Num salto alto preto, uma saia lápis até a metade da perna cor grafite e uma blusa social de manga longa com um caimento impecável na cor vermelha, chegou Verônica na empresa Garcia.
A empresa Garcia trata de financiamentos de todos os tipos e Verônica, há mais de 5 anos, é a secretária do poderoso chefe desta empresa. O Dr. Garcia, ou como gosta de ser chamado: Seu Garcia.
Antes de pegar o elevador, ela passou na cafeteria do prédio e pegou um café para o chefe, como de costume. Ela sempre anda de bom humor, pois o seu trabalho é considerado o melhor de todos. Seu chefe é um senhor muito agradável, que lhe paga 5 salários por mês e ainda lhe dá passes para tudo o que ela precisa. Nunca a tratou mal e ele a chama de "minha joia rara". Assim como ele, a esposa de seu chefe também é muito gentil com Verônica e ela sempre lhe dá joias e lhe inclui em eventos familiares, sem trabalho extra.
"O que mais eu poderia querer? Esse emprego é maravilhoso!" - pensou ela, assim que chegou ao andar onde trabalha e viu aquele clima animado.
Na verdade, neste dia as coisas estavam bastante agitadas. Todos andando de um lado para o outro e um deles quase se bateu com Verônica nessa travessia.
- Cuidado, moço. - ela aconselhou gentilmente e ele pediu perdão e prosseguiu seu caminho.
A porta da sala do chefe estava fechada e ela estranhou a primeiro momento. Geralmente, a porta fica aberta, pois seu Garcia gosta de ficar vendo os funcionários trabalhando.
Não que ele seja mão de vaca ou um cretino ditador, mas ele se sente orgulhoso de tudo o que construiu.
Ela então entrou e Seu Garcia não estava sentado na sua poltrona, como de costume.
Havia outro homem. Ele era alto, tinha costas largas, um terno aparentemente caro, cabelos bem penteados e pretos com o brilho de uma jabuticaba. Ele estava de costas para a porta de entrada e de frente para a grande janela de vidro que percorre grande parte daquela sala.
"Que diabos está acontecendo aqui?" - pensou ela, encarando aquele homem a qual ela não se recordava. "Cadê o Seu Garcia?"
- Ah! Minha joia rara chegou! - Seu Garcia passou pela porta, usando short jeans, uma camisa florida, que estava apertada na barriga e uma chinela de borracha.
"O velho endoidou" - pensou Verônica, de olhos arregalados para ele.
- Chegou? - o homem da janela se virou para ela. Ele estava com as mãos nos bolsos da calça social e ergueu uma das sobrancelhas ao olhar para Verônica. Ele reconhecia que ela era mesmo tudo o que o velho havia falado, mas mesmo assim, ele duvida de sua capacidade de ser bonita e ao mesmo tempo tão eficiente quanto Seu Garcia diz.
- Sim. - Verônica respondeu, encarando o rosto dele e logo pensou: "Parece que saiu de uma revista de finanças..."
- Essa é Verônica. - Seu Garcia segurou o braço dela e gentilmente a levou até o rapaz. - Verônica, este será seu novo chefe, Ricardo.
"CHEFE?!" - exclamou ela internamente, mas seus olhos passavam o seu espanto.
- Dr. Ricardo. - ele corrigiu.
"DR. RICARDO?!" - ela gritou novamente e seus olhos se arregalaram mais um pouco.
- O que está acontecendo, Seu Garcia? - questionou ela, totalmente confusa.
Seu Garcia se afastou dela e saiu pela sala todo animado. - Estou me aposentando.
- Aposentando? Mas faltam 537 dias para a sua aposentadoria!
Sim, ela contava tristemente a chegada desse infeliz dia.
- Eu resolvi adiantar. Minha esposa comprou um pacote de 365 dias pelo mundo. São muitas aventuras e então eu vou deixar meu sobrinho, Ricardo, no meu lugar. Ele é qualificado e sei que vocês vão se dar muito bem.
Verônica olhou de lado para o seu novo chefe. Ele estava encarando seu reflexo em outra janela de vidro que havia na parede do lado.
"Estou fodida" - pensou ela.
