"Quando as coisas parecem perfeitas, mas só parecem. Você tem que fazer uma escolha, ainda que essa escolha pareça errada, você a faz. Sem saber ao certo, onde essa escolha a levará. Se a vida de todo mundo é feita de escolhas, a minha não se torna diferente. Sigo, acreditando que tudo há seu tempo, se resolverá, mesmo porque, se faz necessário rever velhas feridas, para que seu futuro seja no mínimo menos intenso que seu passado. Aprendi que muitas vezes, para uma ferida cicatrizar é necessário retirar a crosta antiga, cuidar, zelar para que o processo de cura aconteça.
Mas quem disse que estamos preparados para esse processo?!? Infelizmente, nem todas as coisas dependem exclusivamente de você, daquilo que você acha certo, daquilo que você acredita ser justo.
Nem sempre aquilo que lhe é acrescentado, é algo que lhe faltava. Nem sempre você consegue abrir mão, porque nem tudo se resume a você.
Mas isso é viver, isso é continuar, isso é caminhar; mesmo em meio a tantas novidades, mesmo em meio há tantas mudanças, mesmo em meio a sua própria vontade.
Por mais que eu não queira, preciso deixar com que as peças se encaixem, mesmo que essas peças não me façam a menor falta, preciso permitir que estas encontrem seu lugar em minha vida, mesmo alheia a minha vontade.
Há situações que precisamos deixar com que sigam, para que assim ao menos, você se encontre em algum momento. Nem tudo fará sentido nessa jornada, nem tudo seguirá uma lógica esperada, nem tudo será o que parece, nem tudo é sobre o que você espera ou acredita.
Isso é seguir em frente, isso é prosseguir, isso é dar continuidade, isso é continuar, continuando! Mesmo que você tenha que se reencontrar, se reinventar, se reescrever. E se viver é isso, que seja intenso, o meu caminhar"
...
Quem disse que toda decisão bem tomada é fácil. Tal afirmação é um consolo hipócrita. Pois nem sempre será fácil escolher, em meio aquilo que você nem esperava viver.
Acreditei que me abrindo de verdade, conseguiria ao menos sua compreensão, e no final sua aceitação, mesmo que os caminhos até aqui trilhados não tenham sido os mais simples, acreditei que tudo ficaria bem.
Mas me enganei!
Criei tanta expectativa quanto a tudo isso, para no final não ser nada do que eu esperava.
Jamais me vi vivendo uma situação dessa, nunca passou pela minha cabeça que estaria me sujeitando a um momento como esse.
Como pude baixar a guarda dessa forma, sempre fui tão aquém do que se esperava, sempre levando a razão acima da emoção e sentimentos.
Como me tornei alguém tão comum, tão normal, tão fraco?!?
Já busquei com todos que poderiam me dizer onde ela está, mas ninguém sabe.
Parece que foi engolida pela terra!
Fico sem saber como fazer, mas estou atordoado sem ter nenhuma notícia dela.
Cogitei pedir a Eduard que realizasse uma busca, mas pensei melhor, não seria certo pedir a um de seus amigos que vasculhasse sua vida.
Bom, ao menos nesse primeiro momento. Pois não descarto qualquer alternativa, para encontrar essa mulher.
Ela fez menção de alguns dias, mas isso já foi há uma semana, no entanto, ainda assim, são alguns dias, mesmo que para mim pareça uma eternidade.
Que saco!
Droga, definitivamente não sei lidar direito com o tempo, essa é a merda!
Como fui burro, deveria ter previsto que minha atitude poderia assustá-la, pela primeira vez em minha vida, decido fazer o que meus sentimentos me pedem e olha o que dá.
É um inferno!
Um cara como eu não comete erros idiotas assim, sempre fui tão centrado, por saber que os sentimentos só trazem problemas.
Sempre corri dessa coisa de amor, de ter alguém, de relacionamento, mas agora estou aqui atormentado por uma mulher que simplesmente sumiu!
