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Inferno de Laca Branca

Inferno de Laca Branca

Autor:: Xiao Ziyi
Gênero: Romance
O cheiro de laca branca e o sorriso sem emoção de Sofia eram o prenúncio. Um acordo me forçava a ceder meu marido, João, se ele me abandonasse por Sofia nove vezes. A primeira prova veio em uma noite de tempestade: ele me deixou sozinha em um evento de gala para "socorrer" Sofia, enviando uma foto dela em seu roupão, no nosso sofá, se deleitando na minha dor. As humilhações se seguiram, cada desculpa de João mais patética, culminando com ele faltando à inauguração da minha primeira loja para viajar com ela, enquanto eu recebia os papéis do divórcio preenchidos. A manipulação era óbvia, mas eu, no meu desespero, só via a humilhação pública. A gota d'água? Uma festa onde Sofia revelou ter orquestrado meu casamento e distorcido as provas de "amor" de João por mim, mostrando que eu era apenas uma farsa. Meu passado, meu futuro, tudo parecia uma mentira orquestrada por ela. Mas a verdade veio à tona, brutalmente. Num instante congelado, o vaso pesado de Sofia voou em minha direção; João se jogou para proteger ela, não eu. Eu caí, minha perna quebrada, em uma poça de meu próprio sangue, vendo ele consolá-la. No hospital, ele veio, com desculpas esfarrapadas, para então enviar uma selfie com Sofia, os dois sorrindo de sua "vitória". Aquele foi o despertar. A dor física não se comparava à clareza que me atingiu: ele nunca me amou. Com uma calma assustadora, anunciei o divórcio. Enquanto ele lutava para entender, eu comecei a empacotar minha vida, jogando fora o álbum de casamento, os presentes vazios. Meu telefone tocou: uma confirmação de corrida, em nome de Sofia. João estava arriscando a vida por ela, por um capricho, e eu entendi que sua cegueira seria sua ruína. Dez capítulos de uma farsa se desenrolaram, e agora, eu estava pronta para reescrever o meu próprio final, longe de João e Sofia.

Introdução

O cheiro de laca branca e o sorriso sem emoção de Sofia eram o prenúncio.

Um acordo me forçava a ceder meu marido, João, se ele me abandonasse por Sofia nove vezes.

A primeira prova veio em uma noite de tempestade: ele me deixou sozinha em um evento de gala para "socorrer" Sofia, enviando uma foto dela em seu roupão, no nosso sofá, se deleitando na minha dor.

As humilhações se seguiram, cada desculpa de João mais patética, culminando com ele faltando à inauguração da minha primeira loja para viajar com ela, enquanto eu recebia os papéis do divórcio preenchidos.

A manipulação era óbvia, mas eu, no meu desespero, só via a humilhação pública.

A gota d'água? Uma festa onde Sofia revelou ter orquestrado meu casamento e distorcido as provas de "amor" de João por mim, mostrando que eu era apenas uma farsa.

Meu passado, meu futuro, tudo parecia uma mentira orquestrada por ela.

Mas a verdade veio à tona, brutalmente.

Num instante congelado, o vaso pesado de Sofia voou em minha direção; João se jogou para proteger ela, não eu.

Eu caí, minha perna quebrada, em uma poça de meu próprio sangue, vendo ele consolá-la.

No hospital, ele veio, com desculpas esfarrapadas, para então enviar uma selfie com Sofia, os dois sorrindo de sua "vitória".

Aquele foi o despertar.

A dor física não se comparava à clareza que me atingiu: ele nunca me amou.

Com uma calma assustadora, anunciei o divórcio.

Enquanto ele lutava para entender, eu comecei a empacotar minha vida, jogando fora o álbum de casamento, os presentes vazios.

Meu telefone tocou: uma confirmação de corrida, em nome de Sofia.

João estava arriscando a vida por ela, por um capricho, e eu entendi que sua cegueira seria sua ruína.

Dez capítulos de uma farsa se desenrolaram, e agora, eu estava pronta para reescrever o meu próprio final, longe de João e Sofia.

Capítulo 1

Maria olhou para o papel sobre a mesa de centro de laca branca, o documento parecia um atestado de óbito para seu casamento, mas estava disfarçado de acordo. Sofia, a ex-namorada de seu marido, sentou-se à sua frente no sofá de couro caríssimo, com um sorriso que não alcançava os olhos.

"É simples, Maria," disse Sofia, com a voz melosa que usava em seus vídeos de influencer. "Eu e o João temos uma história, uma promessa. Ele me abandonou antes, mas prometeu que se fizesse isso nove vezes, nosso amor não era para ser, e ele seria todo seu. Mas se ele te abandonar nove vezes por minha causa, você me cede o lugar dele. Você some da vida dele."

