As nuvens no céu indicavam a possibilidade de chuva e Flora observava o vento forte da tempestade que se aproximava, sacudir violentamente as árvores que rodeavam a propriedade. Da pequena janela de seu quarto, ela não podia ver muito do mundo exterior.
Desde que se lembrava, vivia parcialmente presa na mansão dos seus tios. Não tinha liberdade para sair sozinha, mas pôde estudar na mesma escola que sua prima Amanda e a acompanhava em alguns passeios, mas sua vida costumava ser solitária.
Mal se lembrava dos seus pais, mas tinha certeza que era feliz na época que eles estavam vivos. Aos 23 anos, tudo que ela tinha era um segredo e a esperança de que um dia conseguiria fugir.
Uma empregada bateu à porta de seu quarto, George LeBlanc, seu tio, a chamava para uma conversa, Flora tinha certeza que levaria a culpa por algum erro que Amanda cometeu, ela não se lembrava de um único dia em que foi bem tratada pela família, era sempre humilhada, agredida e até mesmo violentada em segredo por seu tio, mas aprendeu a esconder sua dor e aguentar calada as atrocidades que passava.
Ela e sua prima se sentaram de frente para o homem e sua esposa, Amanda sabia que nada tinha com que se preocupar, pois seus pais sempre a protegeriam, mas Flora já pensava em todas as possibilidades de punição que receberia no lugar da prima, para evitar mais problemas, ela abaixou a cabeça e ficou quieta, sem mover um único músculo.
- Donatello Puzzo quer que se casar com Amanda. - Flora levantou um pouco a cabeça se perguntando o que fazia ali, visto que se tratava do casamento da prima. - Mas ele deseja fazer um "teste", antes de oficializar a união, acho que ele deseja saber se ela é virgem e por isso, Flora, você irá no lugar de Amanda.
Ela olhou para o homem à sua frente, sabia que sua vida não tinha valor algum para aquela família, mas não esperava ser usada dessa maneira. Todos sabiam que Amanda não era virgem, com 18 anos ela já havia tido mais parceiros que muitas ao 30, mas a verdade é que eles não sabiam que Flora também não era virgem.
- Céus! Precisaremos de muita maquiagem para deixá-la o mínimo parecida com Amanda. - comentou a tia.
- Vocês não vão mesmo perguntar se eu quero me casar? - Amanda questionou.
- Não há escolha, filha. Donatello é um homem rico e poderoso, te dará uma vida de luxos se obedecê-lo e claro, esse casamento quitará a dívida que temos com ele e salvará a minha cabeça. - ele se virou para a sobrinha antes de concluir. - Portanto, Flora, espero que compreenda que é um preço pequeno a se pagar depois de tudo que fizemos por você, lhe demos comida, roupas, uma cama... por quase vinte anos!
- Sim senhor. - murmurou, pensando que provavelmente depois da tal noite, Donatello pediria a cabeça de todos, não só de seu tio.
- Diga mais alto! - pediu a tia, se inclinando em sua direção.
- Sim senhor. - repetiu mais alto.
- Ótimo, agora volte aos seus afazeres. - as duas jovens se levantaram. - Você fica, Amanda.
Flora saiu da sala e foi direto para o seu pequeno quarto, ali fechou a porta e caiu em prantos, estava cansada de ser fraca e se deixar ser pisada e humilhada, mas ela não sabia ser diferente, desde pequena sabia que desobedecer era pior, por isso depois de chorar tudo que pôde, ela lavou o rosto e tomou uma decisão: aquela seria a última coisa que faria pelos LeBlanc, depois que voltasse, ela iria fugir. Não importava se passaria fome ou dormiria na rua, podia até mesmo morrer tentando, qualquer coisa era melhor que viver naquela casa.