A merda de não ter domínio sobre as coisas, não é algo que eu consiga lidar com tanta facilidade.
Essa coisa toda que sinto, me deixa muito aquém do cara que costumo ser. Nunca deixei meus sentimentos levarem vantagem, mas agora, aqui estou eu, refém deles!
É uma grande e tremenda... merda!
Não adianta eu ficar aqui me auto analisando, como se me interrogando assim, fosse resolver alguma coisa.
Pior, nem sei o que fazer, não sei como lidar com essa novidade toda, não sei na verdade... mais nada!
A única coisa certa, e que preciso descobrir ao menos onde ela se meteu e depois disso, penso no que vou fazer. Mesmo porque, agora não tenho ideia alguma de tudo isso e me olhando assim, pareço um daqueles sentimentalóides que tanto já tirei sarro em outros tempos.
"Que merda Stela, onde foi que você se meteu MULHERRR!!!"
Porque não fui mais devagar?
Porque não esperei um pouco mais?
Fui tomado pela emoção, essa é a verdade. Não estava esperando encontrá-la assim e quando vi, já estava indo contra tudo o que haviamos combinado.
Fui muito burro, precipitei demais as coisas.
Ela não é como as outras mulheres, merda!
Como fui tonto, acabei colocando tudo a perder!
Poderia ter ganho um pouco mais de tempo, poderia ter investido em estar mais próximo dela, poderia ter feito tudo de uma maneira mais tranquila, mais suave.
Mas não, agi sem pensar e com isso, posso ter colocado tudo a perder.
É uma merda!
Mas agora, preciso deixar isso um pouco de lado, se não irei enlouquecer, se é que já não estou enlouquecendo.
Mesmo com ela povoando minha mente, mais do que desejava, preciso seguir, ao menos tentando trabalhar.
Uma vez que tenho muito o que fazer e meus dias, como todos sabem, não são tão simples assim.
Preciso focar nas responsabilidades que carrego, mesmo com essa nuvem sobre minha cabeça, estava tudo indo bem, tudo caminhando para tornar nossos dias incríveis. Agora isso!
Mas minha agenda não pode esperar, os compromissos não irão simplesmente desaparecer, pessoas dependem de mim, famílias dependem de mim.
Mesmo sem nenhuma vontade, a responsabilidade fala mais alto e com isso, preciso agir, pois não posso continuar refém da sua ausência...
....
"Bom dia Vitor, me leve para casa!", disparo, assim que me aproximo dele no aeroporto, entrego minha mala a ele e nem espero que abra a porta do SUV para mim.
Olho para meu telefone desligado, será que minha escolha é a mais certa?!?
Olhando para minha vida, sim é!
Uma vez que tenho uma história pendente com meu passado. É hora de rever algumas coisas e colocar todas as cartas na mesa.
Já adiei demais e chegou a hora de tomar as rédeas dessa parte da minha história. Mesmo não fazendo ideia do que vem pela frente, preciso mudar as coisas para o meu bem.
Retiro o aparelho que até pouco tempo nem queria utilizar e realizei uma ligação.
"Aconteceu alguma coisa, Stela?"
"Ah, para!!! Desde quando se preocupa comigo Albert?"
Albert Noan, meu tutor, responsável pelo meu espólio e gerenciamento de tudo o que infelizmente herdei.
"Não fale isso! Me preocupo sim, mas infelizmente você não acredita!"
"Será que é porque, você sempre se coloca a favor dos meus parentes mortos?!?", respondo.
"Você quer dizer, seus avós! Se os conhecesse, saberia que tomaram a decisão certa!"
"Decisão esta que pouco importa minha opnião, decisão esta, que me faz refém de algo que eu nunca quis!"
"Decisão esta Stela, que a manterá bem amparada até o fim dos seus dias e até mesmo por gerações"
"Albert chega! Sempre discordamos quanto a isso. Você sempre será fiel a eles e ponto!"
"A você também sou fiel!", ele rebate.