Maria respirou fundo, o ar do apartamento luxuoso em Ipanema parecia pesado, carregado com o perfume caro de Sofia e a tensão daquela proposta absurda. Ela olhou para as fotos do casamento na estante, ela e João, o chef celebridade, sorrindo, o casal perfeito que estampava as colunas sociais.

"Eu confio no João," Maria disse, com mais convicção do que sentia. "Ele me ama. Ele não vai me abandonar."

"Então você não tem nada a perder, querida," Sofia retrucou, empurrando a caneta dourada na direção de Maria. "Assine. Prove para si mesma que o amor dele é verdadeiro."

Era uma armadilha, ela sabia, mas a ideia de recusar parecia uma admissão de derrota, uma confissão de que ela não confiava no próprio marido. Com a mão trêmula, Maria assinou o papel, o som da ponta da caneta no papel ecoando como uma sentença. Sofia pegou o documento, seu sorriso agora genuinamente vitorioso. O conflito estava selado.

Duas semanas depois, a primeira prova veio. Estavam em um evento de gala para o lançamento de um novo restaurante. A chuva torrencial que caía sobre o Rio de Janeiro era o assunto da noite. Maria usava um vestido de sua própria criação, um modelo que esperava que lhe rendesse contatos importantes. João estava ao seu lado, charmoso como sempre, recebendo elogios.

Então, o celular de João tocou. Ele olhou para a tela e sua expressão mudou.

"É a Sofia," ele disse, a voz baixa. "O apartamento dela inundou, ela está em pânico, preciso ir até lá."

"Mas João, e o evento? E a chuva está um caos," Maria argumentou, um nó se formando em seu estômago.

"Ela precisa de mim, Maria. É uma emergência," ele disse, já se afastando, seu olhar evitando o dela. "Peça um carro, nos vemos em casa."

Ele não esperou por uma resposta, simplesmente se virou e saiu, deixando-a sozinha no meio do salão lotado, o murmúrio das conversas ao seu redor soando como um zumbido distante. O abandono foi rápido, clínico e humilhante. Todos viram o chef famoso deixar sua esposa para trás. A prioridade dele era clara, e não era ela. O gosto amargo da decepção encheu sua boca.

Sair do evento e encontrar um carro foi um pesadelo. A chuva havia piorado, transformando as ruas em rios. Nenhum aplicativo de transporte tinha carros disponíveis. Ela ficou na calçada, debaixo da marquise que mal a protegia, o vento frio soprando a chuva em seu vestido de seda. O tecido caro grudou em sua pele, e o frio começou a penetrar seus ossos. Depois de quase uma hora, desistiu e decidiu caminhar.

A caminhada para casa foi uma tortura. Seus sapatos de salto alto afundavam nas poças, a maquiagem escorria pelo rosto junto com a chuva. Cada passo era um esforço. O vestido, sua criação, sua esperança, estava arruinado, manchado de lama. Ela se sentia pequena, patética, uma figura lamentável andando pelas ruas escuras e alagadas do bairro nobre. A dor física nos pés era nada comparada à dor em seu peito, um aperto frio e constante. A chuva não era apenas água caindo do céu, parecia o próprio universo chorando por sua ingenuidade.

Quando finalmente chegou ao apartamento, encharcada e tremendo, seu celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido, mas ela sabia quem era. Uma foto. Sofia, enrolada em um roupão de seda que Maria reconheceu como sendo de João, estava sentada no sofá deles, com uma xícara de chocolate quente nas mãos. Ao fundo, a TV mostrava as notícias sobre a tempestade. A legenda da foto era simples: "Primeira vez. Faltam oito. Ele está cuidando muito bem de mim."

A raiva que ela esperava sentir não veio, em seu lugar, um vazio gelado se instalou. Sofia não estava apenas ganhando, estava se deleitando com a dor de Maria, esfregando a vitória em seu rosto. O plano dela era cruel e estava funcionando perfeitamente.

João só chegou de madrugada. Ele a encontrou sentada na poltrona da sala, ainda com as roupas molhadas.

"Maria? Por que você está assim?" ele perguntou, com uma falsa preocupação.

Ela não respondeu. Apenas olhou para ele, para o homem que amava, o homem que a havia deixado na tempestade para consolar outra mulher. A farsa de seu casamento perfeito estava começando a ruir diante de seus olhos.

"Eu perdi a primeira," ela disse, a voz rouca e sem emoção. "Você me abandonou."

João ficou em silêncio, a culpa estampada em seu rosto bonito. Ele não negou. Não havia o que negar.

Maria se levantou, sentindo o peso do cansaço e da desilusão. Ela foi até a pequena caixa onde guardava o talão de cheques e pegou uma caneta. Em uma folha de papel, fez um pequeno traço. Um de nove.