Ela então pegou uma sacola e separou tudo que iria levar, seus documentos, as melhores roupas, alguns ítens de higiene e o livro de medicina que pegou na biblioteca da cidade enquanto Amanda transava com alguém em algum lugar. Não tinha dinheiro, a única vez que tocou numa nota, foi quando sua amiga Clarice lhe pediu para comprar balas na escola; também não tinha para onde ir, a amizade com Clarice terminou juntamente com a escola. Depois que pegou tudo, escondeu a sacola num canto para que ninguém visse, mesmo que raramente seus tios fossem até seu quarto. Ela deixaria a sacola ali até que tivesse um plano concreto.
A garota saiu dali e foi até a cozinha ajudar Graça a preparar o jantar. Foi informada que seria um jantar especial, para comemorar o acordo que salvaria a família. Flora sabia que não participaria do jantar e por um breve momento pensou em envenenar toda a família, mas afastou o pensamento, não podia se igualar a eles, embora merecessem por todo mal que lhe fizeram.
E para sua surpresa, George a chamou para se sentar à mesa.
- Você é parte essencial para o sucesso desse acordo, Flora, merece um lugar à mesa. - disse ele levantando uma taça com champanhe em sua direção.
- Eu é que ficarei com a parte difícil e se esse Donatello for velho e barrigudo? - perguntou Amanda com voz de desprezo, enrugando a testa. Logo foi repreendida pela mãe a não fazer aquela careta.
- O importante é que ele é muito rico e influente. - George olhou para a filha. - Tenho certeza que pode aguentar um velho barrigudo por vários sapatos Prada.
- Prefiro a Versace. - respondeu a garota com um sorriso ambicioso.
- Com esse homem, terá o que quiser minha filha e nós também.
Flora apenas observava a interação da família, sentia-se enojada e mal conseguia comer. Queria fugir o mais rápido possível, mas teria que esperar até a noite com o tal homem, seria a melhor oportunidade de sair da mansão, planejava deixar suas coisas junto com o restante do lixo e quando estivesse do lado de fora, pegaria a sacola e correria o máximo que conseguisse. Isso, se quando ele percebesse que ela não era virgem, a deixasse ir. Preferia pensar de forma positiva, mesmo que no fundo sabia que seu plano tinha tudo para dar errado.
Ao voltar para o seu quarto, ela percebeu o quanto foi ingênua de acreditar que seus tios nunca se importariam com sua virgindade. Seu tio sempre teve o cuidado de apenas tocá-la e para seu alívio, nunca avançava. Mesmo que tenha trazido um grande problema, ela não conseguia se arrepender da noite que teve com aquele desconhecido.
Era uma festa na mansão de um homem poderoso, Flora não entendeu porque seus tios a levaram, mas achou bom sair um pouco e ver pessoas diferentes, principalmente porque era seu aniversário de 19 anos. Enquanto seus tios e sua prima estavam ocupados, ela decidiu sair do salão de festas em busca de um banheiro. Não encontrando, ela subiu as escadas e se deparou com um homem.
Seus olhos castanhos a fisgaram no exato momento em que se encontraram e ela se viu hipnotizada pelo homem de cabelos pretos, a barba recém feita e vestido num terno elegante, a voz sumiu de sua garganta quando ele lhe lançou um sorriso. O homem se aproximou, trocaram algumas palavras e foram para o quarto, onde ela perdeu sua virgindade.
Há três anos ela acessava de um notebook emprestado por uma das empregadas, as aulas remotas da faculdade de medicina, isso era um segredo que escondia a sete chaves, pois era o que a motivava a acordar todas as manhãs. Antes de dormir, ela estudou um pouco e adormeceu rapidamente pelo cansaço.
Sonhou que corria desesperada de algo que estava próximo de pegá-la, até que caiu num buraco infinito e acordou assustada. Se levantou e foi até o banheiro, se olhou no espelho, viu seus belos olhos verdes a encarando, o cabelo castanho claro caia em seus ombros completamente indefinidos, não se lembrava da última vez que cortou, nem mesmo a última vez que se sentiu bonita, num ímpeto, Flora quebrou o pequeno espelho com o cabo do pente para não se machucar, estava farta daquela imagem, da mulher fraca ali refletida. Apagou a luz e voltou para a cama.