"Um dia quem sabe, acabo acreditando nessa mentira que tanto você faz questão de afirmar. Mas por hora, estou a caminho da minha casa, deixe todos avisados da minha chegada. Providencie tudo a respeito da situação que deixei para que você cuidasse"
"Essa sim, é uma excelente novidade! Quanto tempo irá ficar dessa vez?!?"
"Não interessa! Como sempre te lembro, você é pago para cuidar das coisas para mim, não da minha vida!"
"Como quiser! Mas alguma coisa?", me pergunta Albert, ignorando meu show de cavalice.
"Sim, sem alarde algum, como sempre! Quero seguir como um fantasma! Espero não ter surpresas, como dá ultima vez que por pouco, não descobriram quem eu era de verdade"
"Eu mesmo montei dessa vez sua equipe de segurança, tomei todo o cuidado para que tudo saia sempre da maneira que espera. Da última vez, a incompetência da equipe contratada, encarregada pela sua estadia, foi demais até mesmo para mim!"
"É o mínimo que espero!", rebato.
"Pode deixar!"
E assim finalizo a ligação.
Minha paciência está cada vez menor, preciso começar a tomar cuidado, ninguém tem culpa das coisas que me acontecem, não preciso ser tão rude assim com os outros, mesmo que esses outros, sejam o Albert!
Pronto, agora é procurar terminar as coisas por aqui. Porque na realidade, não sei o que fazer da minha vida de verdade!
Se quer saber, não, não foi fácil sair da casa do Lucas, depois da noite maravilhosa que vivemos.
Tudo foi mais que perfeito!
Mas neste momento não posso dar a Lucas o que ele quer.
Não agora!
Sei que estou completamente apaixonada por ele, mas tenho esse meu passado mal resolvido.
Que droga!
Quando me vi sozinha, sem ninguém, pensei comigo, agora é hora de cuidar de mim à minha maneira.
E quando tudo estava indo bem, sou surpreendida por uma convocação de comparecimento com dia e hora marcada, o documento dizia apenas que era para legitimação de bens.
Pensei naquele momento, o que meu avô aprontou, pois fazia pouco tempo que havia falecido. Sem muita escolha, pois presumi que era algo que tinha relação com meu avô e acabei indo até o endereço informado.
Me lembro como hoje, cheguei no local vinte minutos antes do horário marcado e claro, o prédio era imponente, me lembro de ter passado por ele algumas vezes e até com meu avô ao lado. E em uma dessas vezes comentei como achava a fachada do prédio deslumbrante, imponente, lindo! Lembro dele não dando muita atenção para meu comentário, até estranhei, porque era algo que gostávamos de ver juntos, as fachadas suntuosas e suas magníficas construções, imaginar como foram construídas, era um passatempo maravilhoso nosso.
Meu avô sabia muito sobre muitas construções da cidade, mas logo este prédio, ele fez questão de não dar muita atenção.
Achei estranho, mas deixei para lá.
Caminhei até a recepção luxuosa por sinal, não poderia ser menos para aquele prédio, me apresentei e fui orientada a que andar deveria ir e a quem me dirigir.
Quando o elevador anunciou meu andar ao descer, havia uma moça simpática me aguardando.
"Bom dia senhorita Stuart, sou Elizabeth James, por aqui por favor, Senhor Storn a espera"
A comprimentei e seguimos até onde esse senhor me aguardava.
Adentramos a uma sala muito bem mobiliada, magno para todos os lados que olhasse, havia uma mesa de escritório ao lado direito e no lado esquerdo havia um conjunto de sofás em couro e mais ao canto uma mesa de reunião.
Um senhor grisalho levantou-se da mesa em que estava e caminhou em nossa direção assim que adentramos a sala.
"Bom dia, senhorita Stuart!", e dizendo isso, estendeu a mão para me comprimentar.
