando a evidente braveza.
– E então o quê? – perguntou Kiara, evitando usar um tom irreverente, enquanto olhava algumas pessoas passarem por eles apressadas, provavelmente rumo aos seus trabalhos seculares.
– Explique isto! – vociferou Nik, sacudindo novamente a folha.
Tranquilamente Kiara pegou a folha que lhe era estendida de forma arrogante. Ao examinar o papel, ela notou que se tratava de uma caricatura, postada como Meme no Facebook. Aliás, muito divertida. Kiara estava representada por um por um ratinho de óculos e aparelho nos dentes roendo livros e Nikolaos, sob a forma de um majestoso Dragão raivoso que apontava para ela e dizia qualquer coisa sobre Aparência.
Os lábios de Kiara se entreabriram em um sorriso divertido enquanto passava a folha para Íris olhar, irritando ainda mais Korsac que a observava atentamente.
– Pode me explicar o que é isso?
– Imagino que alguém achou divertido o que aconteceu entre nós ontem à noite, senhor Korsac e resolveu ilustrar.
– Alguém jogou isso bem na frente da minha casa. Fora que minhas mídias sociais explodiram com a publicação dessa coisa. Isso é um insulto!
Kiara deu de ombros.
– É apenas uma brincadeira. Nós, americanos, gostamos de desenhar coisas do cotidiano de forma a alegrar as pessoas. Bem vindo de volta à América, senhor Korsac!
– Pois eu não gosto! Destrua esse desenho e impeça que outros sejam compartilhados!
– Acho que está falando com a pessoa errada. E agora se me dá licença, precisamos ir agora. – fazendo um sinal a Íris que observava tudo em silêncio, começaram a se afastar.
– Nega que é você que aparece no desenho? – Nikolaos perguntou arrogante.
– Claro que não! Com certeza o Ratinho é uma caricatura minha. E o Dragão parece se referir a você. Obviamente os cartunistas acharam que eu, ou melhor, nós dois servimos como boa matéria para os lápis deles. Mas isso não importa. Logo mais eles encontrarão novas vítimas... Agora realmente precisamos ir, senão chegaremos atrasados em nosso compromisso. – novamente Kiara e Íris começaram a se afastar na direção oposta.
– Não dê as costas para mim, garota! – Nikolaos bufou com raiva.
Kiara que já tinha se afastado alguns metros, girou a cabeça e, espiando sobre o ombro, disse com aspereza:
– Tenho nome. E não recebo ordens do senhor. Tenha um bom dia.
Nem bem tinha dado mais alguns passos quando sentiu seu braço ser puxado com brusquidão. Kiara estreitou os olhos na direção de Nik. A situação estava ficando constrangedora e ela acabaria chegando atrasada ao grupo de estudos, o que a deixava extremamente mal-humorada.
– Nenhuma mulher vira as costas para mim! – Nik falou em um tom raivoso segurando firmemente o braço de Kiara.
– Ficará satisfeito se eu me desculpar? – Kiara respirou fundo se segurando para não rolar os olhos.
– Ainda não terminei.
– Se não deseja ter seu nome envolvido ao meu... Essa não é a melhor maneira de consegui-lo.
– O que quer dizer? – Korsac perguntou um pouco confuso, mas sem perder a pose autoritária.
– Impedir-me de ir embora desse jeito é a pior solução. Se alguém estiver nos observando, não vai demorar muito para que surja outra caricatura.
Nik ergueu as sobrancelhas, revelando perplexidade.
"Ele realmente é um homem muito bonito", – pensou Kiara, antes de decidir explicar-lhe:
– Os cartunistas estão em todos os lugares que possa imaginar e não apenas nas boates. A maioria das pessoas por aqui estudam artes, então os desenhos e caricaturas são formas de praticarem seus estilos. E quando se deparam com uma cena que imaginam interessante para satirizar, não hesitam em passá-la para o papel. Depois a digitalizam e espalham por aí. Principalmente por você ser a nova celebridade do lugar. É a chamada liberdade de expressão.
– A culpa é toda sua! – acusou Nikolaos, apontando o dedo na direção de Kiara.
– Não tenho nada a ver com isso. – Kiara respondeu de forma contrariada. – Também não estou servindo de alvo para tais brincadeiras? Então, faça como eu, não permita que elas o aborreçam.