Mais cedo, no mesmo dia, Don Puzzo recebeu em seu escritório, seu conselheiro e amigo Enzo Fuzzari, que veio trazer a notícia de que a mensagem foi entregue a George e o homem aceitou. Enzo se sentou de frente para o Don e o encarou com uma pergunta que o incomodava.
- Por que quer se casar com ela? - perguntou enfim, com um meio sorriso no rosto.
- Sinto que algo está para acontecer, preciso garantir o legado da minha família. - respondeu sem desviar os olhos do documento que assinava.
- Sim, mas... por que ela? Amanda não tem um bom histórico, aliás, tem um longo histórico.
Donatello desviou os olhos da papelada, já estava se irritando com a conversa enquanto fazia algo realmente importante.
- Estou farto das desculpas de George. Amanda não é virgem, mas ele vai garantir que sim e é assim que vou eliminá-lo. - respondeu impaciente e Enzo riu.
- Nunca subestime o Don Puzzo. - Enzo se levantou e deixou a sala.
Desde que assumiu a liderança da máfia Corvi, Donatello sabia que se casaria quando e com quem fosse necessário, mas isso não era um problema, nunca amou alguém e provavelmente nunca amaria. Viu seu pai sofrer com a morte da sua mãe e tinha certeza que o amor era uma fraqueza no mundo em que viviam.
Portanto, não importava quem Amanda foi, mas sim a mulher que se tornaria quando se casassem e com certeza, ele a faria ser a mulher ideal.
O dia marcado para noite de Donatello e Amanda chegou. Flora foi levada logo cedo para o salão e recebeu um tratamento digno de realeza, mas ela sabia que tudo aquilo era apenas para que ela ficasse o mais parecida possível com sua prima. Saiu de lá com as unhas feitas, depilação completa, uma maquiagem em tons de preto e o batom vermelho que a deixou irreconhecível, por fim lhe colocaram uma peruca com enormes fios loiros como os de Amanda, modelaram e enfim ela estava pronta.
- Oh! Quase posso dizer que é você, Amanda. - comentou a tia ao vê-la. - Só tem um problema, Amanda é mais baixa sem os sapatos de salto.
- E você já viu a Amanda andar sem saltos? - brincou George e as duas riram, apenas Flora não viu graça alguma. Na verdade, tudo que saía da boca de seu tio soava nojento para ela. Também não se importou em se olhar no espelho, sabia que aquela não era ela de verdade.
- Vamos Flora, está na hora de ir até o hotel. - ela acompanhou a tia até o carro e ambas seguiram para o hotel no centro da cidade. Deram o nome na recepção e pegaram as chaves, Donatello só chegaria meia hora depois, então a mais velha teria tempo de lhe dar instruções do que fazer.
Assim que entraram no quarto, Flora ficou surpresa com o luxo do local, uma cama king com edredons de cetim e bordados em dourado ocupava o ponto central do quarto, um lustre de cristais fazia a iluminação, um tapete felpudo cobria quase todo o quarto. Num canto havia um frigobar, na parede uma TV e duas portas, uma do closet e outra do banheiro. Flora queria explorar o cômodo, nunca esteve num ambiente tão agradável, mas seria repreendida pela tia e por isso se comportou.
- Preciso te dar algumas orientações. Sente-se. - apontou para a cama e só então as duas notaram a sacola branca ali, a tia pegou a sacola e retirou uma camisola de renda vermelha dali, não havia calcinha, a mulher devolveu a peça para a sacola e voltou a atenção para a sobrinha. - Você deve fazer exatamente o que ele te pedir, não negue nada. Minha filha é um pouco escandalosa, então você também precisa ser, mas nunca, nunca diga que está com dor ou chore, sei que é uma chorona, mas nesse momento segure o choro. Evite diálogos, sua voz é diferente da dela e não sabemos se ele conhece ou não a Amanda. Não faça nada estúpido como tentar fugir ou dizer a verdade, pois quando te acharmos, vamos te trancar no quartinho. Se lembra dele?