"Sou Ronald Storm, advogado e testamenteiro, representante legal da sua família"
"Bom dia, senhor Storn! Só não entendi o que meu avô aprontou, mesmo porque, achei que haviamos cuidado de tudo logo que minha avó faleceu. Ele me persuadiu a ajudá-lo, mesmo contra minha vontade"
"Bem, sente-se aqui por favor", me indicou um lugar à mesa de reunião.
"Posso lhe servir algo, suco, água, café?"
"Agua seria excelente!", respondi.
"Elizabeth, providencie dois copos de água, por favor. E providencie também as pastas que mais cedo lhe pedi"
"As pastas senhor Storn já estão aqui, deixei sobre sua mesa, vou providenciar a água. Algo mais?", perguntou.
"Excelente!... Não, obrigado Elizabeth!"
E assim Elizabeth saiu nos deixando sozinhos.
Percebo que o senhor Storn me olhava, sem disfarçar que estava me avaliando ou algo parecido. Fico sem graça, quando fazem isso, mas o que posso fazer, mais essa para a coleção das graças que meu avô possivelmente me aprontou. Pois não faço a mínima ideia do que estou fazendo aqui, essa é a verdade.
"Senhorita Stuart, só estamos aguardando a chegada de mais uma pessoa, para que eu possa lhe explicar o motivo da senhorita estar aqui", e acabando de dizer isso Elizabeth bate a porta, adentrando a sala acompanhada de um homem alto, aparentando um pouco mais 40 anos, muito bem arrumado e bem afeiçoado.
Ele caminha até onde estamos e com um sorriso enorme no rosto, senhor Storn o comprimenta com um caloroso abraço, demonstrando o carinho de velhos e bons amigos.
"Ronald meu amigo, bom reencontrá-lo!"
O Senhor Storn retribui com a mesma alegria de velhos e queridos amigos.
"Digo o mesmo Albert, só assim para rever os amigos!"
"Ah, Ronald não fale isso, a menos de um mês te mostrei o que é jogar sinuca de verdade com aquela minha jogada inesperada"
"Pode parar Albert, aquilo ali não dá para ser chamado de jogar, meu amigo!"
E os dois caem na risada, parecem mesmo velhos e bons amigos, só não entendo o que eu estou fazendo na companhia dos dois, pois não me lembro de os conhecer.
E parecendo ler meus pensamentos, senhor Storn se antecipa a me apresentar ao seu amigo.
"Albert, deixe-me apresentar a senhorita Stela Stuart. Senhorita Stuart este aqui é Albert Noan"
Estendendo minha mão para cumprimentar o homem à minha frente, que demonstra alegria ao me ver, parece até surpreso!
Estranho, não me recordo de conhecê-lo e nem seu nome me é familiar.
O que meu avô deve ter feito, pois não tenho lembrança alguma, de ter ouvido falar de nenhum dos dois.
"Senhorita Stuart já poderemos começar, era Albert que estavamos esperando"
O Senhor Storn mostra o lugar ao qual o senhor Noan deve se sentar e logo pega as pastas que anteriormente Elizabeth entregou.
Percebo que o senhor Noan não tira seus olhos de mim e isso começa a me incomodar, mesmo porque, seu olhar não é nada agradável.
"Wilson e Carmem Grassi, seus avós maternos, começaram a trabalhar em nossa casa assim que se casaram. Anos depois Roger nascia para encanto da nossa família, um menino lindo, cheio de vida e trazendo um novo colorido ao nosso lar. Tivemos a sorte de ter a família da Carmen conosco, pois ela se tornou uma segunda mãe para Roger.
Ele cresceu e como todo jovem querendo ganhar o mundo. Nunca escondemos dele, que mais dia ou menos dia, teria que assumir seu lugar nos negócios da família, algo que sempre nos causou muitos conflitos e desentendimentos, por ele não querer tal obrigação. Mesmo ao nosso contragosto, ele seguiu vivendo sua vida da maneira que achava certo e por hora, resolvemos deixar as coisas seguirem sem brigas, ao menos por aquele momento. Acho que erramos ao permitir a Roger tanta liberdade e pouca responsabilidade, mas queriamos que nosso filho crescesse de uma forma mais independente, livre e cheia de escolhas, talvez esse deva ter sido o nosso maior erro, mas uma vez feito, não tínhamos como desfazer.