- Não está feliz? - Ricardo perguntou a ela, com um sorriso confiante. - Você irá trabalhar com o jovem mais promissor do Brasil. Fui capa da revista de finanças do mês passado. - ele passou a mão ao lado da cabeça, alisando seus cabelos cheios de laquê.
- Aham. - ela balançou a cabeça se sentindo desgraçada. - Que legal...
"Puta merda. Eu era feliz demais. Agora estou fodida nas mãos desse narcisista".
- Deu minha hora. - Seu Garcia olhou no relógio e se dirigiu a Verônica. - Minha melhor secretária e a melhor e mais competente de todo esse prédio. Foi uma honra trabalhar ao seu lado. - ele segurou a mão dela e beijou. - Você tem um futuro brilhante e lembre-se: Toda mudança traz um novo aprendizado.
Ela queria chorar, mas engoliu.
- O senhor foi e é o melhor chefe do mundo. Nunca haverá um chefe melhor que o senhor. - ela o abraçou e Ricardo riu debochado.
- Ricardo será. Eu tenho certeza que sim.
- Eu também tenho essa certeza. - Ricardo falou, confiante.
"Será que ele é assim o tempo todo?"
@autora.nikole
Seu Garcia deixou os dois sozinhos na sala e Ricardo fechou a porta.
- Primeira regra: Porta sempre fechada.
- Ah, e existem regras? - ela perguntou sem pensar.
- Claro que existe. - ele se virou para ela. - Eu sei que com o meu tio as coisas são um pouco desorganizadas, mas meu trabalho parte disto: organização. - tirou o copo de café da mão de Verônica. - Obrigado. - ele destampou e sentou-se na cadeira do Seu Garcia.
Verônica só ficou observando. "Sinto que esse homem será uma pedra no meu sapato".
Ricardo experimentou o café e logo fez careta. - Está frio. - estendeu o copo para ela pegar.
- Eu acabei de pegar.
- Está frio. Eu gosto de café quente. Muito quente. Vai buscar outro. - balançou a mão para ela sair.
"Ele só pode estar brincando" - ela o fitou incrédula.
O café ainda estava tão quente que ela sentia nas pontas dos dedos, e na boca deve ser mais quente ainda.
- Vai logo. - balançou a mão novamente e levantou um espelho pequeno que estava em cima da mesa, depois encarou seu reflexo e sorriu.
Ela suspirou fundo e saiu da sala.
O grupo de colegas que trabalham no prédio estava todo reunido no balcão da recepção daquele andar e ansiosos, chamaram ela para se juntar a reunião.
Ela respirou fundo e abriu um sorriso gentil, indo até eles. - Sim?
- Como é o novo chefe?! - o único rapaz do grupo perguntou com os olhos curiosos e todos ficaram atentos ao que ela iria contar.
Ela pensou em alguma palavra que resumisse o que ela viu, sem soar como ofensa.
- Inestimável.
Todos ficaram impressionados, se entreolhando. - Eu disse! - uma das meninas se sentia vencedora.
- Ele é tão lindo... - Rosa, a assistente de um dos chefes, deitou sua cabeça na mão e encarou o teto como uma sonhadora. - Alto, forte, cheiroso, com um terno impecável e aquele olhar 43...
Verônica ouviu isso tudo tentando fingir que debaixo da beleza de seu chefe não havia um mandão como o de agora a pouco.
- Dizem que ele saiu na capa da revista de finanças do mês passado. - outra secretária contou em tom de fofoca. - Assim que meu expediente terminar, vou passar na banca e comprar essa revista. Quero saber tudo sobre o nosso novo chefão.
"Em 2 minutos eu já tenho um péssimo resumo dele" - pensava Verônica, com o olhar estreito.
- O que você vai fazer agora, Verônica?
- Pegar café quente pro Narciso. - ela respondeu de automático e depois de um barulho de admiração dos colegas, ela se tocou que falou demais. - Digo, pro chefe. - sorriu e procurou a lixeira para jogar o copo de café que carregava em sua mão. - Vocês me dão licença? - pediu gentilmente.
- Claro.
- Sim. - eles falavam descoordenadamente e ela entrou no elevador, sorrindo.
Quando as portas se fecharam, só ficou ela.