Flora engoliu em seco. Faziam anos que não ia para o quartinho, mas se lembrava perfeitamente do que sofreu lá. Passava fome e frio por dias, além de apanhar todas as manhãs e ser tocada por seu tio, que aproveitava que estavam sozinhos, Flora se lembrava perfeitamente dos momentos de angústia e dor que passou no quartinho.
- Sim, senhora.
- Ótimo. Siga minhas ordens e não sofrerá nenhuma consequência. - ela olhou seu relógio de pulso. - A deixarei sozinha a partir de agora, mas a porta ficará trancada. Se troque e espere pelo noivo de sua prima. E lembre-se, não tente nada que nos prejudique.
Depois que a tia saiu, Flora entrou em desespero. O que faria quando o homem descobrisse que ela não é virgem? E quando a família descobrisse? Eles com certeza a deixariam no quartinho por meses. Mas ela não tinha tempo para pensar, em pouco tempo o homem entraria no quarto e ela precisava estar vestida.
Se levantou e foi até o banheiro, encontrando ali uma enorme banheira, bancada em mármore branco, piso de porcelanato branco e os detalhes em dourado. Tirou o vestido justo e vermelho que a mandaram colocar, dobrou a peça juntamente com a calcinha e vestiu a camisola. Ficou um pouco largo no busto, já que era mais magra que sua prima, mas ela gostou de como ficou com a peça.
Depois que saiu do banheiro, por curiosidade abriu o closet, percebendo que estava cheio de roupas masculinas, principalmente ternos e sapatos sociais. Ansiosa e com medo, saiu dali às pressas e se sentou na cama para aguardar seu acompanhante, foi como se adivinhasse, mal havia se sentado e a porta se abriu.
Donatello caminhou à passos lentos para dentro do quarto, observando a mulher que prontamente se pôs de pé. Flora prendeu a respiração ao reconhecer aquele homem, como que por ironia do destino, foi com ele que perdeu a virgindade. Seu coração se apertou, o desejo era de se esconder em qualquer lugar ou até mesmo pular a janela, apenas para evitar passar por aquela noite angustiante. O que ele faria se lembrasse dela?
- Por que Amanda não está aqui? - perguntou, a voz soou fria e seca, fazendo Flora estremecer e perder a voz, não se parecia mais com o homem atraente e sexy que a seduziu anos atrás.- Está muda?
Donatello não esqueceria aquele rosto, da moça que encontrou andando por sua mansão e o olhou como um gatinho assustado. Ele estava entediado com a festa e fez algo que nunca havia feito antes, a levou para o seu quarto. Isso a fez inesquecível, nunca antes ou depois uma mulher deitou em sua cama, sempre as levava para hotéis de sua confiança. E agora ela estava ali em sua frente novamente e mais uma vez ele não esperava encontrá-la.
Ela estava diferente, mais magra, com uma maquiagem forte e cabelo loiro, mas era ela. Por um momento, pensou que ela poderia ser uma profissional do sexo enviada por George afim de enganá-lo, mas a garota parecia assustada demais, com medo e em sua primeira noite, ela não foi nada profissional.
- Deixe eu adivinhar, eles pensaram que você era virgem e tentaram me enganar. - soltou um riso suspirado, pensando que aquilo era bem melhor para o seu plano, um motivo muito mais plausível..
- Eu sou a Amanda, foi o senhor que tirou minha virgindade. - Flora falou num sopro de voz, pensando que talvez pudesse convencê-lo de que ele conheceu sua prima aquele dia. Um pensamento tolo, pois ele descobriria quando visse a verdadeira Amanda.
Donatello não era um homem fácil de enganar, em sua posição, aprendeu a estar atento à detalhes, memorizar nomes e rostos. Jamais esqueceria das mulheres com quem dormiu e aquela era diferente.