Certo dia recebemos uma ligação de um hospital procurando por Roger, mas ele não estava em casa havia muitos meses e não fazíamos ideia de onde ele de verdade estaria, ele não tinha uma parada certa, nos ligava muito esporadicamente, o que dificultava de verdade nosso acesso a ele. Uma hora estava em meio a savana na áfrica cuidando dos elefantes, outra hora estava em meio a guerra territorial, ajudando a cuidar dos doentes, outra hora estava apenas em Londres degustando um bom café, assim como também poderia estar em plena floresta amazônica tentando salvar alguma tribo indígena. Roger era uma pessoa bem aquém do seu tempo, se por um lado nos preocupávamos com ele, por outro, sua empatia pelo bem comum sempre nos comoveu.
A ligação do hospital nos dizia que a situação era emergencial, que era necessário falar com Roger e que dada a circunstância, alguém da família precisava comparecer ao hospital o mais rápido possível.
Eu e Abigail, nos apressamos, pois tínhamos a certeza de que aquela emergência, tinha a ver com alguma coisa que Roger deveria ter provocado, só não sabíamos o que.
Ao chegarmos, fomos informados que a esposa de Roger, tinha dado à luz a uma menininha. Ficamos surpresos, pois não tínhamos conhecimento de que ele tinha se casado e mais, como assim Roger pai!!!
A menina tinha nos dado uma neta?!?
Ficamos ali meio que sem saber o que pensar ou achar, e mais essa surpresa Roger estava nos proporcionando!!! No entanto, as coisas não estavam tão boas assim, sua mãe deu entrada no hospital com um quadro grave de pré-eclâmpsia. Abigail e eu nos olhamos pasmos com tantas notícias, claro uma maravilhosa, mas a outra, meu Deus, havia uma jovem lutando pela vida e que mal sabíamos quem era.
Permanecemos na sala de espera depois que nos apresentamos e explicamos a situação da ausência do nosso filho ali. Foi nos informado sobre o gasto da internação, mas nem deixei a moça terminar de falar e pedi que tudo o que eles pudessem fazer por aquela jovem, que o fizessem, pois estaríamos arcando com cada despesa.
O quadro foi se agravando, a equipe médica tentando ao máximo todos os recursos, medicamentos, mas para nossa tristeza Vanda veio a falecer algumas horas depois de dar a luz.
Não tínhamos noção do que fazer, imediatamente solicitei a Noan que procurasse por Roger e tentasse encontrar os pais de Vanda.
Enquanto isso, nos tornamos responsáveis por aquela pequena flor.
Uma bebezinha tão linda e encantadora estava ali, diante de nós!
Nunca irei me esquecer da nossa alegria, quando olhamos para você ali no berçário da maternidade.
Uma bebezinha linda, cheia de vida, tão perfeita e risonha!
A qual demos o nome de Stela, como sua mãe tinha falado às enfermeiras, enquanto estava em trabalho de parto.
Nossa linda Stela!!!
Noan não conseguiu achar seu pai e nem muito menos, algum parente vivo da Vanda. A situação não era das melhores e tínhamos que agir, mesmo não conhecendo aquela moça, ela havia nos tornado avós, indiferente da forma que tenha sido, a partir daquele momento, entrou para nossa família, ainda que não tenha sido da maneira mais convencional, não importava, iríamos ser família para Vanda Stuart. Sendo assim, tomamos todos os cuidados para que ela pudesse descansar em paz. Levamos você para nossa casa e Carmem passou a cuidar de você o tempo todo.
Não sabíamos como lidar com o desaparecimento do Roger e nem como iríamos lidar com essa novidade, que era a sua chegada em nossa vida. Abigail já vinha lutando contra algumas enfermidades e com o passar do tempo, seu quadro não melhorava, ela tentava ser forte por mim e por você, mas não era uma das tarefas mais fáceis, pois era notório, o quanto tudo o que estava a acontecer a ela, a estava esgotando.
