Ponto de vista de Haven Kramer:
O silêncio na sala de estar era pesado, mas não me incomodava.
Sentada tranquilamente na beirada da poltrona de seda, com as mãos repousadas no meu colo, observando o espetáculo que se desenrolava ao meu redor.
Meu pai, o Alfa Gordon Kramer, estava ao lado da lareira de costas para mim, olhando para o fogo apagado.
Sua postura rígida demonstrava uma autoridade sombria, mas para meus olhos treinados, os músculos dos seus ombros estavam enrijecidos, revelando uma tensão pura e ansiosa.
Ele estava nervoso, e achei isso engraçado.
Passos pesados no chão de mármore anunciaram a chegada do enviado do Rei. Um lobo de aparência severa e com as têmporas grisalhas entrou na sala, com o rosto sendo uma máscara de neutralidade absoluta.
O clima no lugar estava tenso, mas meu coração permanecia em sessenta batimentos por minuto.
Finalmente, meu pai se virou, com uma expressão de alegria cuidadosamente construída no rosto. "Seja bem-vindo", disse ele em um murmúrio baixo.
Ele nem sequer olhou para mim, uma clássica tática de evasão. Ele achava que estava partindo meu coração com isso, mas, na verdade, só estava confirmando sua covardia.
O enviado deu um aceno de cabeça brusco, deixando as formalidades de lado. Em seguida, tirou um pergaminho amarrado com uma fita azul-royal do bolso interno e o desenrolou fazendo um leve farfalhar.
"Por decreto do Rei Alfa", começou o enviado, com sua voz monótona ecoando pela vasta sala. "No que diz respeito à união entre as casas de Contreras e Kramer. É notório que o Alfa Darren Contreras é um herdeiro exemplar, amado e forte. Também é notório que seu irmão, o Alfa Demetri Contreras, foi gravemente ferido por prata na Guerra do Oeste, e sua conexão com seu lobo foi rompida, o deixando como uma casca quebrada."
Enquanto ele falava, as descrições formais dos dois irmãos ecoavam no ar. Um era um garoto de ouro, o outro um excluído aleijado.
"O conselho confirmou que Haven Kramer não tem lobo", continuou o enviado, me lançando um breve olhar de pena. "Uma companheira sem lobo é uma combinação inaceitável para um futuro líder. Portanto, o noivado entre o Alfa Darren Contreras e Haven Kramer está declarado nulo e sem efeito."
Ao lado da lareira, meu pai permanecia com uma expressão plácida e olhos distantes. Naquele momento, ele parecia um comerciante assistindo ao fechamento de um negócio, pois para ele, eu não passava de uma mercadoria danificada sendo vendida com um desconto considerável para preservar uma aliança.
"No lugar dela", o enviado prosseguiu com a leitura, "sua irmã, Charly Kramer, uma verdadeira loba de boa reputação, se unirá ao Alfa Darren Contreras. E para honrar a aliança original, Haven Kramer será entregue ao Alfa aleijado, Demetri Contreras."
"Os casamentos serão realizados simultaneamente em três dias", concluiu o enviado antes de enrolar cuidadosamente o pergaminho e entregá-lo ao meu pai. Com uma reverência brusca, ele se virou e saiu.
Quando ele saiu, o silêncio voltou a reinar na sala.
Então, meu pai olhou para mim, provavelmente se preparando para o histerismo, lágrimas ou súplicas que a antiga Haven teria demonstrado.
Mas, em vez disso, me levantei calmamente, alisando as saias do meu vestido.
"Três dias", disse, com minha voz cortando o silêncio da sala, sem qualquer tremor. "Estarei pronta."
Antes que meu pai pudesse se recuperar do seu choque visível, me virei e fui para o meu quarto.
Eu estava sentada na minha penteadeira, observando a noite tranquila lá fora, quando minha porta se abriu sem uma batida.
O cheiro enjoativo de perfume de ervilha-de-cheiro, carregado com um triunfo injustificado, anunciou a chegada da minha meia-irmã, Charly.
"Oh, minha pobre irmã", ela murmurou, com a voz cheia de uma simpatia fingida enquanto entrava no quarto, usando um vestido de renda branca sofisticado.
Ela veio para trás de mim, e seus dedos acariciaram meu cabelo como se estivesse confortando um animal de estimação. "Fiquei tão triste ao saber da notícia."
Permaneci imóvel, observando seu reflexo no espelho. Como a ignorei, sua fachada logo se desfez, o canto da sua boca se contorcendo num sorriso presunçoso.