"Eu aceito a derrota de hoje," ela disse, mais para si mesma do que para ele. "Vamos ver as próximas oito."

Ela não sabia, mas naquele momento, estava apenas começando a entender a profundidade da manipulação de Sofia e da covardia de João. Uma lembrança veio à tona, de quando eles começaram a namorar. João mencionou Sofia de passagem, como um amor de juventude intenso e complicado. "Ela sempre conseguia tudo o que queria de mim," ele disse uma vez, rindo, como se fosse uma piada. Mas não era. Ele era dela, sempre foi. Maria era apenas um interlúdio, um lugar para ele se esconder até que Sofia decidisse reivindicá-lo de volta.

As outras vezes vieram em rápida sucessão. Um jantar importante com investidores para a marca de Maria, que João abandonou porque Sofia "teve uma crise de ansiedade". Férias planejadas para a Europa, canceladas no aeroporto porque Sofia "sofreu um pequeno acidente de carro e precisava de apoio". O aniversário de Maria, que ele passou ao telefone com Sofia por horas, "consolando-a por um término de namoro falso". Cada abandono era uma facada, cada desculpa esfarrapada era um insulto à sua inteligência. Ele nem se esforçava mais para mentir bem.

Ela parou de sentir dor, parou de chorar. A repetição do abandono a esgotou emocionalmente, deixando apenas um cansaço profundo. Ela se tornou uma espectadora de sua própria vida, observando a destruição de seu casamento com uma distância fria. A nona vez foi a mais cruel. Era a inauguração da primeira loja de Maria, o culminar de anos de trabalho duro. João prometeu estar lá, na primeira fila, aplaudindo-a. Ele não apareceu. Mais tarde, ela viu nas redes sociais de Sofia. Uma foto dos dois em Búzios. A legenda dizia: "A nona vez. Fim de jogo. Ele é meu."

Na manhã seguinte, um envelope chegou pelo correio. Dentro, o "acordo" que ela assinou meses antes, com nove traços marcados ao lado de sua assinatura. Junto, um pedido de divórcio já preenchido, esperando apenas sua assinatura.

Maria pegou a caneta, a mesma caneta dourada que Sofia usou. A mão dela não tremeu desta vez. Ela assinou o nome dela no papel do divórcio, a tinta preta finalizando o acordo e sua vida no Rio de Janeiro. O alívio que sentiu foi surpreendente. Era o fim, mas também era um começo.

Ela enviou os papéis assinados para o advogado de Sofia. Horas depois, Sofia ligou.

"Recebi os papéis, querida. Tão eficiente," a voz dela era puro veneno açucarado. "O João não sabe ainda. Quero contar a ele eu mesma, como uma surpresa. Vou dizer que foi você quem pediu o divórcio, que você não aguentava mais a pressão. Ele vai se sentir culpado e vai precisar de mim para consolá-lo. Não é perfeito?"

Maria não respondeu. Apenas desligou o telefone. A manipulação de Sofia era tão previsível, tão cansativa. Ela olhou ao redor do apartamento que não era mais seu lar, para a vida que não era mais sua. Ela não sentia tristeza, apenas uma determinação fria. O jogo havia acabado. E ela estava livre.

Capítulo 2

João encontrou a pasta de couro sobre a mesa do escritório. Dentro, sabia que estavam os contratos de um novo fornecedor para o restaurante. Ele tentou abrir para verificar os detalhes, mas Maria entrou na sala naquele exato momento.

"Deixa isso aí, João. Eu já revisei tudo," ela disse, pegando a pasta da mão dele. Sua voz era calma, mas firme. Ela guardou a pasta em sua bolsa e pegou as chaves do carro. "Preciso resolver umas coisas da loja."

Ela saiu sem se despedir, sem o beijo rápido que costumava lhe dar. João sentiu um impulso de segui-la, de perguntar o que estava acontecendo, mas hesitou. Havia uma distância entre eles que ele não sabia como cruzar.

Ele observou da janela enquanto ela entrava no carro e se afastava. Ele se sentia estranho, como se estivesse perdendo algo que já não tinha. A indiferença dela era nova. Antes, cada abandono era seguido por dias de tristeza silenciosa, de olhares magoados. Agora, não havia nada. Nenhum ressentimento, nenhuma dor visível. Era como se ela tivesse se desligado dele completamente. Essa constatação o incomodava mais do que a raiva dela jamais o incomodou.

Naquela noite, quando ele voltou do restaurante, encontrou-a no quarto, dobrando roupas e colocando-as em uma mala. O coração dele acelerou.

"O que você está fazendo?" ele perguntou, tentando manter a voz casual.

"Arrumando umas coisas para uma viagem," ela respondeu, sem olhá-lo.