- Eu pedi por Amanda, não pela cachorrinha dela. - respondeu ríspido. Flora não ligou para o comentário, era assim que se sentia, então simplesmente puxou as alças da camisola a deixando cair de seu corpo. Não voltaria para casa sem ter ao menos cumprido sua missão, talvez assim o castigo não fosse tão duro.
Donatello analisou a atitude dela, havia sido mandada com um propósito e estava disposta cumprir, talvez uma mulher obediente e sem má fama lhe fosse mais útil e lhe desse menos trabalho. Além dos benefícios, havia algo naquela mulher, algo que o fez quebrar uma regra certa vez, algo que não o fez expulsá-la do quarto logo de início.
- Tire essa peruca ridícula.
Ela retirou a peruca, vendo suas mãos tremerem, seu coração estava acelerado, seu corpo não respondia seus comandos e continuou segurando a peruca até que Donatello se aproximou e a tirou de sua mão.
- Qual o seu nome? - perguntou olhando em seus olhos, a garota baixou o rosto para desviar o olhar, mas Donatello não permitiu, segurou seu rosto fazendo com que o encarasse. - Olhe para mim quando falo com você.
- Flora... Flora Callegari. - Donatello não demonstrou, mas seus pensamentos se turbilharam mediante a descoberta. Se é que fosse verdade. Estaria George tentando enganá-lo novamente?
- Seu nome de verdade. - sua voz soou calma, mas Flora se sentiu muito mais intimidada.
- Esse é meu nome de verdade. - engoliu em seco, temendo vacilar e fazê-lo pensar que mentia.
Ele a estudou por longos segundos e tocou a pele desnuda da garota a puxando para perto. Donatello não gostava de enrolação, mas estava decidido a fazer de Flora sua esposa e lhe beijou, ela o aceitou sem hesitar, mantendo na memória a noite na mansão. Mas não era a mesma situação, o medo corria em suas veias, medo dele matá-la, medo da sua família e do que os dois poderiam fazer.
Don parou o beijo e sem delongas se despiu. Flora rapidamente se lembrou que havia ficado encantada com o homem, as tatuagens a deixava curiosa, queria ver cada uma, as cicatrizes a deixava intrigada, ela também as tinha, o corpo musculoso e o rosto frio, mas belo. Tentou trazer à tona aquele sentimento que teve quase três anos antes, mas estava muito nervosa com o que aconteceria depois.
- Não quero te machucar, mas é isso que vai acontecer se ficar dura como pedra. - Donatello murmurou em seu ouvido, arrancando um arrepio dela e se deitou na cama, apoiando as costas no travesseiro. - Preciso de um incentivo, Flora.
Ela engoliu em seco, sem ter muita certeza do que fazer e como fazer, ficou estática por alguns segundos, até que deu um passo em direção à cama. Subiu na cama, se ajoelhando no colchão e encarando o membro quase duro do don. Flora se inclinou e sentiu os dedos dele entrarem em seu cabelo, fechou os olhos e o colocou na boca, fez o que imaginava que devia, esperando alguma reação dele, mas tudo que obteve foi um puxão de cabelo, a tirando dali.
Donatello pediu que ela se deitasse e ela o fez, agora já estava mais calma e pronta para o que faria. Só porque era ele. Don se colocou em cima dela e num ímpeto a penetrou, Flora soltou um grito e agarrou os lençóis ao senti-lo, mas a dor não veio, não como na primeira vez. Ele se inclinou, apoiando as palmas das mãos na cama, Flora focou os olhos nele, enquanto o sentia se mover, deslizando dentro de si.
Ela estava gostando, mais do que esperava e com isso relaxava cada vez mais. Don estava atento a isso e aumentou o ritmo, tirando um gemido alto da garota, o som das estocadas e das respirações pesadas eram o único que se ouvia, mas os dois estavam focados em suas sensações. Donatello queria mais, porém, decidiu não exigir demais daquela garota ingênua.
Quando terminou, ele se dirigiu ao banheiro, tomou um banho e retornou. Ela permanecia deitada, como se quisesse se fundir a cama e evitar sua realidade. Talvez, poderia pedir a ele que mentisse.