- Mas que azar do cacete foi esse?! - começou a conversar com seu reflexo. - Esse trabalho era perfeito. Maravilhoso. Porque aquele velhote decidiu se aposentar logo agora?! - Verônica apertou suas mãos forte e começou a chutar a parede.
As portas do elevador se abriram e três homens ficaram assistindo à reação exagerada dela.
Quando ela percebeu, parou, arrumou a postura e sorriu como de costume.
"Ele não tinha um filho? Aquele filho que tem mais 5 crianças? Porque ele não assumiu a empresa?!"
Todos no elevador comentavam sobre o novo chefe e sua primeira impressão.
Parece que todos gostaram dele. Verônica discordava de tudo, ali atrás no elevador. Ela revirava os olhos a cada elogio. Tudo o que ela queria era um chefe que não pegasse no seu pé.
Quando o elevador se abriu e ela saiu para a cafeteria, logo que pediu o café pensou em como levar o bendito quente como uma chama.
- Você pode enrolar em papel alumínio, por favor?
- Sim. - a garçonete assentiu, estranhando o pedido da Secretária Verônica.
A perturbação dela era percebida por todos, porque geralmente ela era uma pessoa muito tranquila.
Ela saiu correndo com o copo de café na mão e entrou no elevador. Em seus pensamentos, quanto mais rápido chegasse na sala do chefe, menos o café esfriaria.
Outras pessoas entraram no elevador e um deles falou diretamente com ela.
- Senhorita, que bom que te encontrei aqui! Daqui a duas horas haverá uma coletiva de imprensa, para apresentar o novo chefe. Prepare tudo. Certo?
- Aham. - ela assentiu desanimada. Cada momento que se passava, a ficha caia. Realmente, Seu Garcia se foi e Ricardo será o novo chefe.
Assim que as portas se abriram, ela saiu correndo com o copo de café enrolado em papel alumínio.
Ele virou a cadeira e fez uma careta do jeito que sua secretária chegou.
- O café. - ela se aproximou da mesa, suspirando e entregou o copo.
- O que é isso? Que papel é esse? - fez careta novamente.
- É para conservar o calor. - ela arrumou a postura. - Você não gosta de café quente?
Ele tirou o papel e abriu o copo, depois experimentou o café e imediatamente afastou a boca, fazendo uma careta. - Tá muito quente!
Ela sorriu. - Então tá do jeito que você gosta.
- Senhor. Aliás, Dr.
- Dr. - ela abriu um sorriso Colgate e pediu licença.
Após sair fechando a porta, ela desmanchou o sorriso e rugiu.
"Estou começando a gostar da ideia da porta fechada". - sentou-se em sua mesa e abriu a agenda. - Vamos a essa coletiva...
[•••]
Verônica deixou tudo impecável para a apresentação do novo chefe.
Estava ela e mais 3 funcionários importantes na comitiva, seu chefe se atrasou e os fotógrafos e repórteres estavam ansiosos por sua entrevista. Um segurança chegou ao lado de Verônica e avisou que o chefe estava esperando-a dentro da empresa.
Ela estranhou, mas foi vê-lo.
Ricardo andava de um lado para o outro, impaciente. Ela fechou a porta da sala, e perguntou o que estava acontecendo.
- Onde estava a minha secretária para arrumar a minha gravata?
"Ele só pode estar brincando, né?"
- Sua gravata está ótima. - ela olhou para o nó.
- Ótima? Chega mais perto. Eu preciso estar impecável, Verbena.
- Verônica. - corrigiu e arrumou o nó da gravata e a gola também. - Pronto, está ótima. - ela se afastou.
Ele andou com o peito inflado até o espelho e sorriu para o seu reflexo. - Impecável. Será que existe algum chefe mais bonito do que eu?
"Que filho da mãe narcisista". - ela cruzou os braços e se encostou na parede, pensando.
- Hein? Existe? - olhou para ela.
- Não. Jamais. - sorriu com muito deboche.
Ele era muito bonito e ela reconhecia isso, mas desaprovava suas falas.
- Você tem muita sorte, Gardênia. - ele garantiu admirado.
"Gardênia?"
- Sou muito sortuda, Dr. - ela concordou, com um sorriso infeliz.