– Já foi vítima dessas brincadeiras antes? – Nikolaos quis saber.
– Sempre que eles não têm assunto novo... Eles me usam como inspiração para as brincadeiras. – Kiara falou em tom conformado.
– Não concordo com isso. – Nik foi taxativo.
– Não há o que se possa fazer – Kiara deu de ombros.
– Por quê? – teimou o moreno.
– Liberdade. Eles podem brincar com as caricaturas conforme desejarem. Não importa a quem agradem ou desagradem. Por essa razão, prefiro ignorá-las.
– Então não há como impedi-los? – Korsac encarou Kiara com firmeza.
– Lamento desapontá-lo. Agora poderia fazer o favor de soltar meu braço e me deixar ir embora.
– E se formos vistos juntos, apreciando a companhia um do outro, evitaria que nos satirizassem? – Nik falou sem nem prestar atenção ao que Kiara disse.
– Receio que não. Provavelmente, sempre o considerarão como um Dragão enfurecido.
– Não sou assim – rebateu Nik.
– Vou aceitar sua palavra se fizer o favor de soltar meu braço e me deixar ir embora. – Kiara puxou seu braço com brusquidão fazendo com que o moreno a soltasse.
– Está bem. Mas antes devo avisá-la de que vou acompanhá-la à festa promovida pela Universidade para os novos alunos do mestrado. Irei buscá-la às nove horas. Esteja pronta, odeio esperar.
Kiara arregalou os olhos diante de tamanha impertinência.
– Não acha que está sendo insolente? Você nem sabe se irei à festa?
– Se não me engano, você está se preparando para voltar para a Universidade, então é bom que vá as festa promovidas por ela para facilitar sua entrada, não? – Nikolaos falou calmamente.
– Mas é um direito meu escolher quem vai comigo. – Kiara cruzou os braços em uma atitude de desafio.
– Isso é besteira. Vou buscá-la às nove. Poderemos cortar o mal pela raiz. Ser for vista desfrutando da minha companhia, encontrarão outras pessoas para importunar.
– Parece ter se esquecido de um detalhe. – o sarcasmo de Kiara era palpável.
– Qual? – o olhar curioso de Nik irritou Kiara ainda mais.
– O de que não aprecio sua companhia.
Para completa surpresa de Kiara, Nik deu uma gargalhada tão estrondosa que ela estremeceu.
– Esteja pronta às nove horas. Já disse que detesto esperar. – Korsac voltou a falar em tom calmo.
– Você nem sabe onde moro – Kiara tentou desesperadamente se livrar do compromisso.
– No apartamento 15 A do 6º andar do edifício Chizuru.
Kiara o fulminou com o olhar.
– Como você sabe disso?
– Tenho meus informantes. – Nikolaos riu travesso. – Esteja pronto às nove.
– Eu não disse que aceitaria. – teimou Kiara.
– Vai preferir que eu a force?
– Seria capaz disso?
– Duvida?
Nik deixou a questão no ar. Em seguida afastou-se indo em direção de Richard que os observava de longe.
Kiara permaneceu imóvel, observando até que o excêntrico homem sumisse de vista. Respirando fundo, virou-se para Íris que apenas meneou a cabeça e ambas correram para não se atrasarem mais para o compromisso.
Kiara nunca se importou tanto com sua aparência como naquela noite. Tudo o que queria era estar deslumbrante e atrair o máximo de atenção que conseguisse. Parecia supérfluo, mas seu orgulho assim exigia.
Escolheu um simples vestido preto de mangas compridas que colava em suas curvas como uma segunda pele. Ele ia ate o meio de suas coxas e era totalmente liso de detalhes, até ela virar de costas, onde havia uma renda sensual na altura dos ombros e cintura, emodurando as costas, que ficavam nuas.
Kiara colocou um belo colar dourado, com correntes mais grossas, e um brinco de argola que fazia par ao colar. Nos pés, sandalias pretas de tira simples e salto agulha transparente e uma bolsa de mão preta completava o look.
Seus longos cabelos castanhos estavam presos num rabo de alto. Seus olhos cor de âmbar eram destacados pelo esfumado da maquiagem. E o perfume que havia escolhido para aquela noite era de uma fragrância floral, porém suave.
Mirando-se no espelho ficou satisfeita com o que viu. Não que estivesse se arrumando para Korsac, mas queria mostrar que ele estava errado quanto ao que disse na boate.