Eu me desdobrava, entre o trabalho, os cuidados com sua avó e você, mas por Deus, não estava sendo nada fácil. E a saúde da sua avó se agravou e muito! A cada dia deixávamos você mais aos cuidados da Carmem e ela cheia de muito amor, não media esforços em cuidar de você. Nossa empresa estava em um período de crescimento, devido a abertura de crédito que tanto batalhei por fazer.
E tudo estava acontecendo ao mesmo tempo e eu a cada dia mais atarefado.
Numa tarde, conversando com sua avó bem fragilizada pela doença que a consumia, decidimos por colocá-la aos cuidados da família de Carmem, mesmo muito fraca, sua avó concordou que era o melhor a ser feito, pois nossa casa estava mais para uma ramificação do hospital, do que um lar adequado para uma menininha.
Achamos que não era ambiente para uma bebezinha estar e de certa forma, queriamos o que fosse melhor para você.
Colocamos para Wilson e Carmem, nossas preocupações em ter um ambiente mais saudável para você, sobre o quanto naquele momento, estava difícil para nós cuidar de tudo e assim, propusemos deles saírem da nossa casa e fossem morar em uma cidade mais pacata, onde poderiam cuidar melhor de você, com todo amparo financeiro que precisassem e com todo amor que sabíamos que sentiam por você.
Justo naquele momento, surgiu um boato na imprensa de que seu pai havia desaparecido e havia deixado uma herdeira órfã.
Roger sempre foi um alvo favorito da imprensa, que nunca mediu esforços, por querer desmoralizar sua forma peculiar de viver.
E estes que vivem de notícia alheia, não iriam deixar passar essa, de saber quem era a filha bastarda que herdaria o império Mars.
Começou a se montar um circo em volta das nossas vidas, em querer expor uma situação tão delicada e tão íntima, de maneira tão escrota.
Saíram bisbilhotando quem poderia ter sido a mãe da criança, chegando ao ponto de afirmarem, que devido ao histórico de vida do seu pai, que poderia ser qualquer mulher, até mesmo uma sem teto.
Eles eram abutres miseráveis, todo dia havia notícia sobre nossa família nos jornais, uma hora falava-se de Abigail e sua luta em viver, outrora, tentavam trazer à tona as especulações sobre sua real existência. Tivemos o cuidado em não expor você publicamente, queriamos que você crescesse da melhor forma possível.
Carmem vendo tudo o que estavamos a passar, não se negou em momento nenhum em aceitar nossa proposta, de imediato concordou, no entanto, Wilson foi meio relutante no começo, mas como até mesmo ele tinha se afeiçoado a você e vendo como estavamos em meio a um turbilhão de coisas, acabou cedendo e você passou a ser criada como neta deles, mesmo sem qualquer vínculo, que não fosse o amor!
Seremos eternamente gratos a eles!!!
Celebramos um acordo vitalício, para que eles tivessem todo o amparo financeiro que precisassem para você ser bem cuidada. Passamos temporariamente sua guarda para eles, para que não pudessem suspeitar quem de verdade você era. Porque se algum abutre da imprensa descobrisse, seríamos massacrados e acabariam com a paz que estavamos buscando para você.
E assim os anos foram passando e quando percebemos, você já não era mais aquele bebezinho indefeso, ao contrário, crescia uma linda menininha e sem ter contato algum com os holofotes, que tanto fazem parte do nossos dias.
Sendo assim, olhando exclusivamente para o seu bem, mesmo com nossos corações em pedaços, resolvemos com muita tristeza, que você seguiria sendo criada apenas por seu avós, Wilson e Carmem, e nos manteríamos distantes.
Procuramos durante todo o tempo encontrar seu pai, mas não obtivemos êxito em nenhuma das nossas buscas. Foram anos e mais anos tentando e nada!