- Deveria se limpar, Flora. - falou a tirando dos pensamentos enquanto colocava suas roupas.
Ela concordou se levantando, cobriu os seios com os braços e foi até o banheiro envergonhada, Donatello a observou com graça, pois a garota voltou a parecer um gatinho assustado. Quando ela terminou o banho, estava decidida a pedir que ele fingisse ter acreditado, mas Don já havia partido, então caminhou até a cama macia e puxando os edredons notou uma pequena mancha molhando o tecido, uma lembrança da noite que teve. Talvez a melhor que teve em anos.
Aquela era a melhor cama que já esteve, mas não conseguiu pregar os olhos pensando no que a esperava na manhã seguinte.
Quando a manhã chegou, Flora percebeu que era cedo e aproveitou que ainda tinha tempo para tomar um longo banho, lavou seu cabelo com o shampoo e creme disponibilizado pelo hotel, percebendo que até isso era melhor do que o que tinha em casa. Retirou tudo que ficou da maquiagem e finalmente pôde se reconhecer no espelho, apesar de não gostar da imagem refletida. Colocou o vestido vermelho e guardou a camisola de renda na sacola em que veio.
Quando ia descer para esperar o táxi que a família iria enviar, a porta do quarto se abriu e Donatello entrou sem aviso. Flora se assustou, não esperava vê-lo, pensava que aquela seria a última noite que o veria e deu um passo para trás, com medo de que ele teria voltado para machucá-la.
- Te levarei para sua casa apenas para que pegue suas coisas, você virá comigo. - informou ele, Flora entendeu que era uma ordem, mas não entendia o que ele queria.
- Por que? - questionou.
- Você será minha esposa. - respondeu e se virou saindo para o corredor. Flora levou alguns segundos para assimilar o que tinha ouvido, mas o acompanhou, sem fazer mais perguntas.
Nunca pensou que se casaria, ainda mais com um homem como ele, mas estava aliviada, se Donatello agisse como naquela noite, esse casamento seria amplamente melhor que morar na casa dos tios.
Um Rolls-Royce os esperava na entrada do hotel. O motorista abriu a porta para que eles entrassem, Flora entrou primeiro, admirada com o luxo e beleza dentro do automóvel.
Donatello olhou para a mulher percebendo que ela analisava os detalhes do carro e pensou que ela era como todas as outras, interessada apenas no luxo e riqueza, afinal os LeBlanc adoravam exibir até o que não tinham.
Ele sabia pouco sobre ela, Flora era filha de Leonel Callegari que se casou com a irmã da senhora LeBlanc, Leonel era o braço direito de seu pai e numa fatídica noite num jantar especial, os pais de Flora foram mortos juntamente com a mãe de Donatello. A menina que na época tinha cinco anos, também foi dada como morta naquela noite, mas aparentemente, os LeBlanc apenas estavam a escondendo e cometeram o grave erro de deixa-la em suas mãos por uma noite.
Investigando um pouco, ele descobriu que os LeBlanc usaram todo o dinheiro da herança de Flora enquanto ela era menor de idade e estava sob tutela deles. Talvez fosse por isso que esconderam a menina, mas seu instinto lhe dizia que havia algo a mais nessa história, algo que envolvesse o atentado que matou sua mãe e quase tirou a vida de seu pai. Ter Flora consigo era como tirar uma carta boa do baralho, lhe dava uma vantagem que seu pai não teve quando buscou descobrir a verdade sobre aquela noite.
Ele só precisava descobrir o que ela sabia.
Quando o carro de luxo preto estacionou na frente da mansão LeBlanc, George pediu para Amanda se esconder.
- Ele deve ter vindo pessoalmente trazer a nossa "filha". Deve ser um bom sinal. - comentou com a esposa. - Aja como se ela realmente fosse a Amanda.
- Não seja tão otimista, ele pode ter descoberto. - ralhou a mulher.