Então, ela zombou: "Mas você sabe que, por não ter um lobo, nunca foi digna de Darren. Isso é para o bem da família."
Se inclinando para mais perto, ela soltou um hálito quente contra meu ouvido enquanto baixava a voz para um sussurro venenoso: "Além disso, Darren sempre foi meu. Você só estava o entretendo."
Ao ouvi-la, estreitei os olhos, os deixando completamente opacos e frios como gelo.
Charly se encolheu, com o sorriso triunfante congelando no seu rosto. Ela deu um passo para trás, nervosa com a ausência de lágrimas.
Lenta e deliberadamente, me levantei da cadeira. Peguei um pente pesado com cabo de prata na penteadeira e comecei a passá-lo pelo meu cabelo com movimentos rítmicos e elegantes.
"Casar com um homem aleijado é melhor do que casar com um lixo", disse num tom suave e calmo.
No instante seguinte, o rosto de Charly perdeu a cor. "Você..."
"Nosso casamento é em três dias, não é?", perguntei, me virando para encará-la, enquanto meu olhar distante e gélido a encarava. "Vá planejar sua cerimônia, Charly. Aceito o acordo sem objeções."
Charly permaneceu ali, completamente perplexa. Eu sabia que ela tinha vindo preparada para lágrimas, histeria e uma Haven desesperada,
mas me recusei a lhe dar esse prazer.
Ponto de vista de Haven Kramer
O choque de Charly logo se transformou em raiva, porque minha compostura era um insulto maior do que qualquer discussão poderia ser, fazendo seu rosto ficar vermelho de fúria.
"Não faça parecer que você tem outras opções", ela cuspiu num tom agudo e frágil. "Você não passa de uma imunda sem lobo. Casar com alguém da família Contreras já é um presente da Deusa da Lua que você não merece!"
A ignorei completamente e me virei para ir até o guarda-roupa, começando a procurar entre os vestidos com movimentos calmos, como se eu estivesse apenas escolhendo uma roupa para um jantar qualquer.
No entanto, essa indiferença total foi demais para ela suportar, então ela avançou e agarrou meu braço, cravando suas unhas na minha pele.
"Estou falando com você! Por acaso é surda?" Seu rosto estava a centímetros do meu, sua expressão distorcida pela alegria sádica. "Sabe por que o pai aceitou tão facilmente? A família Contreras pagou uma fortuna! Seu 'enxoval de funeral' garantiu a prosperidade da nossa família na próxima década!"
Suas palavras tinham o objetivo de me destruir, me lembrando da minha inutilidade.
Se inclinando ainda mais, ela sussurrou num tom conspiratório: "E o pai já sabe que Demetri está morrendo. O veneno de prata está nos seus ossos. Os curandeiros disseram que ele não vai durar um mês. Você será viúva em breve e passará a vida cuidando de um cadáver e de um título vazio."
Mesmo ouvindo tudo isso, não lhe dei o prazer de me ver desmoronar, apenas a ignorei completamente.
Frustrada com meu silêncio absoluto, o rosto de Charly se contorceu numa expressão de pura malícia antes de me empurrar com força, gritando na minha cara: "Por que não está chorando? Acha que ainda é uma filha preciosa? Sua falecida mãe não passava de uma cadela de baixa classe, e você não é melhor do que ela!"
Foi aí que cheguei ao meu limite. Parei de procurar entre os vestidos e, lentamente, centímetro por centímetro, virei a cabeça. O gelo nos meus olhos havia desaparecido, dando lugar a um fogo ardente, tão intenso e furioso que parecia capaz de derreter aço.
Ao se deparar com o olhar assassino repentino no meu rosto, Charly retirou sua mão do meu braço como se tivesse se queimado.
Antes que ela pudesse processar o que estava acontecendo, me movi com uma velocidade impressionante. Minha mão se fechou como uma pinça de ferro em volta do seu pescoço. Com uma força avassaladora, a joguei contra a madeira maciça do guarda-roupa, cujo impacto fez o pesado móvel tremer.
A cabeça de Charly bateu na superfície, e um suspiro estrangulado escapou dos seus lábios quando o ar foi forçado para fora dos seus pulmões. Seus olhos, arregalados de terror, me encaravam. O rosto que ela conhecia há vinte anos agora era uma máscara de um estranho, um arauto do inferno. Esta não era a irmã fraca e submissa que ela adorava intimidar.
Meus dedos estavam brancos como osso devido à força do meu aperto, mas minha expressão era estranhamente calma. O contraste era monstruoso.