Por volta das oito da noite, Kiara terminava de se arrumar indo dar uma força para Íris, que estava tendo problemas para decidir com que roupa iria à festa. Acabou optando por um vestido verde que combinava com as mechas vermelhas em seu belo cabelo negro.
Às oito e meia, vendo que Íris continuava enrolada, Kiara resolveu se adiantar e chamando um táxi se dirigiu ao local da festa. Preferiu não esperar por Korsac. Não queria e nem precisava de escolta. Muito menos de alguém arrogante pertencente à família que destruíra a vida da pessoa mais importante em sua vida.
ooOoo
As festas organizadas pela Reitoria de Harvard eram lendárias e muito restritas. Pouquíssimas pessoas tinham acesso a elas. Somente pessoas influentes ou com muito dinheiro eram convidadas, além de poucos alunos que ingressariam nos programas. Mas esse não era o caso de Kiara. Um amigo, veterano no curso de Arquitetura que ela tanto almejava, conseguiu um convite para Íris e ela irem. Sua presença naquela festa era uma ajuda imprescindível para ser admitido nos programas de Mestrado e conseguir bons orientadores.
Antes da balada seria servido um jantar formal onde todos poderiam se conhecer melhor. Cada lugar era previamente determinado. E qual não foi a surpresa de Kiara ao descobrir que se sentaria ao lado de William. Uma dor de cabeça já ameaçava despontar só de imaginar o que o excêntrico rapaz faria naquela noite. Meio a contragosto sentou-se em seu lugar, olhando para o lugar vazio ao seu lado. Percebeu então o alvoroço entre os convidados e ouviu o nome de Korsac sendo pronunciado em voz alta por um grupo de homens engravatados, provavelmente os patrocinadores da festa.
Forçando-se a permanecer imóvel, espiou com o canto dos olhos a imagem imponente de Nikolaos enquanto ele se aproximava. Espantou-se ao vê-lo acomodar-se na cadeira, do lado oposto da mesa, bem à sua frente. Sabia que aquele não era o lugar reservado a ele, uma vez que se tratava de uma figura de destaque.
Kiara piscou duas vezes, quase não acreditando na elegância e sensualidade que ele apresentava. E, a julgar pelos sussurros, não tinha sido a única a notar. Nik usava terno e calça cinza chumbo com alguns detalhes negros e uma camisa branca impecável. Para completar, usava abotoaduras em formato de dragão. Kiara engoliu em seco. O homem do outro lado era mesmo de tirar o fôlego!
O par de olhos negros de Nik revirava-se nas órbitas, como se não quisessem perder nenhum detalhe ao seu redor. Parecia não se importar com os olhares e cochichos. Na verdade, parecia apreciá-los.
Naquele instante um dos principais diretores da Universidade tomou seu lugar na cabeceira da mesa e deu por iniciado o jantar. Garçons uniformizados serviam os mais variados tipos de comida. Tudo regado a muito vinho branco e champanhe.
O número de pessoas presentes era impressionante para um evento de cunho didático. Apesar do ambiente mais erudito, muito negócios eram fechados entre a Universidade e empresas importantes.
Kiara não imaginava onde William estava. E também não estava preocupada. O que realmente a perturbava era aquele par de olhos escuros que a observavam, quase que indiscretamente.
O som de taças de cristal sendo servidas e o barulho de talheres, além dos sussurros entre os convidados, de repente, começou a incomodar Kiara, que se viu isolada e solitária em meio a tantas pessoas desconhecidas. Arrependeu-se de não ter esperado Íris, pois pelo menos teria com quem conversar. Ela também se sentia desconfortável com os toques "acidentais" do homem acomodado à sua direita, além do olhar fixo de Nik, atento ao menor gesto que fizesse.
"Não poderia ser pior", – pensou enquanto levava a taça com vinho branco aos lábios sorvendo um pouco do conteúdo.
Mas estava enganada...
– Estou tão decepcionado com você, Kiara.
A voz de William precedeu-lhe a aproximação. Sua expressão estava carregada, denotando um misto de tristeza e contrariedade. Kiara observou como ele estava bonito vestindo uma camisa vermelha sob o terno preto. Seus naturais cabelos loiros estavam brilhantes e alinhados.