- Só se ele já conhecesse a Flora, mas isso é quase impossível.
O casal ficou lado a lado e quando a porta se abriu, se assustaram ao ver Flora sem a peruca e a maquiagem. O homem que a acompanhava era mais novo do que eles esperavam e pensaram se tratar de algum segurança vindo se livrar do lixo deixado no hotel.
- Senhor e senhora LeBlanc, finalmente nos conhecemos. Vim pessoalmente trazer a sobrinha de vocês. - Donatello disse e em seguida se virou para Flora. - Vá pegar suas coisas e seja rápida.
Flora saiu andando à passos largos para a cozinha, tinha deixado suas coisas do lado de fora para tentar fugir, mas estava tendo a chance de se livrar daquele inferno, mesmo que talvez fosse passar por outro, não era tão ingênua a ponto de não saber que sua família era ligada a coisas ilegais.
- Quero informá-lo que nossos negócios se encerram aqui, sr. LeBlanc. Te darei dois dias para pagar tudo que me deve.
- Senhor Puzzo, peço piedade. - o homem deu um passo à frente.
- Deveriam pedir piedade à sobrinha de vocês, talvez ela permita que vendam a casa para pagar a dívida.
O casal se entreolhou e quando Flora retornou com uma sacola de roupas, Donatello entendeu, ela nunca soube que tudo aquilo pertencia a ela e a julgar pela maneira que ela trouxe suas roupas, ela não teve o melhor tratamento.
A senhora LeBlanc segurou o braço de Flora e a encarou ameaçando com o olhar.
- Não vá. - ordenou quase num sussurro.
Flora respirou fundo antes de dizer a palavra que tanto desejou dizer em voz alta para aquela família. Suas mãos tremiam e ela sentia uma trava na garganta, mas não suportaria viver sob mais um minuto sequer sob aquele teto, com aquela família e sob as ameaças dos tios.
- Nunca mais ouse tocar em mim. - ela agora tinha uma escolha e jamais permitiria ser humilhada por eles novamente.
- Flora, seu tio tem uma dívida alta comigo, mas te darei a escolha, se aprecia o que seus tios te fizeram durante todos esses anos, eu aceito essa casa como pagamento da dívida. - ela olhou para Donatello sem entender o que dizia, por que ela deveria escolher? - A casa é sua, Flora, e a fortuna que a família usufruiu por anos é herança deixada pelos seus pais em seu nome.
- O que está acontecendo? - Amanda questionou descendo as escadas.
- Isso é verdade? - Flora questionou olhando para os tios.
- Não! - respondeu o tio rindo. - Claro que não, esse homem está louco!
- Esse é o tal Donatello? - interrompeu Amanda, completamente perdida sobre o que acontecia. - Acho que posso gostar muito desse casamento.
Flora olhou para o homem que parecia possuir o controle do mundo, ela seria sua esposa, não poderia mais ser pisada por ninguém e nem permitir que sua bondade fosse vista como fraqueza. E ela seria fraca se tivesse pena de quem nunca teve dela.
- Terão que pagar cada centavo que gastaram da herança e quanto a casa, quero que desocupem no máximo em três dias.
Donatello sorriu orgulhoso da escolha da futura esposa, não podia esperar menos de uma Callegari. Não conheceu Leonel, mas conhecia a história do desembargador que confiou em seu pai e se aliou a ele. Era como se a união de Donatello e Flora fosse coisa do destino, pois se os pais da moça não tivessem morrido, teriam interesse em unir os dois.
- Flora... - a tia se aproximou e a moça deu um passo para trás, abraçando a sacola em seu peito, nada a impediria de ir embora.
- Vamos. - Donatello tocou o ombro dela e os dois saíram.
Flora sequer olhou para trás ao entrar novamente no carro. Depois de alguns minutos em silêncio, Donatello decidiu fazer algumas considerações.
- Fez o que seu pai faria se estivesse vivo. - ela o olhou, mal se lembrava dos pais.
- Você o conheceu?