"Peça desculpas", disse num sussurro rouco e frio, como uma lâmina raspando numa pedra. "Peça desculpas à minha mãe."
O rosto de Charly estava ficando num tom roxo horripilante. Ela arranhava freneticamente meu pulso, sua garganta emitindo sons de engasgo e sufocamento, sem conseguir dizer uma única palavra.
"Insulte minha mãe novamente", sussurrei, aumentando a força do meu aperto o suficiente para interromper seus gemidos patéticos. "E farei você pedir desculpas a ela pessoalmente no inferno."
Ao ouvir minhas palavras, sua luta se enfraqueceu, e lágrimas de puro terror escorreram pelo seu rosto. Ela começou a bater fracamente no guarda-roupa com a mão livre, num apelo desesperado e silencioso por ajuda.
Ao vê-la nesse estado patético e choroso, a fúria dentro de mim se acalmou. Matá-la aqui seria muito rápido, e isso seria uma misericórdia que ela não merecia.
Com isso em mente, a soltei.
Charly deslizou pelo guarda-roupa como uma boneca descartada, caindo no chão. Ela segurava a garganta, tossindo e engasgando enquanto tentava respirar desesperadamente. O catarro e as lágrimas manchavam sua maquiagem impecável.
Quando ela ergueu os olhos para mim, vi um novo tipo de medo neles, um medo primitivo.
Fiquei de pé sobre ela com uma expressão de total desgosto no rosto, e ordenei: "Se mande."
Ela se levantou desajeitadamente, parecendo um emaranhado patético de membros. Sem sequer ousar olhar para mim novamente, ela cambaleou até a porta, tentando abrir a maçaneta.
Pouco antes de abri-la, ela lançou um último olhar de ódio por cima do ombro. "Você vai se arrepender disso!", ela gritou, mas sua ameaça não passava de um eco vazio.
Ao ver o sorriso frio que surgiu nos meus lábios, um arrepio visível percorreu a espinha dela. Em seguida, ela abriu a porta e fugiu, seus passos ecoando pelo corredor.
A porta se fechou, me deixando em silêncio mais uma vez.
Me recostei na parede, sentindo meu corpo tremer ligeiramente com a adrenalina. Erguendo a mão, olhei para meus dedos, que agora estavam imóveis.
Esta noite, eles haviam conhecido a violência pela primeira vez. E isso era só o começo.
Ponto de vista de Haven Kramer:
Enquanto o silêncio que se seguiu à fuga de Charly era absoluto, minha expressão permanecia neutra e meu coração batia como um tambor frio e constante.
Abri minha mão, com a palma para cima. A sensação da garganta dela sob meus dedos permanecia, que trazia uma estranha sensação de poder.
Eu conhecia Charly. Ela já devia estar correndo para o nosso pai, inventando uma história de vitimização.
As consequências estavam por vir, mas eu não me importava mais. Se eles quisessem me empurrar para o abismo, sairia do inferno e os arrastaria comigo.
Desviando meu olhar, meu olhar recaiu sobre uma pequena caixa de madeira trancada na minha mesa de cabeceira, que era a única coisa que eu tinha da minha mãe, Elara Beaumont.
Depois que nasci, minha mãe morreu no que foi chamado de "acidente de caça", que na verdade foi uma conveniente queda de um penhasco. Eu acreditava que foi um assassinato.
Com passos firmes, caminhei até a caixa, tirando uma pequena chave enferrujada de uma corrente no meu pescoço e a inserindo na fechadura, que se abriu com um clique que ecoou no quarto silencioso.
Dentro, não havia joias ou ouro, apenas alguns diários antigos encadernados em couro e um único envelope de pergaminho grosso.
Peguei o envelope, desdobrando o papel amarelado pelo tempo. Tratava-se de uma carta escrita com a caligrafia elegante e fluida da minha mãe, cujas palavras de amor eram marcadas por uma dor profunda e angustiante.
Ela contava uma história: como havia usado os recursos da sua família e sua própria força para ajudar meu pai a desafiar e conquistar o título de Alfa.
No entanto, quando ele conseguiu o poder, começou a se envergonhar dela e acabou tendo um caso com Concetta, a mãe de Charly.
As últimas linhas diziam: "Minha querida Haven, se você está lendo isso, é porque já não estou mais aqui. Não confie em Gordon, nem em nenhum deles. Sobreviva. A qualquer custo, você precisa sobreviver."