Ele se aproximou, abraçando-a por trás, apoiando o queixo no ombro dela. Ele sentiu o corpo dela enrijecer com seu toque.

"Eu sinto sua falta," ele sussurrou, beijando seu pescoço. Era uma mentira, ele não sentia falta dela, sentia falta da adoração dela.

"Não me toque, João," ela disse, a voz cortante. Ela se desvencilhou dele. "Estou cansada. Tive um dia longo."

Era uma desculpa clara, um afastamento deliberado.

"Me desculpe por ter andado ausente," ele disse, tentando soar sincero. "As coisas no restaurante têm sido uma loucura. E com a Sofia precisando de ajuda..."

"Você não precisa se desculpar, João," ela o interrompeu. "Eu entendo suas prioridades." A frase era neutra, mas carregada de um significado que o fez estremecer.

"Eu vou compensar você, prometo," ele disse, sem jeito. "Assim que essa fase passar, vamos viajar, só nós dois."

Ela o olhou pela primeira vez naquela noite, um olhar vazio, desprovido de qualquer emoção. "Você sempre diz isso."

A verdade naquelas palavras o deixou sem resposta. O silêncio se instalou entre eles, pesado e desconfortável. Ele sabia que era culpado, mas admitir isso era admitir que Sofia o controlava, e seu orgulho não permitia.

"Vou tomar um banho," ele disse, apenas para quebrar o silêncio. "Você quer que eu peça alguma coisa para a gente comer?"

Era uma tentativa patética de normalidade, um gesto de cuidado que agora soava oco.

"Não, obrigada. Já comi," ela respondeu, voltando a arrumar sua mala.

A rejeição foi clara, um pequeno ato de independência que o desestabilizou. Ela sempre esperava por ele. Sempre.

Ele foi para o banheiro e, ao abrir o armário, notou algo diferente. O lado dele estava mais organizado do que o normal. Suas loções pós-barba e colônias estavam alinhadas. Ele pegou um dos frascos. Era um perfume novo, amadeirado, forte. Ele não se lembrava de tê-lo comprado. Então, ele se lembrou. Sofia disse que adorava aquele cheiro nele. Ela o levara para comprar na semana anterior.

Seus produtos, suas roupas, até mesmo a marca de café que ele estava bebendo ultimamente. Tudo tinha a influência de Sofia. Ele estava se tornando uma versão de si mesmo moldada pelas preferências dela, e Maria estava percebendo tudo.

Uma pequena caixa de veludo azul estava faltando em sua gaveta de relógios. Dentro, deveria haver um par de abotoaduras de safira que Maria lhe dera em seu primeiro aniversário de casamento.

"Maria, você viu minhas abotoaduras azuis?" ele perguntou, saindo do banheiro.

"Não," ela respondeu, sem desviar a atenção da mala. "Talvez você as tenha perdido."

"Não, eu sempre as guardo aqui. Tenho certeza que estavam aqui," ele insistiu.

"Pergunte à Sofia," Maria disse, a voz baixa. "Ela parece saber onde estão todas as suas coisas ultimamente."

A acusação era velada, mas direta. João se lembrou de ter usado as abotoaduras no jantar com Sofia na noite anterior. Ele devia tê-las esquecido no apartamento dela. A displicência com o presente de Maria e a facilidade com que ele se cercava das coisas de Sofia eram uma prova irrefutável de sua traição emocional.

"Não seja ridícula," ele disse, a voz mais áspera do que pretendia.

Maria finalmente fechou a mala e se virou para ele. Havia uma calma assustadora em seus olhos.

"Sabe, João, pode ficar com as abotoaduras. Eu não me importo mais," ela disse. "Na verdade, eu não me importo com mais nada que venha de você ou que vá para você."

A declaração foi como um soco no estômago. Era uma renúncia, não apenas às abotoaduras, mas a ele, ao casamento deles. Era a liberdade dela sendo declarada em voz alta.

No fim de semana, eles foram a uma festa na casa de amigos. Mal chegaram e Sofia já estava lá, grudada no braço de um empresário qualquer. Mas seus olhos estavam em João.

"João, querido, você não vai acreditar!" ela disse, em voz alta o suficiente para que todos ouvissem. "Lembrei que você tem aquela degustação super importante na terça-feira. Já confirmei com o seu assistente que sua agenda está livre para o nosso almoço de planejamento na segunda. Precisamos definir o cardápio."

A demonstração de intimidade era descarada. Ela não estava apenas mostrando a Maria que controlava a vida profissional de João, estava anunciando isso a todo o círculo social deles. Maria sentiu os olhares de pena e curiosidade sobre ela, mas manteve a expressão neutra. O show de Sofia não a atingia mais. Era apenas a confirmação do que ela já sabia. Seu casamento era uma farsa pública. E o divórcio, sua libertação privada.

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