"Realmente faríamos um belo casal", – Kiara pensou enquanto William acomodava-se ao seu lado, no lugar previamente determinado.
– Nem sequer foi direta comigo. Como teve coragem? – Will continuou em um tom melancólico e revoltado.
– Não sei do que está falando, William. – a expressão de Kiara era de total confusão.
O loiro jogou um papel dobrado, próximo a um dos talheres dela. Kiara fechou os olhos respirando fundo, desolada.
"William não tem jeito", – lamentou em pensamento. Tornou a abrir os olhos e apanhou o papel.
Tratava-se de outra caricatura envolvendo Korsac. No desenho o Dragão carregava o Ratinho sobre o ombro e fugia pelos ares ostentando uma expressão de vitória, enquanto um Pavão corria desesperado, tentando alcançá-los.
– E então? – perguntou William, entortando a boca com indignação.
– O caricaturista não é dos melhores. – Kiara respondeu em tom baixo, dando de ombros.
– Está negando os fatos? – O loiro perguntou veemente.
– Não vale a pena desperdiçar tempo com isso – Kiara respondeu calmamente, repondo o papel na mesa.
– Será que posso? – a voz de Nikolaos foi ouvida, enquanto esticava o braço por cima da mesa, para alcançar o papel.
Kiara se surpreendeu pela descompostura do gesto. Então percebeu que os lábios do moreno se estreitaram ao contemplar o desenho.
– Então, eu venci? – indagou Nik sem se dirigir a alguém em particular. A seguir mostrou a caricatura para a jovem sentada ao seu lado direito.
Kiara fechou os olhos ao perceber que o papel estava sendo passado de mão em mão, provocando risos e comentários.
– Se queria me magoar, garanto que conseguiu Kiara – queixou-se Will.
– E se pretendia acabar com a minha reputação na Universidade, teve êxito – Kiara respondeu entre os dentes.
– Não era minha intenção. Mas agora estou considerando a possibilidade. – William foi extremamente seco.
– Aquele desenho não significa nada. Hoje quando eu estava indo ao encontro do grupo de estudos acabei encontrando com o Korsac. Apenas conversamos. Foi só isso. – Kiara procurou de todas as formas acalmar os ânimos de Will.
– Pelo que me lembro, você disse que não valia a pena desperdiçar tempo com explicações. – Will se fixou nos olhos de Kiara, todo o sarcasmo evidente em sua voz.
– E não vale.
– E pensar que até a noite de ontem você nem o conhecia... – O loiro olhou para seu prato, suspirando.
– O que quer dizer com isso? – a morena elevou a voz, indignada.
– Você sabe muito bem. – Will voltou a encarar a mulher ao seu lado.
Kiara respirou fundo, tentando se acalmar. A discussão estava começando a chamar a atenção, e tudo o que menos queria era prejudicar sua imagem diante dos administradores da Universidade.
Com as mãos trêmulas pegou a taça de vinho, tomando um longo gole antes de responder:
– Não, Will, eu realmente não sei o que você quis dizer com isso.
– Você sabe sim – a intensidade do olhar de William era constrangedora – Não estou brincando. Desejo mais do que sua amizade.
– Sabe que não é possível, Will. Sinto muito – Kiara disse, repousando uma das mãos no braço dele em um gesto amigável.
O que ela não esperava era que William lhe aprisionasse a mão com o braço livre.
– Sempre me desprezou Kiara, apesar das inúmeras tentativas que fiz para lhe agradar – falava enquanto apertava o pulso delicado em uma carícia. – Desde que te conheci não consigo parar de pensar em você. Eu me aproximo na esperança de poder ficar por poucos instantes ao seu lado, mas até isso você me nega. E nem um simples beijo ou carícia recebi de você. Sabe o que isso significa para mim? E, se eu a encontrar em outros braços, juro que perco a cabeça.
Kiara engoliu em seco. Não queria responder e arriscar-se a uma cena desagradável. Tudo o que conseguiu fazer foi puxar a mão livrando-se do contato.
– Não subestime um homem apaixonado – William ameaçou e levantando-se repentinamente, abandonou o local.
Kiara nunca desconfiou da intensidade dos sentimentos de William. Para ela era algo passageiro, fogo de palha. Agora que sabia, não tinha a menor idéia do que faria a respeito.
Durante toda a cena, Kiara não percebeu que era observada com atenção por um par de belos olhos negros.