Ao ler essas palavras, uma única lágrima quente escapou e caiu sobre a página, borrando a tinta. Meu coração se partia pela minha mãe, mas eu não teria o mesmo destino que ela, pois eu não era indefesa.
Eu tinha lembranças de uma vida em outro mundo, onde eu havia adquirido poder não por linhagem, mas por habilidade, e essa era minha arma secreta.
Sim, duas vidas.
Sete dias atrás, quase perdi minha vida por uma traição. Eu estava profundamente e inocentemente apaixonada pelo meu noivo, o Alfa Darren Contreras, mas Gordon Kramer, influenciado pelo esquema malicioso de Concetta, me forçou a entregar meu amado e todo o meu futuro para minha irmã, Charly.
Para mim, Darren era meu mundo. Incapaz de suportar a dor sufocante, a humilhação e ver minha irmã roubar o homem que eu amava, decidi tirar minha própria vida.
Talvez a Deusa da Lua tenha tido pena de mim, já que não morri. Nos sete dias em que fiquei em coma, minha alma viajou para um mundo interestelar altamente avançado chamado Astraea.
Embora eu tivesse nascido órfã lá e vivesse num abrigo lotado, essa sociedade tecnologicamente superior me permitiu formar na melhor Academia Médica Imperial graças aos meus esforços e à ajuda de um benfeitor gentil.
Depois de retribuir minha dívida de gratidão a esse benfeitor, mergulhei no trabalho de salvar vidas, dominando as complexas estruturas biológicas de várias espécies humanoides e de lobisomens.
Minhas habilidades cirúrgicas haviam atingido um nível que exigia uma reverência absoluta.
Nos últimos anos da minha vida longa e gratificante lá, os pacientes que eu havia curado me deram um título lendário: "A Curandeira Milagrosa".
Quando fechei os olhos pela última vez em Astraea, pensei que minha jornada havia terminado. No entanto, acordei de volta no mundo dos lobisomens, neste corpo, exatamente sete dias depois.
Minha paixão passada por Darren não significava nada para mim agora, mas meu ressentimento profundo e o destino trágico da minha mãe continuavam vivos.
Já que o destino me concedeu uma segunda chance, eu a usaria para cobrar cada dívida pendente.
Tudo o que eles deviam a mim e à minha mãe, eu recuperaria pouco a pouco. E aqueles que me enganaram e humilharam iriam enfrentar a retribuição.
Embora eu fosse uma curandeira e tivesse um coração misericordioso, essa misericórdia nunca seria concedida aos meus inimigos.
Após dobrar cuidadosamente a carta, a coloquei de volta com os diários e tranquei a caixa. Ela iria comigo aonde quer que eu fosse, pois era minha base e minha missão.
Após limpar meus olhos, olhei para cima e vi meu reflexo no espelho da penteadeira. Era o de uma estranha.
Rosto pálido, olhos verdes e cabelos castanhos. Mas, por trás dos olhos, a alma de uma cirurgiã que havia enfrentado a morte mil vezes agora estava totalmente sob controle.
Os rostos surgiram na minha mente, uma galeria de traidores sorridentes. O último rosto era de alguém que eu nunca tinha visto, apenas imaginado: o rosto pálido e arruinado de Demetri Contreras, o Alfa moribundo.
A decisão de me casar com o Alfa aleijado foi um ato de sobrevivência imposto a mim pelo conselho, mas também foi o primeiro passo calculado do meu grande plano.
Ele era o inferno para onde eles estavam me enviando, mas seu corpo debilitado era um paciente que somente uma cirurgiã especialista poderia reconstruir.
Um Alfa poderoso e em dívida comigo, trazido de volta da beira da morte pela minha mão, seria a lâmina mais afiada que eu poderia usar contra a família Kramer.
Um sorriso frio tocou meus lábios, já que eu não confiava em ninguém, muito menos em homens poderosos. Isso era uma negociação: minhas habilidades pelo poder dele, uma plataforma para minha vingança.
Nesse momento, uma batida suave e respeitosa ecoou na porta, e a voz de uma empregada perguntou timidamente: "Senhorita, o Alfa está te chamando no escritório."
As lágrimas de Charly haviam surtido efeito, e Gordon estava prestes a dar seu veredito.
Embora eu tivesse me forçado a permanecer indiferente, um nó de nervosismo se formou no meu estômago quando me levantei. No entanto, logo alisei meu vestido, e minha expressão se transformou na máscara de uma garota mansa e frágil. A vingadora desapareceu, escondida no fundo de mim.
"Claro", respondi com uma voz suave e flexível. "Já estou indo."