Roger simplesmente parecia ter sido engolido pela terra, o que contribuia para que a saúde de Abigail ficasse ainda mais debilitada.
Não foi fácil deixá-la, mas há sacrifícios que devem ser feitos, quando o amor fala mais alto.
Não temos como controlar tudo e nem todos, assim os anos seguiram passando.
Sua avó Abigail por um momento teve uma grande melhora, o que nos possibilitou pensar em trazê-la para o nosso convívio também, no entanto, tempos depois num período muito curto veio a falecer.
Fiquei sozinho e se antes com Abigail as coisas já não eram tão fáceis, sem ela, se tornaram insuportáveis.
Passei meus últimos dias, mantendo as coisas em ordem, voltei a procurar por seu pai, mas se está ouvindo a leitura desta carta, possivelmente fracassei.
Saiba Stela, que tanto sua avó Abigail como eu seu avô Sam, sempre a amamos!
Talvez nossa escolha possa parecer um tanto egoísta, mas sendo a família que somos, tendo a visibilidade que temos, hoje sei que deixá-la longe, foi o melhor a ser feito!
Quando me vi sozinho orientei Albert, que já era meu secretário pessoal fazia anos, a continuar cuidando de tudo.
E você deve contar com ele sempre, pois o mesmo, continuará como seu tutor e administrador de seus bens até que a cláusula do testamento seja devidamente comprida"
Aí por meus neurônios!!!
Todos eles, cada um deles!!!
Que história mais louca é essa?!?
Samuel e Abigail Mars meus avós?!?
Carmem e Wilson me contaram outra história, cresci acreditando que meus pais haviam morrido em um acidente e agora essa!
Tudo bem, que na minha certidão estava escrito Vanda Stuart Mars e Roger Mars, mas nunca fiz associação de nada. Porque meus avós Wilson e Carmem me falaram sempre que eles eram pais adotivos de Vanda, que não era adotada legalmente, mas isso sempre foi um detalhe, me falaram que fui fruto de um momento de amor entre eles.
Não pode ser!
Não... Não é verdade e quando Ronald tenta continuar eu o interrompo:
"Espere, sei que devo aguardar até o final, mas por DEUSSS!!! Alguém pode me explicar o que está sendo lido aqui? Falam de mim como uma coisa, um objeto, uma situação e agora aparecem com uma nova história para mim. Meus pais morreram! Meus avós também! Sou Stela Stuart apenas! Desconheço quem são essas pessoas, nunca me falaram de nenhum deles"
Albert acena para aguardar, ele se vira para mim e diz:
"Entendo que deva ser difícil, são muitas novidades ao mesmo tempo, mas Stela, os Mars são sua família também! As situações outrora vividas, a levaram para longe da outra parte da sua história. Lamento que seus avós, Carmem e Wilson, a tenham mantido longe de tudo isso, entretanto, foi algo acordado entre seus avós afetivos e biológicos para o seu bem! No entanto, com a morte do seu avô Samuel Mars, houve a necessidade de mudanças"
"Como assim, outra parte da minha história?!? Carmem e Wilson Grassi, são e sempre serão a única família que reconheço como minha!"
Os dois se olham, ao ouvir o que acabo de dizer. Seja o que for que estão tentando me contar, seja qual for essa verdade, meus avós sempre me deram tudo, principalmente amor incondicional!
Agora aparecem esses estranhos, com uma carta na mão, achando que podem mudar minha vida assim!
Não podem!!!
Mas... Espera aí... Será que podem???
Albert percebe minha luta quanto a sua afirmação e tenta amenizar.
"Stela, não podemos e nem queremos que deixe de amar os Grassi, mas queremos que abra teu coração para que os Mars possam entrar também. Eles sempre a amaram!"
"Me amaram?!? Que amor foi esse que permitiu que meus avós ocultassem esse lado da minha vida. Você só pode estar brincando!"
"Posso te assegurar que essa atitude só foi tomada para lhe proteger"