@autora.nikole
Verônica chegou em casa exausta e indignada com a mudança que aconteceu na empresa. Ela deitou no sofá da sala e desabotoou os sapatos, enquanto sua amiga Marília se juntava a ela no móvel, saboreando um mousse de maracujá.
- Que cara é essa, Verônica? Você sempre chega toda contente em casa.
Ela afastou os sapatos do sofá e deitou com os pés pendurados. - Hoje foi o pior dia de trabalho que já tive. Seu Garcia se aposentou repentinamente.
- Como? Se aposentou?! Mas não faltava mais de 1 ano pra isso acontecer? - ela ficou de queixo caído.
- Pois é. Mas ele decidiu adiantar isso e tente adivinhar quem ficou no lugar dele?
- Quem?
-Você não conhece. E o sobrinho dele, Ricardo. - ela choramingou.
- Sobrinho? Deve ser jovem.
- Jovem e narcisista. - ela sentou de repente. - Amiga, ele passa o dia inteiro admirando sua beleza em tudo o que sua imagem reflete. Na janela de vidro, no elevador, na colher e ele carrega um espelho pequeno no bolso também.
Marília ficou rindo. - Eita. Esse se ama. Mas ele é legal?
- Ele reclamou da temperatura do café e disse que a porta da sala deve ficar fechada, ao contrário do que seu tio fazia. Também me fez arrumar a gravata dele!
- Tão vaidoso e não sabe arrumar a própria gravata?! Me admiro.
- Eu também. - ela levantou. - Eu acho que tem uma revista com a foto desse cara aqui em algum lugar. - começou a procurar debaixo das revistas que havia em cima da mesa de centro. - Estou com a sensação de que já vi aquele desgraçado em algum lugar.
- Um dia e você já tomou ranço do homem?
- E existe parâmetro para pegar ranço? Eu tive ranço dele só de descobrir que ele seria meu chefe. - ela arrastou uma revista entre as muitas e encarou a capa. - Olha aqui ele.
Marília saltou do sofá curiosa. - Me deixa ver. - segurou um lado da revista e leu a manchete. - "Jovem prodígio das finanças". Bonitão! - ela balançou a cabeça admirada. -
Será que ele é solteiro?
- Tenho 99,9% de certeza que sim. Por duas razões. Primeiro que ele
é incapaz de amar alguém além de si mesmo e depois, que nenhuma mulher ou homem vai aguentar o narcisismo dele.
Marília ficou rindo.
- Mesmo assim, eu tentaria uma chance com ele. Como é sua voz?
- A voz dele... - Verônica tentou recordar. - É forte, mas não demais. É tipo... A voz do Thor dos vingadores. - ele imaginou.
- Foi longe na comparação, amiga. - Marília se admirou e arrastou a revista. - Vamos conhecer mais sobre ele. - sentou-se no sofá e a Verônica não quis dar muita trela para a história, voltou a deitar no outro sofá e abriu o zíper da saia e os botões de blusa. - Ele é filho do irmão falecido do Seu Garcia, Tem um irmão bonito que é modelo e parece que ele estudou fora do Brasil a vida toda. Ele tem sotaque?
- Não reparei. Acho que não.
- Você deveria ler essa matéria. Tem muita informação sobre ele.
- Eu não quero saber mais nada dessa criatura. Quero meu ótimo chefe de volta. - ficou chateada.
- Vai acostumando porque se já passou a coletiva de imprensa, ele será mesmo o chefe. O que ele disse na entrevista? - Marília encarou Verônica bem curiosa.
- "Meu tio desejou se aposentar mais cedo e como um presente para a Empresa Garcia me deixou em seu lugar. Sei que para vocês será uma honra trabalhar comigo. Eu tenho certeza absoluta que nossa empresa irá prosperar e vamos quebrar recordes." - ela reproduziu sua fala fielmente, em um tom de deboche.
- Realmente, ele se garante.
- Aham. Preciso de álcool para esquecer esse dia. - virou-se para Marília.
- Hoje é sexta. Vamos sair pra beber e esquecer tudo?
- Perfeito, Mary. Melhor ideia. Hoje eu quero encher a cara.
@autora.nikole