- Não, mas ouvi falar sobre ele. Leonel Callegari foi importante para o sucesso da minha família. - respondeu.
Finalmente ele parou para observar a mulher que seria sua esposa, Flora era bela aos seus olhos, mas não tanto quanto Amanda, era magra e tinha o semblante apático, a pele pálida como porcelana, a tornava frágil como uma, não havia nada nela que a tornasse muito desejável, mas era como um diamante bruto e ele poderia torná-la apresentável.
Flora não percebeu o olhos atentos de Donatello sobre si, olhava o caminho pensando em como sua vida mudou em menos de 24 horas. O futuro era incerto, mas não esperava amor do homem que iria se casar, no fundo sabia que aquilo tinha um propósito, mas estava agradecida por se livrar daquela família. Qualquer coisa que Donatello lhe pedisse, ela faria de bom grado, desde que não fosse maltrada como foi na casa dos tios.
- Dentro de dois dias irei anunciar nosso noivado e dentro de um mês assinaremos os papéis. Tem que ser um casamento legítimo. Estou me casando, porque preciso de herdeiros, por isso amanhã mesmo você irá numa clínica realizar todos os exames necessários. No demais, nunca pense em me trair e em qualquer lugar que estiver aja como uma mulher de respeito, você não me conhece, mas eu sou um homem perigoso e tenho uma reputação a zelar, não admitirei nenhuma afronta a minha pessoa.
- Sim, senhor, farei como deseja. - respondeu e Donatello relaxou no banco, apesar de que a facilidade com que Flora aceitou lhe parecesse suspeito. Que tipo de mulher aceita tão facilmente se casar com um completo desconhecido? Precisava descobrir mais sobre ela.
Quando chegaram, todos os funcionários os aguardava em fila na frente de sua mansão. O chafariz com uma estátua de querubim no topo, permanecia jorrando sua água cristalina que brilhava sob o sol daquela manhã, Flora ficou encantada com sua beleza, entendendo que sua vida estava prestes a mudar totalmente. Assim que desceram do carro, motorista o levou até a garagem.
- Bom dia a todos, quero que conheçam Flora Callegari, minha noiva. - Donatello informou.
- Don, por que não avisou que a traria cedo? Teríamos preparado uma recepção melhor. - disse Branca, governanta da mansão. - Já tomou seu café da manhã, querida?
Antes que pudesse responder, Branca apoiou a mão nas costas da garota e a levou para dentro da mansão. Flora estava preocupada com suas coisas e se virou para ver se não iriam jogar fora por estar numa sacola.
- Não se preocupe, suas coisas serão levadas ao seu quarto. Aproveite o café da manhã, se quiser algo a mais, posso pedir na cozinha.
A mesa estava farta, havia uma variedade de pães, queijos, frutas, bebidas e doces. Flora nem mesmo sabia por onde começar, Donatello se aproximou, pegou uma xícara de café e saiu, indo para seu escritório.
- Quantas pessoas moram aqui? - ela perguntou para Branca, surpresa pela quantidade de comida.
- Apenas o senhor Puzzo, srta. Callegari. - respondeu prontamente com um sorriso. - Mas a comida é dividida com os funcionários, então não se preocupe com desperdícios.
Ela costumava tomar o café com os empregados, pão com geleia ou torrada e café. Nem mesmo já presenciou tanta fartura e ficou feliz por saber, Flora sorriu para Branca, aliviada ao perceber que o empregados eram bem tratados, se fosse como eles, ainda seria melhor que com os LeBlanc.
Ela se sentou e experimentou um pouco de tudo, muitas coisas eram novas e percebeu o quanto foi privada de coisas simples e era pior pensar que não deveria ter sido assim. Se seus pais não tivessem morrido, ela jamais teria passado por tudo aquilo, teria uma vida tranquila, talvez teria feito faculdade e namorado vários garotos até encontrar aquele com quem desejasse se casar, mas se casaria sem amor, apenas para fugir da maldade de seus tios.